10 outubro 2011

serviço público/ publicidade gratuita

Quem tem filhos que não comem está habituado a ouvir a célebre frase "quando ele tiver fome logo come". Isso até pode ser verdade para crianças que não comem porque não gostam/não estão habituados a experimentar novos alimentos, para os que estão em fases de desenvolvimento e adaptação específicas, ou para os que estão doentes. Mas há quem não reconheça que, tal como há adultos com muito ou pouco apetite (como eu), também há crianças que, pura e simplesmente, não têm fome. Nos adultos, isso ajuda-os a caber num XS; numa criança, pode ter consequências do ponto de vista da resistência a doenças e mesmo do crescimento (já para não falar do ambiente familiar às refeições...).
Posto isto, sinto-me no dever de partilhar a (re)descoberta do estimulante de apetite que o Diogo começou a tomar há cerca de 3 semanas, o mesmo que a minha Mãe me deu em pequenina. Se ele anda a comer como um abade? Não. Anda a comer um pouco de tudo, a todas as refeições, com equilíbrio. Meia dúzia de passas ou meia banana já não são um jantar típico. Neste período, já ganhou cerca de um quilo, anda muito mais bem disposto, dorme melhor, em suma: o paraíso. E não houve um único pediatra que me falasse nisto (ainda que a toma, agora, esteja a ser acompanhada por pediatra).
Chama-se Viternum, à venda na sua farmácia.

07 outubro 2011

monstros

O mais velho tem medo-fascínio do escuro e de tudo o que está nele escondido. Arma-se de lanternas e avança-recua para os quartos de luzes apagadas, florestas amazónicas de perigos insondáveis. O mais novo cumpre o seu papel ao mais alto nível: esconde-se, abre a bocarra(zinha) semi-dentada e emite os sons mais assustadores que consegue. Perseguem-se, assombram-se, duas migalhas de pijama invocando e espantando fantasmas mesmo antes de se irem deitar - deve ser por isso que nunca lhes dei por pesadelos.

Post inspirado pela Lebasiana.

desqualificação laboral

Dava-me um jeitão não ir trabalhar hoje para pegar na trincha e pintar as portas e caixilhos da minha casa. Já para não falar dos furos na parede que é preciso fazer e de todas as estantes que há para montar. Seja como for, a minha ciência vive daqueles que se queixam do trabalho que têm. Se calhar mais valia dedicar-me a essa espécie de trabalho de campo.

05 outubro 2011

croquete (sim, aparentemente é uma semana com títulos destes)

Não estivesse o meu telemóvel bloqueado desde que desemigrei e hoje botava aqui daquelas fotografias bonitas com praia, unhas dos pés envernizadas, o peixinho grelhado que comi ao almoço e uma ou outra gaivota a voar. Mas não. Limito-me, portanto, a dizer que este foi um feriado maravilhoso, que Sesimbra estava um encanto (e bem menos cheia do que a Arrábida, onde tentámos ir antes), e que o Verão pode continuar até ao ano que vem, a ver se eu me importo.
Ah, o croquete é o meu mais pequeno na areia, nas ondas, na areia, nas ondas, de cabeça na areia, a levar reboletas nas ondas. E provavelmente o que ele deixará no bacio amanhã de manhã (sim, já re-inaugurámos esse instrumento emblemático da maternidade).

04 outubro 2011

o post do não-foi-bem-isso

Depois de duas horas ajoelhada no milho (com este calor, quase fazia pipocas) para ganhar consciência da dimensão pecaminosa da minha irreflectida afirmação, estou em condições de vir aqui proclamar a minha inocência e, ainda assim, pedir desculpa a todos os que se sentiram lesados.
Se me permitem, passo a expôr os meus argumentos:
1º A minha mãe não fez carne assada para eu trazer para o almoço. Sobrou do jantar e eu afiambrei-me;
2º Não tenho microondas no trabalho, pelo que como tudo frio - o que contribui para os meus créditos de auto-comiseração;
3º Quem mais sofre com o cheiro a carne assada são os meus colegas de trabalho, que nem sequer a provam (mas eu ofereço!, antes que me apedrejem);
4º Acho mesquinho que venham aqui acusar-me de peito aberto: quem de vós nunca trouxe marmita para o trabalho?
5º Finalmente, gostava imenso que toda a gente tivesse mimos de mãe, trabalho e olfacto (mais ou menos por esta ordem de prioridades) mas não posso carregar as culpas do mundo se isso não acontece;
6º E agora o clássico: isto é um blogue público, só vem aqui quem quer. Se não gosta, não come.

carne assada

No top 10 das coisas desagradáveis disto de ser remediada está o facto de passar a tarde a trabalhar com cheiro à comida que trouxe de casa da minha mãe.

