18 agosto 2011

a gralha adormecida

Atenção: este post não promete ser longo por aí além mas compensa em intensidade dramática, que ainda ninguém se chegou à frente com o tal ombro amigo.

Quem me conhece há pouco tempo costuma reparar que eu pareço ser uma pessoa pouca dada a devaneios românticos. Pois bem, fiquem sabendo que, dentro de mim, também já existiu uma pequena princesa que acreditou em contos de fadas. Só que essa princesa apanhou sucessivas desilusões com muitos príncipes (nem tanto com bruxas, que não se costumam meter comigo).
A primeira vez que me apaixonei, na terceira classe, descobri que essa era a melhor sensação do mundo. O RJAA (ainda me lembro do nome completo da criatura) não era muito diferente dos restantes meninos de 8 anos, à excepção dos dentes de coelho com que sorria adoravelmente. Ainda assim, a minha almofada passou a encarnar o tal rapazinho, fronhas e fronhas lambuzadas de beijos imaginários e abraços apertados. Tanto sonhei que ele me mandasse bilhetinhos escritos com caligrafia torta, e ele nem uma canelada, nem um empurrão no recreio. Na festa de fim de ano, todos os meninos quiseram dançar comigo, todos menos ele. E o meu romantismo levou a primeira estocada.
Corria já o saudoso ano de Mil Nove e Oitenta e Nove e eu era uma menina de 10 anos, franzina e de cabelo curto, com uns óculos modelo miniatura-da-avó e o coração cheio de flores e passarinhos a cantar. A nova paixão era partilhada por todas as meninas da turma e sei lá quantas mais. Quis adiantar-me a qualquer outra lambisgóia que conseguisse conquistá-lo. Decidida e inconsciente, informei as minhas amigas, durante a aula de Trabalhos Manuais, que ia declarar-me. Como sou pessoa sensata e pouco exibicionista, escolhi apenas o portão da escola à hora da saída para tão audacioso acto. Infelizmente, a coragem abandonou-me na hora H e só consegui chamá-lo e ficar em silêncio, enquanto tudo à minha volta ficava negro e eu caía, desmaiada, no chão de terra e folhas secas. Rezo aos santinhos para que ele se tenha esquecido do episódio. Mal por mal, já basta ter guardado a carta que acabei por lhe enviar no fim do ano lectivo. Agora que é figura mediática com inclinações humorísticas, resta-me esperar que não se lembre de desenterrar publicamente essa minha pérola epistolar, senão acho que nunca mais ponho os pés em Portugal.
Depois destes, outros episódios infelizes se foram sucedendo. Declarações, já sem desmaios, mas sem sucesso. Cartas sem resposta. Actores de cinema que nunca se lembraram de passar pela minha rua para me salvarem de uma existência púbere sem cor. Demorou bastante até estas pequenas vergonhas irem endurecendo o meu coração, qual artereosclerose emocional. A minha adolescência insistiu nos amores platónicos e, já jovem adulta, ainda me dediquei a causas impossíveis e paixões desgraçadas à partida. Finalmente apareceu um príncipe improvável que se foi revelando muito melhor do que eu podia sonhar. Não é o príncipe das surpresas, dos presentes sem motivo, dos gestos arrebatados, mas ganhou o meu coração. É o príncipe que me trata bem e que gosta mesmo de mim como sou.
Contos de fadas? Lamento, mas é verdade que já não acredito neles. Não acredito que haja só um grande amor na vida. Não acredito em almas gémeas. E, ainda assim, é esse imaginário que faço questão de transmitir aos meus filhos. Eles que cresçam e acreditem no que quiserem. Não há nada pior do que um adulto que ceifa as possibilidades ilimitadas de uma criança.

16 agosto 2011

schh... sossega, formigueiro consumista

Volta e meia sou acometida de palpitações. Este fenómeno acontece-me não mais de duas ou três vezes por ano, mas bate com força. Sonho com roupa e sapatos lindos, que me caem bem, que me fazem alta, esguia, voluptuosa, linda. E acordo para a realidade em que não posso comprar mais nada, não só porque não vejo ordenado há quase dois meses, mas porque o contentor é para encher de brinquedos e livros, e não de tecido desnecessário. Respiro fundo, afasto-me dos sites das minhas lojas preferidas, não abro os blogues das fashionistas de serviço, e vou fazer bolos, que me faz melhor.
E depois penso que este ano, em particular, não é difícil resistir às últimas tendências da moda. Se me fica mal, não uso. Se nunca gostei, não vou passar a gostar. Se nunca tive um par de calças à pesca do berbigão, superei a loucura do roxo integral, passei ao lado das psicadélicas unhas azuis, ignorei tanto os botins como as botas por cima do joelho, menina, não vão ser os padrões tigresse nem as lantejoulas douradas que me vão fazer vacilar. Afinal, parece que vai haver espaço para levarmos a bicicleta na bagagem.

