14 setembro 2012

insurreição

Filho: "Mas o dinheiro dos velhinhos não tiram, pois não?"
Mãe: "Tiram."
Filho: "Mesmo o da Bisa?"
Mãe: "Sim."
Filho: "E o meu...?"
Mãe: "Não te preocupes, eu não deixo ninguém mexer no teu mealheiro."

Esqueçam lá isso das aflições parentais para explicar o sexo, as drogas, a morte, a possibilidade de vida alienígena. Difícil, difícil é explicar o conceito de dívida externa e a razão por que se chega a um ponto em que alto e para o baile! ao cumprimento cego de regras. Mas é isso mesmo que quero transmitir, mais do que a moralidade e o civismo: que fomos dotados de cabeça para pensar, coração para sentir e braços e pernas para agir.

13 setembro 2012

um ano depois do regresso

"No fundo, queria viajar, cada vez mais longe, queria perder-se nos espaços que a fantasia lhe abrisse. Mas assim que se via fora de Lisboa, era atacado pelas saudades, umas saudades insuportáveis, não se podia assistir àquilo. As pessoas diziam-lhe: está bem, pronto, Lisboa é bonita, mas... Elas não compreendiam que, no fundo, não se tratava de Lisboa, mas dele próprio (...) Era algo muito mais profundo, algo para ele nuclear: o desejo de se refugiar dentro dos diques estáveis e conhecidos que o protegiam da perigosa ressaca e das traiçoeiras correntes submarinas da sua alma."

Pascal Mercier, O Comboio Nocturno para Lisboa

E não, apesar de tudo, não me arrependo de ter voltado nem por um só segundo.

10 setembro 2012

se é para explorar o pessoal, que se faça a coisa com pés e cabeça



Os problemas multiplicam-se como cogumelos: Não há dinheiro para o Estado Social. Não há como pagar a gasolina, o passe social, o supermercado, a renda da casa. Os professores estão no desemprego e os pais não chegam a horas decentes para dar o jantar aos filhos. A nossa produtividade continua baixa, muito baixa. E não há uma única proposta séria para resolver tudo isto, para limpar o quadro e voltar a escrever a nossa História. Pois bem, eu ouso dizer que sim, há uma solução. E a solução são as camaratas no local de trabalho.
A coisa funciona assim: os trabalhadores passam a viver no emprego durante a semana e só vão a casa ao fim-de-semana. Os eventuais filhos ficam na mesma situação, mas na escola (venha agora a FENPROF dizer que isto não gera emprego…). Poupa-se nas deslocações diárias, passa tudo a comer na cantina, e não há cá perdas de tempo a conviver com a família, a confraternizar com os amigos, e coiso. Vai tudo para o beliche às 21h e tudo acorda fresco para pegar ao serviço às 6 da matina. Até parece que já vejo as portas de S. Bento abrindo-se de par em par para me receberem depois da eleição. Vou preparar um quartinho mimoso para os pequenos, para quando eles me forem visitar aos Sábados. Sim, porque as minhas medidas serão verdadeiramente justas e equilibradas.

tomada de posição

Há as pessoas que acordam pela manhã e são revolucionárias por natureza; há outras que, confrontadas com a degradação da sua forma de vida (e das vidas alheias), enfiam a cabeça com mais força em mecanismos de escape que podem ir dos estupefacientes ao coleccionismo intensivo; espero que haja ainda outras que, apesar das dores e da estupefacção resultantes de pauladas num lombo já muito massacrado, tenham a capacidade de usar a sua inteligência e a força dos seus braços no momento certo para dizer "basta". Basta!

07 setembro 2012

mais uma vez na vanguarda temática

(do Outono, castanhas, mantinhas, e ronhónhó...)

Assim de repente, só consigo lembrar-me de duas vantagens de o Verão estar a despedir-se de fininho: 1. não haver problema quando me esqueço da manteiga fora do frigorífico; e 2. diminuir o cheiro a chulé da população em geral. Não me parece que isso compense minimamente tudo o resto que se vai com o calor e os dias grandes.

06 setembro 2012

re-conhecimento

Gostava de saber a partir de que idade é que os filhos se vão tornando um bocado mais previsíveis, do género: "ah, já sabia que era isso que ias fazer", ou "essa tua forma de me olhar de lado enquanto gozas com a minha estupidez é-me tão familiar". É que acho que a minha Mãe já sabe aquilo ao que vai, quando passa uma tarde comigo. Os meus rapazes ainda mudam todos os dias. É giro. E complicadote, por vezes.

