28 maio 2014

está para chegar o dia

Em que eu conheça um homem que não se julgue um ás do volante.
Ou uma mulher que não afirme que tem muito jeito para a escrita.

Detesto reproduzir estes estereótipos mas é verdade, o que é que eu hei de fazer?



Adenda: Também não existe ninguém que não sinta que tem talento para a fotografia, por exemplo. O que me leva a desabafar que 1) estou farta desta nossa sociedade dos talentos. Gente, abracem a vossa medianeidade. E a dos vossos filhos, já agora; e que 2) basta juntar-se um virtuoso e um instrumento (o volante, a palavra, o filtro de Instagram) e é ver as obras primas a despontar como cogumelos na floresta. Reservem-se um bocadinho, virtuosos. Se a vossa arte for mesmo excepcional, não passará despercebida. Se for banal, pois que vos dê muito prazer, mas em privado.  
 

27 maio 2014

os silêncios dos outros

Leio demasiados blogues. Uns por afinidade, outros por respeito, cada um tem o seu lugar no meu tempo de pausa (até já aqui me dediquei a pensar um bocadinho sobre isso). Para além do que escrevem, presto atenção ao que calam. Leio nas linhas e nas entrelinhas e tento adivinhar as causas dos silêncios. Alguns silêncios são falta de tempo. Muitos são tédio. Alguns são vergonha e mais ainda são segredos. Os meus silêncios preferidos são os de amuo e os que mais me preocupam são aqueles em que vaticino doenças, suicídios, tragédias. Fujo daqueles que precisam desesperadamente de aparecer, os que contam meias estórias e cozinham mensagens indecifráveis em lume brando. Mas nisto da blogosfera, como na música, as pausas fazem parte da melodia que nos embala.

26 maio 2014

agora sim, sobre política

Despubliquei à pressa o post que voltará quando já não estiver, como dizê-lo?, profundamente desiludida com os resultados de ontem.
Esperava-se a abstenção mas não a indiferença de dois terços de nós.
Esperava-se o extremar de posições, perante a palhaçada que grassa nos sectores partidários mais moderados, mas não a conversão de uma massa de cidadãos, supostamente educada, ao populismo e ao nacionalismo extremista.
Meus concidadãos, portugueses e europeus, acham mesmo que a culpa é sempre dos outros? Virava-vos a todos sobre os joelhos e enchia-vos os traseiros de palmadas, fazendo corresponder o castigo ao capricho de meninos mimados da vossa conduta.

23 maio 2014

não se tratando ainda de política

Este post é sobre sapatos e malas. E tons de cortinados. E unhas de gel. E música romântica dos anos 80, de preferência brasileira. E partos naturais e mais as maravilhas da amamentação.

(imagem discretamente roubada à SMS)


Pronto, agora que já é garantido que o meu querido electrodoméstico não está a ler isto: mas que coisa do outro mundo, que pedaço de mau caminho que é o candidato da CDU, o João Ferreira. Valham-me todos os santinhos do marxismo-leninismo. João, onde andavas tu quando éramos os dois petizes? Será que nos cruzámos nalguma colónia de férias na Costa da Caparica? Será que me terias feito uma amona só porque eu andava com fatos-de-banho da Cenoura? Não negues à partida uma betinha que desconheces. Sabes, durante muitos anos achei que aquela espécie estranha de extraterrestres que ia à Festa do Avante era uma massa uniforme de gente zangada, de bigode. Eu sei, que estupidez. Depois fui conhecendo alguns camaradas e não é que há aí gente boa, alguns até com sentido de humor? É certo que já nada pode haver entre nós mas, no meio desta fantasia platónica, faz-me a vontade e dirige-me um sorriso cúmplice. Se um skinhead e uma militante socialista podem amar-se, certamente que dois democratas como nós podemos encontrar um terreno comum, nem que seja só nos meus sonhos.

22 maio 2014

h2o

Já nadei no Tejo. Remei no Douro. Surfei no Pacífico. Mergulhei nas Caraíbas. Corri (muitas vezes) à chuva. Conduzi às cegas através de cortinas de granizo. Desenterrei um carro da neve. Bebi de um oásis no deserto. Avistei glaciares de um comboio. Esperei que por mim passasse um furacão. Ouvi sirenes no nevoeiro. Chorei alguém numa falésia. Conheci alguém saído das minhas águas.

This must be underwater life. The way I feel it slipping all over me.

21 maio 2014

pselfie

A sério que nenhum blogger simpático desta praça, desde o mais brejeiro à mais cor-de-rozinha, vai comentar aqueles outdoors do PS, em que eles estão (supostamente) a tirar uma selfie? É que, a mim, não me compete. Eu já tenho dispersão temática suficiente para afastar a maioria dos leitores. Vá lá.

Três estrangeirismos em três linhas. Até me arrepio toda, que horror.

19 maio 2014

uma família banal

No meio da teimosia da ida à praia apesar do vento frio, da desorientação da corrida por entre as salinas da Ria Formosa, e da decepção perante o fecho da tasca com o pior atendimento do mundo (compensada pelas ostras ainda assim saborosas do estabelecimento vizinho, maçadoramente tourist-friendly), foi com estranheza e até algum ressentimento que ouvi o meu marido comentar entredentes: “a tua família é um bocado esquisita”. Isto, logo depois de um momento desfracturante. Junto à margem do Gilão, com a leveza de gerações que já não carregam tristezas antigas, deu-se o encontro de ramos de uma árvore tristemente fendida, prometendo novos frutos.
Esquisita, como? Uma família grande é feita de muitas pessoas diferentes. Há os que se afastam e os que são afastados. Há golpes do destino, doenças, dependências. Há mágoas engolidas e palavras caladas. Há muitos silêncios e quotidianos de negação. Há irmãos que não se entendem durante anos e depois fazem as pazes. E filhos pródigos que se distanciam quando menos se esperava. Às vezes, até há guerras, ciúmes e traições. É só uma família, como tantas outras. Um animal vivo, um organismo resistente e maleável. A herança é comum mas singular nas suas implicações individuais. Gosto da minha família esquisita e possa eu contribuir com o meu cunho de memória e confiança num futuro imprevisível mas único. Nosso.

16 maio 2014

minimalismo, um tique neoburguês?

Ontem, numa conferência, o Pedro Gadanho falava de como a diminuição dos custos de produção está a fazer com que os bens se desvalorizem face às experiências. Fiquei com a pulga atrás da orelha e hoje, à procura de sentido, encontrei este artigo do Guardian acerca da mudança de hábitos de consumo de luxo. Será que o facto de o acesso a muitos bens se ir cada vez mais democratizando* está a fazer com que estes percam o valor para aquelas camadas da sociedade que gostam de sentir que fazem parte de uma casta selecta, guardiã de um certo estilo de vida? Será que isso os leva a desprezar a acumulação de coisas em favor da colecção de experiencias de vida, ainda mais inacessíveis?
E será que esta onda minimalista que por aí graça, e na qual tanto aprecio surfar - leve de responsabilidade consumista, airosa no meu desprendimento material - mais não é do que um tímido reflexo desta tendência? Receio bem que as minhas peneiras bem intencionadas de desprezo pelas coisas tenham um certo travo de distinção social, como me poderia acusar o Bourdieu (confere, amigas sociólogas?). Mas então o que resta? Se coleccionar relógios, sapatos e pulseiras, sou uma «vítima» da sociedade do consumo. Se abraçar o monge tibetano que teima em ecoar na minha alma, sou uma neoburguesa armada aos cucos. Alguém me esclareça acerca de alguma terceira via, estou perdida no cruzamento entre o ter e o viver.

 * Democratizando, vírgula, claro. Que ainda há um sexto da população mundial que nem sonha com a garantia dos bens essenciais, quanto mais dos supérfluos.

12 maio 2014

uma espécie de post motivacional, ou de lição de vida (afinal de contas)

Desobedeces-me regularmente. Mando-te fazer uma coisa simples, enches-te de bazófias e logo dás parte de fraco. Depois, meu velhaco, quando digo que tanto faz e te deixo fazer a tua vontade, surpreendes-me. Levas-me a passear e cegas-me com o dia a nascer no mar da palha. Apontas-me as flores a espreitar entre as fábricas abandonadas. Carregas-me pelas subidas intermináveis e garantes-me que podes mais. Ultrapassas as previsões, aceleras e superas-te. Mostras quem manda aqui e só falta a palmadinha nas costas, tivessem costas as minhas manias. Foi uma corrida bonita, ontem, corpo. Obrigada.

10 maio 2014

cantiga de amigo

Ai flores, ai flores do verde pino,
Que me perco de amores por este menino
De tão querido que ele é.

Que vem comigo a todo o lado,
seja ao yoga ou ao supermercado
De tão companheiro que ele é.

E canta acerca dos ténis da Nike
À melodia do "staying alive"
De tão pantomineiro que ele é.

Lavando o chão da casa de banho
Com menos jeito do que empenho
De tão brioso que ele é.

Dá-me dúzias de abraços e beijinhos
E derrete-me quando faz olhinhos
De tão charmoso que ele é.

Ainda que tenha de partilhá-lo com a Madalena
Que é tão loura (e eu sou morena)
De tão fresco que ele é.

Filho pequenino mas forte e valente
Ainda agora chorando, logo depois sorridente
De tão imprevisível que ele é.

08 maio 2014

o inverso do gesto

Acabei agora mesmo de me aperceber que, perante desconhecidos ou pessoas com quem não estou à vontade, me torno canhota. Aceno e toco com a mão esquerda. Eu que sou dextra em tudo, excepto no andar ao pé coxinho. Sei que isto deve merecer uma explicação obscura, e menos interesse ainda terá para o amável leitor, mas fiquei maravilhada com a estranheza do facto e tive de partilhar.

07 maio 2014

caderneta de cromos

Saímos mais cedo de casa e passámos no quiosque, antes de ir para a escola. O Diogo tinha escondido tão bem o porta-moedas recheado que não o encontrámos. O Gugas reuniu as suas moedas dispersas e pediu ao Sr. Antunes: "queria quatro carteirinhas, se faz favor". Pagou e entregou duas ao irmão, a do tigre e a da coruja. Recomendou-lhe que não as perdesse. Deixei um na escola primária e o outro no Jardim de Infância (hoje não chorou, finalmente). Passei à porta da igreja e apanhei parte de uma homilia que envolvia questões complicadas de acolhimento divino e de tentações terrenas. Tentei imaginar que tentações poderiam ter as velhinhas ajoelhadas que assistiam à missa e sorri sorrateiramente. Depois engoli em seco. Provavelmente convivem com as mesmas tentações de sempre, já um bocado empoeiradas, quase dignas de afecto. Desejei ver chegar o dia em que também eu consiga conviver docemente com as minhas tentações. Pode ser que haja vantagem em envelhecer, afinal de contas.

06 maio 2014

quero o livro de reclamações

Não acho graça a bad boys. Nunca alinhei na popular quimera feminina de converter uma besta num cavalo manso. Não atravesso a estrada se vir um homem coberto de tatuagens mas é porque já cheguei ao ponto em que não atravesso a estrada a menos que queira chegar ao outro lado. Resumindo: não gosto de vilões.
Agora, por amor de Deus, o que é que me andam a fazer ao meu Don Draper nesta sétima temporada do Mad Men? O homem está mais chocho que uma alforreca. Fica em casa a ver televisão e a sentir pena de si próprio. Quase não bebe. Preocupa-se com a mulher! Tenho medo de ver o próximo episódio e descobrir que adoptou um gato. Ou que deixou de se pentear impecavelmente. Se é para deprimir, que mergulhe numa das suas espirais de mulheres, old fashioneds e alucinações com a guerra. Agora, esta coisa amorfa e mariquinhas? Será que a Shonda Rhymes anda a meter o dedo no argumento daquela que costumava ser a minha série preferida? Não há direito.

05 maio 2014

quando é que termina a idade das birras?

É que eu ainda vou fazendo das minhas, e já sou semi-septuagenária.
Quero isto. Agora já não quero. Como é que pude achar que isto fazia sentido? Eu consigo. Eu não consigo. Consigo mas não me apetece e por isso não faço, pronto. Se é para não fazer bem, é melhor falhar epicamente. Se não acaba como quero, prefiro parar a meio. Se o mundo está contra mim, viro-lhe as costas. Sento-me debaixo de um sobreiro e faço de conta de que não me importo. Como é feio desistir e como é sonora a solidão a que me imponho quando saio de prova, desdenhando seguir a dolorosa torrente dos que continuam, sob a torreira do sol impiedoso. Não há lições a tirar, só vergonha e vazio de sentido.

Volte sempre, amiga leitora que pensava que isto era um baby-post. Fica para a próxima.

02 maio 2014

na próxima encarnação

Quero ser uma daquelas pessoas que desconhecem a noção de peso na consciência. E ter bom cabelo. E pernas altas. Mas já ficava contente se conseguisse andar pelo mundo sem carregar a cruz de um perfeccionismo implacável. É pena não acreditar em várias encarnações e, ainda por cima, a minha moral ser precisamente aquela que espera que seja verdadeira, justa e abnegada (também é uma moral de perdão e amor incondicional mas essa parte custa mais a processar).

30 abril 2014

cansei-me das tábuas

E enquanto não decido de que cores me quero vestir nesta estação, vou de branco.

29 abril 2014

dilemas vorazes

Como ter espírito crítico sem condenar?
Manter a liberdade interior sem ceder à libertinagem oca?
Estar disponível sem deixar-se esmagar?
Atento sem tornar-se obtuso?
Aberto sem dispersão?
Tolerante sem indiferença?
Confiante sem sobranceria?
Humilde sem mortificação?
Satisfeito sem culpa?
Insatisfeito sem ingratidão?
Fiel aos outros e fiel a si mesmo?

Como se não bastassem as forças contraditórias do mundo, de cada vez que paro mais de três segundos para pensar no que quero realmente fazer da minha vida, fico perdida entre meia dúzia de correntes e prioridades. Agarro-me depressa às boias de salvação do costume e mantenho-me à tona, não sem questionar muito baixinho se mais valia ir ver a vista lá do fundo. Havia de fazer-me bem, a mudança de perspectiva.

28 abril 2014

bhaile átha cliath, tá tú chomh fheictear

 
 
 
 
 
 


Imaginem que agora que eu escrevia um daqueles posts impressionistas a la Mãe Capotada. Uma manta de retalhos de coisas boas que vi, fiz, provei. Não era preciso fio condutor nem moral da estória, só o apanhado de pequenas surpresas e uma sensação generalizada de bem-estar. Assim seria o texto de hoje sobre o belíssimo fim-de-semana passado em Dublin, entre amigos.

Só que dormi pouco e ainda estou a digerir tudo: os bolos inesperadamente deliciosos, as galerias de arte em festa na rua, as ostras de Howth e, sobretudo, aquele pequeno-almoço de enchidos que jantei num pub que parecia a sociedade cultural e recreativa dos povos resgatados pela troika. E depois há o problema do meu entusiasmo e satisfação excessivos. Normalmente sou convenientemente sombria, só que chego às viagens e acho tudo perfeito. Torna-se maçador. Só a cerveja é que não vale nada, confirma-se.

23 abril 2014

dia do livro (mal amado)

Estou a ler dois que não me estão a encher as medidas. Ainda não os larguei porque tenho pelos livros aquele sentimento entre a compaixão e a cagarolice que nutria pelos namorados antes de lhes dar com os pés. O que é uma perfeita estupidez, claro. Nem os namorados melhoravam depois de eu perceber que não valia a pena tentar fazer omeletes sem ovos, nem os livros se abraçam a mim, agradecidos, quando acabo o último parágrafo e os emprateleiro, aliviada. Coisinha imbecil, esta da glorificação da lealdade a todo o custo.

22 abril 2014

desperdício zero (ou o mais perto disso que consiga)

Os mais observadores poderão ter reparado que acrescentei aqui ao lado a hiperligação para o blogue zero waste home. Pois bem, a autora do mesmo é a minha nova guru [interrupção para reconhecer que, sim, até eu que tenho alguma aversão a esta coisa das pessoas inspiradoras, caminhos para Shangri-la e mais essas mariquices pinterestianas todas, volta e meia arranjo um guru]. O meu caminho para a purificação da alma continua a ser o bom velho Novo Testamento mas a via para a purificação da existência física passa por uma relação mais honesta com a natureza. Os iogurtes com probióticos também ajudam, mas nada se compara à sensação de que fazemos o que podemos para não dar cabo do planeta. Reciclar, só, não chega. É preciso consumir menos.
Não tenho (ainda) a intrepidez da Bea para fazer uma revolução lá em casa e reduzir a nossa produção de desperdício a um frasco de porcaria por ano. Mas há algumas coisas que tenho vindo a introduzir, timidamente, mais por receio de ser vista como a fundamentalista do anti-lixo, o que seria contra-producente, do que por falta de vontade de ir mais além. Reduzi o consumo de carne, de produtos embalados e, sobretudo, estou a tentar eliminar o plástico lá de casa. Isso significa que sou a maluquinha que recusa sacos onde quer que vai e leva os seus próprios recipientes para as compras. E aquela que recolhe o desperdício reciclável nas zonas onde não há separação de lixo. E a que ainda não ganhou coragem para dizer não a todas as tretazinhas inúteis com que nos brindam em restaurantes, hotéis, casamentos e conferências, mas que para lá caminha. Dia a dia, novos desafios vão surgindo (Onde comprar coisas a granel nesta cidade do pré-preparado? Onde entregar os resíduos orgânicos para compostagem, já que não tenho jardim?), há que encará-los com determinação e realismo.
Imagino esta nossa linda esfera azul e verde cada vez mais coberta de entulho e arrepio-me. Se os níveis de consumo e de produção de desperdício continuarem assim (e estão a piorar em algumas zonas do globo), talvez não seja eu nem os meus filhos a viver numa lixeira pontuada de oásis pristinos para os mais privilegiados; mas tenho demasiado amor à Terra para carregar essa responsabilidade póstuma, pelo que continuarei a fazer o possível. E a evangelizar os meus filhos, que já começam a repetir instintivamente alguns destes gestos, provando que a educação é muito mais feita de atitudes do que de palavras.

20 abril 2014

a Páscoa é isto

(explicado no outro dia pelo frade que celebra a Missa em que costumo participar)

Se vocês vissem alguém a aproximar-se dos vossos filhos, dos vossos amigos, para lhes fazer mal, não se colocavam à frente, protegendo-os, de braços abertos? Assim fez Jesus.
Boa Páscoa minha gente :)


16 abril 2014

porque hoje é o teu dia

Desculpa lá a exposição do meio usado para te dizer estas coisas mas teria sido ainda mais estranho na cozinha, às sete e tal, entre o estender das toalhas de banho e o arrumar a louça do pequeno-almoço. E já sei que és ainda menos romântico do que eu, por isso vou investir mais nos substantivos do que nos adjectivos fofinhos, está descansado.
Hoje é o teu dia e eu comecei-o a agradecer pela tua vida. Já te conheço há mais de metade destes 33 anos e é mesmo verdade que tens vindo a melhorar com o tempo, ainda mais que o George Clooney com quem tanto te pareces (mas em melhor, claro). Nunca vais ser um grande dançarino nem o homem mais aprumado das redondezas mas, descontando essas grandes falhas, a verdade é que és tudo aquilo que podia pedir da pessoa com quem espero passar o resto da vida. E, olha, paciência se parece que os anos passam e vamos tendo menos gente à nossa volta. Os mais importantes vão lá estar sempre. E eu estou contigo, todas as manhãs, quando te levantas e eu já ando numa roda viva, e todas as noites, quando te deitas depois de trabalhar sempre mais um pouco e eu já estou a babar a almofada. Podes chegar-te a mim se estiveres com frio. Parabéns, meu amor.

14 abril 2014

Ainda não sei bem o que dizer. Fazes falta há um ano, Rita. A tua ausência repete-se todos os dias mas aquilo que foste e o que nos ofereceste com a tua vida continuam sempre. Um abraço para aí, onde quer que estejas (a sorrir, enquanto pedalas junto ao rio).

13 abril 2014

descobertas dos trinta e quatro

1) Tenho muito menos amor próprio do que imaginava. Espero que a imensa sabedoria dos 35 saiba lidar com esse problema porque
2) A falta de amor próprio arruina tudo à volta, o meu humor, a relação com os outros, a dedicação ao que faço, alimentando o monstro megalómano das expectativas, para além de que
3) Tenho mesmo dificuldade em lidar com maluquinhos, pessoas conflituosas e dias de frio húmido. E não há volta a dar a isso.

08 abril 2014

só depois do pentecostes

Acho que não estou a cometer nenhuma inconfidência celestial ao dizer aqui que, nesta Quaresma, estou a tentar fazer jejum de maus pensamentos e palavras. De modo que, visto que nada se passa de novo na minha vida, não tenho mesmo assunto para os próximos tempos. Olhem, imaginem-me a saltitar entre os raios de sol, que é fundamentalmente o que tenho feito. Ide em paz e que o Senhor vos acompanhe :)

27 março 2014

duas dúvidas e meia

Não existe ninguém no mundo que alguma vez siga alguma receita exactamente à letra, pois não?

E é absolutamente normal que, independentemente dos nossos hábitos de compras de produtos alimentares (mensais/ semanais/ diários/ quando apetece um chocolate), acabe sempre por faltar um ingrediente, não é?

Ingrediente este que se consegue sempre substituir por outro, certo?

24 março 2014

etnad

Pobre desgraçadinha de mim, que fui até ao Paraíso e voltei, o que faz de mim uma espécie de Dante, só que ao contrário. E o que é que uma pessoa pode fazer agora, para descobrir a vida depois da vida? Como dar a volta a este humor de eterna terça-feira* e reencontrar a alegria das pequenas coisas?
Bem sei que estou a dramatizar e devia ter vergonha de me queixar depois de ter feito o que tanto desejava, e que não está ao alcance de todos. Mas tenho alguma vontade de chorar enquanto descasco uma banana, ouço os passarinhos de Monteverde no Spotify e ordeno em frames as emoções registadas naqueles dias. Uma imagem pode valer por mil palavras mas não há filme nem fotografia que devolvam os cheiros, o calor nem a nuance de cada gargalhada.
Volto-me para todos os lados à procura de sentido e lembro-me daquela história (Lc 9: 33) em que Pedro estava todo contente no alto da montanha com Jesus e seus amigos, e achou que podiam fazer umas tendas e ficar ali para sempre. Com certeza que Jesus também apreciava a vista e a companhia, mas Deus achou que era mais importante descerem dali e irem anunciar a Boa Nova. Suponho que há de haver coisas mais importantes para eu fazer com o resto da minha vida. Acontece que, assim de repente, não estou a ver quais serão. Entretanto, sonho mais um bocadinho.


* Toda a gente sabe que a terça é muito pior do que a segunda-feira, quando ainda vimos com o gosto bom do fim-de-semana.

21 março 2014

cahuíta-san jose-madrid-lisboa

10 de Março de 2014

Mais uma manhã de sol nas Caraíbas. Fomos conhecer o Jaguar Centro de Rescate, em Puerto Viejo de Talamanca, um refúgio para animais em perigo com vista à reintrodução na natureza. Foi uma visita encantadora, não só porque conseguimos ver alguns animais que tinham escapado aos nossos olhos inexperientes (cobras, crocodilos, grandes felinos, aves de rapina) mas princialmente porque passámos pela experiência única de conviver com macacos. As gargalhadas dos miúdos enquanto os capuchinhos lhes trepavam para a cabeça foram qualquer coisa de impagável.
De seguida, fomos para a praia em Punta Uva, uma baía digna de postal a 10 quilómetros do Panamá (ficou-me atravessado, mas não consegui convencer o Luís a trocar uma tarde de lagartagem por aventuras alfandegárias sem sucesso garantido). Passámos o resto do dia à espreita de caimões na praia enquanto o Diogo dormia no carro, e só regressámos a Cahuíta para engolir umas sanduíches já bem temperadas da nostalgia do último anoitecer na Costa Rica.
Chegou finalmente o último dia, para grande tristeza de todos: Levantei-me às 5h30 com os tucanos e os macacos gritadores e fui preparar café, sumo, torradas, ovos e abacates. Como seria bom poder começar todos os dias assim. Fomos dar um mergulho de despedida à Playa Blanca, às 7h tinhamo-la só para nós. Voltámos para arrumar as mochilas e partir.
Foi difícil manter o ânimo à passagem daqueles quilómetros de praias, bananeiras e, finalmente, o jurássico parque Braulio Carrillo, com as suas folhas de mais de um metro de diâmetro e enormes subidas, onde os camionistas afoitos se ultrapassam, indiferentes ao resto do mundo. Almoçámos os piores casados de que há memória (caganeira 2 - Luís e Diogo 0) num restaurante junto a San Joselito de San Isidro (um santo com o seu próprio padroeiro é bom demais), e fomos entregar o nosso espectacular Jimny, que resistiu a tantos maus tratos sem vacilar.
Valente seca no aeroporto. Grande vontade de fugir a correr e só parar no alto de um vulcão. Recordem-me lá outra vez, por que é que tenho de voltar para Portugal?
Os voos correram muito bem, conseguimos dormir alguma coisa de jeito e ver vários filmes. Não custa tanto acordar torta num avião quando se olha para o lado e está um rapazinho a inaugurar os seus 7 anos e a olhar para nós com o sorriso mais doce do mundo. Venham mais viagens assim, mais dias cheios com os meus amores em qualquer canto mágico do mundo.

 Escola em Puerto Viejo

Víbora no centro de resgate

 Tucano (extremamente vaidoso) no centro de resgate

 Recolha de reciclagem (em todo o lado, desde as montanhas às praias)

 Spa de caimões

 Punta Uva (do outro lado fica o Panamá)

 Plantações de banana

 Pan-americana, no parque nacional Braulio Carrillo

20 março 2014

vulcão poás-cahuíta

8 de Março de 2014

O despertador fez-nos saltar da cama ainda antes do nascer do sol. Sabíamos que a vista desimpedida da cratera é uma coisa rara mas as probabilidades melhoram se formos bem cedo, antes da formação de um tecto de nuvens. Quando chegámos à entrada do parque, a desilusão: só abria às 8 horas. Com o estômago colado às costas, descemos a encosta ponteada de vacas alpinas e fomos tomar o pequeno-almoço ao hotel, antes de voltar a subir ao Poás.
Valeu a pena! A visão da cratera fumegante aos nossos pés é qualquer coisa de extraordinário e inesquecível, e acho que não foi o enxofre nem a altitude (3000 m) que me subiram à cabeça. Esta viagem tem-nos feito bem sentir a nossa pequenez neste planeta maravilhoso e este foi um daqueles momentos que ficarão gravados a quente na minha memória.
Era tempo de apontar às Caraíbas. Descemos até Herédia, onde nos refastelámos de pizza rodeados de Ticos genuínos num sábado relaxado, passeando na praça principal e comendo gelados à boleia de motorizadas. De volta à estrada, e para comemorar o Dia da Mulher, peguei no volante e conduzi pela longa via Braulio Carillo (pelo menos até me lembrar que não tinha trazido a carta de condução), atravessando o esmagador parque nacional homónimo, onde apanhámos as primeiras chuvas.
O trajecto voltou finalmente a sul já perto da costa oriental, numa imensa planície coberta de sucessivas quintas de plantação de banana (de onde vêm as nossas conhecidas chiquitas). O alcatrão desenrolava-se vagarosamente, a imaginação para jogos e estórias começava a escassear, e a noite já era cerrada quando chegámos finalmente a Cahuíta, a nossa última paragem, a poucos quilómetros da fronteira.
O alívio foi a duplicar quando estacionámos o jipe, tendo conseguido não atropelar nenhuma das centenas de transeuntes, ciclistas e animais que desaguam na estrada ao lusco-fusco, e fomos simpaticamente recebidos pelo nosso anfitrião. O Sepp é um alemão de grande barriga cheia de estórias, casado com uma portuguesa que conheceu em Moçambique, onde tinha um crocodilo-de-guarda. Sentimo-nos imediatamente em casa na nossa cabina nirvana, com dois quartos colonias de camas cobertas de redes e uma cozinha e alpendre exteriores. Deitámos os miúdos e fomos embalar umas cervejinhas geladas na cama de rede.
Amanheceu um dia amniótico e suave, com o som ensurdecedor de milhões de passarinhos. Depois de mais um pequeno-almoço cheio das coisas boas a que já nos habituámos, fomos até à Playa Negra comprovar que o mar das Caraíbas continua a ser uma festa para os sentidos, com ondas mornas e um cheio a floresta a entrar-nos pela pele. Seguiu-se um mergulho na piscina, com direito a uma valente queda e consequente queixo aberto do Diogo (felizmente já tinhamos o estojo de primeiros-socorros).
Almoçámos e fomos até ao parque nacional de Cahuíta, o casamento perfeito entre uma linda baía de areia dourada e a verdadeira selva. Entre mergulhos e brincadeiras na areia, vimos macacos, guaxinins, borboletas enormes de todas as cores, aranhas arrepiantes, caranguejos azuis, preguiças e um lagarto jesus-cristo, correndo sobre as águas do mangal. Foi bom chegar a casa ao fim de mais um dia tão intenso e deixar dormir um Diogo-farrapo enquanto o Gugas fazia fichas de estudo, compensando esta longa mas perfeitamente justificável gazeta à escola.
Depois do banho fomos jantar fora (para variar do menu habitual de cachorros e sandes de atum) a um restaurante sobre as ondas. Comemos um maravilhoso polvinho al ajillo com vista para as preguiças e para a escuridão mansa do mar. Deitámo-nos a contar as estrelas e a ouvir os grilos, fazendo de conta que aquela noite se prolongaria para sempre. Ahh, a vida pode ser tão simples e tão boa.

 Cratera principal do vulcão Poás

Travessia de um rio na província de Limón.


 Playa negra, Cahuíta

 Guaxinim!

 Preguiça!

Acabei de ver uma rã preta e verde!


19 março 2014

malpais-vulcão poás

6 de Março de 2014

O amanhecer morno foi antecipado por rugidos assustadores (ocelotes? jaguares?) que vieram a revelar-se as boas vindas pouco amistosas dos macacos gritadores. Conseguimos convencer o único funcionário (contrariado) da espelunca hoteleira a levar as nossas canecas para a cozinha/oficina/laboratório de alquimia e fazer-nos um café de meia com ovos mexidos numa frigideira arqueológica, preparando-nos para um dia de sossego pelas praias pedregosas do fim do mundo nos mapas da América Central.
Estava na altura de fazer exercício do nosso direito ao descanso e assim foi: adeus botas, olá chinelos e toalhas de praia*. De manhã, na Playa del Carmen aproveitei para tentar fazer um bocadinho de surf (com pouco sucesso, as ondas chegavam aos gigantescos 50 centímetros) enquanto os rapazes construiam casinhas com canas e cocos. À tarde, fomos para uma praia desconhecida um pouco a norte, com uma piscina natural que foi a cereja no topo do bolo do paraíso tropical. A maré subiu depressa, o sol inclemente começava a sentir-se nos ombros e estava na hora de deixar para trás os pelicanos e os cavalos a tomar banho de mar. Jantámos sanduíches de fome e mortadela e deixámos que o amasso de um Pacífico pachorrento nos adormecesse.
De regresso à estrada, viajámos até Paquera onde nos esperava o ferry para a travessia do golfo. Entre fatias de manga verde com sal, postais, pernas de surfistas americanos e crianças costa-riquenhas que rivalizavam com os macacos na produção de decibéis, chegámos à indescutivelmente mais feia cidade de todo nosso roteiro: Puntarenas, geminada com a Charneca da Caparica em charme e construção clandestina. Fugimos depressa até ao restaurante de estrada mais próximo e retomámos a rota rumo às montanhas.
Mais uma agradável surpresa nos esperava no sopé do vulcão Poás, no hotel amoroso escondido entre a estre as colinas, com uma piscina que fez as delícias dos miúdos e um quarto amplo e asseado que foi bem acolhido pelos graúdos. Agarrei-me ao meu livro enquanto os rapazes ensaiavam saltos para a água sob a cascata clorificada e o Luís foi até San Jose para tentar recuperar a tão ansiada mochila. Em vão: chegada ao país, e apesar das nossas indicações explícitas, os senhores da Iberia levaram-na a passear para Monteverde, onde ficou a desfrutar do ar puro da montanha enquanto nós comíamos pó em Malpais. Ainda não sei bem por que artes mágicas a fizeram finalmente chegar até nós, já a meio da noite, muito para o alívio das nossas bocas escovadas com dedos-de-dentes há quase uma semana.

* E adeus toalha de praia do Diogo, que voou do tejadilho lá para os lados de Santa Teresa.
 

 Amanhecer em Malpais

 Sempre em frente

 Preparando-me para enfrentar o swell

 O mar é de todos

 Pequeno-almoço de fruta com mapas

 Travessia do golfo de Nicoya

18 março 2014

monteverde-malpais

4 de Março de 2014

O terceiro dia amanheceu solarengo depois de uma noite mágica com o vento a cantar entre as árvores. Voltámos a subir ao Parque Selvatura onde nos esperavam emoções fortes: a travessia da floresta, desta feita através de slide em 13 passagens de cabo, a maior das quais com 1 quilómetro de comprimento [o que fazer quando ambos os pais têm sede de adrenalina? Começar a dá-la às crianças em doses homeopáticas*]. Não há palavras para descrever a beleza dos voos sobre o manto verde, o silêncio absoluto cortado por uma roldana solitária em que depositamos tudo. E não dá para explicar a surpresa perante a coragem dos nossos rapazinhos, dois nano-seres que se atiraram pelos ares como muitos adultos nunca fariam, o que diz bastante da confiança que os filhos depositam nos pais. É tanto o tempo de vida em que marchamos num plano bidimensional que chegamos a estes instantes de clivagem e inundamos os sentidos de profundidade, cor, energia e abandono, parecendo absurdo limitarmo-nos a uma existência banal.
Cada um de nós tem o seu lugar seguro e bom para onde regressa à noite, ao fechar os olhos. Eu volto agora à imensidão de verde daquela manhã, rematada ainda por uma descida de um trilho com vista para o imenso vulcão Arenal e lago homónimo, e retemperada por um manso almoço Tico: casado e sumo de frutas (descobrimos o tamarindo e a graviola). Depois de um breve descanso no quarto com vista para a divina teia de lianas e fetos gigantes, ainda houve energia para nos perdermos nos trilhos da Reserva Curi Cancha, onde tivemos os primeiros encontros com a fauna local. Vimos agoutis, colibris, muitas borboletas, esquilos e aranhas, exemplares modestos perante a imponência das figueiras gigantes, devoradoras das outras árvores.
Ao quarto dia o nosso pequeno-almoço de gallo pinto, ovos e fruta foi cobiçado por macacos-capuchinho, para grande excitação de todos. Tivemos bastante pena de descer das montanhas em direcção à província de Guanacaste, deixando para trás aquele denso bosque encantado. No longo caminho até ao Pacífico vimos iguanas, uma arara e grandes bandos de gralhas (o que explica o meu à vontade naquelas paragens). O muito esperado almoço aconteceu já em Puerto Carillo, depois de uma banhoca inaugural na praia. As temperaturas passaram finalmente os 30 graus mas o tempo continuou muito seco, fazendo justiça aos 2 meses de "Verão" (i.e., temporada seca) daquelas latitudes. Descendo a costa para sul, descobrimos uma praia maravilhosa e absolutamente deserta, onde demos alguns mergulhos antes de seguir caminho para Malpais. Apesar de, aparentemente, a distância já não ser longa, a verdade é que as estradas terríveis pareciam não ter fim. Tinham-no: e era no meio de rios. A terra batida estreitou-se cada vez mais até caracolearmos por veredas atravessadas por plácidos cursos de água, três dos quais tivemos de passar com o jipe sem grandes certezas acerca da fundura nem da proximidade dos crocodilos. Singelas placas que avisavam "verifique a profundidade antes de atravessar" e "não tome banho: zona de crocodilos" são do melhor que há para o nervoso miudinho (o meu amantíssimo esposo agnóstico não se queixou das minhas sentidas orações nessa altura).
Foi com grande alívio que chegámos ao alojamento em Montezuma, apesar de rapidamente percebermos que a cabana na selva que nos tinha sido destinada tinha tanto de rústico como de sujo e desarrumado. Bom, seguimos as indicações de não nos calçarmos sem verificar a presença de insectos nas botas, besuntámo-nos de repelente, tentámos ignorar as formigas gigantes na sanita e caímos felizes nas camas bamboleantes.


* Exagerámos na dose - disseram que queriam fazer aquilo mais mil vezes.


 Preparativos para o slide

 Vulcão e lago Arenal

 Colibri em Curi Cancha

 Tentativa de pilhagem de refeições alheias

 Despedida de um novo amigo

 Praia Coyote, Pacífico

 Será que dá para passar? Que remédio, não há alternativa

17 março 2014

lisboa-madrid-san jose-monteverde

2 de Março de 2014

Custou acordar às 5h15 mas o entusiasmo era muito. Depois de meses a contar os dias, finalmente tinha chegado o momento de voar para a Costa Rica. A voo até Madrid foi sem sobressaltos só que logo à chegada percebemos que não tinham expedido a mochila do Luís para San Jose. Lá se foi grande parte da roupa, o necessaire e os medicamentos. Seguimos viagem tentando não pensar no assunto, mais de 10 horas a sobrevoar o Atlântico. Os rapazes foram impecáveis e levaram bem a espera, entre desenhos, jogos de cartas e muita conversa.
A chegada também correu bem, apesar da confirmação da ausência da bagagem, e o aluguer do nosso fantástico Jimny fez-se sem complicações. Depois de algumas voltas pelo centro de San Jose, finalmente demos com o nosso simpático e modesto hotel, onde conseguimos o muito ansiado descanso depois de 18 horas de pestana aberta.
A madrugada foi bem prematura devido ao jet lag (agarrei-me ao A Fraction of the Whole desde a 1h da manhã). Tomámos um óptimo pequeno-almoço de fusão centro e norte-americana, feijão com arroz, sandes de manteiga de amendoim e muita fruta, fizemos algumas compras e pusémo-nos a caminho. Deixámos San Jose para trás, uma cidade eclética e moderadamente caótica mas com uma nota simpática, onde me senti segura apesar da confusão do trânsito e dos mercados de rua.
Percorrendo a pan-americana em direcção ao Pacífico, entre as quotas dos 1000 e 2000 metros de altitude, passámos por muitos campos cultivados, de árvores de fruto e cana de açúcar, e muitos rios. Avistando o golfo de Nicoya, virámos a norte em direcção a Monteverde. Seguiram-se 40 quilómetros de estrada tão acidentada que saltávamos nos assentos e tivemos de inaugurar a tracção às 4 rodas. Os rapazes hesitavam entre a excitação e o receio perante as ravinas a perder de vista, vibrando com a progressão do ponteiro do altímetro.
Finalmente chegámos ao paraíso de Monteverde, fiel ao seu nome, e só tivemos tempo para fazer o check-in no hotel e um almoço delicioso antes de apanharmos um autocarro para a entrada no parque da floresta das nuvens. Aí passámos a tarde a passear pelos trilhos sobre a copa das árvores e balançar sobre as longas pontes suspensas. A nossa manifesta incompetência para detectar a fauna local foi largamente compensada pela vegetação majestosa, pelo cheiro denso da floresta e, sobretudo, pela sensação de paz e perfeição absoluta. Não há nada como sentirmo-nos de regresso aos primórdios do planeta, a milhões de quilómetros de todos os problemas do dia-a-dia.
Voltámos a tempo de dar ainda mais um passeio a pé junto ao hotel e assistir à excitação das gralhas perante o pôr do sol no Pacífico, um dos mais bonitos a que já assisti.

 Talho em San Jose

 O nosso fiel todo-o-terreno

 Varanda do hotel em Monteverde, onde os macacos-capuchinho vinham pedir fruta de manhã

 Ponte suspensa na floresta das nuvens

A 2 mil metros de altitude, vista sobre o golfo de Nicoya (Pacífico)

querido diário, aguenta aí só um bocadinho

Parece que ganhou a versão diário (desculpem, esqueci-me de avisar que ainda escrevo no mesmo registo dos meus 8 anos, quando confessava vários amores eternos pela fileira de rapazes que me arrebataram o coração desde essa altura). Assim que reúna as forças que se me esvaíram ontem entre a meia-maratona e a festa de aniversário do Gugas, cumpro o prometido.

14 março 2014

entretanto, coisas que aprendi

Sobre os meus filhos: que são feitos daquela matéria-prima resistente, inquisitiva, boa onda, audaz e generosa que nos enche o coração de um misto de humildade e orgulho.
Sobre a nossa família: que gostamos mesmo uns dos outros e prosperamos alegremente em ambientes desconhecidos, no calor húmido, desde a densa floresta de altitude até aos mangais infestados de caimões.
Sobre mim: que tenho de arranjar maneira de conseguir uma vida com menos stress e com mais natureza. Começarei por explorar trilhos em Portugal, que também os há em abundância. Nada me faz mais feliz do que enfiar-me numa floresta e andar, andar, andar. Sobretudo se estiver com os meus amores.

As votações encerram no dia 16 às 23:59. Porquê? Sei lá, foi uma decisão arbitrária - o efeito peace and love já se dissipou quase todo.

13 março 2014

a ressaca

De regresso, engolindo as lágrimas e tentando consolar-me com o sol que finalmente resolveu aparecer por cá. Foi a viagem da minha vida e correu tudo maravilhosamente. Vou lançar um crowdfunding para me financiar a emigração para a Costa Rica assim que encontre um bom argumento para convencer o público de que a minha mudança para lá lhe traz algum tipo de vantagem.
Agora levanta-se a questão: devo escrever aqui sobre os últimos 10 dias? Imbuída do espírito livre e puro que me ficou a circular nas veias, deixo ao vosso critério as seguintes opções (a que tiver mais votos, ganha; em caso de empate, faço as duas alternativas):
a) Não escrevas. Ninguém aguenta ouvir falar das viagens dos outros e ser obrigado a ver fotografias de férias alheias é pior que arrancar um siso (eu voto nesta);
 b) Escreve, mas assim num tom levezinho e positivo, com uma foto com os pés na areia e a dar a impressão que, na tua vida, os astros estão mais alinhados do que os chakras de um mestre yogi;
c) Escreve, mas assim num tom irónico e auto-depreciativo, para parecer que a tua vida tem tanto cocó como a nossa (e tem, depois daquela fruta toda) e que nem tudo corre como imaginamos (pois não, às vezes corre melhor ainda) ;
d) Transcreve o teu diário porque queremos mesmo saber o que sentiste e é sempre bom ter uma desculpa para fazer gazeta ao trabalho.

É favor votar (pontos a dobrar para quem fizer menção ao meu Gugas que fez ontem 7 anos e hoje deve andar a cambalear pela escola, com o jetlag).

02 março 2014

isto não são bem umas férias

No outro dia respondi a um comentário da dona da mota, meio a brincar, meio a sério, que esta viagem (por estas horas já iniciada, se Deus quiser) não se trata de férias mas, sim, de uma visita de estudo. É que, se fossemos de férias, íamos para algum lado horizontalizar, ler, comer e respirar o estritamente necessário. De preferência, sem filhos – toda a gente sabe que essas criaturas são a foice para o descanso estival dos seus desgraçados progenitores, que tanto trabalham o ano inteiro. Acontece que nós somos claramente masoquistas e achámos que isso das férias é para os fracos. Nós queremos mais (trabalho, obviamente). Queremos sair da vida de todos os dias e atirar-nos às cegas para um bocado do mundo mais selvagem e imprevisível. Queremos desinstalar-nos e ver coisas estupidamente bonitas. Queremos virar as prioridades de pernas para o ar e sentir o pulsar da Terra nas encostas de um vulcão. Na floresta tropical. E, sim, em praias paradisíacas. Queremos fazer de conta que somos de lá e, acima de tudo, desejamos que os nossos rapazes vejam que a vida é uma coisa enorme, insondável, em aberto. Que eles cultivem a sede do desconhecido*. De modo que o mais certo é voltarmos exaustos e abananados – mas não é esse o efeito de todas as coisas realmente boas?

*Felizmente, a grande professora do Gugas apoia a nossa política de que a educação não é só feita na sala de aula e nem pestanejou quando lhe disse que ele ia faltar tantos dias. Mas isso fica para um próximo post.

27 fevereiro 2014

mensagem para a gralha em 1985 que também serve para a gralha em 2015

Minha pequenina, sei que gostas muito de desenhar e deves continuar a fazê-lo. Mas esquece lá isso de vires a ser estilista. Tenho passado as últimas madrugadas a cortar e coser fatos de Carnaval para os meus filhos (sim! vais ter filhos! dois rapazes absolutamente perfeitos) e amaldiçoo o dia em que achei que isso era uma boa ideia. É chato. Aquilo não fica nada de jeito. E ando de rastos. Resumindo e concluindo: desenhar é giro, fazer roupas de raiz é péssima ideia. Ainda por cima nunca ligámos por aí além à moda, pois não? (mas imagina lá que esses teus óculos horríveis vão voltar a usar-se em 2014)

26 fevereiro 2014

venha o diabo e escolha

Tendo de optar entre o lastro de uma decisão egoísta e umas colheradas amargas de agrado a expectativas alheias, hesito. Qual o menor dos males, a culpa prolongada ou a contrariedade momentânea? Em teoria, é fácil de responder. Na prática, vou andando e arrastando, tentando convencer-me da minha emancipação, desejando que isto de ser adulto trouxesse os benefícios prometidos pela profilaxia de moralidade que tomei obedientemente desde a infância.

25 fevereiro 2014

boa esperança

Quatro meses a tentar passar o Cabo das Tormentas das minhas tarefas laborais mas macacos me mordam se a brisa do Índico não vale a pena!


Work it Brad, work it.

24 fevereiro 2014

cenários pré-viagem

Tudo corre bem: os voos são pontuais; as crianças sorriem e brincam em paz, deixando os adultos dormir/ler/estar sossegados; fazem-nos um upgrade ao carro de aluguer e o hotel de San Jose tem cortinas e fica num bairro sossegado. Cada viagem é uma nova experiência dos sentidos, a paisagem surpreende, a vida selvagem é abundante e benévola. Todos os alojamentos são pequenas e confortáveis cabanas, com fruta à descrição e anfitriões solícitos. Conseguimos ver o cume do vulcão e não caímos de nenhuma ponte suspensa. As praias são perfeitas, só nossas. O sol brilha ininterruptamente. O mar tem as ondas certas para o surf mas permite o banhar sem sobressaltos dos mais pequenos. A comida é maravilhosa e a cerveja gelada, ao fim do dia. Todos sorriem e dançam à volta de fogueiras. Sonhamos passar o resto dos nossos dias junto ao Pacífico, só para descobrir que nas Caraíbas ainda se está melhor.

Tudo corre mal: perdemos o voo de ligação e as mochilas; os putos queixam-se de 5 em 5 minutos que nunca mais chegamos e eu choro interiormente enquanto tento que durmam encavalitados nos meus ombros exaustos; não registaram a nossa reserva de aluguer e damo-nos por felizes com o único chaço que sobrava, a preço inflacionado. Depois de horas às voltas em San Jose, damos com a espelunca, onde partilhamos quarto com um casal de turistas americanos com ar duvidoso. Não dormimos com o barulho da auto-estrada contígua ao hotel, com o neon a piscar nas janelas, e com medo que nos roubem os filhos ou os rins. Achamos que chegámos ao vulcão mas não temos a certeza, porque está tudo coberto de nuvens e não vemos um palmo à frente do nariz. Chove copiosamente e os miúdos perguntam por que é que continua a ser Inverno. Perdemo-nos nos trilhos, os únicos animais avistados são uma tarântula a tentar comer-nos as sandes e uma cobra que conseguiu entrar para dentro do motor. As praias têm ondas de três metros, tubarões e bandos de pelicanos que nos roubam a mochila. Um coco cai-me na cabeça. Comemos um prato típico recheado de salmonella e o único que resiste à desgraça visceral é o mais pequeno, que se recusa a comer qualquer coisa para além de bananas e bolachas. Contorcemo-nos, dançando, à volta da sanita e não podemos beber cerveja porque só aguentamos chá e arroz no bucho. Sonhamos regressar depressa a casa, não sem antes demorar 14 horas a fazer a travessia até à costa oriental, só para descobrir que nas Caraíbas as praias estão ocupadas por uma convenção neo-rastafari cujos membros tentam oferecer cigarros de cheiro aos nossos filhos. Nós rendemo-nos e aceitamo-los de bom grado.

21 fevereiro 2014

vigília

Respiração acelerada, curta, superficial. Muita tosse e um sono perturbado por crocodilos, ladrões, piratas, maus. A febre sempre à espreita. E eu ali ao lado, a velar-lhe as horas nocturnas. À espera que melhore, minuto a minuto. Como é difícil não fazer nada, não poder resolver. Para esta minha geração de pais, tão informada e pró-activa, é quase uma tortura não ter uma solução rápida para tudo à distância de um clique e de 5 ml de qualquer poção mágica. Mas há mesmo curas que se fazem apenas com o tempo e uma presença silenciosa. Pensando bem, se calhar isso também se aplica a tantas outras urgências da vida.

20 fevereiro 2014

a dura realidade

É que não basta desejar, projectar, desprender-se, arriscar, começar a correr, fazer dieta.

Se for eu a escrever mais um post sobre isto ainda me vêm chamar nomes. Mas, que querem, estes quixotismos vendidos às massas fazem-me espécie.

19 fevereiro 2014

pérola

E depois há aquele dia em que, após vários meses a semear amor, compreensão, ternura, paciência, e a Palavra oportuna, a semente desfaz-se da sua cobertura de disparates, provocações, hiperactividade e atropelos. Abre o coração e deixa voar um bando de andorezinhas aprisionadas. Devolve-nos tudo o que demos a dobrar e sabemos que, independentemente das muitas pedras no caminho, dali sairá bom fruto.

18 fevereiro 2014

conciliar

Identifico-me com os princípios do minimalismo mas colecciono recordações. Professo o ideal clean* porém rendo-me à inverosimilhança de uma existência sem nódoas. Gosto de pessoas e das suas peculiaridades mas preciso da solidão e do silêncio. Quero superar-me e quero dar-me um desconto. Inflexível é mau. Volúvel é pior. Seduzem-me facilmente os lados opostos de um argumento. Sou uma ponte suspensa entre desejos multiplicados e um futuro incerto. Oscilo de passo firme e deixo-me embalar ao ritmo das escolhas e dos condicionalismos. Crescer não ensina a decidir mas ajuda a aceitar a impossibilidade de percorrer todos os caminhos. E a calar a culpa, essa corrupção da consciência.

* Mais um prego no caixão do "asseado"

14 fevereiro 2014

dois corações batendo a compasso

Quem é que leu o título e achou que daqui ia sair uma coisa fofinha? Ah, ah, ah. Como já deviam saber, não há um único osso romântico nas minhas asas. Ainda assim, sinto-me compelida pela sociedade a comemorar este dia de S. Vomitim, mas à nossa maneira (sim, amor, não vamos contentar-nos com aquele beijo que me deste às 7h48 entre as cortinas de roupa estendida e húmida há 3 dias). É por isso que amanhã vamos participar na Corrida dos Namorados 2014 e, mesmo que não ganhemos um dos jantares no restaurante O Cartaxeiro (fazendo figas!), já está garantido o prémio para aquele que, entre nós os dois, fizer mais depressa os respectivos 6 Km: se ele ganhar, tem direito a… isso mesmo que vocês estão a imaginar; se eu ganhar, ele vai limpar o frigorífico e acabar com o glaciar que ameaça expulsar as couvetes. Está-se mesmo a ver que vamos poder abastecer-nos de congelados para o próximo mês. E depois ainda dizem que as relações amorosas já não são como antigamente, suas almas descrentes.

Se interessar a alguém, fiquem sabendo que temos agora o frigorífico mais resplandecente do que uma aurora na Antártida :)

Curiosamente, à nossa maneira, a corrida acabou mesmo por ser um momento romântico. Nunca corremos juntos (alguém tem de ficar com os miúdos) e foi giro participar numa prova em que nos apoiámos mesmo um ao outro.
<3

13 fevereiro 2014

palavras órfãs

Queque. Auscultadores. Gabardina. Cor-de-vinho. Cereais. Senha. Lista de desejos. Conjunto. Aplicação. Correr. Antiquado. Descarregamento. Digitalização. Seminário. Esparguete. Pressentimento. Batido. Gratidão. Extraterrestre. Cuecas. Purgante. Rábula. Concentração. Capuz. Toucinho. Venham a mim, pequeninas, eu continuo a usar-vos ainda que todos vos deslocalizem para as profundezas da memória linguística.

10 fevereiro 2014

de pernas para o ar

Agora és mãe. Se eras uma mulher metódica e organizada, tens de habituar-te ao caos e ao improviso. Se eras descontraída e espontânea, tens de dobrar-te às rotinas e às obrigações regulares. Desejas uma coisa e tens outra (ainda melhor). Sentes dores alheias como próprias. Apagas fogos em bochechas febris com beijinhos. És acrobata e rochedo, ninho e combustível. Redescobres tantas coisas melhor do que da primeira vez. Vives infâncias de empréstimo e assumes responsabilidades com a insegurança de quem nem sempre vê um adulto ao espelho. Dizes muitos sins, muitos nãos, demasiados an-hans. Distribuis abraços em abundância e recebes a dobrar. És a pessoa mais importante do mundo para alguém pequenino e preparas o coração para o dia em que deixares de o ser. Hoje ainda não, amanhã talvez.

Para a minha motoqueira, que me inspirou logo pela fresquinha.

07 fevereiro 2014

ao cuidado do comité olímpico internacional

Caros senhores,

Interpela-vos uma cidadã anónima, amante do desporto (desde que não envolva bolas) e fervorosa defensora do espírito olímpico: como é possível que tenham critérios duplos na organização das vossas provas, contrariando toda a mensagem de compreensão mútua, amizade e solidariedade que afirmam encabeçar? Por um lado, permitem que este mítico evento quadrienal se realize num país que não respeita os direitos humanos mais fundamentais; por outro, só contemplam modalidades praticadas por uma minoria elitista, desvalorizando o esforço de milhões e milhões de desportistas que não vêem a sua excelência reconhecida nos pódios de referência planetária.
Concretizo: desde que um país tenha dinheiro para montar a festa, assobia-se para o lado enquanto se chacina animais, exerce censura ou oprime cidadãos não heterossexuais. Mas se outro país quer participar nos Jogos de “Inverno”, é bom que tenha neve e gelo em abundância. Isto é o absoluto desrespeito pelos países cujo Inverno consiste em temperaturas menos extremas e condições atmosféricas menos postalescas. Onde está o atletismo com rajadas de vento de 120 Km/hora? Onde está a natação em que se sai da piscina para o exterior e se apanha um resfriado com a amplitude térmica? Cadê o salto em comprimento sobre as poças no passeio? E o lançamento de chapéu-de-chuva desvaretado para o caxote de lixo? Porquê ignorar os campeões de resistência à concentração de maus odores corporais em espaços não arejados? Para quando a inclusão do slalom entre goteiras impiedosas nas zonas urbanas mais antigas? E, se insistem no fetiche da neve, onde está o muito amado sku em saco plástico? Há todo um mundo de vivências invernais bastante infernais que não está a ser tido em conta e uma pessoa, parecendo que não, sentir-se-ia reconfortada com o miminho de uma medalha. O chá e os biscoitos já estão um bocado batidos nesse departamento.

Atenciosamente,
Uma gralha encharcada

03 fevereiro 2014

um dois três quatro!

Visto que não é possível ficar a roer estas bochechas de pêssego durante o resto dos meus dias, consolo-me com a incomensurável alegria de ver-te crescido, bom, espertalhão, meiguinho, tão, tão parecido comigo, meu filho (desculpa lá), uma mão quase cheia de anos e o meu coração a transbordar de amor. Parabéns, Diogo :)

31 janeiro 2014

talvez lá vá com foguetes nos pés

Já dizia o bom velho McClelland que precisamos de estabelecer objectivos elevados mas realistas para andarmos motivados. O problema é que o difícil nem sempre é cumprir os objectivos mas começar por encontrá-los. Se uma pessoa não quer mudar de emprego, ter mais um filho, perder peso, aprender uma nova língua, redecorar a casa, sobram os sonhos estratosféricos incompatíveis com a conta bancária e as intenções pouco glamorosas como fazer o melhor possível naquilo em que nos metemos. Nestas circunstâncias, ou nos resignamos a uma existência rastejante ou inventamos asas para voltar a voar.
O que é que eu ainda posso fazer que seja bombasticamente compensador, difícil mas não impossível? Participar nos Jogos Olímpicos. Façamos então umas contas para ver se as anteriores premissas se confirmam ou se tenho de deixar de inalar solventes industriais. No espaço de um ano (e perto de 1000 km corridos), na minha distância preferida (10.000m), consegui melhorar o meu tempo cerca de 13%. Sendo que os mínimos olímpicos estabelecidos para Londres 2012 foram de 31'45'', isso significa que, ceteris paribus, estarei a conseguir esse tempo em... 2017. Como parece que aquilo no Rio de Janeiro está a dar molho, pode ser que eles criem uma categoria suplementar em 2016 para mães-de-família-com-37-anos-que-fazem-uma-feijoada-daqui e eu consiga realizar este objectivo. Ahhh, até parece que já vos vejo a todos colados à televisão, a descascar amendoins e a gritar: "força gralha, tu consegues a medalha!"

30 janeiro 2014

não sei como é que vocês conseguem

Chegar ao fim do dia com energia. Porque eu arrasto-me.
Fotografar lindos pequenos-almoços. Porque ainda estou a descolar as pestanas enquanto preparo almoços e arrumo mochilas.
Ser fadas-do-lar irrepreensíveis. Porque eu esgoto o vernáculo de asneiras ao estender cada máquina de roupa.
Cozinhar com prazer. Porque eu sonho com comprimidos de nutrientes.
Fazer coisas giríssimas com espontaneidade. Porque os meus melhores planos nunca saem perfeitos.
Estar em cima do acontecimento. Porque as notícias me deprimem e enxotam.
Gostar de chuva. Porque eu me molho.
Não elevar a voz com os vossos filhos. Porque os meus nem sempre ouvem à primeira (nem à terceira).
Equilibrar trabalho, vida social, parentalidade. Porque às vezes não percebo o sentido do que faço. Organizar festas dá-me vontade de espetar mini-chapéus-de-sol de cocktail nos olhos. Os miúdos que resolvam os seus próprios problemas. Que eu sou só uma e muitas vezes sinto-me menos do que isso.

Nota-se muito que o outro adulto da família está fora há uns dias?

29 janeiro 2014

escapismo sazonal

É o Walter Mitty, é a colecção resort, é o chilrear imaginário de passarinhos recém-nascidos, é a recordação de tantas coisas boas feitas no ano passado e o desejo de muitas mais, que aguardam, congeladas e em suspenso, que venham dias mais quentes e luminosos. É tudo isto que me dá uma vontade tremenda de acelerar no tempo ou, pelo menos, no espaço, e sair desta altura do ano que me faz sempre sentir agrilhoada num Gulag bafiento. 31 dias para rumar à floresta tropical parecem-me uma eternidade insuportável. Não há mantra nem calendário bonitinho que me façam apreciar estes dias enquanto espero pelo recomeço da vida como gosto de a viver. Ainda ninguém me avisou, mas suspeito que sou personagem de programa televisivo que só passa na temporada de Verão.

Em podendo escolher, posso ser a Cat Deeley  no So You Think You Can Dance?

24 janeiro 2014

o castigo

Se o episódio do super-homem revela em curta metragem a essência do meu filho mais novo, a estória que passo a contar é um apetitoso cartão de visita do meu filho mais velho. Filho maduro e ciente dos seus deveres, mas que não deixa de ter 6 anos e andar com a cabeça no ar, como é de direito.
Depois de, pela segunda vez, se esquecer de trazer uma importante circular da escola, resolvi aplicar um castigo adequado. Com a intenção de o fazer compreender o sentido da responsabilidade, informei-o que teria de passar o fim do dia a zelar pela integridade de um ser frágil e indefeso, a saber: um ovo cru. Personalizando a coisa, desenhei uma cara no dito cujo, e entreguei-o ao seu mentor com recomendações marsupiais. Desde aí, tornaram-se inseparáveis. Aquele ovo viajou do quarto para a sala, da cozinha para a casa-de-banho, mais apaparicado do que um sultão no seu jacto particular. Chegada a hora de deitar e finalizado o castigo, o extremoso progenitor informou-me que não queria devolver o seu novo amigo, que já se tinham afeiçoado um ao outro. Não tivemos outro remédio senão preparar um ninho e aceitar este novo membro da família. O pior é que não vamos ficar por aqui porque obviamente que o «tio» também quer o seu próprio ovo. Bom, sempre dão menos trabalho do que galinhas. E assim aprendi eu a lição que não vale a pena reinventar a roda com pedagogias fofinhas. Alguém se tornou mais responsável com a experiência? Não. Ainda vou ter gemada num tapete? É o mais certo.

15 janeiro 2014

o problema é o seguinte

Estão a ver o mote deste blogue? Já não me vou revendo nele como outrora. Não sei se é do tempo corrido ou uma maré passageira, mas a verdade é que não me apetece gralhar. Isto é, não me dá para falar com ligeireza de um pouco de tudo, com mais ou menos propriedade. Estou com problemas de identidade totémica, não sei onde isto vai dar. Entretanto, os dias sucedem-se cheios de coisas pequenas e grandes, boas, que não se prestam à exposição. Não é pudor, é desnecessidade de validação. Assim me calo e vou apreciando.

09 janeiro 2014

de corpo e de mente

Este artigo do NY Times pode parecer mais um prego no caixão daqueles que convivem com a inércia e com problemas de auto-imagem corporal. No entanto, aquilo que retiro da pesquisa em que se baseia, ainda que incipiente, é a importância de fazermos aquilo que nos dá realmente prazer. Se uma pessoa sente mais prazer em sofazar e comer batatas fritas do que em sair para correr, não há resolução de ano novo de dar uso aos ténis que dure mais do que uma semana. Mas essa pessoa não está condenada a passar 360 dias por ano refastelada a encher o bandulho de porcarias porque não tem apenas a única alternativa de ir correr. O truque está em descobrir o que é que dá gozo e não causa o patético sentimento de culpa que nunca conseguiu converter ninguém ao evangelho da vida saudável.
Uma coisa que me chateia neste estudo é que coloque em lados opostos gordos e magros, como se houvesse uma fronteira física entre ambos. Não vou sequer entrar pelas muitas razões que contribuem para que se entre (e permaneça) em excesso de peso, e que não são uma questão de falta de força de vontade. Nem pelo facto de todos os tipos de corpo terem o mesmo absoluto direito ao respeito e ao desfrute. Pegando só na questão do exercício, dou o meu exemplo, de alguém que nunca teve excesso de peso. Passei toda a vida escolar a odiar educação física, a minha pior nota, o meu desejo eterno de baldanço, o meu motivo de chacota por cada cesto falhado, cada manchete contra os meus óculos, cada tropeção na bola. Odiava, odiava, odiava educação física e convenci-me que era uma pessoa sedentária, sem jeito para desporto. Foi preciso ter chegado aos 17 anos e ter descoberto o remo e o yoga para perceber que mexer-me é uma coisa que pode dar imenso prazer. O que é que mudou? A minha postura perante o meu corpo. O meu corpo sou eu, não é um trambolho que arrasto inevitavelmente. Gosto de o fazer sentir-se bem. Gosto de o pôr a fazer aquilo para que foi destinado – trabalhar, mas trabalhar com objectivos realistas e a devida recompensa. Porque andar a alinhar em modas de exercícios, planos de treinos loucos e outras quimeras externas à nossa vontade pessoal é tão estúpido como escolher uma profissão ao calhas ou ter filhos porque as tias não se calam com essa conversa em todos os jantares de família. A sério, pessoas, dêem-se ao luxo de viver com prazer, ninguém vos vai recompensar na velhice por uma vida inteira de boas intenções e eternas frustrações.

