22 dezembro 2011

esquilifiquei (ou ursifiquei, conforme preferirem)

Ando numa fase de encher o bandulho. Mas não é um encher o bandulho por fome, por carência ou por fastio. É quase uma missão, não sei explicar (também não é gravidez!). Trazem-me chocolates, como os chocolates todos. Trazem-me empadas, empado-me. Visitam-me com um saco de croissants, lá vêm eles deslizar-me pela faringe abaixo. Acho que preciso. É o Inverno que começa. Já que não posso realmente parar, dormir, hibernar, pelo menos estofo o esqueleto.

21 dezembro 2011

as tais outras mudanças

A partir de Janeiro, vou começar um novo trabalho. A consciência pesa-me graniticamente - porque devo muito a quem me emprega agora, que permitiu que regressasse a Portugal - mas às vezes temos de ser crescidinhos e tomar decisões racionais e, por que não admiti-lo?, um pouco egoístas. Digo adeus às relações laborais, ao horário flexível e ao trabalho a partir de casa; digo olá a um ambiente de que gosto muito, de onde saí em 2008, a um trabalho que realmente me interessa, e a um ordenado de acordo com as minhas qualificações. Estou feliz. 2012 começa com incertezas, com dificuldades a toda a minha volta, com muitas dúvidas acerca de como será a vida de nós todos daqui a 365 dias. Mas começa também com uma oportunidade de fazer alguma coisa que me dá prazer. Desejo o mesmo a todos que me são queridos.

suave censura

Vendo o primeiro episódio da Pan Am

(pequeno aparte: não vejam a série a menos que estejam dispostos a fazer uma maratona de cirurgias plásticas, de que necessitarão depois de descobrirem todas as imperfeições em vós que aquelas grandes nojentas lindíssimas vos evocarão para todo o sempre)

fiquei a interrogar-me por que é que há tantas mulheres que levam a vida a sentir-se julgadas pelas mães, como se fossem eternas meninas de 8 anos. Nem acho que o problema esteja nas mães - essas, há-as de todos os feitios, das indiferentes às tirânicas; mas por que é que crescemos, fazemo-nos adultas, e não deixamos de ouvir aquela voz familiar a dizer "bem te disse para baixares o lume" quando o arroz fica colado ao tacho? Não há crueldade nesse julgamento que recriamos uma vez após outra. Há só a sensação de que não nos esforçámos o suficiente, de que não alcançámos a meta e que, por muito penteadas e bem vestidas que estejamos, por mais limpa, arrumada, organizada que esteja a nossa casa (a nossa vida!), falta sempre um pequeno nada. Nunca seremos perfeitas como as nossas mães. E, de alguma forma, sinto uma pequenina alegria ao saber que nunca vou causar essa reacção a uma filha.
Já as grandes galdérias das minhas futuras noras estão feitas ao bife.

20 dezembro 2011

desemigração total

A propósito deste post da Melissinha, e passados três meses de regresso, tenho a dizer que me sinto totalmente desemigrada. Nem um bocadinho imigrada, desintegrada ou baralhada. Note-se que só estive dois anos a viver lá fora mas, ainda assim, acho que é mais casmurrice patriótica do que outra coisa que pesa para esta condição. Estou mesmo (bem) em casa. E não é por isso que acho que isto é o Paraíso. As coisas que me doíam em Portugal, continuam a doer: o complexo de inferioridade, a condução bélica, a falta de capacidade de trabalho. São os defeitos de um país, que conheço e com os quais convivo como se de um progenitor se tratasse. E também não é por isso que deixei de comer torradas com manteiga de amendoim e doce, ou que voltei a gostar de futebol e telenovelas. Na verdade, Margarida, acho que mudamos mas não temos de nos sentir para sempre expatriados. Boa viagem de regresso e não te esqueças do doce!