03 setembro 2012

voltar, até já voltei

Mas continua a não me apetecer escrever aqui. Não sei bem porquê. Tenho a auto-confiança um pouco abalada pela colisão lateral na rotunda logo a seguir à estrada do Toy 70. O roçar daquela carrinha comercial no meu veículo burguês foi de uma intimidade abusiva, um superar de classes e géneros de condução que me desarrumou as seguranças de condutora, de mulher, de mãe - pelos vistos, até nestas coisas das redes sociais. Ou então foi muita praia, com a água muito fria. Também pode ter sido do excesso de robalo, de salmonete e de dourada. Escamou-se-me o coração para os textos de algibeira. De muito (e bem) ler, não foi, que nada me tem consolado depois do Freedom. Enfim, pode ser que o regresso à rotina e o atenuar do bronzeado me tragam de volta à blogosfera.

10 agosto 2012

tempo de exclusividade


Toda a verdade: o melhor de ser mãe-que-trabalha não é a passagem diária pelo mundo dos adultos; também não é o luxo de pegar numa bolinha rabugenta que acordou com a telha e depositá-la confiantemente no colo de uma (santa) educadora; e nem sequer é sentirmos que nos reconhecem valor intelectual para além da capacidade incrível de preparar refogados e banhos ao mesmo tempo que contamos estórias. Não, o melhor é mesmo este momento antes de ir de férias, em que antevemos todo o tempo para mimar, brincar, passear, cozinhar, dançar, acampar no beliche, encher o cabelo de sal e areia, e não desejar estar em mais lugar nenhum do mundo.

09 agosto 2012

comedimento

Houve um cavalheiro chamado Luís (provavelmente) com uns pés menos bonitos - mas não foste tu, pois não, marido? - que ficou sentido porque comentei noutro blogue que os homens devem evitar o uso indescriminado do chinelo. Ora, uma pessoa leva a sua existência pretenso-pós-moderna a tentar livrar-se de cada um dos seus preconceitos e é assim confrontada com esta fraqueza: será verdade que sou intolerante? É. A liberdade é um dos conceitos mais bonitos que há mas o meu sentido estético é um monstrengo conservador e implacável. Não gosto de ver mamas vazias e pingonas de topless. Não gosto de ver coxas celulíticas de calçãozinho curto. Não gosto de ver portuguesas de tez azeitona-de-elvas vestidas de tons pastel e com nuances platinadas. Não gosto de ver homens barrigudos de tanga. Não gosto de ver homens com as pernas depiladas. Não gosto de ver isto e muitas outras coisas, mas vejo-as todos os dias porque as pessoas são livres de trajar o que lhes der na telha. E eu guardo as minhas opiniões no bolso e evito comprar, usar, experimentar o que muitas outras pessoas usam porque o meu espelho deve ter um problema qualquer de hiperrealismo para me compensar a hipermetropia congénita.

08 agosto 2012

como se não estivesse calor que chegue hoje


Gosto muito dos Jogos Olímpicos. O meu pai acordou-me na madrugada de 12 de Agosto de 1984 para eu não perder o Carlos Lopes a conquistar-nos o primeiro ouro. Desde então, fiquei com o bichinho. Bem sei que está tudo comercializado, vendido a interesses corporativos, pintando ideais de justiça e igualdade de oportunidades que não revelam diferentes níveis de investimento, dopagens administradas até aos limites regulamentares, e rivalidades cegas que alimentam muita fornalha de horas e horas de treinos até aos limites da dor e da resistência. Mas eu sou só humana, talvez até um bocadinho neardental: gosto de ver a nossa espécie a dar o máximo das suas capacidades físicas e anímicas. E gosto de ver isto, ah pois gosto. Desportos aquáticos, a que é que pensavam que me referia?





06 agosto 2012

desconcentração

Estou a ler um livro tão bom, tão bem escrito, e que se arrisca a mudar tanto a minha vida, que mal consigo lembrar-me de tirar a comida do lume antes de queimar, de lavar a cara aos miúdos, ou de como encontrar o caminho para o trabalho. Felizmente há a Bimby, eles estão homens feitos, e há três semáforos eternamente verdes entre casa e o emprego, numa Lisboa vazia. Não tenho é tema para blogar. Ah, é o Freedom, do Jonathan Franzen.

31 julho 2012

(também) é para isto que servem as férias

Depois do pequeno aperto de coração ao receber um relatório da escola que elogia, elogia, mas anota que ele "é uma criança insegura", não há nada melhor do que acordá-lo (após uma semana de mergulhos, body-board, novos amigos) e ouvi-lo dizer que sonhou que estava a receber uma medalha de ouro olímpica. Tenho a certeza que pode tornar-se realidade, meu amor.

19 julho 2012

post interesseiro

Visto que tenho de fazer a lista de coisas para emalar hoje à noite, para as férias, e inspirando-me nas dicas devidamente surripiadas à  Muxy-muxy, aqui fica a minha lista por pax (que assim já serve para as próximas viagens, sem gastar papel). Ah, desafio-vos a fazerem uma menor que a minha :)

toalha de praia
7 t-shirts
2 sweat-shirts
3 calções
2 calções de banho
chinelos
ténis
cuecas e peúgas
pijama
fraldas e toalhitas
biberon/caneca
nécessaire com: soro, termómetro, ben-u-ron, brufen, protector solar, repelente de insectos, escova e pasta de dentes, pente.
brinquedos de praia e livros
respectivo peluche para dormir
garrafa de água
babete

(ah, como é bom eles já estarem crescidos!)

17 julho 2012

aprovisionamento

A boa formiga passa o Verão a juntar sementes, de um lado para o outro, atarefada e aplicada na antevisão de um Inverno de penúria. A boa gralha aproveita esta época para guardar bons momentos junto daqueles de quem gosta, a fazer coisas que lhe dão prazer, e a sonhar (acordada e não só). Volta qualquer dia, quando tiver a sacola bem cheia e as penas devidamente tostadas e cobertas de sal. Até breve :)

12 julho 2012

coisas que nunca quis ser mas, em particular, hoje em dia

EMELica.
Professora de Ciências da Natureza num colégio masculino da Opus Dei.
Técnica de endoscopia.
Operadora de telemarketing.
Funcionária de uma unidade suinícola.
Miguel Relvas.

Humilde contributo para o anedotário rélvico em permanente actualização.

deixando de ser parte de nós


Não sei se já alguma vez alguém se dedicou a construir um indicador de galinhismo na maternidade (com tanto sociólogo e psicólogo social por aí, já deve haver alguma dissertação sobre o assunto), mas suspeito que devo andar dentro da média nacional desta medida. Digamos que me sinto equidistante entre o terror permanente que me roubem as crias e a vontade de lhes sacudir o pó quando desatam à bulha pela enésima vez, para ver quem escolhe a estória antes de ir dormir. Enfim, isto para dizer que não devo ser a única que já percebeu que eles nunca deixam completamente de ser parte de nós. E que, cada vez que deixam mais um bocadinho, o coração murcha-nos mais um pouco (e enche-se proporcionalmente de orgulho). Desde que nascem, perdemo-los quando cortam o cordão umbilical. E quando saem do nosso quarto. E quando deixam de mamar. E quando vão para a creche. E quando comem sozinhos, quando largam a chucha, a fralda, a mão, ao atravessar a rua… E depois são eles e só eles, únicos. Mal reparam que replicam o nosso olhar e o nosso sentido de humor. Saem do ninho, uma e outra vez. De cada uma destas vezes, alegro-me por não depositar toda a energia, emoções e expectativas nos meus filhos, por muito que estejam no topo das nossas prioridades.

10 julho 2012

yes we can (even if we shouldn't need to)

Estou cansada, can-sa-da, de ouvir mulheres* apregoando o seu estoicismo intocável, a sua dedicação à dieta desnecessária, o seu investimento hiperactivo em múltiplos projectos profissionais que disfarçam tão malzinho inseguranças laborais e incertezas vocacionais, e o seu empenho - e consequente sucesso - em relações de sonho. A sério, cansam-me mais do que as cascatas de pulseiras, sapatos e vernizes que adquirem tons néon nesta altura do ano e nos ferem a vista mas, pelo menos, não nos fazem questionar se seremos nós as únicas cansadas, com medo, a chamar nomes à sorte de vez em quando, e com vontade de beliscar o parceiro nem-sempre-perfeito, que se esquece de levantar a tampa da sanita mas, vá, gosta de nós mesmo nos dias de maior rabujice.

* sim, porque não há homem que se sinta na necessidade de suportar tudo e mais alguma coisa desde que a metrossexualização lhes assaltou os nécessaires e as conversas.

09 julho 2012

carreira

Ao que parece, dos dois aforismos:

Ninguém é insubstituível
e
Mãe há só uma

, o primeiro é mais falacioso, pelo menos a atestar pelo estado de farrapo emocional em que encontrei os meus filhos este fim-de-semana, depois de vários dias em que vendi o corpo e a alma à entidade patronal. Ainda assim, apesar de ter dado com eles de unhas ratando sapatos, cabelos desgrenhados, ranho seco escorrendo pela roupa de cores desirmanadas, e muita, muita necessidade de colo, também houve o lado bom de verificar que isto de ser uma mulher 100% carreira é largamente sobrestimado. Está bem que fiz coisas interessantes, conheci pessoas inteligentes, estive onde e quando as coisas estavam a acontecer. Mas admito que não me dá tanto prazer o reconhecimento de um ilustríssimo conferencista como o de um filho, quando vê que fico à espera para lhe acenar enquanto entra no autocarro para ir em passeio com os colegas. Já sabia que as minhas ambições eram comezinhas; não sabia era que alguns dias de baldanço maternal me davam logo cabo das competências, ao ponto de me esquecer de fraldas ou de deixar de compreender o dioguês. Se é para fazer malabarismo, é melhor ficar-me pelas habilidades que já conheço.

05 julho 2012

para a semana é que é

Diz-me a wikipédia que o Sr. Gulbenkian quis deixar coisas bonitas ao nosso bom povo, não sei se só por devoção cristã, se também porque antevia com uma espécie de moralidade visionária a herança pesada de ter ajudado a estabelecer algumas das futuras grandes petrolíferas. O que é certo é que tenho à porta de casa uma entrada secreta para o País das Maravilhas. Passamos o portão e mergulhamos no silêncio das árvores, dos arbustos, das famílias de patos, dos auditórios onde ecoam os concertos da noite anterior, e das obras de arte que nos miram, se passarmos distraídos. Gosto muito deste meu jardim das traseiras. Gosto de ler na relva. Gosto de pastar as crianças. Gosto de ir bem cedinho e correr, tentando evitar a rega automática implacável, e prestando atenção para não pisar nenhum cágado nem torcer um pé nos degraus de cimento. Serena-me pensar que aquela possibilidade de tantas coisas boas está mesmo ali ao lado. E mesmo que ainda não tenha ido a um único concerto ao ar livre desde que lá vivemos, ainda que esteja sempre a adiar planos de piqueniques espontâneos ao fim da tarde, é bom saber que é só sair porta fora.

04 julho 2012

porque é tudo muito bonito, mas convenhamos

Já suspeitava o que hoje confirmei: o mundo ocidental separa-se entre os que salivam com o kitsch e os que acham que aquilo é tudo uma grande piroseira. Antes do conceito se vulgarizar, eu via envergonhada o Made in Portugal, aos sábados à tarde, e arrepiava-me gulosamente com os requebros da Ruth Marlene. Em plenos anos 2010 - ainda não há designação para isto, pois não? - posso sair do armário e dizer: sim, eu gosto de ver uma mesa posta com toalha de papel sobre um chão de linóleo. Gosto de sacos de ráfia e pacotes de Omo. Fazem-me sorrir as cortinas de tiras-de-plástico-afasta-moscas, enternecem-me as Nossas-Senhoras-de-Fátima fluorescentes e homens pequeninos de bigode (do tempo em que ainda não tinha voltado a ser moda) a beber minis. Ver o Aquele Querido Mês de Agosto inunda-me o coração, como me enchem de orgulho os empreendedores que arrendam antigas salas de fiação na LX Factory, onde os fantasmas de tecedeiras sindicalistas de filhos ao colo dançam com designers de óculos de massa e Birkenstock no pé. Passado e futuro numa promiscuidade assumida, pobrezas envergonhadas e precariedades abrilhantadas convivem alegremente. Adoro isto no meu tempo e no meu espaço. Principalmente porque o vejo como espectadora, que isto uma pessoa chega a casa e gosta de ter toalhas turcas lavadas e da ligeira sensação de superioridade moral de ter vindo a ouvir Antena 2 pelo caminho.

03 julho 2012

fases

Houve o tempo em que todos os amigos se casavam, em que nos queixávamos da quantidade de vestidos, e penteados, e fins-de-semana de Verão dedicados a bodas com muito marisco e mesas de bolos até de madrugada. Depois (muito depois de nós), veio a época do filhos. Barrigas, ecografias, fraldas bordadas, nomes, coisinhas pequeninas iguais aos nossos amigos (ou amigas), sobrinhos herdados, primos emprestados. E agora chega a temporada das separações e dos divórcios. É triste. E faz-nos pensar que, de alguma forma, já devemos ter passado o pico da montanha.

02 julho 2012

sinto-me na obrigação de alertar para isto





(e ainda: colega de outro centro de investigação que trabalha num gabinete perto do meu)

Minhas senhoras, existe uma coisa muito útil que, certamente, usavam na escola primária:

Post muito patetinha, no seguimento de outros posts muito patetinhas, que ainda hei de descobrir formas menos infantilóides de lidar com a preocupação. Mas ainda não descobri.

27 junho 2012

ser humano

Um dia, olharam-me nos olhos e disseram: não tenha medo. E eu saí do confessionário e chorei durante algum tempo. Depois não tive mais medo. Porque é bem verdade que, muitas vezes, o que mais nos pesa não é o que pode ser, o que pode acontecer, mas a sombra que tudo isso lança sobre as nossas possibilidades. É muito difícil não ter medo (mas acredito que a música certa ajuda). Perder o medo não é negar nem tornar-nos inconscientes. Eu só sei perder o medo sossegando-o no seio de alguma coisa maior, cujo sentido não consigo definir completamente, O medo é escuro e perde-se no meio da luz encandeante do amor sem limites; O medo é frio e alimenta-se da solidão, dissolve-se no meio do calor de um abraço. Nem que seja só um bocadinho. Que o meu abraço chegue a quem precisa de um, por estes dias.

já dizia a simone de beauvoir

A emancipação da mulher nunca será uma realidade enquanto não conseguirmos fazer chichi de pé sem sujar as pernas, as cuecas, a sanita e o chão, obrigando-nos ao ritual levemente aviltante de tentar salvar a coisa com o papel higiénico de folha simples das casas de banho públicas.

26 junho 2012

a simplificação heurística do ego-ave

O valor de um blogger para a gralha define-se em termos binários: se gosta de si a valer, tem paciência para mudar de utilizador no gmail para comentar no seu blogue; se não gosta de si a valer, não tem paciência para mudar de utilizador no gmail para comentar no seu blogue.

25 junho 2012

fiz as pazes com o aeroporto

Esteve-se muito bem em Londres. Mais do que transpor quilómetros, dobrámos a barreira do tempo, provando que este se estica até quase ao infinito quando não andamos com filhos atrelados. A sério, filhos, sem ofensa, mas vocês têm o dom de fazer tudo demorar o dobro e, ao mesmo tempo, parecer durar metade. Foi muito bom namorar, passear por todo o lado, andar sem relógios, comer o que apetecia, apanhar chuva só para rir do creacionista e da nacionalista que baliam no speakers' corner, perder todo o tempo do mundo a olhar para livros em segunda mão e a saltitar de bancada em bancada em Portobello Road. E digam lá se esta medalha não estava mesmo à minha espera :)


22 junho 2012

não dando ponto sem nó, em duas frases apenas

Alguém conhece sítios giros para comer na zona de Covent Garden? Prometo fotos com a devida referência a quem der as melhores dicas.

Sugerindo um ar simultaneamente blasé, cosmopolita e que convoca a participação do visitante, aumento as visitas ao site e, logo, a possibilidade de conseguir pulseiras à pala.

21 junho 2012

flausina SS2012

Eis que chega o Verão e, contrariando o estado de tempo, adopto cegamente o figurino da época. Todos os anos gosto de estrear uma nova pulseira. Como já levo alguns Verões em cima, a tentação de andar empluseirada até ao cotovelo é grande. A juntar a estas, está-me a apetecer uma amarela fluorescente. Se alguém quiser oferecer-me uma, das dezenas que são constantemente doadas às bloggers profissionais, fique sabendo que o gralhadixit já teve quase 100 vizualizações hoje (pronto, foram só 74) - mesmo antes deste original e intelectualmente estimulante post. Ah, também ando a precisar de repor o stock de verniz das unhas (um qualquer, todos me lascam ao fim de um dia de uso). Estraguem-me com mimos à vontade, que eu agradeço.


20 junho 2012

para mim, aos nove anos

Querida eu, pequenina e franzina, que brincas no recreio e mentes, dizendo a essas duas colegas que também nunca repetes a mesma roupa dois dias seguidos,

Em primeiro lugar, não percas tempo com elas. Serão sempre parvas e, daqui a uns anos, criarão blogues patetas com fotos sem cabeça (e demorarás algum tempo até deixares de os visitar uma vez por outra).
Em segundo lugar, sim, vais usar lentes de contacto. E as tuas maminhas vão crescer, mas pouco. Em compensação, terás sempre uma barriga elegante e pernas fortes para correr.
Em terceiro lugar - e vamos agora ao que interessa -, sim, vais casar-te e ter filhos, não te preocupes. E, sim, ele vai chamar-se L., mas não vai ser o teu namorado de agora, burrinho e de buço, cobiçado por todas porque é mais velho (daí os atributos atrás mencionados). E terás dois rapazes, como desejas. Um será o menino mais doce do mundo. Tem cuidado para não o ferires com a tua brusquidão - aprende a desenvolver a empatia. O outro será o ser mais imprevisível e indomável que conhecerás. Aprende a aceitar perder o controlo e a amar o desconhecido.

A tua sempre,
Eu adulta

p.s. Podes ir já começando com a Jane Austen e as irmãs Brontë.

19 junho 2012

dando uma de melissa

Olha que coisa tão óbvia e só agora é que a percebi: leio, viajo, danço, corro, bebo, mergulho, em suma, faço o que me dá mais prazer pelo mesmo único objectivo - perder-me. Também deve ser por isso que passo tanto tempo a pensar no passado ou a tentar adivinhar o que ainda não aconteceu. Tenho absoluta incapacidade de presente. Tudo me sabe melhor em retrospectiva ou antecipação. Todas as coisas ganham cor e novas dimensões vistas de fora, de pernas para o ar, nos antípodas da realidade previsível. A sério que alguém consegue mesmo contrariar isto? E para quê, na verdade?

18 junho 2012

de volta das férias

A praia, a piscina, o sol, os barcos, as alcagóitas, os mimos, até a água do mar gélida: tudo estava uma maravilha. E agora só não custa tanto voltar ao trabalho porque o espírito de férias se mantém nos filhos - tão crescidos que estão! - que reajustam rotinas à época do ano e correm, bem dispostos e tostadinhos, por todo o lado. Um largou a chucha de vez. E o outro vai para a praia com a escola. Uma pessoa pisca os olhos e a vida acontece assim de uma vez só. Principalmente no Verão.

12 junho 2012

o contrário do vinho do porto

Não sei se há mesmo pessoas que vão melhorando com a idade ou se é tudo uma treta para nos consolar, mas eu vou piorando a olhos vistos. No caso da minha faceta de mãe, então, a coisa é inegável. A sério que há quem tenha mais paciência com o passar dos anos? É mesmo possível ser uma mãe mais sensata e equilibrada com o segundo, o terceiro, e por aí fora? Então por que é que eu me vou tornando mais cansada, permissiva e trapalhona? Nos meus vintes, com um bebé fresquinho, havia tempo para a maternidade saída de um anúncio de fraldas. Só faltava o meu sorriso cheirar a pó de talco. Agora, não. Agora é tudo descabelado, improvisado, com nódoas, faz-se o que se pode. Exemplo: De manhã entrego-lhes automaticamente as escovas de dentes trocadas - porque eles fazem uma mini-fita se não têm a oportunidade de dar a escova ao irmão - e já nem reparo na ligeira insanidade deste gesto. Mas não me fico pelos aparvoamentos ritualizados, também sofro terrivelmente por não poder estragá-los e mimá-los à vontade, quando antes isso me parecia uma fraqueza de mãe nova-rica. E o medo de que lhes aconteça alguma coisa? Quem é que me enganou ao assegurar-me que a coisa ia amaciando com a experiência? Vantagens da idade, uma ova.

11 junho 2012

girls

Não é a melhor série televisiva de todos os tempos. Não arrebatou o primeiro lugar do meu coração ao Mad Men (nem o segundo ao Lost). Mas é um produto de entretenimento muito bom, actual, honesto, inteligente, que nos faz pensar. Acima de tudo, foi preciso uma autora/realizadora/actriz como a
Lena Dunham para que a ficção americana desse pela primeira vez protagonismo a uma mulher com maminhas pequeninas e pernas rechonchudas. Obrigada, Lena.


08 junho 2012

como é que nunca tinha reparado?

Ontem I had the time of my life quando conheci as fabulosas babies Ana C., Melissa e Silvina num jantar na baía de Cascais, com um pôr-do-sol, uma naturalidade e presenças tão boas, daquelas que nos fazem achar que a vida vale mais a pena por conhecermos momentos assim.


E não é que fui ver e até sou um bocadinho parecida com ela? E como eu gostava que o Patrick Swayze me tivesse levantado assim no ar...

06 junho 2012

espartana

Ele é a crise, os princípios cristãos, a educação que nos deu a mãezinha, a tão portuguesa inclinação para a humildade, os programas sobre acumulação compulsiva, as campanhas sobre a obesidade - tanta coisa a puxar-nos para o 'menos é mais', um contraste refrescante com o que vivi na bela e consumista Nova Jérsia. Sabem que mais? Dou por mim e a única coisa material que ainda me move são os livros e as viagens. Temo estar a tornar-me uma chata do pior. Acaba por haver um snobismo mal-disfarçado debaixo de tanto despojamento.

01 junho 2012

para além dos jacarandás em flor

Ah, a Primavera... Aquela altura do ano em que regressa em força o flagelo da publicidade entalada nos limpa-pára-brisas.

31 maio 2012

as palavras que não te direi


A minha Mãe e eu temos uma postura em relação ao meu blogue semelhante à que as minhas primas e a Mãe delas tinham (têm?) com o tabaco: não sei de nada, não vi nada, não comento. Por isso vou aproveitar este espaço para lhe dizer coisas de que não podemos falar, porque é assim que funcionamos há 33 anos e, olha, a coisa lá vai funcionando.

Mamã, ainda bem que nasceste neste dia. De certeza que a tua Mãe ficou muito feliz por te receber. Sei que os teus irmãos ficaram muito felizes por te receber. E sei que a infância que recordas foi feita de luto, de silêncios, de ausências, provavelmente de crianças demasiado pequeninas tentando não incomodar. Não sei, infelizmente, quais os cenários em que cresceste, aquilo a que brincavas, quem eram os teus amigos, como eram os teus dias na escola, como eram as tuas tardes de Verão. Tenho muita pena de não saber nada desse pedacinho daquela que é, também, a minha História, mas já fiz as pazes com esse desconhecimento. Sei a Mãe que sempre foste, a irmã, a mulher, a Avó, a pessoa única e imprescindível (pelo menos para mim) que és ainda hoje. Consigo imaginar a forma e a textura das tuas mãos de memória e penso em tudo o que fizeram por mim. Faz-me pensar naquilo que as minhas mãos significarão um dia para os meus filhos. Tenho muita, muita sorte em ter-te e, especialmente, em poder estar contigo hoje. Sei que somos diferentes como a água e o azeite mas sei agora que não há ninguém no mundo que aceite e ame as minhas fraquezas como tu. Sabe que também te tenho no coração dessa forma – adoptei-te um bocadinho como minha filha, espero que não te importes. Muitos parabéns, B.

29 maio 2012

a bola

Como estou em casa dos meus pais esta semana, faço coisas que já não fazia há muito tempo, como ver o noticiário à hora do jantar. Para além de constatar que aquilo continua a ser perfeitamente dispensável (como é que as pessoas ainda vêem notícias empacotadas na televisão, ao longo de mais de uma hora??), percebi que vem aí o campeonato europeu de futebol e todo o arraial que isso implica. Nunca gostei muito de futebol. O meu clube ganha sempre. Os tremoços também vão muito bem com um filme ao Domingo à noite. E quando chegamos ao ponto de dar tempo de antena a balneários, a treinadores de bancada, aos mexericos sobre a família deste ou daquele jogador (acho que já só reconheço uns três), percebo que o meu problema nos EUA com o basebol e com o futebol americano alastrou aqui a tudo o que envolva bolas. A minha única dúvida agora é: quando todos os meus colegas se estiverem a baldar ao trabalho para ver os jogos, será que posso aproveitar esse tempo para fazer outra coisa qualquer? Arranjo um cachecol verde e vermelho e lá uma daquelas cornetas, não seja por isso.

24 maio 2012

o que acontece quando, em vez da barbosa du bocage, metemos pela elias garcia?

Demoramos mais 40 minutos para estacionar. O que dá tempo para tentar explicar a infertilidade, a adopção, os conflitos e a pobreza em África, ao perguntador mais velho, enquanto o mais novo aponta para a 'mota zul!', 'mota peta!', 'mota zenta!, 'dois motas!'. É muita responsabilidade, isto de dar as primeiras noções sobre matérias complicadas. Então fazer isso, à medida que finalmente estacionamos num lugar minúsculo, é uma proeza admirável.

também tenho de falar do kevin

Porque me tocou muito fundo. Porque achei belíssima a realização da Lynne Ramsay e os desempenhos da Tilda Swinton, do John C. Reilly e do Ezra Miller (que vai passar a visitar-me nos pesadelos, ai pois vai). E porque tocou em muitos nervos estratégicos da minha vivência da maternidade. Porque eu fui muitas vezes para o armário tapar os ouvidos quando o bebé chorava horas a fio. Porque me senti desamada quando me rejeitaram a mama e o colo. Porque sei o que é pensar (ainda que erradamente) que só nós vemos o que se está a passar debaixo do nosso nariz enquanto os demais insistem nas evidências da normalidade. E nem vou voltar à questão da culpa, essa sombra siamesa de todas as mães. Todos os psicopatas deste mundo foram bebés um dia.

23 maio 2012

afectos desarrumados


Durante a adolescência alinhavada a paixões platónicas e relações impossíveis, foram várias as vezes em que o som do chuveiro me cobriu o lamento repetido: “Está bem, isto não resulta. E o que é que eu faço deste amor todo que sinto?” O tempo passou, o dramatismo anda mais disfarçado, mas vejo agora que isto não acontece só com o amor, esta espécie de tiro ao alvo falhado, uma pontaria emocional coxa, a roçar o patético. Dou por mim a não encontrar equilíbrio nem bom senso nisto das relações em geral. Mas também, se calhar, não é suposto estas coisas funcionarem segundo regras certas de contabilidade. Gostamos, e pronto. Se não sabemos como direccionar nem demonstrar devidamente esse afecto, se ele se perde no ar, se fica muitas vezes suspenso, se bate numa parede, não vem daí mal ao mundo. De certeza que há vários aforismos orientais que explicam como tudo retorna à origem, não me está é a ocorrer agora nenhum.

