04 abril 2025

Plantas

Terminámos ontem a primeira temporada do Weeds. Estamos a rever com os miúdos e a achar muita graça aos óculos de sol estreitinhos e às calças de cintura descaída, realmente a moda é um carrocel. Até os meus filhos admitiram que, com o amor e experiência que tenho com plantas, faria todo o sentido tornar-me cultivadora e traficante de droga. A verdade é que o ambiente atual no meu trabalho convida a todo o tipo de fantasias hortícolas em que nem mesmo a perspetiva de ser apanhada no meio de uma rixa de carteis, de passar uns tempos na prisão (não ter de cozinhar!) ou mesmo de ter de participar em reuniões de pais de forma regular, são fatores que consigam retirar encanto a esta ideia. Agora podia colocar aqui belas fotografias do canteiro onde ainda não nasceram os tomateiros, ou da begónia que transplantei na semana passada, e que ainda não recuperou, para revelar que também nisto sou uma fraude, mas uma das maiores virtudes das plantas é a sua generosidade. Ainda vão nascer e certamente vão recuperar.


Outras plantadeiras que já falaram sobre isto hoje (em atualização):

O blog azul turquesa

A curva


21 março 2025

Vizinhos

Sérgio, Ana, Xavier, Benjamim, Ricardo, Mariana, Maria, Marta, Vasco, João Miguel, Cidália, Luís, Delfim, Inês, Carlota, Célia, Margarida, Henrique, Francisca, Teresa, Sandra, Luís, Isabel, Alice, Mariana, Vicente e Tomás são os nomes dos vizinhos que sei de cor, fora aqueles de quem conheço apenas as horas em que andam pela rua, de que forma estendem a roupa, os sítios onde tomam café, as plantas que regam, as esfregonas que deixam a secar ao sol, o clube de futebol cujos golos celebram, o que aviam na farmácia e o modelo de carrinho de compras que usam. Essa coisa do anonimato de viver numa cidade não se aplica a bairros como Alvalade ou a curiosas como eu.


Mais vizinhas (em atualização):

A Curva

A Gata Christie

Panados e Arroz de Tomate

O Bolgue Azul Turquesa

Quinta da Cruz de Pedra

Boas Intenções

2 Dedos de Conversa

20 março 2025

Coreografia

A dança coletiva das mães, ah!, rodopios de roupa por passar, os esqueletos cansados que sustentam aqueles repuxões contemporâneos, atravessando o palco a toda a velocidade para acabarem estendidas no chão, atropeladas. Tenho a certeza que até as mães que não têm um trabalho a tempo inteiro, que têm com quem partilhar a paternidade, que não passam horas no trânsito, no ginásio, no voluntariado, que têm aldeias, creches, bimbys, coaches, todas dançam desesperadamente para uma audiência às escuras. Na última fila, estão as mães delas.

14 março 2025

Até o diabo se ria

Onze da noite do dia 25 de dezembro de 2016. A nossa família recomposta recém-nascida entrou para o carro com lugares a menos depois da quinta festa de Natal em série, com demasiados presentes ao colo, azia, zumbido nos ouvidos, a cabeça zonza de tanta conversa cruzada (Pronto, acaba aqui a aliteração. Quem é que também teve este livro?).








Estendi o braço para tocar o ombro do meu, então, namorado e sussurrei: "Em janeiro, isto acalma."

Até o diabo se ria da nossa inocência. Se o amor adolescente é crédulo, o amor na meia-idade não lhe fica atrás. Estava-se mesmo a ver que janeiro nunca chega quando a nossa árvore genealógica passa a ser uma ficus retorcida em torno de outras árvores, com ramos que não acabam, períodos de floração diferentes, ninhos de várias espécies e raízes cuja profundidade é impossível calcular. Devíamos ter adivinhado que, com a poda e a enxertia, daríamos forças redobradas ao matagal que se juntou, mas a TV Rural não deve ter abordado este tipo de culturas. Eu desligava a televisão a seguir aos desenhos animados, de qualquer forma. Ao contrário da visão popular, não acredito que o diabo tenha sentido de humor. O riso dele perante o nosso otimismo deve ser do tipo nervoso e razinza, como alguém que vai tirar um siso. Não pode beliscar a santidade de um bom mergulho no desconhecido. O diabo que continue para aí a rir enquanto nos dedicamos à silvicultura.


