28 março 2012

não deixem vir as andorinhas

Ou melhor, mandem-nas todas lá para os vossos quintais, que no meu não fazem ninho. Não tenho ânimo para Primavera em 2012, mais vale que venha logo o Verão e me torre a pele e os miolos, que me seque o coração e impeça, ao menos, de escrever piroseiras previsíveis deste género.

26 março 2012

yin yangs e outras tangas

Quem se lembrou de vir dizer que os opostos se atraem foi com certeza um homem com muita lábia e ainda mais necessidade de dar uso ao material. "Ah, e tal, que eu gosto de matrecos e de cerveja e tu gostas de ler Proust e de massagens com envolvimento em mel silvestre, mas isso até é bom porque constitui um desafio e nunca vamos cair na monotonia." O tanas. As diferenças não unem, desunem. As persperctivas divergentes podem alimentar um diálogo interessante mas, ao fim e ao cabo, todos precisamos de sossego e de compreensão. De comunhão. Enquanto falamos de clubes de futebol e de programas de televisão, a coisa ainda pode ser relativizada (e, e... que conheço um benfiquista ferrenho que jura a pés juntos que nunca teria nada com uma não benfiquista); agora, quando entramos em questões que mexem com os nossos valores fundamentais, com as nossas prioridades e com a nossa atitude geral perante a vida, a coisa torna-se mais complicada.
Estou mesmo cansada de viver em clivagem religiosa lá em casa. Falo disso aqui porque já discuti o assunto antes com o interessado e porque é algo que está, realmente, a consumir-me. A tolerância tem sido uma rede que nos tem sustentado ao longo destes anos mas, sinceramente, estou cansada de consertá-la e os buracos parecem cada vez maiores. Com a idade, os relativismos e as coisas mal resolvidas vão-nos roendo os calcanhares e nem sempre é fácil encontrar respostas que sirvam a todos. Na maior parte das vezes, o consenso é uma má solução para todos os envolvidos. E o que fazer a partir daí?

21 março 2012

porém, outros defeitos me acometem

Um orgulho do caracinhas, logo para começar. A noção de crítica construtiva é um conceito que não compreendo completamente. Como é possível que nem tudo o que eu faça seja considerado perfeito? Todo o meu esboço nasce para obra-prima. Sou primogénita, é suposto isto ter saído tudo bem à primeira.

Ou de como as aulas de escrita criativa não servem apenas para me fazerem elogios mas também para me obrigarem arregaçar as mangas e navegar outras águas. Vamos a isso, então.

20 março 2012

in veja

Não compreendo isto do bicho que nos rói quando alguém tem/ é/ consegue alguma coisa e nós não. Acho que nunca senti verdadeiramente uma trinca desse género, porém testemunho o fenómeno. A minha sociopatia impede-me de dar grande importância às opiniões dos outros mas, estranhamente, alegro-me com as conquistas daqueles de quem gosto. Quanto aos restantes, tanto me faz. Que irracional esta amargura que nos faz remoer no por que é que ele assim e eu não? Que desperdício de energia. Que infrutífera actividade a de argumentar acerca da justiça da distribuição divina de sortes e azares; e, contudo, a inveja move tanta gente e paralisa tanta mais. Às vezes parece que a inveja é a última forma de relação com o outro num mundo virado para o seu próprio umbigo. O egocêntrico, em vez de ver, in veja.

19 março 2012

constatação pós fim-de-semana

É oficial: afinal já sou muito mais mãe-cota do que miúda-na-descontra. Onze crianças a correr pelo corredor durante três horas é muito mais agradável do que o mesmo período de tempo de pé, de saltos de oito centímetros, num concerto à pinha. Está visto que a solução para todos os problemas que tenho agora passa por render-me àqueles sapatos de farmácia.

17 março 2012

a vida kitsch

Cheira a roupa lavada e, algures lá dentro, o mais pequeno toca harmónica. Já fiz as compras semanais, abasteci-me na fruta e legumes, e fui buscar o bolo de aniversário à pastelaria. As manhãs de fim-de-semana têm este ritmo que me transporta no tempo e faz pensar que fizemos (os portugueses da minha geração) um looping espectacular e voltámos basicamente ao mesmo.
Nasci em 1979 e os anos 80 são mais do que uma referência de moda ou colectânea musical; são uma memória bem viva. O sabão Clarim com que esfrego as manchas teimosas (adeus tira-nódoas!) é o mesmo que usava a minha mãe. A festa de hoje terá porcarias intemporais: batatas-fritas, pães-de-leite com queijo e fiambre, gelatina, salame de chocolate (adeus bolos de pasta americana, e nem vislumbres de câpequeiques ou outras alucinações doces passageiras). Pela primeira vez na vida, vou fazer rissóis (sushi, onde andas tu?). O antiquíssimo carro que conduzimos, para além de antigo é velho, avaria, vai para a oficina e espera-se horas nas filas de autocarro. Ir para o Algarve é o sonho de férias que nos alimenta a fornalha dos dias sobrecarregados, cuja intensidade, ainda assim, é atípica de há décadas atrás. No dia em que tivermos de pagar para ver as séries a que ainda conseguimos aceder nos canais americanos, desconfio bem que terei de dar uma nova oportunidade às telenovelas. Ou então começo a jogar no Totobola. Não compreendo, portanto, como é que alguém do meu tempo, pode render-se ao novo acordo ortográfico.

16 março 2012

para desanuviar

"Diogo, anda para este lado (do lavatório) para eu te lavar os dentes."
"Não, não."
"Ai não? Está bem, olha, então vai pentear macacos!"
"Não pentei' 'cacos, não."

14 março 2012

ai achas que és a super-mulher?

Até agora, o ponto alto do meu dia foi quando o guincho me puxou a falecida viatura para cima do reboque. Literal e figurativamente. O ponto baixo foi quando saltei do dito reboque e me subiu o vestido até às vergonhas. O rebocador virou-se de costas e depois pediu desculpa, que estava só a ser educado com "a senhora".

13 março 2012

com licença, não se importa que sorria?

Cai muito mal uma risada num funeral (a especialidade de uma pessoa que eu cá sei). Não se pode gostar de segundas-feiras. Se nos contam estórias tristes, há uma espécie de protocolo oficioso que dita que devemos franzir o sobrolho e contar uma ainda pior, para relativizar a coisa. O caracinhas. Sol há só um* mas nuvens há-as por todos os lados (menos em Portugal nos últimos meses, claro). Nada desponta a minha gratidão como aquele que me faz sorrir ou aquela que me arranca uma gargalhada inesperada. No dia em que eu tiver 97 anos (ou depois de amanhã, sei lá) e as artroses me tolherem os dedos e as cataratas me velarem os olhos, no fim de tarde de Verão em que eu sentir que não verei o próximo dia e pedir mais um Mojito com muita menta, agradeço que me façam uma visita para dizer que compreendem o meu sentimento, sim, mas gostavam de confirmar só se já conheço aquela piada muito parva. Depois podem abraçar-me levemente.

* e não me estraguem a metáfora com o argumento de haver outras estrelas, se faz favor.

12 março 2012

5 anos

Acordámos todos com sol, passarinhos a cantar, muitos mimos, cócegas, risota e o peito a transbordar de amor. Hoje faz anos o menino mais lindo, mais querido, e com o maior coração do mundo. Reservo-me o direito de me babar profusamente e dizer todo o género de piroseiras todos os dozes de março do resto da nossa vida.

09 março 2012

conservadorismo capilar

Quando é que acaba mesmo a moda do cabelo cortado rente à nuca atrás e com rabichos compridos à frente? E a moda dos homens com cabelo comprido só de um lado? E a moda dos bigodes? Já agora, e a moda da depilação completa? Pergunto-me se voltaremos a ver pessoas com cortes de cabelo simétricos, pilosidades faciais devidamente eliminadas e pilosidades corporais nos sítios onde sempre existiram.

08 março 2012

o empoderamento do pipi

Acordar antes do despertador, com a dor de cabeça própria da altura do mês, preparar, arranjar, trabalhar, render-se ao croissant com chocolate, trabalhar mais um pouco, chorar-se (disso tudo e mais um pouco) às outras fêmeas do bando, respirar fundo para a segunda jornada com filhos, tachos, banhos, e o sonho de um duche quente a descer pelas costas. Não quero florzinhas, quero que me deixem enrolar numa bola e dormir.

(e que este dia deixe de ser assinalado por desactualização, quando todas as mulheres no mundo inteiro forem tratadas com a dignidade que qualquer ser humano merece)

07 março 2012

compromisso

A abnegação com que estou a fazer por terminar o último volume dos Millennium faz-me lembrar aquela vez em que esperei pelo fim de Junho para acabar com um namorado do liceu. Ele já tinha reprovado antes e eu não queria que o desgosto lhe desconcentrasse a já provável má prestação nas Provas Globais. Assim que Geografia (ou Filosofia? ou Alemão?) ficou arrumada, fui passar umas semanas a Inglaterra, livre como um passarinho, sem mais obrigações de beijar aqueles lábios de peixe, ou de andar de mãos dadas com muita vontade de estar noutro lado qualquer. Não quero desrespeitar o falecido Stieg Larsson, Deus o tenha em descanso. Mas estou desertinha por retomar prosas mais tesudas.

Saí da aula, ontem, gralha feita pavão. Se aquilo não fizer mais nada, pelo menos alimenta-me o ego. Para quem quer saber onde é, por favor enviem-me um email, que eu darei todos os detalhes.

06 março 2012

ainda a propósito das palavras

Não é por me escaparem, atrevidas e insurrectas, que não as valorizo. Quando paro um pouco e consigo guardá-las cá dentro lembro-me de como gosto de apreciar as artes visuais e de tudo o que fala sem língua nem letras. De seguida, dá-me de novo vontade de ter uma máquina fotográfica de jeito. Não sendo isso possível, venho para aqui escrever mais inutilidades.

Hoje começo o curso de escrita criativa. Estou cheia de vergonha. Detesto primeiros dias de aulas. Detesto apresentações. Se me perguntarem por que estou ali, fujo pela porta fora. Tenho de praticar o meu ar introspectivo ao espelho antes de sair de casa. E desenhar umas olheiras a kohl, pelo sim, pelo não. Será que devia começar a fumar?

05 março 2012

perder a autoridade

Tinha aqui mais um post em banho-maria sobre estas questões da maturidade e coiso. E depois reparei que trazia dentro de uma das pernas das minhas skinnies (olha a referência fashionista!) as cuecas que usei ontem. Atrás do joelho. Há 4 horas, desde que enfiei à pressa a mesma roupa de ontem, exceptuando os interiores. Assim percebo as minhas dores de crescimento e incapacidade de aceitar a condição de adulta. Há uma constante parvoeira dentro de mim a querer sair, que não se coaduna com reflexões existencialistas, com aprendizagens profundas, com amizades daquelas em que somos ombros e consciências uns dos outros - em vez de alvo de chacota mútua ou ouvido para a piadola palerma. Enquanto fizer destas coisas, e isso me der um gostinho bom de vergonha e infantilidade, nunca serei uma pessoa crescida. Nem conseguirei conviver decentemente com pessoas chatas como a potassa crescidas.

E o medo de que alguém me roube a mala de esticão e me leve a cueca enroladinha debaixo do porta-moedas?

29 fevereiro 2012

leva-as o vento

Era bom que idade fosse sinónimo de sabedoria mas começo a suspeitar que isso nem sempre é verdade. Se há coisa que gostava de ver a aparecer em mim, em vez das rugas e dos cabelos brancos, era a capacidade de medir as palavras. Não é que eu fale muito, sai-me é tudo em catadupa, sem medidas de contenção nem gestões emociorçamentais que me valham. Não posso continuar a desculpar-me com o signo, com o género, nem com a nacionalidade, e envergonho a minha Mãe se disser que foi da criação (não foi, que ela é a rainha do auto-controlo). A verdade é que sou uma desbocada sem remédio. E já era altura de não ser assim, caramba.
As palavras, esses pequenos seres volúveis e imprevisíveis, não costumam ir com o vento sem antes entrarem em ouvidos e marcarem corações. Por isso, tive de ir aprimorando pedidos de desculpa, acho que já podia escrever um manual. Mas isso é de pouco consolo. Resta-me acreditar que, lá pelos quarenta, vou mesmo conseguir ficar calada. E que, entretanto, também abro a boca para dizer coisas bonitas, que amaciam almas e enchem egos. Os mais sensíveis que me vão perdoando.

28 fevereiro 2012

ainda recuperando das gravidezes

Vejo por aí o pessoal a queixar-se de como é duro recuperar o corpo depois de ter filhos.
Eu queria era recuperar o cérebro. Ca burra que me sinto às vezes, senhores! Isto antes não era assim.

27 fevereiro 2012

ommmm

Não voltarás a negligenciar o teu corpo porque quando te mexeres vais sentir-te uma múmia estropiada.
Não voltarás a negligenciar o teu corpo porque quando te mexeres vais sentir-te uma múmia estropiada.
Não voltarás a negligenciar o teu corpo porque quando te mexeres vais sentir-te uma múmia estropiada.
Não voltarás a negligenciar o teu corpo porque quando te mexeres vais sentir-te uma múmia estropiada.
Não voltarás a negligenciar o teu corpo porque quando te mexeres vais sentir-te uma múmia estropiada.
Não voltarás a negligenciar o teu corpo porque quando te mexeres vais sentir-te uma múmia estropiada.
Não voltarás a negligenciar o teu corpo porque quando te mexeres vais sentir-te uma múmia estropiada.
Não voltarás a negligenciar o teu corpo porque quando te mexeres vais sentir-te uma múmia estropiada.
Não voltarás a negligenciar o teu corpo porque quando te mexeres vais sentir-te uma múmia estropiada.
Não voltarás a negligenciar o teu corpo porque quando te mexeres vais sentir-te uma múmia estropiada.

22 fevereiro 2012

ciências exactas vs. ciências sociais

Gugas: Por que é que os copos são transparentes?

Em uníssono:
Pai: Porque são feitos de vidro.
Mãe: Para vermos o que está la dentro.

E tanto, tanto que estas respostas dizem sobre cada um de nós. Em abono da verdade, diga-se que a minha resposta não foi apropriada, eu respondi a "para que é que os copos são transparentes?". O que também revela que eu quero cá saber de como são objectivamente as coisas, só me interessa o que está por detrás do imediato.

20 fevereiro 2012

gestão dos recursos humanos

O tempo passa, eles crescem, e parece que aumenta a desproporção entre adultos e crianças lá em casa. Não é que esteja a dar a mão à palmatória para reconhecer que os miúdos crescidos dão mais trabalho que os bebés, mas dão um trabalho mais elaborado. Aqueles seres mais ou menos inertes, anémonas sociais, passam a ser cada vez mais pessoas. E nós, crescidos, temos de nos habituar às novas nuances, dançar ao ritmo de diferentes sensibilidades, susceptibilidades e maneiras de estar.
Em suma: o pequeno toureia-nos. Tão depressa é um doce irresistível como um tiraninho implacável, um napoleãozeco que precisa muito que lhe assentem os pés no chão; já o grande vê a sombra do outro a aumentar depressa, se calhar mais do que nós. Anda murcho e a precisar de mimo. Com quase 5 anos, numas coisas é tão maduro, e noutras tão bebé. Tento cultivar-lhe a inocência temperada com a assertividade necessária. Olha, pode ser que aprendam um com o outro, que nós, adultos, também andamos um bocado aos papéis.

19 fevereiro 2012

coisas que me têm feito bem

Os dias maiores. Atirar bolinhas saltitonas à parede da minha colega de trabalho. O meu bebé estar crescido e engraçado como tudo. Apanhar bocadinhos de sol. Fazer festas ao Roger (que está acampado cá em casa). Comer peixe grelhado. Conhecer pessoas verdadeiras. Retomar o Yoga (bom, esta é só na próxima semana). Rir um bocadinho mais.
Em compensação, ler a Trilogia Millennium tem-me feito mal. Uma heroína antissocial e ligeiramente psicótica é tudo menos o exemplo que preciso de seguir.

14 fevereiro 2012

vinte e seis anos e não sei quantos mil quilómetros de estilo

Como descrever a alegria de conduzir de novo o nosso primeiro automóvel? Imaginem uma gralha empoleirada num pequeno jipe verde, agarrando-se com unhas e dentes a um volante enorme sem direcção assistida, e com um sorriso rasgado que já não via a luz do dia desde a última vez que andou a tocar à porta dos vizinhos e a fugir muito depressa.
O meu jipe voltou. Aquele que a minha mãe empurrou, à chuva, connosco lá dentro, quando afogou o motor pela enésima vez (coitadinha). O transportador de mais de uma vintena de miúdos a caminho das festas de aniversário. O veículo onde aprendi a conduzir aos 10 anos, aquele em que atravessei pela primeira vez a Ponte Vasco da Gama, o minúsculo tanque de guerra que me fez sentir poderosa, adulta!, quando saía das aulas da universidade e tudo era ainda possível. É nosso de novo, com todas as suas quatro velocidades, atingindo a loucura dos 110 quilómetros/hora (em descida), uma buzina de camião TIR e muito, muito charme. Os meus filhos ainda hão de conduzir aquele jipe, queira o bicho da ferrugem poupá-lo só um pouco mais. E assim se vê que poucas coisas me fazem tão bem como viajar no tempo.

13 fevereiro 2012

seguro social faz-de-conta-que voluntário

O frio lá de fora vai-se tornando mais apetecedor à medida que as horas avançam e o ambiente, cá dentro, aquece e embacia as minhas lentes de contacto. Já li quase 300 páginas e começa a ser difícil abstrair-me do que me rodeia: a Carolina; a Avó da Carolina, que guincha a chamar a neta de minuto a minuto; a senhora do meu lado esquerdo, com um impossível mau hálito mesmo de boca fechada; o senhor do lado direito, cujo cabelo não vê champô desde o ano passado; a desempregada que chora; o velhote adormecido; muita, muita gente à conversa, ao telemóvel, a ver a Praça da Alegria, a espreitar o meu livro - mais ninguém a ler, como é possível? -, a folhear a Maria, a limpar as unhas. Alguém comenta a "guerra civil lá na Grécia" e sugere que falta o mesmo por cá. Alguém que, como eu, está a passar a manhã numa cadeira de plástico para pedir um papel. Para se encostar mais um pouco a um sistema de protecção social que parece ser direito incontestável de nascença. Vou lá fora comer duas queijadas e beber uma bica queimada. Volto e alegro-me porque já vai na senha 61. Só estive lá 3 horas e resolvi o problema à primeira. A nossa eficiência burocrática aproxima-se incontestavelmente dos níveis da Europa-de-cabelos-louros. Há esperança de continuarmos todos a ter repartições, subsídios, bodes expiatórios durante mais uns bons tempos. Mesmo que tenhamos de ouvir dizer que somos piegas.

10 fevereiro 2012

sim, é possível

Uma das consequências de gostar mesmo do trabalho que fazemos é a diminuição do apelo da blogosfera. Facebook, então, nem vê-lo. Gosto das mesmas pessoas mas perco-me menos à procura de outras coisas quando há tantos textos lindos para editar, tantos erros absurdos para corrigir (e autores para insultar), tanto htmlzinho cheio de bugs para exterminar. A alegria no trabalho é uma coisa bonita. E até me esqueço que nunca hei de chegar a rica, por este caminho. Quero lá saber.

09 fevereiro 2012

olha o livetan 500 mg ali a sorrir para mim

Afinal, a coisa que mais me arrelia na vida não são os taxistas nem os pivots da TVI; não, o que me descontrola mesmo os nervos é a lentidão impossível com que o Diogo leva à boca uma colher de iogurte. Um episódio da Casa do Mickey dá para umas 4 colheradas. Graças a Deus que as embalagens aqui são metade das americanas.

07 fevereiro 2012

amizades

Sempre tive poucos amigos. Há um grupo de amigas que conservo há mais de dez anos e que nunca me falha. A mais nova tem mais de 60 anos, a mais velha aproxima-se disfarçadamente dos 90 - e ainda é a mulher que conheço que conduz melhor. Estiveram sempre comigo, mesmo quando estive longe. Houve um postal, houve uma carta, houve um email quando precisei e há sempre, sempre um abraço quando nos encontramos. Não passam o tempo todo a falar de doenças mas gostam de me contar as façanhas dos netos e as gracinhas dos bisnetos. Têm todas um coração de ouro. Vou vendo estas minhas amigas na minha Paróquia. E agora são também amigas dos meus filhos. Ontem passámos por uma delas (que estava com outra pessoa) e o Gugas parou e quis voltar atrás para ir dar-lhe um beijinho. São estas coisas que me fazem pensar que, no meio de um mundo com tanto sofrimento e tantas injustiças, ainda há muita Luz.

06 fevereiro 2012

a minha cozinha

Nas fantasias milionárias de cada um de nós vestem-se marcas impronunciáveis, calçam-se sapatos de sola vermelha, circulam automóveis topo de gama e constroem-se moradias pós-modernas, decoradas a branco absoluto. Eu sonho apenas com uma coisa: uma cozinha nova.
Esta cozinha teria todos os equipamentos de última geração. Estaria permanentemente abastecida dos melhores produtos. Revestida a travertino, com iluminação inteligente sob os armários, sistema de limpeza automática e sistema integrado multimédia de origem nórdica. E nem uma migalha perturbaria a lisura da bancada.
Estou a mentir descaradamente. Desculpem lá mas estou-me a cagar para como seria a tal cozinha. O meu sonho era nunca mais pôr os pés numa cozinha. Nunca mais mexer em louça suja. Nunca mais abrir uma tábua de engomar. Nunca mais limpar o congelador. Nunca mais descascar uma cebola e, oh sim, nunca mais tirar a nhanha que sempre acaba por ir parar ao fundo do caixote do lixo. O meu sonho de rica é politicamente incorrecto. É uma criada. Muda, de preferência.

03 fevereiro 2012

o meu bebé faz dois anos

O dia em que nasceste foi só nosso. Enquanto o teu pai e o teu irmão ouviam estórias na biblioteca, eu dancei em sossego até quereres vir cá para fora. E depois dormi contigo no meu peito. Foi tudo perfeito.Tenho saudades de te ter na maminha enquanto a neve caía lá fora. De resto, desculpa mas não tenho saudades de mais nada de quando eras pequenino. É muito melhor agora que és um bebé crescido, engraçado, surpreendente, pantomineiro e muito, muito espertalhão. É sem sombra de modéstia que afirmo que o mundo ficou um lugar melhor porque te gerámos. Mas o mérito de seres exactamente como és, esse é cada mais teu. Parabéns filhote bom.

Não sei o que aconteceu à primeira versão deste post... Puff, evaporou-se na blogosfera.

01 fevereiro 2012

na senda dos passarinhos

O frio não vai durar para sempre. E mesmo que a chuva só chegue em Março (e se prolongue até Agosto...), haverá dias em que o tempo permitirá estar fora de casa e sentir o cheiro da Primavera a chegar. Haverá até dias em que não teremos doenças nem contas com que nos preocupar - ou então aprendemos a ignorá-las com muita força - e vamos acordar de manhã, antes do despertador, e tomar o pequeno-almoço com calma. É capaz de haver até um ou outro fim de tarde em que aterraremos numa esplanada na praia, o vento estará manso e a sangria muito, muito fresca. Com ameijoas. E salada de polvo. E ainda que as coisas não façam sentido, os pés enterrados na areia vão fazer-nos sentir que as coisas não precisam realmente de fazer sentido.

30 janeiro 2012

as vivências da dor

Depois de tudo na semana passada ou, melhor, durante tudo na semana passada, tive tempo para pensar que isto do sofrer também é uma coisa que nos distingue muito, pessoa a pessoa. Quando o nosso clube de futebol perde, há os que batem na mulher e há os que querem lá saber. Quando uma coisa daquelas mesmo más, mesmo omnipresentes, mesmo incontornáveis nos arrastam para o fundo do poço, também agimos todos de maneira muito diferente.
Eu percebi que tenho tendência para a dor exibicionista (que surpresa...). No dia em que me acontecer uma grande desgraça, não vou ser daquelas que se fecham num casulo; também não vou fazer de conta que nada se passa. Não, eu vou chatear toda a gente à minha volta, vou chorar toda a água e cloreto de sódio que tiver em mim, vou deitar cá para fora todas as palavras do dicionário e mais uns quantos neologismos, vou purgar aquela dor toda até perceber que, mesmo assim, ela não passa. Que não há grande dor que passe por método nenhum. O tempo lá a há-de transformar, mas não eliminar.
E o que é que ganhei com esta aprendizagem? Nada. Auto-conhecimento, vá. Mas o auto-conhecimento é uma característca claramente sobrevalorizada. Um subproduto da literatura de auto-ajuda. Ao contrário do sarcasmo, que também não serve para nada mas sempre nasce connosco.

Ah pois é, posts optimistas e com passarinhos só lá para Março. Fevereiro, se continuar sem chover e a EDP decidir que se enganou num zero da nossa última factura.

28 janeiro 2012

já passou

Em primeiro lugar, muito obrigada a todos pelas vossas palavras de preocupação e de apoio durante esta nossa semana tão difícil. Felizmente, parece que o pior já passou.
O Diogo teve uma infecção urinária, que até foi detectada relativamente cedo - até porque coincidiu com o que parecia ser, inicialmente, só uma virose. O pior foi que reagiu mal ao primeiro antibiótico e esteve quatro dias inteiros sem comer e quase sem aguentar líquidos. Por duas vezes esteve próximo de ser internado mas, com muita paciência e dedicação, com a tolerância possível ao sofrimento dele, e com o apoio dos avós, lá fomos conseguindo, mililitro a mililitro, que ele não desidratasse. Perdeu muito peso e ficou absolutamente de rastos, mas agora já voltou a comer e está bem disposto.
Eu tive muito medo. O tempo passava, eu via-o a não melhorar e só pensava em coisas piores. Consegui apenas vislumbrar como uma doença grave de um filho é uma chaga permanentemente acesa na alma de um pai. E agora tiro uma alegria absolutamente brutal de cada pequeno gesto que nos revela que estamos de volta ao quotidiano. Cada sorriso naquela carinha que é só dentes e olhos pestanudos enche-me o coração de uma maneira indescritível. Espero que tempos mais pacíficos se avizinhem.

26 janeiro 2012

psicologicamente de rastos

Fazia agora 3 maratonas para ter o Diogo bom de novo. Ele sofre e nós sofremos. Ele, prostrado. Nós, impotentes. Pessoas que ainda não têm filhos: não tenham filhos. Não saber, não poder ajudar, não ver a saída, não conseguir curar, duvidar, esperar, desesperar, não conseguir dar resposta aos olhos que nos miram e esperam que os façamos sentir melhor. É demais.

20 janeiro 2012

amanhã é que é

Ele não acredita em Deus. Ele não acredita (realmente) no Benfica. Ele desconfia da homeopatia, da meditação e das ciências sociais em geral. Mas ele acredita em si próprio, com uma fé inabalável. Todas as noites, antes de se deitar, o meu homem prepara a roupa do dia seguinte e pendura-a na casa-de-banho para não me acordar. Acredita que no próximo dia é que vai mesmo acordar antes de mim e, para não perturbar o meu descanso, vestir-se-á onde não o ouço. Tão querido.
Eu acredito em tudo e mais alguma coisa mas desconfio muito das minhas boas intenções.

18 janeiro 2012

tanto tempo depois

Deixar uma vida para trás é fácil quando imaginamos o que fica cristalizado, intocado. As coisas e as pessoas daquele tempo e daquele lugar continuam a mover-se dentro das suas rotinas e isso é fácil de gerir, o previsível não faz tanta falta. É só quando algo se desequilibra, quando há dor e angústia lá muito longe, onde não podemos chegar, que percebemos a distância e a dimensão da ausência. Quando há pessoas do nosso antigo dia-a-dia que não estão bem, e nós não estamos lá. Então, o nosso coração atravessa oceanos e faz-se próximo. Conseguimos cheirar o ar daquele lado, sentir o frio seco na pele, redimensionar-nos pequenos, num mundo demasiado grande. Hoje, pela primeira vez desde o regresso, quis estar em Princeton para dar um grande abraço a quem está a precisar.

pelas magras

As minhas amigas de todos os tipos de corpo e IMC que me perdoem, mas isto não passa de hoje: estou um bocadinho cansada de ouvir e ler dizer mal da magreza. Ninguém pode andar por aí a dizer mal da gordura, que é logo trucidado, mas as pessoas magras acabam todas enfiadas no mesmo saco de doença e irrealismo, sem apelo nem agravo, e está tudo muito bem.
Hoje comi uma gigante fatia de bolo de banana e canela com doce de ovos ao pequeno-almoço e não tenho de pedir desculpa a ninguém por isso. Clinicamente, tenho um peso um pouco abaixo do normal para a minha altura. Não faço dietas. Não sou obcecada com a imagem. Sou assim e tenho direito a isso, como qualquer outra pessoa. Por isso, se não gostam de ver actrizes magras, paciência. Eu também não gosto de ver pessoas morenas com o cabelo pintado de loiro platinado, mas não ando para aí a dizer que alguém "devia dizer-lhes" que aquilo lhes fica mal, nem que os homens que gostam daquilo devem estar todos desorientados. AR I ESS PI I CI TI.

16 janeiro 2012

no bom caminho

Chegam do supermercado com a cesta cheia. Preparam o jantar, limpam a cozinha (vassoura, esfregona, tudo em ordem), comem. A sopa está quente, está sempre demasiado quente. No fim, arrumam a louça e pegam na cota de malha, no escudo, capacete, machado, espadas. São cavaleiro e escudeiro, e esta é a hora de praticar as artes da guerra. Os meus filhos e os derradeiros (e preferidos) presentes de Natal.

14 janeiro 2012

sopeiro-log, versão gralha

Aproveitando a irritação do momento, com a suposta promoção Continente-EDP, não resisto partilhar como passámos a poupar 15€ semanais com o supermercado. Pelo simples facto de ter deixado de consumir Belmiro e ter passado a Jerónimo + frutaria, o nosso orçamento semanal para comida passou de 60€ para 45€, incluindo tudo menos os almoços semanais dos meninos, que são na escola. Obrigadinha, EDP, podem lá ficar com o desconto. Só gostava de ter onde colocar paineis solares para me ver livre da vossa raça.

13 janeiro 2012

a visibilidade da dor

Estava agora a ler a notícia do casal italiano que se suicidou por causa da crise e pareceu-me mesmo sintomática deste momento na nossa história colectiva. (Não ponho a hiperligação porque a qualidade jornalística da notícia está má demais, como a encontrei, e ainda não a vi noutras fontes de informação)
Deus abençoe os italianos e a sua expressividade. Como é bom que haja quem esperneie sonoramente, quem não esteja satisfeito e não se satisfaça com likes em movimentos sociais online, ou com manifestações que são pouco mais que o ajuntamento diurno dos mesmos que estão no Largo do Camões à uma da manhã.
Este casal insatisfeito apelou às mais altas instâncias. E não foi ouvido. E, tristemente, tomou a drástica decisão, para a vida e para a morte, de dizer que assim não dava. É que este sistema não dá mesmo. Não sou de esquerda, não acho que a distribuição dos bens deva ser igualitária mas meritocrática (não falo de oportunidades, atenção!). Mas não faz mesmo sentido que um conjunto de empresas do sector financeiro continue a engordar quando há cada vez mais pessoas a pagar essa engorda à custa de dificuldades que já entram na definição socioeconómica de efectiva pobreza. Não é que um casal de meia idade e o seu acto neo-shakespeariano vão mudar o mundo. Pode ser que aumentem só um bocadinho a visibilidade da dor colectiva, que é demasiado silenciosa, demasiado envergonhada.

10 janeiro 2012

voltar a estar bem

Culpo a crise, culpo o discurso sobre a crise, os media em geral, o mês, as incertezas, a falta de exercício físico, o excesso de carne vermelha, o incompetente que só nos montou meia janela, o fim da segunda visualização de todas as temporadas do Lost; mas o problema está lá, no atirar culpas para tudo. No estar permanentemente zangada, irritada, afrontada. Gostava que me passassem uma receita médica para esta condição, que a receita espiritual que geralmente funciona parece estar suspensa por tempo indeterminado. Em não sendo possível, se me arranjarem uma boa receita de bolo de chocolate branco (era isso, não era, Melissa?), acredito que também possa ajudar.

09 janeiro 2012

penedos, castelos e o Tejo

Fim-de-semana bom, bom, de passeio pela Beira Baixa e Alto Alentejo e muito tempo só para andar, parar, conversar, comer, descansar a dois. Vimos e revimos terras lindas desde Monsanto até Marvão (onde conheci finalmente a Catarina e a sua linda Mercearia), enchemos o coração de orgulho da nossa terra e tivemos só um bocadinho de pena que haja já tão pouca gente em muitos destes sítios. O melhor de tudo foi mesmo rever o lugar onde a nossa história, enquanto casal, começou - uma terra linda onde fazíamos os estágios de remo na adolescência. É maravilhoso voltar onde fomos tão felizes, onde nos ríamos até doer a barriga, e onde tudo era tão simples.

06 janeiro 2012

da vida nova

Anda tudo um bocado de pernas para o ar. Gosto de rotinas e não gosto de passar a vida a ter de alterar rotinas. Mas também gosto muito do meu trabalho novo e, por isso, vale a pena todo o stress e confusão do malabarismo com casa, filhos, e trabalho a tempo inteiro sem flexibilidades. Faz-me muita falta ler e correr, não sei ainda como reencaixar isso nas vinte e quatro sobre sete. Detesto Janeiro, detesto estar com este humor de cão. Mas o céu está azul, os meninos não estão doentes (toc toc toc!) e hoje vamos fim-de-semanar para a aldeia mais portuguesa de Portugal (obrigada amigos que o proporcionaram). Já agora, alguém se oferece para desfazer a minha árvore de Natal?

04 janeiro 2012

luxos domésticos

 Filho grande
Filho pequeno

Pai

Mãe

Mais o frango do campo e a fruta e legumes nacionais da frutaria da esquina para toda a família. O resto é mesmo marca branca. Quando ouço quem diz que tem de poupar e vai, por isso, cortar nos jantares fora, no cinema, nos concertos, nas 'escapadinhas', nas idas à Zara, no cabeleireiro, torna-se claro que o conceito de poupança é muito relativo. Absurdo, às vezes.

03 janeiro 2012

purificação

Estava a precisar de comprar uma daquelas embalagens de seiva de ácer, ou lá o que é, e passar uma semana a enxaguar-me por dentro com aquilo. Lavar as entranhas, limpar sedimentos, levar memórias e avivar outras que se perderam.

(terceira semana num mês com filhos doentes - não dá para mais que isto)

01 janeiro 2012

vivendo de acordo com o IVA

Nova resolução para 2012: não beber mais nada taxado a 23%. Que ressaca mais cadelenta...

30 dezembro 2011

tem mesmo de ser?

Quem está com vontade de começar 2012 ponha o dedo no ar... Ninguém? Pois, bem me parecia que não era só eu, e até tenho tantas coisas boas à minha espera neste início de ano. Parece que estamos todos numa gigante sala de espera do dentista para nos tirarem os sisos sem anestesia.
Enfim, angústias à parte, este ano que passou pareceu-me imenso. Teve direito a um pouco de tudo, não foi um ano particularmente notável na minha vida, mas foi um tempo de crescimento e de afirmação. Trabalhei, mimei, li, viajei, não chorei muito, podia ter sorrido mais, podia ter corrido mais, tudo o que havia a correr bem, correu melhor ainda. E estou em casa. Isso ainda me aquece o coração, parece impossível.
Resoluções para 2012: tomar os meus Ómega 3, aprender a escrever, fazer as pazes com as minhas impossibilidades. Os comprimidos, a inscrição no curso e a boa vontade já cá cantam. Boas entradas!

27 dezembro 2011

pavlov e a tosse

Filho: cof-cof
Mãe (saltando da cama): Será que se destapou?
Filho: cof-cof-cof
Mãe (debruçando-se sobre o berço): aposto que a febre está a subir outra vez...
Filho: cof-cof-cof
Mãe (recuando pé-ante-pé): Será que o devia levar ao hospital???
Filho: cof-cof
Mãe (voltando a deitar-se): Será que é suficiente o que estou a fazer?
Filho: cof-cof-cof-cof-cof!
Mãe: meu amor... quem me dera trocar contigo!
Filho: cof-cof-brlhaaahhhhh
Mãe (saltando da cama, de novo): pronto, lá vão mais uns lençóis para lavar. Pelo menos soltou aquela porcaria toda.
Filho: zzzzzzz...
Mãe: Por que é que tenho tanta responsabilidade sobre estas duas vidas?! Nunca mais procriar, nunca mais procriar, nunca mais procriar!

stress pós-natal

As festas foram pacíficas e houve tudo a que temos direito (menos as rabanadas da minha avó). O stress é a quantidade de brinquedos que tomou o quarto dos meus filhos. A sério que fico com palpitações quando vejo tanta coisa espalhada pelo chão, pelas estantes, pelo beliche. Nós, pais, esforçamo-nos para que seja tudo contido, simbólico, na medida do necessário; mas há um exército de avós, tios e primos que não resiste a assaltar as lojas de brinquedos. Ai a minha vidinha... E agora vou ali dar o antipirético ao mais pequeno, que resolveu adoecer só para eu não dar sumiço a tanta tralha, aposto.

24 dezembro 2011

23 dezembro 2011

tão, tão pequeninos

Se alguém lesse blogues entre 23 de Dezembro e 2 de Janeiro, ainda poderia haver quem me acusasse de paternalismo devido ao que vou escrever. Tendo em conta a data de publicação, não há problema, isto é só uma pequena recordação de Natal para mim.

"NEW JERSEYANS CAPTURE 50 YEARS OF OPEN SPACE
         PROTECTION AND PARK DEVELOPMENT IN GREEN ACRES PHOTO CONTEST

"A couple enjoying a beautiful afternoon at Mercer County Park. Fog lifting at Morris County's Black River Wildlife Management Area. A white-tailed deer flicking its tongue at the South Branch Reservation in Hunterdon County.

These are just some of the scenes of New Jersey's natural beauty honored with awards in the DEP's Green Acres Program's 50th anniversary photo contest. The contest, which drew hundreds of participants, capped a year-long DEP celebration of the first Green Acres bond act, the landmark law that set New Jersey on the path to becoming a national leader in the preservation of open space.

"The Christie Administration is committed to the continued preservation of parks and natural landscapes such as those showcased in these photographs," DEP Commissioner Bob Martin said today in announcing the awards. "Through their photographs, these artists are showing all of us why land preservation is such an important part of the DEP's mission."

The winning photos were displayed last week at the State Museum in Trenton during the Governor's Environmental Excellence Awards ceremony. They are now on display at the lobby of the DEP headquarters in Trenton."

Isto é a vida na Nova Jérsia. Familiar. Desligada do mundo. Encantada com os seus Altos Representantes. Imersa na bruma da floresta apalachiana. Bambis saltitantes, tarte de maçã e centros comerciais. Portugal precisava tanto de um pouco desta inocência.

22 dezembro 2011

esquilifiquei (ou ursifiquei, conforme preferirem)

Ando numa fase de encher o bandulho. Mas não é um encher o bandulho por fome, por carência ou por fastio. É quase uma missão, não sei explicar (também não é gravidez!). Trazem-me chocolates, como os chocolates todos. Trazem-me empadas, empado-me. Visitam-me com um saco de croissants, lá vêm eles deslizar-me pela faringe abaixo. Acho que preciso. É o Inverno que começa. Já que não posso realmente parar, dormir, hibernar, pelo menos estofo o esqueleto.

