27 outubro 2014

duratrail 2014

Há quem corra por todas as razões, desde a balança, ao desafio e à superação própria. Eu corro por prazer. Sobretudo o prazer de descobrir novas paisagens. Por que não a andar? Porque demora muito e descobrem-se menos paisagens.
Feita a introdução, traço agora um retrato breve da prova de ontem, para quem queira deixar-se morder pelo bichinho.
Acordei às 3h30 com a excitação. Às 6h30 fui buscar a minha boleia e lá fomos para Setúbal. Levantámos os dorsais e fomos tomar café, enquanto ele me contava aventuras passadas e planos futuros (só maluquinhos da corrida aturam esta conversa mais do que 10 minutos). Às 9h foi dada a largada e, a partir daí, o prazer nunca mais terminou. O prazer de subir ao alto da serra e ver o sol a despontar por trás de Tróia. O prazer de ir fazer um chichi no meio da mata e espetar-me nuns ramos cheios de espinhos. O prazer de fazer os primeiros quilómetros a ritmo de caracol porque ia tudo em filinha - mas assim deu para tirar fotografias. O prazer de muitas subidas e descidas íngremes, daquelas em que percebemos pela primeira vez que temos determinado tipo de músculos. O prazer das melhores laranjas do mundo no primeiro abastecimento. O prazer de lidar com voluntários impecáveis, numa prova irrepreensível em termos de organização. O prazer de ser acometida de câimbras porque parei demasiado tempo a comer laranjas. O prazer de conhecer alguém que ia ao meu ritmo e puxarmos uns pelos outros (olá Márcia!). O prazer de passar pelo leito de ribeiras com água fresca pelo joelho. O prazer de escalar pequenas paredes e de descer por caminhos tão apertados que até eu tinha de ir de cócoras. O prazer de superar as câimbras e conseguir ir conquistando lugares, uns atrás dos outros. O prazer de chegar à praia e insultar quem desenhou o percurso e fez-nos correr duas vezes pela areia seca, enquanto os veraneantes apanhavam um solzinho bom. O prazer de sprintar até à meta, indiferente a tempos, a velocidades, à tosse que me fez sempre companhia, e cruzar a meta com um grande sorriso. Tanto prazer, que quase nem faz diferença ter ficado em 5º lugar do meu escalão, apesar de ter demorado o que me pareceu uma eternidade. Será que posso deixar o meu emprego e virar Carlota Sá? Umm, não me parece. Mas enquanto continuar a ter oportunidades assim, estou muito feliz :)

24 outubro 2014

adeus, mundo cruel

Há uma probabilidade assinalável de eu falecer amanhã, ou pelo menos de cair de uma ribanceira abaixo e ficar em tal mau estado que passo a só conseguir expressar-me com uma palhinha ligada a um computador. Deposito toda a esperança de sobrevivência na caridade de um companheiro ultramaratonista, que está coxo, e é capaz de ter piedade de mim e deixar-me segui-lo como um cachorrinho desorientado e cheio de tosse. Se mesmo assim a coisa der para o torto, aqui ficam algumas confissões que me deixam partir mais descansada:
a) Risquei um automóvel cinzento estacionado na esquina da R. Afonso Lopes Vieira com a Av. da Igreja, em 2003, salvo erro, e não deixei um papel com o meu contacto. Depois disso já risquei muitos outros carros, paredes, pilaretes e árvores mas nunca deixei de reconhecer-me culpada, ao menos isso;
b) Quando o Matias faz chichi na entrada do prédio que tem aquela porteira muito chata e mal-educada, às vezes olho para o lado;
c) Todos os panfletos e cupões publicitários que me chegam ao correio vão parar à caixa do vizinho do 1º andar, que teima em abrir a porta a toda a gente sem perguntar ao que vêm.
Beijnhos e sejam felizes.

23 outubro 2014

estou cheia de avessos

Dia de ser o pai a tratar deles. Mesmo antes de ir para a escola, ouço o mais novo queixar-se de não conseguir dobrar o pijama, que está todo cheio de avesso. Pouso a caneca de chá, dobro o canto da página e fecho o livro, com um sorriso. Aparentemente, isto dos filhos, do livro e do chá fazem de mim uma impossibilidade ontológica, mas sobre isso já alguém disse aqui o que eu penso sobre o assunto. Sem o saber, o meu filho acabara de descrever o meu estado de alma nos últimos tempos. Nunca escapo às minhas próprias armadilhas. Era previsível o falhanço de alguém que se sustenta na aparente solidez de determinadas premissas obviamente perecíveis. De entranhas reviradas, sem voz, arrasto os pés pelos dias fora. Nem força há para resmungar decentemente. Mais do que nunca, as orações são lançadas como garrafas de náufrago. Sempre com esperança de salvação, sempre com medo de apanhar com a garrafa de volta no toutiço. Antes de saírem, os meus rapazes passam por mim e beijam-me em sítios inauditos, com medo do contágio. Tenho um cotovelo, uma nuca e um umbigo cheios de sorte. Posso estar de pernas para o ar, mas estou em boa companhia.

Andei esta semana a escrever num .doc o que antes fazia aqui. Este exercício diário pode não servir um fim maior do que o meio, mas faz-me falta. Quem quiser ler, que leia. E agora vou ali comprar um apito.

17 outubro 2014

este estabelecimento está encerrado para balanço

A verborreia não é sinónimo de uma mente cheia de ideias. Nem o silêncio implica ausência de opinião. A actividade frenética não é genialidade incontida e a contenção nem sempre é falta de coragem. Dizer muito, falar muito, opinar muito não esgota os argumentos, porque estes são como a água e regressam sempre à nascente. Mas há torrentes de palavras que ensopam espaços de sequeiro que precisam de apanhar ar. A inundação constante apodrece as sementes de novas ideias. Haja vazio, algum tento na língua. E menos ego, menos.

16 outubro 2014

aceitar que se é uma pessoa extremamente irritante

Os meus pais nunca me levaram ao psicólogo e por isso ainda não descobri ao certo a origem dos meus problemas de sociabilidade. Durante algum tempo achei que era por não ser do tipo disruptivo e gostar de aprender coisas, ao passo que os outros preferiam baldar-se às aulas, comentar quem não usava calças Uniform e ouvir aquela música insuportavelmente nasalada, acho que era Britpop. Depois fiquei estúpida e perdi a memória de curto prazo com as gravidezes (nunca passou). Continuei a não estar à vontade no meio de pessoas com mais de dez anos de idade. Mas não é por falta de afinidades com a população não infantil, há muitos adultos que não gostam do mesmo que eu, se bem que seja mais difícil encontrar quem goste do mesmo, sobretudo no plano ideológico-desportivo-confessional. Enfim, até há indivíduos tolerantes que suportam a convivência com beatas frenéticas feministas. A dissonância cognitiva tem o seu quê de atraente no primeiro embate, pode demorar um bocado até fartar.
Finalmente acho que estou na pista certa para diagnosticar o problema: de todos os meus defeitos mais ou menos admissíveis, o que não se aguenta é esta mania de acordar cedo e bem disposta. De uma forma genuína e não só a fingir, para ilustrar instagrames de pequenos-almoços. Isso ofende. É uma maneira muito feia de apontar o dedo à cara de cada cidadão honesto que se levanta a rosnar e leva o seu tempo a ficar de bem com a vida. Viver todos os dias é difícil, é preciso muita arrogância para achar que se pode começar logo a abrir. Compreendo-vos, pessoas. Se conhecesse alguém como eu também tinha alguma vontade que lhe caísse uma bigorna na cabeça. Já tentei deitar-me tarde e consumir substâncias inebriantes, para ver se isto amansava. Acordei cedo na mesma, rabugenta, e não fiz um único amigo nesse dia. Não há nada a fazer, não nasci para ser socialmente aceitável.

15 outubro 2014

fw 2014-2015


Os modelitos da estação, sem ordem definida. Como sempre, sem grande coerência estilística ou temática. O Clarice é o meu vestidinho preto, que nunca compromete. O Joyce, a gabardina bege que me desfavorece a tez mas protege da degeneração das sinopses afectadas por aquela coisa previsivelmente pirosérrima dos Beautiful Forevers. Não falta o outfit de desporto nem as últimas tendências pulitzerianas e newyorktimianas. Assumo o risco de não serem o mais adequado ao meu biótipo mas a pressão social é grande, como a porcaria das skinnies que nunca mais se vai embora de uma vez por todas.

14 outubro 2014

paliativos

Aquilo de gostar do frio e da chuva porque uma pessoa se enrosca nas mantinhas, nos gatos, nas chávenas de chá, nos chanatos, no namorado, e fica toda consolada.

Ou

Ter uma dor de cabeça lancinante, o jantar para fazer, os miúdos a gritar-nos aos ouvidos, e tomar uma aspirina, encomendar pizza e calar as criaturas com o Mickey em loop, respirando de alívio.

Igual.

Prefiro calor, sol, jantar numa esplanada com o namorado e qualquer enrolanço posterior não ser apenas um gesto de conforto rotineiro.




13 outubro 2014

porto

Descobrir alguma coisa em conjunto, em havendo atenção, é alcançar a sinestesia. Um delicia-se com a melhor confeitaria do mundo e tem de inventar apetite para acomodar a francesinha do almoço. Outro anda à escuta de fantasmas na secção de poesia da Lello & Irmão, a única livre dos turistas que zumbem em redor dos escaparates à entrada. O outro admite que, sim, afinal via-se a viver no meio daquela deliciosa falta de rigor urbanístico e com a simpatia genuína dos autóctones, “só é pena dizerem tantas asneiras, mamã”. Eu recorro à estratégia infalível de calçar as sapatilhas ir ver as vistas a onze quilómetros/hora. Respiro o cheiro setentrional das ruas cobertas de granito e aceno aos velhotes de Miragaia. Dizem-me que eu sou a máior e eu acredito. Afinal, estou numa cidade que inflaciona despudoradamente a fé no melhor que há nos céus e na terra. (ouvi dizer que em Lisboa chovia. Estava-se muito bem ao sol nos jardins de Serralves e os miúdos apanharam dezoito castanhas)

10 outubro 2014

remediando uma educação negligente

Sou adepta da pedagogia pelo exemplo e pela prática. Isto já não podia continuar assim. Anos a fio a convencê-los demonstrar com simplicidade que vale a pena torcer pelo azul e branco, tarefa particularmente complicada nos últimos tempos, já fazia falta uma visita de estudo há muito devida. Que isto de criar portistas em Lisboa não pode ser só para ganharem carácter e estarem habituados a remar contra a maré, por muito importantes que sejam essas competências. Mais que adeptos de um clube, quero-os amantes de uma região, de uma latitude onde também têm raízes. Hoje vamos subir por essa A1 acima e só paramos depois de atravessar aquele rio doce como o vinho que dele bebe.

09 outubro 2014

altas pressões

Hoje estou a ter um dia tão stressante, tão stressante, tão stressante que até sou capaz de fazer subir a pressão atmosférica de Portugal Continental ao ponto de obrigar a chuva a voltar para as nuvens. Isso e também se dá aquele efeito de cansaço que me faz dizer piadas imbecis destas, como quando já bebi muito mais do que a conta. Segundo me lembro, porque já não acontece há que tempos.

08 outubro 2014

o meu único problema

Não conseguir, de facto, encarar-me com sentido de humor. Uma coisa é rirmo-nos das nossas falhas e fragilidades, o que esperam que façamos para demonstrar maturidade. Outra coisa é conseguir realmente a distância necessária para perceber a pequenez dessas coisas e ficar de bem com a vida. Que fique claro: as piadas que faço à minha custa são ainda mais retóricas do que aquelas perguntas com que confrontamos os amigos íntimos, esperando a confirmação de alguma coisa que já temos como certa. No dia em que me livrar da melancolia e achar graça à minha finitude, serei livre. Provavelmente no caminho da senilidade.

07 outubro 2014

as mentiras das pessoas

Falamos sempre sobre os nossos desejos, e tentamos esconder-nos desesperada e inconscientemente. A vida torna-se quase interessante, quando já aprendeste as mentiras das pessoas, e começas a desfrutar e a notar que dizem sempre uma coisa diferente daquilo que pensam e querem realmente. Sim, um dia chega o reconhecimento da verdade: e isso significa a velhice e a morte. Mas então isso já não dói.

in Sándor Márai, As velas ardem até ao fim

06 outubro 2014

a cada um a sua meta

Ontem o meu marido correu a sua primeira maratona. Neste momento está ainda mais contente do que empenado, e olhem que parece um morto-vivo de um filme de série B. Um lindo morto-vivo com um sorriso contagiante. Coloquei tanta fé nele que até me fui embora antes de ele cruzar a meta, por estar convencida que já o tinha feito há imenso tempo de certeza absoluta (estava incontactável). Bela mulher que lhe saiu na rifa, não haja dúvida.
Ontem o meu filho mais velho completou a sua primeira mini-maratona. E ficou quase tão coxo e feliz como o pai. Recebeu a medalha com a solenidade de um pódio dos Jogos Olímpicos. Coisa que acontecerá um dia, não duvido – provavelmente noutra modalidade.
Ontem o meu filho mais novo esteve refastelado no tabuleiro da ponte Vasco da Gama enquanto lhe faziam massagens. Foi levado de carrinho e ganhou um gelado mais duas medalhas. Como é que algum dia há de perceber que o esforço compensa, isso já não sei.
Ontem fui só espectadora. Gritei, bati palmas, dei tantos high-fives que tenho um dedo inchado. E percebi como é complicado conciliar dois papeis que mantenho separados, o de atleta e o de mãe. Enquanto tentávamos, a custo, ultrapassar as massas de excursionistas que desfrutavam do passeio domingueiro sobre o Tejo, invocava todas as fadinhas da Floribela para não mandar dois berros ao miúdo de sete anos que tentava acompanhar-me, de língua de fora.
Há que aceitar o que é irreconciliável: a mãe boa e paciente precisa de manter-se longe da mulher dura e lutadora. A primeira retira energia da segunda, e esta alimenta-se da paz da primeira. Mais vale dar espaço ao triunfo discreto de cada uma do que aspirar à perfeição completa e virar mumzilla.

03 outubro 2014

chanoyu

A poeira toda de Atacama* levantou-se esta noite, pegou nas saias e entrou-me sorrateiramente pelas fossas nasais, assentando na minha garganta. Arde e está seca. Então calo-me. Se as palavras são inevitáveis, deixo-as sair com a parcimónia e delicadeza de quem serve o chá a preceito. Devia ser sempre assim. Falar como dádiva e não como imposição. Sussurrando, ouvem-me com cuidado. E regressam à zona de ruído com a serenidade de quem acabou de emergir de um mergulho prolongado.

* Sempre fonte de inspiração, Capotada.

02 outubro 2014

lista de actividades voluntárias que nunca vão constar do meu currículo

1. Dirigente de Associação de Pais.

(esta lista nem vou fingir que vou continuar um dia, mas explico: todo o meu voluntarismo, que até é em grau generoso, tropeça, cai, rebola e foge perante situações que envolvam muitas mãezinhas juntas a lutar furiosamente pelos seus petizes, cruzes credo. Sim, dona da mota, acho que és um bocado doida por te meteres nisso. Mas já te achava um bocado doida de qualquer forma)

01 outubro 2014

lista de expressões paternalistas que me enervam

1. "As gentes de (inserir nome de terra do interior)"

(em actualização)

30 setembro 2014

mulheres a valer mesmo a valer

Ou homens, aliás. Não são aqueles que têm a minha vida fácil em que opto por acordar mais cedo ou mais tarde, o que como e o que visto aos meus filhos. Vida muito fácil e por vezes distraída disso. Até reparar que uma encomenda de livros que faço sem pensar duas vezes antes de clicar no botão do checkout é uma decisão custosa para outras pessoas mesmo ao meu lado. Que se levantam de madrugada mas é para apanhar os dois autocarros até ao trabalho. As penas dos outros não servem para me aligeirar as queixinhas, é claro. Os outros sofrem e triunfam alheios ao meu andamento. Têm a sua realidade, eu tenho a minha, diferente por muitas razões, que ainda assim não deixa de alargar-me um pouco a perspectiva quando já ando com a cabeça completamente enfiada num sítio que eu cá sei.

29 setembro 2014

tutoriais de maquilhagem para mulheres a valer

Não devia estar a partilhar isto aqui convosco, correndo o risco de ver inundado este nicho de mercado, mas acho que acabei de ter uma ideia genial. No mínimo brilhante. Estão a ver aqueles vídeos muito castiços no YouTube – e agora aproveito para reconhecer que o uso da palavra “castiço” não é inocente, já estou a valer-me das técnicas de marketing que aprendi no curso sobre comunicação em redes sociais da CEAC –, aqueles vídeos, dizia, em que há umas meninas adolescentes que ligam a câmara do portátil enquanto se arranjam para ficarem giríssimas (lá está, não sei qual é o termo que elas usam agora, só domino o vocabulário das trintaneiras)? Ora pois, se há tanta gente a subscrever canais que ensinam a disfarçar o acne e a fazer coques semi-casuais, enquanto se esmera o beicinho, por que não há de haver ainda mais público para um canal que mostra como uma mulher a sério se arranja de manhã?
É que, desculpem lá, não há grande arte em encher de pó uma testa e nariz reluzentes, aplicar um bocadinho de máscara e dar risadinhas fofinhas. O que é de mérito é passar noites em vigília a filhos doentes, não ignorar o despertador das 5h35 que nos manda ir correr à chuva, tomar duche enquanto se grita para que alguém não se esqueça das cuecas, e ainda conseguir vestir-se, pentear-se e maquilhar-se de forma a parecer um ser humano com bom aspecto. Requer muita prática. Capacidade de adaptação. E também ajuda ter sempre à mão um pacote de toalhitas para limpar as nódoas de pasta de dentes de morango que nos aterram no figurino quando já estamos atrasadas. Mas já chega de dicas gratuitas, que ainda vou ficar rica à custa disto.

26 setembro 2014

a alegria no trabalho

Nos últimos dias, tenho andado de roda de livros. Muitos livros. De arquitectura, direito, economia, inovação, sociologia, urbanismo. Com formatos diferentes, capas mais ou menos vistosas, todos eles compilando o trabalho de tanta gente que se reúne neste centro para fazer pesquisa. É bom sentir a materialização do esforço, ainda que seja uma pequena amostra do impacto do sistema de investigação e desenvolvimento nacional, tão maltratado nos últimos tempos. Às vezes, àqueles como eu que trabalham com metas distantes e resultados intangíveis, faz falta esta possibilidade de agarrar o produto de meses de esforço.
Lidar com livros também me recorda de quando trabalhava na biblioteca e desempenhava funções bem diferentes, completamente taylorizadas, medidas à peça, diariamente. Nessa altura era uma operária que classificava e arrumava, transportava carrinhos e chegava ao fim do dia com a sensação maravilhosa de ter cumprido cento e vinte porcento dos objectivos. Ou seja, não só passava os dias em absoluto silêncio, rodeada de luz poeirenta e de livros centenários, como ainda me davam a possibilidade de brincar ao Quem Consegue Etiquetar Mais Volumes Por Hora. E de extravasar a contrariedade de estar onde não queria com uma marreta de borracha, ajustando prateleiras à martelada e perturbando o estudo dos betinhos da Ivy League. Qual meditação, qual carapuça.


Créditos da imagem: Mark Anderson, Andertoons.

25 setembro 2014

o início oficioso do ano lectivo

Nenhum a chorar quando fica na escola.
O caminho cheio de folhas húmidas e mal-cheirosas.
Eles a molhar os biscoitos no leite. Devagarinho.
A coberta na cama e o chá aquecido.
Este ano não há primeiras chuvas - visto que nunca se ausentaram - mas já chegou o primeiro ranho.
Por muito que me esforce em focar-me nos detalhes ternurentos, faço em simultâneo a lista mental para a farmácia: soro, loção para os piolhos, neo-sinefrina.

24 setembro 2014

a maldição do impinging

Se em todas as situações da vida fossemos constantemente assediados para mudar como o somos pelos fornecedores de serviços de televisão, comunicações e dados, desconfio que a civilização estaria em risco de colapsar.
Quer continuar a usar essas botas? Mesmo que lhe sirvam bem, estas aqui são muito mais resistentes e poupam-lhe imenso em meias-solas.
Acha que esse emprego lhe convém? Não pagamos mais mas as nossas fardas são muito bonitas, oferecemos-lhe uma esfregona nova a cada dois meses e a máquina de café é daquelas de cápsula.
E já pensou mudar de marido? Certo, esse já está macio e confortável do uso mas não será preferível apostar num modelo actual, com mais memória, que suporta novas aplicações como a capacidade de meter a roupa suja no cesto e um medidor de níveis hormonais por bluetooth? O quê, minha senhora?, não compreendi a sua pergunta. Se é compatível com o sistema operativo da senhora, que é de 1979? Bom, é capaz de ser complicado mas também lhe posso vender aqui um dispositivo muito jeitoso que lhe permite aumentar a capacidade de processamento. E, sem custos adicionais, uma finíssima capa em pele, design italiano, que a deixará como nova. Não desligue, minha senhora! Quanto é que está a pagar, se não é indiscrição? Nós fazemos-lhe um desconto, sem período de fidelização. Seja como for, o meu colega da concorrência vai ligar-lhe amanhã a cobrir a minha proposta.

23 setembro 2014

reis na barriga

Estou um bocadinho cansada das pessoas que confundem bondade com burrice, simpatia com falta de espírito analítico. Sei que há determinadas características que passaram de moda porque parecem contrariar a urgência do individualismo e da ambição umbiguista, mas era bom que quem se agarra à bóia do cinismo e da crítica constante percebesse que do outro lado da conversa pode estar alguém que sorri em silêncio porque rejeita até a atitude paternalista de tentar mostrar ao outro, com bons modos, que pode estar enganado.

22 setembro 2014

aceito sugestões. mas com pouco sangue, já agora

Acabámos ontem de ver o True Detective. Estive à espera de ser conquistada até ao último episódio mas, embora reconheça que os moços vão bem no (muito batido) papel de agentes com problemas existenciais e sotaque intransponível, não me caiu no goto. Ou seja, se calhar não valia a pena ter passado por aqueles longos minutos de sofrimento e suspense, e arranjar uma tal camada de nervos que fiquei cheia de vontade de voltar a ficar sem luz na madrugada monsantina.
E então, o que é que vale a pena nesta nova temporada de séries? Quero ver se apanho o The Leftovers, que deve ser mais uma para durar só uma temporada mas afaga as minhas ânsias pós-apocalípticas. O Manhattan também merece uma espreitadela, pode ser que seja um bocadinho menos forçado do que o The Americans no que diz respeito à conciliação entre factos históricos e a credibilidade do enredo ficcional. Espero que a segunda temporada do Les Revenants comece de uma vez por todas e a ver se me lembro de ir procurar o The Knick. Lá terei também de picar o ponto, um bocadinho contrariada, no Mad Men e no Shameless. Senhores argumentistas, não quero pressionar-vos mas já criavam qualquer coisa nova bem sumarenta, heim?

21 setembro 2014

alqueva

Prometo solenemente não voltar a afirmar que este ano não houve Verão. Não durou mais de 48 horas, mas não faltou nada:

 Crianças a desempenhar funções para as quais não estão devidamente habilitadas

 Momentos de cumplicidade intergeracional (n.b., o único animal capturado nesta cena foi um tio de 80 quilos que saltou de dentro de água)

 Recriação de cenas cinematográficas extremamente pirosas

Nasceres do sol aguarélicos

E até a imperativa imagem dos pezinhos de molho

Também se nadou, comeu e bebeu muito bem, mas era só o que faltava, estar a pôr aqui fotos minhas em bikini a deitar abaixo um cozidinho de grão (e tudo o resto).

