25 janeiro 2013

forever five

Estou a comer a porcaria do peixe que trouxe para o almoço (feito por mim, óbvio), a fazer bola, a não saber onde esconder a bola porque estou no local de trabalho, e as lágrimas vindo-me aos olhos, reminiscências de quando tinha de emborcar toda a sopa de nabiças, as ovas, a pescada frita, a cenoura cozida, as couves de bruxelas, a jardineira, os carapaus grelhados,a  corvina estufada com ervilhas, e podia ficar para aqui o resto da tarde a explicar por que é que aos 8 anos ainda pesava 20 quilos. 33 anos e não ouso quebrar as leis da nutrição-ou-sei-lá-o-quê, em vez de ir comprar um croissant com chocolate.

24 janeiro 2013

as bodas

Tenho um amigo que vai casar para a semana e que está tão nervoso, tão nervoso, que hoje chegou aqui para pagar cafés ao pessoal e tirou três chazinhos de limão, um a um, que foi uma limpeza. Fico emocionada que ainda haja quem tenha alguma deferência pelo matrimónio. Mesmo que garanta, de cara séria, que é um dia igual aos outros.

Um dia, volto a casar-me com o meu marido. Ainda não sei qual é o dia (mas estou danadinha, quanto mais não seja para fazer uma montagem em Photoshop daquela publicidade dos pacotes de açucar).

junto à serra do pilar

Em não podendo ir ao Porto,

(e para quem só chegou aqui agora e não sabe, eu sou uma minhota-alentejana que nasceu em Lisboa porque em 1979 ainda não havia A10 e, sendo assim, foi mesmo na capital que a portentosa semente e o fértil terreno se encontraram)

nesta altura do ano em que o estado do tempo a norte da Serra d'Aire não maça mais do que o que temos cá para baixo, em não matando as saudades da prata do Douro cavadinho entre as margens, em não enfardando francezinhas das boas, e em ficando eu aqui roidinha de inveja enquanto o meu homem vai para cima e a única coisa em que reparará serão as mensagens amigáveis que os plácidos moradores de Miragaia endereçam aos benfiquistas em cachecois hasteados nas suas varandas, nesse caso, pelo menos acabo de descobrir a Dora. Ah, bom.

Nota para mim: Tenho de aprender a fazer frases curtas.

23 janeiro 2013

de nada

Queridos Lisboetas,

Sei que não estão habituados a estas temperaturas árticas abaixo dos 10ºC, mas deixem-me partilhar convosco a única dica fashion realmente importante por estes dias: Mais do que luvas fofuxas sem pontas para teclarem à vontade; mais do que ponchos que não dão para conciliar com as mangas estreitas dos trench coats; mais do que as écharpes gigantorras em polar recuperadas a partir dos cobertores do IKEA pela vossa amiga urbano-artesã; mais do que a bandolete com almofadas de plumas cor-de-rosa (e depois admiram-se que o vosso gato tresloucado se vos atire às orelhas!); mais do que as UGGs onde andam a coleccionar chulé desde Setembro; mais do que as caneleiras que só favorecem o pernão rijo da Jennifer Beals no Flashdance

Enfiem um gorro na cabeça.

21 janeiro 2013

abacates

Cairam ramos, voaram telhas, despiram-se árvores de fruto e eu ganhei as sobras dos quintais devastados. Vou fazer guacamole e hamburgueres de batata doce e abacate. Vou passar o tempo todo de roda do fogão e dos pratos. Vou desculpar-me com a chuva batida a vento para mergulhar no calhamaço que, felizmente, ainda não acabei de ler. E vou passar mais um dia em que me encerro, aos poucos, nos meus pensamentos, nas memórias mal resolvidas e na clarividência de dores inevitáveis. O que vale é que o Inverno não dura para sempre.

14 janeiro 2013

está tudo acabado entre nós

Os casamentos acabam todos os dias. Já não há empregos para a vida. Os familiares chatos são suportados apenas nas festas anuais e até aprendemos a vender na Internet os presentes inúteis da madrinha, que já não nos ocupam espaço na arrecadação nem peso na consciência. No entanto, parece que há um tipo de relação que continua a ser sacralizado, resistindo numa era de encontros fugazes: a amizade. Não falo dos contactos de circunstância nem dos conhecimentos que entusiasmam apenas por uns meses, mas daquelas amizades que plantamos ao acaso, muitas vezes desde a infância, que se vão construindo e cimentando em torno de tudo de bom e de mau que se vai passando nas nossas vidas. Essas amizades parecem inquebráveis. Mas sê-lo-ão? Ou, melhor ainda, será que faz sentido que esperemos que assim sejam?
Se os casais se separam porque crescem por caminhos divergentes, porque deixam de ter coisas em comum, porque mudam de prioridades e de expectativas, por que é que o mesmo não há de acontecer com os amigos? Aqueles com quem ouvíamos em loop o mesmo CD dos Aerosmith em 1994 não ouvem necessariamente o mesmo que nós agora. Aliás, qual é a probabilidade de dois adultos que fizeram percursos diversos, que passaram por diferentes sucessos e desilusões, continuarem a ver as coisas de forma semelhante? Não é incoerência, é a mudança própria que vem com a idade. Estranho seria se continuassemos todos a pensar da mesma maneira aos 10, aos 50 e aos 80 anos. Que sentido fazem então amizades que se aguentam muitas vezes para não enfrentar esse último tabu que é o pôr termo a uma amizade? Mudar de namorado, tudo muito bem; dizer a alguém que já não vale a pena continuarmos com os telefonemas e os emails repetindo o previsível “temos de combinar qualquer coisa”, isso é que não, é dar parte de fraco. Ao mais leve par de astes com que sejamos adornados, lá se vai um amor eterno. Já a amizade aguenta estoicamente doses bem maiores de afastamento, negligência e profunda cabrice. Não percebo, a sério.

Nota importantíssima: Queridas amigas desde 1994: isto não é convosco! É meramente ilustrativo. 

13 janeiro 2013

só para rematar isto da Pêpa

O Pipoco é que resumiu bem a coisa: o que causou tanta comichão não foi a insensibilidade burguesa materializada na Chanel, a ventania que passa por entre aquelas orelhitas, e nem sequer o tom de voz (já estava tudo familiarizado com o estilo, desde a Jonet); não, o que achincalha o bom povo português, de Xabregas à Foz do Douro, é a inconsistência da pequena. 'Mala' e 'carteira' na mesma frase são reveladoras de uma incongruência intolerável nesse meio de comunicação pristino, de uma solidez inabalável, que deve ser a blogosfera. Uma pessoa, se é para interromper o trabalho e andar a ler o que outra pessoa escreveu enquanto interrompeu o seu trabalho, gosta de saber ao que vai. Para desilusões e incertezas já temos a vida real.

08 janeiro 2013

como os americanos, sempre de olho na próxima festividade

Ó caraças, de que é que os mascaro este ano?

07 janeiro 2013

epiglote

Resolução de ano novo que só chegou com os Sábios do Oriente: calar a boca. Em vez de dizer tudo, calar-me. Fechar a matraca. Não emitir julgamentos, opiniões, teorias, previsões, e reduzir em muito a frequência e pilosidade dos palavrões. Já chega de andar por este mundo como se fosse um tanque de guerra no meio de uma reserva de bambis. A única dificuldade é que também tinha mais ou menos decidido, na pressa das doze badaladas, que ia engolir menos sapos, descontrair e deixar as secas para o bacalhau. Não estou bem a ver como vou equilibrar as coisas. Sobretudo, não sei como vou conseguir suster as palavras torrenciais à boca da garganta, sem fazer mal aos outros nem começar para aqui a cozinhar úlceras e efervescências mal resolvidas.

02 janeiro 2013

estabilidade

Os próximos tempos anunciam-se seguramente inseguros e exigem-nos adaptação, golpes de rim, habilidades circences com um sorriso. Nada se perde, tudo se transforma. Mas o que é que o sabichão do Lavoisier sabia do amaparo que nos dá a consistência do quotidiano? Preciso de estabilidade. Sou avessa à mudança constante. Não, eu não floresço em momentos de crise e dispenso bem o nervoso miudinho do desconhecido, desprezo a surpresa, e o abismo faz-me dores de barriga.
Preciso de estabilidade. Teço todos os dias uma teia feita de horários, rotinas e gestos repetidos. E é dessa teia que é feito o meu ninho. Não sou mãe-galinha, sou mãe-aranha. Reconheço a minha culpa e não sei se e como algum dia escaparão os meus filhos para um mundo cruel feito de incertezas, sombras e liberdade. Bem sei que a vida está cheia de aviões furando torres, que a morte chega, que as separações acontecem, mas não sei construir os nossos dias com outra matéria menos banal do que esta fibra da fiabilidade. Eles adormecem todas as noites tão sossegados, de bochechas mornas e luzidias. Até quando bastará? Estou a fazer tudo errado, serão uns impreparados, munidos apenas de amor e confiança. Toda a gente sabe que isso não chega para nada.

31 dezembro 2012

resolucinhas

, que as resoluções carregam tanta ambição que estão condenadas à partida.
Mimar mais e melhor. Stressar muito menos. Fazer os Kegel. Reparar bem nas coisas bonitas. Dançar, que não dancei nada este ano.
Boas entradas, minha gente!

expectativas do casal para o réveilhão

Ele: Comer pregos naquela tasca em Benfica com tanta mostarda quanta conseguir equilibrar num pedaço de carne untuosa.
Eu: Ter uma desculpa praticamente válida para comprar um par de sapatos que nunca mais voltarei a usar (mas estará no próximo saco de doações, que eu ainda sou mais boazinha que a Jonet).
Parece que a conjugalidade é mesmo feita destes equilíbrios improváveis. E, a brincar, a brincar, já vai para quase metade das nossas vidas que nos conhecemos.

27 dezembro 2012

o melhor de 2012

Este ano não foi bom para muita gente. Mesmo assim gostava que pudéssemos olhar para trás e perceber que, em muitos casos (infelizmente não todos), a angústia que se nos infiltrou nos ossos no final do ano passado foi como uma neblina da costa ocidental, que lá acaba por levantar ao fim da tarde. 2012 foi um ano generoso para mim, essa é que é essa. Não mudei nada de muito significativo mas retive o que era fundamental.
Durante a adolescência, coleccionava numa caixa de chá rolinhos de papel onde escrevia coisas boas, que me faziam sentir feliz, para mais tarde voltar a saboreá-las. Não sei onde a meti por isso deixo aqui algumas das melhores coisas que tive oportunidade de viver este ano.

Melhor refeição: jantar no Yakuza, a 24 de Julho. E em casa, todas as vezes em que fiz canja e que os meninos comeram em silêncio devoto, sorrindo.
Melhor mergulho no mar: na minha praia, por volta das 16h, a 29 de Julho.
Melhor gargalhada: a do resto da família, quando me explodiu o ovo quente na cara.
Melhor livro: Freedom, de Jonathan Franzen.
Melhor filme: Moonrise Kingdom, de Wes Anderson (se bem que o We Need to Talk About Kevin me marcou muito mais).
Melhor música: Simple Song, dos The Shins, em ex aequo com o Madness, dos Muse.
Melhor série: Continua a ser o Mad Men.
Melhor momento: na noite de Natal, quando o Diogo abriu um presente que adorou e o Gugas, vendo-o tão feliz, teve de dar-lhe um grande abraço. Isto, meus senhores, é amor.

Apesar das más notícias que também chegaram este ano, não me inibo de abrir à descarada as comportas para deixar inundar-me de esperança num 2013 cheio de coisas boas – para mim e para todos vós :)

21 dezembro 2012

retomar isto das expectativas

Posto que o mundo e a vida continuam, como lidar com a existência de um futuro? Já tinha contas saldadas no banco e no coração, deitei-me tão consolada ontem a achar que o mais importante estava assegurado, e afinal volto a ter de criar expectativas e assentar compromissos na agenda. Não é que me falte ânimo para o que há de vir, é só que já está tudo tão perfeitinho assim: tenho um filho de dois anos que me prega partidas e até já come e tudo; tenho outro de cinco que leva o irmão ao bacio quando vê que ele está com cara de caso. E projecta arranha-céus futuristas onde dará casa a todos os sem-abrigo do mundo. Um exagero de meiguice, os dois, sempre a fazerem-me declarações de amor. Dois homenzinhos criados. O que é que se pode pedir mais do amanhã? Ah, pois, os dias que recomeçam a crescer :)

19 dezembro 2012

espírito de natal

O sorriso solar dos nossos filhos quando nos descobrem no meio da audiência da festa de Natal; as boas notícias no trabalho, depois de tanta ansiedade e tanto esforço conjunto; o anúncio de férias em família, inesperadas; um gesto pequeno e majestoso, de quem podia fechar-se nas suas dores mas decide abrir-se cada vez mais ao mundo; uma Fé teimosa que nasce em quem tinha medo de acreditar; a espantosa revelação de humanidade de alguém que nos parecia ser de pedra; e também todas as coisas más, toda a doença, todo o desemprego, todo o medo, o que nos retiram a cada dia, tudo menos a possibilidade de acreditar, de dar, de deixar que o Amor nos inunde o coração irremediavelmente. É só deixá-Lo entrar. Boas festas!

13 dezembro 2012

a minha sugestão de lembrancinha natalícia

É simples: um voucher Presente 25€ do Millenium BCP. É que é uma ideia tão boa e universal que nem dá hipótese para hesitações. E por que é que vos sugiro isto? Porque passo pelos mupis de rua com publicidade a este brilhante produto e as lágrimas só não me escorrem pela face porque estou de lentes de contacto e, parecendo que não, secam-me um bocado a vista.
A sério, se a compaixão e a generosidade são os fundamentos desta quadra, como não ficar assolada de ternura pelos senhores que tiveram de criar um anúncio destes? Atenção, isto é um anúncio que tenta convencer as pessoas a oferecer um bocado de papel que vale menos do que a erva daninha da berma do IC19. E como não gritar interiormente com a abnegação de uma senhora que usa uma camisola cor-de-rosa de angorá, um colar de pérolas, e esboça um sorriso como se estivesse realmente radiante ao receber um pedacinho da certidão de falência iminente de uma instituição bancária cujas acções valem menos do que um pacote de açúcar? A sério, ofereçam estes vouchers ao vosso esposo, à vossa tia, à senhora da farmácia, ao bobi. Garanto que eles irão retribuir o gesto com muita meiguice no próximo ano.


10 dezembro 2012

se o mundo fosse mesmo acabar daqui a 11 dias

Saía daqui, pegava nos miúdos e no homem e alugava um helicóptero para ir jantar com os meus pais, a minha avó e o meu irmão a Monsaraz. Dormíamos por lá e ainda dava uma voltinha a cavalo junto à barragem antes de voltarmos a Lisboa e embarcarmos no TP103 do 12:45 para Orlando. Ficávamos 3 dias a amansar o jet lag na DisneyWorld. Andava três vezes na splash mountain e quatro na casa assombrada. Vestia-me de Branca-de-Neve e comia pizza, crepes e cheese cake com muita coca-cola. Depois embarcávamos no AA1873 das 8:40 para Caracas e, daí, apanhávamos o barco para uma ilhota qualquer de Los Rocques. Ficávamos por lá a apanhar sol todo o santo dia, a beber mojitos e a comer o peixe grelhado, as panquecas com tapioca e a goiaba que nos coubessem na pança. E a dançar. E a ler. Na mala, levávamos só os bonecos de peluche dos miúdos, o The Very Hungry Caterpillar, o Winter of the World, fatos de banho, protector solar e Guronsan. The End.

05 dezembro 2012

desmistificando as agruras da monoparentalidade

Pai dos meus filhos: cuida-te. Cuida-me. Sê um bom marido. Ri-te das minhas piadas. Elogia o meu penteado. Mete-te comigo. Valoriza o meu esforço. É que esta semana voltou a acontecer algo que já antes tinha experimentado: fiquei sozinha com eles e foi... fácil. E divertido. Sabes, quando não estás cá eu sou menos mãe e mais amigalhaça. Comemos pizza. Deitamo-nos mais tarde. Cantamos alto músicas inventadas para celebrar o lugar de estacionamento encontrado ao fim de muitas voltas. Eles vão para a cama sem tomar banho e com os dentes provavelmente mal lavados. Nem uma birra. Nem um queixume. A louça vai toda para a máquina. E eu deito-me sossegada a ver todos os filmes franceses sem legendas que me apetece. Estás a ver o problema que isto levanta, não é?

E não venhas agora dizer-me que eu é que insisto nas refeições nutritivas, nos banhos, nos horários, na pressão das mil-e-uma-coisas que me deixa rabujenta, nas roupas impecavelmente dobradas, só porque é tudo verdade. Se calhar o que falta é mesmo virar tudo de pernas para o ar, de vez em quando. Para depois te recebermos de braços abertos e com muitas saudades. Principalmente porque as noites continuam frescotas.

30 novembro 2012

a narração em suspenso

Estando numa fase da vida em que, para o bom e para o mau, escasseiam os argumentos para usar o estilo narrativo (como tão bem insiste a Melissa), não escrevo. Há um número limitado de vezes em que podemos falar do sorriso radioso dos nossos filhos, das tosses, das incertezas do trabalho, das descobertas culinárias, das dores no lombro, dos livros lidos e daqueles que esperam na estante. Cheguei ao limite. Enquanto não acontecer alguma coisa de extraordinário - e desejo preguiçosamente que não aconteça, desculpem lá mas é o meu modo de lidar com os dias cinzentos - este blogue não tem uso. Até qualquer dia :)

23 novembro 2012

às vezes apetece-me fazer festinhas a mim própria, por me esforçar

Momento mais ridículo do (meu) dia: aquele em que sorrio ao espelho para botar o blush no sítio certo das bochechas. Mas faço questão de simular uma tez jovem e saudável, de quem vive em eterna Primavera e não deixa que as semanas cada vez mais avassaladoras dêem cabo da frescura natural dos trinta e três anos.