gralha dixit
20 março 2026
Cartas postais
13 março 2026
Topete
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| Auto-retrato com topete |
Estou a brincar, isto não sou mesmo eu. Comprei um difusor para o secador de cabelo. Isso deve ter prevenido duas ou três constipações, mas continuo a ter caracóis e não um topete. Tive de ir ao dicionário aprender o significado de topete, é sinónimo de poupa. Além disso, esta imagem é de uma maria-preta-de-penacho e não de uma gralha. Acresce ao topete ter usado esta fotografia, cuja reprodução está explicitamente proibida na página onde a encontrei. É certo que vou ser processada pelo autor, Douglas Fernando Meleti. Se for um fotógrafo mesquinho e ultrapoderoso, posso ir parar à prisão. Afinal de contas, todos sabemos que, para escapar às sanções do Direito Internacional é preciso ser um líder que viola todas as noções de ética e de nexo. Enquanto a polícia da Internet não vier a correr atrás de mim, vou comer todo o bolo que me apetecer e o que mais me der na real gana. Se o mundo está para acabar, dancemos.
A ver se as meninas do Largo têm o topete de dizer alguma coisa sobre o assunto:
06 março 2026
Geografia
Poucas são as vezes em que me aventuro até abaixo dos joelhos. Mesmo no fim do Inverno, lembro-me que são belos os pés, de peito alto. Vejo-os quando o sol permite mas não costumo chegar lá. Como aquelas terras onde só há uma estrada de acesso, tipo Campo Maior, ou Barrancos. São bonitas mas é preciso um pretexto para ir lá de propósito. A viagem faz-se, alías, de Norte para Sul. O caminho começa na curva occipital, contorna uma orelha, desce a pique no pescoço, forte e suave, depois logo se vê onde me apetece ir, na encruzilhada do peito ou das costas. Um braço, o outro. Nervos, músculos longos, tuda a superfície é impressão digital única. Ninguém como eu conhece de memória o toque deste corpo. Outras por lá passaram mas não foram tão aplicadas no estudo desta geografia. Todos os dias, todas as noites, quase há uma década. A erosão do tempo mexeu muito mais com o subsolo do que com aquela terra que a minha pele visita. Não posso descurar o estudo, no entanto. Uma aluna exemplar não deixa que a familiaridade a torne preguiçosa. Revejo a matéria, atualizo os mapas e agora isto resvalava tão facilmente para um final brejeiro mas sou uma senhora, era o que faltava.
O Largo é chamado ao quadro:
20 fevereiro 2026
raia
Gosto muito de fronteiras. São artificiais e teimosas, artefactos humanos de que a natureza não se compadece. Têm cancelas que chiam, guardadas por fiscais de boné, ou nem isso. Os pássaros atravessam-nas sem se darem conta. Ao longo dos últimos cinco anos, tenho tido a oportunidade de traçar com os pés a fronteira entre Portugal e Espanha, integrando um projeto de amigos que pretendem dar a volta a Portugal a correr, em várias etapas. A próxima será em março, já a descer a costa desde o rio Cávado, caso alguém - além da minha tia Elisa - queira ir fazer claque.
Confesso que uma das partes mais encantadoras do percurso até agora foi a raia transmontana, em particular o cantinho nordeste, onde até as terras de ambos os lados têm o mesmo nome.
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| Eu a tentar convencer-vos a ir a Rio de Onor com a primeira imagem que apareceu na Internet porque sou demasiado assídua na limpeza dos arquivos fotográficos. |
17 fevereiro 2026
Cultivar o meu jardim
Tenho três estórias sobre este tema e não consigo decidir-me sobre nenhuma delas, por isso conto todas pela rama.
Primeira (a pateta): Guardei sementes dos tamarilhos que a minha prima tinha trazido no ano anterior. Semeei na minha mini horta. Cresceu um arbusto muito alto e viçoso, fiquei vaidosa. Apiedei-me quando percebi que não teria espaço para ele. Com todo o cuidado, desenraizei-o, coloquei, com terra, num saco, transportei uma planta da minha altura durante dois quilómetros, a pé, para a levar à minha colega de trabalho cujo marido é jardineiro. Era, afinal, uma tintureira. Planta altamente tóxica. Um provável presente deixado pelo melro que não paga renda na minha varanda.
Segunda (a emocional): Vai fazer três anos que o meu filho mais velho me salvou a vida. A notícia do pequeno herói Rodrigo, de 9 anos, que chamou o INEM quando percebeu que a mãe não estava bem, recordou-me o episódio em que me engasguei num almoço e fiz uma mímica aflita-sem-querer-assustar-ninguém que o Gustavo percebeu e logo saltou da cadeira, abraçou-me por trás e fez a manobra de Heimlich que me permitiu voltar a respirar. O mais bonito de tudo, para além de ter continuado viva, é a compreensão entre nós, materializada num olhar e num gesto.
