27 março 2026

Robots como nós

Domingo de manhã, em Santo Tirso. Estive duas vezes na vida em Santo Tirso, nesse dia e no anterior. Da segunda vez, cheguei ainda mais depressa e cheia de vergonha. Era hora de pôr o meu otimismo à prova. "Por favor, Mariana, tenta lembrar-te do sítio onde foi." A subida em cotovelo. O chão empedrado. "Pensa: abriste a janela do veículo desconhecido que te passaram para as mãos porque tiveste demasiado orgulho em admitir que não sabias sequer onde ligar o ar condicionado. Não estava propriamente calor mas tu estavas nervosa porque tinhas de despachar-te e não te perder dos outros. Sim, sim, porque tiveste demasiada preguiça de registar o percurso no teu telefone e restava-te andar atrás de quem sabia." 

Aqui! Saí do carro e desatei a correr para cima e para baixo, para um lado e para o outro da estrada. Independentemente das dioptrias, se a porcaria do identificador da Via Verde tinha saltado pela janela e estava algures por ali, eu ia encontrá-lo.

De facto, encontrei uma chapinha de plástico com as iniciais do dono. A prova do homicídio involuntário de um chip, o crime que cometi ao tentar acompanhar o ritmo deste mundo com a competência demasiado humana e obsoleta que tenho para dar. Quais robots como nós? Porventura a tecnologia tenta disfarçar as suas falhas e culpa-se pelas mesmas? Algum automóvel autónomo desacelera para nos permitir acenar à criança que agita uma mãozita na outra faixa? Qual é o drone que desobedece ao comando quando o mandam largar uma bomba sobre inocentes? Há algum aspirador automático que não engula a peça do puzzle espalhada, e que vai ficar a faltar? Bem me parecia.


No Largo, somos todas analógicas:

Apanhada na curva

A Gata Christie

Boas intenções

Dois dedos de conversa

O blogue azul-turquesa

Quinta da Cruz da Pedra

20 março 2026

Cartas postais

Repito a publicação desta fotografia, que surgiu neste blogue pela primeira vez a 11 de maio de 2006, porque não sei onde meti o postal que mandei a mim própria, durante as férias em Cuba. Lembro-me que continha uma mensagem encriptada com o nome do rapaz cubano que me deixou a suspirar, mas só a suspirar, que eu era uma rapariga comprometida. Como disse em portunhol na altura, "venir aquí es mejor si no tienes novio". Enfim. Cuba era, já na altura, muito mais do que calor e gente bonita. Mais até do que as horas de dança descalça no palco de madeira do resort de cinco estrelas. Muito, muito mais do que os Cadillacs preservados na perfeição, ou Habana Vieja com o nível de decadência em ponto de rebuçado para o turista. Era miúda e muito privilegiada, mas até eu percebi que Cuba era, acima de tudo, livre e digna.
Vê-la agora sem eletricidade, gente aflita neste preciso momento em que escrevo. Ameaçados de forma muito real por alguém que não tem quem o trave. Caramba... Como é que vamos olhar para este tempo e para estes lugares daqui a vinte anos? O que diríamos a nós próprios se pudessemos mandar cartas postais para o passado, alertando para o que iríamos testemunhar agora? "Saudações de Cayo Largo! Aprecia essa cuba livre porque o mundo vai estar de pernas para o ar não tarda nada!" Uma dúvida genuína: perante o absurdo, faz sentido manter a sobriedade?

Cartas postais do Largo:

13 março 2026

Topete

 

Auto-retrato com topete

Estou a brincar, isto não sou mesmo eu. Comprei um difusor para o secador de cabelo. Isso deve ter prevenido duas ou três constipações, mas continuo a ter caracóis e não um topete. Tive de ir ao dicionário aprender o significado de topete, é sinónimo de poupa. Além disso, esta imagem é de uma maria-preta-de-penacho e não de uma gralha. Acresce ao topete ter usado esta fotografia, cuja reprodução está explicitamente proibida na página onde a encontrei. É certo que vou ser processada pelo autor, Douglas Fernando Meleti. Se for um fotógrafo mesquinho e ultrapoderoso, posso ir parar à prisão. Afinal de contas, todos sabemos que, para escapar às sanções do Direito Internacional é preciso ser um líder que viola todas as noções de ética e de nexo. Enquanto a polícia da Internet não vier a correr atrás de mim, vou comer todo o bolo que me apetecer e o que mais me der na real gana. Se o mundo está para acabar, dancemos.

A ver se as meninas do Largo têm o topete de dizer alguma coisa sobre o assunto:

Apanhada na curva

A Gata Christie

Boas intenções

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Quinta da Cruz da Pedra

06 março 2026

Geografia

Poucas são as vezes em que me aventuro até abaixo dos joelhos. Mesmo no fim do Inverno, lembro-me que são belos os pés, de peito alto. Vejo-os quando o sol permite mas não costumo chegar lá. Como aquelas terras onde só há uma estrada de acesso, tipo Campo Maior, ou Barrancos. São bonitas mas é preciso um pretexto para ir lá de propósito. A viagem faz-se, alías, de Norte para Sul. O caminho começa na curva occipital, contorna uma orelha, desce a pique no pescoço, forte e suave, depois logo se vê onde me apetece ir, na encruzilhada do peito ou das costas. Um braço, o outro. Nervos, músculos longos, tuda a superfície é impressão digital única. Ninguém como eu conhece de memória o toque deste corpo. Outras por lá passaram mas não foram tão aplicadas no estudo desta geografia. Todos os dias, todas as noites, quase há uma década. A erosão do tempo mexeu muito mais com o subsolo do que com aquela terra que a minha pele visita. Não posso descurar o estudo, no entanto. Uma aluna exemplar não deixa que a familiaridade a torne preguiçosa. Revejo a matéria, atualizo os mapas e agora isto resvalava tão facilmente para um final brejeiro mas sou uma senhora, era o que faltava.


O Largo é chamado ao quadro:

Apanhada na curva

A Gata Christie

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