18 setembro 2014

sublimação

Admito que prezo com paixão sanguinária a minha liberdade. Será porventura dos traços que mais marcam a minha personalidade. Apesar de ser uma filha muito tardia do 25 de Abril – ainda andei de jardineiras castanhas e camisolas de gola alta amarelas mas nunca fui às cavalitas a manifestações do 1º de Maio – faço parte desta geração de herdeiros inconsequentes da liberdade. Ela não é uma conquista, é mais uma evidência.
Os da minha idade puderam escolher curso, namorados, profissões, trabalhos, onde queremos viver, com quem queremos viver, se e quando temos filhos, que amigos fazemos e mantemos. Mas é tão ilusória esta noção absoluta de liberdade. Todas as escolhas são condicionadas pelo nosso contexto particular e volúvel. Num dia somos a jovem universitária com um futuro promissor, no outro somos a mãe divorciada que não consegue esticar a carteira no mês de Setembro.
Liberdade é o tanas. Liberdade são breves momentos em que vimos à tona numa vida cuja maior fatalidade pode nem ser a hora do fim que, já agora, também gostaríamos de poder escolher.
Mesmo assim corremos atrás deste direito inalienável que é a liberdade. Chegará talvez o dia em que esta sede de controlo nos fará querer dominar em absoluto o nosso tempo e o nosso espaço, as pessoas que lá deixamos entrar, até nos sentirmos absolutamente livres, no topo da montanha. E completamente sozinhos, porque isto de encarar grandes desafios em conjunto implica conciliar ritmos e vontades diversas. Livres, sozinhos e tão leves que poderemos dissolver-nos no ar.

17 setembro 2014

desigualdade de género

Esqueçam os tiques, os maneirismos, os hemisférios cerebrais, as aptidões para as actividades físicas, as apetências para os desarranjos emocionais, as piadas, as teorias e os manifestos: aquilo que distingue os homens das mulheres é que estas invejam a relação que os homens têm entre si enquanto os homens se estão marimbando lá para essa coisa insondável que são as amizades femininas.

16 setembro 2014

como se não bastassem os genes

Todo o tempo que passamos com os nossos filhos é determinante para as pessoas que se tornam. Nada lhes passa ao lado, aquelas esponjinhas têm sempre as antenas no ar. Depois, com aquele jeito atabalhoado de nos amarem e admirarem, acabam por replicar comportamentos. Pelo menos enquanto não chega a revolta da adolescência, o que fazemos está perfeito. Se não parece perfeito, o defeito há de ser deles, filhos, que não compreendem. Um livro que li recentemente, A Arte de Chorar em Coro, chamou-me mais uma vez a atenção para isso. Mas nem era preciso entrar no campo da ficção: vejo a forma como os meus filhos copiam o meu tom de voz sarcástico, ou uma resposta seca do pai, e encolho-me. Nem tudo é mau, noto que também absorvem intuitivamente as atitudes de generosidade e de paciência. A responsabilidade parental vai tanto além das garantias básicas de amor, segurança, educação. Sem darmos por isso, estamos a criar personagens de uma narrativa própria de cada família e a dar o tom para a acção em todos os outros cenários da vida. Para o bem e para o mal.

15 setembro 2014

até ao fim do coração e mais além

No dia em que se assinalam os vinte e cinco anos desde que perdi o meu querido Avô para aquela doença da qual ninguém gosta de dizer o nome, aquece-me o coração recordar a vida de quem lutou contra ela com uma nobreza inigualável e marcou muitos dos que tiveram a sorte de com ela se cruzar. Ninguém como a Ana Casaca para pegar nessa crua jornada, tratando-a com a honestidade e doçura que merece e transpondo-a para o seu novo livro Viagem ao ao Fim do Coração. Vemo-nos hoje no lançamento, meninas.

13 setembro 2014

se tivessemos lá ficado

Mais uma carta no baralho dos what ifs desta vida: e se, há três anos atrás, tivéssemos ficado nos EUA em vez de regressar a Portugal?
É muito difícil adivinhar onde estaríamos, na verdade, porque há muita mobilidade no meio da investigação pós-doc e não é natural que continuássemos em Princeton. Talvez tivéssemos ido suportar os ventos gelados do Illinois, talvez estivéssemos a torrar num laboratório ultra-secreto do Arizona, quem sabe?
Se prolongássemos a estadia na Costa Leste, pelo menos teríamos o prazer de quatro estações do ano bem definidas. Os rapazes ja teriam um cerrado sotaque nova-jersiano (que felizmente perdemos, uff!) e já saberiam as regras do baseball. Brincaríamos na neve no Inverno, apanharíamos frutos silvestres na Primavera, ouviríamos o coaxar das rãs nas noites húmidas de Verão e participaríamos em coloridas hayrides no Outono. A nossa vida social consistiria em playdates, festas com eminentes e excêntricos cientistas e muitas idas ao mall. A vida familiar seria feita exclusivamente a quatro, com o Skype a manter uma ténue linha de contacto com avós, tios e primos.
Profissionalmente, não faço a mínima ideia do que poderia estar a fazer. Enquanto lá estive, trabalhei numa agência de apoio a pessoas portadoras de deficiência, numa empresa de desenvolvimento de sustentabilidade energética, e numa gigante biblioteca universitária. Tendo um mestrado e fazendo boa figura nas entrevistas, o céu é o limite no que toca à empregabilidade naquela zona, sobretudo agora que já passou o pior da crise por lá. Com horários muito menos tardios, não sei onde encaixaria o meu tempo, aquele que uso para ler e para o desporto, pelo que é possível que estivesse a ficar uma pequena matrona yankee. Se calhar até já tinha mais uma filha e começava a sonhar levá-la aos concursos de beleza para crianças. Entretanto, o mais velho andaria numa elementary school pública um bocado reles, porque não teríamos como pagar uma privada melhorzinha, e o mais novo estaria a apanhar com blocks na cabeça, cortesia dos colegas do kindergarten, que quando se portam mal são amavelmente convidados a ler um livro em vez de serem repreendidos. Provavelmente teríamos uma pequena casa com jardim onde eu me dedicaria a massacrar algumas plantas com a minha inépcia floral nos reduzidíssimos tempos livres, enquanto tentava acumular trabalho, três crianças e tarefas domésticas nas muitas ausências de um marido sempre com conferências e seminários em algum ponto distante do planeta. Bom, já estou deprimida que chegue com a ideia. Bolas, ainda bem que voltámos. 

12 setembro 2014

contra a glorificação do sorriso

Encaremos as coisas com frontalidade: às vezes estamos em baixo. Caramba, e não há problema nenhum nisso. Por que é que nos havemos de sentir obrigados a dar a volta por cima a todo o instante? Estou cansada desta urgência de encontrar uma espécie de felicidade a todo o custo. Quero acarinhar todos os meus estados de alma, quero conseguir respeitar os desânimos da mesma forma que me deixo embalar pelos momentos de alegria e entusiasmo. É que o contrário é um esforço inglório e injusto. Que sentido há, suponhamos, em termos um filho sempre bem-disposto e outro com flutuações de humor, e querermos estar apenas com o primeiro? Tal como luto para acolher o que sou fisicamente, com as minhas forças e fraquezas, também quero aceitar o que sinto, como me sinto, verbalizá-lo - "hoje estou triste." E estar bem mesmo quando não estou.

11 setembro 2014

red line

Durante as férias continuo a ter filhos, marido, família alargada, actividades extra-laborais. O que muda é a intensidade do dia-a-dia. E já me tinha esquecido disso. Mentira, lembrava-me, mas desabituei-me.
Por que é que uma pessoa se envolve em tanta coisa? Dá a sensação que estou muito quietinha e começam a chover-me afazeres em catadupa. Não procuro novas ocupações. Não vou atrás de novas responsabilidades. E mesmo assim a agenda semanal começa a ficar tão preenchida que só de olhar para ela fico cansada por antecipação. Logo eu, que não sou pessoa de se cansar.
Começa o ano lectivo e penso: o que é que posso eliminar das rotinas para aligeirar os nossos dias? Tirando o trabalho e a escola, todas as outras actividades são de entrega aos outros ou de realização pessoal. Até são poucas. Talvez a solução não esteja em limpar o calendário mas em descobrir o modo de encarar tudo isto com maior leveza, com menos perfeccionismo. Se fizesse yoga mais do que uma vez por semana era capaz de ajudar só que, lá está, isso implicaria um ponto adicional na lista de afazeres.

10 setembro 2014

monda

Que se lixe: vou culpar o tempo também disto, do crescimento indevido de vegetação que não plantei. Só pode ser por causa da chuva constante. Na verdade, custa-me um bocado compreender por que se arrancam as ervas daninhas. Ingenuidade de quem não tem os dedos calejados pelo sacho, está claro. No meu imaginário bíblico, trigo, joio, rosas e cardos deviam poder conviver docemente, seres dotados do mesmo direito à existência, cada um com a sua beleza. Há de confirmar-me quem percebe do assunto, mas o problema está no facto de os usurpadores selvagens, apesar de belos e viçosos, estrangularem a força vital das boas sementes. Bem que gostaria de abrir o meu jardim à selvajaria, deixá-lo crescer à solta, bravo, o darwinismo que triunfasse sem dó nem piedade. Mas depois lá se ia o pão nosso de cada dia, que nos é dado hoje se fizermos por cuidar da plantação e não nos deixarmos encostar à sombra de insidiosas espécies invasoras.

09 setembro 2014

envelhecer

A velhice é uma grande trampa, desculpem lá a franqueza. Se não fosse mau, não era preciso eufemismos como a terceira idade, as peles maduras, o ocaso da vida, ou mesmo o termo “idoso”. Não sei como é que os norte-americanos ainda não se lembraram disso mas qualquer dia criam o conceito de longevity challenged person.
O meu cão está velho. Não se aguenta nas patas. Tem a boca podre e os olhos azuis das cataratas. Pouco ouve (e agora não é só quando não lhe convém) e já perdeu a dignidade de fazer chichi à macho. Dorme todo o dia e arrasta-se quando vai à rua. Do ponto de vista da dona, toda esta decadência é simplesmente triste. Faz parte da vida mas é muito injusto que o pior fique para o fim.
E se custa assistir à ruína de um animal de estimação, mais custa quando se trata das pessoas que fazem parte da nossa vida. Vê-las perder faculdades e ter noção dessa perda é uma violência. O consolo de podermos estar com elas neste tempo é pouco porque, na verdade, não podemos restituir a força, a vitalidade, ou os dons. É como estarmos a assistir a um assalto e ficarmos de lado a fazer festinhas na mão da vítima enquanto ela entrega a carteira ao bandido. Porque a velhice é muito isto: estar cada vez mais sozinho. Cada vez mais fechado no seu mundo, cavando o próprio túmulo do seu ser autónomo e funcional, cobrindo-se de recordações cada vez mais antigas. Até à infância. Envelhecemos e querem tratar-nos como crianças mesmo se olhamos para as mãos e não reconhecemos as articulações nodosas e as veias azuladas. Não sei como há tantas pessoas que descobrem a Fé quando envelhecem, no preciso momento em que lhes é feita tremenda maldade. E entristece-me um bocadinho essa Fé que brota do medo do fim, e não de uma relação de confiança que foi crescendo ao longo dos altos e baixos da vida. Bom, mas que sei eu? Se chegar a velha logo vejo se Deus não é realmente o único que ainda me ouve de verdade, sem me acenar a cabeça enquanto pensa que já não digo coisa com coisa.

08 setembro 2014

para lá das pernas bem torneadas

Não é novidade que uma das minhas epifanias doismilecatorzianas surgiu no solo escuro e pedregoso da floresta, primeiro na Costa Rica, agora nos trilhos em que corro de madrugada. A spin-offania que daí surgiu nestes últimos dias de Verão é que vou partilhar agora convosco, minhas alminhas sedentas de vislumbres da intimidade alheia: não é só de correr nos trilhos de que gosto tanto, é do que isso faz às pessoas que o praticam.
O praticante de trail é, na verdade, um embrião: mal começa nessas lides decide logo que afinal nada abaixo do ultratrail (distâncias superiores a 42 km) chega. É, portanto, um exagerado. E um bocado bazófias, sem nunca perder a humildade. Tem sentido de sacrifício, grande espírito de camaradagem, amor à natureza, é extremamente perseverante, dedicado e, sim, tem uns glúteos jeitosos.
Então mas afinal o que é que isto tem de íntimo, gralha? É que não estou a falar de mim nem daqueles com quem me cruzo nos trilhos. Estou a falar do meu marido, que (ainda) nem sequer corre trail. Mesmo sem ter dado mais à modalidade do que algumas subidas contrariadas em Monsanto, este homem já nasceu com o espírito. Tem todas as qualidades que enunciei acima e eu ainda não me tinha apercebido da coincidência. Tantas vantagens e não me traz lama para casa. Ainda bem que o cacei.

05 setembro 2014

afinal, quem nos conhece?


Independentemente do grau de intimidade das minhas relações, ao que parece sou uma personagem dúbia. Pergunto-me se isso acontece a toda a gente. Uns acham que sou boazinha, outros que sou má; há quem me julgue politicamente de direita e quem suspeite que sou de esquerda; alguns têm-me por acelerada, outros admiram a minha calma e ponderação. Sou, na verdade, muito transparente. Não me tenho por amorfa só que já lá vão os dias em que sentia necessidade de defender à dentada as minhas convicções. E é verdade que mudo de ideias. Mas, no fundo, não deixo de ser quem sou (ja cá faltava um truísmo bonito para selar a época estival). Será que o mistério está no observado, em particular, ou veremos sempre os outros – tirando daí as devidas ilacções e perfilagens – a partir do nosso olhar em ângulo agudo, como num espelho retrovisor?

04 setembro 2014

a dor fantasma

Ouço canções lamechas. Suspiro. Passeio pelo quarto à procura de uma recordação daquele cheirinho bom deles. Não há volta a dar, sinto muito a falta dos meus filhos. Muito mais do que imaginava. Até começo a achar ternurentas as birras dos filhos dos outros, claro sintoma de senilidade. O que vale é que já falta pouco para o regresso e eles andam todos contentes a comer três calipos por dia. Uma pessoa pensa que eles estão crescidos e já não há aquela ligação simbiótica, a necessidade de contacto, de proximidade. Não nos enganemos: são nossos filhos e não deixam de fazer parte de nós.

E, sim, é muito bom ter este tempo a dois para conversas de adultos, para descontrair nas rotinas e simplesmente para estarmos só a namorar. Mas já estou habituada a que quase tudo na minha vida seja feito de doses complementares de sofrimento e gozo.

02 setembro 2014

le nozze parmigiane








A queda do Império Romano foi uma das grandes desgraças da humanidade, é o que vos digo. Pensar que podia passar os dias a falar como se cantasse, a comer rosbife trufado e batatas com alecrim, viver rodeada de pessoas iluminadas por dentro, que passeiam de bicicleta e rezam em catedrais demolidoras de lindas. Ah, que tragédia. Valham-nos os amigos e a família italiana para termos desculpa paea sobrevoar os Alpes, conduzir automóveis minúsculos e fazer a sesta junto ao lago.

29 agosto 2014

querido bardarbunga

Nisto da contenção de gases, toda a gente sabe que não se deve contrariar a vontade da natureza por muito tempo. Sendo assim, não te inibas: explode e liberta lá à vontade as cinzas todas. Se possível, amanhã. Sei que pode parecer fácil falar, visto que não sou islandesa (e não irei visitar-te tão cedo, infelizmente), mas até me dava um certo jeito que condicionasses do espaço aéreo europeu*. É que voamos daqui a pouco para Itália e não temos pressa de regressar logo na segunda-feira. Podemos muito bem vir de comboio, aproveitar a paisagem da Riviera (onde só passámos durante a noite, no Interrail, uma pena), rever os Pirenéus, quem sabe até dar até um saltinho a Barcelona e a Madrid. Os meninos estão com os meus pais para a semana, ninguém se vai zangar no meu local de trabalho, e parece-me justo que um casal que já contraiu matrimónio duas vezes tenha uma segunda lua-de-mel, mesmo que com 16 meses de atraso. þakka þér!

* Excepto no dia 1, nos voos para a América do Sul. Boa viagem, mãe capotada!

28 agosto 2014

somos tão criativos, nós os portugueses

Ideias, conceitos, projectos inovadores, tudo isto brota da alma lusitana como o refluxo de uma sanita sem sifão. Faz-se muita coisa jeitosa, de valor. Mas também estamos em grande na especialidade da recauchutagem criativa. Se alguma coisa funciona com outros, nós replicamos mas em mais barato, numa espécie de contrafacção conceptual. Encontrei há dias nessa nova Meca do audiovisual que é o Youtube estes vídeos. Abram uma excepção e vejam um ou outro, sim?
Vá, venham cá agora dizer-me que aquilo do ser em cafés é original, que os argumentos estão decentes, os actores têm o seu valor e a construção cénica é mimosa. Sim, senhor, é verdade. E o sotaque portuense da protagonista é originalzinho de gema, lá isso é. Mas o tipo de humor que pretendem fabricar é um cruzamento descarado e coxo da Porta dos Fundos com a Odisseia. Ora, falta-lhes umas boas colheradas de gemada com vinho do porto para roçarem o nível do Fábio Porchat ou do Bruno Nogueira. E isto vindo de alguém que já está um bocado farta de ambos.

27 agosto 2014

desmistificando aquilo do lisboeta livre e desempoeirada

Se eu não fosse uma grande totó, até era capaz de ser mais giro passar uma semana sem marido nem filhos, aproveitando esta frescura própria de Agosto. Sucede que sou uma totó que:
1) teimou em correr antes de estar recuperada da tendinite e agora vai ter de parar mais tempo enquanto se besunta de anti-inflamatórios e coloca gelo no joelho em vez de ser no copo;
2) não consegue não lavar a louça, não fazer a cama, não arrumar o que espalha, pelo que apenas subtraiu uns pontos ao nível de sopeirice crónica;
3) anda esquisita com os filmes que vê e já não se contenta com coisas leves e coloridas (A Viagem dos Cem Passos, por exemplo. Behh);
4) tem efectivamente saudades das pessoas com que coabita e custa-lhe saber que – está bem que não passam fome nem andam nus mas – os filhos choram com a falta do regaço materno.
5) nem sequer tem mais livros de Verão para ler. Se for agora agarrar-se ao Camus é capaz de não melhorar o estado de espírito por aí além. E das folhas começarem a amarelecer e cair das árvores.

26 agosto 2014

ora então é isto a vida de uma lisboeta livre e desempoeirada

Ter o frigorífico vazio e ir antes comer um gelado. Descobrir resguardos e lençóis para lavar e decidir dormir no saco-cama. Procurar a sessão de cinema que implique o mínimo esforço e máximo de prazer, permitindo ainda acordar de madrugada para ir correr. Ah, claro, correr todos os dias. Em qualquer momento que não atropele o horário de expediente. Ler capítulos inteiros e nem um par de pequenos olhos furando-nos a nuca a pedir atenção. Ouvir música alto. Mas só um bocadinho porque depois perturba a preciosa paz. Ir a pé para o trabalho. Ter a casa arrumada, as toalhas direitas no toalheiro, o chão à volta da sanita sem respingos (esta tenho um bocado de vergonha de confessar que é das minhas preferidas). Ir cortar o cabelo e, perdendo a cabeça, deixar que nos pintem as unhas. Sobrarem várias horas ao dia e haver uma certa surpresa e vergonha nessa constatação. Também sobra um bocado de silêncio, agora que penso no assunto. E falta-me o cheiro, o toque de outra pele. Mas não vale a pena estar para aqui agora a desfazer o cenário idílico, confessando saudades ao fim de apenas um dia.

25 agosto 2014

foram três semanas de férias, de modo que vai tudo a eito

Os meus filhos recusam-se a dançar rodeados de freaks amistosos. Também não gostam por aí além de acampar, lá se vai o meu sonho de uma vida de hippie. Ao menos fizemos festas aos burros que dormiam ao nosso lado. Antes de virmos embora, um espanhol deu-me tomates que ainda estão bons passado este tempo todo. Há neste país tractores conduzidos por pessoas que vão a olhar para trás (e nós andámos num deles). Nadar em água doce faz-me pensar em cágados e lagostins que me ameaçam os dedos dos pés. É oficial, tenho de descansar as pernas uma semana se corro mais de vinte quilómetros de seguida. A vista do castelo de Paderne não é grande coisa mas chegar lá acima e voltar foi o ponto alto das férias. O ponto baixo foi ver convertido em inferno o paraíso de há 20 anos: escorregas aquáticos. Já agora, despachemos lá isto das coisas desagradáveis: a temperatura do mar estava o que se sabe, os dias passaram-se a ler à sombra. Para três de nós, o quarto fazia suquinhas na areia. A praia estava impossivelmente cheia. Não vou dizer de que tipo de pessoas para não parecer ainda mais pedante. Esqueci-me de os levar à caça de gambozinos, ora bolas. Comi duas meias bolas de Berlim e bebi cerveja de várias marcas diferentes para a colecção de caricas dos miúdos. Jogámos muito Uno e fizemos relativamente pouca batota. As sestas foram poucas mas muito deliciosas. As minhas sandes são as melhores do mundo. A macieza da minha almofada não compensa o regresso a casa, ao trabalho, sozinha. O facto de estar sozinha pode compensar um bocadinho, ainda não sei mas depois logo vos conto.

01 agosto 2014

coisas que eu idealizo como espectaculares, porém cansativas, e depois ainda me conseguem surpreender pela positiva

Ir acampar sozinha com os miúdos para o Andanças. O que é que pode não correr maravilhosamente?

E com esta me despeço. Boas férias e até qualquer dia.

31 julho 2014

a ilusão da facilidade

As almas mais atentas e conhecedoras do comportamento dos corvídeos blogosféricos já podem ter notado que, por aqui, anda no ar de novo a tentação de procriar. Aliás, isto é uma espécie de post anual. É sempre assim: chega o Verão com os seus dias mais leves. Os meninos crescem sem pedir licença, portam-se como anjos e nós começamos a pensar que é tudo tão lindo e tão suave que bem podíamos aumentar a carga. Como se isto de criar filhos fosse parte de um plano de treinos para a prova do Quem Quer Ter a Família Mais Ideal.

Não é.

Por muito que apeteça voltar a ter uma bola pequenina para encher de amor, um filho é uma pessoa nova que entra para a nossa vida, com tudo o que isso implica. Há sempre coração para mais. Com ginástica, até há braços e orçamento para mais – também uma tentação, a parentalidade estóica – mas o impulso animal para a sucessão dos nossos genes não pode cegar-nos. Porque chega uma altura na vida em que o que temos não precisa de ser aperfeiçoado. Porque sendo um, dois, três, quatro, dez, o que somos é bom e suficiente. Não falta ninguém*. E saber apreciá-lo, em paz, não é só um triunfo do córtex frontal sobre o bulbo raquidiano; é o melhor para todos. Mesmo que esse facto tenha de ser recordado com disciplina diária.

* Bom, numa óptica How I Met Your Motheriana, se eu sou a Robin, ele o Ted, o mais velho o Marshall e o mais novo o Barney, o nosso equilíbrio ontológico precisa de uma Lily.

30 julho 2014

bom demais para não ser partilhado

Sabem aquela sensação que temos quando estamos apaixonados, não conseguimos parar de pensar nisso e precisamos de falar a todos do nosso amor? Eu evito vir para aqui evangelizar-vos até à náusea com a conversa das corridas mas o pessoal lá em casa não tem tanta sorte. Já devem estar um bocado fartos do meu olhar esgazeado quando chego a casa de madrugada, de pernas arranhadas e ténis meio espatifados de trepar trilhos empedrados.
Só há uma solução: convertê-los. É por isso com grande excitação que vos informo que (rufar de tambores…) vou correr a minha primeira mini-maratona!
É verdade, quase um ano depois da primeira maratona, e na semana em que bati os meus recordes dos 10 quilómetros e da meia-maratona, decidi que estava na altura de sonhar com vôos mais altos e arrastar as crianças comigo para uma prova (um vai de carrinho, será que também tem direito a medalha?). Não se preocupem, enquanto eu própria não estiver mais à vontade nas corridas de montanha, não tenciono tentar bater o recorde de idade na subida ao Monte Branco.

