24 setembro 2012

o inimigo comum



Tenho levado os últimos dias a matutar nisto das relações e em como parece que a monogamia para a vida parece condenada à extinção. Que irónico que é: nunca os casais tiveram tanta liberdade para escolher estatuto legal, distribuição de papéis, descendência (ou ausência dela), o que fazer ao tempo e aos recursos livres. Nos nossos tempos, podemos escolher estar com qualquer ser humano – desde que não tenha laços sanguíneos de primeiro grau nem seja já casado com outra pessoa (e conto os anos até esta regra também ser repensada); e, no entanto, nunca como agora as relações não duram.
Fala-se no egoísmo mas acho que isso é uma desculpa. Sempre fomos egoístas, antes tínhamos era mais medo das consequências do nosso egoísmo. O que acho que nos falta agora, como casais, é um inimigo comum contra o qual lutar. Antes lutávamos contra os pais que se opunham a uma união socialmente desequilibrada. Contra uma sociedade que não aceitava casais do mesmo sexo. Contra um futuro desconhecido que não nos prometida uma velhice com os pés aquecidos por uma pensão de reforma. Era o mundo contra o valente casal, enfrentando ventos e tempestades para sustentar a sua família. Havia sempre terceiros a quem apontar o dedo. Agora somos forçados a olhar para nós próprios e a reconhecer as nossas fraquezas e limitações, que o nosso parceiro não se inibe de nos apontar, cobrando-nos as faltas sob a forma de uma tampa de sanita levantada ou de um rabo descaído. Somos casal apenas enquanto não somos um contra o outro.
A minha esperança está na crise. Podia ser brincadeira, mas não é. Se é verdade que muitos se separam porque não aguentam a pressão da dificuldade, quero acreditar que haverá aqueles que vêem aqui o novo inimigo comum. O Inverno pode ser frio e as jantaradas uma miragem distante; mas é bom adormecer abraçados a um corpo que conhecemos de memória, partilhando a última tablete de chocolate de avelãs que havia na despensa.

21 setembro 2012

manifestação por encomenda



Para grande pena minha, hoje não vou poder estar lá mas agradeço que façam chegar a minha mensagem ao Aníbal:


“Sr. Presidente, quero acreditar que o senhor não é burro (como é o PM). Quero acreditar que, apesar da sua perturbação no espectro do autismo, o senhor consegue ver as imagens e ouvir as vozes das pessoas que estão aí à sua porta. Essas pessoas não se estão a manifestar porque são preguiçosas nem porque gostavam de poder almoçar na praia a 50 euros a cabeça, como vejo regularmente o senhor fazer – e permita-me desde já congratulá-lo por essa ginástica orçamental, dada a sua parca reforma. Não, senhor Presidente, essas pessoas estão é em sérias dificuldades para sobreviver a cada dia, ou conhecem várias pessoas que assim estão. E desagrada-lhes que, ao mesmo tempo, haja uma minoria que não faz nada de produtivo, que não tem qualificações, e que recebe ordenados que lhes permitem todos os almoços na praia que quiserem. E essas pessoas também estão maçadas porque tudo indica que este esforço todo será em vão. Por isso, peço-lhe que considere seriamente tomar as medidas que só a si lhe competem – ou usa da sua doçura para persuadir o senhor PM que tem de mudar drasticamente a orientação que leva, ou diz-lhe simplesmente que está na hora de, também ele, ir estudar para Paris. Melhores cumprimentos, gralha.”


20 setembro 2012

turbilhão

Esta semana estive na meditar na noção de 'palavras de vida eterna'. E é tão irónico, porque parece que já nada é eterno. A vida dá muitas voltas. Há coisas imprevisíveis a acontecer a cada dia. Esta semana tem sido difícil, com notícias que nos entristecem e fazem perder o pé. Não consigo adoptar a postura dos males que vêm por bem, da escrita direita por linhas tortas, do acreditar que todos os túneis tenham uma luz ao fundo. Mas é nestas alturas que confirmo a importância das únicas verdadeiras seguranças que podemos ter: que somos imensamente amados por Alguém que nunca deixará de estar ao nosso lado; e que não há nada como vivermos cada dia de acordo com as nossas convicções, cultivando o amor próprio e o respeito pelo outro. Às vezes é só a isso que podemos agarrar-nos enquanto esperamos por melhores dias.

16 setembro 2012

o trigo do joio

É em momentos fracturantes que ficamos a conhecer melhor as pessoas, habitualmente protegidas pelo véu da norma nos dias mais corriqueiros. Como diria a Pólo Norte, o mundo divide-se entre aqueles que não se inibem de dizer o que pensam e os outros. Os que afirmam o seu sportinguismo no meio de benfiquistas; os que trauteiam musiquetas fáceis no meio de amigos convictamente eruditos; os que admitem que não sabem tudo mas agem de acordo com aquilo em que acreditam. E depois há os que ficam calados, à espera de ver o que acontece na dianteira, com medo de perder privilégios, reconhecimento e consensualidade. Está bem que até S. Pedro negou o Senhor três vezes antes do galo cantar - ninguém está livre deste tipo de fraqueza. Mas gosto de ver-me rodeada de uma mão cheia de gente com a tomatásia no sítio, que não vacila nas suas convicções em alturas decisivas. E, meus meninos, não duvidem: esta é uma altura decisiva.

14 setembro 2012

insurreição

Filho: "Mas o dinheiro dos velhinhos não tiram, pois não?"
Mãe: "Tiram."
Filho: "Mesmo o da Bisa?"
Mãe: "Sim."
Filho: "E o meu...?"
Mãe: "Não te preocupes, eu não deixo ninguém mexer no teu mealheiro."

Esqueçam lá isso das aflições parentais para explicar o sexo, as drogas, a morte, a possibilidade de vida alienígena. Difícil, difícil é explicar o conceito de dívida externa e a razão por que se chega a um ponto em que alto e para o baile! ao cumprimento cego de regras. Mas é isso mesmo que quero transmitir, mais do que a moralidade e o civismo: que fomos dotados de cabeça para pensar, coração para sentir e braços e pernas para agir.

13 setembro 2012

um ano depois do regresso

"No fundo, queria viajar, cada vez mais longe, queria perder-se nos espaços que a fantasia lhe abrisse. Mas assim que se via fora de Lisboa, era atacado pelas saudades, umas saudades insuportáveis, não se podia assistir àquilo. As pessoas diziam-lhe: está bem, pronto, Lisboa é bonita, mas... Elas não compreendiam que, no fundo, não se tratava de Lisboa, mas dele próprio (...) Era algo muito mais profundo, algo para ele nuclear: o desejo de se refugiar dentro dos diques estáveis e conhecidos que o protegiam da perigosa ressaca e das traiçoeiras correntes submarinas da sua alma."

Pascal Mercier, O Comboio Nocturno para Lisboa

E não, apesar de tudo, não me arrependo de ter voltado nem por um só segundo.

10 setembro 2012

se é para explorar o pessoal, que se faça a coisa com pés e cabeça



Os problemas multiplicam-se como cogumelos: Não há dinheiro para o Estado Social. Não há como pagar a gasolina, o passe social, o supermercado, a renda da casa. Os professores estão no desemprego e os pais não chegam a horas decentes para dar o jantar aos filhos. A nossa produtividade continua baixa, muito baixa. E não há uma única proposta séria para resolver tudo isto, para limpar o quadro e voltar a escrever a nossa História. Pois bem, eu ouso dizer que sim, há uma solução. E a solução são as camaratas no local de trabalho.
A coisa funciona assim: os trabalhadores passam a viver no emprego durante a semana e só vão a casa ao fim-de-semana. Os eventuais filhos ficam na mesma situação, mas na escola (venha agora a FENPROF dizer que isto não gera emprego…). Poupa-se nas deslocações diárias, passa tudo a comer na cantina, e não há cá perdas de tempo a conviver com a família, a confraternizar com os amigos, e coiso. Vai tudo para o beliche às 21h e tudo acorda fresco para pegar ao serviço às 6 da matina. Até parece que já vejo as portas de S. Bento abrindo-se de par em par para me receberem depois da eleição. Vou preparar um quartinho mimoso para os pequenos, para quando eles me forem visitar aos Sábados. Sim, porque as minhas medidas serão verdadeiramente justas e equilibradas.

tomada de posição

Há as pessoas que acordam pela manhã e são revolucionárias por natureza; há outras que, confrontadas com a degradação da sua forma de vida (e das vidas alheias), enfiam a cabeça com mais força em mecanismos de escape que podem ir dos estupefacientes ao coleccionismo intensivo; espero que haja ainda outras que, apesar das dores e da estupefacção resultantes de pauladas num lombo já muito massacrado, tenham a capacidade de usar a sua inteligência e a força dos seus braços no momento certo para dizer "basta". Basta!

07 setembro 2012

mais uma vez na vanguarda temática

(do Outono, castanhas, mantinhas, e ronhónhó...)

Assim de repente, só consigo lembrar-me de duas vantagens de o Verão estar a despedir-se de fininho: 1. não haver problema quando me esqueço da manteiga fora do frigorífico; e 2. diminuir o cheiro a chulé da população em geral. Não me parece que isso compense minimamente tudo o resto que se vai com o calor e os dias grandes.

06 setembro 2012

re-conhecimento

Gostava de saber a partir de que idade é que os filhos se vão tornando um bocado mais previsíveis, do género: "ah, já sabia que era isso que ias fazer", ou "essa tua forma de me olhar de lado enquanto gozas com a minha estupidez é-me tão familiar". É que acho que a minha Mãe já sabe aquilo ao que vai, quando passa uma tarde comigo. Os meus rapazes ainda mudam todos os dias. É giro. E complicadote, por vezes.

03 setembro 2012

voltar, até já voltei

Mas continua a não me apetecer escrever aqui. Não sei bem porquê. Tenho a auto-confiança um pouco abalada pela colisão lateral na rotunda logo a seguir à estrada do Toy 70. O roçar daquela carrinha comercial no meu veículo burguês foi de uma intimidade abusiva, um superar de classes e géneros de condução que me desarrumou as seguranças de condutora, de mulher, de mãe - pelos vistos, até nestas coisas das redes sociais. Ou então foi muita praia, com a água muito fria. Também pode ter sido do excesso de robalo, de salmonete e de dourada. Escamou-se-me o coração para os textos de algibeira. De muito (e bem) ler, não foi, que nada me tem consolado depois do Freedom. Enfim, pode ser que o regresso à rotina e o atenuar do bronzeado me tragam de volta à blogosfera.

10 agosto 2012

tempo de exclusividade


Toda a verdade: o melhor de ser mãe-que-trabalha não é a passagem diária pelo mundo dos adultos; também não é o luxo de pegar numa bolinha rabugenta que acordou com a telha e depositá-la confiantemente no colo de uma (santa) educadora; e nem sequer é sentirmos que nos reconhecem valor intelectual para além da capacidade incrível de preparar refogados e banhos ao mesmo tempo que contamos estórias. Não, o melhor é mesmo este momento antes de ir de férias, em que antevemos todo o tempo para mimar, brincar, passear, cozinhar, dançar, acampar no beliche, encher o cabelo de sal e areia, e não desejar estar em mais lugar nenhum do mundo.

09 agosto 2012

comedimento

Houve um cavalheiro chamado Luís (provavelmente) com uns pés menos bonitos - mas não foste tu, pois não, marido? - que ficou sentido porque comentei noutro blogue que os homens devem evitar o uso indescriminado do chinelo. Ora, uma pessoa leva a sua existência pretenso-pós-moderna a tentar livrar-se de cada um dos seus preconceitos e é assim confrontada com esta fraqueza: será verdade que sou intolerante? É. A liberdade é um dos conceitos mais bonitos que há mas o meu sentido estético é um monstrengo conservador e implacável. Não gosto de ver mamas vazias e pingonas de topless. Não gosto de ver coxas celulíticas de calçãozinho curto. Não gosto de ver portuguesas de tez azeitona-de-elvas vestidas de tons pastel e com nuances platinadas. Não gosto de ver homens barrigudos de tanga. Não gosto de ver homens com as pernas depiladas. Não gosto de ver isto e muitas outras coisas, mas vejo-as todos os dias porque as pessoas são livres de trajar o que lhes der na telha. E eu guardo as minhas opiniões no bolso e evito comprar, usar, experimentar o que muitas outras pessoas usam porque o meu espelho deve ter um problema qualquer de hiperrealismo para me compensar a hipermetropia congénita.

08 agosto 2012

como se não estivesse calor que chegue hoje


Gosto muito dos Jogos Olímpicos. O meu pai acordou-me na madrugada de 12 de Agosto de 1984 para eu não perder o Carlos Lopes a conquistar-nos o primeiro ouro. Desde então, fiquei com o bichinho. Bem sei que está tudo comercializado, vendido a interesses corporativos, pintando ideais de justiça e igualdade de oportunidades que não revelam diferentes níveis de investimento, dopagens administradas até aos limites regulamentares, e rivalidades cegas que alimentam muita fornalha de horas e horas de treinos até aos limites da dor e da resistência. Mas eu sou só humana, talvez até um bocadinho neardental: gosto de ver a nossa espécie a dar o máximo das suas capacidades físicas e anímicas. E gosto de ver isto, ah pois gosto. Desportos aquáticos, a que é que pensavam que me referia?





06 agosto 2012

desconcentração

Estou a ler um livro tão bom, tão bem escrito, e que se arrisca a mudar tanto a minha vida, que mal consigo lembrar-me de tirar a comida do lume antes de queimar, de lavar a cara aos miúdos, ou de como encontrar o caminho para o trabalho. Felizmente há a Bimby, eles estão homens feitos, e há três semáforos eternamente verdes entre casa e o emprego, numa Lisboa vazia. Não tenho é tema para blogar. Ah, é o Freedom, do Jonathan Franzen.

31 julho 2012

(também) é para isto que servem as férias

Depois do pequeno aperto de coração ao receber um relatório da escola que elogia, elogia, mas anota que ele "é uma criança insegura", não há nada melhor do que acordá-lo (após uma semana de mergulhos, body-board, novos amigos) e ouvi-lo dizer que sonhou que estava a receber uma medalha de ouro olímpica. Tenho a certeza que pode tornar-se realidade, meu amor.

19 julho 2012

post interesseiro

Visto que tenho de fazer a lista de coisas para emalar hoje à noite, para as férias, e inspirando-me nas dicas devidamente surripiadas à  Muxy-muxy, aqui fica a minha lista por pax (que assim já serve para as próximas viagens, sem gastar papel). Ah, desafio-vos a fazerem uma menor que a minha :)

toalha de praia
7 t-shirts
2 sweat-shirts
3 calções
2 calções de banho
chinelos
ténis
cuecas e peúgas
pijama
fraldas e toalhitas
biberon/caneca
nécessaire com: soro, termómetro, ben-u-ron, brufen, protector solar, repelente de insectos, escova e pasta de dentes, pente.
brinquedos de praia e livros
respectivo peluche para dormir
garrafa de água
babete

(ah, como é bom eles já estarem crescidos!)

17 julho 2012

aprovisionamento

A boa formiga passa o Verão a juntar sementes, de um lado para o outro, atarefada e aplicada na antevisão de um Inverno de penúria. A boa gralha aproveita esta época para guardar bons momentos junto daqueles de quem gosta, a fazer coisas que lhe dão prazer, e a sonhar (acordada e não só). Volta qualquer dia, quando tiver a sacola bem cheia e as penas devidamente tostadas e cobertas de sal. Até breve :)

12 julho 2012

coisas que nunca quis ser mas, em particular, hoje em dia

EMELica.
Professora de Ciências da Natureza num colégio masculino da Opus Dei.
Técnica de endoscopia.
Operadora de telemarketing.
Funcionária de uma unidade suinícola.
Miguel Relvas.

Humilde contributo para o anedotário rélvico em permanente actualização.