27 março 2026

Robots como nós

Domingo de manhã, em Santo Tirso. Estive duas vezes na vida em Santo Tirso, nesse dia e no anterior. Da segunda vez, cheguei ainda mais depressa e cheia de vergonha. Era hora de pôr o meu otimismo à prova. "Por favor, Mariana, tenta lembrar-te do sítio onde foi." A subida em cotovelo. O chão empedrado. "Pensa: abriste a janela do veículo desconhecido que te passaram para as mãos porque tiveste demasiado orgulho em admitir que não sabias sequer onde ligar o ar condicionado. Não estava propriamente calor mas tu estavas nervosa porque tinhas de despachar-te e não te perder dos outros. Sim, sim, porque tiveste demasiada preguiça de registar o percurso no teu telefone e restava-te andar atrás de quem sabia." 

Aqui! Saí do carro e desatei a correr para cima e para baixo, para um lado e para o outro da estrada. Independentemente das dioptrias, se a porcaria do identificador da Via Verde tinha saltado pela janela e estava algures por ali, eu ia encontrá-lo.

De facto, encontrei uma chapinha de plástico com as iniciais do dono. A prova do homicídio involuntário de um chip, o crime que cometi ao tentar acompanhar o ritmo deste mundo com a competência demasiado humana e obsoleta que tenho para dar. Quais robots como nós? Porventura a tecnologia tenta disfarçar as suas falhas e culpa-se pelas mesmas? Algum automóvel autónomo desacelera para nos permitir acenar à criança que agita uma mãozita na outra faixa? Qual é o drone que desobedece ao comando quando o mandam largar uma bomba sobre inocentes? Há algum aspirador automático que não engula a peça do puzzle espalhada, e que vai ficar a faltar? Bem me parecia.


No Largo, somos todas analógicas:

Apanhada na curva

A Gata Christie

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Quinta da Cruz da Pedra

20 março 2026

Cartas postais

Repito a publicação desta fotografia, que surgiu neste blogue pela primeira vez a 11 de maio de 2006, porque não sei onde meti o postal que mandei a mim própria, durante as férias em Cuba. Lembro-me que continha uma mensagem encriptada com o nome do rapaz cubano que me deixou a suspirar, mas só a suspirar, que eu era uma rapariga comprometida. Como disse em portunhol na altura, "venir aquí es mejor si no tienes novio". Enfim. Cuba era, já na altura, muito mais do que calor e gente bonita. Mais até do que as horas de dança descalça no palco de madeira do resort de cinco estrelas. Muito, muito mais do que os Cadillacs preservados na perfeição, ou Habana Vieja com o nível de decadência em ponto de rebuçado para o turista. Era miúda e muito privilegiada, mas até eu percebi que Cuba era, acima de tudo, livre e digna.
Vê-la agora sem eletricidade, gente aflita neste preciso momento em que escrevo. Ameaçados de forma muito real por alguém que não tem quem o trave. Caramba... Como é que vamos olhar para este tempo e para estes lugares daqui a vinte anos? O que diríamos a nós próprios se pudessemos mandar cartas postais para o passado, alertando para o que iríamos testemunhar agora? "Saudações de Cayo Largo! Aprecia essa cuba livre porque o mundo vai estar de pernas para o ar não tarda nada!" Uma dúvida genuína: perante o absurdo, faz sentido manter a sobriedade?

Cartas postais do Largo:

13 março 2026

Topete

 

Auto-retrato com topete

Estou a brincar, isto não sou mesmo eu. Comprei um difusor para o secador de cabelo. Isso deve ter prevenido duas ou três constipações, mas continuo a ter caracóis e não um topete. Tive de ir ao dicionário aprender o significado de topete, é sinónimo de poupa. Além disso, esta imagem é de uma maria-preta-de-penacho e não de uma gralha. Acresce ao topete ter usado esta fotografia, cuja reprodução está explicitamente proibida na página onde a encontrei. É certo que vou ser processada pelo autor, Douglas Fernando Meleti. Se for um fotógrafo mesquinho e ultrapoderoso, posso ir parar à prisão. Afinal de contas, todos sabemos que, para escapar às sanções do Direito Internacional é preciso ser um líder que viola todas as noções de ética e de nexo. Enquanto a polícia da Internet não vier a correr atrás de mim, vou comer todo o bolo que me apetecer e o que mais me der na real gana. Se o mundo está para acabar, dancemos.

