28 outubro 2011
aurículas e ventrículos
Volta e meia, adoecem-nos os filhos para nos exercitarem o miocárdio. Sim, confirma-se, o meu ainda é flexível o suficiente para esticar e caber um bocadinho mais de amor lá dentro. (e medo, e incerteza, e vontade de colar aquele corpinho febril ao meu e enxotar todos os vírus, todas as dores)
26 outubro 2011
a vida que continua todos os dias
Durante a semana deixei de ser mulher, sou só mãe e filha. É tão estranho saltitar entre esses dois papéis, conforme a divisão da casa e a hora do dia. Levanto-me e passo pela cozinha, evito tropeçar no meu irmão grande demais, de fato (àquela hora não o distingo do meu pai); a minha mãe pergunta-me se dormi bem e se comi e eu sinto que aquelas são as minhas palavras - mãe sou eu! - desarrumadas noutra linha espaço-temporal. E depois clic! no interruptor das crias e ando a correr atrás de um e do outro, distribuindo canecas de leite, iogurtes líquidos com palhinha, pilhas de roupa, escovas de dentes. A cria grande está refilona e contestatária. Está um aranhiço com pernas e braços por todos os lados. A cria pequena continua destruidora e pede para ir ao bacio. Está uma (quase) bolinha espertalhona. Lindos e tão crescidos. Deixo-os na escola e tenho de parar uns segundos para me lembrar de qual é o papel que tenho de representar a seguir.
22 outubro 2011
adiantando-me à chuva
Parece que o Outono chega mesmo hoje. Até que enfim, que isto de só escrever posts positivos e a transbordar de felicidade já me começava a fazer parecer a Laurinda Alves.
E agora vou ali a Alcobaça buscar os meus caixotes acabadinhos de chegar do outro lado do mar. Continuo com pinturas, montagens e a mudança. Em breve já podemos ir para a nossa casa :)
E agora vou ali a Alcobaça buscar os meus caixotes acabadinhos de chegar do outro lado do mar. Continuo com pinturas, montagens e a mudança. Em breve já podemos ir para a nossa casa :)
19 outubro 2011
torradas na chapa
Entro naquela casa e tenho 4 anos outra vez. A sala está cheia dele, ainda. Está no sofá (que mudou de lugar), onde me recebia ao colo e lia sonetos. Está no quarto, no porta-fatos vazio, nas fotografias connosco no jardim da Cidade Universitária. Está ele, o meu Avô, e estão todos: tios, primos, Natais, jantares de sexta-feira inaugurados com um "ora então muito bom proveito!". As paredes verdes são as mesmas, os reposteiros cristalizando um cenário de décadas, palco da minha infância. É tão bom rever tudo na companhia de dois rapazes pequeninos, novos em folha, que espalham o estardalhaço e enchem de risos espaços silenciosos há tempo demais. Fomos lanchar a casa da minha Avó e o Gugas concordou que ela faz as melhores torradas do mundo. Mexeu cuidadosamente o açúcar na chávena de chá - que colher tão pequenina! E o Diogo fez combóios de molas de roupa pela carpete. Esperei tanto por isto.
17 outubro 2011
fim-de-semana bom
Este fim-de-semana teve sabor a prolongado porque começou logo na sexta-feira. À hora de almoço fui cortar o cabelo ao Chiado, dei uma voltinha pelas lojas, visitei uma exposição do Experimenta Design e, depois de acabar o trabalho que tinha para esta semana, fiz-me à A1. Cheguei a Coimbra já à noite e jantei maravilhosamente (obrigada pelas dicas Joaníssima!) junto ao rio. Só eu e o meu marido. E o rio. E a lua, que já não estava cheia mas faz de conta. E nem um babete, nem uma colher de sopa para dar (obrigada pais!). No Sábado de manhã ainda demos uma volta pela cidade e andámos de gaivota pelo Mondego. Que boa surpresa que foi redescobrir Coimbra, que arranjada que está a cidade, que encantador que é cada recanto. Olha que sorte a nossa, que logo calhou ele ir trabalhar para um sítio tão bonito! De seguida, juntámo-nos a quase toda a minha família paterna em Lafões para uma grande almoçarada. Os meus filhos foram esborrachados de mimos com sotaque minhoto e lá voltámos para Lisboa. Domingo foi para descansar de tanto quilómetro de autoestrada e passear junto ao Tejo, com toda a calma do mundo.
Tudo isto é um luxo, senhores, um luxo. E eu sei disso.
Tudo isto é um luxo, senhores, um luxo. E eu sei disso.
16 outubro 2011
baixar os braços
Todos os dias há mais qualquer coisa a dificultar-nos a vida. A uns mais do que a outros, mas a uma sociedade em geral. Há muita gente obrigada a refazer orçamentos a cada semana, a cada mês, a imaginar poupanças onde já parecem impossíveis e a suster a respiração de cada vez que liga o televisor para ouvir as novas "sentenças" governamentais. Infelizmente, não conheço melhor alternativa àquilo que o Governo está a fazer. Manifestar-nos é um exercício saudável de cidadania (como devia ser a maior participação nos órgãos para isso disponíveis) mas é pouco mais do que isso: exercício.
É muito triste que tenhamos de viver um período assim e o pior é que o fim não está à vista porque todo o sistema mundial parece estar próximo do colapso.
Também tenho medo, faço contas, lamento o que se passa. E depois penso: o que posso fazer eu? Certamente, não é baixar os braços, fechar-me no meu egoísmo, coleccionar bodes expiatórios, ódios, ou descarregar na buzina do automóvel. Posso ajudar aqueles que conseguir. Posso trabalhar bem. Posso dar exemplos aos meus filhos daquilo que eu quero que eles sejam como cidadãos portugueses, europeus, do mundo. You may say I'm a dreamer but (I hope) I'm not the only one. Se mais nada há a fazer, cultivo a gratidão pelo muito que tenho e não o ressentimento pelo que perco nem a ansiedade pelo que ninguém sabe, de facto, que acontecerá ao virar da esquina.
É muito triste que tenhamos de viver um período assim e o pior é que o fim não está à vista porque todo o sistema mundial parece estar próximo do colapso.
Também tenho medo, faço contas, lamento o que se passa. E depois penso: o que posso fazer eu? Certamente, não é baixar os braços, fechar-me no meu egoísmo, coleccionar bodes expiatórios, ódios, ou descarregar na buzina do automóvel. Posso ajudar aqueles que conseguir. Posso trabalhar bem. Posso dar exemplos aos meus filhos daquilo que eu quero que eles sejam como cidadãos portugueses, europeus, do mundo. You may say I'm a dreamer but (I hope) I'm not the only one. Se mais nada há a fazer, cultivo a gratidão pelo muito que tenho e não o ressentimento pelo que perco nem a ansiedade pelo que ninguém sabe, de facto, que acontecerá ao virar da esquina.
13 outubro 2011
bsf
Os anos passam-nos pelos ossos e vamos refinando pequeninas coisas na nossa maneira de estar. Eu vou acumulando filtros. Reparo agora que adquiri aquilo que podemos chamar de Bullshit Filter: quando me aparecem aquelas criaturas que falam com mais adjectivos auto-adjuvantes do que a realidade comporta, começo logo a pensar na sopa que é preciso pôr a descongelar. "Ah, que eu faço, tenho e aconteço" e foge-me instantaneamente a atenção para o betume que tenho de comprar. Acho que disfarço bem. Consigo sorrir e dizer "a-hã" nos momentos apropriados. Conversa, não lhes dou, que é para não estimular a verborreia.
Com o acumular de tanto filtro, prevejo que esteja para breve a formalização do diagnóstico da minha sociopatia há muito recalcada. Não admira que sonhe tantas vezes com facas.
Com o acumular de tanto filtro, prevejo que esteja para breve a formalização do diagnóstico da minha sociopatia há muito recalcada. Não admira que sonhe tantas vezes com facas.
12 outubro 2011
querido, estou a mudar a casa
Há um mês atrás, viemos de uma casa bonitinha, solarenga, na floresta, para uma casa escura, fria, com um corredor interminável e janelas que dão para paredes (pronto, e ao lado de uma pseudo-floresta). Para evitar cair em depressão, resolvi aproveitar a flexibilidade de horário de trabalho para arregaçar as mangas e melhorar o que é possível. Estou irreconhecível: entrei no Aki duas vezes na mesma semana, sonho com a disposição dos móveis e até já vejo revistas de decoração. Mais um bocadinho e costurava os meus próprios cortinados. Enfim, está a dar-me uma trabalheira desgraçada mas a verdade é que, pelo andar da carruagem, parece que vamos ficar naquela casa durante uns bons anos (emigrantes pé-descalço, é o que dá). Mais vale tentar amimozá-la e fazer dela o ninho que a nossa família merece.
11 outubro 2011
teletrabalho
A partir de hoje, e sempre que quiser, trabalho a partir de casa. É claro que isso só é possível porque tenho um trabalho que se presta a isso, porque sou disciplinada e porque tenho um chefe que confia em mim. Mas é uma oportunidade valiosíssima, isso é. Posso tratar dos meninos com toda a calma do mundo, estar com eles quando mais precisam e ainda ter tempo para mim (e voltar a correr, iupi!), bastando para isso compensar à noite ou em horas de almoço. Como mantenho o meu posto de trabalho na universidade, nem sequer corro o risco de morrer de isolamento (como quase aconteceu da primeira vez que teletrabalhei). O maior desafio é resistir à tentação feicebuquiana e dos blogues em momentos de concentração laboral. Vou arranjar uma chibata para evitar a prevaricação. E agora vou trabalhar para ter tempo para pintar portas amanhã!
10 outubro 2011
serviço público/ publicidade gratuita
Quem tem filhos que não comem está habituado a ouvir a célebre frase "quando ele tiver fome logo come". Isso até pode ser verdade para crianças que não comem porque não gostam/não estão habituados a experimentar novos alimentos, para os que estão em fases de desenvolvimento e adaptação específicas, ou para os que estão doentes. Mas há quem não reconheça que, tal como há adultos com muito ou pouco apetite (como eu), também há crianças que, pura e simplesmente, não têm fome. Nos adultos, isso ajuda-os a caber num XS; numa criança, pode ter consequências do ponto de vista da resistência a doenças e mesmo do crescimento (já para não falar do ambiente familiar às refeições...).
Posto isto, sinto-me no dever de partilhar a (re)descoberta do estimulante de apetite que o Diogo começou a tomar há cerca de 3 semanas, o mesmo que a minha Mãe me deu em pequenina. Se ele anda a comer como um abade? Não. Anda a comer um pouco de tudo, a todas as refeições, com equilíbrio. Meia dúzia de passas ou meia banana já não são um jantar típico. Neste período, já ganhou cerca de um quilo, anda muito mais bem disposto, dorme melhor, em suma: o paraíso. E não houve um único pediatra que me falasse nisto (ainda que a toma, agora, esteja a ser acompanhada por pediatra).
Chama-se Viternum, à venda na sua farmácia.
Posto isto, sinto-me no dever de partilhar a (re)descoberta do estimulante de apetite que o Diogo começou a tomar há cerca de 3 semanas, o mesmo que a minha Mãe me deu em pequenina. Se ele anda a comer como um abade? Não. Anda a comer um pouco de tudo, a todas as refeições, com equilíbrio. Meia dúzia de passas ou meia banana já não são um jantar típico. Neste período, já ganhou cerca de um quilo, anda muito mais bem disposto, dorme melhor, em suma: o paraíso. E não houve um único pediatra que me falasse nisto (ainda que a toma, agora, esteja a ser acompanhada por pediatra).
Chama-se Viternum, à venda na sua farmácia.
07 outubro 2011
monstros
O mais velho tem medo-fascínio do escuro e de tudo o que está nele escondido. Arma-se de lanternas e avança-recua para os quartos de luzes apagadas, florestas amazónicas de perigos insondáveis. O mais novo cumpre o seu papel ao mais alto nível: esconde-se, abre a bocarra(zinha) semi-dentada e emite os sons mais assustadores que consegue. Perseguem-se, assombram-se, duas migalhas de pijama invocando e espantando fantasmas mesmo antes de se irem deitar - deve ser por isso que nunca lhes dei por pesadelos.
Post inspirado pela Lebasiana.
Post inspirado pela Lebasiana.
desqualificação laboral
Dava-me um jeitão não ir trabalhar hoje para pegar na trincha e pintar as portas e caixilhos da minha casa. Já para não falar dos furos na parede que é preciso fazer e de todas as estantes que há para montar. Seja como for, a minha ciência vive daqueles que se queixam do trabalho que têm. Se calhar mais valia dedicar-me a essa espécie de trabalho de campo.
05 outubro 2011
croquete (sim, aparentemente é uma semana com títulos destes)
Não estivesse o meu telemóvel bloqueado desde que desemigrei e hoje botava aqui daquelas fotografias bonitas com praia, unhas dos pés envernizadas, o peixinho grelhado que comi ao almoço e uma ou outra gaivota a voar. Mas não. Limito-me, portanto, a dizer que este foi um feriado maravilhoso, que Sesimbra estava um encanto (e bem menos cheia do que a Arrábida, onde tentámos ir antes), e que o Verão pode continuar até ao ano que vem, a ver se eu me importo.
Ah, o croquete é o meu mais pequeno na areia, nas ondas, na areia, nas ondas, de cabeça na areia, a levar reboletas nas ondas. E provavelmente o que ele deixará no bacio amanhã de manhã (sim, já re-inaugurámos esse instrumento emblemático da maternidade).
Ah, o croquete é o meu mais pequeno na areia, nas ondas, na areia, nas ondas, de cabeça na areia, a levar reboletas nas ondas. E provavelmente o que ele deixará no bacio amanhã de manhã (sim, já re-inaugurámos esse instrumento emblemático da maternidade).
04 outubro 2011
o post do não-foi-bem-isso
Depois de duas horas ajoelhada no milho (com este calor, quase fazia pipocas) para ganhar consciência da dimensão pecaminosa da minha irreflectida afirmação, estou em condições de vir aqui proclamar a minha inocência e, ainda assim, pedir desculpa a todos os que se sentiram lesados.
Se me permitem, passo a expôr os meus argumentos:
1º A minha mãe não fez carne assada para eu trazer para o almoço. Sobrou do jantar e eu afiambrei-me;
2º Não tenho microondas no trabalho, pelo que como tudo frio - o que contribui para os meus créditos de auto-comiseração;
3º Quem mais sofre com o cheiro a carne assada são os meus colegas de trabalho, que nem sequer a provam (mas eu ofereço!, antes que me apedrejem);
4º Acho mesquinho que venham aqui acusar-me de peito aberto: quem de vós nunca trouxe marmita para o trabalho?
5º Finalmente, gostava imenso que toda a gente tivesse mimos de mãe, trabalho e olfacto (mais ou menos por esta ordem de prioridades) mas não posso carregar as culpas do mundo se isso não acontece;
6º E agora o clássico: isto é um blogue público, só vem aqui quem quer. Se não gosta, não come.
Se me permitem, passo a expôr os meus argumentos:
1º A minha mãe não fez carne assada para eu trazer para o almoço. Sobrou do jantar e eu afiambrei-me;
2º Não tenho microondas no trabalho, pelo que como tudo frio - o que contribui para os meus créditos de auto-comiseração;
3º Quem mais sofre com o cheiro a carne assada são os meus colegas de trabalho, que nem sequer a provam (mas eu ofereço!, antes que me apedrejem);
4º Acho mesquinho que venham aqui acusar-me de peito aberto: quem de vós nunca trouxe marmita para o trabalho?
5º Finalmente, gostava imenso que toda a gente tivesse mimos de mãe, trabalho e olfacto (mais ou menos por esta ordem de prioridades) mas não posso carregar as culpas do mundo se isso não acontece;
6º E agora o clássico: isto é um blogue público, só vem aqui quem quer. Se não gosta, não come.
carne assada
No top 10 das coisas desagradáveis disto de ser remediada está o facto de passar a tarde a trabalhar com cheiro à comida que trouxe de casa da minha mãe.
