30 maio 2011

olá, eu sou a gralha e gosto de bagas

Nada como o impulso suburbano-eco-chic de brincar aos camponeses e pegar na pequenada, nos chapéus, nas cestas e ir colher o que a Natureza (ou uma quinta criada para esse efeito) tem para nos oferecer. A apanha do morango é uma coisa para lá de fantástica porque não estraga o verniz das unhas, não cansa, e traz-se para casa um alimento pouco calórico e que dá para fazer imeeensas coisas giríssimas. Além disso, os piquenos apanham ar, fazem festinhas às cabras e aos burros (e depois desinfectam as mãos com o líquido antibacteriano em frascos afixados de 50 em 50 metros nas vedações), ficam derreados e deixam os pais dormir até mais tarde. Prevejo que esta será um dia a nova moda da blogosfera, só é pena ainda não haver muitas destas quintas pick-your-own-cenas em Portugal.
Ontem, cinco quilos de morangos depois, voltámos a casa e enchemos a barriga. De morangos. E de batido de morango, gelado de morango, espetadas de morango, tarte de morango, granizado de champanhe e morango. O que sobrar, vai para compota. Mal posso esperar pela época da framboesa, da amora e do mirtilo.

27 maio 2011

a banheira, esse berço do multitasking

Ahh, chegar a casa ao fim do dia (i.e., às 17h) e tomar um bom duche relaxante, tirar toda a poeira, todo o cansaço, esvaziar a cabeça de qualquer preocupação. Só que não. É no banho que planeio o dia seguinte, o trabalho dos cinco membros da minha equipa, o que os meus dois rapazes vão vestir, o jantar, os e-mails e postagens a escrever (sim, esta surgiu-me enquanto esperava que o amaciador TRESemmé Moisture Rich fizesse efeito), o que é preciso acrescentar à lista semanal do supermercado, o que o Gugas vai levar para o próximo Show-and-Tell, os downloads que preciso de fazer, e a lista não tem fim. E vocês, qual é o momento do dia em que organizam o periclitante equilíbrio da vossa agenda pessoal/doméstica/profissional/etc.?

26 maio 2011

a vida a lápis de cera

Apesar de bradar aos sete ventos que sou uma mulher-mãe-profissional muito bem resolvida, é claro que isso é tudo uma grande treta. Não há dia que passe que eu não sinta o gume afiado da culpa pelas sestas não dormidas do Diogo na creche ou pelas porcarias-disfarçadas-de-almoço que o Gugas come na escola. Nessas alturas, surge na minha cabeça a imagem da mulher dos anúncios de detergentes, sorridente, perfeccionista e segura, que nem sonha em mandar os miúdos para as mãos de outra cuidadora antes que eles lhe sejam arrancados pela escolaridade obrigatória.
Só que também é verdade que em todos os desenhos que o Gugas faz da família estamos os quatro a sorrir. Sempre. Tenho de acreditar que isso é sinal de que não andamos a fazer a coisa de forma completamente errada.

24 maio 2011

antes de ter 90 anos

Ainda vou ter aulas de ballet (clássico, contemporâneo, logo se vê), estudar Etnografia, aprender a falar espanhol decentemente, aprender a falar árabe só o suficiente para botar figura, fazer caminhadas nos Pirinéus, escrever e ilustrar a fábula da Gralha e do Lobo, recolher um cão de um canil, andar de canoa na Venezuela, ajudar a construir uma biblioteca, correr uma maratona, ter o meu próprio jardim de ervas aromáticas, contar estórias aos meus netos, passar muitos dias perto do mar. E ter a minha própria casa. Pronto, era só para não me esquecer.

23 maio 2011

vou queixar-me do tempo

Retiro tudo o que disse acerca do clima daqui. Estamos a um mês do Verão e as temperaturas não passam dos 15 graus. E chove. Chove. Não é por ouvir toda a gente a falar de praias e esplanadas; nem por ainda não ter podido usar vestidos; nem sequer por ainda não termos aberto a época dos piqueniques no jardim. É mesmo porque já ia estando na altura dos meus miúdos começarem a usar calções, que não ganho para as calças rasgadas e joelheiras.