A ver se as meninas do Largo têm o topete de dizer alguma coisa sobre o assunto:

Apanhada na curva

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Quinta da Cruz da Pedra

06 março 2026

Geografia

Poucas são as vezes em que me aventuro até abaixo dos joelhos. Mesmo no fim do Inverno, lembro-me que são belos os pés, de peito alto. Vejo-os quando o sol permite mas não costumo chegar lá. Como aquelas terras onde só há uma estrada de acesso, tipo Campo Maior, ou Barrancos. São bonitas mas é preciso um pretexto para ir lá de propósito. A viagem faz-se, alías, de Norte para Sul. O caminho começa na curva occipital, contorna uma orelha, desce a pique no pescoço, forte e suave, depois logo se vê onde me apetece ir, na encruzilhada do peito ou das costas. Um braço, o outro. Nervos, músculos longos, tuda a superfície é impressão digital única. Ninguém como eu conhece de memória o toque deste corpo. Outras por lá passaram mas não foram tão aplicadas no estudo desta geografia. Todos os dias, todas as noites, quase há uma década. A erosão do tempo mexeu muito mais com o subsolo do que com aquela terra que a minha pele visita. Não posso descurar o estudo, no entanto. Uma aluna exemplar não deixa que a familiaridade a torne preguiçosa. Revejo a matéria, atualizo os mapas e agora isto resvalava tão facilmente para um final brejeiro mas sou uma senhora, era o que faltava.


O Largo é chamado ao quadro:

Apanhada na curva

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20 fevereiro 2026

raia

Gosto muito de fronteiras. São artificiais e teimosas, artefactos humanos de que a natureza não se compadece. Têm cancelas que chiam, guardadas por fiscais de boné, ou nem isso. Os pássaros atravessam-nas sem se darem conta. Ao longo dos últimos cinco anos, tenho tido a oportunidade de traçar com os pés a fronteira entre Portugal e Espanha, integrando um projeto de amigos que pretendem dar a volta a Portugal a correr, em várias etapas. A próxima será em março, já a descer a costa desde o rio Cávado, caso alguém - além da minha tia Elisa - queira ir fazer claque. 

Confesso que uma das partes mais encantadoras do percurso até agora foi a raia transmontana, em particular o cantinho nordeste, onde até as terras de ambos os lados têm o mesmo nome.

Eu a tentar convencer-vos a ir a Rio de Onor com a primeira imagem que apareceu na Internet porque sou demasiado assídua na limpeza dos arquivos fotográficos.

Será a beleza natural? É. Será a dificuldade em chegar lá? Talvez. Será o pão de Gimonde, a doçura do rio? Para mim é, sem dúvida, a sensação de fim de mapa e que, surpresa!, o mapa é uma patranha. A paisagem é contínua. O enrolar da língua, rionorês. A ausência de pessoas, que emigraram para França, um eco que não distingue sotaques. No entanto, a raia é real, não é cenário de contrabandistas morenos e mulheres rijas a tocar o gado e a partilhar o forno comunitário. Há mesmo cães a deambular na rua com costelas à mostra, que preferiam ter comida todos os dias às festas ocasionais dos turistas. Muitas casas abandonadas. Muitas recuperadas, para visitantes que não ficam a dormir no carro, como eu. Não quero cair na romantização simplória de uma zona com problemas que nem chegam aos meus ouvidos. Não desejo que a raia fique cristalizada no tempo e no abandono. Mas também não sei que caminho poderá levar.

As raianas do Largo:

17 fevereiro 2026

Cultivar o meu jardim

Tenho três estórias sobre este tema e não consigo decidir-me sobre nenhuma delas, por isso conto todas pela rama.

Primeira (a pateta): Guardei sementes dos tamarilhos que a minha prima tinha trazido no ano anterior. Semeei na minha mini horta. Cresceu um arbusto muito alto e viçoso, fiquei vaidosa. Apiedei-me quando percebi que não teria espaço para ele. Com todo o cuidado, desenraizei-o, coloquei, com terra, num saco, transportei uma planta da minha altura durante dois quilómetros, a pé, para a levar à minha colega de trabalho cujo marido é jardineiro. Era, afinal, uma tintureira. Planta altamente tóxica. Um provável presente deixado pelo melro que não paga renda na minha varanda.

Segunda (a emocional): Vai fazer três anos que o meu filho mais velho me salvou a vida. A notícia do pequeno herói Rodrigo, de 9 anos, que chamou o INEM quando percebeu que a mãe não estava bem, recordou-me o episódio em que me engasguei num almoço e fiz uma mímica aflita-sem-querer-assustar-ninguém que o Gustavo percebeu e logo saltou da cadeira, abraçou-me por trás e fez a manobra de Heimlich que me permitiu voltar a respirar. O mais bonito de tudo, para além de ter continuado viva, é a compreensão entre nós, materializada num olhar e num gesto.

Terceira (a mais impressionante, pelo menos para mim): Somos uma família de seis. Não é difícil imaginar, ou se calhar é, para quem externaliza esses serviços, a quantidade de trabalho doméstico que há na nossa casa. Depois de uma cuidadosa análise SWEAT, que é como se fosse SWOT mas para quem executa tarefas braçais, discussão, argumentos, democracia direta, algumas ameaças, cada um dos filhos assumiu um conjunto de responsabilidades que terá de cumprir sem que os pais tenham de os recordar a cada semana (espero). Porque a maior tarefa é a invisível, de reparar no que precisa de ser feito. Se isto funcionar mesmo, vou acrescentar uma linha ao meu currículo.

Outras sementeiras do Largo:

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A Gata Christie

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06 fevereiro 2026

Tropical

Há uns 20 (e tal) anos curei um desgosto de amor a ver uma série baseada num livro que fez algum sucesso naquela altura. A banda sonora era boa, os atores, competentes, o cenário tropical, perfeito – e isso bastava. Cresci numa altura em que Portugal não sabia bem como fazer as pazes com o seu passado colonial, que nem se chamava assim nessa altura. Mas tal como o kitsch é a última paragem antes do esquecimento, como disse o Kundera, a visão romântica de uma herança recente não tem desculpa mas é um bocado incontornável. Os portugueses deste início de século ainda estão a digerir a combinação de uma azeitona mediterrânica com o chapeuzinho no copo de cocktail com mais açúcar que uma rabanada com calda. Vimos demasiadas telenovelas, ouvimos demasiadas estórias das festas nas capitais ultramarinas. Não sei quantas colheitas por ano. Roupas leves, pés ao fresco. Mentalidades libertas do salazarismo monocromático. Tantas promessas. Sonhámos com férias em praias com água realmente quente. E agora envergonhamo-nos por não termos visto tanto que estava por trás de um suposto luso-tropicalismo inóquo. Ainda bem que nos envergonhamos. Imaginem alguém envergonhar-se de desfilar de bikini com 10ºC, no carnaval de Torres Vedras. Isso, sim, seria um desperdício.

O Largo nos trópicos:

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23 janeiro 2026

Sair da bolha

Desde que dois irmãos muito queques do século dezanove desataram a azucrinar a cabeça da mãe D. Carlota Joaquina - como se não lhe bastasse ter casado aos 10 anos com o panhonhas do D. João - que Portugal não se encontrava assim dividido ao meio. A segunda volta das eleições presidenciais é um cutelo de corte limpo nesta era de hiperfragmentação partidária. Agora, sim, não há desculpa. Nós contra eles. Os maus e os bons. Os altruístas e os egoístas. Os engolidores de sapos e os odiadores de sapos.

Grante treta.