29 julho 2014

o autor-espelho

Deves achar que és muito especial. Sabe-la toda. Com meia dúzia de parágrafos, arruínas as certezas mais elementares. E parágrafos a atirar para o sofrível, num livro pouco mais que tolerável, mesmo se descontarmos a dificuldade em traduzir-te. Um chorrilho de passarinhos e uma adolescência soturna e aborrecida (olha a novidade!) são fraco recheio para esta sanduíche de azia com que nos presenteias. Com que então a minha consciência ambiental é uma forma de atenuar a culpa que carrego nos ombros de classe média? Ai quer dizer que os objectivos que estabeleço, as metas, a procura da superação física e moral são ridículas, pequenas, inúteis? Queres convencer-me que a vida é apenas uma solitária caminhada para a morte, que toda a busca de sentido é negação dessa evidência. Ah, Jonathan Franzen, e se fosses cagar na mata?

28 julho 2014

aerofolios

As palavras são feitas de ar e andam por aí, ao dispor de todos. As histórias, pelo menos as boas histórias, são mais raras. O pior é que as palavras certas e as histórias suculentas nem sempre se cruzam para gozo da audiência. A prática pode melhorar o desempenho do músculo narrativo mas tem de haver por trás a capacidade inata de criar alguma coisa nova, mesmo, mesmo boa. Não basta embrulhar um enredo catita numa série de adjectivos. Na verdade, escapa-me completamente a lógica formal que sustenta um texto extraordinário. Só consigo descrever o efeito ao lê-lo: contrariando o peso dos caracteres na folha de papel, uma grande e bem contada história faz-nos levantar voo e entrar num mundo diferente. Tão simples, não é? Era bom, era.

25 julho 2014

ainda há primeiras vezes

Comer pitangas. Observar um filho em silêncio, de bruços sobre um livro sem bonecos. Ter a companhia de outro filho, fazendo crochet de elásticos* com aqueles dedos minúsculos. Voltarmos da escola a pé, pelo Campo Grande. Descobrir trilhos e sentir um prazer desgraçado. Fazer massa fresca. Ler Clarice Lispector. Sinto-me tão grata por este Verão e ainda nem pus um pé no mar.

* É verdade, tardou mas chegou.

24 julho 2014

dignidadezinhas

Todo o ser humano deve ser respeitado e ver garantida a sua dignidade. Esse direito a caminhar direito, nem superior nem inferior aos seus pares, é um princípio tão simples e que falha por um sem fim de razões. A par desta dignidade, todos precisamos também de ver asseguradas outras dignidadezinhas. São peças aparentemente insignificantes da infraestrutura da nossa verticalidade, porém não devem ser menosprezadas.
Concretizo: é tentador criticar a família carenciada que vai tomar o pequeno-almoço ao café da esquina enquanto nós comemos as papas de aveia preparadas de véspera. Ah, com que superioridade moral apontamos o dedo àqueles irresponsáveis, que estão mesmo a pedir brincadeira com os seus (certamente numerosos) credores enquanto caminham a direito para a obesidade do refrigerante e do rissol das 9 da manhã. Mas a verdade é que todos temos estes hábitos peculiares que nos confortam, que dão algum contentamento no meio de tudo o que nos negamos, e que fazem parte da nossa identidade. Seja a pessoa conscienciosa que não abdica dos produtos biológicos mesmo que não possa jantar fora, seja aquela que mantém a manicure irrepreensível das suas unhas de gel enquanto espreme a carteira para pagar o passe social, seja a que aspira a um determinado estatuto cultural subscrevendo anualmente a assinatura nas melhores salas de concerto do país. A penúria é sempre relativa, assim como o são os pequenos luxos.

23 julho 2014

a sério, esta é a melhor dica que vão ouvir da minha parte, pelo menos este ano

Desiludida com a ausência de soluções apresentadas ao nível dos sumos detox, resolvi seguir a sugestão da simpática leitora Susana e comprei isto.

Isto é a maior revolução para a frescura corporal desde que alguém inventou a Coca-cola com gelo e limão (coisa que já não provo há anos, mas lembro-me). A sério. Já resistiu ao teste de três dias de utilização, com direito a subidas à pressa da Av. das Forças Armadas, superação de birras matinais absurdas, camadas de nervos com pedidos esdrúxulos em contexto laboral, e até à comoção de dois piropos extremamente educados à passagem de um estaleiro de obras. E isto tudo sem as desvantagens dos anti-transpirantes. Se os fabricantes quiserem passar a ofertar-me embalagens deste produto, graças aos para aí duzentos mil novos clientes que estou a angariar-lhes à borla, estejam à vontade.

22 julho 2014

o meu incentivo à natalidade

Mexam lá no IRS, no IMI, nas licenças de parentalidade, nas taxas de esgoto e mais o diabo a quatro, não vai ser isso que pesa na fecundidade da nossa família. No que diz respeito a políticas de produção de bebés, quem tem alguma coisa a ver com o assunto são os progenitores, e ponto. E vírgula, porque há mais quem viva lá em casa e tenha a capacidade de influenciar as contas nesta matéria, com muito mais subtileza e eficácia do que as equipas de investigadores recrutadas para o efeito pelos nossos legisladores.


Apresento-vos a Robot-Rita. A Robot-Rita é a nova mana lá de casa. Para além de ter ombros e mãos largas para ajudar a pôr a mesa e transportar as compras do supermercado, a Robot-Rita tem uma voz doce e fininha (pelo menos a avaliar pelo desempenho dos seus ventríloquos). É uma irmã alegre e esfomeada, está sempre a pedir que lhe enfiem peças de lego, perdão, bolachas na boquinha. Até já tem rodas para poder acompanhar os irmãos mais velhos nas correrias pelo corredor. Ainda não percebi é quem é que se vai levantar durante a noite quando a Robot-Rita tiver febre, mas há que acreditar que uma bebé tão bem construída e estimada terá uma saúde de ferro. Ou de plástico, no mínimo.

21 julho 2014

deixar-se encontrar

Era uma mulher feita e completa. Inteiramente mulher, composta, direita. Com agenda e lembretes, notas – muitas–, prioridades e estrutura. Vivia as semanas em agitação controlada e arrancava as folhas do calendário como quem cumpria desígnios elevadíssimos. Vivia, em suma.
Tinha tempo para tudo, até para a possibilidade do amor que, como a gente sabe, só aparece quando menos se espera. Essa era a parte mais fácil: não esperava por nada. A parte mais difícil era a incerteza da hora a que haveria de chegar esse inesperado amor. Quais os seus contornos? Qual a graça do nome que passaria a ser o Nome. O rosto. A primeira entrada nas chamadas atendidas e efectuadas.
Até que o dia chegou, quase inesperadamente. Pelo menos se não contarmos a abordagem intencional no meio promissor, as palavras de uma espontaneidade planeada ao detalhe, e a indisfarçável excitação nos primeiros contactos. Feita a selecção tão natural quanto possível dos finalistas, a mulher deixou-se estar. Beliscou o aperitivo das conversas, resistiu à passagem do prato, e guardou-se para sobremesa. Toda a gente sabe que a iguaria mais sublime não se serve escarrapachada no centro da mesa, reserva-se para os convidados especiais. A mulher só não contava era com o enfartamento dos convivas diante de tanta variedade e fartura. Pêssego sumarento, passou ela fome, despercebida e intocada.

17 julho 2014

compulsões refreadas

Não comas
Não bebas mais do que a dose
Não fumes
Não grites
Sobretudo não te stresses
Não te stresses

Não compres
Não guardes
Não corras assim, depressa demais
Não pares
Não te excedas, aliás 

Não arrotes
Não ronques
Não sorvas
Não roas as unhas
Nem rates as peles

Não digas a coisa errada
Não fales tão alto
Não te vergues
Não desças do salto
Mastiga de boca fechada.

Modera lá os instintos
Controla-te, não te excites
Eleva-te
Supera os teus limites.
Mas, vê lá, não te estiques.

E não abdiques de absolutamente nada
Não sejas mal-criada
Não dês abébias nem borlas
Não te exponhas
Não mintas
No fundo, não penses, não sintas.

Com a devida vénia ao Numb dos U2.

16 julho 2014

Posso fazer uma pergunta à turma do detox?

Bebendo desses sumos verdes, cheios de legumes, sementes e óleos essenciais, que promovem a desintoxicação do organismo, notam alguma diferença ao nível do odor sovacal? É que, por princípio, até não tenho nada contra o sabor ou o aspecto desses elixires da boa digestão e da leve consciência. Estou capaz de adoptá-los por uma boa causa. Nesta altura do ano, sendo maçadora a deslocação constante à casa-de-banho para a boa velha técnica da água e do sabão, seria benéfico para todos que a refrigeração corporal começasse a evocar frescos ramos de coentros e pepino. Se juntar citronela e manjericão, será que também afasto mosquitos?

15 julho 2014

caligrafia

Escrevo com a minha letra de menina. Não a que me ensinaram na escola primária, florida e harmoniosa, nem a que tentei fabricar com rebeldia adolescente, com os As de imprensa muito artificiais, e os Ts traçados com toda a determinação de rapariga liceal. Não, escrevo com a letra de menina com que pensava no verde da juventude, letra redonda e sólida, pequena mas não minúscula, alegre e assertiva.
Os anos passaram, as notas manuscritas vão rareando com o triunfo dos teclados, e a letra esqueceu-se de crescer e acompanhar a mão. Os recados que deixo recordam-me, sem nostalgia, dessa menina que haverá sempre dentro de mim. Sai para brincar ao macaquinho do chinês com os filhos depois do jantar, espreita os periquitos na janela do escritório, e senta-se de pernas cruzadas no chão, na plataforma da estação de comboios, a ler um livro com a máxima gravidade. Ninguém cresce de verdade.

14 julho 2014

neste fim-de-semana

Estivemos finalmente a quatro. Fazia-nos falta tempo assim. Fiz o exame final de Ocean Solutions, estreei os ténis novos em Monsanto, li vários contos de seguida e lavei as paredes. Comemos coisas muito boas à beira-rio, piquenicámos com amigos ao som da Orquestra Gulbenkian, comprámos cobertores fofinhos, vimos vários episódios do Orange is the New Black e fechámos com chave de ouro, ou antes, tremoços e minis, frente à final do mundial de futebol. Continua a não me apetecer praia nem tirar fotografias, acho que é um truque sorrateiro do meu subconsciente, a tentar convencer-me que ainda tenho o Verão todo pela frente. Ou então está-me mesmo a acontecer aquilo de começar a saber apreciar o momento.

Outra preguiça é a de pôr hiperligações nisto tudo ali em cima. Mas ninguém as segue de qualquer forma, paciência.

11 julho 2014

acerca de porcarias diversas

Ora até que enfim que o governo arranjou maneira de cativar o eleitorado. Ou pelo menos todos os para aí vinte e nove eleitores do MPT, que fugiram do número 11 da Rua da Beneficiência com as cuecas verdes a arder quando inadvertidamente conquistaram um eurodeputado. O povo é muito rápido para acusar o nosso executivo de cada novo golpe de vilanagem mas, quando é para reconhecer as medidas que contribuem para o benefício geral, nem um pio. Pois eu aprovo e aplaudo esta nova estratégia win-win que é o imposto de 10 cêntimos por saco plástico. Deixem-me aliás ser mais passoscoelhista do que o Primeiro-Ministro e sugerir um aumento para 10 euros por saco plástico. Assim, não só asseguramos a solidez da retoma (aquela coisa que os senhores do BPI garantem que está a acontecer, naqueles reclames de rádio que têm agora, a chatear o BES) como ainda travamos a expansão da ilha de plástico do Pacífico. Sei que aquilo, a olho nu, não chega aos calcanhares da imponência e polémica de uma obra da Joana Vasconcelos, mas mesmo assim não cabe nem no Alqueva, quanto mais nos laguinhos do Palácio da Ajuda.
Já agora, se me permitem a ousadia de sugerir outras medidas amigas do ambiente e do erário público, será que dá para legislar mais duas coisitas? Uma que obrigue as autarquias a criar centros de recolha de resíduos orgânicos para a produção de adubo, onde os fregueses entregam o desperdício não reciclável, diminuindo a produção de lixo doméstico. Outra menos simpática, um bocadinho fascizóide até, que proíba (com coimas associadas em caso de incumprimento) os cidadãos que entram nas casas-de-banho públicas de descarregar o autoclismo mal entram no seu cubículo, indiferentes ao facto de ter saído de lá alguém há 10 segundos que descarregou o autoclismo. Sei que estes temas andam todos um bocado à volta do cocó, o que não costuma granjear muitos votos, mas pensem assim: mais impopulares do que já são é difícil. Não neguem à partida a importância que o imaginário escatológico tem no sentido de voto dos portugueses.

10 julho 2014

quintal das traseiras

Entre o canal e as casas, na zona de cheia, os jardineiros construíram colinas simétricas com a relva cortada a prumo. Os miúdos trepavam-nas e desciam a alta velocidade, a caminho da entrada para a nossa floresta, e mal dávamos por aqueles relevos artificiais de que se apropriaram as marmotas. Escavavam tocas muito bem dissimuladas e quase não se deixavam ver, desdenhosas da urbanidade dos veados que roíam a erva daninha do estacionamento das bicicletas.
Ao anoitecer, alguém ligava o coro de rãs, à desgarrada com os pica-paus. E os efeitos de luz em directo na varanda, instalações naturais de pirilampos. Jantávamos descalços e eu engolia com a sandes de atum o fim de mais um dia contrariado. O meu bebé chorava muito e metia à boca uma mãozinha de uvas-passas. Depois os trovões estalavam e a chuva escorria finalmente de alívio do calor espesso de Julho.
Na temporada dos furacões, tenho só um bocadinho de saudades de Princeton.

09 julho 2014

a mãe mula

A mochila da praia, com almoço e lanche. O saco com o equipamento de corrida e mudas de roupa. A mala do computador. A lancheira. A mochila da natação. A minha carteira. Antes de sair de casa, recolho cada um destes itens alinhados no corredor, distribuo alguma coisa pelos ombros magricelas das duas criaturas que pastoreio até ao carro, e amontôo o resto no meu lombo. Não pesa muito, o lombo está habituado. A parte mais difícil de ser mãe mula não é a tralha material que anda sempre de arrasto, é tudo aquilo de que temos de lembrar-nos e os detalhes minúsculos associados a cada coisa. O penso rápido que é preciso aplicar sobre a ferida imaginária. Quais as unhas que precisam mesmo de ser cortadas. A fruta em segunda mão que salta de um almoço de ontem para o meu lanche de hoje. Os pesadelos que precisam de ser soprados com muita força. A promessa de um segundo beijinho à noite, quando já estão adormecidos, para selar um dia cheio de areia e golpes de judo. Não precisava de mais mãos mas dava-me cá um jeitaço uma app qualquer que me fosse recordando destas miudezas tão importantes. E são só dois.

08 julho 2014

enquanto dormimos

Não há relógio a fazer tiquetaque. O pó avança sobre os livros. Os cabos dos headphones enlaçam-se traiçoeiramente. Nasce uma nova geração de moscas dos pêssegos empilhados na fruteira da cozinha. Os sapatos estão quietos no armário e a roupa seca no estendal. E eu acordo com o ataque de espirros das duas da manhã. Sempre por volta das duas da manhã. Não tenho explicação para estas alergias com hora marcada senão a apoteose do meu sono mais profundo: dormindo triunfalmente, atinjo o cume do descanso e o corpo pede esta quebra antes de iniciar a descida até à manhã. 

07 julho 2014

profissão de fé

À roda de uma mesa comprida, 13 quase desconhecidos encavalitados em cadeiras desirmanadas. Os cotovelos hesitantes sobre as toalhas de papel, olhares como insectos nervosos à procura de um sítio seguro para aterrar, traças acabadas de sair dos casulos, cílios empretecidos a preceito e sobrancelhas vigilantes. Lança-se uma palavra ao ar. A resposta é devolvida no ritmo certo, o guião do diálogo desenhando-se devagar nas idas e vindas de vozes apalpando terreno nos primeiros voos para lá da conversa de circunstância.
E logo o espaço ganha dimensões de cima, baixo e fundo. As cores intensificam-se e os cheiros acendem-se. O vinho branco sabe melhor, mais fresco, mais cósmica a ligação com o pão quente e o hummus. Os sorrisos já não se fabricam, escapam. E 13 quase desconhecidos são quase 13 conhecidos, dando-se, confiando, encostando as costas às costas da cadeira, as mãos falam depressa e escavam as afinidades que espreitavam à superfície da lama seca da cerimónia inicial. Cada um a seu jeito, oferecendo-se e confirmando-se, ouvindo o eco das suas palavras e tirando significados muito profundos de cada frase profetizada. Cada um com a satisfação de passar a ser um nome na consciência do outro, um indivíduo, uma identidade triunfando sobre o frio escuro do anonimato. Regressam a casa um pouco mais cheios de si. Um deles percebe até que, sim, o melhor ainda está para vir. Retirou pouco dos exemplos aleatórios das histórias ouvidas à distância, como se imersas no fundo de uma piscina. Confirmou, na verdade, o sentido do caminho improvisado a cada dia e prometeu ser mais como ele próprio e menos como aqueloutros, perdidos. Chegando a casa, entrou silenciosamente na cama e aproximou-se com mansidão cansada do corpo quente com quem partilha as horas vulneráveis.

04 julho 2014

o resultado de acordar às 5h30

É já ter tomado 3 pequenos-almoços às dez da manhã. E achar que não vamos deixar o ratinho à solta até à uma da tarde, que isto a vida não é para andar a sofrer à toa.
Também é chegar às sete da tarde a implorar por uma caminha. Mas vale a pena a alvorada prematura, vale tanto a pena.

03 julho 2014

promessas, leva-as o vento. literalmente

Que é isto que vejo ali a espreitar à janela, será o sol? Está a fazer-se difícil esta temporada, o malandreco. Meu amigo, vê se te deixas de hesitações. Não é só porque há que respeitar compromissos, porque há gente a fazer as malas a medo para ir de férias, ou porque a economia nacional precisa do empurrão da indústria cervejeira, é que tenho duas razões de peso para te exigir solidez na demonstração das tuas capacidades plásmicas:
1. Uma com sete anos e uma baliza dentária tão ampla que até um jogador da selecção portuguesa marcaria golo. Falta-lhe vitamina D para desenvolver as chicletes e ir a tempo de roer maçãs no Outono;
2. Outra com quatro anos que anda a arrastar as alergias de Primavera, ao ponto de ter de continuar a tomar a medicação que "é só até ao Verão" (médico dixit) e de nos ter dado uma noite daquelas. Ah, é verdade, tu não sabes o que é a noite, quanto mais daquelas. Hás de dar à luz uma supernova com vias respiratórias delicadas e depois logo conversamos.

02 julho 2014

peregrinos

pe•re•gri•na•ção

Substantivo feminino
1. Acto de peregrinar.
2. Viagem em países longínquos.
3. Viagem em romaria a lugares santos e de devoção.
4. Visita feita na intenção de homenagear um lugar onde viveu alguém que se venera.
 (cf. Priberam)

Grande parte da História humana tem sido escrita sobre o joelho, desde os tempos em que o nomadismo era a regra até aos nossos dias sedentários, em que arrancamos periodicamente as raízes à terra para procurar o que nos falta. E falta sempre alguma coisa, não é verdade?
As peregrinações configuram a própria fundação do cristianismo e estão ligadas a todas as religiões monoteístas (e não só). O conceito de espiritualidade em movimento atravessa confissões e grupos mais ou menos fechados; desde sempre, sentimo-nos mais próximos de nós e do transcendente quando nos desinstalamos, carregamos só o essencial às costas e fazemo-nos à estrada.*
Anda para aí muita gente zangada com a instituição do dia nacional do peregrino, dado o carácter laico do nosso estado. Acho bonita a homenagem aos muitos peregrinos portugueses e a quem os apoia na sua jornada. No entanto, confesso que preferia que tivessem escolhido outra data, desassociando o conceito das aparições em Fátima e evitando ampliar a cada vez maior distância entre os devotos marianos e os cépticos e críticos deste fenómeno de massas. Já agora, não contem comigo para a discussão deste tema: respeito todas as partes e manifesto a minha profunda ignorância sobre o assunto.
Partir em peregrinação é mais um dos projectos que vou adiando para quando o tempo não for um bem tão escasso e intermitente (e não o é sempre?). Agora que vou descobrindo o prazer de desacelerar, de parar para contemplar, de duvidar e confiar repetidas vezes, em mim, e nos outros, acende-se cada vez mais o desejo de entregar os meus passos ao caminho. Queira Deus e a vida que tenha a possibilidade de fazê-lo um dia.

* Já agora, para quem não tenha visto, um lindíssimo filme sobre o assunto é o The Way, escrito e realizado por Emilio Estevez, e protagonizado pelo pai deste, Martin Sheen.

01 julho 2014

noção do perigo

Desconfio que a minha capacidade de avaliar os riscos sofre da mesma hipermetropia que me afecta a visão: lá ao longe, compreendo-os e tiro-lhes as medidas com seriedade; cá ao perto, são uma mancha disforme que tendo a desvalorizar. Serei imune ao perigo, super-humana, e acharei que as coisas só acontecem aos outros? Não, nem pensar. Será que cresci apaixonada pela postura descontraída do meu pai, que sempre nos lançou para a vida a solo, com um para-quedas diminuto e um canivete suíço (enquanto a minha mãe bufava e ia amparando as quedas)? Provavelmente. O que é certo é que, perante um desafio, a minha postura natural segue o lema de que ter coragem não é não ter medo; é ter medo e fazer na mesma. Tenho medos instintivos e racionais mas, havendo caminho e pernas, avanço. Tenho passado incólume entre os pingos de chuva e isso se calhar não contribui para uma postura mais sensata e mais humilde. Os cuidados que tenho devem-se sobretudo à minha condição de mãe e de filha, não ao respeito intrínseco pela integridade do meu ser (o que está errado, é verdade).
Será que mesmo assim estou a transpor os limites do razoável quando, por exemplo, vou correr sozinha para Monsanto, de madrugada? Onde outros sussurram sobre a escuridão, o isolamento, ou as más intenções dos homens maus que perseguem as meninas indefesas, eu ouço passarinhos, o vento entre a folhagem, o silêncio dos raios de sol a penetrar a copa das árvores no cimo de uma colina. Não é preciso ler muitos policiais para saber que há azares e malfeitores. Mas isso significa que, por ser fêmea franzina, não posso dar-me ao luxo daqueles momentos de êxtase puro? Ou será que, quando deixamos que o medo nos condicione os caminhos estamos a abdicar do que há de mais precioso, a nossa liberdade?

30 junho 2014

a fronteira intransponível

É cada vez mais ténue, neste mundo tão mediatizado, a fronteira entre as esferas pública e privada. Contra mim falo quando digo que nos apropriamos com grande à-vontade de pessoas e acontecimentos públicos, como se comentássemos uma paisagem, ou um grupo de animais em cativeiro. Se o acontecimento é do conhecimento geral, está aberta a feira das opiniões, com descontos, saldos, destaques inflacionados, à vontade do freguês. Completamente à revelia dos sentimentos daqueles que estão, de facto, directamente envolvidos na ocorrência.
Só que aquilo que acontece à vista de todos é, antes de mais, uma situação pessoal e íntima, tratando-se de uma celebração ou de uma tragédia. E devíamos ter algum pudor antes de tecer observações à distância, por melhor que seja a nossa intenção. É triste que tenha sido a morte do filho de uma figura pública, mas que era também amigo do meu irmão, que me tenha feito sentir na pele o asco pela mediatização de tudo, a todo o custo. Não é justo forçar a passagem para o que é privado pelo fascínio mórbido de quem arrasta o olhar sobre um acidente na estrada, porque gosta de ser recordado da pequenez da nossa humanidade. Digno do Homem que passa em diante, respeitando, e reservando em silêncio discursos que ninguém encomendou.

27 junho 2014

fel

Com certeza absoluta, só sei de uma pessoa que me odeia. Se mais alguém houver, disfarça o suficiente para me passar ao lado. O que não é difícil, dada a minha muito estimada inocência. Mas esta pessoa exala fumo tóxico quando passa à minha beira. Nunca percebi porquê e já desisti de tentar encontrar motivos. A cada oportunidade, encosta-me a uma esquina e lança-me o seu veneno com as mesmas presas lustrosas com que sorri cinicamente. Hoje estava muito cansada e a ferroada doeu. Só não custou mais porque tive, logo de seguida, uma boa notícia que me deixou respirar ao fim de vários meses de incerteza profissional.
Dizem que a bondade é contagiosa mas a maldade é muito mais requintada: com um jeitinho insidioso, fica a trabalhar pela calada e apodrece-nos as entranhas. Imagino como seria se coleccionasse ódios como tanta boa gente que para aí anda e mais se expõe. Lá se ia à vida este luxo que é a fé na humanidade.

26 junho 2014

prime donne

É ainda mais difícil do que ser rico e aspirar ao Reino de Deus: antes passará um camelo pelo buraco de uma agulha do que o comum dos mortais aceitará dignamente uma crítica. O ego é como a imagem corporal feminina, ou demasiado inchado, ou desgraçadamente débil, sendo raros os momentos de equilíbrio. Quem consegue ouvir um “não gosto desta tua obra” sem sentir amargura? Quem acolhe sugestões de melhoria com verdadeira humildade, agradecendo intimamente a possibilidade de fazer melhor?
Piores são os que se inclinam com desproporcional modéstia, julgando-se desmerecedores de atenção, quanto mais de elogio. Sem entrega apaixonada, produzem obra segura e evitam o ricochete das balas das reacções alheias. Já o autor amador morde a mão de quem destrata a sua obra, reagindo com violência à incompreensão, com desprezo à desconsideração. Quem ama o que faz, ressente-se se o outro não sente o que lhe foi oferecido de peito aberto. Aquilo que distingue uma prima donna histérica de um censurado elegante é apenas a penosa graciosidade com que este engole uma apreciação negativa.

25 junho 2014

a extensão das pequenas asas

Não me envolvi na barafunda que vai ali para os lados do Pais de Quatro mas confesso a minha surpresa perante as reacções de alguns leitores. É certo que o João Miguel Tavares é um grande provocador mas não estava à espera que a brigada das crash-test-mummies se erguesse com tamanha fúria. E o "crash-test-mummies" aqui é muito literal, para quem não tem passado por lá: trata-se das extremosas progenitoras que não descuram a segurança dos seus rebentos nem por um milissegundo.
Eu chumbaria vergonhosamente num teste desse género. Certo, a segurança dos meus filhos é responsabilidade minha e não é para relativizar; mas confesso que deixo o sentido prático levar a melhor muitas vezes e facilito com certas exigências. Não é por ter pretensões hippie nem para afirmar qualquer tipo de ideologia retro - uma tentação para muitas mães criadas aos atropelos em triciclos de alumínio e napa dos anos 80; é porque acho mesmo que o contacto com a insegurança faz parte de crescer. Lidar com o desconhecido e superar o medo também são ferramentas fundamentais para a vida.
Foi de coração apertado que mandei ontem, pela primeira vez, o mais velho à mercearia. Levava duas moedas na mão, passos hesitantes e regras bem aprendidas. Dobrou a esquina e deixei de vê-lo durante quatro minutos, durante os quais sustive a respiração e duvidei: estará já na altura certa? Quando regressou, tive no imenso sorriso e na excitação incontida do meu filho a confirmação de que foi um presente que lhe dei, mais este bocadinho de liberdade. O mundo está cheio de perigos - pelo menos que estejam os meus filhos conscientes disso, voando cada vez mais alto para longe do ninho, à medida da envergadura das suas asas.

24 junho 2014

capuchinho vermelho e os lobos maus

Sou incontornavelmente introvertida (ia dizer irremediavelmente, fintei  a tempo o deslize). Já aqui confessei que evito o colectivo quando é possível e, não o sendo, ajusto a armadura para o combate que travo contra a vontade de isolar-me. Estou crescida e até disfarço medianamente: faço conversa de circunstância, não abdico do que gosto mesmo que isso implique conhecer pessoas novas, e sigo guiões de convivência cordial estabilizados ao longo de décadas de tentativa e erro.
Mas continua a custar-me a admissão numa nova tribo. E tratando-se de um grupo relativamente homogéneo e diferente de mim, custa ainda mais. Se é composto essencialmente de homens, mais velhos, batidos naquilo que me fez aproximar deles, é preciso lutar muito contra a minha natureza e pedir licença para entrar, de cabeça baixa. Vou entrando, ouvindo, desaparecendo para dentro da minha sombra. E com o passar do tempo orgulho-me mais de ir vencendo este obstáculo do que de todos os montes que consigo trepar, todas as rampas que corro com o peito a explodir, todas as horas que peço ao corpo que dê tudo. É que é muito mais fácil coagir pernas, braços e coração do que debelar temores antigos.

23 junho 2014

recta final

Ainda falta mais de um mês para ir de férias mas já fazem muita falta. Tenho acumulado muita coisa. Não é glorificação da ocupação, é dizer que sim a isto e àquilo, sucessivamente. Não só trabalho mas também lazer, que se multiplica e me sai do corpinho. Não é queixa, isto, é um reparo. Tenho de desacelerar (até no ritmo de corrida) e encaixar tempos de paragem no meio da agitação. Dar lugar a nada, de vez em quando. E dar tempo a Quem espera pacientemente por um intervalo para entrar no momento oportuno.

20 junho 2014

os príncipes encantados que se cuidem

Aviso: este post pode conter *spoilers*. Mais para quem achar que os filmes de animação são uma questão estritamente de narrativa e não sobretudo de estética, mas pronto.

Fui ao cinema ver o Como Treinar o Seu Dragão 2. A grande “surpresa”: uma mãe heroína, mas de uma heroicidade pouco ortodoxa – quantas vezes temos figuras maternais que são anti-heróis, caídas em desgraça e resgatadas do fundo do poço? Esse costuma ser o papel reservado a agentes do FBI, espiões britânicos e, na loucura, vulgares pais ausentes. Mas aqui encontramos uma mãe que abandonou (!) a família em virtude das suas convicções e que, no entanto, é resgatada no coração da sua gente e do público em geral.
À primeira vista, isto contribui para convencer-me que as princesas de hoje já não são as indefesas donzelas de antigamente. Tal como aconteceu no Frozen (e até no Cars, para citar alguns dos preferidos dos meus filhos), personagens femininas agarram no seu destino pelas rédeas e os seus companheiros masculinos que se esforcem por acompanhar tanta pedalada. Mas logo retraio a impulsiva exclamação: “vês, filho? esta princesa é forte e corajosa como a mãe”. Abate-se sobre mim um cinismo primordial, aquele que vê neste exemplo mais uma revelação do actual reinado do politicamente correcto nos mass media de entretenimento.
Sim, senhor(a), há cada vez mais mulheres a fazer papel de gente e não de anémona, mas será que isso não corresponde à moda de dar sobredimensionado destaque às "coitadinhas" das minorias? Afinal, quando foi a última vez que vimos uma princesa Disney caucasiana (tirando a Elsa e a Merida, já sei), depois de um desfile de adoráveis meninas árabes, nativas-americanas, chinesas e afro-americanas? E por que é que agora todas as séries norte-americanas têm de picar o ponto nas personagens latino-americanas, afro-americanas, sino-americanas, não heterossexuais, e mais todos os outros nichos de eleitorado e mercado (que agora me escapam porque felizmente já não não tenho de gramar a horrenda publicidade made by Tio Sam há quase três anos)? Minha boa gente, não me entendam mal: é óbvio que eu acho que a ficção deve reflectir a diversidade da vida real, o que me chateia é que se use a colagem muitas vezes forçada dessa diversidade em prol de uma agenda comercial. Não quero ver princesas destemidas, com vontade própria, só porque isso vende mais tiaras de diamantes; quero vê-las porque só assim conseguem a identificação de novas gerações de meninas libertas da ditadura cor-de-rosa. E quero continuar a ver príncipes valentes a par dos seus sucedâneos inseguros e trapalhões, já agora. As neo-princesas também gostam deles assim e há emprego para todos no mundo encantado da animação.

19 junho 2014

post it

Quando tiveres trabalho para fazer, gralha, ninguém estiver a controlar o ritmo de feitura do mesmo, e não conseguires obrigar os dedos a pressionar as teclas do computador no sentido do cumprimento do teu dever,

Coisas que (infelizmente já) NÃO resultam:
1. Apelar ao teu sentido de ética (que foi de férias para parte incerta);
2. Estabelecer horários (começas mesmo, mesmo a trabalhar às X horas);
3. Prometer recompensas (o quê?);
4. Apelar à culpa (tanta gente sem trabalho e tu no baldanço);
5. Ver vídeos deprimentes no YouTube (tentando trabalhar para esquecer as misérias alheias);
6. Ver vídeos engraçados no YouTube (para animar e dar energia - esta nunca resultou, quem é que eu estou a enganar?)
7. Visualizar-te em pânico no fim do prazo e com tudo para fazer.

Coisas que AINDA resultam.
1. Beber um café (a vesícula que se aguente);
2. Mudar as agulhas do que se está a fazer (em vez de rever, traduz; em vez de traduzir, edita; em vez de preencher bases de dados, pesquisa imagens).

E agora vai lá trabalhar, que vir para aqui escrever em hora de expediente não constitui o terceiro ponto da lista acima incluída.

18 junho 2014

ordene as seguintes prioridades

Semanas de praia com a escola. Terceiro dia, terceira seca de quarenta e cinco minutos em relação à hora prevista de saída. O que devemos privilegiar de amanhã em diante?

1) pontualidade - continuar portanto a dar a alvorada a horas ramelosas, independentemente do que temos de esperar, dando o exemplo;

2) saúde mental - acordar toda a gente muito mais tarde, ignorar os horários estipulados e evitar birras de sono antes do jantar;

3) descontracção - acordar cedo mas desligar o barómetro interno, deixar a coisa fluir, se os dentes forem mal lavados, paciência, se o autocarro esperar por nós, azarecos.

Evidentemente que escolheria a terceira via se pudesse, meus amigos. Mas isto de terceiras vias, tal como na política, só funciona no plano ideal. Ou se eu me encharcasse de ansiolíticos logo pela fresquinha.

17 junho 2014

se pudesse escolher-vos

Se a partir de agora pudesse seleccionar as pessoas que ainda me falta conhecer, aquelas com quem vale a pena criar novas relações, o casting seria breve e descomplicado. Isto de levarmos a vida a acontecerem-nos pessoas ao calhas e a eliminarmos – a custo – ligações pela negativa pode ser muito cansativo e traumatizante. Se escolhemos curso, casa, carreira (?) por aquilo que nos agrada, como seria bom poder filtrar toda a gente com quem lidamos por semelhantes critérios, em vez de passarmos tanto tempo a listar o que há de negativo nas personagens que involuntariamente preenchem boa parte do enredo da nossa biografia.
Entrem os candidatos: são inteligentes e criativos sem se levarem demasiado a sério? Fiquem para jantar. Donos da vossa individualidade mas imunes ao cântico de sereia da misantropia? Aceitem mais um copo de vinho com a sobremesa. Já tiveram mais certezas, mas aquelas que mantêm são estimadas e defendidas com firmeza? Como tomam o café? Têm paciência e sentido de humor para tratar com cortesia as nossas diferenças? Pois, voltem sempre.

16 junho 2014

os consensuais

O consensual é um ser que se esforça constantemente por agradar a todos. O que é diferente de agradar constantemente a todos, feito impossível, pelo que o consensual serpenteia entre indivíduos e grupos agradabilizáveis, numa gestão cuidada de expectativas. O consensual é incansável no rebatimento de pequenas discordâncias que possam surgir. Domina o golpe de rins nas posições tomadas, sempre moderadas, e estica-se para chegar a todo o lado. O consensual não tem uma opinião; tem tantas quantas sejam necessárias para não desiludir ninguém. O consensual é galanteador, suave nas palavras, delicado nos gestos. O consensual tem por ambição fazer carreira política, e lá chegará se conhecer as pessoas certas (e conseguir convencê-las que, no meio de tanto consenso, tem um fraquinho secreto por elas). O consensual tem o sonho de ter um blogue que consiga para cima de imensas visualizações. O problema do consensual é que ainda não percebeu que o público precisa de sentir que é especial e cansa-se depressa de ouvir as mesmas banalidades mornas. O público quer distrair-se mas também procura quem o desafie, choque, provoque, confronte com autenticidade, ainda que isso arrisque perda de simpatia e audiência. É por isso que o consensual nunca será excepcional, por muito que se ponha em bicos de pés e acompanhe à hora certa cada tema quente da actualidade mediática.

12 junho 2014

elogio à professora

Findo o ano lectivo, o reconhecimento devido: gosto muito da professora do meu filho. Gosto que seja exigente mas não promova o espírito competitivo a todo o custo. Gosto que conheça cada um dos seus meninos. Gosto que faça deles seus meninos. Gosto que insista na abordagem pela positiva. Gosto que seja gira e confiante. Gosto que seja educada e que insista na importância da boa educação. Gosto que seja carinhosa com o meu filho e que puxe por ele, incutindo-lhe responsabilidade, deixando-me na confortável posição de acompanhar-lhe os estudos a boa distância, (para o ano logo falamos, já sei). Gosto que seja apaixonada viajante e tenha apoiado com entusiasmo o baldanço de um aluno a meio do ano, porque há valores mais altos que se levantam. Gosto que só marque trabalhos de casa ao fim de semana e que os esfalfe durante as aulas. Gosto que esteja no ensino público e que o defenda, com qualidade. Gosto que se preocupe, que invista, que invente, que dê o litro e que admita que agora precisa de férias, como todos nós. Graças a Deus por ter colocado esta pessoa no caminho do meu filho durante estes anos tão importantes para a sua formação académica e pessoal.

11 junho 2014

à moda antiga

Diz a Rita que andam a atacar o feedly (patifes! bandidos!). De modo que tenho curiosidade em saber quem chega aqui hoje, pelo bom velho método do motor de busca e do preenchimento à pata da hiperligação deste blogue. Só há de ser gente que me estima, que teve genuínas saudades minhas neste feriado. E não aquela raça frenética sempre à caça do último bitaite alheio. Tipo eu.

10 junho 2014

a parcimónia na reacção

Não é novidade nenhuma dizer que há alguma coisa de muito português, portuguezinho até, na expressão moderada de humores e de amores. É isso e aquela coisa de nuestros hermanos aclamarem a tourada de morte, enquanto nós disfarçarmos a chacina com uns volteios a cavalo e sisudas pegas de caras. Aquilo que me desperta a curiosidade são as diferenças individuais, e não as (supostamente?) culturais na forma como reagimos, nas sentenças que proferimos.
Por que é que há pessoas que, gostando muito de um livro, lhe dão cinco estrelas no Goodreads, enquanto outras, reconhecendo apreciação semelhante, não dispensam mais de três? O que está por trás da esferográfica da professora que caligrafa um Satisfaz -, ao passo que a colega avalia o mesmo trabalho com um Não Satisfaz +? Não se trata do princípio do copo meio cheio ou meio vazio, que não faltam por aí optimistas avarentos nem pessimistas generosos. É um prazer na emoção do gostar, em si, que toca a uns mais do que a outros. E o inverso, um gosto perverso pela proclamação de ultrajes e desilusões, combustível de discussões apetitosas e confrontos mais ou menos amigáveis. Eu, exagerada, me confesso. Deve haver muita imaturidade e ignorância nas minhas reacções excessivas. Ainda assim, entre o apatetado entusiasmo juvenil e o sábio comedimento ancião, deixem-me cá dar mais umas voltas de montanha russa enquanto o permitir o vigor do miocárdio.

limpezas de primavera

É muito mais fácil esvaziar roupeiros, esfregar portadas, separar roupa em caixotes e tirar dedadas de paredes do que dar conta da desarrumação que vai cá dentro de nós. De esfregão em riste, alguidar a jeito, começa-se numa ponta e termina-se na outra, com os cabelinhos húmidos colados à testa e a satisfação do trabalho concluído. As ideias de aranha, elásticas e resistentes, nem sabemos bem a que gavetas da memória se prendem. Há muito pó varrido para debaixo dos tapetes com que reconfortamos os nossos passos incertos. Acumula-se o cotão por desleixo, é certo, mas muitas vezes mais por medo de descobrir a nossa verdadeira cara reflectida nas superfícies devidamente polidas. A porcaria familiar é a nossa porcaria, ainda assim. A novidade do asseio interior pode ser paralisante.

09 junho 2014

outros maluquinhos como eu

Tal como o Lourenço Bray, também não costumo ser grande adepta de correr em grupo. Actividades em grupo, aliás, só as estritamente necessárias*. Mas há muito tempo que andava com vontade de experimentar correr em trilhos e estava fora de questão aventurar-me por esses montes e florestas fora sem guia. Tenho um sentido de orientação colombiano – por referência ao navegador genovês e não à ratazana com asas – e dois filhos para criar, não posso dar-me ao luxo de desaparecer do mapa até que uma equipa de salvamento vá dar comigo a tentar sobreviver à base de pinhões e bolotas. Mas divago, a iniciação ao trail tinha de ser com pessoal que percebesse do assunto. Madrugadores, como eu. E, de preferência, que tivessem um ritmo semelhante ao meu. Aqui estava a maior dificuldade: toda a gente que conheço corre muito mais devagar ou muito mais depressa do que eu, onde andam as minhas almas gémeas da passada?
Não é no grupo dos Loucos Trail Running, isso descobri este fim-de-semana. Aquilo é gente com a massa gorda de um talo de couve, o instinto de uma cabra-montês e a resistência de um camelo mongol. Felizmente também têm o espírito comunitário de uma família de elefantes, não deixando ninguém ficar para trás, e sobretudo abundantes doses de sentido de humor. Foi assim que, entre incentivos e provocações, piadolas e queixumes, lá fomos trepando e destrepando as colinas de Lisboa. Que maravilhoso nascer do dia que estava na Penha de França, na Graça, em S. Vicente de Fora, em Alfama, no jardim do Torel. E em tantos outros becos, ruelas e escadarias com cheirinho a sardinha assada. Não sei é dizer-vos quais porque, entre a desorientação e a desoxigenação derivado do sangue estar a ser todo chamado de urgência aos gémeos, fiquei mais baralhada do que na noite de Santo António. Venham mais treinos destes.

*Agora que penso nisso, os únicos momentos comunitários que aprecio são a missa e a manifestação. Se reflectirmos bem sobre o assunto, têm um fundamento muito semelhante.

06 junho 2014

não me dirijam a palavra

Discuti com toda a gente. Já marchou meio pacote de amêndoas de chocolate. Libertei dois palavrões cabeludos. Pedi para ir para casa, e não me deixaram, enrolar-me na cama a ver filmes. Isto hoje só lá vai quando for amanhã.

05 junho 2014

a face oculta da mãe

Alguns comentários a este post ficaram a debicar-me na consciência materna. Que valente embuste que sou enquanto educadora. Por um lado, insisto com fervor fundamentalista na importância da verdade. Se os meus filhos me perguntam, eu respondo. Sem me esquivar, sem desculpas, no devido formato adequado à idade. Por outro lado, não me dou a conhecer na totalidade. Não sendo doce, adoço-me. Escasseando a paciência, modero com esforço palavras e reacções. Não é que aspire a ser a mãe perfeita mas quero dar-lhes o meu melhor.
Claro que já me viram chorar. Não lhes escondo zangas nem irritações que precisam de escapar com urgência. Mas não me imaginam mesquinhez, maldade ou frieza. E sabe Deus que também tenho disso em boas doses. Eles acreditam piamente na minha essência compassiva e nem desconfiam do lado retorcido, das coisas mal resolvidas e do fundo mais negro, ausentes dos desenhos em que me retratam de vestidos coloridos, caracóis esvoaçantes e um sorriso a toda a prova. Suponho que isto de ser mãe tem sempre a sua dose de hipocrisia – quem nunca ofereceu colheradas de puré de legumes com pescada, fazendo uma refeição à parte para si, que atire a primeira pedra. Dê-se o eclipse na medida certa e para benefício de todas as partes envolvidas. Que seja por amor, não por insegurança nem por ideais socialmente impostos.

04 junho 2014

o dom da invisibilidade

Estou a rever uma tese de um eminente escritor nacional. Vigio o cumprimento de normas e aponto, com zelo e discrição de governanta, gralhas e pequenos deslizes na ortografia. Cabe-me assegurar que tudo está imaculado e irrepreensível no que se refere à forma. A minha missão é pois desaparecer. Engomar com descrição servil uma peça de tecido delicado, eliminando vincos e devolvendo-a ao autor sem tropeços formais que corrompam o brilho do conteúdo. Depois saio de cena com a satisfação de um trabalho tão esmerado que se torna imperceptível.

03 junho 2014

e tu, gralha, és mais adepta do fofinhismo ou da palmatória?

Claro que ninguém se declara a favor destas posições extremas. E também já aprendi que aquilo que é válido hoje pode deixar de sê-lo amanhã. Mas então, onde é que me situo no meio desta discussão pedoparadigmática?
Eu castigo. Se se portam deliberadamente mal, ponho-os de castigo (é raro ser preciso). Deixar cair uma embalagem de iogurte não é portar mal, é ser criança. Despejar o iogurte na cabeça do irmão só é portar mal se não se tratar de uma guerra de comida na banheira, devidamente autorizada.
Eu reforço positivamente. Todos os dias. Em diferentes circunstâncias. Não poupo elogios, mostro-lhes que acredito neles, no melhor deles.
Eu passo-me (ocasionalmente). Nessas alturas, grito, ainda que o evite. E já distribuí meia dúzia de palmadas, quando a má criação foi demais.
Eu mimo. Muito. Ponto final.
Eu sei que não sou perfeita mas sou o exemplo. Quando ouço o mais velho reproduzir argumentos e tons de voz que uso, apercebo-me de como cada gesto nosso não cai em saco roto. Por isso me fundamento na verdade, na simplicidade, no amor, na consciência da imperfeição que se vai aperfeiçoando. E o resto vai-se improvisando.

02 junho 2014

apetecia-me voltar a usar o cabelo assim


Livrar-me dos caracóis, apanhar sol na nuca. Depois concedo que, provavelmente, o que queria era livrar-me do peso das responsabilidades de adulta, viver para sempre em férias grandes, trazer areia para casa e ter quem me curasse os escaldões com mimo e creme Nívea.
Pensando bem, quero a vida dos meus filhos. Está decidido, que lhes cresçam a eles os cabelos. A minha infância ficou bem completa, passo-lhes o testemunho. Já a adolescência, onde é que está o botão para desligar?

E depois se fico a parecer aquelas senhoras que «já não têm idade» para usar cabelo comprido? Pior, e se começam a achar que eu já não me esforço, já não invisto em mim, que relaxei? Como é que um post sobre penteados descamba na revelação do que parece ser uma identidade feminina hesitante? Porque, não, estas questões não estão resolvidas, nem sequer na cabeça das mulheres.