E é nestas situações que penso como é bom que quase ninguém leia isto - se fosse uma Pipoca ou uma Cocó a dizer tamanha enormidade, levava logo com uma enxurrada de mensagens de ódio porque "ao menos tens o que comer", "eu já não tenho mãe que me faça esses mimos", "dá graças por teres trabalho" ou mesmo "és uma cabra insensível: o meu padrinho perdeu o olfacto na guerra e bem gostava de poder cheirar alguma coisa!"

blogcatita

Catarina, se me ouves: não consigo aceder ao teu blogue (e não tenho o teu e-mail). Is there anybody out there..?

03 outubro 2011

três de outubro

Há dois anos, ala para os EUA. No ano passado, não faço ideia (acho que tinha começado a trabalhar num sítio onde só estive duas semanas). Este ano, fico desmaridada durante a semana. Ele apanha o comboio e vai ganhar o pão para Coimbra, e nós ficamos por Lisboa. Enquanto esperamos pelo contentor e acabamos de mobilar a nossa casa, deixamo-nos estar em casa dos meus pais.
É estranho. Uma pessoa dorme todas as noites ao lado da mesma pessoa nos últimos cinco anos e tal, e agora faz o quê? Põe só uma almofada na cama? A quem é que dou pontapés enquanto sonho que sou uma ninja assassina? Quem é que dialoga comigo enquanto falo a dormir? Quem é que se zanga comigo porque corto as unhas dos pés para dentro da sanita? Pronto, como em tudo, lá nos habituaremos. E esperamos que seja só por três meses.

02 outubro 2011

correndo o risco de me tornar repetitiva e (ainda mais) chata

Como é que se pode comparar dias eternamente iguais, em que só mudam as estações do ano (e agora já outona em força, por lá), a dias imprevisíveis excepto na sensação de casa? Estar em casa. No nascer do sol (lindo!) junto ao rio, com amigos, sozinha, com os filhos, no trabalho, na caixa de supermercado, em casa. Sem me perder na tradução, sem complexo de ilha, sem me sentir fora de pé - e farta de ficar parada, a boiar, para não nadar até à exaustão.
"Então, e como foi a experiência de viver nos EUA?" Foi boa. Foi como vestir a bata, entrar no laboratório, espreitar pelo microscópio e observar quatro celulazinhas semi-inertes ao longo de vinte-e-quatro meses. E depois despir a bata, enviar o relatório, voltar para casa e comer um prato de sopa de grão com espinafres.

Este hoje vai para a Leonor (e para todas as minhas amigas emigradas, já agora).

28 setembro 2011

detalhes que não interessam a ninguém

E habituarmo-nos outra vez a usar sapatos sem ser na rua?

27 setembro 2011

vir para aqui descansar

Pois que estou feliz com o meu regresso ao trabalho (e à investigação) e devo confessar que não é só pelo que faço aqui - que, na maior parte do tempo, não é blogar - mas pelo facto de os meus ouvidos e a minha cabeça descansarem um pouco. Uma mãe decente não admite uma coisa destas mas eu admito, do fundo da minha indecência, que já estou a dar em maluquinha com o Diogo a chorar cerca de 15 horas por dia e a pedir colo sempre que está acordado. Meu rico filho, compreendo o teu sofrimento e desdobro-me para te ajudar a ultrapassá-lo, mas já faltou mais para os teus avós nos convidarem a sair lá de casa.

26 setembro 2011

o alentejo também estava uma maravilha


E que bom que foi rever amigos e conhecer os novos sobrinhos :) É uma sensação nova, esta de ser tia, e gosto muito. Tenho vontade de os ver crescer todos juntos e fazer muitos mais programinhas destes.
Agora é mais uma semana de trabalho e tentar fazer render os dias, que parecem sempre demasiado curtos.

23 setembro 2011

a adaptação

Tem sido feita de acordo com as características de cada um. O pai está bem em qualquer lado. A mãe (que nunca mudou o fuso horário do computador - denial is a river in Africa...) acha normalíssimo estar aqui e não se lembra sequer de como foi possível viver noutro sítio. O filho mais velho está bem em qualquer lado (desde que esteja lá a mãe). E o filho mais novo? O filho mais novo está a lidar como pode com tanta mudança que não compreende. Num dia está nos EUA, noutro em Lisboa. Noutro no Algarve, de novo em Lisboa e depois no Alentejo. Num, em casa dos avós maternos, noutro em casa dos avós paternos. De 24/7 com a mãe e o irmão em casa para a entrada progressiva na escola (travail oblige), felizmente com o irmão. São fusos horários, hábitos alimentares e camas diferentes, muitos abraços desconhecidos de gente que o adora mas que ele não conhece de lado nenhum. O meu filho pequenino anda perdido neste reboliço e só desejo que a poeira assente para que ele se possa sentir de novo em casa. Meu querido, a mamã não vai a lado nenhum. E em breve vais perceber que, nas horas em que te deixo na escola, não podias estar melhor entregue. Até lá, dou-te todo o mimo a que tens direito.

22 setembro 2011

beira-rio

Equipei-me e saí para correr. Estava vento, como sempre, mas não vi corvos-marinhos. Dantes via-os, de manhã, quando não havia mais ninguém ali àquelas horas.
Ao fim do dia, o cenário que passa por mim enquanto mal piso o chão é feito de gente. Gente sozinha, sentada junto ao rio, debaixo dos pinheiros mansos. Gente debruçada sobre o corrimão, resistindo ao cheiro da maré baixa. E casais, de diferentes idades e níveis de intimidade. Uns sucedem-se aos outros. Atravesso, de raspão, primeiros encontros, relações ilícitas, arrufos, despedidas. Caras e caras que se conheceram em redes sociais. Ou numa discoteca. Ou num centro paroquial. Não sei se nos Alunos de Apolo. Tantas pessoas que cedem, momentaneamente, e reconhecem em público a solidão própria, a solidão alheia, e tentam superá-las. Têm posturas medidas. Desenham gestos previamente ensaiados. Falam de coisas banais e de coisas íntimas. As mulheres rindo, os homens inclinando a cabeça, esforçando-se por ouvir. Tanta, tanta gente que procura o amor ao longo das margens do Tejo. E não sabem que esse amor ribeirinho só está lá para quem tem 17 anos. Para os outros, já esgotou o prazo de validade. Mais valia dedicarem-se à pesca.

as (inevitáveis) comparações

Aqui
é tudo muito barato (à excepção da gasolina, portagens e produtos farmacêuticos). Acreditem!
os homens são muito mais bonitos e interessantes.
as mulheres são menos bonitas e, como dizê-lo?, menos voluptuosas.
(ou seja, isto rende bastante para as mulheres mais ou menos)
ainda é Verão.
a televisão é a mesma m.....
há gatos.
as pessoas andam todas de trombas.
vê-se gente a esconder lágrimas no Metro.
(nota-se que as coisas estão difíceis e, sobretudo, que as pessoas têm medo - acho que vou juntar-me ao movimento dos abraços de graça)

19 setembro 2011

o regresso

Depois de 3 dias caóticos, em que desmontámos o resto da mobília, limpámos a casa de cima a baixo e deitámos os últimos restos da nossa existência princetoniana para o lixo, chegou finalmente a hora de apanhar o avião de regresso a casa. À partida, o cansaço era tal que nem houve cabeça para nostalgias. Não vale a pena estar para aqui com estórias delico-doces de que hesitei, senti frios na barriga, ou vi as cores da bandeira americana com outras tonalidades: a verdade é que só queria chegar aqui e ir dormir. Do mesmo modo, também não me emocionei à chegada. Tinha os olhos demasiado secos para lágrimas, umas olheiras até ao umbigo e mesmo assim fui trabalhar no próprio dia.
De modo que a nova rotina se fez rapidamente e quase já parece mentira que ainda há uma semana estava lá, do outro lado. De uma forma ligeiramente perversa parece quase que deixei para trás a verdadeira gralha e que sou apenas um doppelgaenger que se conseguiu escapar e fazer o que desejava. Será mesmo possível que isto, aqui, agora, sou eu, somos nós? Não me belisco para não acordar.

14 setembro 2011

casa

O sino da minha igreja. Falar com as pessoas em português (sentir-me eu, portanto). E dizer ao meu cão que não o vou deixar mais. O Natal pode continuar a ser todos os dias, muito obrigada.

12 setembro 2011

lá vamos nós

E hoje não me apetece dizer mais nada.

11 setembro 2011

onze de setembro, segundo a mãe

Querido Khalid,

Faz hoje dez anos que te perdi, meu filho. Tanto tempo e o meu peito ainda arde. Tem um buraco do tamanho da cratera que eles agora estão a reconstruir. A ti, ninguém te traz de volta.
Como sabes, os teus irmãos já se juntaram a ti (o Hani não recuperou da operação e o Aroun desapareceu nos primeiros raides) mas a tua irmã Fatima está bem. Casou e tem dois filhos, vivem todos connosco. A tua sobrinha Adeeba é que está a escrever esta carta, já que eu nunca aprendi as letras. É bonita e vai à escola, diz que quer casar-se com um bom homem temente a Deus e ser professora. Vamos ver o que se arranja.
Queria dizer-te que nem tudo é mau, meu querido filho. Faltam muitas coisas mas não vivemos com medo. Uma pessoa habitua-se. As paredes da nossa casa ainda estão crivadas de balas das RPG-7s mas a horta dá algumas cebolas e já conseguimos um melão este ano.
Penso em ti todos os dias. Lembro-me de como eras um menino bom, amigo de todos, sério. Lembro-me de te dar o saco da merenda quando saías de casa de madrugada para caminhar uma hora até à madraçal. Como me sentia orgulhosa de ti, filho!
Sabes, já não fico a pensar se valeu ou não a pena. Não te tenho mais e muitos outros se perderam. E as coisas não mudaram muito, principalmente para eles. Eles ficaram com medo, revoltaram-se. E agora voltam às suas vidas, como nós.
Gostava de estar contigo de novo. Gostava de ter a certeza de que encontraste a recompensa que procuravas. Mas a única esperança está no dia do Juízo. In shaa Allaah não tarde muito.

A tua, sempre
Mãe