Portugal é um paralelipípedo minúsculo de cortiça com um naperon por cima para não se estragar, humilde e acolhedor. Quem faz kombucha sabe que a fermentação não resulta dentro desse tipo de recipiente. Não se produzem bolhas, só um líquido avinagrado. Não desconsiderando as muito importantes diferenças regionais e desigualdades socioeconómicas, nada disso impede que sejamos coletivamente obrigados a ver o mundial de futebol se a seleção estiver a jogar. Há ainda muita pobreza. Há uma classe média cada vez mais atrapalhada. Há uns quantos ricos primos uns dos outros. Mas toda a gente adora uma promoção no supermercado. Qualquer bolha que exista é auto-insuflada. O tio que implica com o motorista TVDE é muito mais parecido comigo do que gostaria de admitir. A prima que vai às manifestações pela defesa das minorias também estaciona em segunda fila e agradece a cunha para que os filhos fiquem na melhor turma da escola pública. Irritamo-nos todos muito uns com os outros e somos transversalmente incapazes de criticar-nos na cara. Só nas costas.

Precisamos de sair da bolha da nossa imaginação. Ir mais longe não cansa. Pode nem implicar sair do sofá e do ecrã, esses grandes responsáveis por tanta alucinação coletiva. Sentemo-nos no chão ou saiamos a correr para a rua em modo analógico. Como diz a Rosalía, "una pelota de golf ocupa el Titanic, el Titanic cabe en un pintalabios, y un pintalabios ocupa el cielo". E a Rosalía tem sempre razão.

Da bolha do Largo:

Apanhada na curva

A Gata Christie

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16 janeiro 2026

Sangria

Laranja, limão e maçã. Nunca como em janeiro a nossa wonder bractea fica tão monótona no seu papel de fruteira.

              (e, no entanto, o privilégio de ter fruta fresca)

Uma jarra grande. Dei a jarra grande à colega que foi viver com o namorado. Sejam muito felizes, pombinhos espremidos para pagarem um apartamento em Queluz.

              (e, no entanto, conseguiram sair de casa dos pais antes dos 30 anos)

Vinho branco. O LIDL passou a vender vinho sem álcool. Espero que seja mais bem feitinho que o que comprei outrora, noutros sítios. Prefiro beber chá a qualquer coisa faz de conta.

              (e, no entanto, Portugal é o maior consumidor de vinho per capita do mundo, também com a minha ajuda)

Açúcar. Ouvi dizer que a venda de açúcar em Portugal tem baixado ao mesmo tempo que aumenta a obesidade. Claro, bolinho não faz mal a ninguém, mesmo que agora me sinta anti-feminista ao pegar numa forma, por culpa da Carla. Mas não estou a encontrar a fonte deste boato, por isso não acreditem em mim. Não acreditem na Internet. Esta semana levei mais uma esfrega dessa (não)realidade.

              (e no entanto, neste momento, já me é virtualmente impossível trabalhar sem recorrer de alguma forma à Inteligência Artificial)

Gasosa. Água muito fria injetada de dióxido de carbono. Pessoalmente, acho uma violência. Se é para a água estar fria, que seja para nadar no mar, não para acolher bolhinhas.

              (e, no entanto, a natureza também o faz, por isso quem sou eu para o contestar?)

Gelo. A nossa casa, no Inverno, mesmo com os aquecimentos ligados.

              (e, no entanto, Gaza)

Muito lindo, o otimismo de quem mistura tudo isto para fazer uma bebida que, vamos dizer a verdade, quase sempre desilude. Faz todo o sentido a dada altura da vida mas, ainda há mais tempo do que não bebo cerveja, não bebo sangria. No início deste ano, à beira do possível colapso da nossa democracia, esta otimista prefere estar lúcida para ajudar a reconstruir o futuro a partir dos destroços.