15 agosto 2011

dois anos de vida na américa: o balanço

Aviso: Post longo, sem barreiras, sem peneiras, que provocará o ocasional sorriso, a pontual lágrima, possivelmente uma ou outra interrupção para ir fazer chichi, a vontade de me insultar, de me dar um ombro amigo, de fazer denúncias à Segurança Social, de nunca mais ler este blogue, ou mesmo de me oferecer um daqueles selinhos queridos.

No dia 3 de Setembro de 2009, aterrei no aeroporto de Newark com um filho de 2 anos e meio pela mão e uma barriga de 4 meses e meio de gravidez. Esperava-nos um marido e pai, físico pós-doc na Universidade de Princeton, uma casa com meia dúzia de móveis, e muitos dias, meses, horas intermináveis pela frente. Desde que escolhi este homem que soube que esta seria uma fase das nossas vidas e a experiência de expatriados uma etapa necessária na carreira dele, um período determinante na construção da nossa família. Também sabia, desde que vivi durante um semestre na Alemanha, que isso me ia custar, por todas as razões de já tanto falei. E custou. Muito.
A adaptação faz-se, não custa assim tanto. Custa é acordar, adormecer, acordar, dias a fio naquilo que se sente como uma prisão domiciliária. Vivemos numa terra pequena, de passagem, habitada por estudantes e cientistas de pouso temporário. Não foi fácil estabelecer laços e houve semanas inteiras em que o meu marido era o único adulto com que contactava. Uma vida de domesticidade pode ser confortável, pode ser muito bom fazer bolos com os filhos enquanto neva lá fora; mas isso, todos os dias, a mim não chega. Principalmente quando lidamos com uma depressão pós-parto e não há tábuas de salvação como a família alargada e os amigos de verdade. Demasiadas vezes, fui muito má mãe. Também devo ter sido má mulher. E fui má pessoa no sentido que deixei de me respeitar a mim própria.
Felizmente, essa sensação de isolamento dissipou-se no segundo ano. Comecei a trabalhar, os meninos foram para a escola e, apesar de materialmente as coisas não se terem alterado, essa quebra na rotina permitiu que apreciasse muito mais as coisas boas de aqui estar. Voltei a sentir-me reconhecida pelas minhas capacidades além-maternidade, conheci até algumas pessoas interessantes, fiz as pazes com os nativos. Foi um ano muito cansativo a nível físico, sobretudo na fase em que tive um marido de perna engessada e vários centímetros de neve com que lutar todas as madrugadas. Mas foi também o ano em que a poeira assentou, as nuvens negras dissiparam-se e consegui definir o que queria mesmo que fosse a minha vida. E queria que fosse não muito diferente disto, mas do outro lado do mar. Queria voltar a casa. Assumi essa vontade e assim voltamos.
Estes dois anos, para o bem e para o mal, não são um interregno, são uma mudança sem retorno. Fiz o luto da minha vida anterior e preparo-me para nascer de novo. Já não me lembro da última vez que peguei no carro sozinha, para espairecer, e conduzi sem destino enquanto berrava impropérios até à rouquidão, lágrimas rolando aos pares pela cara. Aos poucos, o desprezo pela cultura local dissipou-se, passou a paternalismo e espero que tenha chegado à assimilação das coisas boas. Quanto mais não seja, os meus quadris já têm assimilado bastante tarte de natas, chocolate e manteiga de amendoim.
Se valeu a pena? Claro que valeu a pena. Levo daqui uma enorme experiência de vida, um maior auto-conhecimento, um filho americano. Mas isto foi sobreviver, não foi realmente viver. Acho que tenho o direito a viver, mesmo com todas as dificuldades esperadas e inesperadas que temos pela frente.

12 agosto 2011

daqui a um mês

Levantamos vôo de regresso a casa.
Agora é a altura em que cada gesto é uma despedida, cada embalagem de qualquer coisa é a última. Sou muito nostálgica, levo a vida a despedir-me. Amanhã é de Nova Iorque.

11 agosto 2011

pedras no caminho?

Guardo-as todas para as atirar ao pessoal que adora estes aforismos. Eu nunca desgostei de coisas fáceis e não consigo mesmo ver o gozo das corridas de obstáculos quando se pode percorrer a mesma distância muito mais depressa sem pôr em risco o bem-estar do entrepernas.

08 agosto 2011

decisões, decisões, decisões...

Tenho algum pudor em falar aqui das coisas realmente fundamentais que se passam na minha vida. E a verdade é que estamos a passar um período de muitas escolhas difíceis, que incluem riscos, saltos no vazio e o (re)pesar dos nossos valores fundamentais. Mais vale isto do que não ter escolhas, bem sei, mas não é fácil. É nestas alturas que dava mesmo muito jeito ser uma pessoa completamente egoísta e destituída de moral, mas gosto de acreditar que não sou assim. Será que é vaidade? Será que é ingenuidade? Não sei. Por isso perdoem o meu silêncio nos próximos tempos. E agora é a altura certa para me mandarem aqueles e-mails de corrente com todos os clichés, mensagens de paz, anjinhos e assim, certo? Brincadeirinha! Pelo contrário, todas as orações e pensamentos positivos são muito bem-vindos. 

04 agosto 2011

sem saber bem como, conquistaram-me

São materialistas, individualistas, puritanos, consumistas, ingénuos, auto-suficientes, dotados de um humor pateta, obcecados com o sucesso, destituídos de ironia, uns miúdos, uns cavalos selvagens, a humanidade numa lata de sopa que se vende como se fosse vichyssoise. São o povo que me acolheu, cheiinho de defeitos - como todos os outros - mas, também, com imensas e enormes qualidades. E uma pessoa apercebe-se que já gosta mesmo deles quando custa, de fora, ouvir dizer mal. Não gostamos que chamem nomes à nossa mãe, mesmo que ela nos chegue a roupa ao pelo. Acho que nunca mais vou ouvir o tão europeu desdém "ah, sim, os americanos..." (idealmente seguido de um bafo no cigarro) sem que isso me corte um bocadinho o coração.
Gente, para que conste, os americanos são trabalhadores como o caraças. São ingénuos, sim, mas também são dos poucos que ainda acreditam que podem fazer alguma diferença positiva ao longo da sua vida. Muitos deles têm valores de verdade, pelos quais regem a sua vida, e que não descartam quando não dão jeito. São leais, genuínos e tolerantes. São boa onda, andam de bem com a vida e não resmungam por tudo e por nada. Se isso é ser parvo? Não é mais parvo passar a vida a rezingar com tudo? E, como em todo o lado, há muita gente criativa, culta, inteligente, original, generosa, boa. Não volto daqui a conduzir um GMC (para minha tristeza) e com os cabelos platinados ao vento, mas espero voltar um bocadinho americana.

03 agosto 2011

é de pequenino que se enche o baldinho

Comentei certa vez, no blogue da Mãe Capotada, que gosto de pensar que os nossos filhos são como pequenos baldinhos cujo ego devemos ir enchendo desde cedo, visto que terão toda uma vida para se irem esvaziando. Então é assim que se faz, enquanto se muda a fralda:
gralha: O Diogo é lindo?
Diogo: É.
g: O Diogo é querido?
D: É.
g: O Diogo é o meu bebé bom?
D: É.

E como o nosso próprio baldinho passa a vida a levar pontapés e a ser miseravelmente virado ao contrário:
gralha: A Mamã é linda?
Diogo: É.
g: A Mamã é querida?
D: É.
g: A Mamã é absolutamente espectacular?
D: É.
g: Já está :)
D: Tátááá :)

Animeio de bebé lindo, querido, e bom. Que riqueza!

02 agosto 2011

take us to lisboa (semi-plagiozito, mas sem maldade)

A gralha tem um sonho. Esse sonho chama-se voltar para casa. Não tem nenhum gato mas tem uma Bimby, entre outros quarenta pés cúbicos de tralha, que tem de ir de contentor para Gaio, Alcobaça. E, parecendo que não, ainda é maçador uma pessoa ter de deslocar-se até Gaio, Alcobaça. Além disso, a gralha espera fervorosamente que o veterinário, perdão, urologista dê luz verde para o filho pequeno ir para Lisboa, porque este não dá mesmo para deixar para trás. Parece impossível como consegues gozar com uma coisa destas, que é mesmo verdade, gralha. És terrível.
A gralha não está a pedir-vos dinheiro nem que ponham uma fitinha no canto do blogue, está apenas a pedir que lhe comprem o recheio da casa. No Natal, também faço um recheio de peru bastante razoável, pode ser que dê para comercializar. Em breve, estará disponível a ligação para o material à venda.