21 maio 2012

fim-de-semana no algarve, sem filhos

Ontem chuviscou. O resto foi tudo muito bom, obrigada.

16 maio 2012

que isto eu não faço afirmações sem fundamento (bom, quase nunca)





questão insignificante mas que me tem feito meditar

Por que é que a imagem que temos dos homens franceses é de criaturas de meia idade, franzindo o sobrolho? Suponho que a meia idade é para condizer com a gastronomia nacional; já a parte da ruga entre as sobrancelhas inquieta-me bastante.

14 maio 2012

chá e torradinhas: não, obrigada

Existem três tipos de pessoas: as que gostam de frio, as que gostam de calor e as que tanto faz. A nós, não tanto faz. E também passamos bem sem as temporadas sombrias debaixo de mantas, por muito bons que sejam os bolos da mãe ou os abraços febris dos filhos constantemente adoentados. Nós, lá por casa, gostamos de muito calor. Gostamos de sair, de brincar na relva, de perseguir lagartixas, de ir para a praia, de fazer piqueniques, de comer saladas frescas e de beber cerveja com tremoços (os miúdos limitam-se a assobiar nas garrafas vazias, mas o princípio é o mesmo). Nós somos Verão e precisamos de Verão. Pelo que este fim-de-semana foi maravilhoso.

11 maio 2012

baixa pressão

Cada um viaja para seu lado quando o tempo muda. Eu vou para o outro lado do mar, para a época dos furacões e as sextas-feiras com deep-fried donuts, duas camadas de cobertura de açúcar e geleia, e uma bebida na varanda antes do jantar, para cumprir os nossos cinco minutos de fim-de-semana. Os grilos já devem estar a fazer uma barulheira, por lá. Depois regresso a este lado, à minha madrugada junto ao rio, o sol presumindo-se que a nascer e eu a tentar evitar que o cacilheiro me ultrapassasse, junto à Estação de Belém. É óbvio que há coisas maravilhosas e únicas dos dois lados, basta estar atenta. Acontece que aqui tenho mesmo mais condições para parar e atentar nessas pequenas coisas.

10 maio 2012

torcer-lhes o pipo e depois espremê-los contra o peito

Não sei se é só comigo que isto da maternidade tem muito de bipolar (se calhar já tenho inclinação natural). As minhas crias não me dão azo a um amor sereninho, mar de tranquilidade. Não, a coisa é sempre intempestiva e imprevisível. Num minuto há uma rabujice sem fim nem motivo, seguida do maior gesto de ternura e de grandes provas de maturidade. No segundo depois de ligar a máquina de roupa (ou geralmente por volta das 18h37, quando estou de roda dos tachos) há uma mega-cocozada nas cuecas, que se espalha pela roupa, pernas, a casa toda (enfim...), para depois haver festinhas muito meiguinhas e um 'pulpa Mamã...' que derretem as últimas neves do Kilimanjaro. É uma misturada de ralhetes e abraços, isto. É uma coisa muito pouco aconselhável a cardíacos.

09 maio 2012

gritar, espernear, dizer asneiras, ficar em silêncio

Devia vir na declaração dos Direitos Humanos que toda a gente tem direito a um quotidiano normal, que todos podemos acreditar que as coisas boas podem sempre acontecer. Toda a gente, especialmente as pessoas verdadeiras, inteligentes, corajosas e que já levaram pontapés da vida que cheguem, como a Silvina.

esta semana, de corrida

Vi dois filmes muito bons (pode ser que poste sobre isso noutra altura);
Tenho o mais crescido em casa há 3 dias (já não há 'assistência à família' que aguente o último mês);
Estou praticamente zarolha, de conjuntivite;
Estou a comer uma francezinha supremamente deliciosa, que me está a sujar os dedos, mas não faz mal porque estou a escrever no teclado do trabalho.

03 maio 2012

o meu coração tem quatro cores

Azul, vermelho e branco. Rio baixinho da habitual procrastinação e desorganização portuguesas, que deixam tudo para o último minuto.
Verde e vermelho. Sorrio e aplaudo a nossa criatividade e capacidade de encontrar alternativas improváveis e contactos informais para resolver os problemas.

As candidaturas de projectos à FCT fecham hoje e o website está em baixo desde ontem à noite. Ontem houve tornado em Sesimbra, hoje há aviso de furacão por aqui.