06 fevereiro 2026

Tropical

Há uns 20 (e tal) anos curei um desgosto de amor a ver uma série baseada num livro que fez algum sucesso naquela altura. A banda sonora era boa, os atores, competentes, o cenário tropical, perfeito – e isso bastava. Cresci numa altura em que Portugal não sabia bem como fazer as pazes com o seu passado colonial, que nem se chamava assim nessa altura. Mas tal como o kitsch é a última paragem antes do esquecimento, como disse o Kundera, a visão romântica de uma herança recente não tem desculpa mas é um bocado incontornável. Os portugueses deste início de século ainda estão a digerir a combinação de uma azeitona mediterrânica com o chapeuzinho no copo de cocktail com mais açúcar que uma rabanada com calda. Vimos demasiadas telenovelas, ouvimos demasiadas estórias das festas nas capitais ultramarinas. Não sei quantas colheitas por ano. Roupas leves, pés ao fresco. Mentalidades libertas do salazarismo monocromático. Tantas promessas. Sonhámos com férias em praias com água realmente quente. E agora envergonhamo-nos por não termos visto tanto que estava por trás de um suposto luso-tropicalismo inóquo. Ainda bem que nos envergonhamos. Imaginem alguém envergonhar-se de desfilar de bikini com 10ºC, no carnaval de Torres Vedras. Isso, sim, seria um desperdício.

O Largo nos trópicos:

Apanhada na curva

A Gata Christie

Boas intenções

Dois dedos de conversa

O blogue azul-turquesa

Quinta da Cruz da Pedra