01 agosto 2011

o que todos procuramos

Demorei imenso a escrever este post porque não conseguia arranjar-lhe um título apropriado. Não arranjei. E normalmente escrevo isto muito à pressa. Mas os termos 'intimidade', 'comunhão', 'proximidade' não conseguem abarcar o sentido que quero transmitir. Nem sei bem por que é que me lembrei de falar sobre estas coisas, foi mais uma revelação enquanto corria e estava a precisar de organizar as ideias.
De repente, percebo que aquilo que nós, humanos, procuramos de mais fundamental não se altera ao longo da vida. Não estou a falar de questões materiais, estou a falar do resto, do que nos faz uma espécie gregária. Antes achava que, em crianças, queremos amor paternal; na juventude, amor carnal; na velhice, a segurança de estar ao lado de alguém que nos ajude a caminhar quando os passos já são incertos. Não, não e não. A ânsia é a mesma, os nomes que lhe damos é que se vão alterando conforme nos vamos conhecendo melhor. Todos nascemos já cheios de uma solidão imensa, uma sede desértica de sermos realmente aceites e apreciados pelo que somos. Há quem tenha a sorte de saciar essa urgência no abraço da mãe. Há quem passe a vida toda à procura. Todos vamos procurando o rosto de quem nos ama de verdade mas, acima de tudo, de quem está disposto a receber o nosso amor - porque estamos cheios de amor para dar.
Sei que não descobri a pólvora. Mas há tantas coisas que só compreendemos realmente quando as vivemos na primeira pessoa! Nesta fase da vida, casada, com filhos, lido com esta ânsia de uma forma diferente. Já não procuro um homem com estas ou aquelas características. Já não acredito nUM amor maior do que todos, que nos completa. E já nem acho que essa forma de proximidade tenha de ser restrita à família, ou ao ideal de amor romântico. Acho que é por isso que, nunca como agora, aprecio as minhas amigas mulheres. As que passam pelo mesmo que eu e me entendem de olhos fechados; e as que vivem em circunstâncias diferentes mas me querem tão bem que param - param... - o tempo suficiente para se porem na minha posição e compreenderem o que sinto, o verdadeiro sentido das minhas palavras e do que está por trás delas. E gosto desta nova forma de intimidade e, porque não?, de amor. Espero para ver, daqui a uns anos, onde vou encontrar o que procuro.

E esta é, também, uma diferença brutal entre crentes e não crentes. Alguém que acredita em Deus sabe que nunca, nunca está realmente sozinho. E olha a reviravoltazinha religiosa que isto levou...

28 julho 2011

um mau humor que é uma coisa inexplicável

Às vezes, ser boa mãe (boa, não, mas satisfaz pouco), é ir um bocadinho para o quarto e fechar a porta.

27 julho 2011

a preguiça, a falta do que fazer e a procrastinação

Já toda a gente se apercebeu de que quanto menos temos para fazer, menos fazemos, certo? Eu percebi isso no último ano de faculdade, em que só comecei a fazer a tese de licenciatura quando comecei a trabalhar a tempo inteiro.
O que é que uma pessoa faz quando tem muito tempo livre? Arrasta-se. Engonha. Feicebuca de cinco em cinco minutos. Adia a preparação de uma mudança familiar de continente para os últimos minutos.
E depois percebe que há muito quem ache que acordar às 9h30 é cedo, quando já não se lembra da última vez em que acordou depois das 7h30. E que há outras mães a tempo inteiro que afirmam que não têm tempo para levar os miúdos ao parque. O que é que fazem ao longo do dia, deixam-se hipnotizar pelo canal de televisão da Oprah?
A sério, nesta altura da vida, eu durmo oito horas por dia, cuido de dois filhos, brinco com eles, não vejo televisão, leio muito, cozinho todos os dias e não tenho empregada doméstica. E tenho imenso tempo livre. Imenso.

25 julho 2011

norte e sul

(olhando para os nossos vizinhos dinamarqueses, de quem gosto muito)
Nós somos tão barulhentos. Um chinfrim que não tem discrição. Rimo-nos muito. Rimo-nos de coisas parvas, só porque sim. E abraçamo-nos, tocamo-nos, empurramo-nos, mimamo-nos. Tecemos os laços desta família com braços, pernas e tudo. Ostentamos os nossos gestos de carinho, o nosso amor não cabe apenas em palavras contidas. Até o mais pequeno já se habituou a trepar pelo maior e dar-lhe beijos lambuzados sem razão aparente. Gosto desta nossa essência do Sul, por muito que admire a civilidade do Norte.

23 julho 2011

barrela

Nunca retirei prazer das pequenas tarefas domésticas. Invejo um bocadinho quem sente profunda satisfação ao contemplar a transparência das vidraças que acabou de lavar, a lisura de uma camisa imaculadamente engomada. Ao contrário da minha mãe (a minha mãe anda a aparecer muito por aqui, pergunto-me por quê), não estou sempre à procura de mais alguma coisa para arrumar ou limpar. Mas é verdade que gosto de ter as coisas arrumadas e limpas, e isso consegue-se muito graças a detalhes que escapam aos homens. E pronto, lá descamba este post para o sexismo. Não há problema, os (para aí) três leitores do sexo masculino que tinha - e já estou a fazer uma estimativa optimista baseada nos meus seguidores no Uganda - abandonaram-me desde que reconheci publicamente a modéstia da minha copa de soutien.
Nunca nenhum homem em todo o mundo fez uma barrela, por exemplo. Há nesse gesto uma antecipação, uma preparação do que vem a seguir. A postura masculina perante a nódoa é a da máxima agressividade, o anti-nódoas em spray mais caro que encontrar no supermercado, aplicado mesmo antes de atirar a roupa para a máquina, no ciclo super-power plus. A nódoa é, contudo, uma problemática que reage com mais eficácia a uma abordagem com jeitinho e dedicação alongada. Há que deixá-la de molho no bicarbonato de sódio. Ela dorme uma noite naquela solução e começa a dar de si. E depois há que cobri-la de sabão, o sabão Clarim que peço à minha mãe (olha ela de novo!) para me trazer de Portugal, e deixá-la soçobrar de livre vontade. Quando chega à máquina de lavar roupa, a nódoa já deve estar no purgatório da sujidade, mera lembrança ténue de uma peça de fruta, de uma fatia de bolo de chocolate. E é assim, neste jeitinho feminino de entrega, que a roupa sai fresca e nova do tambor, cumprindo promessas de publicidade a detergente. Parece que, afinal, tenho algum prazer nestas coisas.

22 julho 2011

trinta e nove cê

Os miúdos andam em pelo pela casa. Fechamos as janelas e só as abrimos à noite, que a minha mãe é Alentejana e eu aprendi qualquer coisa com ela. Aqui ainda há quatro estações do ano e isso é muito reconfortante. À tarde vou passar a ferro e cozinhar no forno, vou soar as estopinhas e sonhar com a cerveja gelada do jantar, depois de os deitarmos. Este Verão é (quase todo) longe do mar mas é cheio de cigarras e pirilampos. Passamos dias inteiros a brincar, a ler, a descansar, até ao aborrecimento que chame pelo regresso ao trabalho e à escola. É para isso mesmo que servem as férias grandes. E os meus meninos estão felizes, cor de caramelo.

21 julho 2011

continuam os posts com conteúdo elevadíssimo

"Ai, e tal, e se agora só pudesses escolher uma loja onde irias comprar toda a tua roupa, sapatos, acessórios, produtos de beleza, artigos de decoração?" Era esta. Estou a pensar acampar lá dentro durante a noite quando aquilo fechar. Ou então levo meia dúzia de vestidos para o provador, enfio-os uns em cima dos outros, e fujo a correr muito, muito depressa. Pode ser que me extraditem, mas vou feliz.