19 dezembro 2011

ainda antes do ano novo

A minha vida muda um pouco e ainda pode mudar mais. Veremos. Para já, o meu "pescador" passa a ficar em terra a maior parte do tempo. Coimbra fica só para as visitas ocasionais. (e esta noite bem sorri de todas as vezes que não me levantei para pôr chuchas e consolar sonos inquietos)

16 dezembro 2011

fashionismo autista

É verdade, cá vai mais um post sarcástico. Temos pena mas o filtro que normalmente controla a minha inclinação natural para a maledicência deve estar perdido no meio da pilha de roupa que tenho para passar.
Ora bem, uma pessoa está no Inverno e em Portugal, certo? Obviamente, precisa de vestuário de lã, pelo menos para as crianças. Ou não? Ou sou só eu que não compreendo como é que as Zaras deste mundo só vendem camisolas de algodão, na melhor das hipóteses com misturas de viscose e spandex? Nem vou entrar na questão dos vestidos e blusas de manga curta para senhoras. A sério, pessoas, acham mesmo que podemos usar o mesmo vestuário que nos restantes países ocidentais, onde todos os ambientes fechados têm aquecimento central a 23ºC? Não, não podemos. Temos de nos agasalhar. Sob pena de andarmos sempre fungosos. E depois culpamos as alergias e o Governo. Então é assim, retalhistas: os portugueses não precisam de sweat-shirts fininhas, os portugueses precisam de camisolas feitas de pelo de ovelha. E de meias. E de calças grossas. Aqui faz um frio húmido desgraçado, isso dos Invernos temperados é uma mentira descarada que se vende aos turistas.

15 dezembro 2011

oficina sobre como fazer oficinas

Não faço a mínima ideia de como se conquista o homem dos nossos sonhos, de como se faz agendas em tecido, ou de como se faz decorações com massapão embora, em abono da verdade, gostasse imenso de saber todas estas coisas. Mas se é para começar a vender os nossos saberes em formato fast food take-away, se a economia nacional vai começar a vingar a partir de pequenos palratórios instalados em caves de hotéis do Martim Moniz, cafés do Chiado ou mesas de alumínio do espaço de refeições do CCColombo, meninos, também quero o meu lugar ao sol. Eu e toda a gente, suponho. Vou começar já a preparar o meu programa de workshop sobre como fazer ateliers, que serve para ensinar as pessoas a fazer oficinas para o brainstorming sobre... coiso. Pronto, é disso que eu percebo. De certeza que a audiência não há de ser só composta pelos meus amigos a quem obrigarei a estarem presentes. Estou com uma fezada que há de haver muito boa gente com vontade de gastar dezenas de euros para me ouvir debitar bitaites sobre coisa nenhuma. Ah, espera, isso já faço eu aqui de graça.

14 dezembro 2011

alienação

É em dias (semanas) como este que penso que só não me meto nas drogas porque não tenho como as financiar.

Nota para mim: Tenho de arranjar maneira de voltar a fazer aulas de yoga. Mesmo. Alguém sabe de aulas de graça?

ele é irresistível, eu sei

No Jardim de Infância, todos os meninos têm uma fotografia sobre o respectivo cabide, à entrada. A do Gugas desapareceu misteriosamente. Até que a educadora dele descobriu que houve uma certa menina, que anda permanentemente atrás dele (e ele atrás dela), que não conseguiu lidar com as saudades nas longas noites de Inverno e nos fins-de-semana, e vá de surripiar o retrato do seu mais-que-tudo. O amor é lindo, logo desde os 4 anos.
Não caibo em mim de orgulho. E a modéstia não se conta entre as minhas virtudes, não há nada a fazer.

13 dezembro 2011

diferença de idades

Razão # 76 por que, na minha opinião, devemos ter filhos com pelo menos três anos de intervalo: Quando o mais pequeno está doente e nos deu uma noite do catatau, a nós que também estamos com febre, pelo menos o mais velho levanta-se, toma o pequeno-almoço sozinho, arruma a louça, veste-se, lava os dentes, vai à casa de banho, e ainda faz festinhas ao irmão quando este choraminga. Impagável. E a quem usa o argumento do "ai, mas eles da mesma idade brincam juntos" eu respondo que isso não acontece antes de terem um ano, pois não? E isso, também os meus fazem.