21 maio 2011

mais valia que fossem todos levados daqui, realmente

Se estão a ler esta mensagem é porque a sua autora foi rapturada lá para os infinitos, longe de vós mortais incrédulos que estais por estas horas a ser assolados por terramotos, catástrofes, viagens de autocarro em Agosto com muita gente e pouco desodorizante. Ou então é só porque eu me esqueci de vir aqui apagar o post que deixei programado desde ontem à noite. Ou então não esqueci, deixei-o aqui só porque já há muito pouca coisa no mundo com a qual se possa gozar sem ser politicamente incorrecto. Mas ainda posso gozar com este bando de estafermos que acham que o mundo acaba com hora marcada, como se fosse o season finale do Lost, ou assim, não posso? Totós.

18 maio 2011

de longe, o melhor de viver no faroeste

A vida selvagem. Ontem tive muita dificuldade em explicar ao Gugas que os únicos animais selvagens em Lisboa são os pombos. Ele sugeriu que os lobos americanos apanhem um avião e vão viver para o jardim da Gulbenkian. Por muito que adore a civilização e a paisagem urbana da minha cidade, vou sentir a falta de cada esquilo, cuco, sapo, corvo, ganso, veado, marmota, perú selvagem, castor e urso. Agora até temos ursos em Princeton. Já para não falar nos duendes que se escondem no jardim, de certeza absoluta.

17 maio 2011

dieta milagrosa

Dou vinte e cinco tostões a cada criatura bloguista do sexo feminino, entre os 20 e os 50 anos, que não esteja neste momento em dieta de emagrecimento. Exigo provas, como o total desconhecimento do número de calorias de um iogurte magro ou, preferencialmente, da mera existência do conceito de iogurte magro. Também servem fotografias de pratas de bonbons, bocas sujas de Oreos, pacotes de Doritos ou, de preferência, latas de leite condensado vazias.

Confesso desavergonhadamente que dei este título ao post apenas para apanhar montes de leitoras vindas de motores de busca. Já ninguém me lê e eu sou uma diva, preciso do amor do meu imenso público.

16 maio 2011

por outro lado, com a idade

Não são só os cabelos brancos, a força da gravidade, as rugas (por falar nisso, descobri um serum óptimo na Sephora. Tirou-me uns 5 anos, a sério). Envelhecer não nos traz só sabedoria, também revela novos defeitos - ou então torna-nos mais conscientes dos mesmos. Estou muito menos disposta a fazer fretes. E manipuladora, tão manipuladora que tenho de me controlar. Com o andar da coisa, vou ser absolutamente insuportável antes de chegar à menopausa. Haja quem me ature.

13 maio 2011

restaurador olex

Fiquei órfã de avô aos 10 anos, aquele avô com quem tenho tudo a ver. Faz-me falta todos os dias e mendigo a atenção e o olhar de um avô desde então. Acho que é por isso que tenho especial carinho por alguns homens mais velhos, homens honestos, esforçados, pacientes, que nem sempre têm quem os valorize. Uma mulher de idade é uma pessoa cansada, tantas vezes amargurada, mas vitoriosa do que ultrapassou; um homem de cabelos brancos é um rapazinho com saudades do cólo da mãe que já perdeu.
Trabalha comigo um senhor que, na iminência de ter de procurar novo emprego, escureceu o cabelo. Dá-me vontade de chorar que, nesta idade, ainda não tenha a segurança económica que merece.

07 maio 2011

os náiques fazem voar

Ontem fui ter com a minha Inesa e outra amiga dela a Nova Iorque e andámos a ver a cidade da perspectiva gaja - Sexo e a Cidade, Lipstick Jungle, Gossip Girl, deixo à vossa escolha. Abdicámos dos saltos altos e passámos horas a andar, a gralhar, a ver lojas, a comprar mais do que o devido, a passear, a descobrir, enfim, o dia de férias perfeito! Terminou em beleza num jantar em Brooklyn (que ainda não fiquei a conhecer devidamente) e depois tive de dar uso à minha mais recente aquisição (cf. abaixo) para correr que nem doida e conseguir entrar no combóio da meia-noite segundos antes de partir. Cheguei a Princeton mais morta que viva, antevendo o despertar dioguino daí a quatro horas. Ahhh, mas valeu a pena :) Queridas amigas que ainda não vieram visitar-nos, venham quando quiserem. Despachem-se, que isto não dura para sempre.

04 maio 2011

america, america!

Mataram o mauzão. O preço da gasolina vai baixar e a taxa de desemprego já baixou. Não tarda, todos vão retomar a colecção de cartões de crédito e a compra de mansões gigantes nos subúrbios, mobiladas bienalmente e apetrechadas de jardim, deck, piscina, garagem para quatro automóveis (mais que só serve para guardar outras coisas). É o país onde é possível encontrar uma equipa de trabalho constituída por uma portuguesa, um veterano do Vietname, uma lésbica assumida, uma indiana, um judeu, laborando lado-a-lado com uma energia interminável, esperando o dólar ao final da quinzena. É o anúncio da Coca-Cola tornado realidade. É um sinal de esperança num mundo assolado de intolerância, injustiça, medo, desilusão. E eu sou a ave rara que quer dar o fora.