O diabo também se ri aqui:

A curva

Boas Intenções

Quinta da Cruz de Pedra

A Gata Christie

Panados e Arroz de Tomate


07 março 2025

Coração lavado


Mal iniciou a Quaresma e, trau!, pespego aqui este cordeirinho com ar só meio contrariado porque preciso de apresentar provas. Não sei o que vocês ouviram desde pequenas: que eram comilonas? que eram calonas? que eram vaidosas, mentirosas, tontas? Eu ouvi que era má. Tenho de passar o resto da vida a demonstrar a mim própria e aos outros que, no fundo, está a um coração lavado. Que agir de forma impetuosa ou responder de forma súbita, sem pensar, não é por maldade, senhores, é sei lá bem por quê. Eu queria tanto pegar naquele cordeirinho ao colo. Quero fazer tanta coisa, já, e resolver todos os conflitos, do mundo e das minhas relações. Atropelo sem querer. Sei que este é o argumento esfarrapado de todos os atacantes. Se for demais, fujam de mim. Tenho de fazer melhor. Fica assim o meu pedido de desculpas genérico a todos a quem não as pedi pessoalmente. Tenham paciência, há esperança na perda de velocidade que vem com o passar dos anos.

Outros corações lavados em público aqui:

28 fevereiro 2025

Carimbo

Está a fazer um ano que tivemos de desmanchar uma casa, o meu marido e eu. É um processo indissociável do luto, da surpresa que se prolonga no tempo, da compreensão e incompreensão em simultâneo sobre o que se passou.

Preciso de mais um parágrafo antes de retomar a ideia.

OK. Há uma música dos Divine Comedy que enumera todas as coisas que o Neil Hannon já perdeu. O ritmo angustiante da sucessão de objetos que se retira de trinta metros quadrados é silencioso, pelo contrário. Resisto a fazer a listagem. Guardo tudo na memória. Trouxe uma blusa e um carimbo. Uma tacinha indiana em forma de peixe que não sei para que serve, mas é tão bonita. Pronto, já estava a derrapar, fico por aqui. Esta dor ainda está demasiado à flor da pele para conseguir escrever mais sobre o assunto.

21 fevereiro 2025

Teias de aranha

Por que motivo sentimos um certo fascínio em torno de uma casa assombrada? Poucas coisas haverá de mais humano do que o espaço (des)habitado. Bem sei que este tema mexe comigo por defeito profissional imaginário (o meu pai sonhava que eu estudasse arquitetura; estudei sociologia, mas agora sou capaz de voltar à escola para pensar em dinâmicas residenciais). Mais que isso, é gosto trivial pelo detalhe. Os tacos do soalho querem-se a ceder. As paredes, a resistir à humidade de cada inverno. A caixilharia de madeira, a devolver-nos a tinta mal aplicada. As persianas onde não chegamos, a colecionar teias de aranha. E tudo isto é delicioso. O assombro que me mete medo não é o de fantasmas que encheram a barriga de segredos, gargalhadas e ralhetes, é o dos espaços não vividos. Talvez por isso prefira espreitar as janelas sem cortinas do meu bairro aos sites de imobiliárias com fotografias tão mentirosas como um candidato numa entrevista de emprego.


Espreitem também através das teias destas outras aranhas:

Boas Intenções

Panados e arroz de tomate

A Gata Christie

A curva

20 fevereiro 2025

Isto nunca deixou de ser um babyblog

A coisa que requer mais coragem no mundo é ser mãe.

Coragem para ouvir o que pode ser muito difícil de ouvir. Coragem para fazer o que não faríamos de outro modo.

Quem me vê de fora admira-se por tantas coisas desconfortáveis e fisicamente exigentes que faço, mas não há montanha tão alta nem precipício mais ameaçador do que dizer diariamente que sim aos desafios da maternidade.

14 fevereiro 2025

Atraso de vida

Aviso à navegação: este post não vai ser sexy. Achei por bem avisar porque é Dia de São Valentim, não quis gorar as expetativas de ninguém.

Não compreendo isso de as pessoas se atrasarem. Não me atraso. Não tenho de me apressar para não me atrasar, acontece, simplesmente. Sou aquela amiga que muita gente deixa à espera (tenho uma que me cumprimenta sempre com um "desculpa"). Não faz mal, já estou à espera de estar à espera. Mas não esperem que eu me atrase. A sério, o atraso na vida serve que propósito? É uma forma de protesto em relação ao que nos é imposto? Se é imposto, prefiro despachá-lo. Claro que preencho o IRS nos primeiros dias. Levanto-me da cama assim que toca o despertador. Entrego os trabalhos muito antes dos prazos estipulados. Sou destituída dessa aparente lascívia de brincar com o tempo, o meu e o dos outros. Sou incrivelmente fiável, aborrecida e organizada. E se achavam que agora virava o bico ao prego para efeitos estilísticos, lamento.


Felizmente, há quem se atrase com sentido:

A curva

A Gata Christie 

Boas Intenções

O blog azul turquesa

Panados e arroz de tomate

(falta a Helena, que sobrevive numa sociedade que não tolera o atraso, estou em pulgas para saber como)

07 fevereiro 2025

Espelho meu

Se um ovo consegue equilibrar-se num muro, não vão ser as minhas vertigens a evitar a mesma habilidade. Este princípio resume uma abordagem bastante ingénua perante a vida. É o tipo de postura que nos salva por estes dias, vão por mim. Insisto militantemente na esperança e no absurdo.

Por cima da cómoda MALM de quatro gavetas, código 704.035.74, que está ao lado da minha cama e que serve de stand up desk nos dias de teletrabalho, fica um espelho retangular sem código nem nome, foi uma tia que o ofereceu. De tempos a tempo, o meu olhar foge do ecrã do portátil para lá. Sou uma ótima colega de trabalho de mim própria: elogio a colega (apesar do cabelo sempre despenteado), deixo-a comer as melhores bolachas, sou a primeira a sugerir uma pausa. Evito os mexericos mas o convívio constante com o meu reflexo obriga-me a enfrentar a dura realidade de estar ali. Queria passar para o outro lado do espelho. Deixava as pantufas arrumadinhas, as mensagens de correio eletrónico por responder, e alçava a perna. O meu espelho não devolve uma imagem do que já não é, convida às possibilidades do que ainda não foi. É o único lago onde não consigo mergulhar. E há tanto, tanto mundo que ainda quero ver.

As restantes espelhadas estão aqui: A Gata Christie, Boas Intenções, O Blog Azul Turquesa, Panados e arroz de tomate (em atualização)


31 janeiro 2025

Espalhar-se ao comprido

Esta noite, espalhei-me ao comprido na cama porque tinha calor e frio e calor e frio, cabelos na cara, pés gelados, nariz pingão. Aquela luta viral que combatemos desde o primeiro contágio na creche até ao fim das forças do nosso sistema imunitário. "Viral" mudou pelo menos duas vezes de sentido desde que aqui escrevi pela última vez. Numa, passou a sinónimo do que se propaga na Internet, espaço de desconhecidos, algoritmos e velocidades estonteantes. Noutra, quando ficámos todos em casa a fazer pão e a bater palmas, numa distopia sobre a qual ainda é prematuro falar.

Como não dormi grande coisa, idealizei listas de compras, programei máquinas de roupa em dívida, fui fazer um chá. Ou seja, a noite poupou-me um pouco o dia. Ao dia, roubo uns minutos para regressar aqui, empurrada pela Carla e acompanhada por quem mais se dispõe a estatelar-se de novo neste formato. Outras se espalharam também, como a Joana e a Calita.