11 dezembro 2011

do mais pequeno que, não tarda, já não é bebé

Quando não anda com uma chucha (ou mesmo duas) na boca, chega a dizer algumas coisas que eu e o irmão compreendemos. Já vai gostando de comer mais, tem dormido bem, benzódeus, e não me tem feito muito a vida negra nesta fase de mãe solteira de Segunda a Sexta. Anda sempre atrás do Gugas, apaga-lhe os desenhos, destrói-lhe as construções, rouba-lhe os rebuçados que ele escrupulosamente guarda para comer aos poucos; mas também é o primeiro a fazer-lhe festas se o mano chora (quando eu me zango) e não passam um dia sem dar grandes abraços e estarem tempos sentados juntinhos no pufe a "ler" livros. Pede muito colo, subtrai todas as carteiras que apanha a jeito, arruína a minha reputação de educadora, dá-me beijinhos lambuzados e deita tudo para o caixote do lixo. Come sozinho, arruma as coisas dele e, no outro dia, sem que ninguém desse por isso, foi buscar papel higiénico para limpar o chão que o Matias tinha sujado. Tão ruim de bom, este meu filho pequeno!

tataaaal!

Uma feijoada de chocos, dois petit gâteaux, um arroz de pato, um gelado de café, um bacalhau com broa, uma tarte de maçã, dois pasteis de alheira com espinafres, duas taças de mousse de Oreo, um cozido à portuguesa, um gelado de frutos silvestres, uma fatia de bolo de laranja, uma feijoada de gambas e mais uma taça de mousse de Oreo (só por causa das coisas) e está feito um fim-de-semana semi-prolongado, com festas de aniversário e Natal e visitas e tudo e tudo. Já temos Presépio, já temos presentes embrulhados, já temos árvore decorada - que tem direito à supracitada comemoração do Diogo de cada vez que a reencontra - e estamos prontos para mais festa. Haja alegria, neste Domingo Gaudete! E sais de frutos. Olha, não tenho disso cá em casa.

Agora, de repente, lembrei-me: o que é que aconteceu à "maior árvore de Natal da Europa"? Desmontaram aquela cena toda para substituir os lampiões que vão pifando na via pública e que já não há como pagar?

09 dezembro 2011

mãe pouco exigente

Começo a suspeitar que sou uma mãe demasiado relaxada no que diz respeito à aprendizagem dos filhos. Se ainda estivesse nos EUA, tinha as educadoras deles à perna porque o Gugas ainda não faz somas e subtracções no papel (oh yeah, faz parte do programa obrigatório do Kindergarden na NJ!) e o Diogo ainda não aponta para as partes todas do corpo. Mesmo no nosso mais despreocupado país, temo que eles possam perder o comboio do sucesso académico precoce.
Está bem que lemos, construímos, inventamos, desenhamos, rebolamos e dançamos juntos, mas o mais velho ainda não sabe as letras todas (acho eu, nunca o fiz recitar o alfabeto) e o mais novo só agora deixou de chamar "Cocó" ao outro. É que não faz parte de mim exigir-lhes isso. Também não me exigiram essas coisas a mim, quando era só um perdigoto. Pensando no assunto, há apenas três coisas que eu "exigo" que eles aprendam nesta fase do campeonato: a auto-estima, a sensação de segurança quanto ao serem amados e respeitados, e a usar a imaginação. O resto, desculpem lá, fica para os professores daqui a uns anos.

Mentira, também faço questão que tenham boas maneiras!

07 dezembro 2011

prevejo o aumento da sinistralidade rodoviária

Já viram a nova campanha da Triumph? Aquilo são criaturas muito desfavorecidas pela genética. E, pobrezitas, recobertas de tanto óleo que não deve haver quem as agarre. Marido, palavra de honra que tentei pôr aqui as imagens mas ainda não encontrei. Espero que, no caminho que fazes no "carro" que vai para o Taveiro, às sete e tal da manhã, tenhas a alegria de encontrar um mupi com esta campanha publicitária.

06 dezembro 2011

do que ele é feito

Complexos sistemas de condutas e filtragem de água esboçados a lápis de cera. Instalações eléctricas com peças de Lego. O quadro negro lá de casa onde já não cabe uma metrópole de arranha-céus. Valha-me Deus, que até o anjo de cartolina que trouxe da escola, para decorar, teve direito a prédios e respectivos jardins. Como é que é possível que uma coisa saída de mim - que eu lembro-me bem de o ver à saída das minhas entranhas, era aquele! - tenha tanta inclinação para assuntos que não me podiam despertar menos interesse? E, no entanto, de manhã, quando o vou cheirar e o acordo (tão quente, tão macio), continuo a ter a sensação que é manhã de Natal todos os dias.

