23 janeiro 2026

Sair da bolha

Desde que dois irmãos muito queques do século dezanove desataram a azucrinar a cabeça da mãe D. Carlota Joaquina - como se não lhe bastasse ter casado aos 10 anos com o panhonhas do D. João - que Portugal não se encontrava assim dividido ao meio. A segunda volta das eleições presidenciais é um cutelo de corte limpo nesta era de hiperfragmentação partidária. Agora, sim, não há desculpa. Nós contra eles. Os maus e os bons. Os altruístas e os egoístas. Os engolidores de sapos e os odiadores de sapos.

Grante treta.

Portugal é um paralelipípedo minúsculo de cortiça com um naperon por cima para não se estragar, humilde e acolhedor. Quem faz kombucha sabe que a fermentação não resulta dentro desse tipo de recipiente. Não se produzem bolhas, só um líquido avinagrado. Não desconsiderando as muito importantes diferenças regionais e desigualdades socioeconómicas, nada disso impede que sejamos coletivamente obrigados a ver o mundial de futebol se a seleção estiver a jogar. Há ainda muita pobreza. Há uma classe média cada vez mais atrapalhada. Há uns quantos ricos primos uns dos outros. Mas toda a gente adora uma promoção no supermercado. Qualquer bolha que exista é auto-insuflada. O tio que implica com o motorista TVDE é muito mais parecido comigo do que gostaria de admitir. A prima que vai às manifestações pela defesa das minorias também estaciona em segunda fila e agradece a cunha para que os filhos fiquem na melhor turma da escola pública. Irritamo-nos todos muito uns com os outros e somos transversalmente incapazes de criticar-nos na cara. Só nas costas.

Precisamos de sair da bolha da nossa imaginação. Ir mais longe não cansa. Pode nem implicar sair do sofá e do ecrã, esses grandes responsáveis por tanta alucinação coletiva. Sentemo-nos no chão ou saiamos a correr para a rua em modo analógico. Como diz a Rosalía, "una pelota de golf ocupa el Titanic, el Titanic cabe en un pintalabios, y un pintalabios ocupa el cielo". E a Rosalía tem sempre razão.

Da bolha do Largo:

Apanhada na curva

A Gata Christie

Boas intenções

Dois dedos de conversa

O blogue azul-turquesa

Quinta da Cruz da Pedra




1 comentário:

Tella disse...

Muito bom! Bravo!