Tenho levado os últimos dias a
matutar nisto das relações e em como parece que a monogamia para a vida parece
condenada à extinção. Que irónico que é: nunca os casais tiveram tanta
liberdade para escolher estatuto legal, distribuição de papéis, descendência
(ou ausência dela), o que fazer ao tempo e aos recursos livres. Nos nossos
tempos, podemos escolher estar com qualquer
ser humano – desde que não tenha laços sanguíneos de primeiro grau nem seja já
casado com outra pessoa (e conto os anos até esta regra também ser repensada);
e, no entanto, nunca como agora as relações não duram.
Fala-se no egoísmo mas acho que
isso é uma desculpa. Sempre fomos egoístas, antes tínhamos era mais medo das
consequências do nosso egoísmo. O que acho que nos falta agora, como casais, é
um inimigo comum contra o qual lutar. Antes lutávamos contra os pais que se
opunham a uma união socialmente desequilibrada. Contra uma sociedade que não
aceitava casais do mesmo sexo. Contra um futuro desconhecido que não nos
prometida uma velhice com os pés aquecidos por uma pensão de reforma. Era o
mundo contra o valente casal, enfrentando ventos e tempestades para sustentar a
sua família. Havia sempre terceiros a quem apontar o dedo. Agora somos forçados
a olhar para nós próprios e a reconhecer as nossas fraquezas e limitações, que
o nosso parceiro não se inibe de nos apontar, cobrando-nos as faltas sob a forma de uma
tampa de sanita levantada ou de um rabo descaído. Somos casal apenas enquanto não
somos um contra o outro.
A minha esperança está na crise.
Podia ser brincadeira, mas não é. Se é verdade que muitos se separam porque não
aguentam a pressão da dificuldade, quero acreditar que haverá aqueles que vêem
aqui o novo inimigo comum. O Inverno pode ser frio e as jantaradas uma miragem distante; mas é bom adormecer abraçados a um corpo que
conhecemos de memória, partilhando a última tablete de chocolate de avelãs que
havia na despensa.