Melhores mixologistas que eu:

Apanhada na curva

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09 janeiro 2026

Naperon

Uma das grandes conquistas do ano passado foi encontrar pratos de sobremesa do serviço que herdámos do meu sogro na Dona Ajuda, uma loja de coisas em segunda mão que, se não conhecem, vale muito a pena. Seis pratos em perfeitas condições. Só quem tem a rotação de louça de um snack-bar, em casa, pode perceber do que falo. Quase tão satisfatório foi encontrar as fronhas de algodão maravilhoso, suave e perfeito, na loja de atoalhados de Caminha. O lençol de banho turco, então, é um prazer demasiado íntimo para o partilhar convosco neste espaço público. Se me dissessem que a mesma pessoa que revirava os olhos com todos os assuntos que dizem respeito a decoração e cuidado do lar, agora se regala com estes confortos, não acreditava. Acontece que eu gostaria muito de um dia encontrar a tal zona de conforto de onde nos estão sempre a mandar sair. Talvez chegue mesmo ao ponto em que, sobre o encosto do sofá, colocarei um naperon de uma forma não irónica. Duvido, mas nunca se sabe.


As outras fadas do lar(go):

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12 dezembro 2025

Dançar

De certeza que há montes de explicações científicas e pseudo-científicas do prazer que a dança dá aos seres humanos. Muito gostaria de ter tempo para procurar o que a antropologia tem a dizer sobre o assunto, por exemplo, mas alguém determinou que dezembro seria um mês perfeito para, ao trabalho habitual de um assalariado, juntar ainda imensas obrigações sociais, pelo que o tempo livre se torna escasso. De certeza também que quase ninguém quer saber das minhas insónias, mas ficam sabendo na mesma que, quando as tenho, tento visualizar-me a dançar. Danço em palcos, em ruas, pelos campos. Sereno e adormeço. Como regressei do Minho, os últimos saraus noturnos têm tido lugar nas veredas verdinhas dessas terras do norte. A propósito de norte, e porque nem só de cantoras cujos bilhetes dos próximos concertos se esgotaram sem que conseguisse comprá-los (😭) se faz o nome Rosalía, fiquem lá com estes versos e vejam se conseguem percorrê-los sem terem vontade de dar uma perninha.


Las campanas

Yo las amo, yo las oigo,

cual oigo el rumor del viento,

el murmurar de la fuente

o el balido de cordero.


Como los pájaros, ellas,

tan pronto asoma en los cielos

el primer rayo del alba,

le saludan con sus ecos.


Y en sus notas, que van prolongándose

por los llanos y los cerros,

hay algo de candoroso,

de apacible y de halagüeño.


Si por siempre enmudecieran,

¡qué tristeza en el aire y el cielo!

¡Qué silencio en la iglesia!

¡Qué extrañeza entre los muertos!

                              In Rosalía de Castro, Cantares Gallegos, 1863


p.s. Descobri que há uma escola de dança Rosalía de Castro em Havana. Se não é para isto que serve a Internet?


Pode ser que as minhas colegas do Largo se juntem à roda mais logo, aqui:

Apanhada na curva

A Gata Christie

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21 novembro 2025

Bode expiatório

Refastelada no sofá em frente à televisão, estava ontem a ver o Jeremy Clarkson a medir o perímetro dos testículos de alguns carneiros antes de decidir quais ia comprar para a sua quinta. Lembrei-me que hoje tinha de escrever sobre bodes. Para quem tenha curiosidade: ambas as espécies os têm de uma dimensão (25 cm) e eficiência (1 para 40) que impressionam. Mas não pensem que as respetivas ovelhas e cabras lhes ficam atrás em termos de capacidade reprodutora, de trabalho e de destruição. Este fetiche urbanita por animais de pastoreio terá várias explicações possíveis. Hoje vou deixar-vos em paz com as citações bíblicas, descansem. Bastam as características que atrás elenquei para justificar como é fácil despejarmos responsabilidades por alguma coisa que corre mal sobre os nossos semelhantes. Só aquele que podia quase ser eu pode arcar com a culpa e a consequência de um delito cometido por mim. Se esse aquele for chifrudo, cheirar mal e estiver coberto de pelo, é praticamente como se nem tivesse sido eu, mas o maligno que me tentou. Bodes expiatórios, sempre os houve, poucas coisas há mais humanas do que sacudir a água do capote.

