18 março 2014

monteverde-malpais

4 de Março de 2014

O terceiro dia amanheceu solarengo depois de uma noite mágica com o vento a cantar entre as árvores. Voltámos a subir ao Parque Selvatura onde nos esperavam emoções fortes: a travessia da floresta, desta feita através de slide em 13 passagens de cabo, a maior das quais com 1 quilómetro de comprimento [o que fazer quando ambos os pais têm sede de adrenalina? Começar a dá-la às crianças em doses homeopáticas*]. Não há palavras para descrever a beleza dos voos sobre o manto verde, o silêncio absoluto cortado por uma roldana solitária em que depositamos tudo. E não dá para explicar a surpresa perante a coragem dos nossos rapazinhos, dois nano-seres que se atiraram pelos ares como muitos adultos nunca fariam, o que diz bastante da confiança que os filhos depositam nos pais. É tanto o tempo de vida em que marchamos num plano bidimensional que chegamos a estes instantes de clivagem e inundamos os sentidos de profundidade, cor, energia e abandono, parecendo absurdo limitarmo-nos a uma existência banal.
Cada um de nós tem o seu lugar seguro e bom para onde regressa à noite, ao fechar os olhos. Eu volto agora à imensidão de verde daquela manhã, rematada ainda por uma descida de um trilho com vista para o imenso vulcão Arenal e lago homónimo, e retemperada por um manso almoço Tico: casado e sumo de frutas (descobrimos o tamarindo e a graviola). Depois de um breve descanso no quarto com vista para a divina teia de lianas e fetos gigantes, ainda houve energia para nos perdermos nos trilhos da Reserva Curi Cancha, onde tivemos os primeiros encontros com a fauna local. Vimos agoutis, colibris, muitas borboletas, esquilos e aranhas, exemplares modestos perante a imponência das figueiras gigantes, devoradoras das outras árvores.
Ao quarto dia o nosso pequeno-almoço de gallo pinto, ovos e fruta foi cobiçado por macacos-capuchinho, para grande excitação de todos. Tivemos bastante pena de descer das montanhas em direcção à província de Guanacaste, deixando para trás aquele denso bosque encantado. No longo caminho até ao Pacífico vimos iguanas, uma arara e grandes bandos de gralhas (o que explica o meu à vontade naquelas paragens). O muito esperado almoço aconteceu já em Puerto Carillo, depois de uma banhoca inaugural na praia. As temperaturas passaram finalmente os 30 graus mas o tempo continuou muito seco, fazendo justiça aos 2 meses de "Verão" (i.e., temporada seca) daquelas latitudes. Descendo a costa para sul, descobrimos uma praia maravilhosa e absolutamente deserta, onde demos alguns mergulhos antes de seguir caminho para Malpais. Apesar de, aparentemente, a distância já não ser longa, a verdade é que as estradas terríveis pareciam não ter fim. Tinham-no: e era no meio de rios. A terra batida estreitou-se cada vez mais até caracolearmos por veredas atravessadas por plácidos cursos de água, três dos quais tivemos de passar com o jipe sem grandes certezas acerca da fundura nem da proximidade dos crocodilos. Singelas placas que avisavam "verifique a profundidade antes de atravessar" e "não tome banho: zona de crocodilos" são do melhor que há para o nervoso miudinho (o meu amantíssimo esposo agnóstico não se queixou das minhas sentidas orações nessa altura).
Foi com grande alívio que chegámos ao alojamento em Montezuma, apesar de rapidamente percebermos que a cabana na selva que nos tinha sido destinada tinha tanto de rústico como de sujo e desarrumado. Bom, seguimos as indicações de não nos calçarmos sem verificar a presença de insectos nas botas, besuntámo-nos de repelente, tentámos ignorar as formigas gigantes na sanita e caímos felizes nas camas bamboleantes.


* Exagerámos na dose - disseram que queriam fazer aquilo mais mil vezes.


 Preparativos para o slide

 Vulcão e lago Arenal

 Colibri em Curi Cancha

 Tentativa de pilhagem de refeições alheias

 Despedida de um novo amigo

 Praia Coyote, Pacífico

 Será que dá para passar? Que remédio, não há alternativa

17 março 2014

lisboa-madrid-san jose-monteverde

2 de Março de 2014

Custou acordar às 5h15 mas o entusiasmo era muito. Depois de meses a contar os dias, finalmente tinha chegado o momento de voar para a Costa Rica. A voo até Madrid foi sem sobressaltos só que logo à chegada percebemos que não tinham expedido a mochila do Luís para San Jose. Lá se foi grande parte da roupa, o necessaire e os medicamentos. Seguimos viagem tentando não pensar no assunto, mais de 10 horas a sobrevoar o Atlântico. Os rapazes foram impecáveis e levaram bem a espera, entre desenhos, jogos de cartas e muita conversa.
A chegada também correu bem, apesar da confirmação da ausência da bagagem, e o aluguer do nosso fantástico Jimny fez-se sem complicações. Depois de algumas voltas pelo centro de San Jose, finalmente demos com o nosso simpático e modesto hotel, onde conseguimos o muito ansiado descanso depois de 18 horas de pestana aberta.
A madrugada foi bem prematura devido ao jet lag (agarrei-me ao A Fraction of the Whole desde a 1h da manhã). Tomámos um óptimo pequeno-almoço de fusão centro e norte-americana, feijão com arroz, sandes de manteiga de amendoim e muita fruta, fizemos algumas compras e pusémo-nos a caminho. Deixámos San Jose para trás, uma cidade eclética e moderadamente caótica mas com uma nota simpática, onde me senti segura apesar da confusão do trânsito e dos mercados de rua.
Percorrendo a pan-americana em direcção ao Pacífico, entre as quotas dos 1000 e 2000 metros de altitude, passámos por muitos campos cultivados, de árvores de fruto e cana de açúcar, e muitos rios. Avistando o golfo de Nicoya, virámos a norte em direcção a Monteverde. Seguiram-se 40 quilómetros de estrada tão acidentada que saltávamos nos assentos e tivemos de inaugurar a tracção às 4 rodas. Os rapazes hesitavam entre a excitação e o receio perante as ravinas a perder de vista, vibrando com a progressão do ponteiro do altímetro.
Finalmente chegámos ao paraíso de Monteverde, fiel ao seu nome, e só tivemos tempo para fazer o check-in no hotel e um almoço delicioso antes de apanharmos um autocarro para a entrada no parque da floresta das nuvens. Aí passámos a tarde a passear pelos trilhos sobre a copa das árvores e balançar sobre as longas pontes suspensas. A nossa manifesta incompetência para detectar a fauna local foi largamente compensada pela vegetação majestosa, pelo cheiro denso da floresta e, sobretudo, pela sensação de paz e perfeição absoluta. Não há nada como sentirmo-nos de regresso aos primórdios do planeta, a milhões de quilómetros de todos os problemas do dia-a-dia.
Voltámos a tempo de dar ainda mais um passeio a pé junto ao hotel e assistir à excitação das gralhas perante o pôr do sol no Pacífico, um dos mais bonitos a que já assisti.

 Talho em San Jose

 O nosso fiel todo-o-terreno

 Varanda do hotel em Monteverde, onde os macacos-capuchinho vinham pedir fruta de manhã

 Ponte suspensa na floresta das nuvens

A 2 mil metros de altitude, vista sobre o golfo de Nicoya (Pacífico)

querido diário, aguenta aí só um bocadinho

Parece que ganhou a versão diário (desculpem, esqueci-me de avisar que ainda escrevo no mesmo registo dos meus 8 anos, quando confessava vários amores eternos pela fileira de rapazes que me arrebataram o coração desde essa altura). Assim que reúna as forças que se me esvaíram ontem entre a meia-maratona e a festa de aniversário do Gugas, cumpro o prometido.

14 março 2014

entretanto, coisas que aprendi

Sobre os meus filhos: que são feitos daquela matéria-prima resistente, inquisitiva, boa onda, audaz e generosa que nos enche o coração de um misto de humildade e orgulho.
Sobre a nossa família: que gostamos mesmo uns dos outros e prosperamos alegremente em ambientes desconhecidos, no calor húmido, desde a densa floresta de altitude até aos mangais infestados de caimões.
Sobre mim: que tenho de arranjar maneira de conseguir uma vida com menos stress e com mais natureza. Começarei por explorar trilhos em Portugal, que também os há em abundância. Nada me faz mais feliz do que enfiar-me numa floresta e andar, andar, andar. Sobretudo se estiver com os meus amores.

As votações encerram no dia 16 às 23:59. Porquê? Sei lá, foi uma decisão arbitrária - o efeito peace and love já se dissipou quase todo.

13 março 2014

a ressaca

De regresso, engolindo as lágrimas e tentando consolar-me com o sol que finalmente resolveu aparecer por cá. Foi a viagem da minha vida e correu tudo maravilhosamente. Vou lançar um crowdfunding para me financiar a emigração para a Costa Rica assim que encontre um bom argumento para convencer o público de que a minha mudança para lá lhe traz algum tipo de vantagem.
Agora levanta-se a questão: devo escrever aqui sobre os últimos 10 dias? Imbuída do espírito livre e puro que me ficou a circular nas veias, deixo ao vosso critério as seguintes opções (a que tiver mais votos, ganha; em caso de empate, faço as duas alternativas):
a) Não escrevas. Ninguém aguenta ouvir falar das viagens dos outros e ser obrigado a ver fotografias de férias alheias é pior que arrancar um siso (eu voto nesta);
 b) Escreve, mas assim num tom levezinho e positivo, com uma foto com os pés na areia e a dar a impressão que, na tua vida, os astros estão mais alinhados do que os chakras de um mestre yogi;
c) Escreve, mas assim num tom irónico e auto-depreciativo, para parecer que a tua vida tem tanto cocó como a nossa (e tem, depois daquela fruta toda) e que nem tudo corre como imaginamos (pois não, às vezes corre melhor ainda) ;
d) Transcreve o teu diário porque queremos mesmo saber o que sentiste e é sempre bom ter uma desculpa para fazer gazeta ao trabalho.

É favor votar (pontos a dobrar para quem fizer menção ao meu Gugas que fez ontem 7 anos e hoje deve andar a cambalear pela escola, com o jetlag).

02 março 2014

isto não são bem umas férias

No outro dia respondi a um comentário da dona da mota, meio a brincar, meio a sério, que esta viagem (por estas horas já iniciada, se Deus quiser) não se trata de férias mas, sim, de uma visita de estudo. É que, se fossemos de férias, íamos para algum lado horizontalizar, ler, comer e respirar o estritamente necessário. De preferência, sem filhos – toda a gente sabe que essas criaturas são a foice para o descanso estival dos seus desgraçados progenitores, que tanto trabalham o ano inteiro. Acontece que nós somos claramente masoquistas e achámos que isso das férias é para os fracos. Nós queremos mais (trabalho, obviamente). Queremos sair da vida de todos os dias e atirar-nos às cegas para um bocado do mundo mais selvagem e imprevisível. Queremos desinstalar-nos e ver coisas estupidamente bonitas. Queremos virar as prioridades de pernas para o ar e sentir o pulsar da Terra nas encostas de um vulcão. Na floresta tropical. E, sim, em praias paradisíacas. Queremos fazer de conta que somos de lá e, acima de tudo, desejamos que os nossos rapazes vejam que a vida é uma coisa enorme, insondável, em aberto. Que eles cultivem a sede do desconhecido*. De modo que o mais certo é voltarmos exaustos e abananados – mas não é esse o efeito de todas as coisas realmente boas?

*Felizmente, a grande professora do Gugas apoia a nossa política de que a educação não é só feita na sala de aula e nem pestanejou quando lhe disse que ele ia faltar tantos dias. Mas isso fica para um próximo post.

27 fevereiro 2014

mensagem para a gralha em 1985 que também serve para a gralha em 2015

Minha pequenina, sei que gostas muito de desenhar e deves continuar a fazê-lo. Mas esquece lá isso de vires a ser estilista. Tenho passado as últimas madrugadas a cortar e coser fatos de Carnaval para os meus filhos (sim! vais ter filhos! dois rapazes absolutamente perfeitos) e amaldiçoo o dia em que achei que isso era uma boa ideia. É chato. Aquilo não fica nada de jeito. E ando de rastos. Resumindo e concluindo: desenhar é giro, fazer roupas de raiz é péssima ideia. Ainda por cima nunca ligámos por aí além à moda, pois não? (mas imagina lá que esses teus óculos horríveis vão voltar a usar-se em 2014)

26 fevereiro 2014

venha o diabo e escolha

Tendo de optar entre o lastro de uma decisão egoísta e umas colheradas amargas de agrado a expectativas alheias, hesito. Qual o menor dos males, a culpa prolongada ou a contrariedade momentânea? Em teoria, é fácil de responder. Na prática, vou andando e arrastando, tentando convencer-me da minha emancipação, desejando que isto de ser adulto trouxesse os benefícios prometidos pela profilaxia de moralidade que tomei obedientemente desde a infância.

25 fevereiro 2014

boa esperança

Quatro meses a tentar passar o Cabo das Tormentas das minhas tarefas laborais mas macacos me mordam se a brisa do Índico não vale a pena!


Work it Brad, work it.

24 fevereiro 2014

cenários pré-viagem

Tudo corre bem: os voos são pontuais; as crianças sorriem e brincam em paz, deixando os adultos dormir/ler/estar sossegados; fazem-nos um upgrade ao carro de aluguer e o hotel de San Jose tem cortinas e fica num bairro sossegado. Cada viagem é uma nova experiência dos sentidos, a paisagem surpreende, a vida selvagem é abundante e benévola. Todos os alojamentos são pequenas e confortáveis cabanas, com fruta à descrição e anfitriões solícitos. Conseguimos ver o cume do vulcão e não caímos de nenhuma ponte suspensa. As praias são perfeitas, só nossas. O sol brilha ininterruptamente. O mar tem as ondas certas para o surf mas permite o banhar sem sobressaltos dos mais pequenos. A comida é maravilhosa e a cerveja gelada, ao fim do dia. Todos sorriem e dançam à volta de fogueiras. Sonhamos passar o resto dos nossos dias junto ao Pacífico, só para descobrir que nas Caraíbas ainda se está melhor.

Tudo corre mal: perdemos o voo de ligação e as mochilas; os putos queixam-se de 5 em 5 minutos que nunca mais chegamos e eu choro interiormente enquanto tento que durmam encavalitados nos meus ombros exaustos; não registaram a nossa reserva de aluguer e damo-nos por felizes com o único chaço que sobrava, a preço inflacionado. Depois de horas às voltas em San Jose, damos com a espelunca, onde partilhamos quarto com um casal de turistas americanos com ar duvidoso. Não dormimos com o barulho da auto-estrada contígua ao hotel, com o neon a piscar nas janelas, e com medo que nos roubem os filhos ou os rins. Achamos que chegámos ao vulcão mas não temos a certeza, porque está tudo coberto de nuvens e não vemos um palmo à frente do nariz. Chove copiosamente e os miúdos perguntam por que é que continua a ser Inverno. Perdemo-nos nos trilhos, os únicos animais avistados são uma tarântula a tentar comer-nos as sandes e uma cobra que conseguiu entrar para dentro do motor. As praias têm ondas de três metros, tubarões e bandos de pelicanos que nos roubam a mochila. Um coco cai-me na cabeça. Comemos um prato típico recheado de salmonella e o único que resiste à desgraça visceral é o mais pequeno, que se recusa a comer qualquer coisa para além de bananas e bolachas. Contorcemo-nos, dançando, à volta da sanita e não podemos beber cerveja porque só aguentamos chá e arroz no bucho. Sonhamos regressar depressa a casa, não sem antes demorar 14 horas a fazer a travessia até à costa oriental, só para descobrir que nas Caraíbas as praias estão ocupadas por uma convenção neo-rastafari cujos membros tentam oferecer cigarros de cheiro aos nossos filhos. Nós rendemo-nos e aceitamo-los de bom grado.

21 fevereiro 2014

vigília

Respiração acelerada, curta, superficial. Muita tosse e um sono perturbado por crocodilos, ladrões, piratas, maus. A febre sempre à espreita. E eu ali ao lado, a velar-lhe as horas nocturnas. À espera que melhore, minuto a minuto. Como é difícil não fazer nada, não poder resolver. Para esta minha geração de pais, tão informada e pró-activa, é quase uma tortura não ter uma solução rápida para tudo à distância de um clique e de 5 ml de qualquer poção mágica. Mas há mesmo curas que se fazem apenas com o tempo e uma presença silenciosa. Pensando bem, se calhar isso também se aplica a tantas outras urgências da vida.

20 fevereiro 2014

a dura realidade

É que não basta desejar, projectar, desprender-se, arriscar, começar a correr, fazer dieta.

Se for eu a escrever mais um post sobre isto ainda me vêm chamar nomes. Mas, que querem, estes quixotismos vendidos às massas fazem-me espécie.

19 fevereiro 2014

pérola

E depois há aquele dia em que, após vários meses a semear amor, compreensão, ternura, paciência, e a Palavra oportuna, a semente desfaz-se da sua cobertura de disparates, provocações, hiperactividade e atropelos. Abre o coração e deixa voar um bando de andorezinhas aprisionadas. Devolve-nos tudo o que demos a dobrar e sabemos que, independentemente das muitas pedras no caminho, dali sairá bom fruto.

18 fevereiro 2014

conciliar

Identifico-me com os princípios do minimalismo mas colecciono recordações. Professo o ideal clean* porém rendo-me à inverosimilhança de uma existência sem nódoas. Gosto de pessoas e das suas peculiaridades mas preciso da solidão e do silêncio. Quero superar-me e quero dar-me um desconto. Inflexível é mau. Volúvel é pior. Seduzem-me facilmente os lados opostos de um argumento. Sou uma ponte suspensa entre desejos multiplicados e um futuro incerto. Oscilo de passo firme e deixo-me embalar ao ritmo das escolhas e dos condicionalismos. Crescer não ensina a decidir mas ajuda a aceitar a impossibilidade de percorrer todos os caminhos. E a calar a culpa, essa corrupção da consciência.

* Mais um prego no caixão do "asseado"

14 fevereiro 2014

dois corações batendo a compasso

Quem é que leu o título e achou que daqui ia sair uma coisa fofinha? Ah, ah, ah. Como já deviam saber, não há um único osso romântico nas minhas asas. Ainda assim, sinto-me compelida pela sociedade a comemorar este dia de S. Vomitim, mas à nossa maneira (sim, amor, não vamos contentar-nos com aquele beijo que me deste às 7h48 entre as cortinas de roupa estendida e húmida há 3 dias). É por isso que amanhã vamos participar na Corrida dos Namorados 2014 e, mesmo que não ganhemos um dos jantares no restaurante O Cartaxeiro (fazendo figas!), já está garantido o prémio para aquele que, entre nós os dois, fizer mais depressa os respectivos 6 Km: se ele ganhar, tem direito a… isso mesmo que vocês estão a imaginar; se eu ganhar, ele vai limpar o frigorífico e acabar com o glaciar que ameaça expulsar as couvetes. Está-se mesmo a ver que vamos poder abastecer-nos de congelados para o próximo mês. E depois ainda dizem que as relações amorosas já não são como antigamente, suas almas descrentes.

Se interessar a alguém, fiquem sabendo que temos agora o frigorífico mais resplandecente do que uma aurora na Antártida :)

Curiosamente, à nossa maneira, a corrida acabou mesmo por ser um momento romântico. Nunca corremos juntos (alguém tem de ficar com os miúdos) e foi giro participar numa prova em que nos apoiámos mesmo um ao outro.
<3

13 fevereiro 2014

palavras órfãs

Queque. Auscultadores. Gabardina. Cor-de-vinho. Cereais. Senha. Lista de desejos. Conjunto. Aplicação. Correr. Antiquado. Descarregamento. Digitalização. Seminário. Esparguete. Pressentimento. Batido. Gratidão. Extraterrestre. Cuecas. Purgante. Rábula. Concentração. Capuz. Toucinho. Venham a mim, pequeninas, eu continuo a usar-vos ainda que todos vos deslocalizem para as profundezas da memória linguística.

10 fevereiro 2014

de pernas para o ar

Agora és mãe. Se eras uma mulher metódica e organizada, tens de habituar-te ao caos e ao improviso. Se eras descontraída e espontânea, tens de dobrar-te às rotinas e às obrigações regulares. Desejas uma coisa e tens outra (ainda melhor). Sentes dores alheias como próprias. Apagas fogos em bochechas febris com beijinhos. És acrobata e rochedo, ninho e combustível. Redescobres tantas coisas melhor do que da primeira vez. Vives infâncias de empréstimo e assumes responsabilidades com a insegurança de quem nem sempre vê um adulto ao espelho. Dizes muitos sins, muitos nãos, demasiados an-hans. Distribuis abraços em abundância e recebes a dobrar. És a pessoa mais importante do mundo para alguém pequenino e preparas o coração para o dia em que deixares de o ser. Hoje ainda não, amanhã talvez.

Para a minha motoqueira, que me inspirou logo pela fresquinha.

07 fevereiro 2014

ao cuidado do comité olímpico internacional

Caros senhores,

Interpela-vos uma cidadã anónima, amante do desporto (desde que não envolva bolas) e fervorosa defensora do espírito olímpico: como é possível que tenham critérios duplos na organização das vossas provas, contrariando toda a mensagem de compreensão mútua, amizade e solidariedade que afirmam encabeçar? Por um lado, permitem que este mítico evento quadrienal se realize num país que não respeita os direitos humanos mais fundamentais; por outro, só contemplam modalidades praticadas por uma minoria elitista, desvalorizando o esforço de milhões e milhões de desportistas que não vêem a sua excelência reconhecida nos pódios de referência planetária.
Concretizo: desde que um país tenha dinheiro para montar a festa, assobia-se para o lado enquanto se chacina animais, exerce censura ou oprime cidadãos não heterossexuais. Mas se outro país quer participar nos Jogos de “Inverno”, é bom que tenha neve e gelo em abundância. Isto é o absoluto desrespeito pelos países cujo Inverno consiste em temperaturas menos extremas e condições atmosféricas menos postalescas. Onde está o atletismo com rajadas de vento de 120 Km/hora? Onde está a natação em que se sai da piscina para o exterior e se apanha um resfriado com a amplitude térmica? Cadê o salto em comprimento sobre as poças no passeio? E o lançamento de chapéu-de-chuva desvaretado para o caxote de lixo? Porquê ignorar os campeões de resistência à concentração de maus odores corporais em espaços não arejados? Para quando a inclusão do slalom entre goteiras impiedosas nas zonas urbanas mais antigas? E, se insistem no fetiche da neve, onde está o muito amado sku em saco plástico? Há todo um mundo de vivências invernais bastante infernais que não está a ser tido em conta e uma pessoa, parecendo que não, sentir-se-ia reconfortada com o miminho de uma medalha. O chá e os biscoitos já estão um bocado batidos nesse departamento.

Atenciosamente,
Uma gralha encharcada

03 fevereiro 2014

um dois três quatro!

Visto que não é possível ficar a roer estas bochechas de pêssego durante o resto dos meus dias, consolo-me com a incomensurável alegria de ver-te crescido, bom, espertalhão, meiguinho, tão, tão parecido comigo, meu filho (desculpa lá), uma mão quase cheia de anos e o meu coração a transbordar de amor. Parabéns, Diogo :)

31 janeiro 2014

talvez lá vá com foguetes nos pés

Já dizia o bom velho McClelland que precisamos de estabelecer objectivos elevados mas realistas para andarmos motivados. O problema é que o difícil nem sempre é cumprir os objectivos mas começar por encontrá-los. Se uma pessoa não quer mudar de emprego, ter mais um filho, perder peso, aprender uma nova língua, redecorar a casa, sobram os sonhos estratosféricos incompatíveis com a conta bancária e as intenções pouco glamorosas como fazer o melhor possível naquilo em que nos metemos. Nestas circunstâncias, ou nos resignamos a uma existência rastejante ou inventamos asas para voltar a voar.
O que é que eu ainda posso fazer que seja bombasticamente compensador, difícil mas não impossível? Participar nos Jogos Olímpicos. Façamos então umas contas para ver se as anteriores premissas se confirmam ou se tenho de deixar de inalar solventes industriais. No espaço de um ano (e perto de 1000 km corridos), na minha distância preferida (10.000m), consegui melhorar o meu tempo cerca de 13%. Sendo que os mínimos olímpicos estabelecidos para Londres 2012 foram de 31'45'', isso significa que, ceteris paribus, estarei a conseguir esse tempo em... 2017. Como parece que aquilo no Rio de Janeiro está a dar molho, pode ser que eles criem uma categoria suplementar em 2016 para mães-de-família-com-37-anos-que-fazem-uma-feijoada-daqui e eu consiga realizar este objectivo. Ahhh, até parece que já vos vejo a todos colados à televisão, a descascar amendoins e a gritar: "força gralha, tu consegues a medalha!"

30 janeiro 2014

não sei como é que vocês conseguem

Chegar ao fim do dia com energia. Porque eu arrasto-me.
Fotografar lindos pequenos-almoços. Porque ainda estou a descolar as pestanas enquanto preparo almoços e arrumo mochilas.
Ser fadas-do-lar irrepreensíveis. Porque eu esgoto o vernáculo de asneiras ao estender cada máquina de roupa.
Cozinhar com prazer. Porque eu sonho com comprimidos de nutrientes.
Fazer coisas giríssimas com espontaneidade. Porque os meus melhores planos nunca saem perfeitos.
Estar em cima do acontecimento. Porque as notícias me deprimem e enxotam.
Gostar de chuva. Porque eu me molho.
Não elevar a voz com os vossos filhos. Porque os meus nem sempre ouvem à primeira (nem à terceira).
Equilibrar trabalho, vida social, parentalidade. Porque às vezes não percebo o sentido do que faço. Organizar festas dá-me vontade de espetar mini-chapéus-de-sol de cocktail nos olhos. Os miúdos que resolvam os seus próprios problemas. Que eu sou só uma e muitas vezes sinto-me menos do que isso.

Nota-se muito que o outro adulto da família está fora há uns dias?

29 janeiro 2014

escapismo sazonal

É o Walter Mitty, é a colecção resort, é o chilrear imaginário de passarinhos recém-nascidos, é a recordação de tantas coisas boas feitas no ano passado e o desejo de muitas mais, que aguardam, congeladas e em suspenso, que venham dias mais quentes e luminosos. É tudo isto que me dá uma vontade tremenda de acelerar no tempo ou, pelo menos, no espaço, e sair desta altura do ano que me faz sempre sentir agrilhoada num Gulag bafiento. 31 dias para rumar à floresta tropical parecem-me uma eternidade insuportável. Não há mantra nem calendário bonitinho que me façam apreciar estes dias enquanto espero pelo recomeço da vida como gosto de a viver. Ainda ninguém me avisou, mas suspeito que sou personagem de programa televisivo que só passa na temporada de Verão.

Em podendo escolher, posso ser a Cat Deeley  no So You Think You Can Dance?

24 janeiro 2014

o castigo

Se o episódio do super-homem revela em curta metragem a essência do meu filho mais novo, a estória que passo a contar é um apetitoso cartão de visita do meu filho mais velho. Filho maduro e ciente dos seus deveres, mas que não deixa de ter 6 anos e andar com a cabeça no ar, como é de direito.
Depois de, pela segunda vez, se esquecer de trazer uma importante circular da escola, resolvi aplicar um castigo adequado. Com a intenção de o fazer compreender o sentido da responsabilidade, informei-o que teria de passar o fim do dia a zelar pela integridade de um ser frágil e indefeso, a saber: um ovo cru. Personalizando a coisa, desenhei uma cara no dito cujo, e entreguei-o ao seu mentor com recomendações marsupiais. Desde aí, tornaram-se inseparáveis. Aquele ovo viajou do quarto para a sala, da cozinha para a casa-de-banho, mais apaparicado do que um sultão no seu jacto particular. Chegada a hora de deitar e finalizado o castigo, o extremoso progenitor informou-me que não queria devolver o seu novo amigo, que já se tinham afeiçoado um ao outro. Não tivemos outro remédio senão preparar um ninho e aceitar este novo membro da família. O pior é que não vamos ficar por aqui porque obviamente que o «tio» também quer o seu próprio ovo. Bom, sempre dão menos trabalho do que galinhas. E assim aprendi eu a lição que não vale a pena reinventar a roda com pedagogias fofinhas. Alguém se tornou mais responsável com a experiência? Não. Ainda vou ter gemada num tapete? É o mais certo.

15 janeiro 2014

o problema é o seguinte

Estão a ver o mote deste blogue? Já não me vou revendo nele como outrora. Não sei se é do tempo corrido ou uma maré passageira, mas a verdade é que não me apetece gralhar. Isto é, não me dá para falar com ligeireza de um pouco de tudo, com mais ou menos propriedade. Estou com problemas de identidade totémica, não sei onde isto vai dar. Entretanto, os dias sucedem-se cheios de coisas pequenas e grandes, boas, que não se prestam à exposição. Não é pudor, é desnecessidade de validação. Assim me calo e vou apreciando.

09 janeiro 2014

de corpo e de mente

Este artigo do NY Times pode parecer mais um prego no caixão daqueles que convivem com a inércia e com problemas de auto-imagem corporal. No entanto, aquilo que retiro da pesquisa em que se baseia, ainda que incipiente, é a importância de fazermos aquilo que nos dá realmente prazer. Se uma pessoa sente mais prazer em sofazar e comer batatas fritas do que em sair para correr, não há resolução de ano novo de dar uso aos ténis que dure mais do que uma semana. Mas essa pessoa não está condenada a passar 360 dias por ano refastelada a encher o bandulho de porcarias porque não tem apenas a única alternativa de ir correr. O truque está em descobrir o que é que dá gozo e não causa o patético sentimento de culpa que nunca conseguiu converter ninguém ao evangelho da vida saudável.
Uma coisa que me chateia neste estudo é que coloque em lados opostos gordos e magros, como se houvesse uma fronteira física entre ambos. Não vou sequer entrar pelas muitas razões que contribuem para que se entre (e permaneça) em excesso de peso, e que não são uma questão de falta de força de vontade. Nem pelo facto de todos os tipos de corpo terem o mesmo absoluto direito ao respeito e ao desfrute. Pegando só na questão do exercício, dou o meu exemplo, de alguém que nunca teve excesso de peso. Passei toda a vida escolar a odiar educação física, a minha pior nota, o meu desejo eterno de baldanço, o meu motivo de chacota por cada cesto falhado, cada manchete contra os meus óculos, cada tropeção na bola. Odiava, odiava, odiava educação física e convenci-me que era uma pessoa sedentária, sem jeito para desporto. Foi preciso ter chegado aos 17 anos e ter descoberto o remo e o yoga para perceber que mexer-me é uma coisa que pode dar imenso prazer. O que é que mudou? A minha postura perante o meu corpo. O meu corpo sou eu, não é um trambolho que arrasto inevitavelmente. Gosto de o fazer sentir-se bem. Gosto de o pôr a fazer aquilo para que foi destinado – trabalhar, mas trabalhar com objectivos realistas e a devida recompensa. Porque andar a alinhar em modas de exercícios, planos de treinos loucos e outras quimeras externas à nossa vontade pessoal é tão estúpido como escolher uma profissão ao calhas ou ter filhos porque as tias não se calam com essa conversa em todos os jantares de família. A sério, pessoas, dêem-se ao luxo de viver com prazer, ninguém vos vai recompensar na velhice por uma vida inteira de boas intenções e eternas frustrações.

08 janeiro 2014

faltam cinquenta e dois dias



Digamos que é difícil estar sentada na cadeira e não desatar para aí a sorrir e a dançar à chuva.

06 janeiro 2014

os super-poderes de uma grande banda sonora

Adoro esta fase dos meus rapazes, sobretudo do mais novo, em que andam fixados nos conceitos do bem e do mal, dos bons e dos vilões. Ainda que vá desconstruindo um bocadinho essa ideia do mundo a preto e branco, também me parece importante deixá-los explorar estes alicerces da moralidade, criando personagens, desempenhando papeis e escolhendo referências reais e imaginárias. Este é o tempo dos super-heróis e das armas imaginárias. Diariamente sou raptada por malfeitores e resgatada pelos meus bravos salvadores. Às vezes sou ladra, outras polícia. Também vou salvando alguns príncipes em apuros, que isto há limites ao respeito pelos estereótipos da narrativa infantil. O grande fascínio do momento é o Super-Homem, desempenhado pelo Christopher Reeve. E a verdade é que mesmo eu tenho um fraquinho pela estória, sobretudo na versão original.
Esta conversa toda serve para contextualizar o seguinte episódio de espectacular dramatismo do meu cavaleiro andante com quase quatro anos de idade. Aquela amostra de gente vive tudo com tal paixão e arrebatamento que só posso imaginar que venha a ser um grande artista. Ou um grande farsante. Senão, vejam:
O cenário: À mesa, durante o jantar.
Os personagens: Pais e filhos.
O enredo: Filhos devoram gigantes pratadas de massa com atum. Pai põe a tocar na estereofonia o tema principal do Super-Homem, do John Williams. Mãe começa a dançar na cadeira e filhos seguem-lhe o exemplo. Eis senão quando, filho mais novo começa a ficar com os olhos marejados de lágrimas, o beicinho a despontar, e desmancha-se numa choradeira monumental, com direito a ataque de tosse e metade da refeição devolvida à procedência. Sobrecarga de emoção para quinze quilos de criança.
É muito exagerado, este meu filho. Até parece alguém que eu cá sei.

P.S. Para quem esteja a precisar de uma purga gastroemocional pós-festas, cá vai uma ajuda.

03 janeiro 2014

retrato de hoje

De vez em quando preciso de fazer este exercício: olhar para o tempo presente e fixá-lo em palavras. Porque não chegam as imagens no Instagram e, infelizmente, a memória já não é a mesma.
Por estes dias tenho fraca vontade de trabalhar, mais por dificuldade em vencer um obstáculo técnico do que por preguiça. Não tenho novas metas para a corrida, o que é um bocado estranho. Vou fazendo os meus treinos habituais até surgir um desafio interessante. Estamos a planear a tão ansiada viagem ao paraíso da biodiversidade e oscilo entre a excitação tremenda e o receio que algo não corra bem. Prestes a celebrar 7 anos de casados, acho que a nossa relação está igual ao que era desde o início. Não sei se é bom, mau, ou se não quer dizer nada. Conhecemo-nos muito bem e, no meio das nossas diferenças graníticas, encontramos cada vez mais um fundo comum de princípios e respeito mútuo.
Os rapazes estão crescidos, claro. O Gustavo sempre entusiasmado com a escola, a ler cada vez mais depressa, curioso, introspectivo, meigo e paciente. Trocou a namorada que já vinha do Jardim de Infância por uma pirosona. Os rufias do segundo ano têm dado tréguas e ele vai ganhando alguma confiança para lidar com os miúdos imbecis e malcriados as crianças que não têm o devida estrutura emocional. O Diogo está a ganhar vocabulário a uma velocidade incrível e continua a não conseguir pronunciar os érres enrolados. Ainda se sente minúsculo na escola e vinga-se um bocadinho no mano. Tem uma namorada com 6 anos (acha ele...) mas continua a querer casar-se comigo. Está a comer muito melhor. Adoro vê-los brincar juntos, ainda que comece a haver algum confronto físico. E delicio-me quando partilham livros, gargalhadas, carrinhos e bolachas.
Assim é a nossa vida no início de 2014. Não podia ser mais banal mas acho que não a trocava por nenhuma outra.

31 dezembro 2013

o melhor de 2013

2013 foi um ano de crescimento e de auto-conhecimento, que é uma maneira bonita de dizer que houve dureza, deserto e angústias mas lá se chegou ao fim com um braseiro vivo no coração. No meio de tudo, há muito para agradecer. Não esqueço as pessoas que partiram. Não esqueço as que tiveram pequenos gestos cheios de carinho e entrega. Espero ter feito menos mal que bem e tentarei fazer melhor para o ano. De recordação, ficam estes e outros momentos.

Melhor refeição: jantar na Casa Nepalesa, num belo fim de tarde de Verão. Pelo conjunto da obra – a comida absolutamente perfeita, a simpatia do serviço, os meninos portando-se como anjos.
Melhor mergulho no mar: na praia do Barril, uma hora seguida a nadar ao fim da tarde de 15 de Agosto.
Melhor gargalhada: incontrolável, imparável, no casamento de uma amiga (uma vergonha, eu sei).
Melhor livro: The collected stories of Lydia Davis.
Melhor filme: Vi pouquíssima coisa este ano – e menos ainda filmes de qualidade. Se me apontarem uma pistola à cabeça, escolho o Gravidade do Alfonso Cuarón.
Melhor música: Qualquer uma dO Grande Medo do Pequeno Mundo, do Samuel Úria (e agora baixinho: e o Get Lucky dos Daft Punk)
Melhor série: Breaking Bad. Ainda estou em negação por ter acabado.
Melhor momento: cruzar a meta da minha primeira maratona (what else?).

Tenham um 2014 com muito amor, sentido, verdade, entusiasmo, saúde e uma boa almofada onde cair nos dias em que faltar o resto.

27 dezembro 2013

alguém me faça largar os coscorões e agarrar-me ao trabalho

Se fosse minha superior hierárquica, despedia a minha pessoa neste momento. Esta que vos escreve devia estar a debitar HTML para o bem da humanidade e, pelo contrário, está para aqui a anhar e a arranjar desculpas.

Mas é que os rapazes ainda devem estar de pijama a ver o Super-homem original, a comer tarte de abóbora e a fazer festas ao cão com os pés. Não é justo, não é justo.

26 dezembro 2013

o nosso natal

O nosso Natal são três. É a véspera sossegada com os meus sogros. É a manhã luminosa só a quatro mais um (o meu Matias velhote). E é o dia completamente barulhento e cheio de animação com a minha família materna. Damos muitos abraços. Inventamos tradições novas todos os anos. Comemos o melhor peru do mundo (e muitas outras coisas boas). Pregamos partidas aos primos. Reaprendemos papeis, agora que a festa se faz a três gerações. Roubamos os presentes uns aos outros e falamos a mil à hora, provando aos ramos italianos da família que os portugueses conseguem ser ainda mais ruidosos do que eles. O Natal cristaliza estas relações, obriga-nos a parar e olhar uns para os outros. Reparamos em novas rugas, posturas mais curvadas, miúdos que esticaram, olhares um pouco tristonhos e preocupados, mas ficamos sempre muito felizes por estarmos juntos, por sermos cada vez mais, por termos tanta coisa por que nos sentimos agradecidos. Temos um Natal privilegiado em muitos sentidos mas o maior de todos é a graça de uma família tão grande e cheia de gente boa.

20 dezembro 2013

pequenas mas boas

A Melissa tem andado a partilhar o seu diário de gratidão e, embora não esteja com energia para aderir a esse ritual com a mesma regularidade, reconheço os benefícios da prática (às vezes, a única maneira de desenterrarmos um sorriso ao fim de mais um dia deste Dezembro que nunca mais acaba).
Quero, pois, partilhar o prazer que senti ontem com o ar fresco na cara, no meio daquele vendaval louco que passou por Lisboa. E a doçura do meu minúsculo, cativando-me às 8h com uma grande ranhoca a sair do nariz. E a alegria de ter conseguido fugir uns minutos para dançar com o maiúsculo na festa de Natal da escola. Mais o facto de ter ontem nascido uma menina linda da minha homónima. E ainda os chocolates e elogios da minha fantástica chefe. Ena, tanta coisa boa. Obrigada.

Já agora, feliz Natal! Se há sinal de esperança, é Aquele que nasce pequenino em cada ano e nos ajuda a crescer um pouco mais. Com todas as alegrias e tristezas que fazem parte do percurso.

Esforço-me tanto por criar estes títulos que podem dar azo a visitantes inexperados vindos de buscas no google e, até agora, ainda nem um maluquinho me bateu à porta. Humpf.

18 dezembro 2013

a sobreprojectização da nossa vida

Só há uma coisa mais cansativa que viver: é (tentar) cumprir projectos de vida. Nunca me hei de esquecer da aula de História em que a nossa fabulosa professora falava dos primeiros filósofos gregos, justificando a disponibilidade que tinham para se sentarem a pensar com a segurança material que aquela civilização tinha conquistado. Lembro-me disso sempre que me ponho a matutar em qualquer coisa em vez de ir mas é fazer o jantar ou pegar num livro. Não dura mais que uns segundos. Confesso-me uma primitiva incognoscente, mesmo que não tenha mais nada para fazer, evito pensar na vida e estruturar grandes planos para o futuro.
É que é só a mim que os grandes projectos parecem uma forma ingénua de enfrentar um amanhã que é bastante incerto? Até posso decidir que vou tirar aquele curso, investir naquela relação, dedicar-me a um desporto, e depois bate tudo ao lado. Se calhar, ainda bem. Tentar fixar um certo futuro é tão palerma como procurar agarrar o passado. E as frustrações e desilusões que daí advêm? Não é que não devamos acreditar que podem vir daí coisas muito boas, que não tentemos esforçar-nos por fazer o melhor possível naquilo em que nos envolvemos, mas se calhar mais valia estarmos um bocado sossegados e lidar com o que vai surgindo. Sem listas, sem esquemas, sem planos de contingência, sem nos transformarmos (e aos nossos filhos, como bem lembra a Calita) em amontoados de projectos e árvores de prioridades. Não sei, é uma ideia. Mas pode ser que seja mais preguiça do que outra coisa.

13 dezembro 2013

fluorose

Isto de usar marcas próprias em artigos fundamentais só podia dar mau resultado. Uma coisa é o esparguete e o atum, outra são os produtos que contribuem para a higiene oral dos nossos filhos. É que só pode ser devido à pasta de dentes que têm usado, com excesso de flúor ou outras substâncias estupefacientes, que se dá um processo estranhíssimo de metamorfose na hora de lavar os dentes. Num minuto, temos dois rapazes bem comportados a tomar o pequeno-almoço e a levar a louça para a cozinha; no minuto seguinte, transformam-se num par de diabos da Tasmânia que não param em frente ao lavatório, empoleiram-se e empurram-se do (único) banquinho, dançam de escova de dentes em riste, espalham baba e espuma pela roupa acabada de vestir, e dão cabo do yin-yang a uma mãe que ainda agora estava em tranquila meditação e logo tem, mais uma vez, de atirar a serenidade às urtigas para que ninguém chegue atrasado à escola.

12 dezembro 2013

o corpo ao manifesto II



Do lado de fora da minha janela está um homem a serrar umas tábuas e, neste momento, gostava mesmo de trocar de lugar com ele. Uma pessoa passa a juventude a estudar para ter “um emprego” e depois chega a esta altura da vida e, por muito gosto que tenha no que faz profissionalmente, há muitos dias em que anseia pelo repouso de um belo esforço puramente físico. Tantos anos de evolução, tanta ciência, tanta arte, mas aquilo que me apetecia agora era mesmo não ter de inventar novas fórmulas para descrever o que já foi descrito, debruçada sobre o teclado e respirando a brisa em segunda mão do ar condicionado. Já sei, já sei, que a chuva e o vento e os calos e as costas. Vá lá, por que é que acham que há tanta gente a fazer exercício físico em condições atmosféricas impróprias, trepando montanhas e descendo ondas? Não há nada que faça melhor à cabeça do que consagrá-la aos serviços mínimos enquanto o corpo dá no duro. Não é masoquismo nem revivalismo pré-industrial, é respeito próprio.

10 dezembro 2013

Uma família é uma árvore cujos ramos também são raízes. Não se pode quebrar o mais pequeno dos galhos sem que o tronco se verga dolorosamente. Cada folha é única, cada fruto perfeito e insubstituível.
Querida Cecília, nunca te conheci nem ouvi a tua voz mas rezei muito por ti e pela tua família. Hoje é um dia muito triste porque o teu espaço nunca poderá voltar a ser preenchido. Continuo a rezar pela tua mãe, pelo teu pai e pelas tuas irmãs. Não há consolo possível mas espero que a grande e corajosa árvore que são continue a crescer cheia de amor e ternura em tua homenagem. Não foste em vão, és a seiva que corre lentamente na vida de todos os que tocaste.

06 dezembro 2013

perdão

Neste dia em que nos despedimos de Nelson Mandela (e agradecemos por ter vivido numa época em que testemunhámos a sua passagem incontornável pelo mundo), detenho-me um bocadinho na importância do perdão. Guardar zangas, rancores e mágoas é acumular lixo dentro de nós. Parece óbvio e, no entanto, pode ser tão difícil fazer este tipo de limpezas. Perdoar a sério é um exercício cardiovascular e emocional. É nadar contra a corrente. Contraria o instinto básico de respeito próprio. Faz-nos temer pela nossa inviolabilidade futura. É mesmo tramado.
E então como conseguimos perdoar quando aquele que falhou fomos nós próprios? Como podemos aceitar que não somos perfeitos, que não conseguimos ir a todas, que fazemos porcaria e temos de continuar a viver com isso? Sem as costas vergadas. Sem nos sentirmos um bicho rafeiro. Mas, se virmos bem as coisas, não é diferente de perdoar outra pessoa. É fechar um capítulo e acreditar que o passado não esgota a nossa definição. Também somos, todos, feitos dos nossos gestos de hoje e das nossas expectativas para o que só em pequena parte controlamos do futuro. Se conseguíssemos, de facto, perdoar quem nos fez mal e perdoar-nos pelo mal que fazemos, de certeza que haveria muito mais espaço para deixar o bem acontecer.

04 dezembro 2013

monólogo em movimento

A D.S., inspirada pelo Mak, partilhou a sua experiência durante um treino de corrida, que eu não resisto a copiar. Não costumo propriamente conversar através dos meus ténis (nem sequer dirijo uma palavra às pernas, sou muito autoritária comigo mesma durante os treinos) mas digamos que 10 Km dão para pensar numa série de coisas.
Início: “É hoje, é hoje que bato o meu recorde de velocidade aos 10 Km. Vamos a isto, deixem passar, senhores varredores, que eu não estou para brincadeiras!”
1 Km: “O que é que hei de fazer amanhã para o jantar? O quê? Fiz esta miséria de tempo? Esta porcaria não está a apanhar bem o satélite, só pode. Está um fresquinho jeitoso, quando será que volto a sentir as mãos?”
2 Km: “O rio está tão bonito, hoje. Deve estar mesmo a nascer o sol. Olha um corvo marinho! Olá primo. Olha o senhor que corre de camisa de manga curta. Bom dia! Que engraçado, não há mais ninguém a correr nesta altura do ano, vá-se lá saber porquê…”
3 Km: “Hoje vou fazer batota e corto pelo Padrão dos Descobrimentos, quero lá saber. Não fazes batota, não, sua mariquinhas. Vamos a baixar essa média que o regresso vai ser a doer, com este vento. Não te esqueças de levar o livro do Gugas para devolver à biblioteca.”
4 Km: “Não tropeces nas raízes das árvores! Olha os buracos, olha o lancil do passeio, levanta as pernas, isto não é um sarau de patinagem artística. Oh, não, porcaria de música mais deprimente. Vê lá se actualizas as playlists no telemóvel.”
5 Km: “Oh, tão lindo, só eu e o Tejo (e os pescadores) a olhar para mim. Sim, eu sei, tenho um rabiosque muito jeitoso. Ahhhhh, VENTO. Está este vento todo contra??? Não consigo, não consigo, vou correr mais devagar. Não vais, não, sua lesma. Mexe-te e aguenta.”
6 Km: “Árvores, postes, caixotes do lixo: qualquer coisa que me abrigue deste vendaval demoníaco… Lá se vai o recorde, ainda não é hoje que baixo dos 50 minutos…”
7 Km: “Lá vêm os ciclistas todos contentes, todos cheios de gorros, luvas, casaquinhos e mochilas. Estão a gostar do passeio? E que tal experimentarem levantar o rabo desse selim? Não sejas má, gralha. Não te serviu a bicicleta quando estavas lesionada?”
8 Km: “Só faltam 2, só faltam 2. Olha a postura. Não franzas a testa, que ficas com rugas. Respira bem. Ganha energia para o último. Ultrapassa lá esse pintas que é para ele experimentar um pouco de humildade. Com licença, senhor pintas. Sim, é verdade, está a ser ultrapassado por uma mulher pequenina. Não, não estou a correr só 10 minutinhos, sou mesmo uma flecha. Ó minha grande vaidosa, vê lá se não te esqueces de ir comprar uma alface senão não há salada.”
9-10 Km: “Dá tudo! Dá tudo! Ai, dói-me a barriga, maldita adrenalina! Mais depressa, mais depressa! Paciência para o recorde, despacha-te porque ainda tens de ir apanhar uma máquina de roupa, fazer as camas, tirar a louça do pequeno-almoço, e hoje há outra vez greve e o trânsito deve estar uma desgraça. Só mais um bocadinho, só mais um bocadinho. Ahhhhh. Para a próxima é que é. Bacalhau com grão, amanhã faço bacalhau com grão.”

É verdade, é assim que alimento o meu ego. Imaginem quão insuportável ficaria se corresse mais do que duas vezes por semana.

03 dezembro 2013

venham a mim, livrinhos esvoaçantes

Ho! Ho! Ho! E eis que chega a tão ansiada altura em que faço de conta que recebo subsídio de Natal e me desgraço a passar um bom bocado da lista dos to read da minha área do Goodreads para as estantes do meu serpenteante corredor. A sensação deve ser parecida com a que experimentam as meninas que se atiram aos saldos da Zara, com a diferença que elas passam a andar vestidas de acordo com a moda e eu continuo a usar as mesmas calças desde mil nove e noventa e tal (mas com muito mais ideias, dúvidas e inquietações). Aguardo agora a chegada das encomendas como uma criança na manhã de 25 de Dezembro. Obedientemente terei que esperar uns dias, já que virão ainda pela antiquada via dos correios e não de drone nem de mocho, essas novas tendências da distribuição postal que prometem comprometer o espaço aéreo internacional e provocar a morte por colisão em vôo a muitas das minhas irmãs aves.

28 novembro 2013

dando graças

Hoje vai haver disto


acompanhado disto


e finalizado com isto


E eu tenho alguma pena porque esta refeição será mais um cumprir de itens na lista de afazeres do que um momento sereno em família, para reconhecer aquilo de bom que vimos recebendo. Sei que tenho muito por que estar agradecida, tenho uma vida abençoada e muitas vezes não consigo sentir, mais do que saber, isso. Hoje dou graças, então, por haver quem me ature.

Imagens daqui, dali e de acolá.

27 novembro 2013

scrooge

Ainda nem começou o Advento e já nos andam a impingir rifas, cabazes, campanhas, barretes, promoções, calendários, polivórios, hashtags e mais o diabo a quatro. Deixem o menino Jesus em paz, qualquer dia até ele nasce prematuro e, em vez de manjedoura e pastores, faz-se um Presépio com incubadora e enfermeiras de neonatologia.

25 novembro 2013

prazeres primordiais

Venham propostas indecentes, passeios de Maserati Grancabrio nas marginais de Monte Carlo, taça de Dom Perignon numa mão, tosta coberta de ovinhos de beluga na outra, a nona sinfonia de Beethoven a iluminar ainda mais uma tarde de sol reflectida no Mediterrâneo: desdenho-as. Nada se compara ao deleite de entrar na cama com o meu pijama de peluche depois de ter enchouriçado os meus filhos, com comida boa e roupa quente, e nem uma só tossidela interrompendo o sossego de uma noite de Domingo.

22 novembro 2013

tens toda a razão, é uma grande estupidez

Mamã, isso não dói?
Dói.
E queima?
Sim.
Então por que é que fazes?
Porque não gosto dos meus pelos.
Eu gosto dos meus.
Pois.

Seguidos de 20 minutos acerca de usos, cores, acessórios, desportos, profissões e direitos de homens e mulheres, do casamento homossexual, da ordenação de mulheres, da forma como o mundo muda mas ainda há muita coisa estranha a acontecer. Porque vão ouvir muitas coisas realmente estranhas na escola em relação ao que sempre ouviram em casa. E o remate casual de um rapaz que não compreende como é que tudo isso pode ser sequer questionado: “não percebo mesmo por que é que as mulheres não hão de poder conduzir na Arábia Saudita. Têm sempre de andar à boleia?”

21 novembro 2013

(ainda?) gosto destes blogues

Aquele menu ali ao lado já mudou muito desde que o criei, em 2006. Inclusive desde o ano passado, altura em que andei a fazer estatísticas em cima do joelho para perceber o é que as pessoas com quem me cruzo pelas redes sociais dizem sobre mim. Há agora mais desempregados, mais divorciados, mais emigrados. Também tenho a sensação que há gente mais nova, parece que certa geração acaba por desligar-se destes meios. Compreendo, tenho vontade de fazer o mesmo certas vezes. A Internet também tem mudado muito, nem sempre de acordo com aquilo que me agrada. Tenho pena que muitos dos que começaram a comercializar a sua presença online tenham mudado tanto. Não condeno quem promove produtos, ainda que nem sempre o façam explicitamente. Entendo que deixem de expor determinadas opiniões pessoais para obedecer a uma linha editorial que alcance maior consenso. Sei que há temas que fazem chover hits e há muitos bancos de imagens de onde pescar a representação dos nossos desejos através de filtros simpáticos. O que me custa mesmo mais é quando alguém desaparece ou, inversamente, passa a picar ponto a toda a hora nem que seja à custa de conteúdos regurgitados de outras fontes. Sei que ninguém assina contratos de fidelização nestes meios, ninguém nos promete nada, mas não deixo de pensar que aqueles que vão permanecendo fieis a si mesmos são os únicos que merecem um lugar na nossa vida, nem que seja nos 5 minutos da pausa para café.

20 novembro 2013

curso de vôo para bípedes

As terças-feiras são os meus dias de semi-folga de mãe biológica, aqueles em que é o pai a tratar dos nossos rapazes e do jantar. São dias que começam mais cedo, para ir correr, e acabam mais tarde, muitas vezes com a barriga infeliz fruto da refeição menos bem conseguida (desculpa lá, marido, mas a cozinha não se conta entre um dos teus muitos dons) e o coração cheio de saudades dos meus pequeninos, que vejo de raspão, ao deitar. Estes dias terminam com uma sala cheia de pré-adolescentes barulhentos e animados, que demoram a deixar de lado telemóveis, queixas de excesso de trabalhos de casa e conversas de amigos, para darem espaço a algum sossego e pensarem sobre a vida e a nossa condição de filhos muito amados.
Já dou catequese há perto de 14 anos e continua a valer a pena. É muito cansativo e é muito compensador. Lido com todo o tipo de meninos, desde aos mais tímidos aos mais expansivos, dos mais humildes aos maiores fanfarrões, meninas de pulseiras até ao cotovelo e meninos com um nariz por assoar há demasiado tempo. E reconheço todos os anos como é encantador conviver com gente destas idades, já muito consciente do que se passa e ainda sem boa parte da tonteria da adolescência. Adoro as perguntas que fazem e fico incrivelmente tocada quando sinto que percebem que aquilo de que estamos a falar tem directamente a ver com a vida deles. Senão não valia a pena aquela hora semanal, subtraída ao estudo e ao tempo em família. Vê-los a crescer e a assumir a sua identidade, sem medo de ter dúvidas, sem pretensão de certezas, com auto-estima e respeito pelos outros – essa é a maior recompensa. E é incrível como, todos os anos, sinto que são um bocadinho meus e custa vê-los levantar vôo. Só que é precisamente para isso que estamos juntos, numa espécie de rampa de lançamento para a vida sem pára-quedas mas com um GPS muito especial.

19 novembro 2013

um caso crónico de mãezite aguda

Fizemos tudo de acordo com os manuais. Partilhámos tarefas e colos, abolimos estigmas de género, incluímos avós, tios, amigos, animais de estimação. E tentamos, pai e mãe, estar presentes nos bons e nos maus momentos. Mas a verdade é que os nossos filhos só querem a mãe, deixando o pobre pai sempre no banco dos suplentes. Pobre, uma ova, que só eu sei o que é não conseguir ir à casa de banho sem companhia, ser chamada para todos os grandes e pequenos serviços, ser a fonte de todas as consolações e, sobretudo, ter de ouvir milhares de vezes ao dia um mamãããã balido a duas vozes. Esta mamã adora os seus ricos filhinhos mas gostava de saber quando é que vai conseguir passar uns momentos de sossego sem ser o centro do filhuniverso. Alguém sabe como se cura esta maleita? E, não, não é com uma temporada longe deles - basta ir levar o lixo sem avisar e há logo lágrimas e efeito vácuo no regresso. Ainda me vão deixando vir trabalhar mas temo que, qualquer dia, tenha de arranjar duas cadeiras em miniatura para ficarem a fazer-me perguntas e a dizerem que querem beber sumo de mamã [sic] enquanto faço revisão de textos.

Agora é aquela parte em que me caem em cima, que sou uma ingrata e vou ter saudades quando tiverem buço e estiverem no auge da parvoeira.Vocês sabem lá.


[Imagem copiada de um tumblr fenomenal sugerido pela encantadora Carla R., sempre ao serviço das mães capotadas]

18 novembro 2013

garantias de novembro

Dormir de pantafones. Perder a vontade de saltar da cama às 6h. Resignar-me e secar o cabelo. Coleccionar receitas de tartes e bolos. Sonhar com casas novas. Passear pelos sites de lojas de decoração. Lutar contra o monstro das tosses infantis. Desejar viagens prolongadas. Contar os dias até ao solstício. Ler com as mãos escondidas nas mangas. Lembrar-me dos amigos com quem já não estou há demasiado tempo. Correr muito mais depressa para combater o frio. Desejar que as folhas das árvores caiam logo de uma vez para dar lugar aos rebentos de Fevereiro. Vivendo sempre por antecipação mas mais ainda nesta altura.

15 novembro 2013

um minuto de optimismo


O que vale é que hoje à noite vamos ganhar o Euromilhões e, quando vier trabalhar na segunda-feira, faço aviõezinhos de papel com as folhas Excel que tenho andado a debitar às dúzias. E pago as dívidas de todos os meus amigos com a corda na garganta. E compro um burro. E uma casa. Com lareira. Mas daquelas a sério, que fazer o amor à luz da chama do YouTube, parecendo que não, é menos animador do que o crepitar ao vivo de um bom bocado de azinho.

14 novembro 2013

dudu gaga

Uma amiga (olá Leonor!) trouxe para a arena do Facebook este texto do Dr. Eduardo Sá, agitando as águas desse mar imprevisível que é uma família em crescimento. Ninguém pode vir aqui culpar as minhas hormonas do facto de achar esta crónica, como muitas outras do mesmo autor, uma camada de disparates. Deixando de lado o estilo inónico-patetinha e o tom monocórdico que transborda até para os caracteres escritos, a verdade é que este senhor parte de uma premissa aparentemente universal de que o nascimento de um irmão é uma afronta para os principezinhos que regiam a dinâmica do pequeno reino familiar. É claro que há muitos casos em que o processo de adaptação a um irmão pode ser complicado, mas daí a achar que essa é a regra, ou sequer o comportamento expectável, vai uma grande distância.
Pérolas como “ [a afirmação] «eles gostam muito um do outro» – tão do agrado dos pais – é slogan. (…) Como é possível não ter um ódiozinho de estimação por quem, só porque reclama o nosso brinquedo favorito com o volume no máximo, merece do pai e da mãe um meloso «deixa lá!...»? (…) uma criança não é obrigada a saber que um bebé vem equipado com tantas restrições que, em vez dele ser um presente, o transformam num encargo para toda a vida” fazem-me ter alguma vontade de dar um tautau ao Dudu. O Dudu sabe que há crianças que amam tanto os irmãos que ficam com os olhos a brilhar de orgulho quando já conseguem gatinhar? Imagina que há rapazinhos de 6 anos que tiram espontaneamente a própria roupa para agasalhar um irmão que está doente? Acredita que é mesmo possível que a filharada não se imagine a crescer uns sem os outros, com as cumplicidades, partilhas e barafundas normais que daí decorrem? O cúmulo da loucura: é mesmo verdade que alguns pais e mães conseguem desempenhar o perigosíssimo exercício de equilibrismo de integrar um novo ser e nunca deixar que o que já existia se sinta menos no topo das prioridades e dos afectos. É uma espécie de magia, Dudu, chama-se amor incondicional e boas doses de bom senso. Lamento imenso se os seus manos lhe tiraram o seu brinquedo favorito e nunca conseguiu ultrapassar o trauma.

realidade ma non troppo

Digam-me que vim mal vestida, quando vim mal vestida. Confirmem-me o mau estado do penteado, ainda que com meiguice. Informem-me do par de chifres na testa, se algum dia elas despontarem. Reconheçam que a minha mousse deslaçou. Apresentem-me os resultados dos exames médicos, a carta de despedimento, a crítica mais dolorosa. Mas não me obriguem a ir ver à conta quanto é que já deixámos no mecânico este mês.

13 novembro 2013

lodo

Sabemos que estamos a entrar em queda livre quando o círculo vicioso do cansaço, da desmotivação e do desânimo, apatia e culpa, não dá mostras de ter saída. Tapamos os ouvidos às grandes tragédias do mundo e tentamos não nos perder nos nossos pequenos males, irrisórios e desprezíveis à luz da razão. Alarga-se mais a espiral da culpa, desânimo, apatia. E não há sentido que desperte com a ideia do café acabado de fazer. Não há perspectiva de horizontes por estrear. Não há sequer o consolo murcho do sarcasmo – maldita a hora em que percebemos que não passa de um jogo de espelhos – ou da falsa sensação de superioridade sobre outras vidas aparentemente absurdas e minúsculas. Ouvimos o eco das nossas orações e questionamos a Fé sob novas perspectivas. Os valores relativizam-se. Os pequenos prazeres diluem-se. A televisão de lixo já não hipnotiza e as montras electrónicas de vaidades não causam reacção. Diz que as drogas não compensam. No meio disto tudo, pouco mais há a fazer do que esperar que passe. Vai passando. Enquanto não passa, rastejamos como vermes viscosos e cinzentos, presos por correias de que não nos conseguimos libertar. Isto de viver todos os dias ao sabor da nossa própria flutuação de humores é o mais indissolúvel e involuntário dos compromissos. É uma partida da natureza que arrastamos fastidiosamente como um membro inerte. Nós, cada um com o seu peso morto. Reparamos nisso quando escrevemos no plural e há uma sugestão de alívio na condição colectiva de nadadores em areia movediça.

08 novembro 2013

o saldo é muito positivo

Estava para aqui a ruminar neste post da Ana C. e a pensar que tem muita razão, pois tem, a vida virtual ocupa demasiadas vezes demasiado espaço na vida real. Distrai-nos e aliena-nos mais do que gostaríamos de admitir. Mas também é facto que, se não fossem as redes sociais, nunca teria conhecido (virtual e realmente) muitas pessoas que têm marcado a minha vida, que são uma referência. Ter-me-ia sentido ainda mais sozinha quando estava nos EUA. Não saberia de tantas pessoas maravilhosas, inspiradoras, verdadeiras, corajosas, que não se cruzam comigo no trajecto casa-escolas-trabalho e, por isso, nunca teriam feito parte do que sou hoje. Na verdade, não sei quem seria hoje se estas pessoas não me tivessem dado tantos puxões de orelhas, tantos empurrões, tantos abraços virtuais - porque a realidade é que, na correria das semanas de trabalho, é muito bom poder esticar o nosso tempo e o nosso espaço, ligando-nos online a gente com quem tecemos teias de empatia sobre uma trama de partilhas corriqueiras (e não só).

Agora era a altura em que eu fazia o discurso do I would like to thank fulano e sicrano, mas isto não é a cerimónia dos Óscares. Acho que vocês, que fazem a diferença nos meus dias, sabem quem são: obrigada.

07 novembro 2013

lista de métodos que não resultam

Nesta labuta diária de educar rapazes, há os gestos que fazemos de cor e há todos os outros que vamos ensaiando, falhando e procurando alternativas. A recém-mãe insone desespera porque, quando o bebé já aprendeu a não arrancar a própria chucha, descobre que consegue rebolar da cama até ao chão. A mãe de crianças pequenas, por seu turno, já conhece de gingeira esta capacidade que os adoráveis seres têm de crescer num piscar de olhos e baralhar as poucas certezas adquiridas. Basta que achemos que já dominámos a fera da birra, o papão dos pesadelos, a manha da sopa, e logo vem outra crise que nos faz regressar à humilde posição de eterna aprendiz. E então voltamos a experimentar.
Só que a imaginação pedagógica tem limites. Quando um filho faz fita por tudo e por nada (com ênfase no nada), vamos ao armário e, consoante os dias, sacamos dos adereços de várias personagens: a cara serena, de quem aguarda que aquilo passe por si; a cara zangada, de quem se sente abusada por um pequeno tirano; a cara assertiva, porém compreensiva, de quem sabe que todos temos dias difíceis; a cara de palhaço, de quem já está por tudo, desde que ele se distraia; a cara de vítima, de quem anseia por empatia e compreensão; a cara de desespero, de quem já não sabe para onde se virar e está a contar os minutos para o deitar. Hoje fui desencantar a cara de ternura e paciência infinitas, com uns retoques epicuristas. Parámos no meio do jardim, assoei-lhe o nariz e dei-lhe um abraço prolongado. Convidei-o a olhar para cima, a descobrirmos juntos o céu por entre as folhas amarelas das árvores. Foi um momento muito bonito. E suspendeu as lágrimas até chegarmos à escola e surgir outro pequeno drama.

06 novembro 2013

há um mês foi assim


Ainda estou a sorrir.

05 novembro 2013

o embuste do começardenovismo


Permitam-me o desabafo: estou farta daquela conversa do life coaching, do positivismo, do abraçar novos projectos a cada esquina. Gente, às vezes um obstáculo na vida é isso mesmo, um obstáculo, e não um incentivo a encontrar caminhos alternativos; um espinho não é uma coceguinha boa na criatividade, é uma coisa que pica e dói. Uma dificuldade não é um desafio à imaginação, é algo com que temos de lidar de peito aberto. Chega de nos tentarem vender que a saída é sempre em fuga para a frente. Basta de sugerirem que faz sentido abraçar empreitadas de fresco a cada segunda-feira. E que tal experimentarem um bocadinho de perseverança? Que tal ousarem a paciência para o chefe chato, para o marido de há anos, para o cão velho que já não sobe sozinho para o sofá? Toda a gente gosta de novidades mas hay que tenerlos para insistir num sonho antigo, para terminar uma tese, para ler aquele livro até ao fim, para continuar a andar mesmo nos dias em que aquilo tudo já não faz sentido nenhum. Isso é que era coisa de gente crescida: deixarem-se de mantras em letterings fofinhos e darem no duro na vida real, de todos os dias.

E, por amor de Deus, parem de viver para as dietas os planos alimentares. Mais vale assumir que se gosta de comer e mergulhar o garfo numa boa feijoada.

04 novembro 2013

andamos a criar um capitalista

O meu filho mais velho nunca ligou bóia ao dinheiro. Tem um mealheiro para onde atira os trocos que lhe dão, e que serve para chocalhar e dançar La Cucaracha, ponto final. Vivi assim três anos na doce inocência, achando que isso do materialismo e da fuçanguice eram aquisições sociais, coisas que os miúdos aprendem dos progenitores com esse tipo de… gosto.
Ora uma pessoa está sempre a ser recordada que os miúdos são mesmo todos diferentes e já vêm com um chip que lhes programa o feitio, manias e inclinações. Tenho pois de reconhecer que o meu filho mais novo gosta mesmo de coisas. E de dinheiro. Está sempre a dizer que gostava de ter isto ou aquilo. Nós dizemos que não podemos comprar tudo o que pede, passamos a bola ao Pai Natal e sugerimos que ele arranje modos de ganhar o seu próprio estipêndio. Ele passou a receber uma moeda pela dura tarefa de me dar as molas da roupa (que demora muito mais a estender), começou a vender desenhos ao tio, e a cantar por encomenda, qual papagaio amestrado. Até o irmão se compadeceu deste espírito acumulador de pilim e prometeu partilhar com ele o conteúdo do mealheiro.
Tudo muito bonito até ao momento em que, adquirida a muito desejada flauta, esta não chegou a durar um dia antes de sucumbir perante a fervorosa paixão musical e desfazer-se em pequenas peças. Mais uma lição sobre a economia capitalista, meu filho: comprar barato e made in China não costuma compensar a longo prazo. O problema é que quem teve de ouvir uma miniatura a choramingar “quero mais dinheeeeeirooo” todo o caminho até à escola foi esta alma desprendida, que só tinha vontade de lhe atirar moedas para ver se ele se calava, destruindo toda a esforçada pedagogia do valor do trabalho e do saber dar o devido valor às coisas. Nada que não venha a acontecer de qualquer forma, assim que os avós se apiedarem do pequeno pedinte pestanudo.

01 novembro 2013

hoje fui assim #1 (e #último)



Estou tão contente com as minhas botas novas.

31 outubro 2013

haverá choro e ranger de dentes

Das poucas coisas que trouxemos na mala de cartão (de regresso), veio um dólar amarfanhado, para nos lembrar da riqueza acumulada, e a tradição do Halloween. Infelizmente, como disse no ano passado, não há meio desta festa ganhar adeptos na nossa zona, pelo que temos de fazê-la dentro dos doze metros quadrados da nossa sala. Paciência, o que conta é a intenção. E a intenção é essencialmente aproveitar este dia para dar largas ao dramatismo e ao feitio de bruxa que tem de ser ocultado no resto do ano. Hoje, não. Hoje não tenho de fazer de conta que sou uma mãe boazinha que nunca se enerva mesmo quando eles espalham pegadas de plasticina pelo corredor. Hoje posso ser má e falar com um tom de voz cavernoso. Hoje é aceitável chegar ao fim da tarde com o rímel esborratado e com o cabelo desgrenhado (o que só vem provar que as bruxas sempre foram mulheres bastante sensatas no que toca às prioridades de vida, dedicando-se mais ao estudo do que ao aprumo do visual).
Meus meninos, a ementa está preparada: sopa de ratazanas em sangue, pizza de aranhas e, à sobremesa, fantasmas de banana com gelado. Falta pendurar as teias de aranha, acender as velas e pôr a banda sonora do Les Revenants a tocar. Só faltam quatro horas para o pôr do sol, muahahah!

Depois, se eles não conseguirem dormir, o papá que vá aconchegar-lhes os cobertores.

29 outubro 2013

também na senda da boa vizinhança

Finalmente o Estado resolveu chamar a si a responsabilidade de gerir a vida doméstica dos cidadãos. Em boa hora se abandona o laxismo democrático e se endireita à força as vidas deste povo libertino e porcalhão. Já chega de famílias com mais de dois cães, quatro gatos, cinco filhos, dez bonsais, vinte moscas da fruta e cem pontos de QI per capita. Se me é permitida a proposta de alargamento deste oportuno decreto, sugiro:

Que seja proibido andar de sapatos pela casa;
Que se ouça música entre as 20h e as 19h, sobretudo se não for da que eu gosto;
Que se fume à janela;
Que se copule acima dos 20 decibéis de contentamento;
Que se tenha filhos que choram (independentemente do número);
Que se abra/feche estores entre as 6h e as 18h;
Que se veja telenovelas com o som tão alto que faça tremer candeeiros;
Que se abra a porta aos distribuidores de publicidade;
Que se ande a cuscar na janela da cozinha quando eu passo por lá em roupa interior;
Que se ria às gargalhadas quando eu não estou de bom humor.

28 outubro 2013

mata pequena






Juntam-se dezassete amigos e respectivos filhos, ocupam uma fileira de casinhas lindas e prolongam dias de sol e brincadeira ao ar livre com noites demasiado animadas para o avançado da idade. Misturam isso tudo com pão quente, queijo, vinho, castanhas, chouriço, sopa passada, brinquedos espalhados por todo o lado e gatos atrevidos que entram sabe-se lá por onde. Ganham em gargalhadas o que perdem em horas de sono. E conhecem outras dimensões da amizade e de si próprios enquanto pais. Não sei se é preciso uma aldeia para criar uma criança mas ficou provado que, numa aldeia, até a criança mais mal-criada tem sempre um terreiro onde gastar energia e um rancho de tios, primos e galinhas que lhe ganham aos pontos no campeonato da barulheira e do disparate.

25 outubro 2013

isto é tão bom, tenho de partilhar

Ó p'ra mim a publicar imagens de comida. Mas a verdade é que gostamos tanto disto lá por casa que era injusto que o resto do mundo não pudesse prová-lo. É o meu tabouleh com nozes e rabanetes. Ide já comprar os ingredientes, afiai o cutelo, e tende um bom fim-de-semana.


A foto está amarela porque eu tenho muito jeito com isto dos filtros mas garanto que não leva caril nem açafrão, leva:

500 gr. couscous
2 limões
2 laranjas
Azeite
1 cebola
1 pepino
2/3 tomates
1 molho grande de coentros
Sal e pimenta q.b.
Rabanetes e nozes para guarnecer

Mãos à obra: Ralar a casca dos limões, espremê-los e às laranjas. Adicionar a mesma quantidade de azeite, acrescentar pimenta e mexer. Deitar o couscous seco num pirex, verter aquela sumenga lá para cima e envolver bem com um garfo. Depois vem a trabalheira de cortar bem fininhos a cebola, o pepino e os coentros. Juntar ao couscous e envolver. A seguir, ir fazer o jantar porque este prato tem de ficar a cozer de uma noite para a outra, pelo que devem guardá-lo no frio, coberto de película aderente. No dia seguinte falta só cortar e adicionar o tomate, temperando com sal e rectificando a quantidade de azeite. Depois, acrescentar os rabanetes e as nozes, e abrir uma garrafita de Monte das Servas branco 2009, que vai muito bem com aquela sinfonia cítrica. E ajuda a não reparar nos bocados de couscous que vão sendo deixados cair à volta da mesa pelos comensais mais incompetentes. Bom apetite!

Vṛkṣāsana

Pé ante pé, sinto a aproximar-se pelo corredor escuro nem um metro de gente, acordado bem antes da hora. Enquanto faço de conta que não reparo, mantendo irrepreensivelmente o equilíbrio do meu Asana, ele senta-se no sofá, embrulha-se no meu roupão e observa-me. “Parece um triângulo”. Desfaço o pose, dou-lhe um beijinho, estico os braços e elevo uma perna. É cedo e estamos ambos bem despertos. Reparo mais uma vez como é tão parecido comigo e perdoo-lhe a subtracção daqueles momentos que gosto de reservar para mim. Hoje não leio ao pequeno-almoço: conversamos em surdina. “Não foi minha por causa que acordei, mamã, foi por causa do senhor vizinho”. Bem sei, é um dos encantos de se viver num prédio quase centenário. Vamos fazer chá, torradas com mel e canela, e esperamos que o resto da casa acorde.

Reparem no esforço para encontrar coisas boas desta altura do ano, reparem! Pronto, não me queixo mais.

24 outubro 2013

se desejares uma coisa com muita força, ela acontece

Há quem sonhe com um corpo escultural. Quem idealize sonos retemperadores de apenas duas horas diárias. Aqueles que desejam um sorriso imaculado e os que só pedem que o tempo não multiplique os efeitos da força da gravidade. Eu gostava muito de gostar de chuva. Mas não há meio, senhores, não há meio.

23 outubro 2013

coisas que não sei explicar

Este post da S. voltou a escavar no abismo que há em mim e provavelmente em muitas mulheres, que separa aquilo que tentamos ser racionalmente e o que fazemos movidas sabe-se lá por que motivos emocionais/biológicos/societais (seleccione a opção desejada). Afinal de onde vem a decisão de ter filhos, pelo menos para aquelas que o decidem conscientemente? Para as outras pessoas, não sei. E respeito em absoluto as razões de cada um. Para mim é claro como água: é para poder gostar deles, ponto final. Objectivo mais egoísta era difícil.
O que é mesmo estranho é que eu já desconfiava que ia gostar assim deles antes de os ter. Como é que eu sabia isto? Como é que, desde pequenina, tenho cá dentro um novelo anafado de amor infinito para desembrulhar? Não sei, mas tenho. Da mesma maneira que ao ter o segundo filho sabia que não o amaria menos do que o primeiro. Ou terceiro, quarto, quinto, quantos viessem. Da mesma forma que me sinto profundamente amada desde tenra idade, antes de o verbalizar ou de compreender o que é isto de ser filha nas suas várias implicações. Será que há pessoas que nascem com tão grande superavit de afecto que não concebem guardá-lo todo cá dentro? E por que é que esse amor há de ser direccionado para aqueles que geramos ou adoptamos como nossos? Amores há muitos mas este é mesmo diferente. A verdade é que faz sentido que quem não tem filhos não possa adivinhar na sua totalidade, com o mero uso da razão, a dimensão incomparável deste amor.
Não sei se há mais quem tenha esta minha espécie de convicção tão segura como irracional. Se tiver, a intuição dessa promessa de amor é mais forte do que fome e sede. É urgente. E então passa por cima dos obstáculos previsíveis e imprevisíveis, do bom senso, dos medos, e faz do ventre coração para, de um amor, criar uma vida única e um bocadinho nossa. Pelo menos de empréstimo.

22 outubro 2013

nos bastidores da academia

Não sei por que é que a Shonda Rhimes e seus sucedâneos insistem na fórmula dos hospitais e escritórios de advogados para tecer as suas teias de intriga. Caramba, há um número limitado de maneiras como um médico se pode meter com uma enfermeira, que anda a papar o fisioterapeuta casado com a advogada que ganha os casos na antecâmara do juíz, que é irmão do médico (mas eles não sabem disso, chiuuu). Guionistas do algodão doce e do kleenex de lavanda: vocês não sabem o que andam a perder no mundo das universidades.
É um privilégio trabalhar numa universidade. Não só contactamos diariamente com pessoas inteligentes, interessantes, empenhadas e com espírito crítico como temos oportunidade de aprender imenso, de aceder a conteúdos reservados, de assistir em directo à produção de ciência. Por outro lado, também temos de lidar com as maiores prima donnas. Com profissionais do turismo académico. Com seres que são a definição de inépcia social. Com oportunistas maquiavélicos. Com assistentes subservientes. E com uma grande endogamia profissional que resulta em casamentos, descasamentos, casos e suspeitas ao maior estilo telefilmesco. Pelo meio, tenta-se fazer investigação e levar conhecimento à sociedade. Diz que também andam para lá umas criaturas semi-imberbes a fazer, como é que se chama mesmo?, uma licenciatura. Mas desde que sossegaram lá com aquilo das capas e das pandeiretas, uma pessoa até pode quase ignorar a sua presença.

21 outubro 2013

5/37 castanho sensual

Pintei o cabelo num tom tão escuro que se me apagou a luz da alma. Foram-se as recordações do Verão nas pontas naturalmente californianas e fez-se noite ártica na minha melena e no meu estado de espírito. Como se não bastasse o chove-não-chove, os filmes de cocó que tenho visto e até o mais recente do Mia Couto, que não anda a cumprir. Como é que uma pessoa aguenta agora estes meses em que tem no desumidificador o seu melhor amigo? É que nem me apetece comer. Só me apetece dormir. A sério, por que é que há quem troque a energia das madrugadas luminosas pelo consolo chocho de mantas e tisanas? O que vale é que já só faltam dois meses para os dias voltarem a crescer.

17 outubro 2013

os meus filhos são sobredotados

Um passa o dia inteiro a assobiar o Rolling in the Deep, da Adele, que é uma perfeição. Será que aqueles programas de televisão de prodígios aceitam esta categoria artística? Não é tanto pelas luzes da ribalta, é mais para dar um bocadinho de sossego aos ouvidos do resto da família.
O outro lembrou-se de imitar a Ana Moura, mesmo com jeitinho de fadista. Lá ar gingão nunca lhe faltou. Isto devia dar para rentabilizar de alguma forma mas não estou a lembrar-me de nenhuma, assim de repente.

16 outubro 2013

o silêncio dos inocentes

Há crianças muito mazinhas. E adolescentes ainda piores. Ou então há simplesmente miúdos que andam um bocado desorientados enquanto crescem e descobrem quem são, o que às vezes tem consequências complicadas. Acho que não andava desorientada e ainda assim, quando era miúda, tive a minha quota parte de responsabilidade nesse departamento. Sim, eu fui uma pequena terrorista psicológica para alguns colegas de escola e até, por vezes, para o meu irmão. Não me orgulho nada disso. Também fui alvo de provocações e empurrões de algumas miúdas mais velhas. Não foi por falta de afecto parental que andei a azucrinar aquelas almas e também não foi por negligência ou insegurança que me deixei cair no papel de vítima. Nada foi excessivo, felizmente.
É só quando somos pais que estórias como esta nos deixam realmente mal-dispostos. Quantas vítimas há aqui? A menina que foi perseguida, certamente. E a melhor amiga, que passou para o outro lado da barricada para não ser, ela própria, alvo? E a perseguidora, que não teve melhor orientação de pais e professores para compreender que o que estava a fazer podia ter consequências graves – não só para a outra mas para ela, que carregará esta culpa o resto da vida? E os pais, que criam estas doces meninas, que tão depressa coleccionam autocolantes como passam a viver quase 24/7 na base dos smartphones e das redes sociais? Como é que podemos evitar que os nossos filhos sejam vítimas ou carrascos? É uma responsabilidade do caraças e, no entanto, há tanta coisa que escapa ao nosso controlo.

15 outubro 2013

o não consumidor pagador

Agora que já toda a gente saiu de fininho da marcha de protestos contra os cortes nas pensões de sobrevivência (porque só se aplicam aos ricos que ganham mais de 2 mil euros e bem que podem deixar de ir ao Pap’Açorda sempre que lhes apetece, aqueles grandes manganões!), gostava de saber quem posso conquistar para as minhas hostes sob o estandarte do “taxa de audiovisual? Mas se já vai para 7 anos que nem sei quem é o pivô do telejornal”.
É que se nos sentimos revoltados por nos irem ao bolso, ao fruto do nosso trabalho, àquilo que merecemos ao fim de uma vida de contribuições, como não havemos de sentir-nos se nos fazem pagar por algo que não consumimos? Eu gosto muito de lavagante de Sesimbra, daquele com uma maionese venenosa e pãozinho torrado, mas ninguém me faz pagar por ele sempre que me limito a passar por aquela bela localidade. Também me agrada apanhar o pôr-do-sol na esplanada do Hotel do Bairro Alto; contudo, a única coisa listada na conta costuma ser o mojito e não uma taxa sobre a captação de raios UV. Se o objectivo é financiar meios audiovisuais para o público, que tal o público ter uma palavra a dizer sobre o que quer audiovisualizar? Tratem-no com um grupo heterogéneo de seres dotados de inteligência e não como uma massa de totós, aí contem com a minha audiência. Caso contrário, não só não pago como exijo de volta o que já levaram, que já chegava para o almoço em Sesimbra coroado pelo fim de tarde no Chiado.

14 outubro 2013

entre conventos, sinagogas e seminários

Comi tanto, tanto, tanto. Mas por que é que a norte das linhas de Torres as doses são obrigatoriamente imensas? E bebi tão bem, coisas tão boas e a fazer caminha para as doses imensas. Trepei muralhas, descobri passagens secretas, acordei com o grasnar dos patos e não dormi grande coisa com a tosse dos filhos, mas vamos deixar de lado essa nota menos romântica deste fim-de-semana de pronto-outono-anda-lá. O melhor disto tudo é que, na realidade, nenhum destes verbos se conjugou na primeira pessoa mas a três gerações, família de sempre e família que cresce. Temos tanta, tanta sorte.

10 outubro 2013

à volta da mesa

A Pólo Norte dividiu o mundo (desta vez) entre os que comem à mesa da sala e os que o fazem na cozinha. Confesso-me estupefacta com a maioria que revela fazê-lo na cozinha já que sempre o fiz na sala. Acho que isso tem a ver com o facto de não associar a cozinha a um espaço onde gosto de estar mas apenas a uma divisão utilitária que, num mundo perfeito, eu só visitaria para ir pilhar chocolates a meio da noite. Se é importante começar bem o dia, um final de dia perfeito é à volta da mesa da sala, com a minha família. Não importa muito o que comemos mas antes que possamos estar finalmente a quatro, a conversar. E a apanhar a comida que um deles atirou ao chão, a mandá-los comer com a boca fechada, a negociar mais um bocado de carne em troco das últimas fatias de pepino, a desabafar irritações laborais e a ouvir música. E a dançar um bocadinho, quando o ritmo pede e enquanto o pai vai buscar a fruta. Estar à mesa, para nós, é estar em família. Deus me livre de fazê-lo rodeada de electrodomésticos, roupa estendida e a permanente recordação de que a seguir vem a louça para lavar. Mesmo que tivesse uma daquelas cozinhas de capa de revista, nada bate a declaração de guerra às lides domésticas que é ocupar a sala para nos juntarmos a comer. Ainda que seja efectivamente o único uso que damos à sala.