21 dezembro 2011

as tais outras mudanças

A partir de Janeiro, vou começar um novo trabalho. A consciência pesa-me graniticamente - porque devo muito a quem me emprega agora, que permitiu que regressasse a Portugal - mas às vezes temos de ser crescidinhos e tomar decisões racionais e, por que não admiti-lo?, um pouco egoístas. Digo adeus às relações laborais, ao horário flexível e ao trabalho a partir de casa; digo olá a um ambiente de que gosto muito, de onde saí em 2008, a um trabalho que realmente me interessa, e a um ordenado de acordo com as minhas qualificações. Estou feliz. 2012 começa com incertezas, com dificuldades a toda a minha volta, com muitas dúvidas acerca de como será a vida de nós todos daqui a 365 dias. Mas começa também com uma oportunidade de fazer alguma coisa que me dá prazer. Desejo o mesmo a todos que me são queridos.

suave censura

Vendo o primeiro episódio da Pan Am

(pequeno aparte: não vejam a série a menos que estejam dispostos a fazer uma maratona de cirurgias plásticas, de que necessitarão depois de descobrirem todas as imperfeições em vós que aquelas grandes nojentas lindíssimas vos evocarão para todo o sempre)

fiquei a interrogar-me por que é que há tantas mulheres que levam a vida a sentir-se julgadas pelas mães, como se fossem eternas meninas de 8 anos. Nem acho que o problema esteja nas mães - essas, há-as de todos os feitios, das indiferentes às tirânicas; mas por que é que crescemos, fazemo-nos adultas, e não deixamos de ouvir aquela voz familiar a dizer "bem te disse para baixares o lume" quando o arroz fica colado ao tacho? Não há crueldade nesse julgamento que recriamos uma vez após outra. Há só a sensação de que não nos esforçámos o suficiente, de que não alcançámos a meta e que, por muito penteadas e bem vestidas que estejamos, por mais limpa, arrumada, organizada que esteja a nossa casa (a nossa vida!), falta sempre um pequeno nada. Nunca seremos perfeitas como as nossas mães. E, de alguma forma, sinto uma pequenina alegria ao saber que nunca vou causar essa reacção a uma filha.
Já as grandes galdérias das minhas futuras noras estão feitas ao bife.

20 dezembro 2011

desemigração total

A propósito deste post da Melissinha, e passados três meses de regresso, tenho a dizer que me sinto totalmente desemigrada. Nem um bocadinho imigrada, desintegrada ou baralhada. Note-se que só estive dois anos a viver lá fora mas, ainda assim, acho que é mais casmurrice patriótica do que outra coisa que pesa para esta condição. Estou mesmo (bem) em casa. E não é por isso que acho que isto é o Paraíso. As coisas que me doíam em Portugal, continuam a doer: o complexo de inferioridade, a condução bélica, a falta de capacidade de trabalho. São os defeitos de um país, que conheço e com os quais convivo como se de um progenitor se tratasse. E também não é por isso que deixei de comer torradas com manteiga de amendoim e doce, ou que voltei a gostar de futebol e telenovelas. Na verdade, Margarida, acho que mudamos mas não temos de nos sentir para sempre expatriados. Boa viagem de regresso e não te esqueças do doce!

19 dezembro 2011

ainda antes do ano novo

A minha vida muda um pouco e ainda pode mudar mais. Veremos. Para já, o meu "pescador" passa a ficar em terra a maior parte do tempo. Coimbra fica só para as visitas ocasionais. (e esta noite bem sorri de todas as vezes que não me levantei para pôr chuchas e consolar sonos inquietos)

16 dezembro 2011

fashionismo autista

É verdade, cá vai mais um post sarcástico. Temos pena mas o filtro que normalmente controla a minha inclinação natural para a maledicência deve estar perdido no meio da pilha de roupa que tenho para passar.
Ora bem, uma pessoa está no Inverno e em Portugal, certo? Obviamente, precisa de vestuário de lã, pelo menos para as crianças. Ou não? Ou sou só eu que não compreendo como é que as Zaras deste mundo só vendem camisolas de algodão, na melhor das hipóteses com misturas de viscose e spandex? Nem vou entrar na questão dos vestidos e blusas de manga curta para senhoras. A sério, pessoas, acham mesmo que podemos usar o mesmo vestuário que nos restantes países ocidentais, onde todos os ambientes fechados têm aquecimento central a 23ºC? Não, não podemos. Temos de nos agasalhar. Sob pena de andarmos sempre fungosos. E depois culpamos as alergias e o Governo. Então é assim, retalhistas: os portugueses não precisam de sweat-shirts fininhas, os portugueses precisam de camisolas feitas de pelo de ovelha. E de meias. E de calças grossas. Aqui faz um frio húmido desgraçado, isso dos Invernos temperados é uma mentira descarada que se vende aos turistas.

15 dezembro 2011

oficina sobre como fazer oficinas

Não faço a mínima ideia de como se conquista o homem dos nossos sonhos, de como se faz agendas em tecido, ou de como se faz decorações com massapão embora, em abono da verdade, gostasse imenso de saber todas estas coisas. Mas se é para começar a vender os nossos saberes em formato fast food take-away, se a economia nacional vai começar a vingar a partir de pequenos palratórios instalados em caves de hotéis do Martim Moniz, cafés do Chiado ou mesas de alumínio do espaço de refeições do CCColombo, meninos, também quero o meu lugar ao sol. Eu e toda a gente, suponho. Vou começar já a preparar o meu programa de workshop sobre como fazer ateliers, que serve para ensinar as pessoas a fazer oficinas para o brainstorming sobre... coiso. Pronto, é disso que eu percebo. De certeza que a audiência não há de ser só composta pelos meus amigos a quem obrigarei a estarem presentes. Estou com uma fezada que há de haver muito boa gente com vontade de gastar dezenas de euros para me ouvir debitar bitaites sobre coisa nenhuma. Ah, espera, isso já faço eu aqui de graça.

14 dezembro 2011

alienação

É em dias (semanas) como este que penso que só não me meto nas drogas porque não tenho como as financiar.

Nota para mim: Tenho de arranjar maneira de voltar a fazer aulas de yoga. Mesmo. Alguém sabe de aulas de graça?

ele é irresistível, eu sei

No Jardim de Infância, todos os meninos têm uma fotografia sobre o respectivo cabide, à entrada. A do Gugas desapareceu misteriosamente. Até que a educadora dele descobriu que houve uma certa menina, que anda permanentemente atrás dele (e ele atrás dela), que não conseguiu lidar com as saudades nas longas noites de Inverno e nos fins-de-semana, e vá de surripiar o retrato do seu mais-que-tudo. O amor é lindo, logo desde os 4 anos.
Não caibo em mim de orgulho. E a modéstia não se conta entre as minhas virtudes, não há nada a fazer.

13 dezembro 2011

diferença de idades

Razão # 76 por que, na minha opinião, devemos ter filhos com pelo menos três anos de intervalo: Quando o mais pequeno está doente e nos deu uma noite do catatau, a nós que também estamos com febre, pelo menos o mais velho levanta-se, toma o pequeno-almoço sozinho, arruma a louça, veste-se, lava os dentes, vai à casa de banho, e ainda faz festinhas ao irmão quando este choraminga. Impagável. E a quem usa o argumento do "ai, mas eles da mesma idade brincam juntos" eu respondo que isso não acontece antes de terem um ano, pois não? E isso, também os meus fazem.

11 dezembro 2011

do mais pequeno que, não tarda, já não é bebé

Quando não anda com uma chucha (ou mesmo duas) na boca, chega a dizer algumas coisas que eu e o irmão compreendemos. Já vai gostando de comer mais, tem dormido bem, benzódeus, e não me tem feito muito a vida negra nesta fase de mãe solteira de Segunda a Sexta. Anda sempre atrás do Gugas, apaga-lhe os desenhos, destrói-lhe as construções, rouba-lhe os rebuçados que ele escrupulosamente guarda para comer aos poucos; mas também é o primeiro a fazer-lhe festas se o mano chora (quando eu me zango) e não passam um dia sem dar grandes abraços e estarem tempos sentados juntinhos no pufe a "ler" livros. Pede muito colo, subtrai todas as carteiras que apanha a jeito, arruína a minha reputação de educadora, dá-me beijinhos lambuzados e deita tudo para o caixote do lixo. Come sozinho, arruma as coisas dele e, no outro dia, sem que ninguém desse por isso, foi buscar papel higiénico para limpar o chão que o Matias tinha sujado. Tão ruim de bom, este meu filho pequeno!

tataaaal!

Uma feijoada de chocos, dois petit gâteaux, um arroz de pato, um gelado de café, um bacalhau com broa, uma tarte de maçã, dois pasteis de alheira com espinafres, duas taças de mousse de Oreo, um cozido à portuguesa, um gelado de frutos silvestres, uma fatia de bolo de laranja, uma feijoada de gambas e mais uma taça de mousse de Oreo (só por causa das coisas) e está feito um fim-de-semana semi-prolongado, com festas de aniversário e Natal e visitas e tudo e tudo. Já temos Presépio, já temos presentes embrulhados, já temos árvore decorada - que tem direito à supracitada comemoração do Diogo de cada vez que a reencontra - e estamos prontos para mais festa. Haja alegria, neste Domingo Gaudete! E sais de frutos. Olha, não tenho disso cá em casa.

Agora, de repente, lembrei-me: o que é que aconteceu à "maior árvore de Natal da Europa"? Desmontaram aquela cena toda para substituir os lampiões que vão pifando na via pública e que já não há como pagar?

09 dezembro 2011

mãe pouco exigente

Começo a suspeitar que sou uma mãe demasiado relaxada no que diz respeito à aprendizagem dos filhos. Se ainda estivesse nos EUA, tinha as educadoras deles à perna porque o Gugas ainda não faz somas e subtracções no papel (oh yeah, faz parte do programa obrigatório do Kindergarden na NJ!) e o Diogo ainda não aponta para as partes todas do corpo. Mesmo no nosso mais despreocupado país, temo que eles possam perder o comboio do sucesso académico precoce.
Está bem que lemos, construímos, inventamos, desenhamos, rebolamos e dançamos juntos, mas o mais velho ainda não sabe as letras todas (acho eu, nunca o fiz recitar o alfabeto) e o mais novo só agora deixou de chamar "Cocó" ao outro. É que não faz parte de mim exigir-lhes isso. Também não me exigiram essas coisas a mim, quando era só um perdigoto. Pensando no assunto, há apenas três coisas que eu "exigo" que eles aprendam nesta fase do campeonato: a auto-estima, a sensação de segurança quanto ao serem amados e respeitados, e a usar a imaginação. O resto, desculpem lá, fica para os professores daqui a uns anos.

Mentira, também faço questão que tenham boas maneiras!

07 dezembro 2011

prevejo o aumento da sinistralidade rodoviária

Já viram a nova campanha da Triumph? Aquilo são criaturas muito desfavorecidas pela genética. E, pobrezitas, recobertas de tanto óleo que não deve haver quem as agarre. Marido, palavra de honra que tentei pôr aqui as imagens mas ainda não encontrei. Espero que, no caminho que fazes no "carro" que vai para o Taveiro, às sete e tal da manhã, tenhas a alegria de encontrar um mupi com esta campanha publicitária.

06 dezembro 2011

do que ele é feito

Complexos sistemas de condutas e filtragem de água esboçados a lápis de cera. Instalações eléctricas com peças de Lego. O quadro negro lá de casa onde já não cabe uma metrópole de arranha-céus. Valha-me Deus, que até o anjo de cartolina que trouxe da escola, para decorar, teve direito a prédios e respectivos jardins. Como é que é possível que uma coisa saída de mim - que eu lembro-me bem de o ver à saída das minhas entranhas, era aquele! - tenha tanta inclinação para assuntos que não me podiam despertar menos interesse? E, no entanto, de manhã, quando o vou cheirar e o acordo (tão quente, tão macio), continuo a ter a sensação que é manhã de Natal todos os dias.

04 dezembro 2011

então é isto que é um fim-de-semana

Acordar quando se acorda. Comer um abuso de pequeno-almoço. Não usar relógio, não mandar e-mails, (praticamente) não feicebucar. Andar a pé. Parar. Andar mais um bocadinho. Olhar para o rio que corre devagar, entrar em igrejas, monumentos, ruelas, escadinhas, ir por aí. Comer um abuso de almoço. Mais passeio, cinema, pequenas compras de Natal. E comer menos ao jantar porque já não se aguenta mais do que peixinho grelhado (mais uma vez, obrigada pelas sugestões, Joaníssima!). Disto outra vez, um segundo dia. E namorar, namorar, namorar. Palavra de honra que, em Coimbra, o tempo passa mais devagar. Isso e estar 48 horas sem ninguém a quem cortar bifes, mudar fraldas, assoar narizes, também ajuda.

03 dezembro 2011

gente parva (ou que precisa só de atenção)

Rapariga minha conhecida. Vinte e poucos anos. Metro e setenta, cinquenta quilos. Queixa-se que está gorda e comenta que eu é que sou mais estreitinha. Da primeira vez, pensei que estava a ouvir mal. Da segunda vez, achei que estava em risco de cair em distúrbios alimentares. Da terceira vez, percebi que é só uma daquelas raparigas que entoa este tipo de choradinhos para ouvir os outros a dizer: "mas tu estás óptima, estás magríssima, que disparate!"
Tenho tão pouca paciência para chamadinhas de atenção.

02 dezembro 2011

eu queria tanto, tanto, tanto

ter vontade de trabalhar. Mas não tenho. E não há ninguém aqui a impedir-me de largar os textos e as hiperligações chatas como a potassa e pegar no meu tricot, nas mini-empadinhas que a minha Avó mandou, no meu livro, nas camisas que tenho para passar, até. Se isto não é uma prova à minha honestidade profissional, não sei o que é. Prova não superada.

29 novembro 2011

bem resolvida

Depois de deitar os miúdos, lavar a louça, arrumar a cozinha, guardar a roupa dobrada, lavar o chão e - a cereja - esfregar a carpete coberta de vomitado do mais pequeno, que anda viroso, tomo o merecido duche e sinto que, sim senhor, deve ser isto que é ser uma mulher bem resolvida.
Mas depois: pára tudo! Ai o caracinhas. Mas afinal o que é isto de uma mulher ter de se resolver, bem ou mal? Uma mulher por acaso é uma equação de segundo grau? Uma mulher nasce com as peças desmontadas e tem de se ir compondo? Uma mulher precisa de provar a quem que se supera a cada dia?
É que um homem bem resolvido, não há dúvidas, é aquele que demora menos de um nanossegundo a decidir se acompanha a mini com tremoços ou com alcagoitas. E a escolha que faz não tem a menor importância para absolutamente ninguém. Por que é que as mulheres têm de levar toda a santa vida a provar que merecem, que conseguem, que aguentam, que estão bem, que estão óptimas?
Nesta altura, vivo basicamente sozinha com dois filhos, trabalho, trato da casa, meto-me em novos projectos. Mas aquilo que me faz sentir realmente bem resolvida é já não deixar que absolutamente ninguém toque naquilo que, para mim, é sagrado. Não admito, não cedo, não dou para esses peditórios. Se calhar, ser bem resolvida é só conhecermo-nos e respeitarmo-nos a sério.

26 novembro 2011

de volta ao ninho

Dois meses e meio depois de sair da casa americana (e muitos faz mala-desfaz mala, espacota-desempacota) entro na casa portuguesa. Nossa casa. Casa da senhoria, na verdade, mas casa arranjada por nós, pintada por nós, montada por nós, acortinada por nós. O nosso espaço, os nossos livros, os nossos horários, os nossos hábitos. Só faltam os vasos com kalanchoe à janela. E falta que o homem da casa venha de Coimbra, para eu não estar para aqui tipo mulher de bacalhoeiro, à espera da maré, com dois filhos no regaço que, parecendo que não, estão crescidos.

21 novembro 2011

não me apetece blogar

Não me apetece escrever. Não me apetece trabalhar. Não me apetece ir correr. Não me apetece nada senão ler. Por isso, adeuzinho e até qualquer dia.

17 novembro 2011

a gralha despistada e o peru fugidio

Era uma vez uma gralha regressada dos EUA que sonhava manter algumas tradições norte-americanas para o seu pequeno pinto ianque não se queixar que o expatriariam impiedosamente. Ela era uma gralha com muito boa vontade, que queria chegar a todo o lado e fazer tudo muito, muito depressa. Tão depressa, que adiantou uma semana a data do Dia de Acção de Graças e desatou a fazer listas, compras e a convidar algumas pessoas para o que sonhava ser um belo repasto familiar americano em terras lusas.
Pois bem, é assim que a gralha se encontra hoje a cozinhar dois frangos do campo (peru não se conseguiu, apesar da expectativa até ao último minuto e da boa vontade do gerente de talho do Pingo Doce, cá um beijinho senhor Rui!), com recheio sem fígados (que não havia, mas substituiu-se por patê), com batata doce com arandos (porque não havia inhame), e com tarte de abóbora e nozes de pecan (que havia porque trouxe no contentor). Ou seja, este vai ser não só um falso dia de Acção de Graças como uma aldrabice de jantar. A gralha é uma porcaria de dona de casa e mãe de família e valha-nos o vinho português.

15 novembro 2011

caixa de sonhos

Diz que a adolescência é uma fase difícil (principalmente para os pais dos adolescentes, mas para os próprios também não é goiabada). Diz que atinge picos de dramatismo nas raparigas. Diz que, porque eu nunca fui adolescente - perguntem à minha mãezinha -, passei de criança chata e irritante a adulta auto-suficiente e introspectiva. Umm, agora que penso nisso, se calhar ainda não saí da adolescência...
Enfim, para todas aquelas que estão de lidar com este período que bem se dispensava, por que é que as hormonas não podem ficar sossegadas? bonito e desafiante da vida, para todas as flores que despontam, todos os frutos que amadurecem preparando-se para as primeiras trincas da vida, surgiu um belíssimo projecto chamado Caixa de Sonhos. Este projecto oferece um pequeno tesouro, personalizável, que ajuda a lidar com as encantadoras particularidades do solstício da existência feminina e é um presente muito original para quem conheça meninas na adolescência. As Caixas de Sonhos são giras, são originais, são acessíveis, e são feitas pela minha queria amiga V., que merece todo o apoio. Vejam mais aqui.

11 novembro 2011

tanta gente com frio

Martinho nasceu na Hungria por volta do ano 316 e pertencia a uma família não-cristã. O seu pai era comandante do exército romano. Por curiosidade começou a frequentar uma igreja cristã, ainda criança, sendo instruído na doutrina, porém sem receber o baptismo. Ao atingir a adolescência, para tê-lo mais perto, o seu pai alistou-o na cavalaria do exército imperial. Mas se o intuito do pai era afastá-lo da Igreja, o resultado foi o inverso, pois Martinho continuava praticando os ensinamentos cristãos, principalmente a caridade. Depois, foi destinado a prestar serviço na Gália.
Foi nessa época que ocorreu o famoso episódio do manto. Um dia um mendigo que tiritava de frio pediu-lhe esmola e, como não tinha, o cavaleiro cortou seu próprio manto com a espada, dando metade ao pedinte. Durante a noite o próprio Jesus lhe apareceu em sonho, usando o pedaço de manta que dera ao mendigo e agradeceu a Martinho por tê-lo aquecido no frio. Dessa noite em diante, ele decidiu que deixaria as fileiras militares para dedicar-se à religião. Adaptado da Wiki.

Toda a gente, hoje em dia, parece detestar o termo caridade. Para mim, isso é orgulho ou incapacidade de se colocar na posição de outro que - sim, não teve a educação, saúde, justiça, quem o ensinasse a pescar, tudo direitos fundamentais - naquela altura, naquela altura de fome, de frio, de medo, de solidão, só precisa de uma ajuda concreta. A caridade não passa de moda. Pode mudar de nome, mas não pode desaparecer. E faz muita falta agora.

10 novembro 2011

primeiros!

É a histeria: a minha uicheliste de Natal está pronta. Quis adiantar-me à restante blogosfera, à já assim insane prematuridade do suposto espírito natalício, ao mundo em geral e à imaginação dos meus generosos leitores em particular. É este ano, eu sei, que me vão recompensar por tão rica literatura aqui produzida à média de duas ou três postadas semanais. Há para todas as bolsas e condições perante o trabalho. Estejam à vontade para escolher, não tenho preferências.




09 novembro 2011

também não me passam só banalidades pela cabeça

Tive demasiadas aulas de História, li demasiados romances históricos, vi demasiados documentários e filmes sobre o século XX para não fazer agora a simples aritmética de a) crise económica profunda + b) situação política em escalada de instabilidade = c) guê u e erre erre a. Faz-me lembrar de quando era pequenina e me explicaram a Guerra Fria, de como tinha medo da bomba atómica e pedia muito que os russos e os americanos se entendessem. Nessa altura, ia dormir e o aconchego e a segurança imperturbável do meu pai dissipavam os medos em poucos segundos. Suponho que tenho de praticar essa arte, agora, para os meus filhos.

08 novembro 2011

já que não tenho mais nada para dizer

1. Comprei uma máquina de café no Custo Justo (ponto pêtê!) que é uma maravilha;
2. Tenho de arranjar argolas para as cortinas dos rapazes e não me apetece ter de ir àquela rua ao pé do cemitério dos Prazeres;
3. Confirma-se que os indianos são os seres mais maravilhosos da face da terra, não só pela cozinha saborosa mas por terem sido os únicos que me conseguiram desbloquear o iPhone;
4. Dói-me metade da cara. Digam-me drogas para a sinusite, sff.
5. O Diogo é mesmo chorão.
6. Mudo-me para a minha casa daqui a duas semanas.
7. Não sei dos meus pantafones.

03 novembro 2011

fantasmas

Hoje foi à porta da igreja: lá estava ela, a Miss J., educadora americana do Diogo. Ontem foi a minha ex-colega da biblioteca de Princeton, no centro comercial do Campo Pequeno. Aparecem-me, agora. Aparecem-me enquanto durmo e também acordada. Antes só via onde não devia ver os que já morreram. Depois, os amores desfeitos, as ilusões desiludidas. Cheguei ao tempo em que já muitos fantasmas povoam os meus dias, pessoas que não pertencem ali e que me parece encontrar nos lugares impossíveis. Eu, que não percebo nada de psicologia e menos ainda de psicanálise, digo que são as memórias que tento apagar depressa demais. Há memórias que derretem mais devagar do que a neve de Janeiro. Não sei o que fazer delas.

01 novembro 2011

o corpo ao manifesto

Ontem desejei muito ter um daqueles andaimes que o Michelangelo usava para pintar deitado. Não sei quem é que tem a ideia de fazer um tecto com ripas de madeira de dois centímetros de largura e não se lembrar que um dia podia haver uma pessoa que ia querer esmaltar aquela treta toda (e mais os intervalos entre tabuinhas). Entretanto, vejo mais uma vez que, apesar de ter o corpo como se uma manada de elefantes estivesse estado a dançar a conga em cima de mim, eu nasci foi para os trabalhos forçados. Uma pessoa chega às portas do liceu e apresentam-lhe a economia (não suporto), a medicina (tinha de estudar química), a engenharia (aborrece-me) e lá se escolhe as Humanidades porque pode ser que dê para fazer alguma coisa interessante. Afinal, o que me interessa é a construção civil, acartar caixotes e cavar na terra. Vocaçãozinha mais proleta que me havia de sair.

28 outubro 2011

aurículas e ventrículos

Volta e meia, adoecem-nos os filhos para nos exercitarem o miocárdio. Sim, confirma-se, o meu ainda é flexível o suficiente para esticar e caber um bocadinho mais de amor lá dentro. (e medo, e incerteza, e vontade de colar aquele corpinho febril ao meu e enxotar todos os vírus, todas as dores)

26 outubro 2011

a vida que continua todos os dias

Durante a semana deixei de ser mulher, sou só mãe e filha. É tão estranho saltitar entre esses dois papéis, conforme a divisão da casa e a hora do dia. Levanto-me e passo pela cozinha, evito tropeçar no meu irmão grande demais, de fato (àquela hora não o distingo do meu pai); a minha mãe pergunta-me se dormi bem e se comi e eu sinto que aquelas são as minhas palavras - mãe sou eu! - desarrumadas noutra linha espaço-temporal. E depois clic! no interruptor das crias e ando a correr atrás de um e do outro, distribuindo canecas de leite, iogurtes líquidos com palhinha, pilhas de roupa, escovas de dentes. A cria grande está refilona e contestatária. Está um aranhiço com pernas e braços por todos os lados. A cria pequena continua destruidora e pede para ir ao bacio. Está uma (quase) bolinha espertalhona. Lindos e tão crescidos. Deixo-os na escola e tenho de parar uns segundos para me lembrar de qual é o papel que tenho de representar a seguir.

22 outubro 2011

adiantando-me à chuva

Parece que o Outono chega mesmo hoje. Até que enfim, que isto de só escrever posts positivos e a transbordar de felicidade já me começava a fazer parecer a Laurinda Alves.
E agora vou ali a Alcobaça buscar os meus caixotes acabadinhos de chegar do outro lado do mar. Continuo com pinturas, montagens e a mudança. Em breve já podemos ir para a nossa casa :)

19 outubro 2011

torradas na chapa

Entro naquela casa e tenho 4 anos outra vez. A sala está cheia dele, ainda. Está no sofá (que mudou de lugar), onde me recebia ao colo e lia sonetos. Está no quarto, no porta-fatos vazio, nas fotografias connosco no jardim da Cidade Universitária. Está ele, o meu Avô, e estão todos: tios, primos, Natais, jantares de sexta-feira inaugurados com um "ora então muito bom proveito!". As paredes verdes são as mesmas, os reposteiros cristalizando um cenário de décadas, palco da minha infância. É tão bom rever tudo na companhia de dois rapazes pequeninos, novos em folha, que espalham o estardalhaço e enchem de risos espaços silenciosos há tempo demais. Fomos lanchar a casa da minha Avó e o Gugas concordou que ela faz as melhores torradas do mundo. Mexeu cuidadosamente o açúcar na chávena de chá - que colher tão pequenina! E o Diogo fez combóios de molas de roupa pela carpete. Esperei tanto por isto.

17 outubro 2011

fim-de-semana bom

Este fim-de-semana teve sabor a prolongado porque começou logo na sexta-feira. À hora de almoço fui cortar o cabelo ao Chiado, dei uma voltinha pelas lojas, visitei uma exposição do Experimenta Design e, depois de acabar o trabalho que tinha para esta semana, fiz-me à A1. Cheguei a Coimbra já à noite e jantei maravilhosamente (obrigada pelas dicas Joaníssima!) junto ao rio. Só eu e o meu marido. E o rio. E a lua, que já não estava cheia mas faz de conta. E nem um babete, nem uma colher de sopa para dar (obrigada pais!). No Sábado de manhã ainda demos uma volta pela cidade e andámos de gaivota pelo Mondego. Que boa surpresa que foi redescobrir Coimbra, que arranjada que está a cidade, que encantador que é cada recanto. Olha que sorte a nossa, que logo calhou ele ir trabalhar para um sítio tão bonito! De seguida, juntámo-nos a quase toda a minha família paterna em Lafões para uma grande almoçarada. Os meus filhos foram esborrachados de mimos com sotaque minhoto e lá voltámos para Lisboa. Domingo foi para descansar de tanto quilómetro de autoestrada e passear junto ao Tejo, com toda a calma do mundo.
Tudo isto é um luxo, senhores, um luxo. E eu sei disso.

16 outubro 2011

baixar os braços

Todos os dias há mais qualquer coisa a dificultar-nos a vida. A uns mais do que a outros, mas a uma sociedade em geral. Há muita gente obrigada a refazer orçamentos a cada semana, a cada mês, a imaginar poupanças onde já parecem impossíveis e a suster a respiração de cada vez que liga o televisor para ouvir as novas "sentenças" governamentais. Infelizmente, não conheço melhor alternativa àquilo que o Governo está a fazer. Manifestar-nos é um exercício saudável de cidadania (como devia ser a maior participação nos órgãos para isso disponíveis) mas é pouco mais do que isso: exercício.
É muito triste que tenhamos de viver um período assim e o pior é que o fim não está à vista porque todo o sistema mundial parece estar próximo do colapso.
Também tenho medo, faço contas, lamento o que se passa. E depois penso: o que posso fazer eu? Certamente, não é baixar os braços, fechar-me no meu egoísmo, coleccionar bodes expiatórios, ódios, ou descarregar na buzina do automóvel. Posso ajudar aqueles que conseguir. Posso trabalhar bem. Posso dar exemplos aos meus filhos daquilo que eu quero que eles sejam como cidadãos portugueses, europeus, do mundo. You may say I'm a dreamer but (I hope) I'm not the only one. Se mais nada há a fazer, cultivo a gratidão pelo muito que tenho e não o ressentimento pelo que perco nem a ansiedade pelo que ninguém sabe, de facto, que acontecerá ao virar da esquina.

13 outubro 2011

bsf

Os anos passam-nos pelos ossos e vamos refinando pequeninas coisas na nossa maneira de estar. Eu vou acumulando filtros. Reparo agora que adquiri aquilo que podemos chamar de Bullshit Filter: quando me aparecem aquelas criaturas que falam com mais adjectivos auto-adjuvantes do que a realidade comporta, começo logo a pensar na sopa que é preciso pôr a descongelar. "Ah, que eu faço, tenho e aconteço" e foge-me instantaneamente a atenção para o betume que tenho de comprar. Acho que disfarço bem. Consigo sorrir e dizer "a-hã" nos momentos apropriados. Conversa, não lhes dou, que é para não estimular a verborreia.
Com o acumular de tanto filtro, prevejo que esteja para breve a formalização do diagnóstico da minha sociopatia há muito recalcada. Não admira que sonhe tantas vezes com facas.

12 outubro 2011

querido, estou a mudar a casa

Há um mês atrás, viemos de uma casa bonitinha, solarenga, na floresta, para uma casa escura, fria, com um corredor interminável e janelas que dão para paredes (pronto, e ao lado de uma pseudo-floresta). Para evitar cair em depressão, resolvi aproveitar a flexibilidade de horário de trabalho para arregaçar as mangas e melhorar o que é possível. Estou irreconhecível: entrei no Aki duas vezes na mesma semana, sonho com a disposição dos móveis e até já vejo revistas de decoração. Mais um bocadinho e costurava os meus próprios cortinados. Enfim, está a dar-me uma trabalheira desgraçada mas a verdade é que, pelo andar da carruagem, parece que vamos ficar naquela casa durante uns bons anos (emigrantes pé-descalço, é o que dá). Mais vale tentar amimozá-la e fazer dela o ninho que a nossa família merece.

11 outubro 2011

teletrabalho

A partir de hoje, e sempre que quiser, trabalho a partir de casa. É claro que isso só é possível porque tenho um trabalho que se presta a isso, porque sou disciplinada e porque tenho um chefe que confia em mim. Mas é uma oportunidade valiosíssima, isso é. Posso tratar dos meninos com toda a calma do mundo, estar com eles quando mais precisam e ainda ter tempo para mim (e voltar a correr, iupi!), bastando para isso compensar à noite ou em horas de almoço. Como mantenho o meu posto de trabalho na universidade, nem sequer corro o risco de morrer de isolamento (como quase aconteceu da primeira vez que teletrabalhei). O maior desafio é resistir à tentação feicebuquiana e dos blogues em momentos de concentração laboral. Vou arranjar uma chibata para evitar a prevaricação. E agora vou trabalhar para ter tempo para pintar portas amanhã!

10 outubro 2011

serviço público/ publicidade gratuita

Quem tem filhos que não comem está habituado a ouvir a célebre frase "quando ele tiver fome logo come". Isso até pode ser verdade para crianças que não comem porque não gostam/não estão habituados a experimentar novos alimentos, para os que estão em fases de desenvolvimento e adaptação específicas, ou para os que estão doentes. Mas há quem não reconheça que, tal como há adultos com muito ou pouco apetite (como eu), também há crianças que, pura e simplesmente, não têm fome. Nos adultos, isso ajuda-os a caber num XS; numa criança, pode ter consequências do ponto de vista da resistência a doenças e mesmo do crescimento (já para não falar do ambiente familiar às refeições...).
Posto isto, sinto-me no dever de partilhar a (re)descoberta do estimulante de apetite que o Diogo começou a tomar há cerca de 3 semanas, o mesmo que a minha Mãe me deu em pequenina. Se ele anda a comer como um abade? Não. Anda a comer um pouco de tudo, a todas as refeições, com equilíbrio. Meia dúzia de passas ou meia banana já não são um jantar típico. Neste período, já ganhou cerca de um quilo, anda muito mais bem disposto, dorme melhor, em suma: o paraíso. E não houve um único pediatra que me falasse nisto (ainda que a toma, agora, esteja a ser acompanhada por pediatra).
Chama-se Viternum, à venda na sua farmácia.

07 outubro 2011

monstros

O mais velho tem medo-fascínio do escuro e de tudo o que está nele escondido. Arma-se de lanternas e avança-recua para os quartos de luzes apagadas, florestas amazónicas de perigos insondáveis. O mais novo cumpre o seu papel ao mais alto nível: esconde-se, abre a bocarra(zinha) semi-dentada e emite os sons mais assustadores que consegue. Perseguem-se, assombram-se, duas migalhas de pijama invocando e espantando fantasmas mesmo antes de se irem deitar - deve ser por isso que nunca lhes dei por pesadelos.

Post inspirado pela Lebasiana.

desqualificação laboral

Dava-me um jeitão não ir trabalhar hoje para pegar na trincha e pintar as portas e caixilhos da minha casa. Já para não falar dos furos na parede que é preciso fazer e de todas as estantes que há para montar. Seja como for, a minha ciência vive daqueles que se queixam do trabalho que têm. Se calhar mais valia dedicar-me a essa espécie de trabalho de campo.

05 outubro 2011

croquete (sim, aparentemente é uma semana com títulos destes)

Não estivesse o meu telemóvel bloqueado desde que desemigrei e hoje botava aqui daquelas fotografias bonitas com praia, unhas dos pés envernizadas, o peixinho grelhado que comi ao almoço e uma ou outra gaivota a voar. Mas não. Limito-me, portanto, a dizer que este foi um feriado maravilhoso, que Sesimbra estava um encanto (e bem menos cheia do que a Arrábida, onde tentámos ir antes), e que o Verão pode continuar até ao ano que vem, a ver se eu me importo.
Ah, o croquete é o meu mais pequeno na areia, nas ondas, na areia, nas ondas, de cabeça na areia, a levar reboletas nas ondas. E provavelmente o que ele deixará no bacio amanhã de manhã (sim, já re-inaugurámos esse instrumento emblemático da maternidade).

04 outubro 2011

o post do não-foi-bem-isso

Depois de duas horas ajoelhada no milho (com este calor, quase fazia pipocas) para ganhar consciência da dimensão pecaminosa da minha irreflectida afirmação, estou em condições de vir aqui proclamar a minha inocência e, ainda assim, pedir desculpa a todos os que se sentiram lesados.
Se me permitem, passo a expôr os meus argumentos:
1º A minha mãe não fez carne assada para eu trazer para o almoço. Sobrou do jantar e eu afiambrei-me;
2º Não tenho microondas no trabalho, pelo que como tudo frio - o que contribui para os meus créditos de auto-comiseração;
3º Quem mais sofre com o cheiro a carne assada são os meus colegas de trabalho, que nem sequer a provam (mas eu ofereço!, antes que me apedrejem);
4º Acho mesquinho que venham aqui acusar-me de peito aberto: quem de vós nunca trouxe marmita para o trabalho?
5º Finalmente, gostava imenso que toda a gente tivesse mimos de mãe, trabalho e olfacto (mais ou menos por esta ordem de prioridades) mas não posso carregar as culpas do mundo se isso não acontece;
6º E agora o clássico: isto é um blogue público, só vem aqui quem quer. Se não gosta, não come.

carne assada

No top 10 das coisas desagradáveis disto de ser remediada está o facto de passar a tarde a trabalhar com cheiro à comida que trouxe de casa da minha mãe.

E é nestas situações que penso como é bom que quase ninguém leia isto - se fosse uma Pipoca ou uma Cocó a dizer tamanha enormidade, levava logo com uma enxurrada de mensagens de ódio porque "ao menos tens o que comer", "eu já não tenho mãe que me faça esses mimos", "dá graças por teres trabalho" ou mesmo "és uma cabra insensível: o meu padrinho perdeu o olfacto na guerra e bem gostava de poder cheirar alguma coisa!"

blogcatita

Catarina, se me ouves: não consigo aceder ao teu blogue (e não tenho o teu e-mail). Is there anybody out there..?

03 outubro 2011

três de outubro

Há dois anos, ala para os EUA. No ano passado, não faço ideia (acho que tinha começado a trabalhar num sítio onde só estive duas semanas). Este ano, fico desmaridada durante a semana. Ele apanha o comboio e vai ganhar o pão para Coimbra, e nós ficamos por Lisboa. Enquanto esperamos pelo contentor e acabamos de mobilar a nossa casa, deixamo-nos estar em casa dos meus pais.
É estranho. Uma pessoa dorme todas as noites ao lado da mesma pessoa nos últimos cinco anos e tal, e agora faz o quê? Põe só uma almofada na cama? A quem é que dou pontapés enquanto sonho que sou uma ninja assassina? Quem é que dialoga comigo enquanto falo a dormir? Quem é que se zanga comigo porque corto as unhas dos pés para dentro da sanita? Pronto, como em tudo, lá nos habituaremos. E esperamos que seja só por três meses.

02 outubro 2011

correndo o risco de me tornar repetitiva e (ainda mais) chata

Como é que se pode comparar dias eternamente iguais, em que só mudam as estações do ano (e agora já outona em força, por lá), a dias imprevisíveis excepto na sensação de casa? Estar em casa. No nascer do sol (lindo!) junto ao rio, com amigos, sozinha, com os filhos, no trabalho, na caixa de supermercado, em casa. Sem me perder na tradução, sem complexo de ilha, sem me sentir fora de pé - e farta de ficar parada, a boiar, para não nadar até à exaustão.
"Então, e como foi a experiência de viver nos EUA?" Foi boa. Foi como vestir a bata, entrar no laboratório, espreitar pelo microscópio e observar quatro celulazinhas semi-inertes ao longo de vinte-e-quatro meses. E depois despir a bata, enviar o relatório, voltar para casa e comer um prato de sopa de grão com espinafres.

Este hoje vai para a Leonor (e para todas as minhas amigas emigradas, já agora).

28 setembro 2011

detalhes que não interessam a ninguém

E habituarmo-nos outra vez a usar sapatos sem ser na rua?

27 setembro 2011

vir para aqui descansar

Pois que estou feliz com o meu regresso ao trabalho (e à investigação) e devo confessar que não é só pelo que faço aqui - que, na maior parte do tempo, não é blogar - mas pelo facto de os meus ouvidos e a minha cabeça descansarem um pouco. Uma mãe decente não admite uma coisa destas mas eu admito, do fundo da minha indecência, que já estou a dar em maluquinha com o Diogo a chorar cerca de 15 horas por dia e a pedir colo sempre que está acordado. Meu rico filho, compreendo o teu sofrimento e desdobro-me para te ajudar a ultrapassá-lo, mas já faltou mais para os teus avós nos convidarem a sair lá de casa.

26 setembro 2011

o alentejo também estava uma maravilha


E que bom que foi rever amigos e conhecer os novos sobrinhos :) É uma sensação nova, esta de ser tia, e gosto muito. Tenho vontade de os ver crescer todos juntos e fazer muitos mais programinhas destes.
Agora é mais uma semana de trabalho e tentar fazer render os dias, que parecem sempre demasiado curtos.

23 setembro 2011

a adaptação

Tem sido feita de acordo com as características de cada um. O pai está bem em qualquer lado. A mãe (que nunca mudou o fuso horário do computador - denial is a river in Africa...) acha normalíssimo estar aqui e não se lembra sequer de como foi possível viver noutro sítio. O filho mais velho está bem em qualquer lado (desde que esteja lá a mãe). E o filho mais novo? O filho mais novo está a lidar como pode com tanta mudança que não compreende. Num dia está nos EUA, noutro em Lisboa. Noutro no Algarve, de novo em Lisboa e depois no Alentejo. Num, em casa dos avós maternos, noutro em casa dos avós paternos. De 24/7 com a mãe e o irmão em casa para a entrada progressiva na escola (travail oblige), felizmente com o irmão. São fusos horários, hábitos alimentares e camas diferentes, muitos abraços desconhecidos de gente que o adora mas que ele não conhece de lado nenhum. O meu filho pequenino anda perdido neste reboliço e só desejo que a poeira assente para que ele se possa sentir de novo em casa. Meu querido, a mamã não vai a lado nenhum. E em breve vais perceber que, nas horas em que te deixo na escola, não podias estar melhor entregue. Até lá, dou-te todo o mimo a que tens direito.