20 junho 2006

rebuçados diamante

Agora que ando a brincar às pessoas crescidas foi com um misto de alegria e saudade que ontem andei a percorrer a zona da minha adolescência. É engraçado como só as velhinhas parecem as mesmas porque as lojas mudaram todas e os miúdos que passam para o liceu são bem diferentes dos meus amigos e colegas (têm piercings e usam mochilas pingonas, ao passo que nós usávamos calças de ganga justas e andávamos com os dossiers forrados na mão), à excepção dos ténis All Stars. Quando vi, exactamente na mesma esquina, o senhor que, no Inverno, vende castanhas e, no Verão, vende gelados, não contive o sorriso e fiquei com vontade de lhe dizer

ainda bem que aqui está
o mundo dá voltas mas há coisas que ficam
espero que ainda venha aqui comprar castanhas com os meus filhos, quando andar às compras para o Natal, sob as árvores com a iluminação mais bonita de toda a Lisboa

Mas continuei a andar e fui até a uma pastelaria daquelas que também continuam fiéis ao que eram há 15 anos. Os empregados são os mesmos, com as suas camisas de manga curta abotoadas até cima. As vitrines revelam bolos de aniversário, miniaturas (no Natal, bolo-rei) e sortido de bombons. As prateleiras de vidro nas paredes têm, de baixo para cima, como numa hierarquia de idades, ovos Kinder, pastilhas elásticas, chocolates, cigarrilhas e garrafas de whisky. Nos balcões, para além dos folhados, bolos e fatias de salame de chocolate, há taças com rebuçados de fruta, caramelos, flocos-de-neve e rebuçados diamante.
Já não me lembrava dos rebuçados diamante, aqueles lindos, coloridos e translúcidos, que se espalhavam pelas mesas de aniversário e eu colhia sorrateiramente (só os vermelhos, os meus preferidos). Devia ter comprado uns ontem, para espalhar todos os dias sobe a mesa da sala da minha nova casa. Ou então não, porque os cães ainda os apanhavam e chamavam-lhes logo um figo.

16 junho 2006

coerência sazonal

Fico fascinada com a quantidade de pessoas que, nos últimos dias, têm saído à rua com guarda-chuva. Está certo que tem chovido. É verdade que, na quarta-feira, estive 15 minutos na saída do Metro, à espera que desligassem as torneiras do céu, e acabei por apanhar uma bela molha. Mas será que mais ninguém sente que há algo de muito estranho em carregar um guarda-chuva em Junho, em Portugal? Se ficassem 13 graus também iam voltar a usar blusões de Inverno?
Não é teimosia, a minha cabeça precisa de ordem. Diz que agora é quase Verão. Se chover, molho-me (nem sequer está frio, de qualquer forma)!
É o gesto de acordar de manhã e pensar: "Umm... Será que devo levar o guarda-chuva?" que me fascina. Ou vivo num universo pararelo ou não quero mesmo saber se fico com o cabelo numa desgraça e as sandálias ensopadas.

14 junho 2006

santo antónio

Depois de tanto trabalho, estava a ver que não aguentava o que é, desde há uns anos, um marco obrigatório na minha vida: a festa do Santo António. Mas não, lá botei as mãos à cintura, abanei a anca para trás e para a frente, e desci do Marquês de Pombal até Alfama. Este ano, estou indecisa se o ponto alto foi: 1) quando consegui que a Lili Caneças me acenasse; 2) quando falei pessoalmente com um assistente do Grande Mestre Professor Mamadu, que me assegurou que este era um Mestre com Muita Força, que podia resolver todos os meus problemas (será que faz macumbas para passarmos na inspecção do gás?); 3) ou quando passei pela maior concentração de urinadores em público de que há memória (junto ao castelo, alinhados qual pelotão de fusilamento, indiferentes às centenas de pessoas que passavam).
Enfim, como sempre, a animação foi grande, com farturas, bifanas, sardinhas assadas, sangria (sobretudo entornada sobre mim), bailarico e, como não pode faltar, o meu momento de homenagem ao Santo António, cada vez mais complicado devido à quantidade de miúdos quase à bulha para apanhar as moedas que as pessoas atiram. Para o ano há mais!
Fica ainda para a história a primeira noite que passámos na nossa nova casinha :)

09 junho 2006

dias assim

em que a equação é = (trabalho X stress) elevado a preocupações, só há uma saída:
programas de televisão sobre a natureza, de preferência sobre um qualquer mamífero marinho residente nas regiões polares, com muitas imagens de branco, azul e silêncio.

07 junho 2006

estrangeiros

Toda esta confusão à volta da reportagem sobre a extrema-direita em Portugal tem gerado muitas conversas pelo meu gabinete e algumas surpresas. Quase todos os meus colegas têm origens miscegenadas - inglesas, judaicas, brasileiras, angolanas, japonesas, chinesas, you name it - o que não só enriquece as nossas conversas como nos leva a ver as coisas de perspectivas bem diferentes.
Hoje revelaram-me que se sentem estranjeiros em qualquer lado. Fiquei de boca aberta (será que é muita ingenuidade minha?). Eu sentia-me estranjeira quando vivia na Alemanha mas, aterrando no Aeroporto da Portela, estava na minha terra.
Como é que pessoas que nasceram e viveram em Portugal, sem estarem fechados em nenhum tipo de gueto, que torcem pela Selecção Nacional e se riem das mesmas piadas, se podem sentir estrangeiras? Como é que podem mesmo sentir receio que os movimentos de extrema-direira ganhem tanta força que isso possa ter implicações directas na vida deles?
Às vezes acho que o facto de haver tantos filmes sobre o racismo, a intolerância, o Holocausto tem o mesmo efeito das reportagens diárias sobre a guerra no Médio Oriente: transforma a realidade em espectáculo e dessensibiliza-nos.

06 junho 2006

girls just wanna have fun

No auge da minha entrolhização, resultado de dias a fio de transporte de tábuas, pinturas e montagens, que me deixaram as pernas cheias de nódoas negras, os braços arranhados, as unhas pretas e o cabelo com tinta branca que teima em sair, surgiu a M., para me salvar. A M. é a minha prima de Barcelos, 5 anos mais nova que eu, que veio viver para minha casa durante os 3 meses que dura o estágio que veio fazer para Lisboa.
Como estava a precisar de uma companhia feminina, com quem trocar futilidades sobre cortes de cabelo e ver as maravilhosas séries da Fox, horas a fio! Para quem, como eu, nunca teve uma irmãzinha a quem pintar as unhas com canetas de feltro e trocar roupas, isto é uma maravilha. E a salvação do que me restava de feminilidade. Abençoada sejas M.!

05 junho 2006

já chega

Se monto mais um móvel trönga trönga, mais uma prateleira grölit, mais um parafuso que seja, dou em louca! Já sonho com dobradiças, acordo a pensar em fitas-métricas! Algum homem giro, inteligente, rico mas sobretudo com uma casa maravilhosa e já completamente pronta por aí?

01 junho 2006

dia da criança

Não, não vou dizer mal do dia da criança. Mas este sempre foi um dia negro para mim porque nunca recebi 1

nem 1 só

presente no dia da criança.
Os meus pais discordavam do sentido comercial da coisa, que o "dia da criança é todos os dias", e mainada!
Isto, a juntar ao facto de nunca ter podido usar cuecas com bonequinhos para mostrar às amigas quando íamos à casa-de-banho no infantário, à repressão extrema que exerceram sobre as minhas barbies, ao facto de ter tido o cabelo curto ao longo de grande parte da infância e, pior, não ter tido autorização para ver os Simpsons quando começaram a dar cá (andava eu no saudoso 1º ano do ciclo preparatório), explica todas as minhas psicoses de incapacidade de identificação com a espécie feminina humana, restando-me, por alongado contacto com os animais, identificar-me com as gralhas. Depois admiram-se.

31 maio 2006

compras online

Sou das pessoas menos consumistas que conheço. Ninguém me apanhará deliciada às compras num centro comercial, à procura de mais um par de sapatos ou daquela mala perfeita. Compro sapatos para calçar com a roupa que tenho, compro roupa para substituir ou combinar com a roupa que já tinha - sim, é verdade, acabo por andar muitas vezes com muito tempo de atraso em relação à moda.
Só que há coisas que são uma tentaçãozinha, como os livros. Por isso, não tendo eu tempo nem dinheiro para ir à Feira do Livro, nem sequer paciência para procurar todas as coisas que não lembram ao diabo (tenho a certeza que o espertalhão do diabo é um leitor ávido) nas livrarias mais bem fornecidas, resta-me a Amazon.de, onde parece que nem custa nada comprar e há tudo, das mais diversas origens e nas mais variadas línguas. Segurem-me, senão não paro.

revolução dentária II - o triunfo

A nossa campanha está a dar frutos! Enquanto lavava os dentes há pouco, entrou sorrateiramente uma desconhecida, sacou da sua escova de dentes e zuca. Antevejo um futuro sorridente nesta universidade.

29 maio 2006

mais vale ser novo, bonito e rico

do que velho, feio e pobrezinho. Isto é um ditado bastante palerma a que recorro de vez em quando e que faz muito sentido actualmente. Tenho as costas que não me mexo, os braços cobertos de tinta que não sai, as unhas num estado deplorável, as mãos cheias de bolhas, uma miséria! Isto de uma gralha não ter dinheiro e ter de ser ela e o seu moço a pintar toda a casa, a carregar móveis, descarregar móveis, montá-los - durante um fim-de-semana em que estiveram 30 e tal graus, by the way - está-me a fazer vir ao de cima o mais refinado burguesismo e preguicite aguda... Está bem que depois dá gozo ver as coisas todas bonitinhas, que nos deram tanto trabalho, mas eu preferia ter dado trabalho remunerado a gente com mais corpinho para isto enquanto eu ia tranquilamente para a praia pôr as minhas leituras em dia. Enfim, já só faltam mais algumas dezenas de móveis...

25 maio 2006

revolução dentária

O meu colega G., como bom brasileiro que é, chegou a terras lusas e logo tratou de hastear a bandeira da saúde oral. Não descansou enquanto eu não comprei uma escova de dentes para ter no gabinete e todos os dias, depois do almoço, só falta arrastar-me até à casa-de-banho para a devida lavagem da dentuça. Mais, está tão empenhado na sua causa que desfila pelos corredores de escova em riste, qual D. Quixote lutando contra os moinhos das cáries alheias, e faz questão que toda a gente perceba que é imperativo trabalhar para um sorriso bem luminoso.
Em vão tentei explicar-lhe que a lavagem de dentes não é um acto social cá na nossa terra, que o pessoal não se sente muito à vontade perto de outros, a babar espuma e fazer caretas em frente ao espelho. Bem, pelo menos sempre fico com os dentes mais branquinhos.

24 maio 2006

afinal, de quem é a festa?

No sábado fui a um casamento de uma filha de um amigo do meu Pai que, por acaso, também andou comigo no remo e também foi colega do L. na escola. No entanto, nunca fomos grandes amigas, só fui ao casamento porque o meu Pai insistiu que era importante para o amigo dele. À partida, discordei da ideia mas lá fui - nunca recuso à partida a oportunidade de comer bolos até à indigestão.
À medida que fui dando voltas pelo recinto e serpenteando pelos 250 convidados comecei a notar uma coisa muito estranha: não havia gente abaixo dos 40 anos. Comecei a interrogar-me se estaria numa daquelas ilhas onde não há pássaros, porque alguém trouxe cobras de outras paragens e lá se foi o chilrear. Mas não, simplesmente, os convidados eram quase todos amigos dos pais dos noivos. Amigos dos noivos devo ter visto, no máximo, uns 15.
Sou só eu que acho que há alguma coisa de estranho nisto? Por que é que a festa de um casamento há de ser uma festa para os pais dos noivos - inclusive só com música da época deles - e não para os noivos propriamente ditos? Está a celebrar-se a formação de um casal ou o facto de se ter conseguido despachar os miúdos lá de casa?
Pronto, não queria ser tão amarga mas o casamento é um tema muito delicado para mim e gostava que o meu fosse uma festa nossa, incluindo dos nossos pais, mas não feita por e para eles.

19 maio 2006

as mesmas caras, um sítio diferente

Ontem à noite fui a uma grande festa, no Museu Nacional de Arte Antiga, por ocasião da abertura da exposição "Grandes Mestres da Pintura Europeia: de Fra Angelico a Bonnard. Colecção Rau". Infelizmente, cheguei tão tarde que só vi a exposição de fugida mas valeu a pena só pelo ambiente no jardim, na esplanada sobre o rio, em que toda a construção antiga e vegetação bucólica combinavam tão bem com os efeitos de luzes e a música a bombar na batida certa.
Mas o mais divertido foi o facto de ter ido com os meus colegas de trabalho. Ver toda esta gente, que costuma ser tão compostinha - são investigadores e professores universitários - a soltar a franga como (ao que parece) há muito não tinham oportunidade foi uma graça e, ao mesmo tempo, deu para fortalecer ainda mais as cumplicidades que já tinhamos. Já disse que gosto muito dos meus coleguinhas? Gosto muito dos meus coleguinhas.

18 maio 2006

pessoas perfeitas

Vocês conhecem alguma pessoa perfeita? É que eu conheço. E tenho de lhe escrever uma fita para a benção do próximo Sábado. Não é nada fácil, portanto.
Ela é simpática, inteligente, doce mas determinada, corajosa mas sem se procurar sobrepôr a ninguém, criativa, trabalhadora, honesta, atenciosa, disponível, bem-disposta... Sim, e gira e elegante. Até tem 22 anos e, como dizia o Herman, ninguém tem 22 anos. Se fosse homossexual, de certeza que me apaixonava por ela.
O que é que eu hei de escrever? Para uma pessoa assim não se pode escrever banalidades. Mas também não posso fazer este discurso assim tão elogioso porque não a quero embaraçar. Quem me dera ser daquelas pessoas muito cultas que têm sempre a citação certa para cada momento na algibeira. Não sou, por isso escreverei qualquer coisita simples, do coração.

16 maio 2006

furacões

De há umas noites para cá, tenho tido um sonho recorrente e enigmático - coisa que nunca me acontece, até o meu subconsciente costuma ir directo aos assuntos sem andar com grandes rodeios - em que estou algures num descampado e começa a aproximar-se o centro de um furacão. Agarro-me a qualquer coisa, sabendo que serei levada porque não tenho força, o que, de facto, acontece. Enquanto vou no ar, estou cheia de medo, de olhos fechados, achando que vou ser atingida por qualquer coisa; mas acabo por cair bem, sem uma beliscadura, ficando apenas a contemplar a destruição à minha volta.
O L. acha que é de ter estado em Cuba, onde há tantos furacões. A minha colega diz que é por ir viver com ele, por estar com medo desta grande mudança de vida.
Eu acho é que estou cheia de vontade e receio, em simultâneo, que alguma coisa maior do que eu me arranque daqui, me abane e me leve para um novo começo, nem sei bem do quê. Tenho de perguntar a um freudiano.

15 maio 2006

querido, mudámos a casa

Com a ajuda de 4 amiguinhos, o L. e eu passámos todo o fim-de-semana a pintar a nossa casa nova. Deixem que vos diga, pintar dá uma trabalheira enorme! Então os nossos fabulosos tectos de 3 metros de altura, com frisos, são um mimo. Acho que os programas de renovação de casas que passam na televisão são muito enganadores, parece que aquilo se faz com uma perna às costas e afinal faz-se é à custa de dores nas pernas, nas costas, no rabo, nos braços...
Enfim, depois de 20 horas de trabalho e várias camadas de tinta, lá ficamos com aquilo tudo bonitinho. Só não fiquei muito satisfeita com a parede da entrada, que queríamos pintar de ocre mas saíu-nos mais tipo polpa de tomate. É claro que o L. não percebe a diferença e acha que está óptimo mas as meninas compreendem a minha angústia, não é?

12 maio 2006

dê sangue. ou então não.

Há alguns anos que sou dadora mas são mais as vezes em que sou rejeitada do que as que consigo, de facto, verter meia litrada do meu precioso B RH+. Isto já é mais frustrante do que ter 14 anos e ser barrada à porta do Benzina (alguém se lembra?). Ou é porque não tenho peso, ou é porque a hemoglobina está baixa, ou é porque a tensão está baixa, ou é porque fui a S. Tomé e é preciso esperar 3 - sim, 3 - anos antes de voltar a dar... Parece que o meu voluntarismo tem de arranjar outras vias.

11 maio 2006

ainda estou (um bocadinho) lá










Sim, é lixo. Sim é lindo.
Eram 6 da manhã e a praia estava perfeita
como se o mundo tivesse começado
naquele dia.

10 maio 2006

perdida

Então não querem lá ver que a RTP tirou os meus queridos 'Perdidos' das terças-feiras à noite?? Depois de uma brevíssima lua-de-mel, em que transmitiam aquilo às 22h30 como bons meninos, começaram a arrastar o meu pequeno rebuçado das malfadadas terças-feiras já para as quartas. E agora, sem apelo nem agravo, zuca! Valha-me a Fox...