08 janeiro 2014

faltam cinquenta e dois dias



Digamos que é difícil estar sentada na cadeira e não desatar para aí a sorrir e a dançar à chuva.

06 janeiro 2014

os super-poderes de uma grande banda sonora

Adoro esta fase dos meus rapazes, sobretudo do mais novo, em que andam fixados nos conceitos do bem e do mal, dos bons e dos vilões. Ainda que vá desconstruindo um bocadinho essa ideia do mundo a preto e branco, também me parece importante deixá-los explorar estes alicerces da moralidade, criando personagens, desempenhando papeis e escolhendo referências reais e imaginárias. Este é o tempo dos super-heróis e das armas imaginárias. Diariamente sou raptada por malfeitores e resgatada pelos meus bravos salvadores. Às vezes sou ladra, outras polícia. Também vou salvando alguns príncipes em apuros, que isto há limites ao respeito pelos estereótipos da narrativa infantil. O grande fascínio do momento é o Super-Homem, desempenhado pelo Christopher Reeve. E a verdade é que mesmo eu tenho um fraquinho pela estória, sobretudo na versão original.
Esta conversa toda serve para contextualizar o seguinte episódio de espectacular dramatismo do meu cavaleiro andante com quase quatro anos de idade. Aquela amostra de gente vive tudo com tal paixão e arrebatamento que só posso imaginar que venha a ser um grande artista. Ou um grande farsante. Senão, vejam:
O cenário: À mesa, durante o jantar.
Os personagens: Pais e filhos.
O enredo: Filhos devoram gigantes pratadas de massa com atum. Pai põe a tocar na estereofonia o tema principal do Super-Homem, do John Williams. Mãe começa a dançar na cadeira e filhos seguem-lhe o exemplo. Eis senão quando, filho mais novo começa a ficar com os olhos marejados de lágrimas, o beicinho a despontar, e desmancha-se numa choradeira monumental, com direito a ataque de tosse e metade da refeição devolvida à procedência. Sobrecarga de emoção para quinze quilos de criança.
É muito exagerado, este meu filho. Até parece alguém que eu cá sei.

P.S. Para quem esteja a precisar de uma purga gastroemocional pós-festas, cá vai uma ajuda.

03 janeiro 2014

retrato de hoje

De vez em quando preciso de fazer este exercício: olhar para o tempo presente e fixá-lo em palavras. Porque não chegam as imagens no Instagram e, infelizmente, a memória já não é a mesma.
Por estes dias tenho fraca vontade de trabalhar, mais por dificuldade em vencer um obstáculo técnico do que por preguiça. Não tenho novas metas para a corrida, o que é um bocado estranho. Vou fazendo os meus treinos habituais até surgir um desafio interessante. Estamos a planear a tão ansiada viagem ao paraíso da biodiversidade e oscilo entre a excitação tremenda e o receio que algo não corra bem. Prestes a celebrar 7 anos de casados, acho que a nossa relação está igual ao que era desde o início. Não sei se é bom, mau, ou se não quer dizer nada. Conhecemo-nos muito bem e, no meio das nossas diferenças graníticas, encontramos cada vez mais um fundo comum de princípios e respeito mútuo.
Os rapazes estão crescidos, claro. O Gustavo sempre entusiasmado com a escola, a ler cada vez mais depressa, curioso, introspectivo, meigo e paciente. Trocou a namorada que já vinha do Jardim de Infância por uma pirosona. Os rufias do segundo ano têm dado tréguas e ele vai ganhando alguma confiança para lidar com os miúdos imbecis e malcriados as crianças que não têm o devida estrutura emocional. O Diogo está a ganhar vocabulário a uma velocidade incrível e continua a não conseguir pronunciar os érres enrolados. Ainda se sente minúsculo na escola e vinga-se um bocadinho no mano. Tem uma namorada com 6 anos (acha ele...) mas continua a querer casar-se comigo. Está a comer muito melhor. Adoro vê-los brincar juntos, ainda que comece a haver algum confronto físico. E delicio-me quando partilham livros, gargalhadas, carrinhos e bolachas.
Assim é a nossa vida no início de 2014. Não podia ser mais banal mas acho que não a trocava por nenhuma outra.

31 dezembro 2013

o melhor de 2013

2013 foi um ano de crescimento e de auto-conhecimento, que é uma maneira bonita de dizer que houve dureza, deserto e angústias mas lá se chegou ao fim com um braseiro vivo no coração. No meio de tudo, há muito para agradecer. Não esqueço as pessoas que partiram. Não esqueço as que tiveram pequenos gestos cheios de carinho e entrega. Espero ter feito menos mal que bem e tentarei fazer melhor para o ano. De recordação, ficam estes e outros momentos.

Melhor refeição: jantar na Casa Nepalesa, num belo fim de tarde de Verão. Pelo conjunto da obra – a comida absolutamente perfeita, a simpatia do serviço, os meninos portando-se como anjos.
Melhor mergulho no mar: na praia do Barril, uma hora seguida a nadar ao fim da tarde de 15 de Agosto.
Melhor gargalhada: incontrolável, imparável, no casamento de uma amiga (uma vergonha, eu sei).
Melhor livro: The collected stories of Lydia Davis.
Melhor filme: Vi pouquíssima coisa este ano – e menos ainda filmes de qualidade. Se me apontarem uma pistola à cabeça, escolho o Gravidade do Alfonso Cuarón.
Melhor música: Qualquer uma dO Grande Medo do Pequeno Mundo, do Samuel Úria (e agora baixinho: e o Get Lucky dos Daft Punk)
Melhor série: Breaking Bad. Ainda estou em negação por ter acabado.
Melhor momento: cruzar a meta da minha primeira maratona (what else?).

Tenham um 2014 com muito amor, sentido, verdade, entusiasmo, saúde e uma boa almofada onde cair nos dias em que faltar o resto.

27 dezembro 2013

alguém me faça largar os coscorões e agarrar-me ao trabalho

Se fosse minha superior hierárquica, despedia a minha pessoa neste momento. Esta que vos escreve devia estar a debitar HTML para o bem da humanidade e, pelo contrário, está para aqui a anhar e a arranjar desculpas.

Mas é que os rapazes ainda devem estar de pijama a ver o Super-homem original, a comer tarte de abóbora e a fazer festas ao cão com os pés. Não é justo, não é justo.

26 dezembro 2013

o nosso natal

O nosso Natal são três. É a véspera sossegada com os meus sogros. É a manhã luminosa só a quatro mais um (o meu Matias velhote). E é o dia completamente barulhento e cheio de animação com a minha família materna. Damos muitos abraços. Inventamos tradições novas todos os anos. Comemos o melhor peru do mundo (e muitas outras coisas boas). Pregamos partidas aos primos. Reaprendemos papeis, agora que a festa se faz a três gerações. Roubamos os presentes uns aos outros e falamos a mil à hora, provando aos ramos italianos da família que os portugueses conseguem ser ainda mais ruidosos do que eles. O Natal cristaliza estas relações, obriga-nos a parar e olhar uns para os outros. Reparamos em novas rugas, posturas mais curvadas, miúdos que esticaram, olhares um pouco tristonhos e preocupados, mas ficamos sempre muito felizes por estarmos juntos, por sermos cada vez mais, por termos tanta coisa por que nos sentimos agradecidos. Temos um Natal privilegiado em muitos sentidos mas o maior de todos é a graça de uma família tão grande e cheia de gente boa.

20 dezembro 2013

pequenas mas boas

A Melissa tem andado a partilhar o seu diário de gratidão e, embora não esteja com energia para aderir a esse ritual com a mesma regularidade, reconheço os benefícios da prática (às vezes, a única maneira de desenterrarmos um sorriso ao fim de mais um dia deste Dezembro que nunca mais acaba).
Quero, pois, partilhar o prazer que senti ontem com o ar fresco na cara, no meio daquele vendaval louco que passou por Lisboa. E a doçura do meu minúsculo, cativando-me às 8h com uma grande ranhoca a sair do nariz. E a alegria de ter conseguido fugir uns minutos para dançar com o maiúsculo na festa de Natal da escola. Mais o facto de ter ontem nascido uma menina linda da minha homónima. E ainda os chocolates e elogios da minha fantástica chefe. Ena, tanta coisa boa. Obrigada.

Já agora, feliz Natal! Se há sinal de esperança, é Aquele que nasce pequenino em cada ano e nos ajuda a crescer um pouco mais. Com todas as alegrias e tristezas que fazem parte do percurso.

Esforço-me tanto por criar estes títulos que podem dar azo a visitantes inexperados vindos de buscas no google e, até agora, ainda nem um maluquinho me bateu à porta. Humpf.