27 março 2026

Robots como nós

Domingo de manhã, em Santo Tirso. Estive duas vezes na vida em Santo Tirso, nesse dia e no anterior. Da segunda vez, cheguei ainda mais depressa e cheia de vergonha. Era hora de pôr o meu otimismo à prova. "Por favor, Mariana, tenta lembrar-te do sítio onde foi." A subida em cotovelo. O chão empedrado. "Pensa: abriste a janela do veículo desconhecido que te passaram para as mãos porque tiveste demasiado orgulho em admitir que não sabias sequer onde ligar o ar condicionado. Não estava propriamente calor mas tu estavas nervosa porque tinhas de despachar-te e não te perder dos outros. Sim, sim, porque tiveste demasiada preguiça de registar o percurso no teu telefone e restava-te andar atrás de quem sabia." 

Aqui! Saí do carro e desatei a correr para cima e para baixo, para um lado e para o outro da estrada. Independentemente das dioptrias, se a porcaria do identificador da Via Verde tinha de saltado pela janela e estava algures por ali, eu ia encontrá-lo.

De facto, encontrei uma chapinha de plástico com as iniciais do dono. A prova do homicídio involuntário de um chip, o crime que cometi ao tentar acompanhar o ritmo deste mundo com a competência demasiado humana e obsoleta que tenho para dar. Quais robots como nós? Porventura a tecnologia tenta disfarçar as suas falhas e culpa-se pelas mesmas? Algum automóvel autónomo desacelera para nos permitir acenar à criança que agita uma mãozita na outra faixa? Qual é o drone que desobedece ao comando quando o mandam largar uma bomba sobre inocentes? Há algum aspirador automático que não engula a peça do puzzle espalhada, e que vai ficar a faltar? Bem me parecia.


No Largo, somos todas analógicas:

Apanhada na curva

A Gata Christie

Boas intenções

Dois dedos de conversa

O blogue azul-turquesa

Quinta da Cruz da Pedra

Sem comentários: