20 fevereiro 2026

raia

Gosto muito de fronteiras. São artificiais e teimosas, artefactos humanos de que a natureza não se compadece. Têm cancelas que chiam, guardadas por fiscais de boné, ou nem isso. Os pássaros atravessam-nas sem se darem conta. Ao longo dos últimos cinco anos, tenho tido a oportunidade de traçar com os pés a fronteira entre Portugal e Espanha, integrando um projeto de amigos que pretendem dar a volta a Portugal a correr, em várias etapas. A próxima será em março, já a descer a costa desde o rio Cávado, caso alguém - além da minha tia Elisa - queira ir fazer claque. 

Confesso que uma das partes mais encantadoras do percurso até agora foi a raia transmontana, em particular o cantinho nordeste, onde até as terras de ambos os lados têm o mesmo nome.

Eu a tentar convencer-vos a ir a Rio de Onor com a primeira imagem que apareceu na Internet porque sou demasiado assídua na limpeza dos arquivos fotográficos.

Será a beleza natural? É. Será a dificuldade em chegar lá? Talvez. Será o pão de Gimonde, a doçura do rio? Para mim é, sem dúvida, a sensação de fim de mapa e que, surpresa!, o mapa é uma patranha. A paisagem é contínua. O enrolar da língua, rionorês. A ausência de pessoas, que emigraram para França, um eco que não distingue sotaques. No entanto, a raia é real, não é cenário de contrabandistas morenos e mulheres rijas a tocar o gado e a partilhar o forno comunitário. Há mesmo cães a deambular na rua com costelas à mostra, que preferiam ter comida todos os dias às festas ocasionais dos turistas. Muitas casas abandonadas. Muitas recuperadas, para visitantes que não ficam a dormir no carro, como eu. Não quero cair na romantização simplória de uma zona com problemas que nem chegam aos meus ouvidos. Não desejo que a raia fique cristalizada no tempo e no abandono. Mas também não sei que caminho poderá levar.

As raianas do Largo:

17 fevereiro 2026

Cultivar o meu jardim

Tenho três estórias sobre este tema e não consigo decidir-me sobre nenhuma delas, por isso conto todas pela rama.

Primeira (a pateta): Guardei sementes dos tamarilhos que a minha prima tinha trazido no ano anterior. Semeei na minha mini horta. Cresceu um arbusto muito alto e viçoso, fiquei vaidosa. Apiedei-me quando percebi que não teria espaço para ele. Com todo o cuidado, desenraizei-o, coloquei, com terra, num saco, transportei uma planta da minha altura durante dois quilómetros, a pé, para a levar à minha colega de trabalho cujo marido é jardineiro. Era, afinal, uma tintureira. Planta altamente tóxica. Um provável presente deixado pelo melro que não paga renda na minha varanda.

Segunda (a emocional): Vai fazer três anos que o meu filho mais velho me salvou a vida. A notícia do pequeno herói Rodrigo, de 9 anos, que chamou o INEM quando percebeu que a mãe não estava bem, recordou-me o episódio em que me engasguei num almoço e fiz uma mímica aflita-sem-querer-assustar-ninguém que o Gustavo percebeu e logo saltou da cadeira, abraçou-me por trás e fez a manobra de Heimlich que me permitiu voltar a respirar. O mais bonito de tudo, para além de ter continuado viva, é a compreensão entre nós, materializada num olhar e num gesto.

Terceira (a mais impressionante, pelo menos para mim): Somos uma família de seis. Não é difícil imaginar, ou se calhar é, para quem externaliza esses serviços, a quantidade de trabalho doméstico que há na nossa casa. Depois de uma cuidadosa análise SWEAT, que é como se fosse SWOT mas para quem executa tarefas braçais, discussão, argumentos, democracia direta, algumas ameaças, cada um dos filhos assumiu um conjunto de responsabilidades que terá de cumprir sem que os pais tenham de os recordar a cada semana (espero). Porque a maior tarefa é a invisível, de reparar no que precisa de ser feito. Se isto funcionar mesmo, vou acrescentar uma linha ao meu currículo.

Outras sementeiras do Largo:

Apanhada na curva

A Gata Christie

Boas intenções

Dois dedos de conversa

O blogue azul-turquesa

Quinta da Cruz da Pedra

06 fevereiro 2026

Tropical

Há uns 20 (e tal) anos curei um desgosto de amor a ver uma série baseada num livro que fez algum sucesso naquela altura. A banda sonora era boa, os atores, competentes, o cenário tropical, perfeito – e isso bastava. Cresci numa altura em que Portugal não sabia bem como fazer as pazes com o seu passado colonial, que nem se chamava assim nessa altura. Mas tal como o kitsch é a última paragem antes do esquecimento, como disse o Kundera, a visão romântica de uma herança recente não tem desculpa mas é um bocado incontornável. Os portugueses deste início de século ainda estão a digerir a combinação de uma azeitona mediterrânica com o chapeuzinho no copo de cocktail com mais açúcar que uma rabanada com calda. Vimos demasiadas telenovelas, ouvimos demasiadas estórias das festas nas capitais ultramarinas. Não sei quantas colheitas por ano. Roupas leves, pés ao fresco. Mentalidades libertas do salazarismo monocromático. Tantas promessas. Sonhámos com férias em praias com água realmente quente. E agora envergonhamo-nos por não termos visto tanto que estava por trás de um suposto luso-tropicalismo inóquo. Ainda bem que nos envergonhamos. Imaginem alguém envergonhar-se de desfilar de bikini com 10ºC, no carnaval de Torres Vedras. Isso, sim, seria um desperdício.

O Largo nos trópicos:

Apanhada na curva

A Gata Christie

Boas intenções

Dois dedos de conversa

O blogue azul-turquesa

Quinta da Cruz da Pedra