Terceira (a mais impressionante, pelo menos para mim): Somos uma família de seis. Não é difícil imaginar, ou se calhar é, para quem externaliza esses serviços, a quantidade de trabalho doméstico que há na nossa casa. Depois de uma cuidadosa análise SWEAT, que é como se fosse SWOT mas para quem executa tarefas braçais, discussão, argumentos, democracia direta, algumas ameaças, cada um dos filhos assumiu um conjunto de responsabilidades que terá de cumprir sem que os pais tenham de os recordar a cada semana (espero). Porque a maior tarefa é a invisível, de reparar no que precisa de ser feito. Se isto funcionar mesmo, vou acrescentar uma linha ao meu currículo.
Outras sementeiras do Largo:
06 fevereiro 2026
Tropical
Há uns 20 (e tal) anos curei um desgosto de amor a ver uma série baseada num livro que fez algum sucesso naquela altura. A banda sonora era boa, os atores, competentes, o cenário tropical, perfeito – e isso bastava. Cresci numa altura em que Portugal não sabia bem como fazer as pazes com o seu passado colonial, que nem se chamava assim nessa altura. Mas tal como o kitsch é a última paragem antes do esquecimento, como disse o Kundera, a visão romântica de uma herança recente não tem desculpa mas é um bocado incontornável. Os portugueses deste início de século ainda estão a digerir a combinação de uma azeitona mediterrânica com o chapeuzinho no copo de cocktail com mais açúcar que uma rabanada com calda. Vimos demasiadas telenovelas, ouvimos demasiadas estórias das festas nas capitais ultramarinas. Não sei quantas colheitas por ano. Roupas leves, pés ao fresco. Mentalidades libertas do salazarismo monocromático. Tantas promessas. Sonhámos com férias em praias com água realmente quente. E agora envergonhamo-nos por não termos visto tanto que estava por trás de um suposto luso-tropicalismo inóquo. Ainda bem que nos envergonhamos. Imaginem alguém envergonhar-se de desfilar de bikini com 10ºC, no carnaval de Torres Vedras. Isso, sim, seria um desperdício.
O Largo nos trópicos:
23 janeiro 2026
Sair da bolha
Desde que dois irmãos muito queques do século dezanove desataram a azucrinar a cabeça da mãe D. Carlota Joaquina - como se não lhe bastasse ter casado aos 10 anos com o panhonhas do D. João - que Portugal não se encontrava assim dividido ao meio. A segunda volta das eleições presidenciais é um cutelo de corte limpo nesta era de hiperfragmentação partidária. Agora, sim, não há desculpa. Nós contra eles. Os maus e os bons. Os altruístas e os egoístas. Os engolidores de sapos e os odiadores de sapos.
Grante treta.
Portugal é um paralelipípedo minúsculo de cortiça com um naperon por cima para não se estragar, humilde e acolhedor. Quem faz kombucha sabe que a fermentação não resulta dentro desse tipo de recipiente. Não se produzem bolhas, só um líquido avinagrado. Não desconsiderando as muito importantes diferenças regionais e desigualdades socioeconómicas, nada disso impede que sejamos coletivamente obrigados a ver o mundial de futebol se a seleção estiver a jogar. Há ainda muita pobreza. Há uma classe média cada vez mais atrapalhada. Há uns quantos ricos primos uns dos outros. Mas toda a gente adora uma promoção no supermercado. Qualquer bolha que exista é auto-insuflada. O tio que implica com o motorista TVDE é muito mais parecido comigo do que gostaria de admitir. A prima que vai às manifestações pela defesa das minorias também estaciona em segunda fila e agradece a cunha para que os filhos fiquem na melhor turma da escola pública. Irritamo-nos todos muito uns com os outros e somos transversalmente incapazes de criticar-nos na cara. Só nas costas.
Precisamos de sair da bolha da nossa imaginação. Ir mais longe não cansa. Pode nem implicar sair do sofá e do ecrã, esses grandes responsáveis por tanta alucinação coletiva. Sentemo-nos no chão ou saiamos a correr para a rua em modo analógico. Como diz a Rosalía, "una pelota de golf ocupa el Titanic, el Titanic cabe en un pintalabios, y un pintalabios ocupa el cielo". E a Rosalía tem sempre razão.
Da bolha do Largo:


