06 outubro 2013

a minha primeira maratona

É verdade: fintei as probabilidades, fui contra todo o bom senso e hoje apresentei-me na partida, em Cascais, para correr os 42,195 Km da 1ª edição da Rock n' Roll Maratona de Lisboa. E corri-os! Sempre com um sorriso na cara e a deliciar-me com a beleza do percurso. Porque o mero facto de ter começado foi uma dádiva, mas a possibilidade de continuar a correr até ao fim só se deu com muita fé em mim e uma grande Fé em Quem me acompanhou em todo o caminho. A sensação de cruzar a meta, com a minha família ali a torcer por mim, foi das coisas mais maravilhosas que já experimentei.
E agora podem fechar o browser se não tiverem paciência para longas descrições de corridas - mas eu vou descrever na mesma porque quero guardar a recordação para sempre.

Passei a noite e a madrugada ansiosíssima. Dormi pouco. Tomei um hiper-calórico pequeno-almoço de sandes tripla de manteiga de amendoim e doce, acompanhada de batido de chocolate, banana e manteiga de amendoim. Preparei o meu camelback com água e as poucas coisas que levava e lá fomos nós. Antes de apanhar o comboio para Cascais, deixando os meus amores para trás, estava tão nervosa que até chorei. É que eu nunca tinha corrido mais do que 21 Km e estou ainda a recuperar de uma lesão, que me arruinou os treinos. Nem sequer contei antes aos meus pais que ia participar, porque foi mesmo uma grande insconsciência.
A verdade é que estava um dia maravilhoso em Cascais e havia "só" 2500 pessoas, todas muito animadas. Passaram-me os nervos e senti, desde o sinal da partida, que ia conseguir terminar. Estava mesmo feliz por estar ali. Resolvi dividir mentalmente a prova em fracções de 10 Km, para parecer mais fácil (resultou até aos 30). Os primeiros 10 foram uma doçura. Esteve sempre muito calor mas despejei várias garrafas de água sobre a cabeça e nunca cheguei a aquecer. Não faço ideia do ritmo a que ia (aliás, ainda não sei o meu tempo final) porque só queria sentir-me confortável e terminar. Os 10 km seguintes também não me custaram (se exceptuarmos a passagem pela Câmara de Oeiras, que me deu algumas náuseas - mas isso deve-se ao que aconteceu no Domingo passado e não neste). Aos 15 Km engoli o primeiro gel energético, o que repeti aos 25 e aos 35. À passagem da meia-maratona pensei "só falta metade!" e continuei cheia de confiança. Aos 22 Km começaram a doer-me as pernas. Foram 20 Km a arrastar umas pernas em dor, mas era gerível e fui alongando e suportando (nisto acho que as mulheres que já deram à luz sem epidural levam vantagem!). Foi importante chegar a Lisboa, do ponto de vista psicológico, e depois foi sempre a gerir os "só mais X Km até chegar ao próximo abastecimento", onde me molhava, bebia e esticava os pobres gémeos massacrados. Quando cheguei aos 35 Km tive a certeza que ia acabar e liguei ao L. para irem receber-me à meta. A partir daí já me custava mesmo correr, as pernas estavam pesadíssimas e a gralha virou tartaruga. Essa foi a fase em que mais contou o apoio do público, incentivando-nos a continuar (infelizmente, não havia muito e as pessoas estavam mais a admirar os maluquinhos a correr do que a gritar por nós, mas houve muitas fantásticas excepções). Os atletas também iam sempre puxando uns pelos outros, isso é certamente das coisas mais bonitas da corrida. Aos 39 Km tive mesmo de andar até chegar quase aos 40, mas sei que o fiz porque queria chegar a correr, cheia de energia. Quando recomecei, passou-me todo o cansaço e estava com muita vontade de ver a carinha linda do meu Gugas, cheio de orgulho em mim. Ao fundo, a meta: dei corda aos sapatos e, mesmo antes de passar, vi-os. Levei as mãos ao céu e senti uma enorme gratidão e um enorme orgulho em mim própria. Caraças, se eu consegui isto, depois do percurso dos últimos 4 meses, consigo qualquer coisa. Sou uma maratonista!
Depois recebi a medalha e fui pô-la ao pescoço do meu filho mais velho (o mais novo estava a dormir a sesta, vê-me para a próxima). Vim para casa, tomei um longo duche e agora basicamente não me mexo, mas não há de ser nada! A única mazela visível que tenho é uma bolha aberta na mão... De abrir as garrafas de água. Obrigada aos somíticos dos fabricantes de garrafas que fazem tampas cada vez mais estreitinhas.
Finalmente, quero destacar o enorme apoio do meu querido marido, que acreditou em mim desde o princípio e possibilitou que eu andasse a treinar 3 vezes por semana ao longo de tanto tempo. Agora vou descansar durante umas semanas. De louvar também a organização do evento, que esteve impecável. Não faço ideia de como foram os concertos em Lisboa mas também os dispensava bem e acho que até corri um pouco mais devagar só para não ter de ouvir os Xutos & Pontapés.
E agora? Agora vou encher o bandulho de sushi para repor os sais minerais. E vou descansar durante uns tempos. Não sei se voltarei a fazer uma maratona, sobretudo devido ao que implica em termos de treino, complicado para quem tem já uma vida bem preenchida. Mas é claro que vou continuar a correr. Quem sabe, talvez um dia aproveite a experiência que esta lesão me trouxe em natação e bicicleta e me aventure no triatlo :)

Actualização: Demorei 4h37'm44s, segundo o meu chip. E fiquei em 1403º lugar (131º entre as mulheres)

02 outubro 2013

do fundo de uma chávena de chá

Sou altamente apologista de quem procura retirar lições de vida a partir de pequenas circunstâncias que podiam parecer, à primeira vista, inocentes e aleatórias. Mesmo que as previsões meteorológicas falhem, que as estrelas não se alinhem, que as borras de café prometam e não cumpram, alguém que entrevê premonições (acha que) sabe a quantas anda e para onde vai. A determinação é o biocombustível do sucesso.
Infelizmente não acredito no destino. Faço o possível e também tento descobrir padrões, tendências, o código por que se rege o esquema do universo. Daí ver-me obrigada a concluir que, se volta a estar na moda a saia que dei no ano passado, se agora preciso de um recibo que atirei para a reciclagem anteontem, se vou ter de recuperar os dados que já tinha compilado e que apaguei, sem possibilidade de Ctrl+z,

Será que ando a desistir prematuramente das coisas?

Será que a febre do minimalismo e do não-deu-paciencismo se apoderaram de mim sem clemência? Quanto terei já desperdiçado porque ando sempre a mil, sem dar segundas oportunidades a objectos, pessoas, planos? Por outro lado, não podemos viver sempre na mesma poça de lama, repetindo erros e acreditando em hipóteses improváveis. Isso do optimismo ocupa imenso espaço e dá uma trabalheira, por muito que nos poupe em anti-rugas (além de que não se vende em comprimidos). Ah, se ao menos vivesse há uns séculos atrás e tivesse os homens para decidirem o meu rumo e arcarem com as culpas.

26 setembro 2013

apurando sabores

Tenho reparado que o cansaço é uma espécie de destempero secreto neste complexo cozinhado que é a educação que tentamos dar aos filhos. Quando estamos de rastos, afinam-se os nossos piores defeitos e estraga-se a harmonia de um prato que se quer nutritivo e saboroso. Nesses dias, eu torno-me ainda mais permissiva e deixo passar uma quantidade pouco recomendável de disparates, bufando qual panela de pressão a tentar não rebentar; já ele perde a mão à temperança e abusa dos indigestos castigos e do tom exaltado. Somos todos humanos e somo-lo ainda mais quando já nos arrastamos ao fim da tarde. Num mundo perfeito, todas as famílias cozinhariam a quatro mãos, um daria conta da entrada e da sobremesa, o outro do prato principal e das bebidas, equilibrando ingredientes e mantendo o fogo em lume brando. Nos dias de cansaço é quando mais sinto admiração por quem tem de cozinhar sempre sozinho, tantas vezes para uma clientela mais exigente do que um batalhão de críticos culinários.

25 setembro 2013

projectos para o outono

Dado o estrondoso sucesso que foram os meus projectos para o Verão (só escaparam os pontos 4 e 10), e num esforço um bocadinho desesperado para encarar os próximos meses de humidade, chuva batida a vento, nariz pingão, noite às seis da tarde glorioso ocaso dos dias, aqui vão os fresquíssimos objectivos para o tempo que aí vem.

1. Começar a pesquisa e escrever um artigo
2. Descobrir mais receitas de comida de conforto que não vá ao forno;
3. Marcar a viagem para a Costa Rica;
4. Telefonar mais vezes à minha avó e à minha mãe;
5. Organizar mais um fabuloso jantar de Halloween;
6. Organizar um jantar de Dia de Acção de Graças (desta vez com peru e não frango);
7. Continuar o projecto fotográfico da nossa família;
8. Comer castanhas assadas e beber jeropiga;
9. Lembrar-me de borboletas esvoaçantes quando forem 18h, estiver a chover, um trânsito descomunal e não conseguir arranjar lugar para estacionar perto de casa;
10. Fazer fondue de chocolate (e paciência para as dedadas castanhas pela sala fora);
11. Substituir os desenhos nas molduras do quarto dos meninos;
12. Abastecer-me de livros;
13. Visitar os museus de Lisboa que nos faltam, ao Domingo;
14. Ir ao concerto do Rodrigo Leão;
15. Continuar a treinar de forma equilibrada;
16. Rever o vídeo das férias;
17. Comprar pijamas quentinhos e polares para os miúdos;
18. Fazer batido de manteiga de amendoim, chocolate e banana;
19. Limpar os armários da cozinha;
20. Comprar um par de botas pretas.

Está visto que vai ser um Outono a encher o bandulho. Para a próxima, deixassem-me viver no Senegal.

24 setembro 2013

isto das correrias

A dona da mota desafiou-me a dar algumas dicas para iniciantes de corrida. Eu não percebo nada de planos de corrida, não tenho nenhuma formação nessa área e acho que quem nunca correu deve aconselhar-se com um especialista. Para quem não quer/ não pode inscrever-se num ginásio ou arranjar um personal trainer, há muitos sites que dão algumas luzes sobre esta modalidade, mas cada um vai por sua conta e risco. Veja-se o que me aconteceu, não é?
Mesmo assim, deixem-me só partilhar algumas lições que aprendi:
1. Fazer muito bem os alongamentos, antes e depois do treino;
2. Fazer outra actividade para além da corrida, para fortalecer todos os grupos musculares e não saturar sempre os mesmos;
3. A mais importante: ouvir o nosso corpo! Se eu tivesse parado quando me começou a doer o joelho (e não tivesse corrido mais 10 km em sofrimento), a coisa tinha sido menos má. Quando dói, é para parar. E aplicar gelo. E esperar pacientemente que o corpo recupere.
Caras amigas, se quereis começar a correr, fazei-o pelas razões certas e não pelas erradas. Como dizia alguém no outro dia (não me lembro da fonte, lamento), o exercício não deve ser uma forma de castigo para obrigar o nosso corpo a ajustar-se à imagem que sonhamos; deve ser uma forma de recompensa, para nos encher de endorfinas, bem-estar e energia para enfrentar o resto da vida. Boas corridas!

19 setembro 2013

recomeçar devagarinho


Hoje voltei a correr. A medo, mas sem dor. Estou com um sorriso parvo de quem tem novo namorado.

Imagem de Ph Peixoto.

18 setembro 2013

talhando as novas rotinas

Setembro, doce Setembro, que ainda não fazes frio apesar de já se ter ido o bronzeado. Setembro, duro Setembro, em que lidamos com angústias e lágrimas e medos, tentamos ser fortes e polivalentes, omnipresentes, e fazemos o melhor que podemos. O melhor que conseguimos. É tempo de adaptação para todos. Esticamos calendários e agendas para caberem as nossas vivências enquanto indivíduos, membros de uma família, de uma comunidade e de uma equipa de trabalho e as peças lá vão encaixando, mesmo que custe limar algumas arestas.
É assim, agora: levanto-me cedo para o tempo para mim, com oração, yoga e pequeno-almoço indolente enquanto leio um bocadinho. Depois vem todo o dia que dou aos outros (e dou-o de coração). Mimos, narizes assoados, lembretes, entregas, abraços, saudades, trabalho, reencontros, partilhas, brincadeiras, banhos, jantares e, de preferência, que chegue um bocadinho para o outro adulto da casa, que afinal foi aquele com quem decidimos passar a vida (e que também passa a vida nestes malabarismos). Cada um de nós recomeça a vida em Setembro à sua maneira. Gosto da nossa, com todos estes pequenos momentos, mesmo os que não se enquadram em paisagens bucólicas de anúncio de detergente.

16 setembro 2013

o primeiro dia do resto da vida dele

Lá foi hoje, o nosso Gugas, semi-vergado por uma mochila gigantesca, para a escola primária. Silencioso mas sereno. Curioso mas reservado. Quem me dera ser mosca para ter ficado lá a fazer parte de um dos dias que recordará para sempre. Mas não fiquei, é mais um corte no cordão umbilical. Este não custou nada: estou muito tranquila e confiante com esta escola e com a professora. Resta ver como serão os colegas. Tão crescido e tão lindo, o meu filho <3

13 setembro 2013

dois lá, dois cá

Faz hoje dois anos que regressámos dos EUA, sensivelmente o mesmo tempo que lá passámos. Obviamente que este último período passou muito mais depressa. E continuo a achar que foi uma das decisões mais acertadas da minha vida. Não é à toa que muitos dos nossos amigos que emigram para os EUA acabam por regressar. Acho mesmo difícil para um europeu urbano com uma vida simpática aderir ao sonho americano*. A menos que seja por amor, mas os meus amores e eu andamos atrelados.
E então, gralha, não sentes saudades de nada? Sinto, pois sim, senhores. Ora lá ver:
1. Do clima. Muito melhor do que esta porcaria húmida de Inverno que temos;
2. De ter uma floresta nas traseiras de casa;
3. Das burocracias funcionarem decentemente;
4. Da informalidade;
5. Das porcarias para comer (anotado: tenho mesmo de ir comprar Reese's à loja americana de S. Sebastião)
E pronto, é isto. Não, não tenho saudades de Nova Iorque. Mas os miúdos têm. Daqui a uns anos, quando eu já não estiver traumatizada com a travessia do Atlântico, temos de levá-los lá para o Diogo ir à terra, que também tem direito.

* Já para não falar da real tanga que é o sonho americano, quando muito uma realidade para os imigrantes de segunda geração.

12 setembro 2013

falemos de dinheiro. e de pessoas

A pouco e pouco, fui deixando de gastar dinheiro. Em numerário, claro, porque ainda não me tornei eremita e as contas continuam a ter de ser pagas. Em quase todo o lado se aceita cartão de débito e o que não aceita já não faz parte da minha esfera de consumo. O último café que bebi, em Junho, levou com ele os derradeiros cobres que guardava no porta-moedas para uso pessoal. As minhas moedas já não compram nada, dou-as a quem precisa. Ainda não é o mundo sem dinheiro com que sonho, mas é um primeiro passo.
Se toda a gente for como eu isto significa, contudo, que há menos emprego em bancos, cafés, tabacarias, cabeleireiros e guichés da mais variada espécie (o texto até aqui foi um bocado pretexto para usar a palavra guiché, que me faz sorrir, como todas as palavras acabadas em é). Mas claro que precisamos todos de continuar a alimentar o corpo e a alma, a vestir-nos e a fazer vida de gente grande. É verdade que passei a internalizar muitas das tarefas que antes pagava a alguém para desempenharem, ao contrário das empresas que se concentram no seu núcleo de negócio e lançam designers, informáticos, empregadas de limpeza, contabilistas, juristas e copywriters para o oceano nos recibos verdes. Mas também é verdade que estou cada vez mais a personalizar a escolha daqueles cujos serviços ainda não dou conta porque não posso. Ou não quero. A minha merceeira tem nome, história e espaço na minha vida. O meu fotógrafo conhece a família e faz sugestões apropriadas. As nossas cuidadoras têm uma identidade concreta e moldamos convivências de acordo com isso. Não preciso de mais relações anónimas no meio de uma cidade com tantas caras desconhecidas. A minha revolta contra o sistema não é uma revolução, é uma teimosia em perceber que precisamos muito menos de coisas e muito mais de gente, em concreto.

03 setembro 2013

acerca do 'custa-nos mais a nós do que a eles'

E o meu matulão a agarrar-se à t-shirt da escola antiga (que eu queria passar para o irmão), e a dizer que quer ficar com ela para sempre? Glup. Como é que se abraça um ser que já pesa mais de metade de nós e se explica que crescer é giro? Hoje caiu nele: vai para a escola primária e acabou-se o Jardim de Infância onde tudo era familiar e doce. Apesar da tranquilidade de sabê-lo colocado na pequenina escola de bairro que desejáramos, sei que vêm aí quatro anos de desconhecido. Filho grande, filho querido, é nestas alturas que espero ter conseguido encher o teu baldinho de auto-estima. Que saibas sempre que, apesar de todas as mudanças, serás sempre muito amado e respeitado exactamente como és. Vai correr bem, filho. Vai correr bem.

02 setembro 2013

inspiração

Uma das coisas que me dão mais gozo, como mãe, é inspirar os meus filhos. Fazer alguma coisa que os leva a parar e deixar a imaginação ganhar asas. Isso pode ser o filme caseiro das férias na praia, que lhes dá vontade de pegar na câmara e começar a filmar todos os fait divers. Ou uma estória, que serve de mote a uma brincadeira dali a uns tempos. Ou, como hoje, uma visita à Estufa Fria, na sequência da qual chegaram a casa e pediram papel, pinceis e aguarelas para plasmar folhas, grutas e pedras que andaram a descobrir umas horas antes. Não tenho pretenções artísticas mas acho que abrir horizontes e provocar os sentidos é uma das maiores dádivas que podemos dedicar a alguém. Esta parte de ser mãe é um privilégio gigantesco e sei apreciá-la pela raridade que é. Porque também sei que isto acontece porque consigo aquele frágil e precioso equilíbrio do tempo passado longe deles e do tempo com eles.
Sei que não há receitas para isto mas eis como a coisa resulta sinfonicamente connosco: um tempo para eu ser só eu e um tempo para ser mãe deles de todo o coração. Se tivesse optado por uma "carreira" ia sentir-me permanentemente culpada pelas ausências regulares, por não acompanhar o trivial mas tão importante na soma dos dias; se tivesse decidido entregar-me à maternidade 24/7, iria deixar-me afundar no cheiro da sopa, na roupa por dobrar, nas solicitações constantes, e não teria a capacidade de me dar por inteiro a estes momentos que partilhamos. A verdade é que não me é fácil sorrir perante uma mesa pintalgada, um quarto em pantanas, quando isso é a realidade diária e não a feliz excepção deste doce fim de férias. Cada mãe tem o seu equilíbrio (ou merece encontrá-lo...), este é o meu.

29 agosto 2013

já não tenho bebés

Despachámos fraldas, pote, bodies, louça de plástico, pente minúsculo (falta a tesoura das unhas). Somos uma família desbebezada e com orgulho. Apesar de adorar bebés, não nego a maravilha que é a liberdade de uma família com miúdos "crescidos", em que podemos pegar neles a qualquer hora e fazer quase tudo o que nos apetece. Sinto que eles estão no ponto, fruta madura ainda sem mácula, ultrapassaram as birras sem explicação e ainda não se lembraram de achar que os pais são caretas. Apetece-me tê-los sempre assim, roê-los e prolongar eternamente este Verão.

A meio da noite, o Diogo costuma vir ter comigo, pé ante pé, para o levar à casa-de-banho. Tem só um bocadinho de medo do escuro. Dou-lhe a mão e vamos em silêncio pelo corredor. Nessas alturas, reparo como tem a pele ainda tão macia, o braço gordinho de bebezão. E sorrio.

Depois passa-me o sorriso quando não consigo voltar a adormecer durante várias horas mas a culpa não é dele, é das chatas das insónias.

28 agosto 2013

tempestade no levante

A avaliar pela subida dos preços do petróleo, parece garantido que vem aí intervenção armada na Síria. Cada nova guerra que nos é noticiada à distância é vivida de acordo com a nossa maturidade no momento mas a verdade é que sempre detestei tudo o que tem a ver com esta estúpida movimentação (des)organizada para provocar a morte e a destruição. Ainda assim, não encontro facilmente respostas ou alternativas. É óbvio que tem de se travar um regime que massacra o seu povo. E a dinastia Assad nunca primou pela diplomacia desinteressada nem pela moderação nos actos. Estamos a falar de um daqueles países onde há uma estátua gigante do Grande Líder a cada esquina, onde não há liberdade de expressão, e onde uma civilização milenar e multicultural nunca conheceu realmente a paz e a democracia. No livro que estou a ler agora, numa estranha coincidência, o autor passeia-se entre Alepo e Damasco, maravilhando-se com as paisagens férteis, as gentes educadas e prestáveis e todos os contrastes de um dos vértices da humanidade. Fico com muita vontade de conhecer este país e tenho muita pena que isso não venha a ser possível nos próximos tempos. Muito mais triste é a tragédia pessoal de cada uma daquelas pessoas, que promete ganhar novos contornos de horror muito em breve.

27 agosto 2013

animalia avulsa

Todos os dias vejo pombos mortos nos passeios, nas bermas da estrada. Não sei se faz parte das mais recentes iniciativas camarárias mas gostava que me esclarecessem (isso pode determinar o meu voto). Se os ingleses andam a matar texugos, tão mais giros do que as ratazanas aladas, e não se inibem de o anunciar, há qualquer coisa de muito complexado continental neste tabu do controlo eugénico de espécies não humanas.
Já o meu cão desatou recentemente a fazer chichis por todo o lado, a toda a hora. Vaticinei logo o fim iminente. Mas era só birra de fim de férias. Eu também voltei ao trabalho e ninguém me vai perdoar se começar a deixar poças no linóleo azul do gabinete, quem é que este canídeo pensa que é?
Por outro lado, verifico que a vida selvagem pulsa em força durante as minhas horas de expediente. Há uma cigarra que faz uma chinfrineira indescritível, mesmo aqui junto à janela. Às 12h, cala-se. Retoma por volta das 13h. É uma cigarra que vive num estabelecimento de ensino superior público, está bem de ver. Gosto muito da companhia que me faz e detesto pensar que, em breve, vai calar-se. E ser substituída pelo ruído das praxes, que agora duram todo o ano lectivo.

eleições autárquicas

Se conseguirmos ultrapassar o ridículo dos cartazes eleitorais, como bem lembra a Ana C., os custos das campanhas para o erário público (pensei que não havia papel, afinal como é que é?), e descontarmos o facto de já ninguém acreditar no valor social da política, vamos chegar à conclusão que as eleições são uma coisa espectacular. Ou antes, o período antes das eleições. O jardim perto de nossa casa foi todo levantado e replantado, há de resistir umas boas semanas às investidas dos pombos alimentados a papo-secos pelas velhinhas do bairro. O asfalto das ruas anda a ser arrancado e substituído, uma grande melhoria face ao hábito de remendar buracos, que não resolve nada. Os prédios devolutos que se desfazem aos bocadinhos com a chuva do Inverno andam a ser alvo de obras a sério. Caramba, qualquer dia perdem a cabeça e começam a limpar os grafitti das paredes, para grande irritação dos grupos neo-nazis e anti-fascistas que se degladiam no silêncio da tinta em spray. O que vale é que já falta pouco para as eleições senão, qualquer dia, ainda começávamos a parecer uma cidade do norte da Europa.

23 agosto 2013

o fim* de um sonho

Eu sei que isto se tratava de um pequeno passo para a humanidade, ainda que fosse um grande salto para mim. Como justificar, portanto, a imensa tristeza que sinto? Podemos avançar com algumas explicações:
A económica: um investimento considerável, em treino e no que abdiquei, que não deu retorno.
A biológica: uma quebra súbita na produção de endorfinas.
A sociológica: a dissociação identitária, a exclusão do grupo de referência.
A psicológica: a revolta, a angústia, um pontapé implacável nos tim-tins da auto-estima.
A antropológica: a confirmação do estigma de fragilidade feminina.
Todas as ciências podem reunir-se para racionalizar sobre a caganita mole que me sinto nestas últimas semanas e, ainda assim, isso não me serve de nada. O simples facto incontornável é que me lesionei e não vou poder correr a maratona de Outubro. Para compreenderem o que sinto, imaginem um daqueles namoros da adolescência em que tudo ia bem até ele vos dar com os pés e vos trocar pela vossa melhor amiga. Já não estou na adolescência, como bem me recordou o malfadado tendão do joelho direito, e já não tenho desculpa para passar as noites a chorar, abraçada à almofada. Mas era o que me apetecia.
Passadas quase três semanas já estou a sair do modo Calimero e vou a uma consulta na próxima semana. Não sei se alguma vez vou poder correr uma maratona mas nunca como agora tive a certeza que, enquanto tiver pernas, terei o desejo ardente de cumprir esse objectivo.

* fim do sonho de correr de Cascais a Lisboa a 6 de Outubro de 2013. Outras oportunidades haverá, se Deus quiser.

Adenda: Para quem duvidava da minha essência avicular, tenho uma 'tendinite pata de ganso'. A pata da gralha terá assim de repousar umas semanas, fazer gelo e anti-inflamatório, e esperar que não seja preciso fisioterapia depois disso.

18 agosto 2013

sozinha

Pela primeira vez em trinta e quatro anos de vida estou sozinha na minha casa.

(o parágrafo extra foi para vos ajudar a interiorizar devidamente o peso da frase antecedente)

Tenho quatro dias para descobrir o que são as saudades deles os três. E também para fazer uniquixclusivamente o que me apetecer. Dormir de barriga para o ar. Ouvir Samuel Úria enquanto danço em cuecas peo corredor. Ir ao cinema. Ir outra vez ao cinema. Ler no jardim (mais do que uma página sem que alguém me puxe para jogar à bola). Comer pequeno-almoço a todas as refeições. Experimentar as receitas mais escandalosamente calóricas do Pinterest. Pensar na vida. Ah, e já agora trabalhar - enquanto eles continuam a Sul.

quatro semanas de praia


Parar. Absorver luz do sol para o resto do ano. Deliciarmo-nos com as conquistas e (tentar) lidar com as derrotas. Deixar crescer demais o cabelo e fazer esticar os chinelos onde já não cabem os pés. Barriga cheia de peixe, de coisas boas e de outras menos boas, mas nada se compara ao privilégio de podermos gozar este tempo juntos.

17 julho 2013

sumariamente

Não escrevo porque não se passa nada de relevante e estou cansada dos dias e noites a puxar a carroça sozinha até às merecidas férias. Ou então é porque o que se passa é tão importante que tenho de deter-me a contemplá-lo, guardar tudo preciosamente, com pudor, evitando diminuí-lo nestes caracteres insuficientes. É uma coisa e a outra, nem mais nem menos.

Se fosse há uns anos atrás dizia que o blogue acabava aqui. Mas deve ser só mais uma daquelas fases.

11 julho 2013

por exemplo

Filho 1: Mãe, mãe! O mano destruiu o meu castelo de Lego.
Filho 2: O mano é mau, não me deixa ser eu o rei do castelo. Buááá.
Mãe em silêncio.
Filho 1: Mãe, mãe! O mano puxou-me o cabelo!
Filho 2: O mano é mau, não quer brincar comigo.
Mãe em silêncio.
Filho 1: Mãe, mãe! O mano está a puxar-me a camisa e já me arrancou três botões. Mas eu vou brincar com ele que é para ele não ficar triste.
Filho 2: Só se me deixares ser eu o rei do castelo!
Mãe: Meus queridos filhos, se eu não tivesse o lombo a assar no forno, cinco camisas para passar e o arroz que se me está a colar ao tacho, punha-vos em ordem. Sendo assim, sejam amigos e depois do jantar eu logo vos ponho de castigo e decido se afinal vos entrego ou não para adopção.

Adenda: Visto que o meu sarcasmo pode ser demasiado subtil, aqui vai o aviso que este post NÃO versa sobre os meus filhos. Era só o que me faltava, criar pirralhos desta espécie e, em vez de mãe, ser anémona. 

04 julho 2013

ra-ta-tarararara-ta-tara

Nesta semana, gostei muito mais da segunda e da terça-feira do que da quarta e da quinta. O que me faz temer um pouco a chegada da sexta. De início, desabaram alegremente castelos de cartas e fizeram-se piadas a um ritmo não visto desde a última grande tragédia mundial, que sempre estimula o sentido de humor lusitano. Agora até a palhaçada já está a perder a graça. A sério? A sério que me vão conseguir obrigar a premir as teclas para falar de política em Julho? Será que podemos mandar vir charters do Brasil para trazer alguma massa crítica que desequilibre esta balança que teima em fingir-se equilibrada? Parece-me que isto já é demais.

01 julho 2013

contagem decrescente para as férias

O Diogo não anda, flutua de orgulho por ter mudado para a cama dos crescidos e ter largado a fralda para dormir.
O Gugas descobriu a playstation do tio. Eu sabia que este dia havia de chegar (suspiro).
Não me apetece cozinhar. Nem comer. Nem mexer-me. Menos correr e dançar nos bailaricos.
Por falar em bailaricos, fomos ao (provavelmente) último arraial do ano e quase me meti à bulha com uma velha pequenina que devia ter passado a tarde na pinga. Vou tentar ignorar a mensagem que isto envia ao meu subconsciente.
Estou a ler um livro muito bom que me está a reconciliar com o valor das frases despidas e das estórias breves que nos deixam a pensar o resto do dia. E é isto este Verão: corridas longas e narrativas sumárias.

25 junho 2013

areia por todo o lado

Em dois dias foi-se a duas festas de aniversário, uma piscina, uma praia, uma beira-rio, um supermercado, dois pinhais, um bairro antigo, e várias casas de banho de estabelecimentos de restauração. Passou-se a noite de sábado em pouco mais de 3 metros quadrados e, não vou mentir, o haver uma lua gigante, morcegos atrevidos e ondas enormes lá fora ajudou muito a esquecer a dureza do chão e o vomitanço de filho para mãe lá para as quatro da matina. Mas o que me encheu mesmo o coração, percebendo que as coisas estão onde deviam estar, que temos uma sorte do caracinhas com a vida, a família, o amor que temos, foi acordar às 7h30 - ser a última a acordar! - e ter três caras sorridentes a olhar para mim porque, sim, finalmente tínhamos ido acampar pela primeira vez.

Dormir na minha suave caminha foi uma experiência maravilhosa, depois disso. Sim, que o co-sleeping é uma ideia muito ternurenta mas eu tenho dificuldade em repousar com pequenos seres a nadar crawl em cima de mim toda a santa noite.

21 junho 2013

comunhão de adquiridos

Um deseja. O outro acompanha. Um propõe. O outro contesta. Define-se devagar um caminho em comum e dão-se os primeiros passos. Moldam-se expectativas. Os obstáculos surgem e as mãos dadas, até então, esticam-se para dar conta dos ritmos diferentes. As vontades são elásticas e as prioridades são diferentes. Conversa-se. Cala-se e pensa-se. Muda-se de ideias. Teme-se desiludir. Teme-se. E avança-se, sempre com a consciência de que há uma grande dose de imprevisibilidade. Há que engoli-la às colheres, tapando o nariz. Enfrentá-la com a única segurança: que não há nada mais poderoso e resistente do que as mãos que continuam dadas ao longo do caminho. Curioso, isto dos casamentos.

19 junho 2013

dando uso ao bom senso

Às vezes tenho a sensação que este mundo de hiperinformação em que vivemos presume que o pessoal está todo a ficar imbecil. Se calhar, está, não sei. Eu também gosto muito de googlar cada dúvida que me assalta, de tentar descobrir o que está por trás de um sintoma físico, de antever as implicações do consumo de determinados alimentos, de estimar as probabilidades de ainda virmos a ter Verão este ano, e por aí fora. Mas espero nunca me esquecer de ligar o cérebro quando se trata de tomar decisões. Qual é o espanto de a indústria alimentar cada vez mais baseada em elementos artificiais, e servindo empresas que procuram o lucro, fornecer refeições com recheios improváveis? Quem é que não esperava que comprar t-shirts a dois euros feitas do outro lado do mundo significa que essas pessoas são mal pagas? Onde está a novidade no facto de uma dieta à base de restrições estrambólicas, mas em que o organismo não se habitua a gastar mais do que consome, não ir resultar? Ouvimos tantas teorias, anotamos tantas dicas, pinamos tantas receitas, decoramos tantas verdades vendidas pelos media que nos esquecemos de parar e pensar por nós próprios. Descansa-nos um pouco, esta ligeira desresponsabilização pelas nossas escolhas, sustentadas em longas pesquisas internéticas. Esquecemo-nos que, ao final do dia, é o nosso corpo que vive com as consequências do que comemos, é a nossa família que vive na comunidade que criamos e é a nossa gente que é governada pelos líderes em que votamos. Isto da liberdade e da informação é giro: promete devolver-nos o poder mas temos de ser nós a aceitá-lo e a dar-lhe bom uso.

17 junho 2013

os quarenta e dois

A dificuldade começa no facto de eu não acreditar realmente que seja possível. Que sou baixinha. Que o rabo pesa. Que não aguento o calor. Que mais ninguém acredita que eu consigo. Mais ninguém menos esta boa criatura com quem partilho a cama e as contas - mas ele acredita em mim de olhos fechados (benzódeus).
O que é que pode explicar a irracionalidade de tentarmos convencer o nosso corpo a começar a correr e só parar quarenta e dois quilómetros depois? Não sei. É que é para além de difícil, é longamente violento. Dores. Tédio. Quatro horas de solidão penosa, sem fim. É muito, muito estúpido. E, no entanto, lá me inscrevi eu para correr do Guincho ao Parque das Nações, em Outubro. É profundamente absurdo, mas vou gastar as articulações (que hão de fazer-me falta na velhice, como é óbvio) a treinar para aquele dia. Não há explicação lógica. Mas também não há explicação lógica para muitas das decisões realmente importantes que tomamos na vida, não é?

14 junho 2013

apontamentos santantoninos

Os meus rapazes mergulharam no modo lesboeta: fizeram chichi para as árvores da Avenida da Liberdade (pensei usar o copo vazio da minha Superbock mas tive medo que alguém encontrasse e pensasse que era grátes). Fizeram festas aos manjericos e espalharam algodão doce pela cara toda. Acharam que aquilo não era música, que era barulheira, mas dançaram na mesma. Aliás, bailaram e muito. Comigo e um com o outro. A custo, lá houve umas meninas que os levaram para o palco enquanto Os Peitos da Cabritinha abanavam nas colunas de som. As sardinhas não cabiam no pão e eu não cabia em mim de contente, vendo-os assim ramboieiros como a mãe, disfrutando desta cidade que é tão nossa. Tão de todos. Tão linda. Faltaste tu, Vera, para subirmos até à igreja de Santo António e acendermos uma vela. Venham para o ano – suspeito que os teus rapazes também gostarão da festa.

06 junho 2013

o pai-nosso ao vigário

Ler certas divagações de certas pessoas que eu cá sei acerca do que farão quando tiverem filhos faz-me pensar que deve ser assim que se sente o Gordon Ramsay quando lhe aparece uma maçarica a proclamar que o arroz dela nunca cola ao tacho porque descobriu que pode dar-lhe um cheirinho de azeite e alho antes de atirar para lá a água a ferver. E é pena, porque eu também já fui uma maçarica a fazer essas grandes descobertas. Para além de não ser o Gordon Ramsay. Em podendo escolher, e prolongando a metáfora, esforço-me por chegar ao dia em que acolherei as certezas destas quase-mães com a benevolência de uma Barefoot Contessa, por exemplo. Já que estamos a entrar numa de surrealismo culinário, gostava de aproveitar esta oportunidade para viajar no tempo e espetar com uma tarte de natas na cara da gralha de 2006, que achava que nunca faria uma série de coisas e já teria quatro filhos e uma carreira de sucesso por esta altura.

03 junho 2013

aprender a ser filha (também é todos os dias)

Passeávamos alegremente pelo Chiado, entrando e saindo de lojas, lagartando ao sol com gelados, quando a ouvi responder a uma funcionária que "já era uma sexagenária". Pontuando com uma risadinha. Não achei muita graça àquilo. Como é óbvio, a minha mãe anda na casa dos trinta. A minha mãe é rapidíssima. Tem energia de manhã à noite e os olhos verdes mais verdes do mundo. Não estou bem preparada para que vá ficando mais velha, como eu fico mais velha, e acho que era melhor para ambas que envelhecessemos juntas. Está provado que nos damos melhor à mesa de chá e scones do que em qualquer outro cenário. Sei que é um privilégio supremo ter a minha mãe comigo, à distância de meia dúzia de estações de metropolitano. É a avó que desejei para os meus filhos, até lhe perdoo os ovos Kinder e tudo. Mas a minha mãe não é sexagenária, não senhora. Será sempre a minha mãe na casa dos trinta, a conduzir o jipe que eu conduzo agora e a usar bikini com mais propriedade que a filha (que saiu ao Pai, coitadinha).

28 maio 2013

aprender a ser mãe

É todos os dias, não é? Reconheço que aprendi com a minha (e com o meu pai). Com livros. Com outras mães - sim, em blogues e tudo. E com os meus filhos, parando para os ouvir, sobretudo isso. Pode parecer tão absurdo como evidente mas são os nossos filhos que nos ensinam a ser mães. Deles. Se ouvirmos para além da birra. Se virmos para além do ranho a escorrer. Se lhe conhecermos o calor das bochechas, as fomes de doces (que afinal são de um abraço) e as zangas de brinquedos tresmalhados (que afinal são cansaço). Obrigada, filhos, por me ensinarem todos os dias. Sou tão melhor mãe agora do que era antes. Se fosse ao terceiro ainda era capaz de merecer mesmo aqueles postais que me garantem o primeiro lugar nesse campeonato de que todas devíamos ser as melhores. Sejamos ao menos o melhor possível a cada dia.

21 maio 2013

projectos para o verão

Sem ordem de prioridade mas auto-torcendo mentalmente um braço para que, em não se cumprindo estes planos, façamos outras coisas ainda melhores, que isto a vida são dois dias e os nossos rapazinhos nunca serão tão apetitosos, curiosos e desligados das durezas da existência como agora.

Ora cá vai:

1. Fazer gelados de cuvete;
2. Brincar com plasticina (comprar plasticina nova!);
3. Acampar;
4. Ensinar o Gugas a apertar os atacadores;
5. Mudar o Diogo para a cama grande e fazer o desfralde nocturno;
6. Passear no jardim depois do jantar;
7. Fazer um piquenique na Gulbenkian;
8. Filmar as férias e editar o vídeo a valer;
9. Ir à caça de gambozinos;
10. Caracolada (blhack! mas o Diogo nunca provou...);
11. Ir ao Santo António com a rapaziada e comer farturas;
12. Ir à Feira do Livro e comer farturas;
13. Ensinar o Diogo a fazer body-board;
14. Ensinar o Gugas a conduzir a Moto4. Ah, ah. Brincadeirinha. Ou não...
15. Treinar para a maratona de Outubro;
16. Decidir o que fazer da minha vida profissional;
17. Decidir o que fazer da nossa vida habitacional;
18. Comprar material escolar para o Gugas;
19. Dormir a sesta na varanda;
20. Desenvolver uma campanha familiar pela marcação de uma viagem à Costa Rica.

16 maio 2013

uma espécie de mantras

Quem é que disse aquilo de crescermos e tornarmo-nos nós próprios? Ai, sou terrível com citações. E ainda não decidi se acredito ou não que é possível mudar intencionalmente, tirar um bocadinho daqueles defeitos já cheios de bolor e tentar cultivar novas qualidades. Na dúvida, vou tentando (pode ser só o efeito do sol, como tão bem reparou a Vera). De há tempos para cá, tenho percebido que quero:
Repousar as sobrancelhas: Julgar menos, criticar menos, indignar-me menos.
Fechar os olhos: Desistir de controlar. Apreciar, gozar o momento porque (quase) nada é para sempre.
Respirar fundo: Sentir-me grata. Ao pormenor.
Agora ficavam bem aqui umas imagens de praia, sandálias, florinhas, mas tenho mesmo de trabalhar e não posso andar a passear-me pelo Pinterest (nitidamente, os mantras precisam de ser praticados com mais aplicação).

13 maio 2013

então e aquilo de arranjar casa nova?

Bom, já é praticamente Verão, compreendem? A 5 de Outubro está aqui, está a encher-se de roxo dos jacarandás. A minha vizinha de baixo vai começar a ouvir forró de janela aberta. Vão fazer arraiais no pátio da igreja e vai cheirar a sardinha assada na minha roupa acabada de lavar. Vamos dormir todos fresquinhos entre as paredes de pedra e brincar no jardim quando chegamos da escola. Nestes meses, passa-me toda a vontade de sair daqui.

Já para não falar que a minha nova fixação (recorrente, na verdade) é viajar para algum lado onde podemos andar de pernas ao léu, tropeçar na bicharada, cheirar a respiração morna das plantas gigantes, e fazer de conta que podemos fazer isso para todo o sempre. Ou seja, no dia em que nos sobrar disponibilidade, prefiro dedicá-la a aumentar escandalosamente a nossa pegada ecológica e voar para um lugar distante com a passarada e as nossas mochilas (abandonadas há anos demais).

09 maio 2013

auxiliares de memória

Aos 6 anos, o Gugas

Trata-me por 'Mãe' na escola e por 'Mamã' em casa. Já sabe andar de bicicleta sem rodinhas. Aprendeu a ligar para o meu telemóvel. Desmancha-se a rir com os clássicos da Disney. Já não fala inglês com pronúncia novajersiana mas percebe quase tudo. Continua a adorar construções, prédios, pontes, estruturas. Continua a fazer muitas perguntas - e a responder, agora, às do irmão. Come quantidades tremendas de tudo mas está um esparguete. Demora eternidades a fazer seja o que for e perde-se num mundo só dele. Tem uma paciência sem limites para o piolho que o persegue para todo o lado e lhe tira os brinquedos. Tem medo do desconhecido mas nunca recusa um desafio. Confia cegamente em mim e no pai. Assobia lindamente e pede-me para pôr músicas da Adele no rádio do carro. De vez em quando diz: "Mamã, ainda me lembro daquela vez em que...", com vontade de agarrar para sempre tudo o que já viveu nestes 2222 dias de vida. Tem uma grande noção de justiça e de equidade, e uma generosidade insuperável.

Aos 3 anos, o Diogo

Está num pico de mãezite aguda, a caminhar para o crónico. Em qualquer situação e ocasião, "é a Mamã". Já sabe andar de bicicleta com rodinhas e choca contra todos candeeiros de propósito. Despe-se sozinho para saltar para a banheira, para onde leva o balde, as panelas e os tachos dele. Continua a ser um pisco com claras inclinações vegetarianas. É um grande farsante e dado a dramatismos. Anda fascinado com monstros, ladrões, fantasmas, bruxas, e ontem chamou-me às 4 da manhã para eu fechar a porta do quarto, para não entrar o crocodilo. Faz desenhos lindos em que os membros da família parecem um cardume de polvos, e vai sempre comigo às compras, para a alegria das velhinhas do bairro. Anda de mota para todo o lado, lá em casa, estaciona-a sempre atravessada nas portas, e usa a coroa de cartolina para tomar o pequeno-almoço e para lavar os dentes (em biquinhos dos pés, já chega à torneira). Pede-me 'colinho bebé' quando o deito mas diz que já não é bebé, é um menino. Acorda todas as manhãs pronto para a vida, cantarolando-me um alegre "bom dia banana!".

07 maio 2013

ainda sobre o dia da mãe

Adoro o Dia da Mãe. O excesso de atenção que me aflige nos meus aniversários dilui-se no oceano das outras Mães, neste dia, e desinibe-me de chapinhar no eterno gozo de amar e sentir-me amada por dois pares de olhinhos brilhantes, lindos, lindos. É que vocês não estão a ver como os meus filhos são perfeitos, a sério. Não consigo fazer de conta que não me explode o coração de orgulho, de ternura, de paixão assolapada por me terem sido confiados para cuidar, para mimar, para devolver ao mundo. Por isso acho maravilhosa cada uma das dezenas de florinhas que apanharam para mim. Acho encantadores os desenhos que fizeram. Derreto-me com as declarações de amor que repetem todas as noites, mas mais ainda neste dia. E nada se compara às suas carinhas iluminadas, no momento em que me viram hoje a entrar na escola, com todo o tempo do mundo, para fazermos juntos as actividades que as educadoras tão carinhosa e esforçadamente prepararam. Digam lá todo o mal que quiserem da comercialização e banalização do Dia da Mãe. Sou Mãe todos os dias, mas neste dia sou-o um bocadinho mais.

04 maio 2013

velocidade descontrolada por radar

Lembro-me daqueles dias em que começávamos a trotar pelos quartos, pela sala, e a minha Mãe baixava o tom de voz para tentar transmitir-nos calma porque estávamos muito excitados. É claro que nada de bom podia resultar daí: fins de tarde chorosos; deitares contrariados; um alívio palpável quando nos ajeitava a dobra do lençol, no encerramento de mais uma jornada.
Vejo-me a desrespeitar esses sábios princípios, agora. Insisto em contagiá-los com o meu entusiasmo com coisas pequenas, em dar maus exemplos, em introduzir gestos desviantes. O bom de ter rotinas e previsibilidade é desatar a quebrá-las, sem pedir licença, e contemplar os efeitos. Sujar as mãos e espalhar folhas húmidas pelo chão de um quarto habitualmente arrumado. Sair de casa, só para sair de casa. Tirar a capota do jipe e ir dar uma volta sem destino, ver-lhes o cabelo ao vento e as bochechas afogueadas. Provavelmente constipam-se e chegam ao fim do dia exaustos, aos pinotes, ninguém os cala, ninguém os segura. Parece-me que está tudo no sítio, está visto que não aprendi esta lição.

30 abril 2013

destralhando

Está quase terminada* mais uma daquelas fases em que os três homens da casa tremem, lívidos, à passagem do furacão-de-limpezas-gralha, temendo pelo desaparecimento dos seu brinquedos preferidos, ou daquela factura mesmo, mesmo importante. São receios pouco fundamentados porque raramente deito fora o que não devia. Mas é verdade que me vejo livre de muita coisa. Destralho compulsivamente, e com orgulho. O roupeiro semi-vazio é uma clareira inundada de sol, na floresta. Os armários da cozinha limpos são convite a novas receitas. A casa-de-banho sem produtos fora de prazo faz qualquer cocó cheirar efectivamente a rosas. A (pouca) roupa lavada, dobrada, guardada nos devidos lugares faz-me expirar em doce liberdade das desnecessidades materiais. Dar por terminadas as limpezas de Primavera é o nirvana de uma dona de casa em época de crise. Se tivesse incenso, acendia-o um bocadinho. Mas não tenho, porque devo tê-lo deitado fora no ano passado.

* Sempre, sempre, sempre a viver em antecipação. Já estou a pensar em calçado de praia, nesta fase do campeonato. Mais um mezito, e entro na febre do regresso às aulas.

29 abril 2013

definitivamente

Decidimos entrar no mar, à vista das ondas enormes. Decidimos arriscar. A onda aproxima-se, passamos. Vem outra, subimos e descemos com ela. E outra, grande demais, que nos obriga a mergulhar e centrifuga-nos numa rebentação estrondosa que não acaba. Perdemos o alto e o baixo, as cores invertem-se e, finalmente, percebemos que vai passar. Mais um pouco, e voltaremos a encher de ar os pulmões. Valeu a pena o mergulho.

A diferença, querida Rita, é que agora não volta tudo ao lugar. A Ana disse-o bem, o fim do teu sofrimento foi um alívio muito passageiro para nós. Vê lá que egoísmo da nossa parte, desejarmos que não sofresses mais. Que estupidez. É claro que tinhas direito a sofrer mais, mas a sofrer como qualquer outra mulher de 30 anos. Era-te devido curar desgostos de amor. Gerir ansiedades pequeninas. Matar saudades. Desejos. Tinhas direito a tanta, tanta coisa e, ainda por cima, não ias fazer nada pela metade. Pego no postal que me enviaste há exactamente um ano, de Moçambique, e queria estar lá contigo. Conhecendo-te para além das palavras. Programando outras viagens. A porcaria da morte ser para sempre é injusto demais. 

26 abril 2013

liberdade

Uma dos textos mais bonitos do Antigo Testamento é o chamado Poema da Criação (Gn,2), largamente inspirado na mitologia suméria (séc. VII A.C., na sua forma mais tardia). Nesta narrativa, a História da humanidade começa com Deus criando o Homem a partir do pó, insuflando-lhe a vida pelas narinas. Se eu tivesse de criar a minha própria alegoria da nossa génese, falava de seres moldados de plasticina. O barro é demasiado estático e finito para uma vida livre e eu não acredito no sentido da vida sem liberdade, maleabilidade e cores garridas.
Será que, depois de 39 anos de alegada liberdade em Portugal, podemos pegar na nossa vida e fazer dela o que desejamos? Será que o que nos condiciona é apenas a preguiça em amassar e voltar a moldar? Há muitos sinais que sim, principalmente vindos das correntes positivistas que infestam a blogosfera e me irritam particularmente. Mas não consigo ignorar os incómodos sinais que não. Que mesmo que estudemos, que nos esforcemos, que nos entreajudemos, muitas vezes não somos livres de escolher a nossa vida.
Isso é particularmente notório a nível profissional. Ando pelos centros comerciais e vejo que as meninas que me perseguem para me mostrarem um creme ou me venderem um cartão de crédito não escolheram mesmo fazer isso. Vejo mães que têm de optar entre ter emprego, sem quase estarem com os filhos, ou ficar em casa, mesmo que não fosse essa a sua vocação, sossegando a ânsia de fazer mais alguma coisa com empreendedorismos passageiros. As divulgações de anúncios de trabalho dizem-nos que a economia só precisa de máquinas sem vida própria e os media da moda garantem-nos que a nossa vida só a nós nos pertence. E ninguém parece reparar na contradição. Afinal, como é que podemos conquistar a nossa liberdade no meio de tantas exigências divergentes? Era tão simples se bastasse um cravo vermelho à janela.

24 abril 2013

em vez de chocolates

Como qualquer outro ser XY* XX, sou recordada mensalmente da minha condição feminina. Não me dão apetites nem fico de lágrima fácil. Só quero que me deixem em paz. Enquanto umas fantasiam com novas modalidades de consumo de creme de cacau e avelãs, em visualizo os meus punhos cerrados esmigalhando os dentes de algumas pessoas que simplesmente precisavam muito de aprender a calar-se e a ouvir os outros. Sinto o sabor do sangue nas gengivas e tenho de sair porta fora, quando contar até dez não chega. É tão curioso que as pessoas que não me conhecem bem pensem que eu sou pacífica, quando a minha paciência é um penoso e constante exercício diário.

* Obrigada ao meu remarido e à Alexandra Nobre, provedores da validade científica deste blogue (e da minha efectiva feminilidade).

18 abril 2013

ansiaudades

Quando lanço as cartas de tarot não estou a fazer previsões de futuro (e aviso disso a clientela, toda ela amiga). Pego no sentido do conjunto, franzo a testa para o efeito credibilidade e proclamo ruminações que chegam a parecer fazer sentido. Os meus ouvintes ficam consolados, quando era consolo que buscavam. E preocupados, quando já vinham com uma nano-pulga atrás da orelha. Não sou futuróloga, sou uma amplificadora de consciências confessamente amadora.
Contudo, suspeito que sei exactamente a forma como o meu futuro me fará olhar para o passado, agora presente. Sei que não me vou esquecer de tudo de fundamental que aprendi este ano. Vou recordar docemente as coisas tristes. E vou ter umas saudades monstruosas das coisas boas, tão grandes que, para caberem no tempo, não se contêm nesse momento por vir. Quando vejo o meu filho mais velho a finalmente aprender a andar de bicicleta, fico já com saudades do orgulho dessa conquista só dele. Quando vejo o meu filho mais novo a provar comida de cão e a pedir-me mais, para me desafiar, o coração pára por uns segundos - não tanto de surpresa perante mais uma patifaria mas sobretudo de um amor explosivo pelo ser absolutamente único que ele é.
Posso vir ainda a fazer muitas coisas na vida, mas nenhuma chegará aos calcanhares do privilégio que é acompanhar o crescimento destas criaturinhas. Que ainda por cima gostam imenso de mim, caramba.

15 abril 2013

canções que te trazem de volta à Vida

Silêncio.A cadência regular da tua pedalada. O vento que se levanta nas pontes sobre o Sena. Crianças a brincar num jardim. As ondas a rebentar na noite. O murmúrio imperceptível de um céu perfeitamente estrelado, a brilhar para ti.


Ninguém sabe onde leva este grande caminho, mas o meu passa obrigatoriamente por tudo o que nos deixas com o teu testemunho diário. À tout a l´heure, querida Silvina.

14 abril 2013

um dia caso-me pela segunda vez com o mesmo homem

Hoje é o dia.

E amanhã ele vai de lua-de-mel com um alemão de 1,90m. Eu fico a tomar conta dos meninos, como boa esposa. Se fosse ao contrário, o mundo inteiro ficaria chocado, o que só revela que os séculos passam mas isto continua tudo na mesma.

13 abril 2013

se era suposto caminhar para uma sabedoria superior, enganei-me na viragem

34 anos e sou cada vez mais eu sem pedir desculpa a ninguém. Esta é a minha altura, o meu peso, a minha cor de cabelo, a ondulação do meu perfil. Sou eu, olhem, pronto. Sim, acordo cedo. Sim, deito-me cedo. Sou organizada, intensa e exigente. Mas ando a treinar isso da paciência há muito tempo. Já desisti da ideia da espontaneidade. Gosto do meu café longo e de refeições curtas. Não gosto de festas. Nem de gente a falar alto. Nem do ruído latente de muitas coisas acumuladas. Gosto de árvores, da brisa de Verão e de estar ao sol. De cães. De crianças, e que elas me deixem sossegada amiúde. O melhor presente, hoje, é que aqueles que gostam de mim respeitem e estimem cada uma das minhas particularidades. Sim, isso inclui um email palavroso em lugar de um telefonema de obrigação. O melhor presente, de hoje em diante, era não haver mais nada feito de aparências, de convenções, de imposições sociais: só transparência e verdade, como a que irradia sempre dos meus olhos, mesmo no meio de um sorriso de troça.

12 abril 2013

o lado solar

Inverno longuíssimo, este. Terminou. Se ao menos todas as outras escuridões pudessem ser assim encerradas, declarado o fim à crise, às neuroses colectivas, às fugas à realidade, ao desemprego, ao desespero e à doença. Os últimos meses, duríssimos para tantos, deixaram-nos a todos o coração em ferida e as emoções em carne viva. A minha vida também é feita de cada vez mais incertezas mas, caramba, espero que ao menos me venha tornando cada vez mais humana, atenta, e centrada no fundamental.
Continua a haver muita gente a viver horas dolorosas, minuto a minuto. Entrego-lhes as minhas orações e ajudo como posso. Se quiserem fazer o mesmo, hoje podem começar por aqui.

Nota posterior: ...Ou, pessoalmente, no dia 20 de Abril, na Escola Superior de Saúde da Cruz Vermelha Portuguesa, numa iniciativa da Pólo Norte, da SMS e da Miss Glittering, entre muitas outras pessoas.

09 abril 2013

urgente: voltar à ficção

Rastejo pelas coisas do dia-a-dia. Acho que suspendi o voo quando parei de ler ficção e de correr (vejo agora como estas actividades se complementam). Vou já pegar no Wild, presente da maravilhosa Melissa, e calço os ténis para ir dar voltas à Gulbenkian no proximo sábado, a ver se já não me doi o adutor.
Entretanto, a busca de casa deixou-me exausta. Suspendemos a torrente de visitas e tornámo-nos mais precisos no ideal. O trabalho continua, logo vemos em que moldes com as mudanças que aí vêm no financiamento à Ciência. Os meninos rompem joelheiras, descobrem novas músicas favoritas, continuam a fazer muitas perguntas por minuto e adoram-se. Exigimos a chegada do bom tempo para gozar os fins de tarde sonhados no jardim. Se era para levar a vida na radiação cinzentificante de luzes artificiais, tinha seguido a minha opção carreirística e, ao menos, agora iamos passar uma semana à Costa Rica. Posso fazer reset? Deixem lá, já não me consigo imaginar a sério no modo lifestyle (passo meia hora no El Corte Inglés e fico cansada de revirar os olhos).

01 abril 2013

o primeiro encontro

Estou tão nervosa, hoje. O cabelo está horrível. Não tive tempo para me maquilhar decentemente (e no trânsito, já se sabe, multam-me). Não sei o que ela vai achar de mim. E eu não sei o que vou achar dela, ao vivo, depois de só lhe ver forografias nessa grande mentirosa que é a Internet. Tenho quase tanto medo que o segundo quarto afinal seja demasiado pequeno como há anos atrás tinha medo de descobrir, à mesa do café longamente mexido (não havia smartphones quando eu comecei a namorar!), que ele não gostava de ler. Ou de viajar. Ou que comprava religiosamente A Bola.

27 março 2013

memória selectiva

Se calhar ando a precisar de Memofant, mas tenho quase a certeza que todas as Primaveras da minha infância eram basicamente isto,

sendo que me levantava ao nascer do sol com o meu primo, que me dava o pequeno-almoço e íamos apanhar caranguejos. Não é por nada, mas a infância em Portugal anda a ser delapidada (e não é só por culpa dos do costume).

25 março 2013

chegar ao fim

Tinha cinco anos quando organizaram uma corrida à volta do quarteirão da escola. A escassos metros da meta, desisti, inaugurando uma tendência de vida de começar tudo cheia de entusiasmo e deixar muita coisa a meio. Raio de tendência. É preciso acabar com as desculpas e insistir, mesmo quando não apetece, mesmo quando achamos que o resultado vai ser medíocre. Às vezes, medíocre é melhor que nada.
Isto tudo desembocou nos vinte e um quilómetros e noventa e oito metros que corri ontem, sem parar (excepto quando tropecei e voei sobre o asfalto, esfolando um ombro). Passar a meta ao fim de pouco mais de duas horas foi a recompensa pelas madrugadas de chuva e frio, pelo treino esforçado, por todas as vezes em que duvidei que conseguia. Consegui. Venha agora a maratona.

22 março 2013

diga-me que casa procura, dir-lhe-ei quem é (neste momento, pelo menos)

Luz. Sol. Viradona a Sul, à descarada, a ver se eu me importo.
Jardim. Quintal, vá. Quero mexer em canteiros e ter uma mesa para tomar pequeno-almoço cá fora.
Lareira. Para espantar os Invernos com o crepitar da lenha.
Nos meus bairros. Já passei por vários e gosto de todos eles. Sou de Lisboa, mas uma Lisboa de avenidas e não de ruelas.
Com quartos amplos. Sou bicho do mato, não faço vida social de sala. Gosto de ter espaço para sonambular noite e dia, para ler na cama, para não fazer nada.
Nova ou antiga. Grande ou pequena. Junto ao chão ou nas alturas. Cozinha tradicional ou fogão escarrapachado na sala. Tanto me faz. Quero o resto. O resto não cabe é no meu bolso.

19 março 2013

intimissímo demais

Tinha para aqui longos parágrafos acerca do amor do meu pai, do Amor do meu Pai, de como o novo Papa é tão parecido com o meu Avô e apaguei tudo muito depressa porque isto da blogosfera tem tanto de apoio e empatia como de intolerância e julgamento. Isto dos amores filiais, de Fé e de esperança de avezinha recém-nascida são questões demasiado íntimas para que venham atropelá-las sem dó nem piedade. Da mesma forma que não gosto que mais ninguém me mexa a roupa interior, custa-me que quem não me conhece dite sentenças sobre o que sinto de mais profundo e genuíno.

18 março 2013

coisas avulsas*

1. Deixei de sonhar com casas e passei a consumir avidamente websites de imobiliárias, já fomos visitar um apartamento e tudo. Há tanta coisa tão feia e deprimente por aí que estou quase a acreditar que, afinal, o meu rés-do-chão sombrio é maravilhoso;
2. Tivemos a festa de aniversário do Gugas e verifiquei aquilo que já sabia: sou péssima com adultos mas atirem-me as crianças todas que tiverem à mão, que eu dou conta delas com muito gosto (durante algumas horas, é claro!);
3. Os meus vestidos de algodão gritam por mim no armário. Evitarei, para já, desenvolver o tema "Primavera" porque sei que vai dar pano para mangas, no seu sentido literal e figurativo.
4. Hoje tenho uma entrevista de emprego e já não me lembro de como se faz.
5. O meu marido foi promovido, graças a Deus e a ele. Pediu-me para fazer bifes, de vez em quando, com o aumento.

Boa semana!

*para não acharem que aconteceu alguma coisa, porque é logo isso que eu acho quando não há notícias de alguém que vou lendo por aí

12 março 2013

6 anos de gugas

Era uma vez um velho e sábio monge tibetano que se sentou à entrada do seu templo a meditar. Visualizou que era um grande albatroz, viajante transoceânico, que contemplava oceanos, falésias e todas as montanhas da costa. Sentiu que isso era bom. Quis depois descer à terra e armou-se de um coração puro e da vontade de erguer, com a força dos seus braços e a linha nítida dos seus sonhos, as torres mais altas e perfeitas. Fez-se menino e é o meu filho crescido, sereno e bom.

11 março 2013

a casa dos meus sonhos

Nunca tinha experimentado isto de ter um sonho recorrente mas agora tem-me acontecido: sonho quase todas as noites com uma casa. Esta casa é a minha casa mas é diferente da realidade. Abrindo uma porta, subindo uma escada, virando uma esquina descubro que afinal é muito maior. Que tem janelas do chão ao tecto. Clarabóias. Sótãos. Tantas oportunidades por explorar. O meu subconsciente desistiu de falar comigo tu-cá-tu-lá, como fazia antes, e anda a mandar-me estas mensagens mais previsíveis do que um filme de Domingo à tarde. Ó eu: eu sei que tenho de aproveitar o melhor do que tenho. Sei que estou a desesperar por sol e ar puro. Sei que preciso de espaço e de um empurrão para meter mãos à obra. Eu sei. Mas, ó eu, eu tenho frio e este Inverno deitou-me abaixo. Queria ermitar-me (e não posso). Give me a break or grant me a loan para eu comprar logo uma casa grande, solarenga e com passarinhos à janela. Podia não resolver os problemas do mundo, mas já me dava uma ajudinha.

01 março 2013

fazendo a ponte sobre o abismo

Este post não é sobre política, é sobre pessoas. As pessoas conhecem-se mal a si próprias, acham que conhecem benzinho quem as rodeia e não fazem puto de ideia do que é a realidade de quem está mais distante. Essa distância vale em tempo, espaço, clube de futebol, religião, e postura geral perante a vida. A massificação das comunicações trouxe a esperança de um maior interconhecimento mas, frequentemente, serve apenas para colocar o enfoque sobre as nossas ignorâncias mútuas. E as distâncias não se superam facilmente; na verdade, ampliam-se - e muito - neste tempo de adversidade.
Apesar do facilitismo perigoso de conceitos como “ricos” e “pobres”, o que é facto é que há estatisticamente um abismo cada vez maior entre a larga maioria que luta pela sobrevivência e os pouquíssimos que concentram a fatiazorra dos recursos da Terra. Cada um tem uma carrada de preconceitos imbecis sobre o outro. Os pobres são preguiçosos, invejosos, dependentes, oportunistas, exigentes, desorganizados e uma praga com a qual os contribuintes têm de levar; os ricos são uns egoístas, materialistas, sortudos, arrogantes, fúteis, gananciosos, obtusos, e mereciam todos ser fuzilados em praça pública. É tão fácil acreditar nestas imagens redutoras.
Toda a gente concorda que as coisas não estão nada bem, como estão. Atira-se culpas pelo ar e não se avista uma solução. Discordo profundamente dos que acham que reduzir o metabolismo de uma sociedade pode resolver alguma coisa (e já nem estou a falar das injustiças brutais na aplicação dessa dieta). E discordo também dos que acham que é preciso arrasar tudo para começar de novo, improvisando pelo caminho. A verdade é que não tenho soluções mas sou firme na denúncia dos problemas. E não há problema que se resolva enquanto as pessoas não aprenderem a sair de si e a colocarem-se no lugar do outro. É por isso que vou estar , onde importa, amanhã. Não é para gritar obscenidades nem para dissolver na multidão as minhas angústias. É para estarmos uns com os outros e vermos que, na verdade, estamos todos juntos. Vemo-nos por lá.

28 fevereiro 2013

no seguimento do post anterior

Acordei às 6h30. Preparei as marmitas com os nossos almoços do dia. Fiz café e tomei o pequeno-almoço enquanto li umas páginas do meu livro. Rezei. Vesti-me. Peguei no carro e fui até ao rio. Corri dez quilómetros. Peguei no carro e fui para casa. Distraí-me e perdi para aí uns 5 minutos a mimar os meus filhos, entre canecas de leite e migalhas de bolo. Fui tomar banho. Vesti-me. Fiz três camas. Arrumei a cozinha. Apanhei uma máquina de roupa. Lavei os dentes, sequei o cabelo e besuntei a cara com hidratante. Voei pelo corredor fora, apanhando almoço, catecismos, casaco, mala, e saí de casa quinze minutos antes da hora de entrar no trabalho. Parada no semáforo para virar à esquerda da Av. das Forças Armadas com a Av. Professor Gama Pinto, que está vermelho o tempo suficiente para ouvir uma Mixórdia de Temáticas inteira, coloquei máscara nas pestanas. E batom hidratante! Processem-me já, que sou um perigo público e uma preguiçosa que não se levanta mais cedo para se maquilhar.

No entanto, cumpro religiosamente a máxima de não usar o telemóvel no carro, seja em que circunstância for.

26 fevereiro 2013

olé

7 da manhã em Belém. Desejo ver o sol a despontar dos estaleiros da Lisnave, que até as metáforas têm de ser descobertas nos momentos mais corriqueiros. Apesar disso, o que se levanta no horizonte é uma tangerina madura e achatada que derrete a madrugada para os lados do Montijo. Viro-lhe as costas e acelero o passo a favor do vento. Os outros corredores sorriem-me um bom-dia enregelado. O mais antigo de todos veio de camisa de algodão de manga curta, como sempre. Eu abro e fecho os dedos até os conseguir mexer de novo e, junto à doca, vejo os almeidas a brincar aos torneios medievais com os seus carros de lixo. Perseguem-se, toureiam-se e riem como crianças. Ainda há esperança neste mundo enquanto nos vingarmos do estoicismo imposto com boicotes pequeninos, como as facturas em nome dos que nos desgovernam, e com o aparvalhamento puro e simples, tomado nas doses necessárias.

24 fevereiro 2013

no divã

Sempre achei que a psicoterapia não era para mim. Continuo a achar, como bom calhau reaccionário que sou. Mas ontem conduzi todo um IC19, sozinha no carro, a ouvir música bem alta, algo cujo valor só deve ser devidamente apreendido pelas mães deste (meu) mundo. Deu para desligar das preocupações que vêm em primeiro lugar na lista e para chafurdar um bocadinho no que nunca se mexe. Deu para o primeiro passo: chamar as dores pelos nomes. Agora não sei bem como se fazem os outros passos e não voltarei a ter uma sessão daquelas tão cedo. Mas aquelas dores nunca mais serão apenas uma sombra silenciosa.

19 fevereiro 2013

não tenho nada, mas tenho tenho tudo

“Eu tenho sorte pois, sendo pobre, sobra-me tempo e tenho sonhos”. A Floribela cantava que os ricos não têm sonhos, mas isso é porque ela era uma personagem ficcional do tempo das vacas gordas (Lembram-se? Aquela altura em que todos podíamos ir passar uma semana de férias ao Brasil? Tão bonito). Alguém havia de lembrar-se de fazer uma nova versão da Floribela, coisa de louvar neste período em que tanto precisamos de abraçar as arvenzinhas do bosque e acreditar que as fadinhas nos vão ajudar a pagar as contas. Podia ser que eu voltasse a ver televisão, e tudo, que até o Odisseia já me desarrumaram e ainda não voltei a dar com ele.
O único problema seria adaptar toda uma filosofia azul-cueca à realidade actual, em que os pobres já nem sequer têm sonhos e muitos ricos se autoflagelam mentalmente por tê-los. Vejamos: eu gostava mesmo muito de ir ao concerto dos Muse em Junho, no Porto. Mas a minha consciência de pobre diz-me que não posso, porque tenho de pagar o selo do carro; a minha consciência de rica diz-me que sou uma fútil alienada do mundo por querer gastar um dinheirão numas horas de barulho e numa viagem de comboio (que provavelmente não se daria, de qualquer forma, em virtude de mais uma greve da CP). A crise povoa-me a cabeça de macaquinhos, cerca-me de dificuldades materiais e restrições morais, prega-me rasteiras aos desejos e aponta-me o dedo às vontades. A crise é uma bruxa do pior.

Claro que esta conversa foi toda uma desculpa para ver se alguém se chega à frente e me oferece o bilhete. Pintinho, podes ser tu, visto que a festa é em tua casa e eu nunca lá fui, não há direito.

15 fevereiro 2013

finalmente sou uma trendsetter

A blogosfera toda emprenhou, está visto. Grande coisa, já ando a fazer disso há mais de 6 anos. Queridas, algumas dicas - todas vós passarão pelas seguintes fases:

1.  Eu não vou transformar isto num babyblog;
2.  Isto da gravidez não é assim tão giro/ a minha gravidez é especial;
3. Isto não é um babyblog! A sério, isto não é um babyblog!
4. Nasceu! O meu filho é mesmo o mais (várias coisas) do mundo;
5. Já me servem as minhas calças de ganga pré-gravidez (iupi!);
6. Isto não é um babyblog! A sério, isto não é um babyblog!
7. Eu não vou ser daquelas mães que (preencher com qualquer coisa);
8. Já não vou ao cinema há X meses (também serve para idas à secção de adulto da Zara, etc.)
9. Não vale a pena estar a negar que os filhos preenchem grande parte da nossa vida: sou Mãe!
10. Quando é que vou conseguir lidar com isto de ser Mãe, Mulher, Amante, Filha, Profissional, etc.?
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435. Por que é que o meu filho agora decidiu que a meio da noite é que é bom para fazer cocó no bacio? (esta é onde me encontro hoje, claro)

14 fevereiro 2013

gralhite

Era uma vez uma constipação, que depois deu em sinusite, que depois deu em febre, que depois deu em ida ao médico, que depois deu numa toma de antibiótico, que deu numa noite de vomitanço e numa gralha de rastos, de cama. E eis como hoje não terei nem beijinhos, nem chocolates e, pior, nem poderei ir à apresentação do livro da Ana C. Sei que estarás rodeada de mimo e de dezenas de olhos a transbordar de orgulho, hoje, Cê. Mas queria tanto partilhar este momento... Não só pela amizade mas pela genuína admiração pelo trabalho, pela dedicação e pela verdade que colocas em todas as palavras de amor (e nas outras, também). Vai ser um estouro :)

13 fevereiro 2013

cinzas

Ainda anteontem o Papa anunciou a renúncia e já eu estou a abdicar publicamente do papel de perita-católica-praticante-mas-que-discorda-de-muitas-coisas-na-doutrina-e-prática-de-Roma. OK? Para vocês, meus queridos amigos descrentes, é um tema de debate e escarafunchamento como qualquer outro. Para mim, é um sinal de esperança que o próximo Papa seja legitamamente terceiro-mundista, que conheça pobres na segunda pessoa do singular e, já que estamos a sonhar, que pondere a ordenação de mulheres.
"Do pó vieste e ao pó hás de tornar". Devíamos ser especialmente semelhantes durante a Quaresma. Que o próximo seguidor de Pedro tenha isso presente.

08 fevereiro 2013

dar quando é preciso (e não quando nos dá jeito)

Este pedido não é generalista. Este pedido é para a Cecília, que já tem dador e precisa de custear o transplante. E não pode esperar. Parece tão óbvio que não vou dizer mais nada e deixo-vos só o NIB, da pessoa que conheço pessoalmente, para ondem podem enviar o vosso contributo. Muito obrigada.

NIB: 0010 0000 3677 1660 0019 8.

polaroid de fevereiro de 2013

O prazer fácil de um fim de dia em que, ao mesmo tempo que preparo um reconfortante mac & cheese com batata doce e espinafres, estudo a lição de História Moderna, e ouço (ao fundo) o mais velho a ir encher a garrafa de água, que partilha com o mais novo, e que anda a passear miniaturas de animais no novo tractor com atrelado. O marido chega a casa mais cedo e fica feliz porque o recordo que tem queijo da serra no frigorífico. Às vezes é mesmo assim.

05 fevereiro 2013

manifesto de um perdedor

Uma mãe vem sempre em último lugar na corrida diária. É quem fica sem água, se uma garrafa é partilhada por todos. É a que se resigna com as migalhas no fundo do pacote de bolachas. É quem apanha chuva para que todos entrem primeiro para o carro. A primeira a levantar-se e a última a deitar-se. É claro que também é a mais bonita e a mais querida do mundo, aquela que faz os melhores bolos e a que recebe os abraços mais meiguinhos. Mas não deixa de ocupar permanentemente o último lugar do pódio. Às vezes as mães também se cansam e, ousadia, precisam de estar um bocadinho sossegadas. Esta mãe que vos fala aguenta o barco muito à custa de rotinas, de previsibilidade e da noção que, de alguma forma, as coisas estão no seu lugar. E de que tem espaço para respirar. Por isso, se lhe baralham as rotinas, se lhe atulham os preciosos metros cúbicos de vazio e arrumação com inutilidades materiais que ela evita a todo o custo, se não lhe permitem ficar na cama o dia inteiro a curar sonos e constipações, pelo menos concedam-lhe a graça de não esperar que esteja constantemente a sorrir e a emanar doçura de todos os poros. A rabugice é o último luxo de uma mãe de rastos.

03 fevereiro 2013

pós-lamechismo 1.0

Este fim-de-semana teve variações de temperatura perigosíssimas para a saúde. Sobretudo a dos virus tossengus, que espero terem falecido todos no aparelho respiratório dos meus filhos, depois de os atazanarem nos últimos dias. Aproveitei estas horas a elevadas atitudes não só para escorregar na neve, como também para 1) gritar cinematograficamente no alto da montanha; 2) praticar a auto-hipnose junto à lareira; 3) tomar o pequeno-almoço de pijama; 4) roer as bochechas dos filhos; 5) apanhar plasticina do chão; e 6) ter epifanias relevantes, das quais gostaria de destacar que o meu saudosismo é só a prova de que é muito mais fácil gostar do bem resolvido do que do que ainda pode correr mal.
O meu Diogo, cavalinho selvagem, nascido no meio da tempestade de neve e de um tempo cinzento da minha vida, faz hoje três anos de sol a brilhar nas nossas vidas. Está crescido e disse hoje "que po'caria" (quando não conseguiu calçar as luvas sozinho), revelando que os mais novos são uns mal-criadões, livres e prontos para tourear o que lhes vier pela frente.

31 janeiro 2013

mesmo assim tem um je ne sais quoi

Todos temos necessidade de personalizar as nossas irritações e revoltas, seja sobre o imbecil que conduz a dez à hora quando estamos atrasados, seja sobre esse clássico que é o Primeiro-Ministro (um qualquer, desde sempre). Esta semana, tenho andado a tentar com muita força centrar o meu fel anti-máquina-capitalista sobre o António Mexia. Aparentemente, tarefa fácil. A EDP faz-me dormir com frio no Inverno. Impede-me de fazer mais vezes biscoitos. Obriga-me a maquilhar-me na penumbra, com as consequências óbvias. Condena-me ao uso sobrerepetido da mesma roupa, para limitar lavagens. Amplia-me as dioptrias, de ler ao lusco-fusco. Com um grande catatau, ontem acendi velas em casa e não foi por estar a preparar um jantar romântico. E mesmo assim apresentam-nos uma factura de acerto que me leva meio ordenado. A EDP condena-me a uma vida na Idade Média mas visita-me a conta bancária como se habitassemos uma nave espacial a caminho de Marte. Expliquem-me então como é que eu vejo as fotografias do senhor presidente do Conselho de Administração da EDP e não consigo deixar de reparar como ele é giro? Só pode ser uma espécie de Síndrome de Estocolmo aplicada a assaltantes de colarinho branco.

25 janeiro 2013

forever five

Estou a comer a porcaria do peixe que trouxe para o almoço (feito por mim, óbvio), a fazer bola, a não saber onde esconder a bola porque estou no local de trabalho, e as lágrimas vindo-me aos olhos, reminiscências de quando tinha de emborcar toda a sopa de nabiças, as ovas, a pescada frita, a cenoura cozida, as couves de bruxelas, a jardineira, os carapaus grelhados,a  corvina estufada com ervilhas, e podia ficar para aqui o resto da tarde a explicar por que é que aos 8 anos ainda pesava 20 quilos. 33 anos e não ouso quebrar as leis da nutrição-ou-sei-lá-o-quê, em vez de ir comprar um croissant com chocolate.

24 janeiro 2013

as bodas

Tenho um amigo que vai casar para a semana e que está tão nervoso, tão nervoso, que hoje chegou aqui para pagar cafés ao pessoal e tirou três chazinhos de limão, um a um, que foi uma limpeza. Fico emocionada que ainda haja quem tenha alguma deferência pelo matrimónio. Mesmo que garanta, de cara séria, que é um dia igual aos outros.

Um dia, volto a casar-me com o meu marido. Ainda não sei qual é o dia (mas estou danadinha, quanto mais não seja para fazer uma montagem em Photoshop daquela publicidade dos pacotes de açucar).

junto à serra do pilar

Em não podendo ir ao Porto,

(e para quem só chegou aqui agora e não sabe, eu sou uma minhota-alentejana que nasceu em Lisboa porque em 1979 ainda não havia A10 e, sendo assim, foi mesmo na capital que a portentosa semente e o fértil terreno se encontraram)

nesta altura do ano em que o estado do tempo a norte da Serra d'Aire não maça mais do que o que temos cá para baixo, em não matando as saudades da prata do Douro cavadinho entre as margens, em não enfardando francezinhas das boas, e em ficando eu aqui roidinha de inveja enquanto o meu homem vai para cima e a única coisa em que reparará serão as mensagens amigáveis que os plácidos moradores de Miragaia endereçam aos benfiquistas em cachecois hasteados nas suas varandas, nesse caso, pelo menos acabo de descobrir a Dora. Ah, bom.

Nota para mim: Tenho de aprender a fazer frases curtas.

23 janeiro 2013

de nada

Queridos Lisboetas,

Sei que não estão habituados a estas temperaturas árticas abaixo dos 10ºC, mas deixem-me partilhar convosco a única dica fashion realmente importante por estes dias: Mais do que luvas fofuxas sem pontas para teclarem à vontade; mais do que ponchos que não dão para conciliar com as mangas estreitas dos trench coats; mais do que as écharpes gigantorras em polar recuperadas a partir dos cobertores do IKEA pela vossa amiga urbano-artesã; mais do que a bandolete com almofadas de plumas cor-de-rosa (e depois admiram-se que o vosso gato tresloucado se vos atire às orelhas!); mais do que as UGGs onde andam a coleccionar chulé desde Setembro; mais do que as caneleiras que só favorecem o pernão rijo da Jennifer Beals no Flashdance

Enfiem um gorro na cabeça.

21 janeiro 2013

abacates

Cairam ramos, voaram telhas, despiram-se árvores de fruto e eu ganhei as sobras dos quintais devastados. Vou fazer guacamole e hamburgueres de batata doce e abacate. Vou passar o tempo todo de roda do fogão e dos pratos. Vou desculpar-me com a chuva batida a vento para mergulhar no calhamaço que, felizmente, ainda não acabei de ler. E vou passar mais um dia em que me encerro, aos poucos, nos meus pensamentos, nas memórias mal resolvidas e na clarividência de dores inevitáveis. O que vale é que o Inverno não dura para sempre.

14 janeiro 2013

está tudo acabado entre nós

Os casamentos acabam todos os dias. Já não há empregos para a vida. Os familiares chatos são suportados apenas nas festas anuais e até aprendemos a vender na Internet os presentes inúteis da madrinha, que já não nos ocupam espaço na arrecadação nem peso na consciência. No entanto, parece que há um tipo de relação que continua a ser sacralizado, resistindo numa era de encontros fugazes: a amizade. Não falo dos contactos de circunstância nem dos conhecimentos que entusiasmam apenas por uns meses, mas daquelas amizades que plantamos ao acaso, muitas vezes desde a infância, que se vão construindo e cimentando em torno de tudo de bom e de mau que se vai passando nas nossas vidas. Essas amizades parecem inquebráveis. Mas sê-lo-ão? Ou, melhor ainda, será que faz sentido que esperemos que assim sejam?
Se os casais se separam porque crescem por caminhos divergentes, porque deixam de ter coisas em comum, porque mudam de prioridades e de expectativas, por que é que o mesmo não há de acontecer com os amigos? Aqueles com quem ouvíamos em loop o mesmo CD dos Aerosmith em 1994 não ouvem necessariamente o mesmo que nós agora. Aliás, qual é a probabilidade de dois adultos que fizeram percursos diversos, que passaram por diferentes sucessos e desilusões, continuarem a ver as coisas de forma semelhante? Não é incoerência, é a mudança própria que vem com a idade. Estranho seria se continuassemos todos a pensar da mesma maneira aos 10, aos 50 e aos 80 anos. Que sentido fazem então amizades que se aguentam muitas vezes para não enfrentar esse último tabu que é o pôr termo a uma amizade? Mudar de namorado, tudo muito bem; dizer a alguém que já não vale a pena continuarmos com os telefonemas e os emails repetindo o previsível “temos de combinar qualquer coisa”, isso é que não, é dar parte de fraco. Ao mais leve par de astes com que sejamos adornados, lá se vai um amor eterno. Já a amizade aguenta estoicamente doses bem maiores de afastamento, negligência e profunda cabrice. Não percebo, a sério.

Nota importantíssima: Queridas amigas desde 1994: isto não é convosco! É meramente ilustrativo. 

13 janeiro 2013

só para rematar isto da Pêpa

O Pipoco é que resumiu bem a coisa: o que causou tanta comichão não foi a insensibilidade burguesa materializada na Chanel, a ventania que passa por entre aquelas orelhitas, e nem sequer o tom de voz (já estava tudo familiarizado com o estilo, desde a Jonet); não, o que achincalha o bom povo português, de Xabregas à Foz do Douro, é a inconsistência da pequena. 'Mala' e 'carteira' na mesma frase são reveladoras de uma incongruência intolerável nesse meio de comunicação pristino, de uma solidez inabalável, que deve ser a blogosfera. Uma pessoa, se é para interromper o trabalho e andar a ler o que outra pessoa escreveu enquanto interrompeu o seu trabalho, gosta de saber ao que vai. Para desilusões e incertezas já temos a vida real.

08 janeiro 2013

como os americanos, sempre de olho na próxima festividade

Ó caraças, de que é que os mascaro este ano?

07 janeiro 2013

epiglote

Resolução de ano novo que só chegou com os Sábios do Oriente: calar a boca. Em vez de dizer tudo, calar-me. Fechar a matraca. Não emitir julgamentos, opiniões, teorias, previsões, e reduzir em muito a frequência e pilosidade dos palavrões. Já chega de andar por este mundo como se fosse um tanque de guerra no meio de uma reserva de bambis. A única dificuldade é que também tinha mais ou menos decidido, na pressa das doze badaladas, que ia engolir menos sapos, descontrair e deixar as secas para o bacalhau. Não estou bem a ver como vou equilibrar as coisas. Sobretudo, não sei como vou conseguir suster as palavras torrenciais à boca da garganta, sem fazer mal aos outros nem começar para aqui a cozinhar úlceras e efervescências mal resolvidas.

02 janeiro 2013

estabilidade

Os próximos tempos anunciam-se seguramente inseguros e exigem-nos adaptação, golpes de rim, habilidades circences com um sorriso. Nada se perde, tudo se transforma. Mas o que é que o sabichão do Lavoisier sabia do amaparo que nos dá a consistência do quotidiano? Preciso de estabilidade. Sou avessa à mudança constante. Não, eu não floresço em momentos de crise e dispenso bem o nervoso miudinho do desconhecido, desprezo a surpresa, e o abismo faz-me dores de barriga.
Preciso de estabilidade. Teço todos os dias uma teia feita de horários, rotinas e gestos repetidos. E é dessa teia que é feito o meu ninho. Não sou mãe-galinha, sou mãe-aranha. Reconheço a minha culpa e não sei se e como algum dia escaparão os meus filhos para um mundo cruel feito de incertezas, sombras e liberdade. Bem sei que a vida está cheia de aviões furando torres, que a morte chega, que as separações acontecem, mas não sei construir os nossos dias com outra matéria menos banal do que esta fibra da fiabilidade. Eles adormecem todas as noites tão sossegados, de bochechas mornas e luzidias. Até quando bastará? Estou a fazer tudo errado, serão uns impreparados, munidos apenas de amor e confiança. Toda a gente sabe que isso não chega para nada.

31 dezembro 2012

resolucinhas

, que as resoluções carregam tanta ambição que estão condenadas à partida.
Mimar mais e melhor. Stressar muito menos. Fazer os Kegel. Reparar bem nas coisas bonitas. Dançar, que não dancei nada este ano.
Boas entradas, minha gente!

expectativas do casal para o réveilhão

Ele: Comer pregos naquela tasca em Benfica com tanta mostarda quanta conseguir equilibrar num pedaço de carne untuosa.
Eu: Ter uma desculpa praticamente válida para comprar um par de sapatos que nunca mais voltarei a usar (mas estará no próximo saco de doações, que eu ainda sou mais boazinha que a Jonet).
Parece que a conjugalidade é mesmo feita destes equilíbrios improváveis. E, a brincar, a brincar, já vai para quase metade das nossas vidas que nos conhecemos.

27 dezembro 2012

o melhor de 2012

Este ano não foi bom para muita gente. Mesmo assim gostava que pudéssemos olhar para trás e perceber que, em muitos casos (infelizmente não todos), a angústia que se nos infiltrou nos ossos no final do ano passado foi como uma neblina da costa ocidental, que lá acaba por levantar ao fim da tarde. 2012 foi um ano generoso para mim, essa é que é essa. Não mudei nada de muito significativo mas retive o que era fundamental.
Durante a adolescência, coleccionava numa caixa de chá rolinhos de papel onde escrevia coisas boas, que me faziam sentir feliz, para mais tarde voltar a saboreá-las. Não sei onde a meti por isso deixo aqui algumas das melhores coisas que tive oportunidade de viver este ano.

Melhor refeição: jantar no Yakuza, a 24 de Julho. E em casa, todas as vezes em que fiz canja e que os meninos comeram em silêncio devoto, sorrindo.
Melhor mergulho no mar: na minha praia, por volta das 16h, a 29 de Julho.
Melhor gargalhada: a do resto da família, quando me explodiu o ovo quente na cara.
Melhor livro: Freedom, de Jonathan Franzen.
Melhor filme: Moonrise Kingdom, de Wes Anderson (se bem que o We Need to Talk About Kevin me marcou muito mais).
Melhor música: Simple Song, dos The Shins, em ex aequo com o Madness, dos Muse.
Melhor série: Continua a ser o Mad Men.
Melhor momento: na noite de Natal, quando o Diogo abriu um presente que adorou e o Gugas, vendo-o tão feliz, teve de dar-lhe um grande abraço. Isto, meus senhores, é amor.

Apesar das más notícias que também chegaram este ano, não me inibo de abrir à descarada as comportas para deixar inundar-me de esperança num 2013 cheio de coisas boas – para mim e para todos vós :)

21 dezembro 2012

retomar isto das expectativas

Posto que o mundo e a vida continuam, como lidar com a existência de um futuro? Já tinha contas saldadas no banco e no coração, deitei-me tão consolada ontem a achar que o mais importante estava assegurado, e afinal volto a ter de criar expectativas e assentar compromissos na agenda. Não é que me falte ânimo para o que há de vir, é só que já está tudo tão perfeitinho assim: tenho um filho de dois anos que me prega partidas e até já come e tudo; tenho outro de cinco que leva o irmão ao bacio quando vê que ele está com cara de caso. E projecta arranha-céus futuristas onde dará casa a todos os sem-abrigo do mundo. Um exagero de meiguice, os dois, sempre a fazerem-me declarações de amor. Dois homenzinhos criados. O que é que se pode pedir mais do amanhã? Ah, pois, os dias que recomeçam a crescer :)

19 dezembro 2012

espírito de natal

O sorriso solar dos nossos filhos quando nos descobrem no meio da audiência da festa de Natal; as boas notícias no trabalho, depois de tanta ansiedade e tanto esforço conjunto; o anúncio de férias em família, inesperadas; um gesto pequeno e majestoso, de quem podia fechar-se nas suas dores mas decide abrir-se cada vez mais ao mundo; uma Fé teimosa que nasce em quem tinha medo de acreditar; a espantosa revelação de humanidade de alguém que nos parecia ser de pedra; e também todas as coisas más, toda a doença, todo o desemprego, todo o medo, o que nos retiram a cada dia, tudo menos a possibilidade de acreditar, de dar, de deixar que o Amor nos inunde o coração irremediavelmente. É só deixá-Lo entrar. Boas festas!

13 dezembro 2012

a minha sugestão de lembrancinha natalícia

É simples: um voucher Presente 25€ do Millenium BCP. É que é uma ideia tão boa e universal que nem dá hipótese para hesitações. E por que é que vos sugiro isto? Porque passo pelos mupis de rua com publicidade a este brilhante produto e as lágrimas só não me escorrem pela face porque estou de lentes de contacto e, parecendo que não, secam-me um bocado a vista.
A sério, se a compaixão e a generosidade são os fundamentos desta quadra, como não ficar assolada de ternura pelos senhores que tiveram de criar um anúncio destes? Atenção, isto é um anúncio que tenta convencer as pessoas a oferecer um bocado de papel que vale menos do que a erva daninha da berma do IC19. E como não gritar interiormente com a abnegação de uma senhora que usa uma camisola cor-de-rosa de angorá, um colar de pérolas, e esboça um sorriso como se estivesse realmente radiante ao receber um pedacinho da certidão de falência iminente de uma instituição bancária cujas acções valem menos do que um pacote de açúcar? A sério, ofereçam estes vouchers ao vosso esposo, à vossa tia, à senhora da farmácia, ao bobi. Garanto que eles irão retribuir o gesto com muita meiguice no próximo ano.


10 dezembro 2012

se o mundo fosse mesmo acabar daqui a 11 dias

Saía daqui, pegava nos miúdos e no homem e alugava um helicóptero para ir jantar com os meus pais, a minha avó e o meu irmão a Monsaraz. Dormíamos por lá e ainda dava uma voltinha a cavalo junto à barragem antes de voltarmos a Lisboa e embarcarmos no TP103 do 12:45 para Orlando. Ficávamos 3 dias a amansar o jet lag na DisneyWorld. Andava três vezes na splash mountain e quatro na casa assombrada. Vestia-me de Branca-de-Neve e comia pizza, crepes e cheese cake com muita coca-cola. Depois embarcávamos no AA1873 das 8:40 para Caracas e, daí, apanhávamos o barco para uma ilhota qualquer de Los Rocques. Ficávamos por lá a apanhar sol todo o santo dia, a beber mojitos e a comer o peixe grelhado, as panquecas com tapioca e a goiaba que nos coubessem na pança. E a dançar. E a ler. Na mala, levávamos só os bonecos de peluche dos miúdos, o The Very Hungry Caterpillar, o Winter of the World, fatos de banho, protector solar e Guronsan. The End.

05 dezembro 2012

desmistificando as agruras da monoparentalidade

Pai dos meus filhos: cuida-te. Cuida-me. Sê um bom marido. Ri-te das minhas piadas. Elogia o meu penteado. Mete-te comigo. Valoriza o meu esforço. É que esta semana voltou a acontecer algo que já antes tinha experimentado: fiquei sozinha com eles e foi... fácil. E divertido. Sabes, quando não estás cá eu sou menos mãe e mais amigalhaça. Comemos pizza. Deitamo-nos mais tarde. Cantamos alto músicas inventadas para celebrar o lugar de estacionamento encontrado ao fim de muitas voltas. Eles vão para a cama sem tomar banho e com os dentes provavelmente mal lavados. Nem uma birra. Nem um queixume. A louça vai toda para a máquina. E eu deito-me sossegada a ver todos os filmes franceses sem legendas que me apetece. Estás a ver o problema que isto levanta, não é?

E não venhas agora dizer-me que eu é que insisto nas refeições nutritivas, nos banhos, nos horários, na pressão das mil-e-uma-coisas que me deixa rabujenta, nas roupas impecavelmente dobradas, só porque é tudo verdade. Se calhar o que falta é mesmo virar tudo de pernas para o ar, de vez em quando. Para depois te recebermos de braços abertos e com muitas saudades. Principalmente porque as noites continuam frescotas.

30 novembro 2012

a narração em suspenso

Estando numa fase da vida em que, para o bom e para o mau, escasseiam os argumentos para usar o estilo narrativo (como tão bem insiste a Melissa), não escrevo. Há um número limitado de vezes em que podemos falar do sorriso radioso dos nossos filhos, das tosses, das incertezas do trabalho, das descobertas culinárias, das dores no lombro, dos livros lidos e daqueles que esperam na estante. Cheguei ao limite. Enquanto não acontecer alguma coisa de extraordinário - e desejo preguiçosamente que não aconteça, desculpem lá mas é o meu modo de lidar com os dias cinzentos - este blogue não tem uso. Até qualquer dia :)

23 novembro 2012

às vezes apetece-me fazer festinhas a mim própria, por me esforçar

Momento mais ridículo do (meu) dia: aquele em que sorrio ao espelho para botar o blush no sítio certo das bochechas. Mas faço questão de simular uma tez jovem e saudável, de quem vive em eterna Primavera e não deixa que as semanas cada vez mais avassaladoras dêem cabo da frescura natural dos trinta e três anos.

16 novembro 2012

comunidade

Sexta-feira não é o meu dia preferido da semana, mas é o dia do ‘deixem-me acreditar’. Deixem-me acreditar que vou ter dois dias inteiros para descansar, para mimar, para tratar de tudo o que há para fazer. Deixem-me acreditar que tudo o que está mal, todas as preocupações e anseios podem entrar em suspenso.
Imbuída do espírito de sexta-feira, olho à minha volta e tento não pensar nas estúpidas e ilusórias divisões recentes, entre caritativos e revolucionários, entre os que que dão voz própria ao descontentamento e os que atiram pedras de forma metódica, sistemática e cega; não, nesta sexta-feira, penso apenas que andam a tirar-nos tudo e mais alguma coisa mas, ainda assim, há um fundo de humanidade que nos faz contornar a reacção mais primária, que seria a da negação e do egocentrismo. Vivemos todos juntos isto do não sabermos como será o dia de amanhã, as notícias de desemprego, de fome, de desistência. E pensamos em maneiras de ajudar. E levamos umas tangerinas da horta para o trabalho. Partilhamos um almoço. Abrimos uma teimosa garrafa de vinho. Pomos a música a tocar. A generosidade e a esperança fazem-se clandestinas mas não baixam os braços. Deixem-me acreditar.

13 novembro 2012

porque diz que hoje é o Dia Mundial da Bondade

Aqui vai o meu sentido muito obrigada à querida médica que acaba de me ralhar com um "ai, ai, os estudantes e as noitadas...", pensando que era a isso que se devia a minha anemia e tensão arterial pela hora da morte. É sempre quando pensamos que vamos dar (sangue, neste caso) que mais recebemos (elogios improváveis de uma senhora a precisar de mudar a graduação dos óculos).
Agora ide todos vós por aí fora e, se não puderdes ajudar de outra forma, tende ao menos um gesto ou uma palavra de bondade para com alguém.

09 novembro 2012

como é que eu não me lembrei disto antes?

Ahhhh, o Pinterest (de novo, eu sei)... Ou: como fazer-nos acreditar que juntar uma cangalheira de inutilidades, atirar-lhe com corante aimentar e fotografá-la com um filtro fofinho, é receita garantida para decorações estrondosas, presentes low-cost e refeições que farão os nossos convidados abraçar-nos com lágrimas de incredulidade perante talentos há tanto tempo ocultos. Sim, mais, por favor. Era a dose de negação da realidade que ainda nos faltava.

07 novembro 2012

olha, é mesmo isto

A Anette acaba de me dar um abanão que já fazia falta. Dia após dia vemos os filhos a crescer e, ainda que tentemos deter-nos nos pequenos detalhes maravilhosos de cada etapa, a maior parte do tempo é passada ansiando pelo filho que será, pela conquista que ainda não veio, pela resistência que ainda lhe falta e a maturidade que tarda. Caramba, não. Cada dia é mesmo precioso. Que se lixe se nos atrasamos sempre a sair de casa porque agora quer mesmo despir-se sozinho, porque quer trazer aquele livro (não, afinal é o outro). Que se danem as horas de deitar, o enésimo abraço e aconchego na cama, as coisas programadas, o chão coberto de migalhas, as calças rotas nos joelhos, a corrida para o carro debaixo de chuva batida a vento. Eles nunca mais serão bebés. Eles nunca mais olharão para nós com uma avalanche de amor e confiança cega como a que têm agora. Obrigada, filhos. Obrigada, hoje.

02 novembro 2012

este país é para velhos, ou pessoas rabujentas de meia-idade, vá

Passou-se o Halloween, passou-se o Dia de Todos os Santos, e quantas crianças acham que nos bateram à porta com ameaças de nos abominar, ou com saquinhos de pão-por-Deus? Zero.
O país não é o meu bairro, bem sei, mas o meu bairro é aquele onde quase não há crianças. Há velhos. E imigrantes escondidos nas caves húmidas. E canários pardacentos em gaiolas junto ao chão, nas traseiras dos prédios a cheirar chichi de gato. Apartamentos vazios de tectos altos e paredes nuas. Às vezes, sinto que a minha família é uma ilha. Quando acendemos as luzes de Natal, somos o topo do Empire State Building no meio da Manhattan às escuras, à passagem da Sandy. Não ligamos a televisão para não descobrirmos que em tantos lados ainda é pior do que fora do bairro. Mas esta vida de ilha não anima ninguém. Ainda se estivessemos em latitudes tropicais...