28 setembro 2011

detalhes que não interessam a ninguém

E habituarmo-nos outra vez a usar sapatos sem ser na rua?

27 setembro 2011

vir para aqui descansar

Pois que estou feliz com o meu regresso ao trabalho (e à investigação) e devo confessar que não é só pelo que faço aqui - que, na maior parte do tempo, não é blogar - mas pelo facto de os meus ouvidos e a minha cabeça descansarem um pouco. Uma mãe decente não admite uma coisa destas mas eu admito, do fundo da minha indecência, que já estou a dar em maluquinha com o Diogo a chorar cerca de 15 horas por dia e a pedir colo sempre que está acordado. Meu rico filho, compreendo o teu sofrimento e desdobro-me para te ajudar a ultrapassá-lo, mas já faltou mais para os teus avós nos convidarem a sair lá de casa.

26 setembro 2011

o alentejo também estava uma maravilha


E que bom que foi rever amigos e conhecer os novos sobrinhos :) É uma sensação nova, esta de ser tia, e gosto muito. Tenho vontade de os ver crescer todos juntos e fazer muitos mais programinhas destes.
Agora é mais uma semana de trabalho e tentar fazer render os dias, que parecem sempre demasiado curtos.

23 setembro 2011

a adaptação

Tem sido feita de acordo com as características de cada um. O pai está bem em qualquer lado. A mãe (que nunca mudou o fuso horário do computador - denial is a river in Africa...) acha normalíssimo estar aqui e não se lembra sequer de como foi possível viver noutro sítio. O filho mais velho está bem em qualquer lado (desde que esteja lá a mãe). E o filho mais novo? O filho mais novo está a lidar como pode com tanta mudança que não compreende. Num dia está nos EUA, noutro em Lisboa. Noutro no Algarve, de novo em Lisboa e depois no Alentejo. Num, em casa dos avós maternos, noutro em casa dos avós paternos. De 24/7 com a mãe e o irmão em casa para a entrada progressiva na escola (travail oblige), felizmente com o irmão. São fusos horários, hábitos alimentares e camas diferentes, muitos abraços desconhecidos de gente que o adora mas que ele não conhece de lado nenhum. O meu filho pequenino anda perdido neste reboliço e só desejo que a poeira assente para que ele se possa sentir de novo em casa. Meu querido, a mamã não vai a lado nenhum. E em breve vais perceber que, nas horas em que te deixo na escola, não podias estar melhor entregue. Até lá, dou-te todo o mimo a que tens direito.

22 setembro 2011

beira-rio

Equipei-me e saí para correr. Estava vento, como sempre, mas não vi corvos-marinhos. Dantes via-os, de manhã, quando não havia mais ninguém ali àquelas horas.
Ao fim do dia, o cenário que passa por mim enquanto mal piso o chão é feito de gente. Gente sozinha, sentada junto ao rio, debaixo dos pinheiros mansos. Gente debruçada sobre o corrimão, resistindo ao cheiro da maré baixa. E casais, de diferentes idades e níveis de intimidade. Uns sucedem-se aos outros. Atravesso, de raspão, primeiros encontros, relações ilícitas, arrufos, despedidas. Caras e caras que se conheceram em redes sociais. Ou numa discoteca. Ou num centro paroquial. Não sei se nos Alunos de Apolo. Tantas pessoas que cedem, momentaneamente, e reconhecem em público a solidão própria, a solidão alheia, e tentam superá-las. Têm posturas medidas. Desenham gestos previamente ensaiados. Falam de coisas banais e de coisas íntimas. As mulheres rindo, os homens inclinando a cabeça, esforçando-se por ouvir. Tanta, tanta gente que procura o amor ao longo das margens do Tejo. E não sabem que esse amor ribeirinho só está lá para quem tem 17 anos. Para os outros, já esgotou o prazo de validade. Mais valia dedicarem-se à pesca.

as (inevitáveis) comparações

Aqui
é tudo muito barato (à excepção da gasolina, portagens e produtos farmacêuticos). Acreditem!
os homens são muito mais bonitos e interessantes.
as mulheres são menos bonitas e, como dizê-lo?, menos voluptuosas.
(ou seja, isto rende bastante para as mulheres mais ou menos)
ainda é Verão.
a televisão é a mesma m.....
há gatos.
as pessoas andam todas de trombas.
vê-se gente a esconder lágrimas no Metro.
(nota-se que as coisas estão difíceis e, sobretudo, que as pessoas têm medo - acho que vou juntar-me ao movimento dos abraços de graça)

19 setembro 2011

o regresso

Depois de 3 dias caóticos, em que desmontámos o resto da mobília, limpámos a casa de cima a baixo e deitámos os últimos restos da nossa existência princetoniana para o lixo, chegou finalmente a hora de apanhar o avião de regresso a casa. À partida, o cansaço era tal que nem houve cabeça para nostalgias. Não vale a pena estar para aqui com estórias delico-doces de que hesitei, senti frios na barriga, ou vi as cores da bandeira americana com outras tonalidades: a verdade é que só queria chegar aqui e ir dormir. Do mesmo modo, também não me emocionei à chegada. Tinha os olhos demasiado secos para lágrimas, umas olheiras até ao umbigo e mesmo assim fui trabalhar no próprio dia.
De modo que a nova rotina se fez rapidamente e quase já parece mentira que ainda há uma semana estava lá, do outro lado. De uma forma ligeiramente perversa parece quase que deixei para trás a verdadeira gralha e que sou apenas um doppelgaenger que se conseguiu escapar e fazer o que desejava. Será mesmo possível que isto, aqui, agora, sou eu, somos nós? Não me belisco para não acordar.

14 setembro 2011

casa

O sino da minha igreja. Falar com as pessoas em português (sentir-me eu, portanto). E dizer ao meu cão que não o vou deixar mais. O Natal pode continuar a ser todos os dias, muito obrigada.

12 setembro 2011

lá vamos nós

E hoje não me apetece dizer mais nada.

11 setembro 2011

onze de setembro, segundo a mãe

Querido Khalid,

Faz hoje dez anos que te perdi, meu filho. Tanto tempo e o meu peito ainda arde. Tem um buraco do tamanho da cratera que eles agora estão a reconstruir. A ti, ninguém te traz de volta.
Como sabes, os teus irmãos já se juntaram a ti (o Hani não recuperou da operação e o Aroun desapareceu nos primeiros raides) mas a tua irmã Fatima está bem. Casou e tem dois filhos, vivem todos connosco. A tua sobrinha Adeeba é que está a escrever esta carta, já que eu nunca aprendi as letras. É bonita e vai à escola, diz que quer casar-se com um bom homem temente a Deus e ser professora. Vamos ver o que se arranja.
Queria dizer-te que nem tudo é mau, meu querido filho. Faltam muitas coisas mas não vivemos com medo. Uma pessoa habitua-se. As paredes da nossa casa ainda estão crivadas de balas das RPG-7s mas a horta dá algumas cebolas e já conseguimos um melão este ano.
Penso em ti todos os dias. Lembro-me de como eras um menino bom, amigo de todos, sério. Lembro-me de te dar o saco da merenda quando saías de casa de madrugada para caminhar uma hora até à madraçal. Como me sentia orgulhosa de ti, filho!
Sabes, já não fico a pensar se valeu ou não a pena. Não te tenho mais e muitos outros se perderam. E as coisas não mudaram muito, principalmente para eles. Eles ficaram com medo, revoltaram-se. E agora voltam às suas vidas, como nós.
Gostava de estar contigo de novo. Gostava de ter a certeza de que encontraste a recompensa que procuravas. Mas a única esperança está no dia do Juízo. In shaa Allaah não tarde muito.

A tua, sempre
Mãe

09 setembro 2011

e onde estavas tu (quase) dez anos depois do nineleven?

A tentar não enlouquecer numa casa vazia, habitada por dois rapazinhos com demasiada energia e já nenhuma forma de a canalizar. A despachar os últimos tachos. E a ajudar um casal muçulmano (persas? jordanos?) à espera de gémeos, que ficou com muitas das coisas de bebé que ainda tínhamos. Eis o que conseguiram, senhores terroristas: ocidentais e orientais a conviver sem problemas, aliás, a conviver com os mesmos problemas corriqueiros do dia-a-dia. Ela com véu, eu com o cabelo lavado depois de ir correr, mulheres num mundo que não é assim tão grande, em certas coisas.

08 setembro 2011

uma crueldade assentida

"Who has more power than a child? She can be as cruel as she wants to be. He can't. He'd never. Please, Bea. Please have mercy. Children don't. Do they? Did you, Peter, have mercy on your own parents?"
in Michael Cunningham, By Nightfall

Quando eles nos vêm parar aos braços, os filhos, compramos um bilhete vitalício para a montanha-russa do amor sem reservas. Cuidamos deles, deixamo-nos inundar de amor, um amor posto à prova por muitas concessões de nós enquanto pessoas. Mas esse amor não é testado só com fraldas sujas, noites insones, doenças, também é quando crescem e desenvolvem a capacidade única de nos magoar. Não por mal, não conscientemente, mas com a inevitabilidade insidiosa de finas agulhas, que nos levantam a pele e nos deixam à mercê do que quiserem fazer de nós.
Deixam de falar connosco. Ou falam, e as palavras são avalanches de impiedade. Ou uma chuva fria, de Novembro. Porque nos conhecem tão bem (conhecem?). Portas fechadas. Segredos. Distância. Desdém. Auto-suficiência e superação. Quanto mais um pai ama um filho (e não falo de mimo, nem daquela reverência tão corrente nas famílias reduzidas de hoje), mais este se sente seguro. Tão seguro, tão confiante, que não questiona o amor que os pais lhe devem. Tem carta branca para pisar, para julgar, para magoar. Infelizmente, não é garantido que tudo isso passe com o fim da arrogância da juventude.
Sim, muitas vezes não tive (tenho?) piedade dos meus pais. Ainda que os adore.
Sim, os meus filhos vão fazer o mesmo comigo, mais tarde ou mais cedo. E acho que não há nada que ninguém possa fazer acerca disso.

07 setembro 2011

afinal se calhar fico

Tinha-me esquecido que, em Portugal, em qualquer esquina, por detrás de qualquer viela, cheira a carapaus grelhados. Isso ainda é pior do que política, futebol e telenovelas.

06 setembro 2011

gratidão

Caros Estados Unidos da América,
Ao longo destes dois anos, insultei-vos (sobretudo mentalmente) quase tanto como um orador num comício do PCP em Aljustrel. Contudo, é bom reconhecer o que vocês me trouxeram de positivo. Obrigada
Pelas torradas com manteiga de amendoim e doce de morango
Pela apple cider
Pelas saladas e sobremesas do Blue Rooster, em Cranbury
Pelo leite de amêndoa
Pelos melhores frutos silvestres, melancias e maçãs Macoun do mundo
Pelas Terhune Farms, em Lawrenceville
Pelo combóio a vapor, em New Hope
Pelo Dinky
Pela natureza e pelas pequenas e grandes construções, dos arranha-céus de NY à biblioteca pública de Princeton
Pela neve
Pelos Verões quentes e húmidos, em que dormi sempre de janela aberta a ouvir os sapos
Pelo Halloween e por fazerem uma grande festa a propósito de todos os pretextos imagináveis
Pelos autocarros escolares
Pelos camiões gigantes e carros de bombeiros cromados
Pelas lojas com "promoções" 365 dias por ano
Pela Paper Source, a Anthropologie, e a TerraCycle
Pelo D&R Canal e pelo Mercer County Community Park
Pelas oportunidades de emprego e pelo reconhecimento do meu trabalho
Pelos livros
Pela irrepreensivelmente funcional instituição-cidade que é a Universidade de Princeton
Pelos amigos, colegas e vizinhos norte-americanos, ucranianos, portugueses, irlandeses, gregos, búlgaros, italianos, peruanos, indianos, jamaicanos, equatorianos, dominicanos, dinamarqueses e chineses:
Anatoly
Marina
Rogério
Lúcia
Ana
Kathleen
Dimitrios
Katia
Dionisios
Lorenzo
René
Erica
Carol
Sarah
Emily
Rupah
Jamie
Jackie
Eva
Maria Emília
Addy
Thomas
Anne
Jen
Lauren
Jim
Dan
Rachel
Lindsay
Mai
Jonas
Daniel
Ane
Sean
Jack
Sofia
Isobel
Pela vossa inocência, determinação e capacidade de dar a volta por cima. Essas levo-as emprestadas, sim?
Vossa sinceramente,
gralha

05 setembro 2011

a despensa americana

Enquanto cá estive não consegui mais do que vislumbrar a ponta do icebergue da imensidão de porcarias coisas saborosas e inúteis que se vendem por cá. No entanto, há alguns produtos que me conquistaram e levo um pouco de (quase) tudo isto no contentor. Quanto mais não seja, este ano tenciono fazer um jantar de Acção de Graças por já não estar na América :D

o hidratante com o cheirinho mais guloso de todos os tempos

o cheiro da minha casa no Outono
 
chocolate + grãos de café, não há por onde falhar





porque o wasabi não serve só para sushi e sashimi
 


para o perú do Dia de Acção de Graças ou qualquer lombo assado
(também comprei secos, infelizmente não dá para levar frescos)





para a minha tarde de abóbora e nozes de pecan



03 setembro 2011

horários

Quase toda a gente que conheço é noctívaga ou, pelo menos, declara-se not a morning person. Note-se que, para mim, noctívago é alguém que acha que depois do pôr do sol é que a vida começa. Eu sou o contrário. Acordo muito bem às 6h, desde que tenha dormido. Tenho toda a energia do mundo de manhã. Depois do almoço gostava de poder fazer a sesta, mas longe vão esses tempos. À tarde ainda funciono mas a noite é para dormir. É por isso que me habituei lindamente aos horários que se praticam por aqui, em que se almoça ao meio-dia (quando não é antes), se janta às 18h (por acaso nós só jantamos às 19h) e a criançada está na cama às 20h.
Voltando a Portugal, não me safo de alterar as nossas rotinas. Paciência, faz-se. Mas o mais estúpido de tudo é que já sei que vou ser sujeita ao julgamento habitual quando manifestar o meu desagrado pelas horas mais tardias. Jantar antes das 21h é coisa de velho. Deitar antes da meia-noite é só para quem não tem vida. Acordar antes das 7h é sina de pobre. As pessoas são diferentes, OK? Tal como não estou à espera que todos comam o mesmo que eu, por que é que tenho de gostar de dormir até tarde ou de ficar acordada a ver porcarias na televisão até às 2h? Já para não falar que a maioria do mundo não vive nesse fuso horário que a nossa cultura europeia do Sul nos vende como sendo o mais adequado. Como se um mocho tivesse mais estilo do que uma gralha, tss, tss.

02 setembro 2011

materialisticamente falando

Dobrei, acondicionei e empacotei todos os bens da nossa família em 10 caixotes grandes e 7 malas de viagem. Uns senhores simpáticos com sotaque beirão e uma camioneta pintada de verde e vermelho já vieram buscar a encomenda que vai de navio até ao lado de lá. É nestas alturas que penso que é muito bom ter pouca coisa. E mesmo assim é tanta! A próxima pessoa que oferecer um brinquedo aos meus filhos (excepto o Pai Natal), uma moldurinha mimosa ao casal, um pano de cozinha para o nosso lar será fuzilada. Ou obrigada a desencaixotar a nossa tralha toda quando a formos buscar em Outubro.

01 setembro 2011

balde de água fria

A primeira recordação que tenho do meu marido é do dia em que ele fez 16 anos. Estávamos todos no ginásio a treinar, ele acabou uma série de abdominais e eu fui buscar um balde de água e despejei-lho em cima, com um sorriso rasgado e um caloroso "parabééééns!". Constato agora quão simbólico foi esse acto e quão profético da geração vindoura.
Foi uma parvoeira, claro que sim. Ainda para mais, não foi a única vez que fiz uma coisa deste género. Mas, ao passo que outros houve que reagiram com um murro nos meus dentes (e ganharam um murro no nariz, de brinde), o bom rapaz que o meu futuro cônjuge sempre foi ficou dividido entre a estupefacção e a superioridade perante gesto tão insignificante. E o que é que isto diz de mim? Que fazia coisas muito parvas, por exemplo. Que sempre tive dificuldade em conter os impulsos e medir as consequências dos meus actos. E que já arranjava maneiras mais meiguinhas de chamar a atenção do sexo oposto.
E agora, passados 14 anos, o que é sucede? Sucede que temos um filho pacífico, que só quer estar de bem com tudo e com todos. E depois temos outro que é o cúmulo da meiguice, enche-nos de abraços e beijinhos, só para depois nos bater e puxar o cabelo (e depois fazer festinhas, rapidamente arrependido). Ter filhos também é isto, é olhar um bocadinho ao espelho e perceber melhor certas coisas.

30 agosto 2011

vazante

À medida que as águas cor de chocolate descem, lentas, em direcção à baía do Raritan, a Natureza declara-se cansada e pede Outono. Era só o que me faltava, Outono ainda em Agosto. Mas o que é certo é que que as primeiras folhas estão a avermelhar, a temperatura baixou e os miúdos regressam à escola para a semana. Eles que façam o que quiserem, o país é deles. Eu volto ao país dos Verões que se prolongam por Setembro fora, como as nossas tardes se prolongam pela noite fora e as noites duram até de manhã. As férias da minha infância foram muitas vezes neste Verão de noites frescas, percebes e Oceano Pacífico (o programa de rádio), enquanto o meu pai conduzia o Dyane descapotável e eu era filha única, de pé no banco de trás.
Agora ando a encher caixotes, a tapar falhas na mobília com lápis de cera, e a contar os dias para voltar ao Verão. Deixem lá a colecção Outono-Inverno nas montras, que eu fecho os olhos por algum tempo. Apesar de a Ana de Amsterdam ter finalmente voltado ao activo para me acompanhar ao pequeno-almoço (ainda que a dizer bem dos livros do Saramago, coisa indesculpável), não estou preparada para chá e mantinhas.

28 agosto 2011

a cheia

Depois de uma noite acampados no corredor, devido aos avisos de tornado, a Irene transformou-se em tempestade tropical e limita-se a debitar chuva. Muita chuva. O D&R Canal já estava bastante cheio com a elevada precipitação das últimas semanas, de modo que transbordou. Neste momento, a água está a cerca de 50 metros das casas mais próximas (se subir mais um metro e meio chega lá) e a cerca de 100 metros da nossa. Um dos cantos do parque de estacionamento está alagado, felizmente não onde está o nosso carro. Resta-nos esperar que a chuva pare e que o nível da água não suba ainda mais. Neste momento, não conseguimos sequer chegar ao centro de Princeton, porque a ponte está coberta, como podem ver na imagem. Bom, pelo menos, até ver, temos água e electricidade. Pode ser que a aventura se fique por aqui.

A ponte na Alexander Road.
Acesso ao canal, perto de nossa casa.
 
À esquerda, alcance da cheia; à direita, casas mais próximas (atrás das árvores).

27 agosto 2011

agarrem-se bem

Hoje à noite temos encontro marcado com o furacão Irene. Diz que há 60 anos que não há um destes por aqui. Parecendo que não, é maçador. Ainda que não vamos todos pelos ares a voar de banheira (estou mais pesada uns quilitos, há esperança), ainda que o canal a 300 metros de nossa casa não nos entre pela varanda, os próximos dias não vão dar para passear. Mandaram-nos abastecer-nos de rações para 5 dias e já havia muito pouca coisa no supermercado. Espero que isto seja histeria e exagero. Pode ser que o vento faça o favor de me atirar tudo para dentro doa caixotes e escuso de ter mais trabalho com a mudança.

25 agosto 2011

o desafio que se segue

Aos poucos, começa a definir-se o cenário do que será a nossa vida de agora em diante, no regresso a Portugal. Eu regresso (ao que tudo indica) à vida académica, os rapazes vão para a escola onde o Gugas andou antes, e o meu marido começa um novo emprego, numa nova área, que o vai obrigar a passar as semanas em Coimbra, pelo menos durante os primeiros 3 meses. Isto significa que regressamos à nossa casa, ao nosso bairro, mas como família depenada de pai excepto aos fins-de-semana.
Se estou com cagunfa? Evidentemente que sim. Passo a listar algumas miaúfas relevantes (por ordem semi-aleatória):
1º Tomar conta de dois filhos sozinha;
2º Morrer de frio nos Invernos gélidos e húmidos de Lisboa, muito piores do que as temperaturas negativas daqui;
3º Lidar com toda uma sociedade em depressão colectiva (e que pensa que a solução é zarpar daí);
4º Ter de ouvir falar de futebol e telenovelas todos os dias;
5º Dirigir-me a repartições públicas;
6º Voltar a tratar as pessoas por Sr. Dr. e Sr. Professor;
7º Ficar desempregada e não conseguir arranjar emprego durante muuuuuito tempo;
8º Sentir que já não pertenço bem aí;
9º Sentir que os meus amigos got over me (evito os estrangeirismos mas, neste caso, o termo em Português não exprime exactamente o que quero dizer)
10º Beber cafés minúsculos outra vez.
Reparem que já tenho um cão, donde a inutilidade do conhecido adágio de "quem tem medo...". O medo assiste-me, ah pois assiste, mas é preciso andar com a vida para a frente. Com a ajuda da família alargada, lá sobreviveremos a esta nova modalidade familiar. Com todos os aquecimentos ligados, lá conseguirei limitar a torrente de ranho que habitualmente me corre do nariz entre Novembro e Abril. Com muitos mimos dos amigos, lá acreditarei que fiz alguma falta. Não estou é a ver panaceia para a sensação de já não pertencer aqui, nem lá, nem em lado nenhum. Pode ser que passe com o tempo, os pés de molho no Atlântico e a cabeça a sonhar com mundos ilimitados daqui em diante.

24 agosto 2011

férias um bocado grandes demais

Dias de mula de carga, jornadas de puro deleite que passava na biblioteca, imunda de pó, levando traulitadas na cabeça dos livros em queda livre, o estrabismo a florescer-me nos olhos, tentando ordenar por ordem Richardson ou Library of Congress centenas de volumes. Ahh, as saudades que tenho desses dias! Agora, a única coisa que faço (para além de ler, ir à piscina, estar de papo para o ar, brincar, ir à biblioteca por prazer, blogar, feicebucar) é equilibrar o portátil enquanto caminho pela casa, respondendo a potenciais compradores de ferros de engomar, estantes, edredons, carrinhos de bebés, enquanto um filho me trepa pelas pernas a pedir colo e o outro me faz perguntas de 30 em 30 segundos. Tenho os joelhos gastos de brincar aos cavalos, aos camelos, aos elefantes, às vacas. Tenho zumbidos nos ouvidos por estar constantemente rodeada de crianças (os meus e os vizinhos) a gritar, a chorar, a ameaçar-se com espadas imaginárias, uns amores, uma constante roda viva de energia que nem sempre se consegue canalizar para mergulhos na piscina. Não me arrependo nada de ter optado por estas férias prolongadas antes do regresso a casa, mas acho que vou dar um abraço sentido às educadoras dos meus rapazinhos no dia em que eles recomeçarem a escola, Deus as abençoe.

(post inspirado nos vários co-sofredores do mesmo "mal" por essa blogosfera fora)

21 agosto 2011

leve leve

Já repararam como, no Verão, todos os blogues deixam cair um pouco do cinzentismo, do peso da seriedade, e se limitam a revelar o puro gozo das coisas boas da vida? Não é uma questão de férias nem de temperatura, é só uma necessidade que temos todos de parar um bocadinho de nos preocupar, de abraçar a inconsciência, dançar numa nuvem estupefaciente e acreditar que o sol vai brilhar bonito, a música vai soar perfeita. Caramba, todos precisamos disto. Não é a silly season, é a humanidade fazendo um pouco de bem a si própria. Desligando as exigências, suspendendo a seriedade. Cutting itself some slack. No Outono, o saldo bancário vai continuar a ser magro, não há nada a fazer. Deixemo-nos rebolar na alegria da areia e da pele bronzeada só um bocadinho mais. Não faz mal a ninguém.

20 agosto 2011

podes ficar com as jóias, a casa e o carro

E, já agora, fica-me com os miúdos. Durante umas horitas, vá. Uma semana de chuva e trovoadas brutais obrigaram-nos à reclusão caseira quase completa. E não é por andar a ser picada por aranhas, percevejos, moscas da fruta, ainda não tenho a certeza, que já trepo paredes.
Entretanto, vendo o recheio da casa. Que maçada, o ferro de engomar e o aspirador já se vão amanhã. Pena que as sanitas e os tachos ainda fiquem, senão é que eu virava Rainha do Sabá. Assim é só rainha do nojo e da roupa amachucada.
Na eventualidade de haver aqui alguém a ler-me em Princeton, ainda há coisas muito jeitosas aqui.

18 agosto 2011

a gralha adormecida

Atenção: este post não promete ser longo por aí além mas compensa em intensidade dramática, que ainda ninguém se chegou à frente com o tal ombro amigo.

Quem me conhece há pouco tempo costuma reparar que eu pareço ser uma pessoa pouca dada a devaneios românticos. Pois bem, fiquem sabendo que, dentro de mim, também já existiu uma pequena princesa que acreditou em contos de fadas. Só que essa princesa apanhou sucessivas desilusões com muitos príncipes (nem tanto com bruxas, que não se costumam meter comigo).
A primeira vez que me apaixonei, na terceira classe, descobri que essa era a melhor sensação do mundo. O RJAA (ainda me lembro do nome completo da criatura) não era muito diferente dos restantes meninos de 8 anos, à excepção dos dentes de coelho com que sorria adoravelmente. Ainda assim, a minha almofada passou a encarnar o tal rapazinho, fronhas e fronhas lambuzadas de beijos imaginários e abraços apertados. Tanto sonhei que ele me mandasse bilhetinhos escritos com caligrafia torta, e ele nem uma canelada, nem um empurrão no recreio. Na festa de fim de ano, todos os meninos quiseram dançar comigo, todos menos ele. E o meu romantismo levou a primeira estocada.
Corria já o saudoso ano de Mil Nove e Oitenta e Nove e eu era uma menina de 10 anos, franzina e de cabelo curto, com uns óculos modelo miniatura-da-avó e o coração cheio de flores e passarinhos a cantar. A nova paixão era partilhada por todas as meninas da turma e sei lá quantas mais. Quis adiantar-me a qualquer outra lambisgóia que conseguisse conquistá-lo. Decidida e inconsciente, informei as minhas amigas, durante a aula de Trabalhos Manuais, que ia declarar-me. Como sou pessoa sensata e pouco exibicionista, escolhi apenas o portão da escola à hora da saída para tão audacioso acto. Infelizmente, a coragem abandonou-me na hora H e só consegui chamá-lo e ficar em silêncio, enquanto tudo à minha volta ficava negro e eu caía, desmaiada, no chão de terra e folhas secas. Rezo aos santinhos para que ele se tenha esquecido do episódio. Mal por mal, já basta ter guardado a carta que acabei por lhe enviar no fim do ano lectivo. Agora que é figura mediática com inclinações humorísticas, resta-me esperar que não se lembre de desenterrar publicamente essa minha pérola epistolar, senão acho que nunca mais ponho os pés em Portugal.
Depois destes, outros episódios infelizes se foram sucedendo. Declarações, já sem desmaios, mas sem sucesso. Cartas sem resposta. Actores de cinema que nunca se lembraram de passar pela minha rua para me salvarem de uma existência púbere sem cor. Demorou bastante até estas pequenas vergonhas irem endurecendo o meu coração, qual artereosclerose emocional. A minha adolescência insistiu nos amores platónicos e, já jovem adulta, ainda me dediquei a causas impossíveis e paixões desgraçadas à partida. Finalmente apareceu um príncipe improvável que se foi revelando muito melhor do que eu podia sonhar. Não é o príncipe das surpresas, dos presentes sem motivo, dos gestos arrebatados, mas ganhou o meu coração. É o príncipe que me trata bem e que gosta mesmo de mim como sou.
Contos de fadas? Lamento, mas é verdade que já não acredito neles. Não acredito que haja só um grande amor na vida. Não acredito em almas gémeas. E, ainda assim, é esse imaginário que faço questão de transmitir aos meus filhos. Eles que cresçam e acreditem no que quiserem. Não há nada pior do que um adulto que ceifa as possibilidades ilimitadas de uma criança.

16 agosto 2011

schh... sossega, formigueiro consumista

Volta e meia sou acometida de palpitações. Este fenómeno acontece-me não mais de duas ou três vezes por ano, mas bate com força. Sonho com roupa e sapatos lindos, que me caem bem, que me fazem alta, esguia, voluptuosa, linda. E acordo para a realidade em que não posso comprar mais nada, não só porque não vejo ordenado há quase dois meses, mas porque o contentor é para encher de brinquedos e livros, e não de tecido desnecessário. Respiro fundo, afasto-me dos sites das minhas lojas preferidas, não abro os blogues das fashionistas de serviço, e vou fazer bolos, que me faz melhor.
E depois penso que este ano, em particular, não é difícil resistir às últimas tendências da moda. Se me fica mal, não uso. Se nunca gostei, não vou passar a gostar. Se nunca tive um par de calças à pesca do berbigão, superei a loucura do roxo integral, passei ao lado das psicadélicas unhas azuis, ignorei tanto os botins como as botas por cima do joelho, menina, não vão ser os padrões tigresse nem as lantejoulas douradas que me vão fazer vacilar. Afinal, parece que vai haver espaço para levarmos a bicicleta na bagagem.

15 agosto 2011

dois anos de vida na américa: o balanço

Aviso: Post longo, sem barreiras, sem peneiras, que provocará o ocasional sorriso, a pontual lágrima, possivelmente uma ou outra interrupção para ir fazer chichi, a vontade de me insultar, de me dar um ombro amigo, de fazer denúncias à Segurança Social, de nunca mais ler este blogue, ou mesmo de me oferecer um daqueles selinhos queridos.

No dia 3 de Setembro de 2009, aterrei no aeroporto de Newark com um filho de 2 anos e meio pela mão e uma barriga de 4 meses e meio de gravidez. Esperava-nos um marido e pai, físico pós-doc na Universidade de Princeton, uma casa com meia dúzia de móveis, e muitos dias, meses, horas intermináveis pela frente. Desde que escolhi este homem que soube que esta seria uma fase das nossas vidas e a experiência de expatriados uma etapa necessária na carreira dele, um período determinante na construção da nossa família. Também sabia, desde que vivi durante um semestre na Alemanha, que isso me ia custar, por todas as razões de já tanto falei. E custou. Muito.
A adaptação faz-se, não custa assim tanto. Custa é acordar, adormecer, acordar, dias a fio naquilo que se sente como uma prisão domiciliária. Vivemos numa terra pequena, de passagem, habitada por estudantes e cientistas de pouso temporário. Não foi fácil estabelecer laços e houve semanas inteiras em que o meu marido era o único adulto com que contactava. Uma vida de domesticidade pode ser confortável, pode ser muito bom fazer bolos com os filhos enquanto neva lá fora; mas isso, todos os dias, a mim não chega. Principalmente quando lidamos com uma depressão pós-parto e não há tábuas de salvação como a família alargada e os amigos de verdade. Demasiadas vezes, fui muito má mãe. Também devo ter sido má mulher. E fui má pessoa no sentido que deixei de me respeitar a mim própria.
Felizmente, essa sensação de isolamento dissipou-se no segundo ano. Comecei a trabalhar, os meninos foram para a escola e, apesar de materialmente as coisas não se terem alterado, essa quebra na rotina permitiu que apreciasse muito mais as coisas boas de aqui estar. Voltei a sentir-me reconhecida pelas minhas capacidades além-maternidade, conheci até algumas pessoas interessantes, fiz as pazes com os nativos. Foi um ano muito cansativo a nível físico, sobretudo na fase em que tive um marido de perna engessada e vários centímetros de neve com que lutar todas as madrugadas. Mas foi também o ano em que a poeira assentou, as nuvens negras dissiparam-se e consegui definir o que queria mesmo que fosse a minha vida. E queria que fosse não muito diferente disto, mas do outro lado do mar. Queria voltar a casa. Assumi essa vontade e assim voltamos.
Estes dois anos, para o bem e para o mal, não são um interregno, são uma mudança sem retorno. Fiz o luto da minha vida anterior e preparo-me para nascer de novo. Já não me lembro da última vez que peguei no carro sozinha, para espairecer, e conduzi sem destino enquanto berrava impropérios até à rouquidão, lágrimas rolando aos pares pela cara. Aos poucos, o desprezo pela cultura local dissipou-se, passou a paternalismo e espero que tenha chegado à assimilação das coisas boas. Quanto mais não seja, os meus quadris já têm assimilado bastante tarte de natas, chocolate e manteiga de amendoim.
Se valeu a pena? Claro que valeu a pena. Levo daqui uma enorme experiência de vida, um maior auto-conhecimento, um filho americano. Mas isto foi sobreviver, não foi realmente viver. Acho que tenho o direito a viver, mesmo com todas as dificuldades esperadas e inesperadas que temos pela frente.

12 agosto 2011

daqui a um mês

Levantamos vôo de regresso a casa.
Agora é a altura em que cada gesto é uma despedida, cada embalagem de qualquer coisa é a última. Sou muito nostálgica, levo a vida a despedir-me. Amanhã é de Nova Iorque.

11 agosto 2011

pedras no caminho?

Guardo-as todas para as atirar ao pessoal que adora estes aforismos. Eu nunca desgostei de coisas fáceis e não consigo mesmo ver o gozo das corridas de obstáculos quando se pode percorrer a mesma distância muito mais depressa sem pôr em risco o bem-estar do entrepernas.

08 agosto 2011

decisões, decisões, decisões...

Tenho algum pudor em falar aqui das coisas realmente fundamentais que se passam na minha vida. E a verdade é que estamos a passar um período de muitas escolhas difíceis, que incluem riscos, saltos no vazio e o (re)pesar dos nossos valores fundamentais. Mais vale isto do que não ter escolhas, bem sei, mas não é fácil. É nestas alturas que dava mesmo muito jeito ser uma pessoa completamente egoísta e destituída de moral, mas gosto de acreditar que não sou assim. Será que é vaidade? Será que é ingenuidade? Não sei. Por isso perdoem o meu silêncio nos próximos tempos. E agora é a altura certa para me mandarem aqueles e-mails de corrente com todos os clichés, mensagens de paz, anjinhos e assim, certo? Brincadeirinha! Pelo contrário, todas as orações e pensamentos positivos são muito bem-vindos. 

04 agosto 2011

sem saber bem como, conquistaram-me

São materialistas, individualistas, puritanos, consumistas, ingénuos, auto-suficientes, dotados de um humor pateta, obcecados com o sucesso, destituídos de ironia, uns miúdos, uns cavalos selvagens, a humanidade numa lata de sopa que se vende como se fosse vichyssoise. São o povo que me acolheu, cheiinho de defeitos - como todos os outros - mas, também, com imensas e enormes qualidades. E uma pessoa apercebe-se que já gosta mesmo deles quando custa, de fora, ouvir dizer mal. Não gostamos que chamem nomes à nossa mãe, mesmo que ela nos chegue a roupa ao pelo. Acho que nunca mais vou ouvir o tão europeu desdém "ah, sim, os americanos..." (idealmente seguido de um bafo no cigarro) sem que isso me corte um bocadinho o coração.
Gente, para que conste, os americanos são trabalhadores como o caraças. São ingénuos, sim, mas também são dos poucos que ainda acreditam que podem fazer alguma diferença positiva ao longo da sua vida. Muitos deles têm valores de verdade, pelos quais regem a sua vida, e que não descartam quando não dão jeito. São leais, genuínos e tolerantes. São boa onda, andam de bem com a vida e não resmungam por tudo e por nada. Se isso é ser parvo? Não é mais parvo passar a vida a rezingar com tudo? E, como em todo o lado, há muita gente criativa, culta, inteligente, original, generosa, boa. Não volto daqui a conduzir um GMC (para minha tristeza) e com os cabelos platinados ao vento, mas espero voltar um bocadinho americana.

03 agosto 2011

é de pequenino que se enche o baldinho

Comentei certa vez, no blogue da Mãe Capotada, que gosto de pensar que os nossos filhos são como pequenos baldinhos cujo ego devemos ir enchendo desde cedo, visto que terão toda uma vida para se irem esvaziando. Então é assim que se faz, enquanto se muda a fralda:
gralha: O Diogo é lindo?
Diogo: É.
g: O Diogo é querido?
D: É.
g: O Diogo é o meu bebé bom?
D: É.

E como o nosso próprio baldinho passa a vida a levar pontapés e a ser miseravelmente virado ao contrário:
gralha: A Mamã é linda?
Diogo: É.
g: A Mamã é querida?
D: É.
g: A Mamã é absolutamente espectacular?
D: É.
g: Já está :)
D: Tátááá :)

Animeio de bebé lindo, querido, e bom. Que riqueza!

02 agosto 2011

take us to lisboa (semi-plagiozito, mas sem maldade)

A gralha tem um sonho. Esse sonho chama-se voltar para casa. Não tem nenhum gato mas tem uma Bimby, entre outros quarenta pés cúbicos de tralha, que tem de ir de contentor para Gaio, Alcobaça. E, parecendo que não, ainda é maçador uma pessoa ter de deslocar-se até Gaio, Alcobaça. Além disso, a gralha espera fervorosamente que o veterinário, perdão, urologista dê luz verde para o filho pequeno ir para Lisboa, porque este não dá mesmo para deixar para trás. Parece impossível como consegues gozar com uma coisa destas, que é mesmo verdade, gralha. És terrível.
A gralha não está a pedir-vos dinheiro nem que ponham uma fitinha no canto do blogue, está apenas a pedir que lhe comprem o recheio da casa. No Natal, também faço um recheio de peru bastante razoável, pode ser que dê para comercializar. Em breve, estará disponível a ligação para o material à venda.

01 agosto 2011

o que todos procuramos

Demorei imenso a escrever este post porque não conseguia arranjar-lhe um título apropriado. Não arranjei. E normalmente escrevo isto muito à pressa. Mas os termos 'intimidade', 'comunhão', 'proximidade' não conseguem abarcar o sentido que quero transmitir. Nem sei bem por que é que me lembrei de falar sobre estas coisas, foi mais uma revelação enquanto corria e estava a precisar de organizar as ideias.
De repente, percebo que aquilo que nós, humanos, procuramos de mais fundamental não se altera ao longo da vida. Não estou a falar de questões materiais, estou a falar do resto, do que nos faz uma espécie gregária. Antes achava que, em crianças, queremos amor paternal; na juventude, amor carnal; na velhice, a segurança de estar ao lado de alguém que nos ajude a caminhar quando os passos já são incertos. Não, não e não. A ânsia é a mesma, os nomes que lhe damos é que se vão alterando conforme nos vamos conhecendo melhor. Todos nascemos já cheios de uma solidão imensa, uma sede desértica de sermos realmente aceites e apreciados pelo que somos. Há quem tenha a sorte de saciar essa urgência no abraço da mãe. Há quem passe a vida toda à procura. Todos vamos procurando o rosto de quem nos ama de verdade mas, acima de tudo, de quem está disposto a receber o nosso amor - porque estamos cheios de amor para dar.
Sei que não descobri a pólvora. Mas há tantas coisas que só compreendemos realmente quando as vivemos na primeira pessoa! Nesta fase da vida, casada, com filhos, lido com esta ânsia de uma forma diferente. Já não procuro um homem com estas ou aquelas características. Já não acredito nUM amor maior do que todos, que nos completa. E já nem acho que essa forma de proximidade tenha de ser restrita à família, ou ao ideal de amor romântico. Acho que é por isso que, nunca como agora, aprecio as minhas amigas mulheres. As que passam pelo mesmo que eu e me entendem de olhos fechados; e as que vivem em circunstâncias diferentes mas me querem tão bem que param - param... - o tempo suficiente para se porem na minha posição e compreenderem o que sinto, o verdadeiro sentido das minhas palavras e do que está por trás delas. E gosto desta nova forma de intimidade e, porque não?, de amor. Espero para ver, daqui a uns anos, onde vou encontrar o que procuro.

E esta é, também, uma diferença brutal entre crentes e não crentes. Alguém que acredita em Deus sabe que nunca, nunca está realmente sozinho. E olha a reviravoltazinha religiosa que isto levou...

28 julho 2011

um mau humor que é uma coisa inexplicável

Às vezes, ser boa mãe (boa, não, mas satisfaz pouco), é ir um bocadinho para o quarto e fechar a porta.

27 julho 2011

a preguiça, a falta do que fazer e a procrastinação

Já toda a gente se apercebeu de que quanto menos temos para fazer, menos fazemos, certo? Eu percebi isso no último ano de faculdade, em que só comecei a fazer a tese de licenciatura quando comecei a trabalhar a tempo inteiro.
O que é que uma pessoa faz quando tem muito tempo livre? Arrasta-se. Engonha. Feicebuca de cinco em cinco minutos. Adia a preparação de uma mudança familiar de continente para os últimos minutos.
E depois percebe que há muito quem ache que acordar às 9h30 é cedo, quando já não se lembra da última vez em que acordou depois das 7h30. E que há outras mães a tempo inteiro que afirmam que não têm tempo para levar os miúdos ao parque. O que é que fazem ao longo do dia, deixam-se hipnotizar pelo canal de televisão da Oprah?
A sério, nesta altura da vida, eu durmo oito horas por dia, cuido de dois filhos, brinco com eles, não vejo televisão, leio muito, cozinho todos os dias e não tenho empregada doméstica. E tenho imenso tempo livre. Imenso.

25 julho 2011

norte e sul

(olhando para os nossos vizinhos dinamarqueses, de quem gosto muito)
Nós somos tão barulhentos. Um chinfrim que não tem discrição. Rimo-nos muito. Rimo-nos de coisas parvas, só porque sim. E abraçamo-nos, tocamo-nos, empurramo-nos, mimamo-nos. Tecemos os laços desta família com braços, pernas e tudo. Ostentamos os nossos gestos de carinho, o nosso amor não cabe apenas em palavras contidas. Até o mais pequeno já se habituou a trepar pelo maior e dar-lhe beijos lambuzados sem razão aparente. Gosto desta nossa essência do Sul, por muito que admire a civilidade do Norte.

23 julho 2011

barrela

Nunca retirei prazer das pequenas tarefas domésticas. Invejo um bocadinho quem sente profunda satisfação ao contemplar a transparência das vidraças que acabou de lavar, a lisura de uma camisa imaculadamente engomada. Ao contrário da minha mãe (a minha mãe anda a aparecer muito por aqui, pergunto-me por quê), não estou sempre à procura de mais alguma coisa para arrumar ou limpar. Mas é verdade que gosto de ter as coisas arrumadas e limpas, e isso consegue-se muito graças a detalhes que escapam aos homens. E pronto, lá descamba este post para o sexismo. Não há problema, os (para aí) três leitores do sexo masculino que tinha - e já estou a fazer uma estimativa optimista baseada nos meus seguidores no Uganda - abandonaram-me desde que reconheci publicamente a modéstia da minha copa de soutien.
Nunca nenhum homem em todo o mundo fez uma barrela, por exemplo. Há nesse gesto uma antecipação, uma preparação do que vem a seguir. A postura masculina perante a nódoa é a da máxima agressividade, o anti-nódoas em spray mais caro que encontrar no supermercado, aplicado mesmo antes de atirar a roupa para a máquina, no ciclo super-power plus. A nódoa é, contudo, uma problemática que reage com mais eficácia a uma abordagem com jeitinho e dedicação alongada. Há que deixá-la de molho no bicarbonato de sódio. Ela dorme uma noite naquela solução e começa a dar de si. E depois há que cobri-la de sabão, o sabão Clarim que peço à minha mãe (olha ela de novo!) para me trazer de Portugal, e deixá-la soçobrar de livre vontade. Quando chega à máquina de lavar roupa, a nódoa já deve estar no purgatório da sujidade, mera lembrança ténue de uma peça de fruta, de uma fatia de bolo de chocolate. E é assim, neste jeitinho feminino de entrega, que a roupa sai fresca e nova do tambor, cumprindo promessas de publicidade a detergente. Parece que, afinal, tenho algum prazer nestas coisas.

22 julho 2011

trinta e nove cê

Os miúdos andam em pelo pela casa. Fechamos as janelas e só as abrimos à noite, que a minha mãe é Alentejana e eu aprendi qualquer coisa com ela. Aqui ainda há quatro estações do ano e isso é muito reconfortante. À tarde vou passar a ferro e cozinhar no forno, vou soar as estopinhas e sonhar com a cerveja gelada do jantar, depois de os deitarmos. Este Verão é (quase todo) longe do mar mas é cheio de cigarras e pirilampos. Passamos dias inteiros a brincar, a ler, a descansar, até ao aborrecimento que chame pelo regresso ao trabalho e à escola. É para isso mesmo que servem as férias grandes. E os meus meninos estão felizes, cor de caramelo.

21 julho 2011

continuam os posts com conteúdo elevadíssimo

"Ai, e tal, e se agora só pudesses escolher uma loja onde irias comprar toda a tua roupa, sapatos, acessórios, produtos de beleza, artigos de decoração?" Era esta. Estou a pensar acampar lá dentro durante a noite quando aquilo fechar. Ou então levo meia dúzia de vestidos para o provador, enfio-os uns em cima dos outros, e fujo a correr muito, muito depressa. Pode ser que me extraditem, mas vou feliz.




20 julho 2011

a verdade, verdadinha

Eu e o meu homem, noite de Verão, quarto, janela aberta.
Ele: Estás assim contente porque vamos voltar para Portugal.
Eu: Pois estou. E já sei que tu não estás, tenho pena.
Ele: Não, vou arranjar um bom emprego e vamos poder viajar. Vamos às Seychelles.
Eu: Isso. Mas dispenso as Seychelles. Vamos à Costa Rica. Ao Equador. Ao Senegal.
Ele: Ao Japão. Ao Cambodja.
Eu: À Índia. À Argentina.
Ele: Ao Perú.
Eu: Boa. E a Nova Iorque.
Ou, como uma pessoa pode passar dois anos mesmo, mesmo ali ao lado e não estar lá, comprar o bilhete de ida-e-volta de comboio meia dúzia de vezes mas não ver um espectáculo, não experimentar um restaurante, não conhecer os recantos improváveis, não a-pro-vei-tar. Porque não dá. Porque não somos um casal de turistas em férias, nem sequer a fingir por umas horas. E isto, senhores, há que dizê-lo, deixa-me chateada que nem um boi.

19 julho 2011

força, tu vais conseguir

Aqui há dias, segui uma ligação (acho que da Melissa) para um texto que falava do problema da educação das crianças de hoje, que esperam a felicidade como um direito de nascença. Aquilo fez tudo um grande sentido para mim, à excepção da ideia de que não se valoriza o esforço. Parece-me que, em muitas situações, sobrestimamos o poder do esforço. Vende-se muito a ideia de que, se nos esforçamos o suficiente, conseguimos alcançar seja o que for. Não conseguimos, não senhor. Eu nunca poderia ser uma boa jogadora de vólei, nem que treinasse oito horas por dia. O meu marido nunca conseguiria dançar com desenvoltura, nem que o Nureyev descesse à terra e o encostasse à barra meses a fio. O talento existe, não é um mito maldoso inventado por um grupo fechado de perfeccionistas que não deixa mais ninguém entrar. Há pessoas com talento, pessoas com vários talentos e pessoas com imenso talento; e também há pessoas que não têm jeitinho nenhum para nada. É injusto, como tantas outras coisas na vida. É claro que o esforço é essencial e nada resulta apenas do talento. Mas já é tempo que alguém tenha a coragem de dizer you don't have it in you. E nós, comuns mortais, prosseguimos com a nossa vida banal de adoração dos escolhidos. Pelo menos o dom da apreciação foi distribuído mais democraticamente.

18 julho 2011

o poder da visualização

Sandes de manteiga de amendoim com doce de mirtilos, tu que acabaste de ser engolida com a ajuda de uma caneca de café adubada com leite condensado, estou a ver-te. Semi-desfeita numa papa acastanhada, desces até ao meu estômago e começas a decompor-te. Atravessas agora o meu aparelho digestivo e és absorvida por minúsculos vasos sanguíneos que me irrigam as vilosidades. O meu sangue está agora cheio de ti e corre direito às minhas coxas. Não vás por aí, sandes. Estou a ver-te, decidida, navegando em sentido ascendente. Chegas à minha caixa torácica e penetras o tecido adiposo das minhas maminhas (gostava de lhes chamar tecnicamente "mamas", mas não estaria a visualizar a realidade). Estás a preenchê-las, sim, a insuflá-las generosamente, numa adolescência inesperada. Obrigada, sandes, agora já posso usar blusas sem parecer um travesti com muito pouca maquilhagem.
Nunca li O Segredo, mas é assim que funciona, não é?

16 julho 2011

o meu corpo

Isto agora vai soar muito New Age mas é verdade: vivemos (no Ocidente, hoje em dia) muito desligados do nosso corpo. Cobrimo-nos de cremes, adornamo-nos, perfumamo-nos, dopamo-nos, mas não sentimos o pulsar do sangue nas veias nem as endorfinas que acalmam um músculo dorido. Vivemos de costas voltadas para os ossos, tendões, cartilagens que nos sustentam e só dão sinal de vida quando alguma coisa dói.
Mais do que pela imagem ou por um conceito mais ou menos abstracto de saúde, é por isso que gosto de fazer exercício. Para sentir o meu corpo. Para usar o meu corpo. Porque é tão estúpido desprezar o corpo como desconhecer o tipo de música que nos faz vibrar, os livros que nos alimentam, as imagens que nos tocam. Nem sempre gostei de fazer exercício. Até aos 17 anos, e graças à formatadíssima e limitada Educação Física de tantas escolas portuguesas, detestava tudo o que tinha a ver com mexer-me. E depois conheci o remo, a corrida, a dança, o yoga, e não quis mais parar. Quando paro, definho. Definham os músculos e definha-me o ânimo. Fico velha, (ainda mais) chata, cansada. Por isso, gente, a sério, mexam-se. Toquem-se. Sim, isso mesmo que estão a pensar.

14 julho 2011

stay at home mom

Olhado para os últimos posts, nota-se que estou a precisar de voltar ao trabalho. Só falo de filhos, compras, filhos, assuntos de importância nacional sob uma perspectiva infantil, e filhos. O que vale é que é só mais um mês e meio disto, que ainda começava a preocupar-me com a problemática do encaixar marcações no cabeleireiro com as aulas extra-curriculares dos piquenos. E eu nem vou ao cabeleireiro nem os meus filhos têm idade para aulas extra-curriculares. Nem eu lhes chamo piquenos. Ainda, porque agora tenho uma carrinha nova e acho que vou começar a falar com voz nasalada.

13 julho 2011

spiderman

Há 4 anos e 4 meses que estava à espera do dia em que o meu filho ia parar de ser mais querido, giro e delicioso a cada momento. Acho que esse dia chegou, é verdade. Chegámos ao topo da montanha da adorabilidade e agora é o downhill até às borbulhas, barba, não-sejas-chata-mãe, amigos com motas, mãe-vou-casar. O Gugas está a deixar de gostar de desenhos animados irritantes de pequenino. E aprendeu a dizer mentirolas. E só quer nadar debaixo de água, aprender a escrever, saber tudo sobre automóveis, aviões, países, planetas. Já sei, já sei, "eles crescem tão depressa". Mas eu recuso-me a aceitar que um dia não vou ser o centro do mundo e o cúmulo da perfeição para ele. Desculpem lá, mas exijo que ele me olhe embevecidamente, me abrace como se não houvesse amanhã, me faça declarações de amor todos os dias. Uma mãe tem direitos e o spiderman é uma seca.
Nem tudo está perdido, acabou de se vir aninhar no meu colo. Ah, bom!

11 julho 2011

iAminhavida

Ora pois, visto que o meu filho mais miúdo me roeu o cabo de alimentação do computador (deve ser por isso que ele próprio não se alimenta), tive de ir comprar um novo. Desloquei-me, consequentemente, à Casa da Maçã mais próxima e procedi à compra. Aquilo parece a Chanel dos electrodomésticos, só falta mesmo servirem-nos champanhe em flute (falta lamentável). Uma pessoa entra ali um bocado aparvalhada e só se vê rodeada de ecrãs e funcionários trendy-geek. Quando o primeiro se aproximou de mim e lhe disse o que queria, ele pegou numa caixa preta muito catita, deu-ma para as mãos e perguntou se era tudo. Era tudo, era, que o meu agregado familiar já tem 3 portáteis, um fixo, um tablet, dois leitores de mp3 e dois telemóveis, tudo começado por i. Se houvesse sanitas daquela marca, com certeza que o senhor meu esposo justificaria como comprar uma. Voltando ao cabo, olhei em volta para pagar e o funcionário sorriu e, logo ali, estendeu mais uma maquineta, que é só uma espécie de um mini-iPadezinho para enfiar o cartão de débito. Qual fila para pagar, qual caixa registadora, qual recibo (mandou-mo por e-mail, se isto já se viu?, foi mas é desculpa para ficar com o meu contacto). E trunfas! Deixei 80 dólares por um bocado de cobre coberto de branco e saí dali a achar que tenho mesmo muita pinta. Pelo menos é isso que o Steve Jobs quer que eu acredite.

10 julho 2011

é verão, impunha-se um post destes

Como fazer uma gralha feliz com 8 dólares. Fácil, fácil.

08 julho 2011

do 8 para o 80

Confesso que me anda a angustiar um pouco a ideia de voltar a Portugal e, de repente, estar de novo rodeada de gente - sim, que isto aqui é o mato. É claro que é maravilhoso deitar as saudades para trás das costas. É óptimo estar com alguém só porque sim, para um almoço, um café - não vou "tomar café" com alguém há um ano! -, um nada. É supimpa ter todo o baby-sitting que possa desejar. Mas o reverso da medalha é o fim desta existência de ilha, em que tudo depende da nossa escolha, da nossa vontade, da nossa responsabilidade, e não há ninguém a interferir, a opinar, a aconselhar. É um bocadinho como obrigarem um adulto a voltar ao lar paterno e ter quem lhe proíba uma minissaia e faça cara feia se não chegar a casa antes da meia-noite. Para quem fez Erasmus e voltou, é isso mas ao cubo. Claro que estou a exagerar, mas que vai obrigar à redefinição de papéis sociais, isso vai. E isso é sempre tão delicado...

07 julho 2011

no bom caminho

Depois da noção do tempo, a noção do espaço começa a desenhar-se com contornos mais nítidos na cabeça de four-and-a-quarter (como ele faz questão de dizer) do Gugas. Explico-lhe o mundo, os continentes, os países, os oceanos. Aproveito para a primeira lição sobre os Navegadores Portugueses, que nós não somos e nunca fomos lixo. E agora a brincadeira preferida do meu filho mais velho é desenhar grandes planisférios ao seu gosto - com África, Dinamarca, Portugal, Itália, China, Brasil, América e Disneyworld com as devidas dimensões emocionais - e sobrevoá-los com a crescente colecção de aviõezinhos. Espero que tenhas oportunidade de voar isso tudo e muito mais, filho.

06 julho 2011

eu também quero dizer uma coisa sobre as agências de rating

Os senhores que as fundaram e os que lá trabalham têm mau hálito, pelos púbicos encravados, pústulas genitais, rabo de babuíno, pés tortos, corcunda, falta de gosto no vestir e, sobretudo, uma pilinha muito pequenina. Espero que as vossas mulheres vos adornem o crónico par de chifres com novas hastes a cada dia, e que vos peguem chatos e coisas piores.

gralha

O Diogo aprendeu a dizer "gralha", coisa boa da mãe! E, como vê que me derreto, agora passa o tempo todo: "gálha, gálha, gálha". Bom demais.

05 julho 2011

educação para a igualdade

Chegou o dia em que os meus familiares do sexo masculino me vão cair em cima: acabei de pintar as unhas do meu filho mais velho. Ele escolheu o tom Cherry Glacé, da Nivea. Talvez me salve de uma morte por apedrejamento porque a coisa só durou 2 minutos e a acetona apagou todas as provas do "crime".
Sempre defendi que, na educação dos meus filhos, não ia haver coisas de "menina" e de "menino". Meninas e meninos têm diferenças biológicas e neurológicas, sim, mas eu não vou reforçar estereótipos de base essencialmente social. Não incentivo a experimentação de coisas tipicamente do género oposto; advirto para o facto de muita gente achar que isso não é "normal"; mas não proíbo nem tento dissuadir. Depois de muitas vezes em que disse ao Gugas que, ou cortava as unhas, ou eu lhas pintava, ele escolheu a segunda opção. "Não te importas que os outros meninos digam que o verniz é só para as meninas?", perguntei. "Não. Os meninos também podem usar.", retorquiu. Quando percebeu que tinha de esperar 10 minutos para que secasse: "Quero tirar, quero tirar! Quero ir brincar com os carrinhos."
E eu suspirei intimamente, que isto uma pessoa é muito moderna mas não gosta que os filhos sejam alvo de chacota na piscina.

04 julho 2011

auto-conhecimento de fêmea

Consigo adivinhar em que fase do ciclo estou pelo meu nível de paciência em relação às dissonâncias domésticas. Durante a ovulação, uma tampa de sanita (que acabei de limpar) com salpicos amarelados dá-me vontade de chorar. Mesmo antes do Dia P, uma bola de roupa (que lavei e dobrei amorosamente) atirada para o armário dá-me vontade de lhe despejar o cesto de roupa suja na cabeça. No resto do tempo, costuma ser suficiente entoar o mantra "nãosejasumamulherchata, nãosejasumamulherchata, nãosejasumamulherchata" para conseguir lidar com estes pequenos nadas e pedir, com o sorriso possível, que as coisas sejam feitas de outra forma.

03 julho 2011

ainda vais a tempo

Pessoas que gostam de mim continuam a alertar-me para o poço dos infernos que é voltar a Portugal, neste momento. São queridas e bem intencionadas. Mas deixem-me tentar explicar, sem ser com o argumento fatalista da pátria e da alma e do Tejo: isto tudo, meus amigos, é só um mundo. É todo ele mais ou menos o mesmo. O céu é o mesmo. As pessoas são basicamente as mesmas. Os sorrisos são os mesmos. A escuridão é a mesma. As regras de trânsito, a comida, a música, os cheiros não são os mesmos. Mas o fundamental não difere assim tanto. Há dias fáceis e há dias difíceis em todo o lado. E chega uma altura em que temos de decidir se queremos estar onde somos realmente felizes ou se queremos continuar a forçar a felicidade só para dizermos que if I can make it there, I'll make it everywhere. Recuso-me a desempenhar um papel quando não fui eu a escrever o guião, ainda que a história pareça ter mais consistência. A minha vida pode ser americana, pode ser outra coisa qualquer. Mas a vida que eu quero construir para mim - e para os meus filhos, já agora - é portuguesa. Com muitos temperos e amigos do resto do mundo, se possível.

02 julho 2011

fátinha

Ainda no top 10 das desvantagens do regresso: a miséria da nossa justiça. Tenho muita, muita vergonha. É medieval. (e quem diz a fátinha diz os outros todos, não é uma questão partidária)

30 junho 2011

ainda a questão linguística

Não é que eu seja uma ave invulgarmente cosmopolita, mas este mundo em que vivemos apresenta-nos cada vez mais pessoas de diferentes nacionalidades. E chega o dia em que olhamos para os nossos contactos telefónicos, para a nossa lista de amigos do Facebook, e dizemos: "olá... tu queres lá ver que metade do pessoal que aqui está não compreende a minha língua?" E depois? Fazemos aquela figura mete-nojo de começar a escrever só em Inglês (sendo que alguns também não o compreendem)? Mantemos um certo autismo luso e quem quiser que aprenda? Damo-nos ao trabalho (e algum exibicionismo linguístico) de passar a publicar tudo em várias línguas, como se fossemos um guia turístico? Ainda não decidi. E vocês, como fazem?

29 junho 2011

desperdício de conhecimento

No top 10 das piores consequências de deixar os EUA está o facto de o Gugas ir esquecer a Língua Inglesa. Aprendeu-a, como qualquer criança da idade dele, com uma rapidez incrível. Fala com um sotaque nova-jersiano horroroso (bom, nele fica giro e querido). Corrige-nos as construções frásicas e as expressões idiomáticas (o pirralho). E aposto um dedo mindinho que, chegado a Lisboa, se vai recusar a proferir uma palavra que seja em Inglês - principalmente porque toda a gente lhe pede que o faça, como se ele fosse uma atracção circence. E pronto, foi assim que tivemos um filho bilingue durante um ano que, daqui a alguns tempos, terá de re-aprender a falar o inguelês que todo o tuga fala. Já o meu filho americano, sai daqui a dizer uma única coisa da sua terra natal: da-da (pai). Se for só um 'da', é porque nos está a cravar qualquer coisa.

28 junho 2011

foi mesmo muito bom

Os aviões podem atrasar, a barriga pode doer, a chuva pode encharcar, o bebé pode não comer, as filas podem eternizar, o sol pode escaldar, os imprevistos podem surgir, mas não há nada que possa estragar as férias a uma família com muita vontade de estar junta e divertir-se, num lugar cheio de fantasia e coisas bonitas. É certo que foi muito cansativo para o Diogo - mas ele também se divertiu imenso, apesar de não se ir lembrar. Estes poucos dias souberam a muito e foram aquilo que desejámos e ainda mais. Depois de ter estado lá há 19 anos, foi com outros olhos que revi tudo, os olhos brilhantes dos meus filhos, a absorver cada imagem, cada surpresa, cada momento único. Valeu mesmo a pena.

24 junho 2011

disneyworld

Vamos só ali à Flórida visitar o Mickey e já voltamos. Obrigadadeus.

22 junho 2011

e não deu para ler nem meia dúzia de páginas

6 meses depois, cerca de 40 mil livros reclassificados e mais 180 mil livros movimentados (sim, só por mim), 3 quilos a menos, muitas nódoas negras a mais, chegou hoje a hora de dizer adeus à biblioteca da Universidade de Princeton. Foi com muita nostalgia que empurrei o meu carrinho azul pelos 6 pisos nas últimas horas e tive de deixar para trás tantas obras, tantos autores, tantos colegas e amigos. Mas chegou a hora de virar a página (a piadinha previsível) começar as férias, antes do regresso ao trabalho em Portugal.

21 junho 2011

longe

Uma vida que acabou. Uma outra vida prestes a começar. E não há telecomunicações nem redes sociais que superem a distância, a necessidade de partilhar estes momentos tão grandes. Enormes. As lágrimas de tristeza juntam-se às de antecipação e alegria e é difícil estar do outro lado de tudo. Queria estar lá hoje. Porque, se nos dias iguais a todos os outros sentimos cada quilómetro, hoje sentimos cada milímetro de lonjura. Fazia falta abraçar e olhar olhos nos olhos, sem ecrãs pelo meio.

19 junho 2011

saído de mim

Rezingão, inconstante, madrugador, pisco, mas também cheio de energia, dançarino e desenhador precoce. Não podiam ser só coisas más que o Diogo herdou da mãe :)

17 junho 2011

fim do dia

Trabalho, trânsito, compras, tudo fica para trás quando se mete a chave à porta e entra em casa. A nossa casa. Acho que esta sensação de casa só existe quando estamos longe dela todo o dia. A sensação de família é muito diferente quando não estamos imersos nela a cada minuto, quando há outras coisas completamente alheias a nós que nos ocupam por algumas horas.
Em breve, voltarei a estar em casa, mãe a tempo inteiro. Escolhi dar umas férias grandes aos meus filhos (e a mim) antes do recomeço do trabalho em Lisboa e quero aproveitar muito bem esse tempo. Mas também sei que me vai fazer falta o sair de casa - e o voltar, ao fim do dia. Quase tudo o que se vive de forma contínua torna-se invisível, imperceptível; espero continuar a sentir o prazer das coisas de casa e da maternidade neste período de imersão completa. É só mais uma semana e splash!

15 junho 2011

o papel da testosterona na eficiência doméstica

É espantoso como um homem consegue lavar toda a louça de uma refeição em 5 minutos e uma mulher demora muito mais. É espectacular - ou então, não.
Quando um homem "lava a louça", pega em tudo o que está no seu ângulo de visão - pratos, talheres, copos, babetes, toalha de mesa, cão - e atira para dentro da máquina de lavar, sem rentabilizar o espaço da mesma, e enche a panela que sobra com um copo de detergente, esfregando-a despreocupadamente e passando depois por água. A seguir, a panela fica a secar sobre a poça que criou na bancada da cozinha, enquanto a máquina é posta a trabalhar apesar de não estar cheia.
Quando uma mulher "lava a louça", levanta tudo o que estava na mesa, sacode e dobra a toalha, coloca cuidadosamente os pratos e talheres nos recipientes próprios da máquina e, de seguida, lava à mão o que será preciso para o dia seguinte. Tudo é colocado no escorredor com minúcia, por ordem de tamanho, evitando empilhamentos periclitantes que, certinho direitinho, acabam em copos partidos e chávenas lascadas. A seguir, a mulher guarda os restos da refeição no frigorífico, arruma tudo no seu lugar, esfrega os bicos do fogão, lava o tabuleiro do bebé, as bancadas da cozinha, o micro-ondas, varre o chão e, se ainda lhe sobrarem forças, passa a esfregona com lava-tudo. E o pior de tudo é que, no fim, sente genuíno prazer em ver a cozinha a brilhar em sentir o cheirinho a lavado. Parva da mulher.

14 junho 2011

realidade distorcida

Há imensas pessoas que acham que a vida delas é muito mais negra do que realmente é; também há algumas que preferem olhar para os seus dias com lentes cor-de-rosa. As primeiras estão a precisar de anti-depressivos; as segundas, de aprender a ser honestas consigo próprias.

10 junho 2011

desumanidade

Considero-me previlegiada no que diz respeito aos que me rodeiam. Ouço tanta gente queixar-se de família, amigos (?), vizinhos, colegas, gente mesquinha e capaz das coisas mais terríveis. Pois eu só costumo encontrar pessoas simpáticas, generosas, com bom fundo. Ainda não percebi se sou muito totó ou tenho mesmo muita sorte. Seja como for, também eu cheguei ao dia em que reconheço: há gente muito parva. Muito estúpida. Mesquinha, desonesta, com atitudes que não têm explicação para o comum dos seres humanos. Será que se apercebem disso? Será que gostavam de ser diferentes? É que eu gostava de não ter os meus defeitos, acho que tenho consciência de boa parte deles. Será que acham que não há outra maneira de viver a vida?

09 junho 2011

o doce efeito da memória

Já sei que, quando me for embora, os Invernos passados vão ser feitos de neve fofa e de lareiras, e não de frio e reclusão; os Natais vão parecer cheios de azevinho e biscoitos, e não de saudades da família; vamos sentir falta do Halloween e do Thanksgiving, e não nos vamos lembrar de todas as datas importantes em que estivemos longe de quem realmente importava; a paisagem vai ser recordada como um cenário idílico de bosques, flores e lagos, e não como o lugar em que até para comprar um pacote de leite precisamos de um automóvel. À distância, com o tempo, ultrapassadas todas as dificuldades, a memória que fica de uma parte da nossa vida é muito mais bonita e inócua do que a realidade que se passou. As lágrimas, o isolamento, o vazio, o desenquadramento desaparecem de cena e deixam apenas um retrato a sépia de dias de luz e harmonia familiar. É injusto. Mas ainda bem que é assim, é bom deixar o passado bem arrumado e fazer de conta que as coisas foram perfeitas.
É verdade que vou olhar para estes dois anos em Princeton e vou ter saudades de muitas coisas. Também vou chorar com saudades daqui, parece que colecciono saudades; mas também é verdade que continuo a saber por que volto. Em cada dia que passou quis voltar.

06 junho 2011

o pequeno esforço da readaptação

Mal apresentei a demissão começaram-me logo a subir uns formigueiros pelo corpo acima e deixei de conseguir trabalhar. Ainda nem pus os pés fora da gringolândia e já perdi toda a pica para bulir. Imagino que, quando pegar no automóvel daqui a pouco, desato a buzinar e a chamar nomes ao pessoal que vai a 10km/hora. Ah, que falta me fez a minha portugalidade...

05 junho 2011

o que importa no meio disto das eleições

Deixo um país com um Chefe de Estado charmoso e elegante para voltar a outro em que o novo Chefe de Estado tem olhos bonitos, cabelo penteado e aposto que anda sempre perfumado. Prioridades, como quaisquer outras. Mesmo assim não me importava de importar o Obama.

03 junho 2011

adeus torradas com manteiga de amendoim

Está na altura de dizer adeus a carregar livros e olá a a ler livros. E revistas científicas, estatísticas, entrevistas, questionários. Pequena gralha volta à investigação e à pátria, apesar de ainda não saber exactamente quando. Entretanto, espero que dê para aproveitar um bocadinho do Verão nos EUA e proporcionar umas férias grandes aos meus rapazes, que também já merecem ver a escola pelas costas.
Vou ser a única pessoa a engordar no Verão, agora que vou deixar de fazer 8 horas de exercício diário. É bem feito, que é para não fazer pouco das dietas da blogosfera. Dêem-me um mês e já ando a coleccionar as 1001 maneiras de confeccionar alface com aipo e sumo de limão.

01 junho 2011

ralações

Passámos de uma fase em que o Diogo chorava o jantar todo para uma nova fase em que ele só chora e não engole nem uma colher de comida. O cansaço. O desespero. O que fazer? Tantas regras de ouro da boa educação que já mandámos às urtigas e não há quem o convença a engolir mais do que uns bagos de uva. Já não sabemos mesmo o que fazer...

30 maio 2011

olá, eu sou a gralha e gosto de bagas

Nada como o impulso suburbano-eco-chic de brincar aos camponeses e pegar na pequenada, nos chapéus, nas cestas e ir colher o que a Natureza (ou uma quinta criada para esse efeito) tem para nos oferecer. A apanha do morango é uma coisa para lá de fantástica porque não estraga o verniz das unhas, não cansa, e traz-se para casa um alimento pouco calórico e que dá para fazer imeeensas coisas giríssimas. Além disso, os piquenos apanham ar, fazem festinhas às cabras e aos burros (e depois desinfectam as mãos com o líquido antibacteriano em frascos afixados de 50 em 50 metros nas vedações), ficam derreados e deixam os pais dormir até mais tarde. Prevejo que esta será um dia a nova moda da blogosfera, só é pena ainda não haver muitas destas quintas pick-your-own-cenas em Portugal.
Ontem, cinco quilos de morangos depois, voltámos a casa e enchemos a barriga. De morangos. E de batido de morango, gelado de morango, espetadas de morango, tarte de morango, granizado de champanhe e morango. O que sobrar, vai para compota. Mal posso esperar pela época da framboesa, da amora e do mirtilo.

27 maio 2011

a banheira, esse berço do multitasking

Ahh, chegar a casa ao fim do dia (i.e., às 17h) e tomar um bom duche relaxante, tirar toda a poeira, todo o cansaço, esvaziar a cabeça de qualquer preocupação. Só que não. É no banho que planeio o dia seguinte, o trabalho dos cinco membros da minha equipa, o que os meus dois rapazes vão vestir, o jantar, os e-mails e postagens a escrever (sim, esta surgiu-me enquanto esperava que o amaciador TRESemmé Moisture Rich fizesse efeito), o que é preciso acrescentar à lista semanal do supermercado, o que o Gugas vai levar para o próximo Show-and-Tell, os downloads que preciso de fazer, e a lista não tem fim. E vocês, qual é o momento do dia em que organizam o periclitante equilíbrio da vossa agenda pessoal/doméstica/profissional/etc.?

26 maio 2011

a vida a lápis de cera

Apesar de bradar aos sete ventos que sou uma mulher-mãe-profissional muito bem resolvida, é claro que isso é tudo uma grande treta. Não há dia que passe que eu não sinta o gume afiado da culpa pelas sestas não dormidas do Diogo na creche ou pelas porcarias-disfarçadas-de-almoço que o Gugas come na escola. Nessas alturas, surge na minha cabeça a imagem da mulher dos anúncios de detergentes, sorridente, perfeccionista e segura, que nem sonha em mandar os miúdos para as mãos de outra cuidadora antes que eles lhe sejam arrancados pela escolaridade obrigatória.
Só que também é verdade que em todos os desenhos que o Gugas faz da família estamos os quatro a sorrir. Sempre. Tenho de acreditar que isso é sinal de que não andamos a fazer a coisa de forma completamente errada.

24 maio 2011

antes de ter 90 anos

Ainda vou ter aulas de ballet (clássico, contemporâneo, logo se vê), estudar Etnografia, aprender a falar espanhol decentemente, aprender a falar árabe só o suficiente para botar figura, fazer caminhadas nos Pirinéus, escrever e ilustrar a fábula da Gralha e do Lobo, recolher um cão de um canil, andar de canoa na Venezuela, ajudar a construir uma biblioteca, correr uma maratona, ter o meu próprio jardim de ervas aromáticas, contar estórias aos meus netos, passar muitos dias perto do mar. E ter a minha própria casa. Pronto, era só para não me esquecer.

23 maio 2011

vou queixar-me do tempo

Retiro tudo o que disse acerca do clima daqui. Estamos a um mês do Verão e as temperaturas não passam dos 15 graus. E chove. Chove. Não é por ouvir toda a gente a falar de praias e esplanadas; nem por ainda não ter podido usar vestidos; nem sequer por ainda não termos aberto a época dos piqueniques no jardim. É mesmo porque já ia estando na altura dos meus miúdos começarem a usar calções, que não ganho para as calças rasgadas e joelheiras.

21 maio 2011

mais valia que fossem todos levados daqui, realmente

Se estão a ler esta mensagem é porque a sua autora foi rapturada lá para os infinitos, longe de vós mortais incrédulos que estais por estas horas a ser assolados por terramotos, catástrofes, viagens de autocarro em Agosto com muita gente e pouco desodorizante. Ou então é só porque eu me esqueci de vir aqui apagar o post que deixei programado desde ontem à noite. Ou então não esqueci, deixei-o aqui só porque já há muito pouca coisa no mundo com a qual se possa gozar sem ser politicamente incorrecto. Mas ainda posso gozar com este bando de estafermos que acham que o mundo acaba com hora marcada, como se fosse o season finale do Lost, ou assim, não posso? Totós.

18 maio 2011

de longe, o melhor de viver no faroeste

A vida selvagem. Ontem tive muita dificuldade em explicar ao Gugas que os únicos animais selvagens em Lisboa são os pombos. Ele sugeriu que os lobos americanos apanhem um avião e vão viver para o jardim da Gulbenkian. Por muito que adore a civilização e a paisagem urbana da minha cidade, vou sentir a falta de cada esquilo, cuco, sapo, corvo, ganso, veado, marmota, perú selvagem, castor e urso. Agora até temos ursos em Princeton. Já para não falar nos duendes que se escondem no jardim, de certeza absoluta.

17 maio 2011

dieta milagrosa

Dou vinte e cinco tostões a cada criatura bloguista do sexo feminino, entre os 20 e os 50 anos, que não esteja neste momento em dieta de emagrecimento. Exigo provas, como o total desconhecimento do número de calorias de um iogurte magro ou, preferencialmente, da mera existência do conceito de iogurte magro. Também servem fotografias de pratas de bonbons, bocas sujas de Oreos, pacotes de Doritos ou, de preferência, latas de leite condensado vazias.

Confesso desavergonhadamente que dei este título ao post apenas para apanhar montes de leitoras vindas de motores de busca. Já ninguém me lê e eu sou uma diva, preciso do amor do meu imenso público.

16 maio 2011

por outro lado, com a idade

Não são só os cabelos brancos, a força da gravidade, as rugas (por falar nisso, descobri um serum óptimo na Sephora. Tirou-me uns 5 anos, a sério). Envelhecer não nos traz só sabedoria, também revela novos defeitos - ou então torna-nos mais conscientes dos mesmos. Estou muito menos disposta a fazer fretes. E manipuladora, tão manipuladora que tenho de me controlar. Com o andar da coisa, vou ser absolutamente insuportável antes de chegar à menopausa. Haja quem me ature.

13 maio 2011

restaurador olex

Fiquei órfã de avô aos 10 anos, aquele avô com quem tenho tudo a ver. Faz-me falta todos os dias e mendigo a atenção e o olhar de um avô desde então. Acho que é por isso que tenho especial carinho por alguns homens mais velhos, homens honestos, esforçados, pacientes, que nem sempre têm quem os valorize. Uma mulher de idade é uma pessoa cansada, tantas vezes amargurada, mas vitoriosa do que ultrapassou; um homem de cabelos brancos é um rapazinho com saudades do cólo da mãe que já perdeu.
Trabalha comigo um senhor que, na iminência de ter de procurar novo emprego, escureceu o cabelo. Dá-me vontade de chorar que, nesta idade, ainda não tenha a segurança económica que merece.

07 maio 2011

os náiques fazem voar

Ontem fui ter com a minha Inesa e outra amiga dela a Nova Iorque e andámos a ver a cidade da perspectiva gaja - Sexo e a Cidade, Lipstick Jungle, Gossip Girl, deixo à vossa escolha. Abdicámos dos saltos altos e passámos horas a andar, a gralhar, a ver lojas, a comprar mais do que o devido, a passear, a descobrir, enfim, o dia de férias perfeito! Terminou em beleza num jantar em Brooklyn (que ainda não fiquei a conhecer devidamente) e depois tive de dar uso à minha mais recente aquisição (cf. abaixo) para correr que nem doida e conseguir entrar no combóio da meia-noite segundos antes de partir. Cheguei a Princeton mais morta que viva, antevendo o despertar dioguino daí a quatro horas. Ahhh, mas valeu a pena :) Queridas amigas que ainda não vieram visitar-nos, venham quando quiserem. Despachem-se, que isto não dura para sempre.

04 maio 2011

america, america!

Mataram o mauzão. O preço da gasolina vai baixar e a taxa de desemprego já baixou. Não tarda, todos vão retomar a colecção de cartões de crédito e a compra de mansões gigantes nos subúrbios, mobiladas bienalmente e apetrechadas de jardim, deck, piscina, garagem para quatro automóveis (mais que só serve para guardar outras coisas). É o país onde é possível encontrar uma equipa de trabalho constituída por uma portuguesa, um veterano do Vietname, uma lésbica assumida, uma indiana, um judeu, laborando lado-a-lado com uma energia interminável, esperando o dólar ao final da quinzena. É o anúncio da Coca-Cola tornado realidade. É um sinal de esperança num mundo assolado de intolerância, injustiça, medo, desilusão. E eu sou a ave rara que quer dar o fora.

30 abril 2011

miaúfa

Li há dias uma mãe dizendo que não se inquietava com vírus e demais ameaças pequenas ao bem-estar filial. Pois eu tenho mais medo das doenças e sofrimentos dos meus filhos do que se me largassem no meio de leões com o rabo pincelado de molho BBQ. Não acredito em mães sem medo.

25 abril 2011

resoluções para 4 dias

Nesta semana em que estou sozinha com os filhos desligo o computador e vou aproveitar para ler, tomar longos banhos de imersão, adormecer de janela aberta com o coaxar das rãs, não cozinhar, não me irritar, não me apressar.
Está-se mesmo a ver.

20 abril 2011

se ao menos isto e aquilo

Ontem estive a dar dicas de exercicios para as coxas a uma colega minha que podia ser modelo da Victoria's Secret. A sério que é tão gira e, como dizê-lo?, boa que eu própria quase lhe dava uma trinca; e, no entanto, anda preocupada com a firmeza das pernas.
Este ano consegui alcançar o ponto inédito em que me sinto, ao mesmo tempo, esqueléctica e gorda (em partes diferentes do corpo, claro). Quão estúpido é que é isso? Bastante. E, ainda assim, congemino planos, cremes, coberturas, tudo o que possa ajudar a apagar esta sensação de insuficiência. Ser mulher é uma coisa muito palerma, às vezes...

19 abril 2011

da mediocridade

Não começo a escrever um dos vários livros que já pensei porque tenho horror a produzir uma coisa medíocre. Agora ando a ler de fio a pavio o blogue da Ana Cássia Rebelo e já nem me atrevo a escrever aqui. Ainda bem que não vejo programas de culinária senão a minha família arriscava-se a passar fome.

14 abril 2011

assim é que se conhecem os amigos

É tudo muito bonito, ah e tal, felicidades e beijinhos, mas a única pessoa que se chegou à frente para me oferecer o presente que pedi foi a Vera. Grande mulher, tu sabes aquilo de que este país precisa. E de ti na CMM, evidentemente!

13 abril 2011

parabéns a mim

Por estas horas (post programado, como quase todos) estou a comer bolo de framboesas ao pequeno-almoço. E depois vou transportar mais uns milhares de livros. Se quereis ser uns queridos e oferecer-me alguma coisa hoje, é um emprego jeitoso em Lisboa a começar a 15 de Setembro. Em não sendo possível, também gosto de chocolates, pronto.

12 abril 2011

coitados dos homens

O pessoal anda a falar, a propósito disto, manifestando solidariedade com as novas angústias paternais. É verdade, acredito que sofram. Mas tenho sobretudo pena deles porque os filhos pequeninos gostam mais das mães do que dos pais. E isso é injusto. Eles até podem chegar a casa, fugindo o mais cedo que conseguiram do trabalho, à espera de um abraço da criançada; mas o abraço dado à mãe é mais prolongado. Deve ser tramado.

Adenda: Faltou mencionar quem, com muito mais seriedade do que eu, falou do assunto. Perdoem-me a falha a Mãe Capotada, a Sofia, a Marta, a Duchess e quem entretanto se tenha aliado à causa.


as fronteiras da mitologia infantil

Gugas: "Mamã, a Fada Sininho existe mesmo?"
gralha: "Não, filho, é só uma personagem de desenhos animados, como o Mickey ou o Handy Manny. A única fada que existe mesmo é a Fada dos Dentes."
Enquanto proferia estas palavras apercebi-me do cerco que se aperta na minha vida familiar, da necessidade de esclarecer quais as fantasias oficiais do pedaço e quais aquelas que devem deixar-se cair. O Gugas anda muito inquieto com a diferença entre o mundo real e o imaginário, adora jogos de role-playing e tem uma quedazinha especial para o dramático. Ainda dá em actor de telenovela venezuelana, se não temos cuidado. De modo que a lista oficial de personagens imaginárias (shhhiuu, mas não digam aos meus filhos!) da família gralha é a seguinte: Pai Natal, Coelho da Páscoa, Fada dos Dentes e os Duendes que vivem na floresta junto à nossa casa. Vamos ver até quando dura...

11 abril 2011

eu também quero fazer recomendações ao éfeémei

Estimados e simpáticos senhores (que daqui a uns anos nos vão perdoar a dívida, certo?),
Já que vão entrar pelo meu ninho dentro e desatar a gralhar acerca do que tem de ser feito em troco do vosso generoso "empréstimo", tenho algumas sugestões:

1. Aumento, e fiscalização efectiva, dos impostos sobre a propriedade mobiliária e imobiliária. Que não é só quem vive do trabalho que utiliza as estradas, os hospitais e as escolas.
 2. Limitação máxima dos salários base de qualquer funcionário público ao nível do Presidente da República e do Primeiro-Ministro. Sim, isso incui CEOs de empresas e institutos públicos.
3. Benesses como viagens em primeira classe, automóveis topo de gama, motoristas e assessores particulares são apenas para ministros e presidentes. O resto partilhe ou pague a diferença do seu bolso.
4. Avaliação independente de todos os funcionários do Estado e despedimento daqueles que, por um período superior a 3 meses, tenham produtividade inferior a 80%. Bónus para os que tenham produtividade superior a 100%. (é assim comigo)
5. Todos os feriados (excepto o Natal, o Ano Novo e o Dia de Portugal) passam a ser gozados na segunda-feira ou sexta-feira mais próxima do dia em questão. Acabam-se as "pontes".
6. Redução do período de férias de qualquer funcionário do Estado a 22 a 25 dias úteis (consoante a produtividade) por ano. Isso inclui as férias escolares e judiciais, está claro.
7. Avaliação e redistribuição por leilão dos 2 milhões de hectares de terra abandonados, caso se confirme que isso se verifica há mais de 2 anos.
8. Obrigatoriedade da emissão de facturas/recibos por qualquer entidade fornecedora de produtos ou serviços.
9. Suspensão do pagamento de pensões por reforma/invalidez a todos aqueles que continuem a ter uma ocupação remunerada de forma contínua. Se estão disponíveis para trabalhar, não precisam ainda da pensão.
10. Penalização dos pagamentos às entidades públicas na área da educação, saúde e justiça (propinas, taxas moderadoras, etc.) aos cidadãos que, por rendimentos ou propriedade, estejam num nível socioeconómico correspondente aos 20% mais ricos do país de forma a garantir a gratuidade dos mesmos serviços aos 20% mais pobres.
E é só isto. Espero que ajude.
Cumprimentos grálhicos

08 abril 2011

o problema da peúga

Queridas americanas, por favor parem de usar peúgas de algodão com sabrinas. Não estou à espera de iniciar a revolução que vos faria deixar de usar peúgas de desporto todo o santo dia mas, pelo menos, quando usam sabrinas. É que prejudica-me as córneas, a sério. Obrigada.

07 abril 2011

realmente ja' devo estar muito americanizada

Por que diabo e' que os sindicatos convocaram uma nova greve geral para Maio? O governo nao caiu ja'??? A serio, e que tal deixarem as pessoas, tipo, trabalhar, para ver se as coisas nao pioram ainda mais? Que vergonha!

05 abril 2011

a proporcionalidade da coisa

O meu marido não me ofereceu uns Jimmy Choo como aconteceu à Cocó na Fralda; em compensação, fez-me panquecas de mandioca com côco e leite condensado. Quem já provou compreenderá o meu regozijo. (e teve de encomendar a farinha de mandioca da Amazon e tudo, vejam lá)

03 abril 2011

Hoje faço 13 anos. Ainda sinto muito mais a alegria pura da infância do que as inquietações da adolescência. Ainda bem :)

02 abril 2011

coisas boas da minha vida

Ir deitar-me e ter um desenho do Gugas escondido debaixo da minha almofada :)