30 abril 2011

miaúfa

Li há dias uma mãe dizendo que não se inquietava com vírus e demais ameaças pequenas ao bem-estar filial. Pois eu tenho mais medo das doenças e sofrimentos dos meus filhos do que se me largassem no meio de leões com o rabo pincelado de molho BBQ. Não acredito em mães sem medo.

25 abril 2011

resoluções para 4 dias

Nesta semana em que estou sozinha com os filhos desligo o computador e vou aproveitar para ler, tomar longos banhos de imersão, adormecer de janela aberta com o coaxar das rãs, não cozinhar, não me irritar, não me apressar.
Está-se mesmo a ver.

20 abril 2011

se ao menos isto e aquilo

Ontem estive a dar dicas de exercicios para as coxas a uma colega minha que podia ser modelo da Victoria's Secret. A sério que é tão gira e, como dizê-lo?, boa que eu própria quase lhe dava uma trinca; e, no entanto, anda preocupada com a firmeza das pernas.
Este ano consegui alcançar o ponto inédito em que me sinto, ao mesmo tempo, esqueléctica e gorda (em partes diferentes do corpo, claro). Quão estúpido é que é isso? Bastante. E, ainda assim, congemino planos, cremes, coberturas, tudo o que possa ajudar a apagar esta sensação de insuficiência. Ser mulher é uma coisa muito palerma, às vezes...

19 abril 2011

da mediocridade

Não começo a escrever um dos vários livros que já pensei porque tenho horror a produzir uma coisa medíocre. Agora ando a ler de fio a pavio o blogue da Ana Cássia Rebelo e já nem me atrevo a escrever aqui. Ainda bem que não vejo programas de culinária senão a minha família arriscava-se a passar fome.

14 abril 2011

assim é que se conhecem os amigos

É tudo muito bonito, ah e tal, felicidades e beijinhos, mas a única pessoa que se chegou à frente para me oferecer o presente que pedi foi a Vera. Grande mulher, tu sabes aquilo de que este país precisa. E de ti na CMM, evidentemente!

13 abril 2011

parabéns a mim

Por estas horas (post programado, como quase todos) estou a comer bolo de framboesas ao pequeno-almoço. E depois vou transportar mais uns milhares de livros. Se quereis ser uns queridos e oferecer-me alguma coisa hoje, é um emprego jeitoso em Lisboa a começar a 15 de Setembro. Em não sendo possível, também gosto de chocolates, pronto.

12 abril 2011

coitados dos homens

O pessoal anda a falar, a propósito disto, manifestando solidariedade com as novas angústias paternais. É verdade, acredito que sofram. Mas tenho sobretudo pena deles porque os filhos pequeninos gostam mais das mães do que dos pais. E isso é injusto. Eles até podem chegar a casa, fugindo o mais cedo que conseguiram do trabalho, à espera de um abraço da criançada; mas o abraço dado à mãe é mais prolongado. Deve ser tramado.

Adenda: Faltou mencionar quem, com muito mais seriedade do que eu, falou do assunto. Perdoem-me a falha a Mãe Capotada, a Sofia, a Marta, a Duchess e quem entretanto se tenha aliado à causa.


as fronteiras da mitologia infantil

Gugas: "Mamã, a Fada Sininho existe mesmo?"
gralha: "Não, filho, é só uma personagem de desenhos animados, como o Mickey ou o Handy Manny. A única fada que existe mesmo é a Fada dos Dentes."
Enquanto proferia estas palavras apercebi-me do cerco que se aperta na minha vida familiar, da necessidade de esclarecer quais as fantasias oficiais do pedaço e quais aquelas que devem deixar-se cair. O Gugas anda muito inquieto com a diferença entre o mundo real e o imaginário, adora jogos de role-playing e tem uma quedazinha especial para o dramático. Ainda dá em actor de telenovela venezuelana, se não temos cuidado. De modo que a lista oficial de personagens imaginárias (shhhiuu, mas não digam aos meus filhos!) da família gralha é a seguinte: Pai Natal, Coelho da Páscoa, Fada dos Dentes e os Duendes que vivem na floresta junto à nossa casa. Vamos ver até quando dura...