E é nestas situações que penso como é bom que quase ninguém leia isto - se fosse uma Pipoca ou uma Cocó a dizer tamanha enormidade, levava logo com uma enxurrada de mensagens de ódio porque "ao menos tens o que comer", "eu já não tenho mãe que me faça esses mimos", "dá graças por teres trabalho" ou mesmo "és uma cabra insensível: o meu padrinho perdeu o olfacto na guerra e bem gostava de poder cheirar alguma coisa!"
E é nestas situações que penso como é bom que quase ninguém leia isto - se fosse uma Pipoca ou uma Cocó a dizer tamanha enormidade, levava logo com uma enxurrada de mensagens de ódio porque "ao menos tens o que comer", "eu já não tenho mãe que me faça esses mimos", "dá graças por teres trabalho" ou mesmo "és uma cabra insensível: o meu padrinho perdeu o olfacto na guerra e bem gostava de poder cheirar alguma coisa!"
blogcatita
Catarina, se me ouves: não consigo aceder ao teu blogue (e não tenho o teu e-mail). Is there anybody out there..?
03 outubro 2011
três de outubro
Há dois anos, ala para os EUA. No ano passado, não faço ideia (acho que tinha começado a trabalhar num sítio onde só estive duas semanas). Este ano, fico desmaridada durante a semana. Ele apanha o comboio e vai ganhar o pão para Coimbra, e nós ficamos por Lisboa. Enquanto esperamos pelo contentor e acabamos de mobilar a nossa casa, deixamo-nos estar em casa dos meus pais.
É estranho. Uma pessoa dorme todas as noites ao lado da mesma pessoa nos últimos cinco anos e tal, e agora faz o quê? Põe só uma almofada na cama? A quem é que dou pontapés enquanto sonho que sou uma ninja assassina? Quem é que dialoga comigo enquanto falo a dormir? Quem é que se zanga comigo porque corto as unhas dos pés para dentro da sanita? Pronto, como em tudo, lá nos habituaremos. E esperamos que seja só por três meses.
É estranho. Uma pessoa dorme todas as noites ao lado da mesma pessoa nos últimos cinco anos e tal, e agora faz o quê? Põe só uma almofada na cama? A quem é que dou pontapés enquanto sonho que sou uma ninja assassina? Quem é que dialoga comigo enquanto falo a dormir? Quem é que se zanga comigo porque corto as unhas dos pés para dentro da sanita? Pronto, como em tudo, lá nos habituaremos. E esperamos que seja só por três meses.
02 outubro 2011
correndo o risco de me tornar repetitiva e (ainda mais) chata
Como é que se pode comparar dias eternamente iguais, em que só mudam as estações do ano (e agora já outona em força, por lá), a dias imprevisíveis excepto na sensação de casa? Estar em casa. No nascer do sol (lindo!) junto ao rio, com amigos, sozinha, com os filhos, no trabalho, na caixa de supermercado, em casa. Sem me perder na tradução, sem complexo de ilha, sem me sentir fora de pé - e farta de ficar parada, a boiar, para não nadar até à exaustão.
"Então, e como foi a experiência de viver nos EUA?" Foi boa. Foi como vestir a bata, entrar no laboratório, espreitar pelo microscópio e observar quatro celulazinhas semi-inertes ao longo de vinte-e-quatro meses. E depois despir a bata, enviar o relatório, voltar para casa e comer um prato de sopa de grão com espinafres.
Este hoje vai para a Leonor (e para todas as minhas amigas emigradas, já agora).
"Então, e como foi a experiência de viver nos EUA?" Foi boa. Foi como vestir a bata, entrar no laboratório, espreitar pelo microscópio e observar quatro celulazinhas semi-inertes ao longo de vinte-e-quatro meses. E depois despir a bata, enviar o relatório, voltar para casa e comer um prato de sopa de grão com espinafres.
Este hoje vai para a Leonor (e para todas as minhas amigas emigradas, já agora).
28 setembro 2011
27 setembro 2011
vir para aqui descansar
Pois que estou feliz com o meu regresso ao trabalho (e à investigação) e devo confessar que não é só pelo que faço aqui - que, na maior parte do tempo, não é blogar - mas pelo facto de os meus ouvidos e a minha cabeça descansarem um pouco. Uma mãe decente não admite uma coisa destas mas eu admito, do fundo da minha indecência, que já estou a dar em maluquinha com o Diogo a chorar cerca de 15 horas por dia e a pedir colo sempre que está acordado. Meu rico filho, compreendo o teu sofrimento e desdobro-me para te ajudar a ultrapassá-lo, mas já faltou mais para os teus avós nos convidarem a sair lá de casa.
26 setembro 2011
o alentejo também estava uma maravilha
E que bom que foi rever amigos e conhecer os novos sobrinhos :) É uma sensação nova, esta de ser tia, e gosto muito. Tenho vontade de os ver crescer todos juntos e fazer muitos mais programinhas destes.
Agora é mais uma semana de trabalho e tentar fazer render os dias, que parecem sempre demasiado curtos.
23 setembro 2011
a adaptação
Tem sido feita de acordo com as características de cada um. O pai está bem em qualquer lado. A mãe (que nunca mudou o fuso horário do computador - denial is a river in Africa...) acha normalíssimo estar aqui e não se lembra sequer de como foi possível viver noutro sítio. O filho mais velho está bem em qualquer lado (desde que esteja lá a mãe). E o filho mais novo? O filho mais novo está a lidar como pode com tanta mudança que não compreende. Num dia está nos EUA, noutro em Lisboa. Noutro no Algarve, de novo em Lisboa e depois no Alentejo. Num, em casa dos avós maternos, noutro em casa dos avós paternos. De 24/7 com a mãe e o irmão em casa para a entrada progressiva na escola (travail oblige), felizmente com o irmão. São fusos horários, hábitos alimentares e camas diferentes, muitos abraços desconhecidos de gente que o adora mas que ele não conhece de lado nenhum. O meu filho pequenino anda perdido neste reboliço e só desejo que a poeira assente para que ele se possa sentir de novo em casa. Meu querido, a mamã não vai a lado nenhum. E em breve vais perceber que, nas horas em que te deixo na escola, não podias estar melhor entregue. Até lá, dou-te todo o mimo a que tens direito.
22 setembro 2011
beira-rio
Equipei-me e saí para correr. Estava vento, como sempre, mas não vi corvos-marinhos. Dantes via-os, de manhã, quando não havia mais ninguém ali àquelas horas.
Ao fim do dia, o cenário que passa por mim enquanto mal piso o chão é feito de gente. Gente sozinha, sentada junto ao rio, debaixo dos pinheiros mansos. Gente debruçada sobre o corrimão, resistindo ao cheiro da maré baixa. E casais, de diferentes idades e níveis de intimidade. Uns sucedem-se aos outros. Atravesso, de raspão, primeiros encontros, relações ilícitas, arrufos, despedidas. Caras e caras que se conheceram em redes sociais. Ou numa discoteca. Ou num centro paroquial. Não sei se nos Alunos de Apolo. Tantas pessoas que cedem, momentaneamente, e reconhecem em público a solidão própria, a solidão alheia, e tentam superá-las. Têm posturas medidas. Desenham gestos previamente ensaiados. Falam de coisas banais e de coisas íntimas. As mulheres rindo, os homens inclinando a cabeça, esforçando-se por ouvir. Tanta, tanta gente que procura o amor ao longo das margens do Tejo. E não sabem que esse amor ribeirinho só está lá para quem tem 17 anos. Para os outros, já esgotou o prazo de validade. Mais valia dedicarem-se à pesca.
Ao fim do dia, o cenário que passa por mim enquanto mal piso o chão é feito de gente. Gente sozinha, sentada junto ao rio, debaixo dos pinheiros mansos. Gente debruçada sobre o corrimão, resistindo ao cheiro da maré baixa. E casais, de diferentes idades e níveis de intimidade. Uns sucedem-se aos outros. Atravesso, de raspão, primeiros encontros, relações ilícitas, arrufos, despedidas. Caras e caras que se conheceram em redes sociais. Ou numa discoteca. Ou num centro paroquial. Não sei se nos Alunos de Apolo. Tantas pessoas que cedem, momentaneamente, e reconhecem em público a solidão própria, a solidão alheia, e tentam superá-las. Têm posturas medidas. Desenham gestos previamente ensaiados. Falam de coisas banais e de coisas íntimas. As mulheres rindo, os homens inclinando a cabeça, esforçando-se por ouvir. Tanta, tanta gente que procura o amor ao longo das margens do Tejo. E não sabem que esse amor ribeirinho só está lá para quem tem 17 anos. Para os outros, já esgotou o prazo de validade. Mais valia dedicarem-se à pesca.
as (inevitáveis) comparações
Aqui
é tudo muito barato (à excepção da gasolina, portagens e produtos farmacêuticos). Acreditem!
os homens são muito mais bonitos e interessantes.
as mulheres são menos bonitas e, como dizê-lo?, menos voluptuosas.
(ou seja, isto rende bastante para as mulheres mais ou menos)
ainda é Verão.
a televisão é a mesma m.....
há gatos.
as pessoas andam todas de trombas.
vê-se gente a esconder lágrimas no Metro.
(nota-se que as coisas estão difíceis e, sobretudo, que as pessoas têm medo - acho que vou juntar-me ao movimento dos abraços de graça)
é tudo muito barato (à excepção da gasolina, portagens e produtos farmacêuticos). Acreditem!
os homens são muito mais bonitos e interessantes.
as mulheres são menos bonitas e, como dizê-lo?, menos voluptuosas.
(ou seja, isto rende bastante para as mulheres mais ou menos)
ainda é Verão.
a televisão é a mesma m.....
há gatos.
as pessoas andam todas de trombas.
vê-se gente a esconder lágrimas no Metro.
(nota-se que as coisas estão difíceis e, sobretudo, que as pessoas têm medo - acho que vou juntar-me ao movimento dos abraços de graça)
19 setembro 2011
o regresso
Depois de 3 dias caóticos, em que desmontámos o resto da mobília, limpámos a casa de cima a baixo e deitámos os últimos restos da nossa existência princetoniana para o lixo, chegou finalmente a hora de apanhar o avião de regresso a casa. À partida, o cansaço era tal que nem houve cabeça para nostalgias. Não vale a pena estar para aqui com estórias delico-doces de que hesitei, senti frios na barriga, ou vi as cores da bandeira americana com outras tonalidades: a verdade é que só queria chegar aqui e ir dormir. Do mesmo modo, também não me emocionei à chegada. Tinha os olhos demasiado secos para lágrimas, umas olheiras até ao umbigo e mesmo assim fui trabalhar no próprio dia.
De modo que a nova rotina se fez rapidamente e quase já parece mentira que ainda há uma semana estava lá, do outro lado. De uma forma ligeiramente perversa parece quase que deixei para trás a verdadeira gralha e que sou apenas um doppelgaenger que se conseguiu escapar e fazer o que desejava. Será mesmo possível que isto, aqui, agora, sou eu, somos nós? Não me belisco para não acordar.
De modo que a nova rotina se fez rapidamente e quase já parece mentira que ainda há uma semana estava lá, do outro lado. De uma forma ligeiramente perversa parece quase que deixei para trás a verdadeira gralha e que sou apenas um doppelgaenger que se conseguiu escapar e fazer o que desejava. Será mesmo possível que isto, aqui, agora, sou eu, somos nós? Não me belisco para não acordar.
18 setembro 2011
14 setembro 2011
casa
O sino da minha igreja. Falar com as pessoas em português (sentir-me eu, portanto). E dizer ao meu cão que não o vou deixar mais. O Natal pode continuar a ser todos os dias, muito obrigada.
12 setembro 2011
11 setembro 2011
onze de setembro, segundo a mãe
Querido Khalid,
Faz hoje dez anos que te perdi, meu filho. Tanto tempo e o meu peito ainda arde. Tem um buraco do tamanho da cratera que eles agora estão a reconstruir. A ti, ninguém te traz de volta.
Como sabes, os teus irmãos já se juntaram a ti (o Hani não recuperou da operação e o Aroun desapareceu nos primeiros raides) mas a tua irmã Fatima está bem. Casou e tem dois filhos, vivem todos connosco. A tua sobrinha Adeeba é que está a escrever esta carta, já que eu nunca aprendi as letras. É bonita e vai à escola, diz que quer casar-se com um bom homem temente a Deus e ser professora. Vamos ver o que se arranja.
Queria dizer-te que nem tudo é mau, meu querido filho. Faltam muitas coisas mas não vivemos com medo. Uma pessoa habitua-se. As paredes da nossa casa ainda estão crivadas de balas das RPG-7s mas a horta dá algumas cebolas e já conseguimos um melão este ano.
Penso em ti todos os dias. Lembro-me de como eras um menino bom, amigo de todos, sério. Lembro-me de te dar o saco da merenda quando saías de casa de madrugada para caminhar uma hora até à madraçal. Como me sentia orgulhosa de ti, filho!
Sabes, já não fico a pensar se valeu ou não a pena. Não te tenho mais e muitos outros se perderam. E as coisas não mudaram muito, principalmente para eles. Eles ficaram com medo, revoltaram-se. E agora voltam às suas vidas, como nós.
Gostava de estar contigo de novo. Gostava de ter a certeza de que encontraste a recompensa que procuravas. Mas a única esperança está no dia do Juízo. In shaa Allaah não tarde muito.
A tua, sempre
Mãe
Faz hoje dez anos que te perdi, meu filho. Tanto tempo e o meu peito ainda arde. Tem um buraco do tamanho da cratera que eles agora estão a reconstruir. A ti, ninguém te traz de volta.
Como sabes, os teus irmãos já se juntaram a ti (o Hani não recuperou da operação e o Aroun desapareceu nos primeiros raides) mas a tua irmã Fatima está bem. Casou e tem dois filhos, vivem todos connosco. A tua sobrinha Adeeba é que está a escrever esta carta, já que eu nunca aprendi as letras. É bonita e vai à escola, diz que quer casar-se com um bom homem temente a Deus e ser professora. Vamos ver o que se arranja.
Queria dizer-te que nem tudo é mau, meu querido filho. Faltam muitas coisas mas não vivemos com medo. Uma pessoa habitua-se. As paredes da nossa casa ainda estão crivadas de balas das RPG-7s mas a horta dá algumas cebolas e já conseguimos um melão este ano.
Penso em ti todos os dias. Lembro-me de como eras um menino bom, amigo de todos, sério. Lembro-me de te dar o saco da merenda quando saías de casa de madrugada para caminhar uma hora até à madraçal. Como me sentia orgulhosa de ti, filho!
Sabes, já não fico a pensar se valeu ou não a pena. Não te tenho mais e muitos outros se perderam. E as coisas não mudaram muito, principalmente para eles. Eles ficaram com medo, revoltaram-se. E agora voltam às suas vidas, como nós.
Gostava de estar contigo de novo. Gostava de ter a certeza de que encontraste a recompensa que procuravas. Mas a única esperança está no dia do Juízo. In shaa Allaah não tarde muito.
A tua, sempre
Mãe
09 setembro 2011
e onde estavas tu (quase) dez anos depois do nineleven?
A tentar não enlouquecer numa casa vazia, habitada por dois rapazinhos com demasiada energia e já nenhuma forma de a canalizar. A despachar os últimos tachos. E a ajudar um casal muçulmano (persas? jordanos?) à espera de gémeos, que ficou com muitas das coisas de bebé que ainda tínhamos. Eis o que conseguiram, senhores terroristas: ocidentais e orientais a conviver sem problemas, aliás, a conviver com os mesmos problemas corriqueiros do dia-a-dia. Ela com véu, eu com o cabelo lavado depois de ir correr, mulheres num mundo que não é assim tão grande, em certas coisas.
08 setembro 2011
uma crueldade assentida
"Who has more power than a child? She can be as cruel as she wants to be. He can't. He'd never. Please, Bea. Please have mercy. Children don't. Do they? Did you, Peter, have mercy on your own parents?"
in Michael Cunningham, By Nightfall
Quando eles nos vêm parar aos braços, os filhos, compramos um bilhete vitalício para a montanha-russa do amor sem reservas. Cuidamos deles, deixamo-nos inundar de amor, um amor posto à prova por muitas concessões de nós enquanto pessoas. Mas esse amor não é testado só com fraldas sujas, noites insones, doenças, também é quando crescem e desenvolvem a capacidade única de nos magoar. Não por mal, não conscientemente, mas com a inevitabilidade insidiosa de finas agulhas, que nos levantam a pele e nos deixam à mercê do que quiserem fazer de nós.
Deixam de falar connosco. Ou falam, e as palavras são avalanches de impiedade. Ou uma chuva fria, de Novembro. Porque nos conhecem tão bem (conhecem?). Portas fechadas. Segredos. Distância. Desdém. Auto-suficiência e superação. Quanto mais um pai ama um filho (e não falo de mimo, nem daquela reverência tão corrente nas famílias reduzidas de hoje), mais este se sente seguro. Tão seguro, tão confiante, que não questiona o amor que os pais lhe devem. Tem carta branca para pisar, para julgar, para magoar. Infelizmente, não é garantido que tudo isso passe com o fim da arrogância da juventude.
Sim, muitas vezes não tive (tenho?) piedade dos meus pais. Ainda que os adore.
Sim, os meus filhos vão fazer o mesmo comigo, mais tarde ou mais cedo. E acho que não há nada que ninguém possa fazer acerca disso.
in Michael Cunningham, By Nightfall
Quando eles nos vêm parar aos braços, os filhos, compramos um bilhete vitalício para a montanha-russa do amor sem reservas. Cuidamos deles, deixamo-nos inundar de amor, um amor posto à prova por muitas concessões de nós enquanto pessoas. Mas esse amor não é testado só com fraldas sujas, noites insones, doenças, também é quando crescem e desenvolvem a capacidade única de nos magoar. Não por mal, não conscientemente, mas com a inevitabilidade insidiosa de finas agulhas, que nos levantam a pele e nos deixam à mercê do que quiserem fazer de nós.
Deixam de falar connosco. Ou falam, e as palavras são avalanches de impiedade. Ou uma chuva fria, de Novembro. Porque nos conhecem tão bem (conhecem?). Portas fechadas. Segredos. Distância. Desdém. Auto-suficiência e superação. Quanto mais um pai ama um filho (e não falo de mimo, nem daquela reverência tão corrente nas famílias reduzidas de hoje), mais este se sente seguro. Tão seguro, tão confiante, que não questiona o amor que os pais lhe devem. Tem carta branca para pisar, para julgar, para magoar. Infelizmente, não é garantido que tudo isso passe com o fim da arrogância da juventude.
Sim, muitas vezes não tive (tenho?) piedade dos meus pais. Ainda que os adore.
Sim, os meus filhos vão fazer o mesmo comigo, mais tarde ou mais cedo. E acho que não há nada que ninguém possa fazer acerca disso.
07 setembro 2011
afinal se calhar fico
Tinha-me esquecido que, em Portugal, em qualquer esquina, por detrás de qualquer viela, cheira a carapaus grelhados. Isso ainda é pior do que política, futebol e telenovelas.
06 setembro 2011
gratidão
Caros Estados Unidos da América,
Ao longo destes dois anos, insultei-vos (sobretudo mentalmente) quase tanto como um orador num comício do PCP em Aljustrel. Contudo, é bom reconhecer o que vocês me trouxeram de positivo. Obrigada
Pelas torradas com manteiga de amendoim e doce de morango
Pela apple cider
Pelas saladas e sobremesas do Blue Rooster, em Cranbury
Pelo leite de amêndoa
Pelos melhores frutos silvestres, melancias e maçãs Macoun do mundo
Pelas Terhune Farms, em Lawrenceville
Pelo combóio a vapor, em New Hope
Pelo Dinky
Pela natureza e pelas pequenas e grandes construções, dos arranha-céus de NY à biblioteca pública de Princeton
Pela neve
Pelos Verões quentes e húmidos, em que dormi sempre de janela aberta a ouvir os sapos
Pelo Halloween e por fazerem uma grande festa a propósito de todos os pretextos imagináveis
Pelos autocarros escolares
Pelos camiões gigantes e carros de bombeiros cromados
Pelas lojas com "promoções" 365 dias por ano
Pela Paper Source, a Anthropologie, e a TerraCycle
Pelo D&R Canal e pelo Mercer County Community Park
Pelas oportunidades de emprego e pelo reconhecimento do meu trabalho
Pelos livros
Pela irrepreensivelmente funcional instituição-cidade que é a Universidade de Princeton
Pelos amigos, colegas e vizinhos norte-americanos, ucranianos, portugueses, irlandeses, gregos, búlgaros, italianos, peruanos, indianos, jamaicanos, equatorianos, dominicanos, dinamarqueses e chineses:
Anatoly
Marina
Rogério
Lúcia
Ana
Kathleen
Dimitrios
Katia
Dionisios
Lorenzo
René
Erica
Carol
Sarah
Emily
Rupah
Jamie
Jackie
Eva
Maria Emília
Addy
Thomas
Anne
Jen
Lauren
Jim
Dan
Rachel
Lindsay
Mai
Jonas
Daniel
Ane
Sean
Jack
Sofia
Isobel
Pela vossa inocência, determinação e capacidade de dar a volta por cima. Essas levo-as emprestadas, sim?
Vossa sinceramente,
gralha
Ao longo destes dois anos, insultei-vos (sobretudo mentalmente) quase tanto como um orador num comício do PCP em Aljustrel. Contudo, é bom reconhecer o que vocês me trouxeram de positivo. Obrigada
Pelas torradas com manteiga de amendoim e doce de morango
Pela apple cider
Pelas saladas e sobremesas do Blue Rooster, em Cranbury
Pelo leite de amêndoa
Pelos melhores frutos silvestres, melancias e maçãs Macoun do mundo
Pelas Terhune Farms, em Lawrenceville
Pelo combóio a vapor, em New Hope
Pelo Dinky
Pela natureza e pelas pequenas e grandes construções, dos arranha-céus de NY à biblioteca pública de Princeton
Pela neve
Pelos Verões quentes e húmidos, em que dormi sempre de janela aberta a ouvir os sapos
Pelo Halloween e por fazerem uma grande festa a propósito de todos os pretextos imagináveis
Pelos autocarros escolares
Pelos camiões gigantes e carros de bombeiros cromados
Pelas lojas com "promoções" 365 dias por ano
Pela Paper Source, a Anthropologie, e a TerraCycle
Pelo D&R Canal e pelo Mercer County Community Park
Pelas oportunidades de emprego e pelo reconhecimento do meu trabalho
Pelos livros
Pela irrepreensivelmente funcional instituição-cidade que é a Universidade de Princeton
Pelos amigos, colegas e vizinhos norte-americanos, ucranianos, portugueses, irlandeses, gregos, búlgaros, italianos, peruanos, indianos, jamaicanos, equatorianos, dominicanos, dinamarqueses e chineses:
Anatoly
Marina
Rogério
Lúcia
Ana
Kathleen
Dimitrios
Katia
Dionisios
Lorenzo
René
Erica
Carol
Sarah
Emily
Rupah
Jamie
Jackie
Eva
Maria Emília
Addy
Thomas
Anne
Jen
Lauren
Jim
Dan
Rachel
Lindsay
Mai
Jonas
Daniel
Ane
Sean
Jack
Sofia
Isobel
Pela vossa inocência, determinação e capacidade de dar a volta por cima. Essas levo-as emprestadas, sim?
Vossa sinceramente,
gralha
05 setembro 2011
a despensa americana
Enquanto cá estive não consegui mais do que vislumbrar a ponta do icebergue da imensidão de porcarias coisas saborosas e inúteis que se vendem por cá. No entanto, há alguns produtos que me conquistaram e levo um pouco de (quase) tudo isto no contentor. Quanto mais não seja, este ano tenciono fazer um jantar de Acção de Graças por já não estar na América :D
o hidratante com o cheirinho mais guloso de todos os tempos
o cheiro da minha casa no Outono
chocolate + grãos de café, não há por onde falhar
porque o wasabi não serve só para sushi e sashimi
para o perú do Dia de Acção de Graças ou qualquer lombo assado
(também comprei secos, infelizmente não dá para levar frescos)
para a minha tarde de abóbora e nozes de pecan
03 setembro 2011
horários
Quase toda a gente que conheço é noctívaga ou, pelo menos, declara-se not a morning person. Note-se que, para mim, noctívago é alguém que acha que depois do pôr do sol é que a vida começa. Eu sou o contrário. Acordo muito bem às 6h, desde que tenha dormido. Tenho toda a energia do mundo de manhã. Depois do almoço gostava de poder fazer a sesta, mas longe vão esses tempos. À tarde ainda funciono mas a noite é para dormir. É por isso que me habituei lindamente aos horários que se praticam por aqui, em que se almoça ao meio-dia (quando não é antes), se janta às 18h (por acaso nós só jantamos às 19h) e a criançada está na cama às 20h.
Voltando a Portugal, não me safo de alterar as nossas rotinas. Paciência, faz-se. Mas o mais estúpido de tudo é que já sei que vou ser sujeita ao julgamento habitual quando manifestar o meu desagrado pelas horas mais tardias. Jantar antes das 21h é coisa de velho. Deitar antes da meia-noite é só para quem não tem vida. Acordar antes das 7h é sina de pobre. As pessoas são diferentes, OK? Tal como não estou à espera que todos comam o mesmo que eu, por que é que tenho de gostar de dormir até tarde ou de ficar acordada a ver porcarias na televisão até às 2h? Já para não falar que a maioria do mundo não vive nesse fuso horário que a nossa cultura europeia do Sul nos vende como sendo o mais adequado. Como se um mocho tivesse mais estilo do que uma gralha, tss, tss.
Voltando a Portugal, não me safo de alterar as nossas rotinas. Paciência, faz-se. Mas o mais estúpido de tudo é que já sei que vou ser sujeita ao julgamento habitual quando manifestar o meu desagrado pelas horas mais tardias. Jantar antes das 21h é coisa de velho. Deitar antes da meia-noite é só para quem não tem vida. Acordar antes das 7h é sina de pobre. As pessoas são diferentes, OK? Tal como não estou à espera que todos comam o mesmo que eu, por que é que tenho de gostar de dormir até tarde ou de ficar acordada a ver porcarias na televisão até às 2h? Já para não falar que a maioria do mundo não vive nesse fuso horário que a nossa cultura europeia do Sul nos vende como sendo o mais adequado. Como se um mocho tivesse mais estilo do que uma gralha, tss, tss.
02 setembro 2011
materialisticamente falando
Dobrei, acondicionei e empacotei todos os bens da nossa família em 10 caixotes grandes e 7 malas de viagem. Uns senhores simpáticos com sotaque beirão e uma camioneta pintada de verde e vermelho já vieram buscar a encomenda que vai de navio até ao lado de lá. É nestas alturas que penso que é muito bom ter pouca coisa. E mesmo assim é tanta! A próxima pessoa que oferecer um brinquedo aos meus filhos (excepto o Pai Natal), uma moldurinha mimosa ao casal, um pano de cozinha para o nosso lar será fuzilada. Ou obrigada a desencaixotar a nossa tralha toda quando a formos buscar em Outubro.
01 setembro 2011
balde de água fria
A primeira recordação que tenho do meu marido é do dia em que ele fez 16 anos. Estávamos todos no ginásio a treinar, ele acabou uma série de abdominais e eu fui buscar um balde de água e despejei-lho em cima, com um sorriso rasgado e um caloroso "parabééééns!". Constato agora quão simbólico foi esse acto e quão profético da geração vindoura.
Foi uma parvoeira, claro que sim. Ainda para mais, não foi a única vez que fiz uma coisa deste género. Mas, ao passo que outros houve que reagiram com um murro nos meus dentes (e ganharam um murro no nariz, de brinde), o bom rapaz que o meu futuro cônjuge sempre foi ficou dividido entre a estupefacção e a superioridade perante gesto tão insignificante. E o que é que isto diz de mim? Que fazia coisas muito parvas, por exemplo. Que sempre tive dificuldade em conter os impulsos e medir as consequências dos meus actos. E que já arranjava maneiras mais meiguinhas de chamar a atenção do sexo oposto.
E agora, passados 14 anos, o que é sucede? Sucede que temos um filho pacífico, que só quer estar de bem com tudo e com todos. E depois temos outro que é o cúmulo da meiguice, enche-nos de abraços e beijinhos, só para depois nos bater e puxar o cabelo (e depois fazer festinhas, rapidamente arrependido). Ter filhos também é isto, é olhar um bocadinho ao espelho e perceber melhor certas coisas.
Foi uma parvoeira, claro que sim. Ainda para mais, não foi a única vez que fiz uma coisa deste género. Mas, ao passo que outros houve que reagiram com um murro nos meus dentes (e ganharam um murro no nariz, de brinde), o bom rapaz que o meu futuro cônjuge sempre foi ficou dividido entre a estupefacção e a superioridade perante gesto tão insignificante. E o que é que isto diz de mim? Que fazia coisas muito parvas, por exemplo. Que sempre tive dificuldade em conter os impulsos e medir as consequências dos meus actos. E que já arranjava maneiras mais meiguinhas de chamar a atenção do sexo oposto.
E agora, passados 14 anos, o que é sucede? Sucede que temos um filho pacífico, que só quer estar de bem com tudo e com todos. E depois temos outro que é o cúmulo da meiguice, enche-nos de abraços e beijinhos, só para depois nos bater e puxar o cabelo (e depois fazer festinhas, rapidamente arrependido). Ter filhos também é isto, é olhar um bocadinho ao espelho e perceber melhor certas coisas.
30 agosto 2011
vazante
À medida que as águas cor de chocolate descem, lentas, em direcção à baía do Raritan, a Natureza declara-se cansada e pede Outono. Era só o que me faltava, Outono ainda em Agosto. Mas o que é certo é que que as primeiras folhas estão a avermelhar, a temperatura baixou e os miúdos regressam à escola para a semana. Eles que façam o que quiserem, o país é deles. Eu volto ao país dos Verões que se prolongam por Setembro fora, como as nossas tardes se prolongam pela noite fora e as noites duram até de manhã. As férias da minha infância foram muitas vezes neste Verão de noites frescas, percebes e Oceano Pacífico (o programa de rádio), enquanto o meu pai conduzia o Dyane descapotável e eu era filha única, de pé no banco de trás.
Agora ando a encher caixotes, a tapar falhas na mobília com lápis de cera, e a contar os dias para voltar ao Verão. Deixem lá a colecção Outono-Inverno nas montras, que eu fecho os olhos por algum tempo. Apesar de a Ana de Amsterdam ter finalmente voltado ao activo para me acompanhar ao pequeno-almoço (ainda que a dizer bem dos livros do Saramago, coisa indesculpável), não estou preparada para chá e mantinhas.
Agora ando a encher caixotes, a tapar falhas na mobília com lápis de cera, e a contar os dias para voltar ao Verão. Deixem lá a colecção Outono-Inverno nas montras, que eu fecho os olhos por algum tempo. Apesar de a Ana de Amsterdam ter finalmente voltado ao activo para me acompanhar ao pequeno-almoço (ainda que a dizer bem dos livros do Saramago, coisa indesculpável), não estou preparada para chá e mantinhas.
28 agosto 2011
a cheia
Depois de uma noite acampados no corredor, devido aos avisos de tornado, a Irene transformou-se em tempestade tropical e limita-se a debitar chuva. Muita chuva. O D&R Canal já estava bastante cheio com a elevada precipitação das últimas semanas, de modo que transbordou. Neste momento, a água está a cerca de 50 metros das casas mais próximas (se subir mais um metro e meio chega lá) e a cerca de 100 metros da nossa. Um dos cantos do parque de estacionamento está alagado, felizmente não onde está o nosso carro. Resta-nos esperar que a chuva pare e que o nível da água não suba ainda mais. Neste momento, não conseguimos sequer chegar ao centro de Princeton, porque a ponte está coberta, como podem ver na imagem. Bom, pelo menos, até ver, temos água e electricidade. Pode ser que a aventura se fique por aqui.
A ponte na Alexander Road.
À esquerda, alcance da cheia; à direita, casas mais próximas (atrás das árvores).
27 agosto 2011
agarrem-se bem
Hoje à noite temos encontro marcado com o furacão Irene. Diz que há 60 anos que não há um destes por aqui. Parecendo que não, é maçador. Ainda que não vamos todos pelos ares a voar de banheira (estou mais pesada uns quilitos, há esperança), ainda que o canal a 300 metros de nossa casa não nos entre pela varanda, os próximos dias não vão dar para passear. Mandaram-nos abastecer-nos de rações para 5 dias e já havia muito pouca coisa no supermercado. Espero que isto seja histeria e exagero. Pode ser que o vento faça o favor de me atirar tudo para dentro doa caixotes e escuso de ter mais trabalho com a mudança.
25 agosto 2011
o desafio que se segue
Aos poucos, começa a definir-se o cenário do que será a nossa vida de agora em diante, no regresso a Portugal. Eu regresso (ao que tudo indica) à vida académica, os rapazes vão para a escola onde o Gugas andou antes, e o meu marido começa um novo emprego, numa nova área, que o vai obrigar a passar as semanas em Coimbra, pelo menos durante os primeiros 3 meses. Isto significa que regressamos à nossa casa, ao nosso bairro, mas como família depenada de pai excepto aos fins-de-semana.
Se estou com cagunfa? Evidentemente que sim. Passo a listar algumas miaúfas relevantes (por ordem semi-aleatória):
1º Tomar conta de dois filhos sozinha;
2º Morrer de frio nos Invernos gélidos e húmidos de Lisboa, muito piores do que as temperaturas negativas daqui;
3º Lidar com toda uma sociedade em depressão colectiva (e que pensa que a solução é zarpar daí);
4º Ter de ouvir falar de futebol e telenovelas todos os dias;
5º Dirigir-me a repartições públicas;
6º Voltar a tratar as pessoas por Sr. Dr. e Sr. Professor;
7º Ficar desempregada e não conseguir arranjar emprego durante muuuuuito tempo;
8º Sentir que já não pertenço bem aí;
9º Sentir que os meus amigos got over me (evito os estrangeirismos mas, neste caso, o termo em Português não exprime exactamente o que quero dizer)
10º Beber cafés minúsculos outra vez.
Reparem que já tenho um cão, donde a inutilidade do conhecido adágio de "quem tem medo...". O medo assiste-me, ah pois assiste, mas é preciso andar com a vida para a frente. Com a ajuda da família alargada, lá sobreviveremos a esta nova modalidade familiar. Com todos os aquecimentos ligados, lá conseguirei limitar a torrente de ranho que habitualmente me corre do nariz entre Novembro e Abril. Com muitos mimos dos amigos, lá acreditarei que fiz alguma falta. Não estou é a ver panaceia para a sensação de já não pertencer aqui, nem lá, nem em lado nenhum. Pode ser que passe com o tempo, os pés de molho no Atlântico e a cabeça a sonhar com mundos ilimitados daqui em diante.
Se estou com cagunfa? Evidentemente que sim. Passo a listar algumas miaúfas relevantes (por ordem semi-aleatória):
1º Tomar conta de dois filhos sozinha;
2º Morrer de frio nos Invernos gélidos e húmidos de Lisboa, muito piores do que as temperaturas negativas daqui;
3º Lidar com toda uma sociedade em depressão colectiva (e que pensa que a solução é zarpar daí);
4º Ter de ouvir falar de futebol e telenovelas todos os dias;
5º Dirigir-me a repartições públicas;
6º Voltar a tratar as pessoas por Sr. Dr. e Sr. Professor;
7º Ficar desempregada e não conseguir arranjar emprego durante muuuuuito tempo;
8º Sentir que já não pertenço bem aí;
9º Sentir que os meus amigos got over me (evito os estrangeirismos mas, neste caso, o termo em Português não exprime exactamente o que quero dizer)
10º Beber cafés minúsculos outra vez.
Reparem que já tenho um cão, donde a inutilidade do conhecido adágio de "quem tem medo...". O medo assiste-me, ah pois assiste, mas é preciso andar com a vida para a frente. Com a ajuda da família alargada, lá sobreviveremos a esta nova modalidade familiar. Com todos os aquecimentos ligados, lá conseguirei limitar a torrente de ranho que habitualmente me corre do nariz entre Novembro e Abril. Com muitos mimos dos amigos, lá acreditarei que fiz alguma falta. Não estou é a ver panaceia para a sensação de já não pertencer aqui, nem lá, nem em lado nenhum. Pode ser que passe com o tempo, os pés de molho no Atlântico e a cabeça a sonhar com mundos ilimitados daqui em diante.
24 agosto 2011
férias um bocado grandes demais
Dias de mula de carga, jornadas de puro deleite que passava na biblioteca, imunda de pó, levando traulitadas na cabeça dos livros em queda livre, o estrabismo a florescer-me nos olhos, tentando ordenar por ordem Richardson ou Library of Congress centenas de volumes. Ahh, as saudades que tenho desses dias! Agora, a única coisa que faço (para além de ler, ir à piscina, estar de papo para o ar, brincar, ir à biblioteca por prazer, blogar, feicebucar) é equilibrar o portátil enquanto caminho pela casa, respondendo a potenciais compradores de ferros de engomar, estantes, edredons, carrinhos de bebés, enquanto um filho me trepa pelas pernas a pedir colo e o outro me faz perguntas de 30 em 30 segundos. Tenho os joelhos gastos de brincar aos cavalos, aos camelos, aos elefantes, às vacas. Tenho zumbidos nos ouvidos por estar constantemente rodeada de crianças (os meus e os vizinhos) a gritar, a chorar, a ameaçar-se com espadas imaginárias, uns amores, uma constante roda viva de energia que nem sempre se consegue canalizar para mergulhos na piscina. Não me arrependo nada de ter optado por estas férias prolongadas antes do regresso a casa, mas acho que vou dar um abraço sentido às educadoras dos meus rapazinhos no dia em que eles recomeçarem a escola, Deus as abençoe.
(post inspirado nos vários co-sofredores do mesmo "mal" por essa blogosfera fora)
(post inspirado nos vários co-sofredores do mesmo "mal" por essa blogosfera fora)
21 agosto 2011
leve leve
Já repararam como, no Verão, todos os blogues deixam cair um pouco do cinzentismo, do peso da seriedade, e se limitam a revelar o puro gozo das coisas boas da vida? Não é uma questão de férias nem de temperatura, é só uma necessidade que temos todos de parar um bocadinho de nos preocupar, de abraçar a inconsciência, dançar numa nuvem estupefaciente e acreditar que o sol vai brilhar bonito, a música vai soar perfeita. Caramba, todos precisamos disto. Não é a silly season, é a humanidade fazendo um pouco de bem a si própria. Desligando as exigências, suspendendo a seriedade. Cutting itself some slack. No Outono, o saldo bancário vai continuar a ser magro, não há nada a fazer. Deixemo-nos rebolar na alegria da areia e da pele bronzeada só um bocadinho mais. Não faz mal a ninguém.
20 agosto 2011
podes ficar com as jóias, a casa e o carro
E, já agora, fica-me com os miúdos. Durante umas horitas, vá. Uma semana de chuva e trovoadas brutais obrigaram-nos à reclusão caseira quase completa. E não é por andar a ser picada por aranhas, percevejos, moscas da fruta, ainda não tenho a certeza, que já trepo paredes.
Entretanto, vendo o recheio da casa. Que maçada, o ferro de engomar e o aspirador já se vão amanhã. Pena que as sanitas e os tachos ainda fiquem, senão é que eu virava Rainha do Sabá. Assim é só rainha do nojo e da roupa amachucada.
Na eventualidade de haver aqui alguém a ler-me em Princeton, ainda há coisas muito jeitosas aqui.
Entretanto, vendo o recheio da casa. Que maçada, o ferro de engomar e o aspirador já se vão amanhã. Pena que as sanitas e os tachos ainda fiquem, senão é que eu virava Rainha do Sabá. Assim é só rainha do nojo e da roupa amachucada.
Na eventualidade de haver aqui alguém a ler-me em Princeton, ainda há coisas muito jeitosas aqui.
18 agosto 2011
a gralha adormecida
Atenção: este post não promete ser longo por aí além mas compensa em intensidade dramática, que ainda ninguém se chegou à frente com o tal ombro amigo.
Quem me conhece há pouco tempo costuma reparar que eu pareço ser uma pessoa pouca dada a devaneios românticos. Pois bem, fiquem sabendo que, dentro de mim, também já existiu uma pequena princesa que acreditou em contos de fadas. Só que essa princesa apanhou sucessivas desilusões com muitos príncipes (nem tanto com bruxas, que não se costumam meter comigo).
A primeira vez que me apaixonei, na terceira classe, descobri que essa era a melhor sensação do mundo. O RJAA (ainda me lembro do nome completo da criatura) não era muito diferente dos restantes meninos de 8 anos, à excepção dos dentes de coelho com que sorria adoravelmente. Ainda assim, a minha almofada passou a encarnar o tal rapazinho, fronhas e fronhas lambuzadas de beijos imaginários e abraços apertados. Tanto sonhei que ele me mandasse bilhetinhos escritos com caligrafia torta, e ele nem uma canelada, nem um empurrão no recreio. Na festa de fim de ano, todos os meninos quiseram dançar comigo, todos menos ele. E o meu romantismo levou a primeira estocada.
Corria já o saudoso ano de Mil Nove e Oitenta e Nove e eu era uma menina de 10 anos, franzina e de cabelo curto, com uns óculos modelo miniatura-da-avó e o coração cheio de flores e passarinhos a cantar. A nova paixão era partilhada por todas as meninas da turma e sei lá quantas mais. Quis adiantar-me a qualquer outra lambisgóia que conseguisse conquistá-lo. Decidida e inconsciente, informei as minhas amigas, durante a aula de Trabalhos Manuais, que ia declarar-me. Como sou pessoa sensata e pouco exibicionista, escolhi apenas o portão da escola à hora da saída para tão audacioso acto. Infelizmente, a coragem abandonou-me na hora H e só consegui chamá-lo e ficar em silêncio, enquanto tudo à minha volta ficava negro e eu caía, desmaiada, no chão de terra e folhas secas. Rezo aos santinhos para que ele se tenha esquecido do episódio. Mal por mal, já basta ter guardado a carta que acabei por lhe enviar no fim do ano lectivo. Agora que é figura mediática com inclinações humorísticas, resta-me esperar que não se lembre de desenterrar publicamente essa minha pérola epistolar, senão acho que nunca mais ponho os pés em Portugal.
Depois destes, outros episódios infelizes se foram sucedendo. Declarações, já sem desmaios, mas sem sucesso. Cartas sem resposta. Actores de cinema que nunca se lembraram de passar pela minha rua para me salvarem de uma existência púbere sem cor. Demorou bastante até estas pequenas vergonhas irem endurecendo o meu coração, qual artereosclerose emocional. A minha adolescência insistiu nos amores platónicos e, já jovem adulta, ainda me dediquei a causas impossíveis e paixões desgraçadas à partida. Finalmente apareceu um príncipe improvável que se foi revelando muito melhor do que eu podia sonhar. Não é o príncipe das surpresas, dos presentes sem motivo, dos gestos arrebatados, mas ganhou o meu coração. É o príncipe que me trata bem e que gosta mesmo de mim como sou.
Contos de fadas? Lamento, mas é verdade que já não acredito neles. Não acredito que haja só um grande amor na vida. Não acredito em almas gémeas. E, ainda assim, é esse imaginário que faço questão de transmitir aos meus filhos. Eles que cresçam e acreditem no que quiserem. Não há nada pior do que um adulto que ceifa as possibilidades ilimitadas de uma criança.
Quem me conhece há pouco tempo costuma reparar que eu pareço ser uma pessoa pouca dada a devaneios românticos. Pois bem, fiquem sabendo que, dentro de mim, também já existiu uma pequena princesa que acreditou em contos de fadas. Só que essa princesa apanhou sucessivas desilusões com muitos príncipes (nem tanto com bruxas, que não se costumam meter comigo).
A primeira vez que me apaixonei, na terceira classe, descobri que essa era a melhor sensação do mundo. O RJAA (ainda me lembro do nome completo da criatura) não era muito diferente dos restantes meninos de 8 anos, à excepção dos dentes de coelho com que sorria adoravelmente. Ainda assim, a minha almofada passou a encarnar o tal rapazinho, fronhas e fronhas lambuzadas de beijos imaginários e abraços apertados. Tanto sonhei que ele me mandasse bilhetinhos escritos com caligrafia torta, e ele nem uma canelada, nem um empurrão no recreio. Na festa de fim de ano, todos os meninos quiseram dançar comigo, todos menos ele. E o meu romantismo levou a primeira estocada.
Corria já o saudoso ano de Mil Nove e Oitenta e Nove e eu era uma menina de 10 anos, franzina e de cabelo curto, com uns óculos modelo miniatura-da-avó e o coração cheio de flores e passarinhos a cantar. A nova paixão era partilhada por todas as meninas da turma e sei lá quantas mais. Quis adiantar-me a qualquer outra lambisgóia que conseguisse conquistá-lo. Decidida e inconsciente, informei as minhas amigas, durante a aula de Trabalhos Manuais, que ia declarar-me. Como sou pessoa sensata e pouco exibicionista, escolhi apenas o portão da escola à hora da saída para tão audacioso acto. Infelizmente, a coragem abandonou-me na hora H e só consegui chamá-lo e ficar em silêncio, enquanto tudo à minha volta ficava negro e eu caía, desmaiada, no chão de terra e folhas secas. Rezo aos santinhos para que ele se tenha esquecido do episódio. Mal por mal, já basta ter guardado a carta que acabei por lhe enviar no fim do ano lectivo. Agora que é figura mediática com inclinações humorísticas, resta-me esperar que não se lembre de desenterrar publicamente essa minha pérola epistolar, senão acho que nunca mais ponho os pés em Portugal.
Depois destes, outros episódios infelizes se foram sucedendo. Declarações, já sem desmaios, mas sem sucesso. Cartas sem resposta. Actores de cinema que nunca se lembraram de passar pela minha rua para me salvarem de uma existência púbere sem cor. Demorou bastante até estas pequenas vergonhas irem endurecendo o meu coração, qual artereosclerose emocional. A minha adolescência insistiu nos amores platónicos e, já jovem adulta, ainda me dediquei a causas impossíveis e paixões desgraçadas à partida. Finalmente apareceu um príncipe improvável que se foi revelando muito melhor do que eu podia sonhar. Não é o príncipe das surpresas, dos presentes sem motivo, dos gestos arrebatados, mas ganhou o meu coração. É o príncipe que me trata bem e que gosta mesmo de mim como sou.
Contos de fadas? Lamento, mas é verdade que já não acredito neles. Não acredito que haja só um grande amor na vida. Não acredito em almas gémeas. E, ainda assim, é esse imaginário que faço questão de transmitir aos meus filhos. Eles que cresçam e acreditem no que quiserem. Não há nada pior do que um adulto que ceifa as possibilidades ilimitadas de uma criança.
16 agosto 2011
schh... sossega, formigueiro consumista
Volta e meia sou acometida de palpitações. Este fenómeno acontece-me não mais de duas ou três vezes por ano, mas bate com força. Sonho com roupa e sapatos lindos, que me caem bem, que me fazem alta, esguia, voluptuosa, linda. E acordo para a realidade em que não posso comprar mais nada, não só porque não vejo ordenado há quase dois meses, mas porque o contentor é para encher de brinquedos e livros, e não de tecido desnecessário. Respiro fundo, afasto-me dos sites das minhas lojas preferidas, não abro os blogues das fashionistas de serviço, e vou fazer bolos, que me faz melhor.
E depois penso que este ano, em particular, não é difícil resistir às últimas tendências da moda. Se me fica mal, não uso. Se nunca gostei, não vou passar a gostar. Se nunca tive um par de calças à pesca do berbigão, superei a loucura do roxo integral, passei ao lado das psicadélicas unhas azuis, ignorei tanto os botins como as botas por cima do joelho, menina, não vão ser os padrões tigresse nem as lantejoulas douradas que me vão fazer vacilar. Afinal, parece que vai haver espaço para levarmos a bicicleta na bagagem.
E depois penso que este ano, em particular, não é difícil resistir às últimas tendências da moda. Se me fica mal, não uso. Se nunca gostei, não vou passar a gostar. Se nunca tive um par de calças à pesca do berbigão, superei a loucura do roxo integral, passei ao lado das psicadélicas unhas azuis, ignorei tanto os botins como as botas por cima do joelho, menina, não vão ser os padrões tigresse nem as lantejoulas douradas que me vão fazer vacilar. Afinal, parece que vai haver espaço para levarmos a bicicleta na bagagem.
15 agosto 2011
dois anos de vida na américa: o balanço
Aviso: Post longo, sem barreiras, sem peneiras, que provocará o ocasional sorriso, a pontual lágrima, possivelmente uma ou outra interrupção para ir fazer chichi, a vontade de me insultar, de me dar um ombro amigo, de fazer denúncias à Segurança Social, de nunca mais ler este blogue, ou mesmo de me oferecer um daqueles selinhos queridos.
No dia 3 de Setembro de 2009, aterrei no aeroporto de Newark com um filho de 2 anos e meio pela mão e uma barriga de 4 meses e meio de gravidez. Esperava-nos um marido e pai, físico pós-doc na Universidade de Princeton, uma casa com meia dúzia de móveis, e muitos dias, meses, horas intermináveis pela frente. Desde que escolhi este homem que soube que esta seria uma fase das nossas vidas e a experiência de expatriados uma etapa necessária na carreira dele, um período determinante na construção da nossa família. Também sabia, desde que vivi durante um semestre na Alemanha, que isso me ia custar, por todas as razões de já tanto falei. E custou. Muito.
A adaptação faz-se, não custa assim tanto. Custa é acordar, adormecer, acordar, dias a fio naquilo que se sente como uma prisão domiciliária. Vivemos numa terra pequena, de passagem, habitada por estudantes e cientistas de pouso temporário. Não foi fácil estabelecer laços e houve semanas inteiras em que o meu marido era o único adulto com que contactava. Uma vida de domesticidade pode ser confortável, pode ser muito bom fazer bolos com os filhos enquanto neva lá fora; mas isso, todos os dias, a mim não chega. Principalmente quando lidamos com uma depressão pós-parto e não há tábuas de salvação como a família alargada e os amigos de verdade. Demasiadas vezes, fui muito má mãe. Também devo ter sido má mulher. E fui má pessoa no sentido que deixei de me respeitar a mim própria.
Felizmente, essa sensação de isolamento dissipou-se no segundo ano. Comecei a trabalhar, os meninos foram para a escola e, apesar de materialmente as coisas não se terem alterado, essa quebra na rotina permitiu que apreciasse muito mais as coisas boas de aqui estar. Voltei a sentir-me reconhecida pelas minhas capacidades além-maternidade, conheci até algumas pessoas interessantes, fiz as pazes com os nativos. Foi um ano muito cansativo a nível físico, sobretudo na fase em que tive um marido de perna engessada e vários centímetros de neve com que lutar todas as madrugadas. Mas foi também o ano em que a poeira assentou, as nuvens negras dissiparam-se e consegui definir o que queria mesmo que fosse a minha vida. E queria que fosse não muito diferente disto, mas do outro lado do mar. Queria voltar a casa. Assumi essa vontade e assim voltamos.
Estes dois anos, para o bem e para o mal, não são um interregno, são uma mudança sem retorno. Fiz o luto da minha vida anterior e preparo-me para nascer de novo. Já não me lembro da última vez que peguei no carro sozinha, para espairecer, e conduzi sem destino enquanto berrava impropérios até à rouquidão, lágrimas rolando aos pares pela cara. Aos poucos, o desprezo pela cultura local dissipou-se, passou a paternalismo e espero que tenha chegado à assimilação das coisas boas. Quanto mais não seja, os meus quadris já têm assimilado bastante tarte de natas, chocolate e manteiga de amendoim.
Se valeu a pena? Claro que valeu a pena. Levo daqui uma enorme experiência de vida, um maior auto-conhecimento, um filho americano. Mas isto foi sobreviver, não foi realmente viver. Acho que tenho o direito a viver, mesmo com todas as dificuldades esperadas e inesperadas que temos pela frente.
No dia 3 de Setembro de 2009, aterrei no aeroporto de Newark com um filho de 2 anos e meio pela mão e uma barriga de 4 meses e meio de gravidez. Esperava-nos um marido e pai, físico pós-doc na Universidade de Princeton, uma casa com meia dúzia de móveis, e muitos dias, meses, horas intermináveis pela frente. Desde que escolhi este homem que soube que esta seria uma fase das nossas vidas e a experiência de expatriados uma etapa necessária na carreira dele, um período determinante na construção da nossa família. Também sabia, desde que vivi durante um semestre na Alemanha, que isso me ia custar, por todas as razões de já tanto falei. E custou. Muito.
A adaptação faz-se, não custa assim tanto. Custa é acordar, adormecer, acordar, dias a fio naquilo que se sente como uma prisão domiciliária. Vivemos numa terra pequena, de passagem, habitada por estudantes e cientistas de pouso temporário. Não foi fácil estabelecer laços e houve semanas inteiras em que o meu marido era o único adulto com que contactava. Uma vida de domesticidade pode ser confortável, pode ser muito bom fazer bolos com os filhos enquanto neva lá fora; mas isso, todos os dias, a mim não chega. Principalmente quando lidamos com uma depressão pós-parto e não há tábuas de salvação como a família alargada e os amigos de verdade. Demasiadas vezes, fui muito má mãe. Também devo ter sido má mulher. E fui má pessoa no sentido que deixei de me respeitar a mim própria.
Felizmente, essa sensação de isolamento dissipou-se no segundo ano. Comecei a trabalhar, os meninos foram para a escola e, apesar de materialmente as coisas não se terem alterado, essa quebra na rotina permitiu que apreciasse muito mais as coisas boas de aqui estar. Voltei a sentir-me reconhecida pelas minhas capacidades além-maternidade, conheci até algumas pessoas interessantes, fiz as pazes com os nativos. Foi um ano muito cansativo a nível físico, sobretudo na fase em que tive um marido de perna engessada e vários centímetros de neve com que lutar todas as madrugadas. Mas foi também o ano em que a poeira assentou, as nuvens negras dissiparam-se e consegui definir o que queria mesmo que fosse a minha vida. E queria que fosse não muito diferente disto, mas do outro lado do mar. Queria voltar a casa. Assumi essa vontade e assim voltamos.
Estes dois anos, para o bem e para o mal, não são um interregno, são uma mudança sem retorno. Fiz o luto da minha vida anterior e preparo-me para nascer de novo. Já não me lembro da última vez que peguei no carro sozinha, para espairecer, e conduzi sem destino enquanto berrava impropérios até à rouquidão, lágrimas rolando aos pares pela cara. Aos poucos, o desprezo pela cultura local dissipou-se, passou a paternalismo e espero que tenha chegado à assimilação das coisas boas. Quanto mais não seja, os meus quadris já têm assimilado bastante tarte de natas, chocolate e manteiga de amendoim.
Se valeu a pena? Claro que valeu a pena. Levo daqui uma enorme experiência de vida, um maior auto-conhecimento, um filho americano. Mas isto foi sobreviver, não foi realmente viver. Acho que tenho o direito a viver, mesmo com todas as dificuldades esperadas e inesperadas que temos pela frente.
12 agosto 2011
daqui a um mês
Levantamos vôo de regresso a casa.
Agora é a altura em que cada gesto é uma despedida, cada embalagem de qualquer coisa é a última. Sou muito nostálgica, levo a vida a despedir-me. Amanhã é de Nova Iorque.
Agora é a altura em que cada gesto é uma despedida, cada embalagem de qualquer coisa é a última. Sou muito nostálgica, levo a vida a despedir-me. Amanhã é de Nova Iorque.
11 agosto 2011
pedras no caminho?
Guardo-as todas para as atirar ao pessoal que adora estes aforismos. Eu nunca desgostei de coisas fáceis e não consigo mesmo ver o gozo das corridas de obstáculos quando se pode percorrer a mesma distância muito mais depressa sem pôr em risco o bem-estar do entrepernas.
08 agosto 2011
decisões, decisões, decisões...
Tenho algum pudor em falar aqui das coisas realmente fundamentais que se passam na minha vida. E a verdade é que estamos a passar um período de muitas escolhas difíceis, que incluem riscos, saltos no vazio e o (re)pesar dos nossos valores fundamentais. Mais vale isto do que não ter escolhas, bem sei, mas não é fácil. É nestas alturas que dava mesmo muito jeito ser uma pessoa completamente egoísta e destituída de moral, mas gosto de acreditar que não sou assim. Será que é vaidade? Será que é ingenuidade? Não sei. Por isso perdoem o meu silêncio nos próximos tempos. E agora é a altura certa para me mandarem aqueles e-mails de corrente com todos os clichés, mensagens de paz, anjinhos e assim, certo? Brincadeirinha! Pelo contrário, todas as orações e pensamentos positivos são muito bem-vindos.
04 agosto 2011
sem saber bem como, conquistaram-me
São materialistas, individualistas, puritanos, consumistas, ingénuos, auto-suficientes, dotados de um humor pateta, obcecados com o sucesso, destituídos de ironia, uns miúdos, uns cavalos selvagens, a humanidade numa lata de sopa que se vende como se fosse vichyssoise. São o povo que me acolheu, cheiinho de defeitos - como todos os outros - mas, também, com imensas e enormes qualidades. E uma pessoa apercebe-se que já gosta mesmo deles quando custa, de fora, ouvir dizer mal. Não gostamos que chamem nomes à nossa mãe, mesmo que ela nos chegue a roupa ao pelo. Acho que nunca mais vou ouvir o tão europeu desdém "ah, sim, os americanos..." (idealmente seguido de um bafo no cigarro) sem que isso me corte um bocadinho o coração.
Gente, para que conste, os americanos são trabalhadores como o caraças. São ingénuos, sim, mas também são dos poucos que ainda acreditam que podem fazer alguma diferença positiva ao longo da sua vida. Muitos deles têm valores de verdade, pelos quais regem a sua vida, e que não descartam quando não dão jeito. São leais, genuínos e tolerantes. São boa onda, andam de bem com a vida e não resmungam por tudo e por nada. Se isso é ser parvo? Não é mais parvo passar a vida a rezingar com tudo? E, como em todo o lado, há muita gente criativa, culta, inteligente, original, generosa, boa. Não volto daqui a conduzir um GMC (para minha tristeza) e com os cabelos platinados ao vento, mas espero voltar um bocadinho americana.
Gente, para que conste, os americanos são trabalhadores como o caraças. São ingénuos, sim, mas também são dos poucos que ainda acreditam que podem fazer alguma diferença positiva ao longo da sua vida. Muitos deles têm valores de verdade, pelos quais regem a sua vida, e que não descartam quando não dão jeito. São leais, genuínos e tolerantes. São boa onda, andam de bem com a vida e não resmungam por tudo e por nada. Se isso é ser parvo? Não é mais parvo passar a vida a rezingar com tudo? E, como em todo o lado, há muita gente criativa, culta, inteligente, original, generosa, boa. Não volto daqui a conduzir um GMC (para minha tristeza) e com os cabelos platinados ao vento, mas espero voltar um bocadinho americana.
03 agosto 2011
é de pequenino que se enche o baldinho
Comentei certa vez, no blogue da Mãe Capotada, que gosto de pensar que os nossos filhos são como pequenos baldinhos cujo ego devemos ir enchendo desde cedo, visto que terão toda uma vida para se irem esvaziando. Então é assim que se faz, enquanto se muda a fralda:
gralha: O Diogo é lindo?
Diogo: É.
g: O Diogo é querido?
D: É.
g: O Diogo é o meu bebé bom?
D: É.
E como o nosso próprio baldinho passa a vida a levar pontapés e a ser miseravelmente virado ao contrário:
gralha: A Mamã é linda?
Diogo: É.
g: A Mamã é querida?
D: É.
g: A Mamã é absolutamente espectacular?
D: É.
g: Já está :)
D: Tátááá :)
Animeio de bebé lindo, querido, e bom. Que riqueza!
gralha: O Diogo é lindo?
Diogo: É.
g: O Diogo é querido?
D: É.
g: O Diogo é o meu bebé bom?
D: É.
E como o nosso próprio baldinho passa a vida a levar pontapés e a ser miseravelmente virado ao contrário:
gralha: A Mamã é linda?
Diogo: É.
g: A Mamã é querida?
D: É.
g: A Mamã é absolutamente espectacular?
D: É.
g: Já está :)
D: Tátááá :)
Animeio de bebé lindo, querido, e bom. Que riqueza!
02 agosto 2011
take us to lisboa (semi-plagiozito, mas sem maldade)
A gralha tem um sonho. Esse sonho chama-se voltar para casa. Não tem nenhum gato mas tem uma Bimby, entre outros quarenta pés cúbicos de tralha, que tem de ir de contentor para Gaio, Alcobaça. E, parecendo que não, ainda é maçador uma pessoa ter de deslocar-se até Gaio, Alcobaça. Além disso, a gralha espera fervorosamente que o veterinário, perdão, urologista dê luz verde para o filho pequeno ir para Lisboa, porque este não dá mesmo para deixar para trás. Parece impossível como consegues gozar com uma coisa destas, que é mesmo verdade, gralha. És terrível.
A gralha não está a pedir-vos dinheiro nem que ponham uma fitinha no canto do blogue, está apenas a pedir que lhe comprem o recheio da casa. No Natal, também faço um recheio de peru bastante razoável, pode ser que dê para comercializar. Em breve, estará disponível a ligação para o material à venda.
A gralha não está a pedir-vos dinheiro nem que ponham uma fitinha no canto do blogue, está apenas a pedir que lhe comprem o recheio da casa. No Natal, também faço um recheio de peru bastante razoável, pode ser que dê para comercializar. Em breve, estará disponível a ligação para o material à venda.
01 agosto 2011
o que todos procuramos
Demorei imenso a escrever este post porque não conseguia arranjar-lhe um título apropriado. Não arranjei. E normalmente escrevo isto muito à pressa. Mas os termos 'intimidade', 'comunhão', 'proximidade' não conseguem abarcar o sentido que quero transmitir. Nem sei bem por que é que me lembrei de falar sobre estas coisas, foi mais uma revelação enquanto corria e estava a precisar de organizar as ideias.
De repente, percebo que aquilo que nós, humanos, procuramos de mais fundamental não se altera ao longo da vida. Não estou a falar de questões materiais, estou a falar do resto, do que nos faz uma espécie gregária. Antes achava que, em crianças, queremos amor paternal; na juventude, amor carnal; na velhice, a segurança de estar ao lado de alguém que nos ajude a caminhar quando os passos já são incertos. Não, não e não. A ânsia é a mesma, os nomes que lhe damos é que se vão alterando conforme nos vamos conhecendo melhor. Todos nascemos já cheios de uma solidão imensa, uma sede desértica de sermos realmente aceites e apreciados pelo que somos. Há quem tenha a sorte de saciar essa urgência no abraço da mãe. Há quem passe a vida toda à procura. Todos vamos procurando o rosto de quem nos ama de verdade mas, acima de tudo, de quem está disposto a receber o nosso amor - porque estamos cheios de amor para dar.
Sei que não descobri a pólvora. Mas há tantas coisas que só compreendemos realmente quando as vivemos na primeira pessoa! Nesta fase da vida, casada, com filhos, lido com esta ânsia de uma forma diferente. Já não procuro um homem com estas ou aquelas características. Já não acredito nUM amor maior do que todos, que nos completa. E já nem acho que essa forma de proximidade tenha de ser restrita à família, ou ao ideal de amor romântico. Acho que é por isso que, nunca como agora, aprecio as minhas amigas mulheres. As que passam pelo mesmo que eu e me entendem de olhos fechados; e as que vivem em circunstâncias diferentes mas me querem tão bem que param - param... - o tempo suficiente para se porem na minha posição e compreenderem o que sinto, o verdadeiro sentido das minhas palavras e do que está por trás delas. E gosto desta nova forma de intimidade e, porque não?, de amor. Espero para ver, daqui a uns anos, onde vou encontrar o que procuro.
E esta é, também, uma diferença brutal entre crentes e não crentes. Alguém que acredita em Deus sabe que nunca, nunca está realmente sozinho. E olha a reviravoltazinha religiosa que isto levou...
De repente, percebo que aquilo que nós, humanos, procuramos de mais fundamental não se altera ao longo da vida. Não estou a falar de questões materiais, estou a falar do resto, do que nos faz uma espécie gregária. Antes achava que, em crianças, queremos amor paternal; na juventude, amor carnal; na velhice, a segurança de estar ao lado de alguém que nos ajude a caminhar quando os passos já são incertos. Não, não e não. A ânsia é a mesma, os nomes que lhe damos é que se vão alterando conforme nos vamos conhecendo melhor. Todos nascemos já cheios de uma solidão imensa, uma sede desértica de sermos realmente aceites e apreciados pelo que somos. Há quem tenha a sorte de saciar essa urgência no abraço da mãe. Há quem passe a vida toda à procura. Todos vamos procurando o rosto de quem nos ama de verdade mas, acima de tudo, de quem está disposto a receber o nosso amor - porque estamos cheios de amor para dar.
Sei que não descobri a pólvora. Mas há tantas coisas que só compreendemos realmente quando as vivemos na primeira pessoa! Nesta fase da vida, casada, com filhos, lido com esta ânsia de uma forma diferente. Já não procuro um homem com estas ou aquelas características. Já não acredito nUM amor maior do que todos, que nos completa. E já nem acho que essa forma de proximidade tenha de ser restrita à família, ou ao ideal de amor romântico. Acho que é por isso que, nunca como agora, aprecio as minhas amigas mulheres. As que passam pelo mesmo que eu e me entendem de olhos fechados; e as que vivem em circunstâncias diferentes mas me querem tão bem que param - param... - o tempo suficiente para se porem na minha posição e compreenderem o que sinto, o verdadeiro sentido das minhas palavras e do que está por trás delas. E gosto desta nova forma de intimidade e, porque não?, de amor. Espero para ver, daqui a uns anos, onde vou encontrar o que procuro.
E esta é, também, uma diferença brutal entre crentes e não crentes. Alguém que acredita em Deus sabe que nunca, nunca está realmente sozinho. E olha a reviravoltazinha religiosa que isto levou...
28 julho 2011
um mau humor que é uma coisa inexplicável
Às vezes, ser boa mãe (boa, não, mas satisfaz pouco), é ir um bocadinho para o quarto e fechar a porta.
27 julho 2011
a preguiça, a falta do que fazer e a procrastinação
Já toda a gente se apercebeu de que quanto menos temos para fazer, menos fazemos, certo? Eu percebi isso no último ano de faculdade, em que só comecei a fazer a tese de licenciatura quando comecei a trabalhar a tempo inteiro.
O que é que uma pessoa faz quando tem muito tempo livre? Arrasta-se. Engonha. Feicebuca de cinco em cinco minutos. Adia a preparação de uma mudança familiar de continente para os últimos minutos.
E depois percebe que há muito quem ache que acordar às 9h30 é cedo, quando já não se lembra da última vez em que acordou depois das 7h30. E que há outras mães a tempo inteiro que afirmam que não têm tempo para levar os miúdos ao parque. O que é que fazem ao longo do dia, deixam-se hipnotizar pelo canal de televisão da Oprah?
A sério, nesta altura da vida, eu durmo oito horas por dia, cuido de dois filhos, brinco com eles, não vejo televisão, leio muito, cozinho todos os dias e não tenho empregada doméstica. E tenho imenso tempo livre. Imenso.
O que é que uma pessoa faz quando tem muito tempo livre? Arrasta-se. Engonha. Feicebuca de cinco em cinco minutos. Adia a preparação de uma mudança familiar de continente para os últimos minutos.
E depois percebe que há muito quem ache que acordar às 9h30 é cedo, quando já não se lembra da última vez em que acordou depois das 7h30. E que há outras mães a tempo inteiro que afirmam que não têm tempo para levar os miúdos ao parque. O que é que fazem ao longo do dia, deixam-se hipnotizar pelo canal de televisão da Oprah?
A sério, nesta altura da vida, eu durmo oito horas por dia, cuido de dois filhos, brinco com eles, não vejo televisão, leio muito, cozinho todos os dias e não tenho empregada doméstica. E tenho imenso tempo livre. Imenso.
25 julho 2011
norte e sul
(olhando para os nossos vizinhos dinamarqueses, de quem gosto muito)
Nós somos tão barulhentos. Um chinfrim que não tem discrição. Rimo-nos muito. Rimo-nos de coisas parvas, só porque sim. E abraçamo-nos, tocamo-nos, empurramo-nos, mimamo-nos. Tecemos os laços desta família com braços, pernas e tudo. Ostentamos os nossos gestos de carinho, o nosso amor não cabe apenas em palavras contidas. Até o mais pequeno já se habituou a trepar pelo maior e dar-lhe beijos lambuzados sem razão aparente. Gosto desta nossa essência do Sul, por muito que admire a civilidade do Norte.
Nós somos tão barulhentos. Um chinfrim que não tem discrição. Rimo-nos muito. Rimo-nos de coisas parvas, só porque sim. E abraçamo-nos, tocamo-nos, empurramo-nos, mimamo-nos. Tecemos os laços desta família com braços, pernas e tudo. Ostentamos os nossos gestos de carinho, o nosso amor não cabe apenas em palavras contidas. Até o mais pequeno já se habituou a trepar pelo maior e dar-lhe beijos lambuzados sem razão aparente. Gosto desta nossa essência do Sul, por muito que admire a civilidade do Norte.
23 julho 2011
barrela
Nunca retirei prazer das pequenas tarefas domésticas. Invejo um bocadinho quem sente profunda satisfação ao contemplar a transparência das vidraças que acabou de lavar, a lisura de uma camisa imaculadamente engomada. Ao contrário da minha mãe (a minha mãe anda a aparecer muito por aqui, pergunto-me por quê), não estou sempre à procura de mais alguma coisa para arrumar ou limpar. Mas é verdade que gosto de ter as coisas arrumadas e limpas, e isso consegue-se muito graças a detalhes que escapam aos homens. E pronto, lá descamba este post para o sexismo. Não há problema, os (para aí) três leitores do sexo masculino que tinha - e já estou a fazer uma estimativa optimista baseada nos meus seguidores no Uganda - abandonaram-me desde que reconheci publicamente a modéstia da minha copa de soutien.
Nunca nenhum homem em todo o mundo fez uma barrela, por exemplo. Há nesse gesto uma antecipação, uma preparação do que vem a seguir. A postura masculina perante a nódoa é a da máxima agressividade, o anti-nódoas em spray mais caro que encontrar no supermercado, aplicado mesmo antes de atirar a roupa para a máquina, no ciclo super-power plus. A nódoa é, contudo, uma problemática que reage com mais eficácia a uma abordagem com jeitinho e dedicação alongada. Há que deixá-la de molho no bicarbonato de sódio. Ela dorme uma noite naquela solução e começa a dar de si. E depois há que cobri-la de sabão, o sabão Clarim que peço à minha mãe (olha ela de novo!) para me trazer de Portugal, e deixá-la soçobrar de livre vontade. Quando chega à máquina de lavar roupa, a nódoa já deve estar no purgatório da sujidade, mera lembrança ténue de uma peça de fruta, de uma fatia de bolo de chocolate. E é assim, neste jeitinho feminino de entrega, que a roupa sai fresca e nova do tambor, cumprindo promessas de publicidade a detergente. Parece que, afinal, tenho algum prazer nestas coisas.
Nunca nenhum homem em todo o mundo fez uma barrela, por exemplo. Há nesse gesto uma antecipação, uma preparação do que vem a seguir. A postura masculina perante a nódoa é a da máxima agressividade, o anti-nódoas em spray mais caro que encontrar no supermercado, aplicado mesmo antes de atirar a roupa para a máquina, no ciclo super-power plus. A nódoa é, contudo, uma problemática que reage com mais eficácia a uma abordagem com jeitinho e dedicação alongada. Há que deixá-la de molho no bicarbonato de sódio. Ela dorme uma noite naquela solução e começa a dar de si. E depois há que cobri-la de sabão, o sabão Clarim que peço à minha mãe (olha ela de novo!) para me trazer de Portugal, e deixá-la soçobrar de livre vontade. Quando chega à máquina de lavar roupa, a nódoa já deve estar no purgatório da sujidade, mera lembrança ténue de uma peça de fruta, de uma fatia de bolo de chocolate. E é assim, neste jeitinho feminino de entrega, que a roupa sai fresca e nova do tambor, cumprindo promessas de publicidade a detergente. Parece que, afinal, tenho algum prazer nestas coisas.
22 julho 2011
trinta e nove cê
Os miúdos andam em pelo pela casa. Fechamos as janelas e só as abrimos à noite, que a minha mãe é Alentejana e eu aprendi qualquer coisa com ela. Aqui ainda há quatro estações do ano e isso é muito reconfortante. À tarde vou passar a ferro e cozinhar no forno, vou soar as estopinhas e sonhar com a cerveja gelada do jantar, depois de os deitarmos. Este Verão é (quase todo) longe do mar mas é cheio de cigarras e pirilampos. Passamos dias inteiros a brincar, a ler, a descansar, até ao aborrecimento que chame pelo regresso ao trabalho e à escola. É para isso mesmo que servem as férias grandes. E os meus meninos estão felizes, cor de caramelo.
21 julho 2011
continuam os posts com conteúdo elevadíssimo
"Ai, e tal, e se agora só pudesses escolher uma loja onde irias comprar toda a tua roupa, sapatos, acessórios, produtos de beleza, artigos de decoração?" Era esta. Estou a pensar acampar lá dentro durante a noite quando aquilo fechar. Ou então levo meia dúzia de vestidos para o provador, enfio-os uns em cima dos outros, e fujo a correr muito, muito depressa. Pode ser que me extraditem, mas vou feliz.
20 julho 2011
a verdade, verdadinha
Eu e o meu homem, noite de Verão, quarto, janela aberta.
Ele: Estás assim contente porque vamos voltar para Portugal.
Eu: Pois estou. E já sei que tu não estás, tenho pena.
Ele: Não, vou arranjar um bom emprego e vamos poder viajar. Vamos às Seychelles.
Eu: Isso. Mas dispenso as Seychelles. Vamos à Costa Rica. Ao Equador. Ao Senegal.
Ele: Ao Japão. Ao Cambodja.
Eu: À Índia. À Argentina.
Ele: Ao Perú.
Eu: Boa. E a Nova Iorque.
Ou, como uma pessoa pode passar dois anos mesmo, mesmo ali ao lado e não estar lá, comprar o bilhete de ida-e-volta de comboio meia dúzia de vezes mas não ver um espectáculo, não experimentar um restaurante, não conhecer os recantos improváveis, não a-pro-vei-tar. Porque não dá. Porque não somos um casal de turistas em férias, nem sequer a fingir por umas horas. E isto, senhores, há que dizê-lo, deixa-me chateada que nem um boi.
Ele: Estás assim contente porque vamos voltar para Portugal.
Eu: Pois estou. E já sei que tu não estás, tenho pena.
Ele: Não, vou arranjar um bom emprego e vamos poder viajar. Vamos às Seychelles.
Eu: Isso. Mas dispenso as Seychelles. Vamos à Costa Rica. Ao Equador. Ao Senegal.
Ele: Ao Japão. Ao Cambodja.
Eu: À Índia. À Argentina.
Ele: Ao Perú.
Eu: Boa. E a Nova Iorque.
Ou, como uma pessoa pode passar dois anos mesmo, mesmo ali ao lado e não estar lá, comprar o bilhete de ida-e-volta de comboio meia dúzia de vezes mas não ver um espectáculo, não experimentar um restaurante, não conhecer os recantos improváveis, não a-pro-vei-tar. Porque não dá. Porque não somos um casal de turistas em férias, nem sequer a fingir por umas horas. E isto, senhores, há que dizê-lo, deixa-me chateada que nem um boi.
19 julho 2011
força, tu vais conseguir
Aqui há dias, segui uma ligação (acho que da Melissa) para um texto que falava do problema da educação das crianças de hoje, que esperam a felicidade como um direito de nascença. Aquilo fez tudo um grande sentido para mim, à excepção da ideia de que não se valoriza o esforço. Parece-me que, em muitas situações, sobrestimamos o poder do esforço. Vende-se muito a ideia de que, se nos esforçamos o suficiente, conseguimos alcançar seja o que for. Não conseguimos, não senhor. Eu nunca poderia ser uma boa jogadora de vólei, nem que treinasse oito horas por dia. O meu marido nunca conseguiria dançar com desenvoltura, nem que o Nureyev descesse à terra e o encostasse à barra meses a fio. O talento existe, não é um mito maldoso inventado por um grupo fechado de perfeccionistas que não deixa mais ninguém entrar. Há pessoas com talento, pessoas com vários talentos e pessoas com imenso talento; e também há pessoas que não têm jeitinho nenhum para nada. É injusto, como tantas outras coisas na vida. É claro que o esforço é essencial e nada resulta apenas do talento. Mas já é tempo que alguém tenha a coragem de dizer you don't have it in you. E nós, comuns mortais, prosseguimos com a nossa vida banal de adoração dos escolhidos. Pelo menos o dom da apreciação foi distribuído mais democraticamente.
18 julho 2011
o poder da visualização
Sandes de manteiga de amendoim com doce de mirtilos, tu que acabaste de ser engolida com a ajuda de uma caneca de café adubada com leite condensado, estou a ver-te. Semi-desfeita numa papa acastanhada, desces até ao meu estômago e começas a decompor-te. Atravessas agora o meu aparelho digestivo e és absorvida por minúsculos vasos sanguíneos que me irrigam as vilosidades. O meu sangue está agora cheio de ti e corre direito às minhas coxas. Não vás por aí, sandes. Estou a ver-te, decidida, navegando em sentido ascendente. Chegas à minha caixa torácica e penetras o tecido adiposo das minhas maminhas (gostava de lhes chamar tecnicamente "mamas", mas não estaria a visualizar a realidade). Estás a preenchê-las, sim, a insuflá-las generosamente, numa adolescência inesperada. Obrigada, sandes, agora já posso usar blusas sem parecer um travesti com muito pouca maquilhagem.
Nunca li O Segredo, mas é assim que funciona, não é?
Nunca li O Segredo, mas é assim que funciona, não é?
16 julho 2011
o meu corpo
Isto agora vai soar muito New Age mas é verdade: vivemos (no Ocidente, hoje em dia) muito desligados do nosso corpo. Cobrimo-nos de cremes, adornamo-nos, perfumamo-nos, dopamo-nos, mas não sentimos o pulsar do sangue nas veias nem as endorfinas que acalmam um músculo dorido. Vivemos de costas voltadas para os ossos, tendões, cartilagens que nos sustentam e só dão sinal de vida quando alguma coisa dói.
Mais do que pela imagem ou por um conceito mais ou menos abstracto de saúde, é por isso que gosto de fazer exercício. Para sentir o meu corpo. Para usar o meu corpo. Porque é tão estúpido desprezar o corpo como desconhecer o tipo de música que nos faz vibrar, os livros que nos alimentam, as imagens que nos tocam. Nem sempre gostei de fazer exercício. Até aos 17 anos, e graças à formatadíssima e limitada Educação Física de tantas escolas portuguesas, detestava tudo o que tinha a ver com mexer-me. E depois conheci o remo, a corrida, a dança, o yoga, e não quis mais parar. Quando paro, definho. Definham os músculos e definha-me o ânimo. Fico velha, (ainda mais) chata, cansada. Por isso, gente, a sério, mexam-se. Toquem-se. Sim, isso mesmo que estão a pensar.
Mais do que pela imagem ou por um conceito mais ou menos abstracto de saúde, é por isso que gosto de fazer exercício. Para sentir o meu corpo. Para usar o meu corpo. Porque é tão estúpido desprezar o corpo como desconhecer o tipo de música que nos faz vibrar, os livros que nos alimentam, as imagens que nos tocam. Nem sempre gostei de fazer exercício. Até aos 17 anos, e graças à formatadíssima e limitada Educação Física de tantas escolas portuguesas, detestava tudo o que tinha a ver com mexer-me. E depois conheci o remo, a corrida, a dança, o yoga, e não quis mais parar. Quando paro, definho. Definham os músculos e definha-me o ânimo. Fico velha, (ainda mais) chata, cansada. Por isso, gente, a sério, mexam-se. Toquem-se. Sim, isso mesmo que estão a pensar.
14 julho 2011
stay at home mom
Olhado para os últimos posts, nota-se que estou a precisar de voltar ao trabalho. Só falo de filhos, compras, filhos, assuntos de importância nacional sob uma perspectiva infantil, e filhos. O que vale é que é só mais um mês e meio disto, que ainda começava a preocupar-me com a problemática do encaixar marcações no cabeleireiro com as aulas extra-curriculares dos piquenos. E eu nem vou ao cabeleireiro nem os meus filhos têm idade para aulas extra-curriculares. Nem eu lhes chamo piquenos. Ainda, porque agora tenho uma carrinha nova e acho que vou começar a falar com voz nasalada.
13 julho 2011
spiderman
Há 4 anos e 4 meses que estava à espera do dia em que o meu filho ia parar de ser mais querido, giro e delicioso a cada momento. Acho que esse dia chegou, é verdade. Chegámos ao topo da montanha da adorabilidade e agora é o downhill até às borbulhas, barba, não-sejas-chata-mãe, amigos com motas, mãe-vou-casar. O Gugas está a deixar de gostar de desenhos animados irritantes de pequenino. E aprendeu a dizer mentirolas. E só quer nadar debaixo de água, aprender a escrever, saber tudo sobre automóveis, aviões, países, planetas. Já sei, já sei, "eles crescem tão depressa". Mas eu recuso-me a aceitar que um dia não vou ser o centro do mundo e o cúmulo da perfeição para ele. Desculpem lá, mas exijo que ele me olhe embevecidamente, me abrace como se não houvesse amanhã, me faça declarações de amor todos os dias. Uma mãe tem direitos e o spiderman é uma seca.
Nem tudo está perdido, acabou de se vir aninhar no meu colo. Ah, bom!
Nem tudo está perdido, acabou de se vir aninhar no meu colo. Ah, bom!
11 julho 2011
iAminhavida
Ora pois, visto que o meu filho mais miúdo me roeu o cabo de alimentação do computador (deve ser por isso que ele próprio não se alimenta), tive de ir comprar um novo. Desloquei-me, consequentemente, à Casa da Maçã mais próxima e procedi à compra. Aquilo parece a Chanel dos electrodomésticos, só falta mesmo servirem-nos champanhe em flute (falta lamentável). Uma pessoa entra ali um bocado aparvalhada e só se vê rodeada de ecrãs e funcionários trendy-geek. Quando o primeiro se aproximou de mim e lhe disse o que queria, ele pegou numa caixa preta muito catita, deu-ma para as mãos e perguntou se era tudo. Era tudo, era, que o meu agregado familiar já tem 3 portáteis, um fixo, um tablet, dois leitores de mp3 e dois telemóveis, tudo começado por i. Se houvesse sanitas daquela marca, com certeza que o senhor meu esposo justificaria como comprar uma. Voltando ao cabo, olhei em volta para pagar e o funcionário sorriu e, logo ali, estendeu mais uma maquineta, que é só uma espécie de um mini-iPadezinho para enfiar o cartão de débito. Qual fila para pagar, qual caixa registadora, qual recibo (mandou-mo por e-mail, se isto já se viu?, foi mas é desculpa para ficar com o meu contacto). E trunfas! Deixei 80 dólares por um bocado de cobre coberto de branco e saí dali a achar que tenho mesmo muita pinta. Pelo menos é isso que o Steve Jobs quer que eu acredite.
10 julho 2011
08 julho 2011
do 8 para o 80
Confesso que me anda a angustiar um pouco a ideia de voltar a Portugal e, de repente, estar de novo rodeada de gente - sim, que isto aqui é o mato. É claro que é maravilhoso deitar as saudades para trás das costas. É óptimo estar com alguém só porque sim, para um almoço, um café - não vou "tomar café" com alguém há um ano! -, um nada. É supimpa ter todo o baby-sitting que possa desejar. Mas o reverso da medalha é o fim desta existência de ilha, em que tudo depende da nossa escolha, da nossa vontade, da nossa responsabilidade, e não há ninguém a interferir, a opinar, a aconselhar. É um bocadinho como obrigarem um adulto a voltar ao lar paterno e ter quem lhe proíba uma minissaia e faça cara feia se não chegar a casa antes da meia-noite. Para quem fez Erasmus e voltou, é isso mas ao cubo. Claro que estou a exagerar, mas que vai obrigar à redefinição de papéis sociais, isso vai. E isso é sempre tão delicado...
07 julho 2011
no bom caminho
Depois da noção do tempo, a noção do espaço começa a desenhar-se com contornos mais nítidos na cabeça de four-and-a-quarter (como ele faz questão de dizer) do Gugas. Explico-lhe o mundo, os continentes, os países, os oceanos. Aproveito para a primeira lição sobre os Navegadores Portugueses, que nós não somos e nunca fomos lixo. E agora a brincadeira preferida do meu filho mais velho é desenhar grandes planisférios ao seu gosto - com África, Dinamarca, Portugal, Itália, China, Brasil, América e Disneyworld com as devidas dimensões emocionais - e sobrevoá-los com a crescente colecção de aviõezinhos. Espero que tenhas oportunidade de voar isso tudo e muito mais, filho.
06 julho 2011
eu também quero dizer uma coisa sobre as agências de rating
Os senhores que as fundaram e os que lá trabalham têm mau hálito, pelos púbicos encravados, pústulas genitais, rabo de babuíno, pés tortos, corcunda, falta de gosto no vestir e, sobretudo, uma pilinha muito pequenina. Espero que as vossas mulheres vos adornem o crónico par de chifres com novas hastes a cada dia, e que vos peguem chatos e coisas piores.
gralha
O Diogo aprendeu a dizer "gralha", coisa boa da mãe! E, como vê que me derreto, agora passa o tempo todo: "gálha, gálha, gálha". Bom demais.
05 julho 2011
educação para a igualdade
Chegou o dia em que os meus familiares do sexo masculino me vão cair em cima: acabei de pintar as unhas do meu filho mais velho. Ele escolheu o tom Cherry Glacé, da Nivea. Talvez me salve de uma morte por apedrejamento porque a coisa só durou 2 minutos e a acetona apagou todas as provas do "crime".
Sempre defendi que, na educação dos meus filhos, não ia haver coisas de "menina" e de "menino". Meninas e meninos têm diferenças biológicas e neurológicas, sim, mas eu não vou reforçar estereótipos de base essencialmente social. Não incentivo a experimentação de coisas tipicamente do género oposto; advirto para o facto de muita gente achar que isso não é "normal"; mas não proíbo nem tento dissuadir. Depois de muitas vezes em que disse ao Gugas que, ou cortava as unhas, ou eu lhas pintava, ele escolheu a segunda opção. "Não te importas que os outros meninos digam que o verniz é só para as meninas?", perguntei. "Não. Os meninos também podem usar.", retorquiu. Quando percebeu que tinha de esperar 10 minutos para que secasse: "Quero tirar, quero tirar! Quero ir brincar com os carrinhos."
E eu suspirei intimamente, que isto uma pessoa é muito moderna mas não gosta que os filhos sejam alvo de chacota na piscina.
Sempre defendi que, na educação dos meus filhos, não ia haver coisas de "menina" e de "menino". Meninas e meninos têm diferenças biológicas e neurológicas, sim, mas eu não vou reforçar estereótipos de base essencialmente social. Não incentivo a experimentação de coisas tipicamente do género oposto; advirto para o facto de muita gente achar que isso não é "normal"; mas não proíbo nem tento dissuadir. Depois de muitas vezes em que disse ao Gugas que, ou cortava as unhas, ou eu lhas pintava, ele escolheu a segunda opção. "Não te importas que os outros meninos digam que o verniz é só para as meninas?", perguntei. "Não. Os meninos também podem usar.", retorquiu. Quando percebeu que tinha de esperar 10 minutos para que secasse: "Quero tirar, quero tirar! Quero ir brincar com os carrinhos."
E eu suspirei intimamente, que isto uma pessoa é muito moderna mas não gosta que os filhos sejam alvo de chacota na piscina.
04 julho 2011
auto-conhecimento de fêmea
Consigo adivinhar em que fase do ciclo estou pelo meu nível de paciência em relação às dissonâncias domésticas. Durante a ovulação, uma tampa de sanita (que acabei de limpar) com salpicos amarelados dá-me vontade de chorar. Mesmo antes do Dia P, uma bola de roupa (que lavei e dobrei amorosamente) atirada para o armário dá-me vontade de lhe despejar o cesto de roupa suja na cabeça. No resto do tempo, costuma ser suficiente entoar o mantra "nãosejasumamulherchata, nãosejasumamulherchata, nãosejasumamulherchata" para conseguir lidar com estes pequenos nadas e pedir, com o sorriso possível, que as coisas sejam feitas de outra forma.
03 julho 2011
ainda vais a tempo
Pessoas que gostam de mim continuam a alertar-me para o poço dos infernos que é voltar a Portugal, neste momento. São queridas e bem intencionadas. Mas deixem-me tentar explicar, sem ser com o argumento fatalista da pátria e da alma e do Tejo: isto tudo, meus amigos, é só um mundo. É todo ele mais ou menos o mesmo. O céu é o mesmo. As pessoas são basicamente as mesmas. Os sorrisos são os mesmos. A escuridão é a mesma. As regras de trânsito, a comida, a música, os cheiros não são os mesmos. Mas o fundamental não difere assim tanto. Há dias fáceis e há dias difíceis em todo o lado. E chega uma altura em que temos de decidir se queremos estar onde somos realmente felizes ou se queremos continuar a forçar a felicidade só para dizermos que if I can make it there, I'll make it everywhere. Recuso-me a desempenhar um papel quando não fui eu a escrever o guião, ainda que a história pareça ter mais consistência. A minha vida pode ser americana, pode ser outra coisa qualquer. Mas a vida que eu quero construir para mim - e para os meus filhos, já agora - é portuguesa. Com muitos temperos e amigos do resto do mundo, se possível.
02 julho 2011
fátinha
Ainda no top 10 das desvantagens do regresso: a miséria da nossa justiça. Tenho muita, muita vergonha. É medieval. (e quem diz a fátinha diz os outros todos, não é uma questão partidária)
30 junho 2011
ainda a questão linguística
Não é que eu seja uma ave invulgarmente cosmopolita, mas este mundo em que vivemos apresenta-nos cada vez mais pessoas de diferentes nacionalidades. E chega o dia em que olhamos para os nossos contactos telefónicos, para a nossa lista de amigos do Facebook, e dizemos: "olá... tu queres lá ver que metade do pessoal que aqui está não compreende a minha língua?" E depois? Fazemos aquela figura mete-nojo de começar a escrever só em Inglês (sendo que alguns também não o compreendem)? Mantemos um certo autismo luso e quem quiser que aprenda? Damo-nos ao trabalho (e algum exibicionismo linguístico) de passar a publicar tudo em várias línguas, como se fossemos um guia turístico? Ainda não decidi. E vocês, como fazem?
29 junho 2011
desperdício de conhecimento
No top 10 das piores consequências de deixar os EUA está o facto de o Gugas ir esquecer a Língua Inglesa. Aprendeu-a, como qualquer criança da idade dele, com uma rapidez incrível. Fala com um sotaque nova-jersiano horroroso (bom, nele fica giro e querido). Corrige-nos as construções frásicas e as expressões idiomáticas (o pirralho). E aposto um dedo mindinho que, chegado a Lisboa, se vai recusar a proferir uma palavra que seja em Inglês - principalmente porque toda a gente lhe pede que o faça, como se ele fosse uma atracção circence. E pronto, foi assim que tivemos um filho bilingue durante um ano que, daqui a alguns tempos, terá de re-aprender a falar o inguelês que todo o tuga fala. Já o meu filho americano, sai daqui a dizer uma única coisa da sua terra natal: da-da (pai). Se for só um 'da', é porque nos está a cravar qualquer coisa.
28 junho 2011
foi mesmo muito bom
Os aviões podem atrasar, a barriga pode doer, a chuva pode encharcar, o bebé pode não comer, as filas podem eternizar, o sol pode escaldar, os imprevistos podem surgir, mas não há nada que possa estragar as férias a uma família com muita vontade de estar junta e divertir-se, num lugar cheio de fantasia e coisas bonitas. É certo que foi muito cansativo para o Diogo - mas ele também se divertiu imenso, apesar de não se ir lembrar. Estes poucos dias souberam a muito e foram aquilo que desejámos e ainda mais. Depois de ter estado lá há 19 anos, foi com outros olhos que revi tudo, os olhos brilhantes dos meus filhos, a absorver cada imagem, cada surpresa, cada momento único. Valeu mesmo a pena.
24 junho 2011
22 junho 2011
e não deu para ler nem meia dúzia de páginas
6 meses depois, cerca de 40 mil livros reclassificados e mais 180 mil livros movimentados (sim, só por mim), 3 quilos a menos, muitas nódoas negras a mais, chegou hoje a hora de dizer adeus à biblioteca da Universidade de Princeton. Foi com muita nostalgia que empurrei o meu carrinho azul pelos 6 pisos nas últimas horas e tive de deixar para trás tantas obras, tantos autores, tantos colegas e amigos. Mas chegou a hora de virar a página (a piadinha previsível) começar as férias, antes do regresso ao trabalho em Portugal.
21 junho 2011
longe
Uma vida que acabou. Uma outra vida prestes a começar. E não há telecomunicações nem redes sociais que superem a distância, a necessidade de partilhar estes momentos tão grandes. Enormes. As lágrimas de tristeza juntam-se às de antecipação e alegria e é difícil estar do outro lado de tudo. Queria estar lá hoje. Porque, se nos dias iguais a todos os outros sentimos cada quilómetro, hoje sentimos cada milímetro de lonjura. Fazia falta abraçar e olhar olhos nos olhos, sem ecrãs pelo meio.
19 junho 2011
saído de mim
Rezingão, inconstante, madrugador, pisco, mas também cheio de energia, dançarino e desenhador precoce. Não podiam ser só coisas más que o Diogo herdou da mãe :)
17 junho 2011
fim do dia
Trabalho, trânsito, compras, tudo fica para trás quando se mete a chave à porta e entra em casa. A nossa casa. Acho que esta sensação de casa só existe quando estamos longe dela todo o dia. A sensação de família é muito diferente quando não estamos imersos nela a cada minuto, quando há outras coisas completamente alheias a nós que nos ocupam por algumas horas.
Em breve, voltarei a estar em casa, mãe a tempo inteiro. Escolhi dar umas férias grandes aos meus filhos (e a mim) antes do recomeço do trabalho em Lisboa e quero aproveitar muito bem esse tempo. Mas também sei que me vai fazer falta o sair de casa - e o voltar, ao fim do dia. Quase tudo o que se vive de forma contínua torna-se invisível, imperceptível; espero continuar a sentir o prazer das coisas de casa e da maternidade neste período de imersão completa. É só mais uma semana e splash!
Em breve, voltarei a estar em casa, mãe a tempo inteiro. Escolhi dar umas férias grandes aos meus filhos (e a mim) antes do recomeço do trabalho em Lisboa e quero aproveitar muito bem esse tempo. Mas também sei que me vai fazer falta o sair de casa - e o voltar, ao fim do dia. Quase tudo o que se vive de forma contínua torna-se invisível, imperceptível; espero continuar a sentir o prazer das coisas de casa e da maternidade neste período de imersão completa. É só mais uma semana e splash!
15 junho 2011
o papel da testosterona na eficiência doméstica
É espantoso como um homem consegue lavar toda a louça de uma refeição em 5 minutos e uma mulher demora muito mais. É espectacular - ou então, não.
Quando um homem "lava a louça", pega em tudo o que está no seu ângulo de visão - pratos, talheres, copos, babetes, toalha de mesa, cão - e atira para dentro da máquina de lavar, sem rentabilizar o espaço da mesma, e enche a panela que sobra com um copo de detergente, esfregando-a despreocupadamente e passando depois por água. A seguir, a panela fica a secar sobre a poça que criou na bancada da cozinha, enquanto a máquina é posta a trabalhar apesar de não estar cheia.
Quando uma mulher "lava a louça", levanta tudo o que estava na mesa, sacode e dobra a toalha, coloca cuidadosamente os pratos e talheres nos recipientes próprios da máquina e, de seguida, lava à mão o que será preciso para o dia seguinte. Tudo é colocado no escorredor com minúcia, por ordem de tamanho, evitando empilhamentos periclitantes que, certinho direitinho, acabam em copos partidos e chávenas lascadas. A seguir, a mulher guarda os restos da refeição no frigorífico, arruma tudo no seu lugar, esfrega os bicos do fogão, lava o tabuleiro do bebé, as bancadas da cozinha, o micro-ondas, varre o chão e, se ainda lhe sobrarem forças, passa a esfregona com lava-tudo. E o pior de tudo é que, no fim, sente genuíno prazer em ver a cozinha a brilhar em sentir o cheirinho a lavado. Parva da mulher.
Quando um homem "lava a louça", pega em tudo o que está no seu ângulo de visão - pratos, talheres, copos, babetes, toalha de mesa, cão - e atira para dentro da máquina de lavar, sem rentabilizar o espaço da mesma, e enche a panela que sobra com um copo de detergente, esfregando-a despreocupadamente e passando depois por água. A seguir, a panela fica a secar sobre a poça que criou na bancada da cozinha, enquanto a máquina é posta a trabalhar apesar de não estar cheia.
Quando uma mulher "lava a louça", levanta tudo o que estava na mesa, sacode e dobra a toalha, coloca cuidadosamente os pratos e talheres nos recipientes próprios da máquina e, de seguida, lava à mão o que será preciso para o dia seguinte. Tudo é colocado no escorredor com minúcia, por ordem de tamanho, evitando empilhamentos periclitantes que, certinho direitinho, acabam em copos partidos e chávenas lascadas. A seguir, a mulher guarda os restos da refeição no frigorífico, arruma tudo no seu lugar, esfrega os bicos do fogão, lava o tabuleiro do bebé, as bancadas da cozinha, o micro-ondas, varre o chão e, se ainda lhe sobrarem forças, passa a esfregona com lava-tudo. E o pior de tudo é que, no fim, sente genuíno prazer em ver a cozinha a brilhar em sentir o cheirinho a lavado. Parva da mulher.
14 junho 2011
realidade distorcida
Há imensas pessoas que acham que a vida delas é muito mais negra do que realmente é; também há algumas que preferem olhar para os seus dias com lentes cor-de-rosa. As primeiras estão a precisar de anti-depressivos; as segundas, de aprender a ser honestas consigo próprias.
10 junho 2011
desumanidade
Considero-me previlegiada no que diz respeito aos que me rodeiam. Ouço tanta gente queixar-se de família, amigos (?), vizinhos, colegas, gente mesquinha e capaz das coisas mais terríveis. Pois eu só costumo encontrar pessoas simpáticas, generosas, com bom fundo. Ainda não percebi se sou muito totó ou tenho mesmo muita sorte. Seja como for, também eu cheguei ao dia em que reconheço: há gente muito parva. Muito estúpida. Mesquinha, desonesta, com atitudes que não têm explicação para o comum dos seres humanos. Será que se apercebem disso? Será que gostavam de ser diferentes? É que eu gostava de não ter os meus defeitos, acho que tenho consciência de boa parte deles. Será que acham que não há outra maneira de viver a vida?
09 junho 2011
o doce efeito da memória
Já sei que, quando me for embora, os Invernos passados vão ser feitos de neve fofa e de lareiras, e não de frio e reclusão; os Natais vão parecer cheios de azevinho e biscoitos, e não de saudades da família; vamos sentir falta do Halloween e do Thanksgiving, e não nos vamos lembrar de todas as datas importantes em que estivemos longe de quem realmente importava; a paisagem vai ser recordada como um cenário idílico de bosques, flores e lagos, e não como o lugar em que até para comprar um pacote de leite precisamos de um automóvel. À distância, com o tempo, ultrapassadas todas as dificuldades, a memória que fica de uma parte da nossa vida é muito mais bonita e inócua do que a realidade que se passou. As lágrimas, o isolamento, o vazio, o desenquadramento desaparecem de cena e deixam apenas um retrato a sépia de dias de luz e harmonia familiar. É injusto. Mas ainda bem que é assim, é bom deixar o passado bem arrumado e fazer de conta que as coisas foram perfeitas.
É verdade que vou olhar para estes dois anos em Princeton e vou ter saudades de muitas coisas. Também vou chorar com saudades daqui, parece que colecciono saudades; mas também é verdade que continuo a saber por que volto. Em cada dia que passou quis voltar.
É verdade que vou olhar para estes dois anos em Princeton e vou ter saudades de muitas coisas. Também vou chorar com saudades daqui, parece que colecciono saudades; mas também é verdade que continuo a saber por que volto. Em cada dia que passou quis voltar.
06 junho 2011
o pequeno esforço da readaptação
Mal apresentei a demissão começaram-me logo a subir uns formigueiros pelo corpo acima e deixei de conseguir trabalhar. Ainda nem pus os pés fora da gringolândia e já perdi toda a pica para bulir. Imagino que, quando pegar no automóvel daqui a pouco, desato a buzinar e a chamar nomes ao pessoal que vai a 10km/hora. Ah, que falta me fez a minha portugalidade...
05 junho 2011
o que importa no meio disto das eleições
Deixo um país com um Chefe de Estado charmoso e elegante para voltar a outro em que o novo Chefe de Estado tem olhos bonitos, cabelo penteado e aposto que anda sempre perfumado. Prioridades, como quaisquer outras. Mesmo assim não me importava de importar o Obama.
03 junho 2011
adeus torradas com manteiga de amendoim
Está na altura de dizer adeus a carregar livros e olá a a ler livros. E revistas científicas, estatísticas, entrevistas, questionários. Pequena gralha volta à investigação e à pátria, apesar de ainda não saber exactamente quando. Entretanto, espero que dê para aproveitar um bocadinho do Verão nos EUA e proporcionar umas férias grandes aos meus rapazes, que também já merecem ver a escola pelas costas.
Vou ser a única pessoa a engordar no Verão, agora que vou deixar de fazer 8 horas de exercício diário. É bem feito, que é para não fazer pouco das dietas da blogosfera. Dêem-me um mês e já ando a coleccionar as 1001 maneiras de confeccionar alface com aipo e sumo de limão.
Vou ser a única pessoa a engordar no Verão, agora que vou deixar de fazer 8 horas de exercício diário. É bem feito, que é para não fazer pouco das dietas da blogosfera. Dêem-me um mês e já ando a coleccionar as 1001 maneiras de confeccionar alface com aipo e sumo de limão.
01 junho 2011
ralações
Passámos de uma fase em que o Diogo chorava o jantar todo para uma nova fase em que ele só chora e não engole nem uma colher de comida. O cansaço. O desespero. O que fazer? Tantas regras de ouro da boa educação que já mandámos às urtigas e não há quem o convença a engolir mais do que uns bagos de uva. Já não sabemos mesmo o que fazer...
30 maio 2011
olá, eu sou a gralha e gosto de bagas
Nada como o impulso suburbano-eco-chic de brincar aos camponeses e pegar na pequenada, nos chapéus, nas cestas e ir colher o que a Natureza (ou uma quinta criada para esse efeito) tem para nos oferecer. A apanha do morango é uma coisa para lá de fantástica porque não estraga o verniz das unhas, não cansa, e traz-se para casa um alimento pouco calórico e que dá para fazer imeeensas coisas giríssimas. Além disso, os piquenos apanham ar, fazem festinhas às cabras e aos burros (e depois desinfectam as mãos com o líquido antibacteriano em frascos afixados de 50 em 50 metros nas vedações), ficam derreados e deixam os pais dormir até mais tarde. Prevejo que esta será um dia a nova moda da blogosfera, só é pena ainda não haver muitas destas quintas pick-your-own-cenas em Portugal.
Ontem, cinco quilos de morangos depois, voltámos a casa e enchemos a barriga. De morangos. E de batido de morango, gelado de morango, espetadas de morango, tarte de morango, granizado de champanhe e morango. O que sobrar, vai para compota. Mal posso esperar pela época da framboesa, da amora e do mirtilo.
Ontem, cinco quilos de morangos depois, voltámos a casa e enchemos a barriga. De morangos. E de batido de morango, gelado de morango, espetadas de morango, tarte de morango, granizado de champanhe e morango. O que sobrar, vai para compota. Mal posso esperar pela época da framboesa, da amora e do mirtilo.
27 maio 2011
a banheira, esse berço do multitasking
Ahh, chegar a casa ao fim do dia (i.e., às 17h) e tomar um bom duche relaxante, tirar toda a poeira, todo o cansaço, esvaziar a cabeça de qualquer preocupação. Só que não. É no banho que planeio o dia seguinte, o trabalho dos cinco membros da minha equipa, o que os meus dois rapazes vão vestir, o jantar, os e-mails e postagens a escrever (sim, esta surgiu-me enquanto esperava que o amaciador TRESemmé Moisture Rich fizesse efeito), o que é preciso acrescentar à lista semanal do supermercado, o que o Gugas vai levar para o próximo Show-and-Tell, os downloads que preciso de fazer, e a lista não tem fim. E vocês, qual é o momento do dia em que organizam o periclitante equilíbrio da vossa agenda pessoal/doméstica/profissional/etc.?
26 maio 2011
a vida a lápis de cera
Apesar de bradar aos sete ventos que sou uma mulher-mãe-profissional muito bem resolvida, é claro que isso é tudo uma grande treta. Não há dia que passe que eu não sinta o gume afiado da culpa pelas sestas não dormidas do Diogo na creche ou pelas porcarias-disfarçadas-de-almoço que o Gugas come na escola. Nessas alturas, surge na minha cabeça a imagem da mulher dos anúncios de detergentes, sorridente, perfeccionista e segura, que nem sonha em mandar os miúdos para as mãos de outra cuidadora antes que eles lhe sejam arrancados pela escolaridade obrigatória.
Só que também é verdade que em todos os desenhos que o Gugas faz da família estamos os quatro a sorrir. Sempre. Tenho de acreditar que isso é sinal de que não andamos a fazer a coisa de forma completamente errada.
Só que também é verdade que em todos os desenhos que o Gugas faz da família estamos os quatro a sorrir. Sempre. Tenho de acreditar que isso é sinal de que não andamos a fazer a coisa de forma completamente errada.
24 maio 2011
antes de ter 90 anos
Ainda vou ter aulas de ballet (clássico, contemporâneo, logo se vê), estudar Etnografia, aprender a falar espanhol decentemente, aprender a falar árabe só o suficiente para botar figura, fazer caminhadas nos Pirinéus, escrever e ilustrar a fábula da Gralha e do Lobo, recolher um cão de um canil, andar de canoa na Venezuela, ajudar a construir uma biblioteca, correr uma maratona, ter o meu próprio jardim de ervas aromáticas, contar estórias aos meus netos, passar muitos dias perto do mar. E ter a minha própria casa. Pronto, era só para não me esquecer.
23 maio 2011
vou queixar-me do tempo
Retiro tudo o que disse acerca do clima daqui. Estamos a um mês do Verão e as temperaturas não passam dos 15 graus. E chove. Chove. Não é por ouvir toda a gente a falar de praias e esplanadas; nem por ainda não ter podido usar vestidos; nem sequer por ainda não termos aberto a época dos piqueniques no jardim. É mesmo porque já ia estando na altura dos meus miúdos começarem a usar calções, que não ganho para as calças rasgadas e joelheiras.
21 maio 2011
mais valia que fossem todos levados daqui, realmente
Se estão a ler esta mensagem é porque a sua autora foi rapturada lá para os infinitos, longe de vós mortais incrédulos que estais por estas horas a ser assolados por terramotos, catástrofes, viagens de autocarro em Agosto com muita gente e pouco desodorizante. Ou então é só porque eu me esqueci de vir aqui apagar o post que deixei programado desde ontem à noite. Ou então não esqueci, deixei-o aqui só porque já há muito pouca coisa no mundo com a qual se possa gozar sem ser politicamente incorrecto. Mas ainda posso gozar com este bando de estafermos que acham que o mundo acaba com hora marcada, como se fosse o season finale do Lost, ou assim, não posso? Totós.
18 maio 2011
de longe, o melhor de viver no faroeste
A vida selvagem. Ontem tive muita dificuldade em explicar ao Gugas que os únicos animais selvagens em Lisboa são os pombos. Ele sugeriu que os lobos americanos apanhem um avião e vão viver para o jardim da Gulbenkian. Por muito que adore a civilização e a paisagem urbana da minha cidade, vou sentir a falta de cada esquilo, cuco, sapo, corvo, ganso, veado, marmota, perú selvagem, castor e urso. Agora até temos ursos em Princeton. Já para não falar nos duendes que se escondem no jardim, de certeza absoluta.
17 maio 2011
dieta milagrosa
Dou vinte e cinco tostões a cada criatura bloguista do sexo feminino, entre os 20 e os 50 anos, que não esteja neste momento em dieta de emagrecimento. Exigo provas, como o total desconhecimento do número de calorias de um iogurte magro ou, preferencialmente, da mera existência do conceito de iogurte magro. Também servem fotografias de pratas de bonbons, bocas sujas de Oreos, pacotes de Doritos ou, de preferência, latas de leite condensado vazias.
Confesso desavergonhadamente que dei este título ao post apenas para apanhar montes de leitoras vindas de motores de busca. Já ninguém me lê e eu sou uma diva, preciso do amor do meu imenso público.
Confesso desavergonhadamente que dei este título ao post apenas para apanhar montes de leitoras vindas de motores de busca. Já ninguém me lê e eu sou uma diva, preciso do amor do meu imenso público.
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