20 julho 2011

a verdade, verdadinha

Eu e o meu homem, noite de Verão, quarto, janela aberta.
Ele: Estás assim contente porque vamos voltar para Portugal.
Eu: Pois estou. E já sei que tu não estás, tenho pena.
Ele: Não, vou arranjar um bom emprego e vamos poder viajar. Vamos às Seychelles.
Eu: Isso. Mas dispenso as Seychelles. Vamos à Costa Rica. Ao Equador. Ao Senegal.
Ele: Ao Japão. Ao Cambodja.
Eu: À Índia. À Argentina.
Ele: Ao Perú.
Eu: Boa. E a Nova Iorque.
Ou, como uma pessoa pode passar dois anos mesmo, mesmo ali ao lado e não estar lá, comprar o bilhete de ida-e-volta de comboio meia dúzia de vezes mas não ver um espectáculo, não experimentar um restaurante, não conhecer os recantos improváveis, não a-pro-vei-tar. Porque não dá. Porque não somos um casal de turistas em férias, nem sequer a fingir por umas horas. E isto, senhores, há que dizê-lo, deixa-me chateada que nem um boi.

19 julho 2011

força, tu vais conseguir

Aqui há dias, segui uma ligação (acho que da Melissa) para um texto que falava do problema da educação das crianças de hoje, que esperam a felicidade como um direito de nascença. Aquilo fez tudo um grande sentido para mim, à excepção da ideia de que não se valoriza o esforço. Parece-me que, em muitas situações, sobrestimamos o poder do esforço. Vende-se muito a ideia de que, se nos esforçamos o suficiente, conseguimos alcançar seja o que for. Não conseguimos, não senhor. Eu nunca poderia ser uma boa jogadora de vólei, nem que treinasse oito horas por dia. O meu marido nunca conseguiria dançar com desenvoltura, nem que o Nureyev descesse à terra e o encostasse à barra meses a fio. O talento existe, não é um mito maldoso inventado por um grupo fechado de perfeccionistas que não deixa mais ninguém entrar. Há pessoas com talento, pessoas com vários talentos e pessoas com imenso talento; e também há pessoas que não têm jeitinho nenhum para nada. É injusto, como tantas outras coisas na vida. É claro que o esforço é essencial e nada resulta apenas do talento. Mas já é tempo que alguém tenha a coragem de dizer you don't have it in you. E nós, comuns mortais, prosseguimos com a nossa vida banal de adoração dos escolhidos. Pelo menos o dom da apreciação foi distribuído mais democraticamente.

18 julho 2011

o poder da visualização

Sandes de manteiga de amendoim com doce de mirtilos, tu que acabaste de ser engolida com a ajuda de uma caneca de café adubada com leite condensado, estou a ver-te. Semi-desfeita numa papa acastanhada, desces até ao meu estômago e começas a decompor-te. Atravessas agora o meu aparelho digestivo e és absorvida por minúsculos vasos sanguíneos que me irrigam as vilosidades. O meu sangue está agora cheio de ti e corre direito às minhas coxas. Não vás por aí, sandes. Estou a ver-te, decidida, navegando em sentido ascendente. Chegas à minha caixa torácica e penetras o tecido adiposo das minhas maminhas (gostava de lhes chamar tecnicamente "mamas", mas não estaria a visualizar a realidade). Estás a preenchê-las, sim, a insuflá-las generosamente, numa adolescência inesperada. Obrigada, sandes, agora já posso usar blusas sem parecer um travesti com muito pouca maquilhagem.
Nunca li O Segredo, mas é assim que funciona, não é?

16 julho 2011

o meu corpo

Isto agora vai soar muito New Age mas é verdade: vivemos (no Ocidente, hoje em dia) muito desligados do nosso corpo. Cobrimo-nos de cremes, adornamo-nos, perfumamo-nos, dopamo-nos, mas não sentimos o pulsar do sangue nas veias nem as endorfinas que acalmam um músculo dorido. Vivemos de costas voltadas para os ossos, tendões, cartilagens que nos sustentam e só dão sinal de vida quando alguma coisa dói.
Mais do que pela imagem ou por um conceito mais ou menos abstracto de saúde, é por isso que gosto de fazer exercício. Para sentir o meu corpo. Para usar o meu corpo. Porque é tão estúpido desprezar o corpo como desconhecer o tipo de música que nos faz vibrar, os livros que nos alimentam, as imagens que nos tocam. Nem sempre gostei de fazer exercício. Até aos 17 anos, e graças à formatadíssima e limitada Educação Física de tantas escolas portuguesas, detestava tudo o que tinha a ver com mexer-me. E depois conheci o remo, a corrida, a dança, o yoga, e não quis mais parar. Quando paro, definho. Definham os músculos e definha-me o ânimo. Fico velha, (ainda mais) chata, cansada. Por isso, gente, a sério, mexam-se. Toquem-se. Sim, isso mesmo que estão a pensar.