Pela primeira vez em trinta e quatro anos de vida estou sozinha na minha casa.
(o parágrafo extra foi para vos ajudar a interiorizar devidamente o peso da frase antecedente)
Tenho quatro dias para descobrir o que são as saudades deles os três. E também para fazer uniquixclusivamente o que me apetecer. Dormir de barriga para o ar. Ouvir Samuel Úria enquanto danço em cuecas peo corredor. Ir ao cinema. Ir outra vez ao cinema. Ler no jardim (mais do que uma página sem que alguém me puxe para jogar à bola). Comer pequeno-almoço a todas as refeições. Experimentar as receitas mais escandalosamente calóricas do Pinterest. Pensar na vida. Ah, e já agora trabalhar - enquanto eles continuam a Sul.
18 agosto 2013
quatro semanas de praia
Parar. Absorver luz do sol para o resto do ano. Deliciarmo-nos com as conquistas e (tentar) lidar com as derrotas. Deixar crescer demais o cabelo e fazer esticar os chinelos onde já não cabem os pés. Barriga cheia de peixe, de coisas boas e de outras menos boas, mas nada se compara ao privilégio de podermos gozar este tempo juntos.
17 julho 2013
sumariamente
Não escrevo porque não se passa nada de relevante e estou cansada dos dias e noites a puxar a carroça sozinha até às merecidas férias. Ou então é porque o que se passa é tão importante que tenho de deter-me a contemplá-lo, guardar tudo preciosamente, com pudor, evitando diminuí-lo nestes caracteres insuficientes. É uma coisa e a outra, nem mais nem menos.
Se fosse há uns anos atrás dizia que o blogue acabava aqui. Mas deve ser só mais uma daquelas fases.
Se fosse há uns anos atrás dizia que o blogue acabava aqui. Mas deve ser só mais uma daquelas fases.
11 julho 2013
por exemplo
Filho 1: Mãe, mãe! O mano destruiu o meu castelo de Lego.
Filho 2: O mano é mau, não me deixa ser eu o rei do castelo. Buááá.
Mãe em silêncio.
Filho 1: Mãe, mãe! O mano puxou-me o cabelo!
Filho 2: O mano é mau, não quer brincar comigo.
Mãe em silêncio.
Filho 1: Mãe, mãe! O mano está a puxar-me a camisa e já me arrancou três botões. Mas eu vou brincar com ele que é para ele não ficar triste.
Filho 2: Só se me deixares ser eu o rei do castelo!
Mãe: Meus queridos filhos, se eu não tivesse o lombo a assar no forno, cinco camisas para passar e o arroz que se me está a colar ao tacho, punha-vos em ordem. Sendo assim, sejam amigos e depois do jantar eu logo vos ponho de castigo e decido se afinal vos entrego ou não para adopção.
Adenda: Visto que o meu sarcasmo pode ser demasiado subtil, aqui vai o aviso que este post NÃO versa sobre os meus filhos. Era só o que me faltava, criar pirralhos desta espécie e, em vez de mãe, ser anémona.
Filho 2: O mano é mau, não me deixa ser eu o rei do castelo. Buááá.
Mãe em silêncio.
Filho 1: Mãe, mãe! O mano puxou-me o cabelo!
Filho 2: O mano é mau, não quer brincar comigo.
Mãe em silêncio.
Filho 1: Mãe, mãe! O mano está a puxar-me a camisa e já me arrancou três botões. Mas eu vou brincar com ele que é para ele não ficar triste.
Filho 2: Só se me deixares ser eu o rei do castelo!
Mãe: Meus queridos filhos, se eu não tivesse o lombo a assar no forno, cinco camisas para passar e o arroz que se me está a colar ao tacho, punha-vos em ordem. Sendo assim, sejam amigos e depois do jantar eu logo vos ponho de castigo e decido se afinal vos entrego ou não para adopção.
Adenda: Visto que o meu sarcasmo pode ser demasiado subtil, aqui vai o aviso que este post NÃO versa sobre os meus filhos. Era só o que me faltava, criar pirralhos desta espécie e, em vez de mãe, ser anémona.
04 julho 2013
ra-ta-tarararara-ta-tara
Nesta semana, gostei muito mais da segunda e da terça-feira do que da quarta e da quinta. O que me faz temer um pouco a chegada da sexta. De início, desabaram alegremente castelos de cartas e fizeram-se piadas a um ritmo não visto desde a última grande tragédia mundial, que sempre estimula o sentido de humor lusitano. Agora até a palhaçada já está a perder a graça. A sério? A sério que me vão conseguir obrigar a premir as teclas para falar de política em Julho? Será que podemos mandar vir charters do Brasil para trazer alguma massa crítica que desequilibre esta balança que teima em fingir-se equilibrada? Parece-me que isto já é demais.
01 julho 2013
contagem decrescente para as férias
O Diogo não anda, flutua de orgulho por ter mudado para a cama dos crescidos e ter largado a fralda para dormir.
O Gugas descobriu a playstation do tio. Eu sabia que este dia havia de chegar (suspiro).
Não me apetece cozinhar. Nem comer. Nem mexer-me. Menos correr e dançar nos bailaricos.
Por falar em bailaricos, fomos ao (provavelmente) último arraial do ano e quase me meti à bulha com uma velha pequenina que devia ter passado a tarde na pinga. Vou tentar ignorar a mensagem que isto envia ao meu subconsciente.
Estou a ler um livro muito bom que me está a reconciliar com o valor das frases despidas e das estórias breves que nos deixam a pensar o resto do dia. E é isto este Verão: corridas longas e narrativas sumárias.
O Gugas descobriu a playstation do tio. Eu sabia que este dia havia de chegar (suspiro).
Não me apetece cozinhar. Nem comer. Nem mexer-me. Menos correr e dançar nos bailaricos.
Por falar em bailaricos, fomos ao (provavelmente) último arraial do ano e quase me meti à bulha com uma velha pequenina que devia ter passado a tarde na pinga. Vou tentar ignorar a mensagem que isto envia ao meu subconsciente.
Estou a ler um livro muito bom que me está a reconciliar com o valor das frases despidas e das estórias breves que nos deixam a pensar o resto do dia. E é isto este Verão: corridas longas e narrativas sumárias.
25 junho 2013
areia por todo o lado
Em dois dias foi-se a duas festas de aniversário, uma piscina, uma praia, uma beira-rio, um supermercado, dois pinhais, um bairro antigo, e várias casas de banho de estabelecimentos de restauração. Passou-se a noite de sábado em pouco mais de 3 metros quadrados e, não vou mentir, o haver uma lua gigante, morcegos atrevidos e ondas enormes lá fora ajudou muito a esquecer a dureza do chão e o vomitanço de filho para mãe lá para as quatro da matina. Mas o que me encheu mesmo o coração, percebendo que as coisas estão onde deviam estar, que temos uma sorte do caracinhas com a vida, a família, o amor que temos, foi acordar às 7h30 - ser a última a acordar! - e ter três caras sorridentes a olhar para mim porque, sim, finalmente tínhamos ido acampar pela primeira vez.
Dormir na minha suave caminha foi uma experiência maravilhosa, depois disso. Sim, que o co-sleeping é uma ideia muito ternurenta mas eu tenho dificuldade em repousar com pequenos seres a nadar crawl em cima de mim toda a santa noite.
Dormir na minha suave caminha foi uma experiência maravilhosa, depois disso. Sim, que o co-sleeping é uma ideia muito ternurenta mas eu tenho dificuldade em repousar com pequenos seres a nadar crawl em cima de mim toda a santa noite.
21 junho 2013
comunhão de adquiridos
Um deseja. O outro acompanha. Um propõe. O outro contesta. Define-se devagar um caminho em comum e dão-se os primeiros passos. Moldam-se expectativas. Os obstáculos surgem e as mãos dadas, até então, esticam-se para dar conta dos ritmos diferentes. As vontades são elásticas e as prioridades são diferentes. Conversa-se. Cala-se e pensa-se. Muda-se de ideias. Teme-se desiludir. Teme-se. E avança-se, sempre com a consciência de que há uma grande dose de imprevisibilidade. Há que engoli-la às colheres, tapando o nariz. Enfrentá-la com a única segurança: que não há nada mais poderoso e resistente do que as mãos que continuam dadas ao longo do caminho. Curioso, isto dos casamentos.
19 junho 2013
dando uso ao bom senso
Às vezes tenho a sensação que este mundo de hiperinformação em que vivemos presume que o pessoal está todo a ficar imbecil. Se calhar, está, não sei. Eu também gosto muito de googlar cada dúvida que me assalta, de tentar descobrir o que está por trás de um sintoma físico, de antever as implicações do consumo de determinados alimentos, de estimar as probabilidades de ainda virmos a ter Verão este ano, e por aí fora. Mas espero nunca me esquecer de ligar o cérebro quando se trata de tomar decisões.
Qual é o espanto de a indústria alimentar cada vez mais baseada em elementos artificiais, e servindo empresas que procuram o lucro, fornecer refeições com recheios improváveis? Quem é que não esperava que comprar t-shirts a dois euros feitas do outro lado do mundo significa que essas pessoas são mal pagas? Onde está a novidade no facto de uma dieta à base de restrições estrambólicas, mas em que o organismo não se habitua a gastar mais do que consome, não ir resultar? Ouvimos tantas teorias, anotamos tantas dicas, pinamos tantas receitas, decoramos tantas verdades vendidas pelos media que nos esquecemos de parar e pensar por nós próprios. Descansa-nos um pouco, esta ligeira desresponsabilização pelas nossas escolhas, sustentadas em longas pesquisas internéticas. Esquecemo-nos que, ao final do dia, é o nosso corpo que vive com as consequências do que comemos, é a nossa família que vive na comunidade que criamos e é a nossa gente que é governada pelos líderes em que votamos. Isto da liberdade e da informação é giro: promete devolver-nos o poder mas temos de ser nós a aceitá-lo e a dar-lhe bom uso.
17 junho 2013
os quarenta e dois
A dificuldade começa no facto de eu não acreditar realmente que seja possível. Que sou baixinha. Que o rabo pesa. Que não aguento o calor. Que mais ninguém acredita que eu consigo. Mais ninguém menos esta boa criatura com quem partilho a cama e as contas - mas ele acredita em mim de olhos fechados (benzódeus).
O que é que pode explicar a irracionalidade de tentarmos convencer o nosso corpo a começar a correr e só parar quarenta e dois quilómetros depois? Não sei. É que é para além de difícil, é longamente violento. Dores. Tédio. Quatro horas de solidão penosa, sem fim. É muito, muito estúpido. E, no entanto, lá me inscrevi eu para correr do Guincho ao Parque das Nações, em Outubro. É profundamente absurdo, mas vou gastar as articulações (que hão de fazer-me falta na velhice, como é óbvio) a treinar para aquele dia. Não há explicação lógica. Mas também não há explicação lógica para muitas das decisões realmente importantes que tomamos na vida, não é?
O que é que pode explicar a irracionalidade de tentarmos convencer o nosso corpo a começar a correr e só parar quarenta e dois quilómetros depois? Não sei. É que é para além de difícil, é longamente violento. Dores. Tédio. Quatro horas de solidão penosa, sem fim. É muito, muito estúpido. E, no entanto, lá me inscrevi eu para correr do Guincho ao Parque das Nações, em Outubro. É profundamente absurdo, mas vou gastar as articulações (que hão de fazer-me falta na velhice, como é óbvio) a treinar para aquele dia. Não há explicação lógica. Mas também não há explicação lógica para muitas das decisões realmente importantes que tomamos na vida, não é?
14 junho 2013
apontamentos santantoninos
Os meus rapazes mergulharam no modo lesboeta: fizeram chichi para as árvores da Avenida da Liberdade (pensei usar o copo vazio da minha Superbock mas tive medo que alguém encontrasse e pensasse que era grátes). Fizeram festas aos manjericos e espalharam algodão doce pela cara toda. Acharam que aquilo não era música, que era barulheira, mas dançaram na mesma. Aliás, bailaram e muito. Comigo e um com o outro. A custo, lá houve umas meninas que os levaram para o palco enquanto Os Peitos da Cabritinha abanavam nas colunas de som. As sardinhas não cabiam no pão e eu não cabia em mim de contente, vendo-os assim ramboieiros como a mãe, disfrutando desta cidade que é tão nossa. Tão de todos. Tão linda. Faltaste tu, Vera, para subirmos até à igreja de Santo António e acendermos uma vela. Venham para o ano – suspeito que os teus rapazes também gostarão da festa.
06 junho 2013
o pai-nosso ao vigário
Ler certas divagações de certas pessoas que eu cá sei acerca do que farão quando tiverem filhos faz-me pensar que deve ser assim que se sente o Gordon Ramsay quando lhe aparece uma maçarica a proclamar que o arroz dela nunca cola ao tacho porque descobriu que pode dar-lhe um cheirinho de azeite e alho antes de atirar para lá a água a ferver. E é pena, porque eu também já fui uma maçarica a fazer essas grandes descobertas. Para além de não ser o Gordon Ramsay. Em podendo escolher, e prolongando a metáfora, esforço-me por chegar ao dia em que acolherei as certezas destas quase-mães com a benevolência de uma Barefoot Contessa, por exemplo. Já que estamos a entrar numa de surrealismo culinário, gostava de aproveitar esta oportunidade para viajar no tempo e espetar com uma tarte de natas na cara da gralha de 2006, que achava que nunca faria uma série de coisas e já teria quatro filhos e uma carreira de sucesso por esta altura.
03 junho 2013
aprender a ser filha (também é todos os dias)
Passeávamos alegremente pelo Chiado, entrando e saindo de lojas, lagartando ao sol com gelados, quando a ouvi responder a uma funcionária que "já era uma sexagenária". Pontuando com uma risadinha. Não achei muita graça àquilo. Como é óbvio, a minha mãe anda na casa dos trinta. A minha mãe é rapidíssima. Tem energia de manhã à noite e os olhos verdes mais verdes do mundo. Não estou bem preparada para que vá ficando mais velha, como eu fico mais velha, e acho que era melhor para ambas que envelhecessemos juntas. Está provado que nos damos melhor à mesa de chá e scones do que em qualquer outro cenário. Sei que é um privilégio supremo ter a minha mãe comigo, à distância de meia dúzia de estações de metropolitano. É a avó que desejei para os meus filhos, até lhe perdoo os ovos Kinder e tudo. Mas a minha mãe não é sexagenária, não senhora. Será sempre a minha mãe na casa dos trinta, a conduzir o jipe que eu conduzo agora e a usar bikini com mais propriedade que a filha (que saiu ao Pai, coitadinha).
28 maio 2013
aprender a ser mãe
É todos os dias, não é? Reconheço que aprendi com a minha (e com o meu pai). Com livros. Com outras mães - sim, em blogues e tudo. E com os meus filhos, parando para os ouvir, sobretudo isso. Pode parecer tão absurdo como evidente mas são os nossos filhos que nos ensinam a ser mães. Deles. Se ouvirmos para além da birra. Se virmos para além do ranho a escorrer. Se lhe conhecermos o calor das bochechas, as fomes de doces (que afinal são de um abraço) e as zangas de brinquedos tresmalhados (que afinal são cansaço). Obrigada, filhos, por me ensinarem todos os dias. Sou tão melhor mãe agora do que era antes. Se fosse ao terceiro ainda era capaz de merecer mesmo aqueles postais que me garantem o primeiro lugar nesse campeonato de que todas devíamos ser as melhores. Sejamos ao menos o melhor possível a cada dia.
21 maio 2013
projectos para o verão
Sem ordem de prioridade mas auto-torcendo mentalmente um braço para que, em não se cumprindo estes planos, façamos outras coisas ainda melhores, que isto a vida são dois dias e os nossos rapazinhos nunca serão tão apetitosos, curiosos e desligados das durezas da existência como agora.
Ora cá vai:
1. Fazer gelados de cuvete;
2. Brincar com plasticina (comprar plasticina nova!);
3. Acampar;
4. Ensinar o Gugas a apertar os atacadores;
5. Mudar o Diogo para a cama grande e fazer o desfralde nocturno;
6. Passear no jardim depois do jantar;
7. Fazer um piquenique na Gulbenkian;
8. Filmar as férias e editar o vídeo a valer;
9. Ir à caça de gambozinos;
10. Caracolada (blhack! mas o Diogo nunca provou...);
11. Ir ao Santo António com a rapaziada e comer farturas;
12. Ir à Feira do Livro e comer farturas;
13. Ensinar o Diogo a fazer body-board;
14. Ensinar o Gugas a conduzir a Moto4. Ah, ah. Brincadeirinha. Ou não...
15. Treinar para a maratona de Outubro;
16. Decidir o que fazer da minha vida profissional;
17. Decidir o que fazer da nossa vida habitacional;
18. Comprar material escolar para o Gugas;
19. Dormir a sesta na varanda;
20. Desenvolver uma campanha familiar pela marcação de uma viagem à Costa Rica.
Ora cá vai:
1. Fazer gelados de cuvete;
2. Brincar com plasticina (comprar plasticina nova!);
3. Acampar;
4. Ensinar o Gugas a apertar os atacadores;
5. Mudar o Diogo para a cama grande e fazer o desfralde nocturno;
6. Passear no jardim depois do jantar;
7. Fazer um piquenique na Gulbenkian;
8. Filmar as férias e editar o vídeo a valer;
9. Ir à caça de gambozinos;
10. Caracolada (blhack! mas o Diogo nunca provou...);
11. Ir ao Santo António com a rapaziada e comer farturas;
12. Ir à Feira do Livro e comer farturas;
13. Ensinar o Diogo a fazer body-board;
14. Ensinar o Gugas a conduzir a Moto4. Ah, ah. Brincadeirinha. Ou não...
15. Treinar para a maratona de Outubro;
16. Decidir o que fazer da minha vida profissional;
17. Decidir o que fazer da nossa vida habitacional;
18. Comprar material escolar para o Gugas;
19. Dormir a sesta na varanda;
20. Desenvolver uma campanha familiar pela marcação de uma viagem à Costa Rica.
16 maio 2013
uma espécie de mantras
Quem é que disse aquilo de crescermos e tornarmo-nos nós próprios? Ai, sou terrível com citações. E ainda não decidi se acredito ou não que é possível mudar intencionalmente, tirar um bocadinho daqueles defeitos já cheios de bolor e tentar cultivar novas qualidades. Na dúvida, vou tentando (pode ser só o efeito do sol, como tão bem reparou a Vera). De há tempos para cá, tenho percebido que quero:
Repousar as sobrancelhas: Julgar menos, criticar menos, indignar-me menos.
Fechar os olhos: Desistir de controlar. Apreciar, gozar o momento porque (quase) nada é para sempre.
Respirar fundo: Sentir-me grata. Ao pormenor.
Agora ficavam bem aqui umas imagens de praia, sandálias, florinhas, mas tenho mesmo de trabalhar e não posso andar a passear-me pelo Pinterest (nitidamente, os mantras precisam de ser praticados com mais aplicação).
Repousar as sobrancelhas: Julgar menos, criticar menos, indignar-me menos.
Fechar os olhos: Desistir de controlar. Apreciar, gozar o momento porque (quase) nada é para sempre.
Respirar fundo: Sentir-me grata. Ao pormenor.
Agora ficavam bem aqui umas imagens de praia, sandálias, florinhas, mas tenho mesmo de trabalhar e não posso andar a passear-me pelo Pinterest (nitidamente, os mantras precisam de ser praticados com mais aplicação).
13 maio 2013
então e aquilo de arranjar casa nova?
Bom, já é praticamente Verão, compreendem? A 5 de Outubro está aqui, está a encher-se de roxo dos jacarandás. A minha vizinha de baixo vai começar a ouvir forró de janela aberta. Vão fazer arraiais no pátio da igreja e vai cheirar a sardinha assada na minha roupa acabada de lavar. Vamos dormir todos fresquinhos entre as paredes de pedra e brincar no jardim quando chegamos da escola. Nestes meses, passa-me toda a vontade de sair daqui.
Já para não falar que a minha nova fixação (recorrente, na verdade) é viajar para algum lado onde podemos andar de pernas ao léu, tropeçar na bicharada, cheirar a respiração morna das plantas gigantes, e fazer de conta que podemos fazer isso para todo o sempre. Ou seja, no dia em que nos sobrar disponibilidade, prefiro dedicá-la a aumentar escandalosamente a nossa pegada ecológica e voar para um lugar distante com a passarada e as nossas mochilas (abandonadas há anos demais).
Já para não falar que a minha nova fixação (recorrente, na verdade) é viajar para algum lado onde podemos andar de pernas ao léu, tropeçar na bicharada, cheirar a respiração morna das plantas gigantes, e fazer de conta que podemos fazer isso para todo o sempre. Ou seja, no dia em que nos sobrar disponibilidade, prefiro dedicá-la a aumentar escandalosamente a nossa pegada ecológica e voar para um lugar distante com a passarada e as nossas mochilas (abandonadas há anos demais).
09 maio 2013
auxiliares de memória
Aos 6 anos, o Gugas
Trata-me por 'Mãe' na escola e por 'Mamã' em casa. Já sabe andar de bicicleta sem rodinhas. Aprendeu a ligar para o meu telemóvel. Desmancha-se a rir com os clássicos da Disney. Já não fala inglês com pronúncia novajersiana mas percebe quase tudo. Continua a adorar construções, prédios, pontes, estruturas. Continua a fazer muitas perguntas - e a responder, agora, às do irmão. Come quantidades tremendas de tudo mas está um esparguete. Demora eternidades a fazer seja o que for e perde-se num mundo só dele. Tem uma paciência sem limites para o piolho que o persegue para todo o lado e lhe tira os brinquedos. Tem medo do desconhecido mas nunca recusa um desafio. Confia cegamente em mim e no pai. Assobia lindamente e pede-me para pôr músicas da Adele no rádio do carro. De vez em quando diz: "Mamã, ainda me lembro daquela vez em que...", com vontade de agarrar para sempre tudo o que já viveu nestes 2222 dias de vida. Tem uma grande noção de justiça e de equidade, e uma generosidade insuperável.
Aos 3 anos, o Diogo
Está num pico de mãezite aguda, a caminhar para o crónico. Em qualquer situação e ocasião, "é a Mamã". Já sabe andar de bicicleta com rodinhas e choca contra todos candeeiros de propósito. Despe-se sozinho para saltar para a banheira, para onde leva o balde, as panelas e os tachos dele. Continua a ser um pisco com claras inclinações vegetarianas. É um grande farsante e dado a dramatismos. Anda fascinado com monstros, ladrões, fantasmas, bruxas, e ontem chamou-me às 4 da manhã para eu fechar a porta do quarto, para não entrar o crocodilo. Faz desenhos lindos em que os membros da família parecem um cardume de polvos, e vai sempre comigo às compras, para a alegria das velhinhas do bairro. Anda de mota para todo o lado, lá em casa, estaciona-a sempre atravessada nas portas, e usa a coroa de cartolina para tomar o pequeno-almoço e para lavar os dentes (em biquinhos dos pés, já chega à torneira). Pede-me 'colinho bebé' quando o deito mas diz que já não é bebé, é um menino. Acorda todas as manhãs pronto para a vida, cantarolando-me um alegre "bom dia banana!".
Trata-me por 'Mãe' na escola e por 'Mamã' em casa. Já sabe andar de bicicleta sem rodinhas. Aprendeu a ligar para o meu telemóvel. Desmancha-se a rir com os clássicos da Disney. Já não fala inglês com pronúncia novajersiana mas percebe quase tudo. Continua a adorar construções, prédios, pontes, estruturas. Continua a fazer muitas perguntas - e a responder, agora, às do irmão. Come quantidades tremendas de tudo mas está um esparguete. Demora eternidades a fazer seja o que for e perde-se num mundo só dele. Tem uma paciência sem limites para o piolho que o persegue para todo o lado e lhe tira os brinquedos. Tem medo do desconhecido mas nunca recusa um desafio. Confia cegamente em mim e no pai. Assobia lindamente e pede-me para pôr músicas da Adele no rádio do carro. De vez em quando diz: "Mamã, ainda me lembro daquela vez em que...", com vontade de agarrar para sempre tudo o que já viveu nestes 2222 dias de vida. Tem uma grande noção de justiça e de equidade, e uma generosidade insuperável.
Aos 3 anos, o Diogo
Está num pico de mãezite aguda, a caminhar para o crónico. Em qualquer situação e ocasião, "é a Mamã". Já sabe andar de bicicleta com rodinhas e choca contra todos candeeiros de propósito. Despe-se sozinho para saltar para a banheira, para onde leva o balde, as panelas e os tachos dele. Continua a ser um pisco com claras inclinações vegetarianas. É um grande farsante e dado a dramatismos. Anda fascinado com monstros, ladrões, fantasmas, bruxas, e ontem chamou-me às 4 da manhã para eu fechar a porta do quarto, para não entrar o crocodilo. Faz desenhos lindos em que os membros da família parecem um cardume de polvos, e vai sempre comigo às compras, para a alegria das velhinhas do bairro. Anda de mota para todo o lado, lá em casa, estaciona-a sempre atravessada nas portas, e usa a coroa de cartolina para tomar o pequeno-almoço e para lavar os dentes (em biquinhos dos pés, já chega à torneira). Pede-me 'colinho bebé' quando o deito mas diz que já não é bebé, é um menino. Acorda todas as manhãs pronto para a vida, cantarolando-me um alegre "bom dia banana!".
07 maio 2013
ainda sobre o dia da mãe
Adoro o Dia da Mãe. O excesso de atenção que me aflige nos meus aniversários dilui-se no oceano das outras Mães, neste dia, e desinibe-me de chapinhar no eterno gozo de amar e sentir-me amada por dois pares de olhinhos brilhantes, lindos, lindos. É que vocês não estão a ver como os meus filhos são perfeitos, a sério. Não consigo fazer de conta que não me explode o coração de orgulho, de ternura, de paixão assolapada por me terem sido confiados para cuidar, para mimar, para devolver ao mundo. Por isso acho maravilhosa cada uma das dezenas de florinhas que apanharam para mim. Acho encantadores os desenhos que fizeram. Derreto-me com as declarações de amor que repetem todas as noites, mas mais ainda neste dia. E nada se compara às suas carinhas iluminadas, no momento em que me viram hoje a entrar na escola, com todo o tempo do mundo, para fazermos juntos as actividades que as educadoras tão carinhosa e esforçadamente prepararam. Digam lá todo o mal que quiserem da comercialização e banalização do Dia da Mãe. Sou Mãe todos os dias, mas neste dia sou-o um bocadinho mais.
04 maio 2013
velocidade descontrolada por radar
Lembro-me daqueles dias em que começávamos a trotar pelos quartos, pela sala, e a minha Mãe baixava o tom de voz para tentar transmitir-nos calma porque estávamos muito excitados. É claro que nada de bom podia resultar daí: fins de tarde chorosos; deitares contrariados; um alívio palpável quando nos ajeitava a dobra do lençol, no encerramento de mais uma jornada.
Vejo-me a desrespeitar esses sábios princípios, agora. Insisto em contagiá-los com o meu entusiasmo com coisas pequenas, em dar maus exemplos, em introduzir gestos desviantes. O bom de ter rotinas e previsibilidade é desatar a quebrá-las, sem pedir licença, e contemplar os efeitos. Sujar as mãos e espalhar folhas húmidas pelo chão de um quarto habitualmente arrumado. Sair de casa, só para sair de casa. Tirar a capota do jipe e ir dar uma volta sem destino, ver-lhes o cabelo ao vento e as bochechas afogueadas. Provavelmente constipam-se e chegam ao fim do dia exaustos, aos pinotes, ninguém os cala, ninguém os segura. Parece-me que está tudo no sítio, está visto que não aprendi esta lição.
Vejo-me a desrespeitar esses sábios princípios, agora. Insisto em contagiá-los com o meu entusiasmo com coisas pequenas, em dar maus exemplos, em introduzir gestos desviantes. O bom de ter rotinas e previsibilidade é desatar a quebrá-las, sem pedir licença, e contemplar os efeitos. Sujar as mãos e espalhar folhas húmidas pelo chão de um quarto habitualmente arrumado. Sair de casa, só para sair de casa. Tirar a capota do jipe e ir dar uma volta sem destino, ver-lhes o cabelo ao vento e as bochechas afogueadas. Provavelmente constipam-se e chegam ao fim do dia exaustos, aos pinotes, ninguém os cala, ninguém os segura. Parece-me que está tudo no sítio, está visto que não aprendi esta lição.
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