21 setembro 2012

manifestação por encomenda



Para grande pena minha, hoje não vou poder estar lá mas agradeço que façam chegar a minha mensagem ao Aníbal:


“Sr. Presidente, quero acreditar que o senhor não é burro (como é o PM). Quero acreditar que, apesar da sua perturbação no espectro do autismo, o senhor consegue ver as imagens e ouvir as vozes das pessoas que estão aí à sua porta. Essas pessoas não se estão a manifestar porque são preguiçosas nem porque gostavam de poder almoçar na praia a 50 euros a cabeça, como vejo regularmente o senhor fazer – e permita-me desde já congratulá-lo por essa ginástica orçamental, dada a sua parca reforma. Não, senhor Presidente, essas pessoas estão é em sérias dificuldades para sobreviver a cada dia, ou conhecem várias pessoas que assim estão. E desagrada-lhes que, ao mesmo tempo, haja uma minoria que não faz nada de produtivo, que não tem qualificações, e que recebe ordenados que lhes permitem todos os almoços na praia que quiserem. E essas pessoas também estão maçadas porque tudo indica que este esforço todo será em vão. Por isso, peço-lhe que considere seriamente tomar as medidas que só a si lhe competem – ou usa da sua doçura para persuadir o senhor PM que tem de mudar drasticamente a orientação que leva, ou diz-lhe simplesmente que está na hora de, também ele, ir estudar para Paris. Melhores cumprimentos, gralha.”


20 setembro 2012

turbilhão

Esta semana estive na meditar na noção de 'palavras de vida eterna'. E é tão irónico, porque parece que já nada é eterno. A vida dá muitas voltas. Há coisas imprevisíveis a acontecer a cada dia. Esta semana tem sido difícil, com notícias que nos entristecem e fazem perder o pé. Não consigo adoptar a postura dos males que vêm por bem, da escrita direita por linhas tortas, do acreditar que todos os túneis tenham uma luz ao fundo. Mas é nestas alturas que confirmo a importância das únicas verdadeiras seguranças que podemos ter: que somos imensamente amados por Alguém que nunca deixará de estar ao nosso lado; e que não há nada como vivermos cada dia de acordo com as nossas convicções, cultivando o amor próprio e o respeito pelo outro. Às vezes é só a isso que podemos agarrar-nos enquanto esperamos por melhores dias.

16 setembro 2012

o trigo do joio

É em momentos fracturantes que ficamos a conhecer melhor as pessoas, habitualmente protegidas pelo véu da norma nos dias mais corriqueiros. Como diria a Pólo Norte, o mundo divide-se entre aqueles que não se inibem de dizer o que pensam e os outros. Os que afirmam o seu sportinguismo no meio de benfiquistas; os que trauteiam musiquetas fáceis no meio de amigos convictamente eruditos; os que admitem que não sabem tudo mas agem de acordo com aquilo em que acreditam. E depois há os que ficam calados, à espera de ver o que acontece na dianteira, com medo de perder privilégios, reconhecimento e consensualidade. Está bem que até S. Pedro negou o Senhor três vezes antes do galo cantar - ninguém está livre deste tipo de fraqueza. Mas gosto de ver-me rodeada de uma mão cheia de gente com a tomatásia no sítio, que não vacila nas suas convicções em alturas decisivas. E, meus meninos, não duvidem: esta é uma altura decisiva.

14 setembro 2012

insurreição

Filho: "Mas o dinheiro dos velhinhos não tiram, pois não?"
Mãe: "Tiram."
Filho: "Mesmo o da Bisa?"
Mãe: "Sim."
Filho: "E o meu...?"
Mãe: "Não te preocupes, eu não deixo ninguém mexer no teu mealheiro."

Esqueçam lá isso das aflições parentais para explicar o sexo, as drogas, a morte, a possibilidade de vida alienígena. Difícil, difícil é explicar o conceito de dívida externa e a razão por que se chega a um ponto em que alto e para o baile! ao cumprimento cego de regras. Mas é isso mesmo que quero transmitir, mais do que a moralidade e o civismo: que fomos dotados de cabeça para pensar, coração para sentir e braços e pernas para agir.

13 setembro 2012

um ano depois do regresso

"No fundo, queria viajar, cada vez mais longe, queria perder-se nos espaços que a fantasia lhe abrisse. Mas assim que se via fora de Lisboa, era atacado pelas saudades, umas saudades insuportáveis, não se podia assistir àquilo. As pessoas diziam-lhe: está bem, pronto, Lisboa é bonita, mas... Elas não compreendiam que, no fundo, não se tratava de Lisboa, mas dele próprio (...) Era algo muito mais profundo, algo para ele nuclear: o desejo de se refugiar dentro dos diques estáveis e conhecidos que o protegiam da perigosa ressaca e das traiçoeiras correntes submarinas da sua alma."

Pascal Mercier, O Comboio Nocturno para Lisboa

E não, apesar de tudo, não me arrependo de ter voltado nem por um só segundo.

10 setembro 2012

se é para explorar o pessoal, que se faça a coisa com pés e cabeça



Os problemas multiplicam-se como cogumelos: Não há dinheiro para o Estado Social. Não há como pagar a gasolina, o passe social, o supermercado, a renda da casa. Os professores estão no desemprego e os pais não chegam a horas decentes para dar o jantar aos filhos. A nossa produtividade continua baixa, muito baixa. E não há uma única proposta séria para resolver tudo isto, para limpar o quadro e voltar a escrever a nossa História. Pois bem, eu ouso dizer que sim, há uma solução. E a solução são as camaratas no local de trabalho.
A coisa funciona assim: os trabalhadores passam a viver no emprego durante a semana e só vão a casa ao fim-de-semana. Os eventuais filhos ficam na mesma situação, mas na escola (venha agora a FENPROF dizer que isto não gera emprego…). Poupa-se nas deslocações diárias, passa tudo a comer na cantina, e não há cá perdas de tempo a conviver com a família, a confraternizar com os amigos, e coiso. Vai tudo para o beliche às 21h e tudo acorda fresco para pegar ao serviço às 6 da matina. Até parece que já vejo as portas de S. Bento abrindo-se de par em par para me receberem depois da eleição. Vou preparar um quartinho mimoso para os pequenos, para quando eles me forem visitar aos Sábados. Sim, porque as minhas medidas serão verdadeiramente justas e equilibradas.

tomada de posição

Há as pessoas que acordam pela manhã e são revolucionárias por natureza; há outras que, confrontadas com a degradação da sua forma de vida (e das vidas alheias), enfiam a cabeça com mais força em mecanismos de escape que podem ir dos estupefacientes ao coleccionismo intensivo; espero que haja ainda outras que, apesar das dores e da estupefacção resultantes de pauladas num lombo já muito massacrado, tenham a capacidade de usar a sua inteligência e a força dos seus braços no momento certo para dizer "basta". Basta!

07 setembro 2012

mais uma vez na vanguarda temática

(do Outono, castanhas, mantinhas, e ronhónhó...)

Assim de repente, só consigo lembrar-me de duas vantagens de o Verão estar a despedir-se de fininho: 1. não haver problema quando me esqueço da manteiga fora do frigorífico; e 2. diminuir o cheiro a chulé da população em geral. Não me parece que isso compense minimamente tudo o resto que se vai com o calor e os dias grandes.

06 setembro 2012

re-conhecimento

Gostava de saber a partir de que idade é que os filhos se vão tornando um bocado mais previsíveis, do género: "ah, já sabia que era isso que ias fazer", ou "essa tua forma de me olhar de lado enquanto gozas com a minha estupidez é-me tão familiar". É que acho que a minha Mãe já sabe aquilo ao que vai, quando passa uma tarde comigo. Os meus rapazes ainda mudam todos os dias. É giro. E complicadote, por vezes.

03 setembro 2012

voltar, até já voltei

Mas continua a não me apetecer escrever aqui. Não sei bem porquê. Tenho a auto-confiança um pouco abalada pela colisão lateral na rotunda logo a seguir à estrada do Toy 70. O roçar daquela carrinha comercial no meu veículo burguês foi de uma intimidade abusiva, um superar de classes e géneros de condução que me desarrumou as seguranças de condutora, de mulher, de mãe - pelos vistos, até nestas coisas das redes sociais. Ou então foi muita praia, com a água muito fria. Também pode ter sido do excesso de robalo, de salmonete e de dourada. Escamou-se-me o coração para os textos de algibeira. De muito (e bem) ler, não foi, que nada me tem consolado depois do Freedom. Enfim, pode ser que o regresso à rotina e o atenuar do bronzeado me tragam de volta à blogosfera.

10 agosto 2012

tempo de exclusividade


Toda a verdade: o melhor de ser mãe-que-trabalha não é a passagem diária pelo mundo dos adultos; também não é o luxo de pegar numa bolinha rabugenta que acordou com a telha e depositá-la confiantemente no colo de uma (santa) educadora; e nem sequer é sentirmos que nos reconhecem valor intelectual para além da capacidade incrível de preparar refogados e banhos ao mesmo tempo que contamos estórias. Não, o melhor é mesmo este momento antes de ir de férias, em que antevemos todo o tempo para mimar, brincar, passear, cozinhar, dançar, acampar no beliche, encher o cabelo de sal e areia, e não desejar estar em mais lugar nenhum do mundo.

09 agosto 2012

comedimento

Houve um cavalheiro chamado Luís (provavelmente) com uns pés menos bonitos - mas não foste tu, pois não, marido? - que ficou sentido porque comentei noutro blogue que os homens devem evitar o uso indescriminado do chinelo. Ora, uma pessoa leva a sua existência pretenso-pós-moderna a tentar livrar-se de cada um dos seus preconceitos e é assim confrontada com esta fraqueza: será verdade que sou intolerante? É. A liberdade é um dos conceitos mais bonitos que há mas o meu sentido estético é um monstrengo conservador e implacável. Não gosto de ver mamas vazias e pingonas de topless. Não gosto de ver coxas celulíticas de calçãozinho curto. Não gosto de ver portuguesas de tez azeitona-de-elvas vestidas de tons pastel e com nuances platinadas. Não gosto de ver homens barrigudos de tanga. Não gosto de ver homens com as pernas depiladas. Não gosto de ver isto e muitas outras coisas, mas vejo-as todos os dias porque as pessoas são livres de trajar o que lhes der na telha. E eu guardo as minhas opiniões no bolso e evito comprar, usar, experimentar o que muitas outras pessoas usam porque o meu espelho deve ter um problema qualquer de hiperrealismo para me compensar a hipermetropia congénita.

08 agosto 2012

como se não estivesse calor que chegue hoje


Gosto muito dos Jogos Olímpicos. O meu pai acordou-me na madrugada de 12 de Agosto de 1984 para eu não perder o Carlos Lopes a conquistar-nos o primeiro ouro. Desde então, fiquei com o bichinho. Bem sei que está tudo comercializado, vendido a interesses corporativos, pintando ideais de justiça e igualdade de oportunidades que não revelam diferentes níveis de investimento, dopagens administradas até aos limites regulamentares, e rivalidades cegas que alimentam muita fornalha de horas e horas de treinos até aos limites da dor e da resistência. Mas eu sou só humana, talvez até um bocadinho neardental: gosto de ver a nossa espécie a dar o máximo das suas capacidades físicas e anímicas. E gosto de ver isto, ah pois gosto. Desportos aquáticos, a que é que pensavam que me referia?





06 agosto 2012

desconcentração

Estou a ler um livro tão bom, tão bem escrito, e que se arrisca a mudar tanto a minha vida, que mal consigo lembrar-me de tirar a comida do lume antes de queimar, de lavar a cara aos miúdos, ou de como encontrar o caminho para o trabalho. Felizmente há a Bimby, eles estão homens feitos, e há três semáforos eternamente verdes entre casa e o emprego, numa Lisboa vazia. Não tenho é tema para blogar. Ah, é o Freedom, do Jonathan Franzen.

31 julho 2012

(também) é para isto que servem as férias

Depois do pequeno aperto de coração ao receber um relatório da escola que elogia, elogia, mas anota que ele "é uma criança insegura", não há nada melhor do que acordá-lo (após uma semana de mergulhos, body-board, novos amigos) e ouvi-lo dizer que sonhou que estava a receber uma medalha de ouro olímpica. Tenho a certeza que pode tornar-se realidade, meu amor.

19 julho 2012

post interesseiro

Visto que tenho de fazer a lista de coisas para emalar hoje à noite, para as férias, e inspirando-me nas dicas devidamente surripiadas à  Muxy-muxy, aqui fica a minha lista por pax (que assim já serve para as próximas viagens, sem gastar papel). Ah, desafio-vos a fazerem uma menor que a minha :)

toalha de praia
7 t-shirts
2 sweat-shirts
3 calções
2 calções de banho
chinelos
ténis
cuecas e peúgas
pijama
fraldas e toalhitas
biberon/caneca
nécessaire com: soro, termómetro, ben-u-ron, brufen, protector solar, repelente de insectos, escova e pasta de dentes, pente.
brinquedos de praia e livros
respectivo peluche para dormir
garrafa de água
babete

(ah, como é bom eles já estarem crescidos!)

17 julho 2012

aprovisionamento

A boa formiga passa o Verão a juntar sementes, de um lado para o outro, atarefada e aplicada na antevisão de um Inverno de penúria. A boa gralha aproveita esta época para guardar bons momentos junto daqueles de quem gosta, a fazer coisas que lhe dão prazer, e a sonhar (acordada e não só). Volta qualquer dia, quando tiver a sacola bem cheia e as penas devidamente tostadas e cobertas de sal. Até breve :)

12 julho 2012

coisas que nunca quis ser mas, em particular, hoje em dia

EMELica.
Professora de Ciências da Natureza num colégio masculino da Opus Dei.
Técnica de endoscopia.
Operadora de telemarketing.
Funcionária de uma unidade suinícola.
Miguel Relvas.

Humilde contributo para o anedotário rélvico em permanente actualização.

deixando de ser parte de nós


Não sei se já alguma vez alguém se dedicou a construir um indicador de galinhismo na maternidade (com tanto sociólogo e psicólogo social por aí, já deve haver alguma dissertação sobre o assunto), mas suspeito que devo andar dentro da média nacional desta medida. Digamos que me sinto equidistante entre o terror permanente que me roubem as crias e a vontade de lhes sacudir o pó quando desatam à bulha pela enésima vez, para ver quem escolhe a estória antes de ir dormir. Enfim, isto para dizer que não devo ser a única que já percebeu que eles nunca deixam completamente de ser parte de nós. E que, cada vez que deixam mais um bocadinho, o coração murcha-nos mais um pouco (e enche-se proporcionalmente de orgulho). Desde que nascem, perdemo-los quando cortam o cordão umbilical. E quando saem do nosso quarto. E quando deixam de mamar. E quando vão para a creche. E quando comem sozinhos, quando largam a chucha, a fralda, a mão, ao atravessar a rua… E depois são eles e só eles, únicos. Mal reparam que replicam o nosso olhar e o nosso sentido de humor. Saem do ninho, uma e outra vez. De cada uma destas vezes, alegro-me por não depositar toda a energia, emoções e expectativas nos meus filhos, por muito que estejam no topo das nossas prioridades.

10 julho 2012

yes we can (even if we shouldn't need to)

Estou cansada, can-sa-da, de ouvir mulheres* apregoando o seu estoicismo intocável, a sua dedicação à dieta desnecessária, o seu investimento hiperactivo em múltiplos projectos profissionais que disfarçam tão malzinho inseguranças laborais e incertezas vocacionais, e o seu empenho - e consequente sucesso - em relações de sonho. A sério, cansam-me mais do que as cascatas de pulseiras, sapatos e vernizes que adquirem tons néon nesta altura do ano e nos ferem a vista mas, pelo menos, não nos fazem questionar se seremos nós as únicas cansadas, com medo, a chamar nomes à sorte de vez em quando, e com vontade de beliscar o parceiro nem-sempre-perfeito, que se esquece de levantar a tampa da sanita mas, vá, gosta de nós mesmo nos dias de maior rabujice.

* sim, porque não há homem que se sinta na necessidade de suportar tudo e mais alguma coisa desde que a metrossexualização lhes assaltou os nécessaires e as conversas.

09 julho 2012

carreira

Ao que parece, dos dois aforismos:

Ninguém é insubstituível
e
Mãe há só uma

, o primeiro é mais falacioso, pelo menos a atestar pelo estado de farrapo emocional em que encontrei os meus filhos este fim-de-semana, depois de vários dias em que vendi o corpo e a alma à entidade patronal. Ainda assim, apesar de ter dado com eles de unhas ratando sapatos, cabelos desgrenhados, ranho seco escorrendo pela roupa de cores desirmanadas, e muita, muita necessidade de colo, também houve o lado bom de verificar que isto de ser uma mulher 100% carreira é largamente sobrestimado. Está bem que fiz coisas interessantes, conheci pessoas inteligentes, estive onde e quando as coisas estavam a acontecer. Mas admito que não me dá tanto prazer o reconhecimento de um ilustríssimo conferencista como o de um filho, quando vê que fico à espera para lhe acenar enquanto entra no autocarro para ir em passeio com os colegas. Já sabia que as minhas ambições eram comezinhas; não sabia era que alguns dias de baldanço maternal me davam logo cabo das competências, ao ponto de me esquecer de fraldas ou de deixar de compreender o dioguês. Se é para fazer malabarismo, é melhor ficar-me pelas habilidades que já conheço.

05 julho 2012

para a semana é que é

Diz-me a wikipédia que o Sr. Gulbenkian quis deixar coisas bonitas ao nosso bom povo, não sei se só por devoção cristã, se também porque antevia com uma espécie de moralidade visionária a herança pesada de ter ajudado a estabelecer algumas das futuras grandes petrolíferas. O que é certo é que tenho à porta de casa uma entrada secreta para o País das Maravilhas. Passamos o portão e mergulhamos no silêncio das árvores, dos arbustos, das famílias de patos, dos auditórios onde ecoam os concertos da noite anterior, e das obras de arte que nos miram, se passarmos distraídos. Gosto muito deste meu jardim das traseiras. Gosto de ler na relva. Gosto de pastar as crianças. Gosto de ir bem cedinho e correr, tentando evitar a rega automática implacável, e prestando atenção para não pisar nenhum cágado nem torcer um pé nos degraus de cimento. Serena-me pensar que aquela possibilidade de tantas coisas boas está mesmo ali ao lado. E mesmo que ainda não tenha ido a um único concerto ao ar livre desde que lá vivemos, ainda que esteja sempre a adiar planos de piqueniques espontâneos ao fim da tarde, é bom saber que é só sair porta fora.

