Para quem não tem pachorra para os meus comentários sobre artigos que leio por aí, por favor volte amanhã, que sai um post patusco sobre os meus filhos.
Não sei quão a par estão da actual crise no financiamento à ciência e à tecnologia neste país mas, numa casquinha de noz, a investigação nacional é maioritariamente paga pelo Estado e o Estado cortou a água a mais ou menos metade do pessoal. Sendo que uns passaram a poder encher piscinas olímpicas e outros estão a lamber o orvalho. Saltando por cima da discussão política, é claro que nestas alturas os visados se voltam todos uns contra os outros.
Este senhor toca numa ferida que nunca vai sarar, porque a verdade é que a produção do conhecimento estará sempre associada a uma classe profissional que é militante no seu fechamento enquanto mantém uma relação algo dúplice com o poder – condenando-o, não deixando de beneficiar de protecção institucional. E ia isto ser uma explicação breve, não há pachorra para os sociólogos, pá.
Tenho sofrido com a degradação da situação da ciência não só porque estou aqui, estou a ir para o olho da rua, mas porque sou como a criança de leite que brinca junto ao ninho da cobra, acredito na sua capacidade de superação humana, na ciência como problematização com tomates e método, brio. Apesar de já me terem explicado que as víboras fazem dói-dói, custa-me imenso a concentração da investigação num punhado de áreas cujo valor utilitário é mais imediato. E arrelia-me a mercantilização dos produtos da pesquisa, o faroeste em que está a transformar-se a divulgação científica. Por exemplo, é triste que parte do meu trabalho seja averiguar a autenticidade de revistas científicas e de conferências, cujos
clones falsos surgem como cogumelos e assediam muitos desgraçados (inserir caricatura de cientista despassarado). Sinto-me parte do trio de cordas que tocava de ladecos enquanto o Titanic mergulhava. E eu já nem na guitarra pego há imenso tempo.