04 dezembro 2011

então é isto que é um fim-de-semana

Acordar quando se acorda. Comer um abuso de pequeno-almoço. Não usar relógio, não mandar e-mails, (praticamente) não feicebucar. Andar a pé. Parar. Andar mais um bocadinho. Olhar para o rio que corre devagar, entrar em igrejas, monumentos, ruelas, escadinhas, ir por aí. Comer um abuso de almoço. Mais passeio, cinema, pequenas compras de Natal. E comer menos ao jantar porque já não se aguenta mais do que peixinho grelhado (mais uma vez, obrigada pelas sugestões, Joaníssima!). Disto outra vez, um segundo dia. E namorar, namorar, namorar. Palavra de honra que, em Coimbra, o tempo passa mais devagar. Isso e estar 48 horas sem ninguém a quem cortar bifes, mudar fraldas, assoar narizes, também ajuda.

03 dezembro 2011

gente parva (ou que precisa só de atenção)

Rapariga minha conhecida. Vinte e poucos anos. Metro e setenta, cinquenta quilos. Queixa-se que está gorda e comenta que eu é que sou mais estreitinha. Da primeira vez, pensei que estava a ouvir mal. Da segunda vez, achei que estava em risco de cair em distúrbios alimentares. Da terceira vez, percebi que é só uma daquelas raparigas que entoa este tipo de choradinhos para ouvir os outros a dizer: "mas tu estás óptima, estás magríssima, que disparate!"
Tenho tão pouca paciência para chamadinhas de atenção.

02 dezembro 2011

eu queria tanto, tanto, tanto

ter vontade de trabalhar. Mas não tenho. E não há ninguém aqui a impedir-me de largar os textos e as hiperligações chatas como a potassa e pegar no meu tricot, nas mini-empadinhas que a minha Avó mandou, no meu livro, nas camisas que tenho para passar, até. Se isto não é uma prova à minha honestidade profissional, não sei o que é. Prova não superada.

29 novembro 2011

bem resolvida

Depois de deitar os miúdos, lavar a louça, arrumar a cozinha, guardar a roupa dobrada, lavar o chão e - a cereja - esfregar a carpete coberta de vomitado do mais pequeno, que anda viroso, tomo o merecido duche e sinto que, sim senhor, deve ser isto que é ser uma mulher bem resolvida.
Mas depois: pára tudo! Ai o caracinhas. Mas afinal o que é isto de uma mulher ter de se resolver, bem ou mal? Uma mulher por acaso é uma equação de segundo grau? Uma mulher nasce com as peças desmontadas e tem de se ir compondo? Uma mulher precisa de provar a quem que se supera a cada dia?
É que um homem bem resolvido, não há dúvidas, é aquele que demora menos de um nanossegundo a decidir se acompanha a mini com tremoços ou com alcagoitas. E a escolha que faz não tem a menor importância para absolutamente ninguém. Por que é que as mulheres têm de levar toda a santa vida a provar que merecem, que conseguem, que aguentam, que estão bem, que estão óptimas?
Nesta altura, vivo basicamente sozinha com dois filhos, trabalho, trato da casa, meto-me em novos projectos. Mas aquilo que me faz sentir realmente bem resolvida é já não deixar que absolutamente ninguém toque naquilo que, para mim, é sagrado. Não admito, não cedo, não dou para esses peditórios. Se calhar, ser bem resolvida é só conhecermo-nos e respeitarmo-nos a sério.

26 novembro 2011

de volta ao ninho

Dois meses e meio depois de sair da casa americana (e muitos faz mala-desfaz mala, espacota-desempacota) entro na casa portuguesa. Nossa casa. Casa da senhoria, na verdade, mas casa arranjada por nós, pintada por nós, montada por nós, acortinada por nós. O nosso espaço, os nossos livros, os nossos horários, os nossos hábitos. Só faltam os vasos com kalanchoe à janela. E falta que o homem da casa venha de Coimbra, para eu não estar para aqui tipo mulher de bacalhoeiro, à espera da maré, com dois filhos no regaço que, parecendo que não, estão crescidos.