04 julho 2012

porque é tudo muito bonito, mas convenhamos

Já suspeitava o que hoje confirmei: o mundo ocidental separa-se entre os que salivam com o kitsch e os que acham que aquilo é tudo uma grande piroseira. Antes do conceito se vulgarizar, eu via envergonhada o Made in Portugal, aos sábados à tarde, e arrepiava-me gulosamente com os requebros da Ruth Marlene. Em plenos anos 2010 - ainda não há designação para isto, pois não? - posso sair do armário e dizer: sim, eu gosto de ver uma mesa posta com toalha de papel sobre um chão de linóleo. Gosto de sacos de ráfia e pacotes de Omo. Fazem-me sorrir as cortinas de tiras-de-plástico-afasta-moscas, enternecem-me as Nossas-Senhoras-de-Fátima fluorescentes e homens pequeninos de bigode (do tempo em que ainda não tinha voltado a ser moda) a beber minis. Ver o Aquele Querido Mês de Agosto inunda-me o coração, como me enchem de orgulho os empreendedores que arrendam antigas salas de fiação na LX Factory, onde os fantasmas de tecedeiras sindicalistas de filhos ao colo dançam com designers de óculos de massa e Birkenstock no pé. Passado e futuro numa promiscuidade assumida, pobrezas envergonhadas e precariedades abrilhantadas convivem alegremente. Adoro isto no meu tempo e no meu espaço. Principalmente porque o vejo como espectadora, que isto uma pessoa chega a casa e gosta de ter toalhas turcas lavadas e da ligeira sensação de superioridade moral de ter vindo a ouvir Antena 2 pelo caminho.

03 julho 2012

fases

Houve o tempo em que todos os amigos se casavam, em que nos queixávamos da quantidade de vestidos, e penteados, e fins-de-semana de Verão dedicados a bodas com muito marisco e mesas de bolos até de madrugada. Depois (muito depois de nós), veio a época do filhos. Barrigas, ecografias, fraldas bordadas, nomes, coisinhas pequeninas iguais aos nossos amigos (ou amigas), sobrinhos herdados, primos emprestados. E agora chega a temporada das separações e dos divórcios. É triste. E faz-nos pensar que, de alguma forma, já devemos ter passado o pico da montanha.

02 julho 2012

sinto-me na obrigação de alertar para isto





(e ainda: colega de outro centro de investigação que trabalha num gabinete perto do meu)

Minhas senhoras, existe uma coisa muito útil que, certamente, usavam na escola primária:

Post muito patetinha, no seguimento de outros posts muito patetinhas, que ainda hei de descobrir formas menos infantilóides de lidar com a preocupação. Mas ainda não descobri.

27 junho 2012

ser humano

Um dia, olharam-me nos olhos e disseram: não tenha medo. E eu saí do confessionário e chorei durante algum tempo. Depois não tive mais medo. Porque é bem verdade que, muitas vezes, o que mais nos pesa não é o que pode ser, o que pode acontecer, mas a sombra que tudo isso lança sobre as nossas possibilidades. É muito difícil não ter medo (mas acredito que a música certa ajuda). Perder o medo não é negar nem tornar-nos inconscientes. Eu só sei perder o medo sossegando-o no seio de alguma coisa maior, cujo sentido não consigo definir completamente, O medo é escuro e perde-se no meio da luz encandeante do amor sem limites; O medo é frio e alimenta-se da solidão, dissolve-se no meio do calor de um abraço. Nem que seja só um bocadinho. Que o meu abraço chegue a quem precisa de um, por estes dias.

já dizia a simone de beauvoir

A emancipação da mulher nunca será uma realidade enquanto não conseguirmos fazer chichi de pé sem sujar as pernas, as cuecas, a sanita e o chão, obrigando-nos ao ritual levemente aviltante de tentar salvar a coisa com o papel higiénico de folha simples das casas de banho públicas.

26 junho 2012

a simplificação heurística do ego-ave

O valor de um blogger para a gralha define-se em termos binários: se gosta de si a valer, tem paciência para mudar de utilizador no gmail para comentar no seu blogue; se não gosta de si a valer, não tem paciência para mudar de utilizador no gmail para comentar no seu blogue.

25 junho 2012

fiz as pazes com o aeroporto

Esteve-se muito bem em Londres. Mais do que transpor quilómetros, dobrámos a barreira do tempo, provando que este se estica até quase ao infinito quando não andamos com filhos atrelados. A sério, filhos, sem ofensa, mas vocês têm o dom de fazer tudo demorar o dobro e, ao mesmo tempo, parecer durar metade. Foi muito bom namorar, passear por todo o lado, andar sem relógios, comer o que apetecia, apanhar chuva só para rir do creacionista e da nacionalista que baliam no speakers' corner, perder todo o tempo do mundo a olhar para livros em segunda mão e a saltitar de bancada em bancada em Portobello Road. E digam lá se esta medalha não estava mesmo à minha espera :)


22 junho 2012

não dando ponto sem nó, em duas frases apenas

Alguém conhece sítios giros para comer na zona de Covent Garden? Prometo fotos com a devida referência a quem der as melhores dicas.

Sugerindo um ar simultaneamente blasé, cosmopolita e que convoca a participação do visitante, aumento as visitas ao site e, logo, a possibilidade de conseguir pulseiras à pala.

21 junho 2012

flausina SS2012

Eis que chega o Verão e, contrariando o estado de tempo, adopto cegamente o figurino da época. Todos os anos gosto de estrear uma nova pulseira. Como já levo alguns Verões em cima, a tentação de andar empluseirada até ao cotovelo é grande. A juntar a estas, está-me a apetecer uma amarela fluorescente. Se alguém quiser oferecer-me uma, das dezenas que são constantemente doadas às bloggers profissionais, fique sabendo que o gralhadixit já teve quase 100 vizualizações hoje (pronto, foram só 74) - mesmo antes deste original e intelectualmente estimulante post. Ah, também ando a precisar de repor o stock de verniz das unhas (um qualquer, todos me lascam ao fim de um dia de uso). Estraguem-me com mimos à vontade, que eu agradeço.


20 junho 2012

para mim, aos nove anos

Querida eu, pequenina e franzina, que brincas no recreio e mentes, dizendo a essas duas colegas que também nunca repetes a mesma roupa dois dias seguidos,

Em primeiro lugar, não percas tempo com elas. Serão sempre parvas e, daqui a uns anos, criarão blogues patetas com fotos sem cabeça (e demorarás algum tempo até deixares de os visitar uma vez por outra).
Em segundo lugar, sim, vais usar lentes de contacto. E as tuas maminhas vão crescer, mas pouco. Em compensação, terás sempre uma barriga elegante e pernas fortes para correr.
Em terceiro lugar - e vamos agora ao que interessa -, sim, vais casar-te e ter filhos, não te preocupes. E, sim, ele vai chamar-se L., mas não vai ser o teu namorado de agora, burrinho e de buço, cobiçado por todas porque é mais velho (daí os atributos atrás mencionados). E terás dois rapazes, como desejas. Um será o menino mais doce do mundo. Tem cuidado para não o ferires com a tua brusquidão - aprende a desenvolver a empatia. O outro será o ser mais imprevisível e indomável que conhecerás. Aprende a aceitar perder o controlo e a amar o desconhecido.

A tua sempre,
Eu adulta

p.s. Podes ir já começando com a Jane Austen e as irmãs Brontë.

19 junho 2012

dando uma de melissa

Olha que coisa tão óbvia e só agora é que a percebi: leio, viajo, danço, corro, bebo, mergulho, em suma, faço o que me dá mais prazer pelo mesmo único objectivo - perder-me. Também deve ser por isso que passo tanto tempo a pensar no passado ou a tentar adivinhar o que ainda não aconteceu. Tenho absoluta incapacidade de presente. Tudo me sabe melhor em retrospectiva ou antecipação. Todas as coisas ganham cor e novas dimensões vistas de fora, de pernas para o ar, nos antípodas da realidade previsível. A sério que alguém consegue mesmo contrariar isto? E para quê, na verdade?