Outras cabritas:

Apanhada na curva

Boas intenções


14 novembro 2025

Ainda estou aqui

Ainda estou aqui, sussurrou a dor de cabeça com que me deitei, na manhã seguinte. Ainda estou aqui, a pedra dentro da bota acabada de descalçar, show de equilibrismo no caminho para o trabalho. Ainda estou aqui, os residentes do Bairro do Talude, em tendas, abrigos improvisados imagino que sem recurso ao cartão dos outdoors da campanha do presidente da câmara. Também ele ainda está lá. 

Quase nunca funciona, a técnica de esperar que passe. Fingimo-nos de mortos. Entreabrimos um olho, ah!, continua o inconveniente que nos obriga a tomar uma atitude. O risco no pára-choques, porque a chapa não se cura como a pele. A desilusão com quem traiu, porque perdoamos mas não esquecemos. Nada se perde, tudo se transforma e muito se mantém por mais que o tentemos ignorar. Gosto muito do episódio contado por São Lucas em que uma viúva vai chatear um juíz para a porta de casa dele, à noite. Tanto o azucrina que ele lhe faz a vontade só para não ser importunado. Esta influencer bíblica devia ter mais seguidores mas calculo que, já na altura, as mulheres de meia idade e poucos recursos não captassem a atenção a menos que fizessem uma barulheira desgraçada. Ando a reunir coragem para fazer o mesmo mas detesto incomodar.


Ainda estão aqui também:

Apanhada na curva


12 novembro 2025

Fúrias

Enquanto me enfurecer com os meus pais, eles permanecem jovens. À mesa, ao telefone, no hall de entrada da casa deles e que nunca foi minha, a hiper-reação às piadas intolerantes, à solicitude excessiva, mantêm o sangue a pulsar nas artérias da nossa relação familiar. Mantem-me dependente, subjugada à sua superior experiência, e a eles como conhecedores do mundo, cuidadores, amparo com que posso contar. Para reconhecer que os meus pais já não são mais capazes que eu em quase tudo, teria de os ver com uma compaixão desarmante de todas as fúrias. Esse é um luxo do qual não estou preparada para abdicar.


Furibundas do Largo:

Apanhada na curva

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24 outubro 2025

Máscara

Esta cidade é uma grande vaidosa e nem disfarça. Ao longo do ano, veste-se e despe-se conforme lhe apetece. Usa demasiada maquilhagem, que o Tejo não é nenhum espelho, além de que a vista e a mão lhe escapam com os séculos. Faz ela muito bem. Quando se livra por fim dos veraneantes, recosta-se nas colinas e mascara-se de cortesã. Acorda muito devagar. Está escuro até tarde antes de mudar a hora para o ciclo natural do planeta, que é o do Inverno. O céu é de seda em todos os tons de rosa e os jacarandás, baralhados com o hemisfério, voltam a florir. Os pássaros e as pessoas sonhamos com madrugadas frescas, mas ainda está calor. Lisboa finge que é doce, nesta altura. Lisboa só sabe ser luz que cega, metade do tempo. Na outra metade chove sem clemência, inunda, imunda, desespera. Como lisboetas, somos negacionistas do mau tempo, suportamos molhas como se fossem o pagamento da promessa que fizemos ao deus do clima supostamente temperado. Em outubro, a nossa fidelidade é retribuída com a beleza fugaz de umas quantas madrugadas.


Sem disfarces, no Largo:

Apanhada na curva

A Gata Christie

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17 outubro 2025

Pulso

Deitada na marquesa, a fome a dar sinais do avançado da hora. Mais que o desconforto, a estranheza de estar num gabinete minúsculo sem janelas com um médico, uma enfermeira e uma colega de equipa com quem nunca trocara mais de 3 palavras mas de quem fiquei a saber a data da menarca (ah, a informalidade portuguesa), estico o braço para a maquineta da tensão arterial e dou o peito aos elétrodos do eletrocardiograma. De novo, a piada acerca do quão mais fácil isto é por não ter pelos no peito. Sorriso amarelo, olhos no teto, escapo-me ao síndrome da bata branca e apresento tensões de passarinho e pulso de atleta. Como a vida é injusta, outra colega de equipa, por sinal campeã nacional de ultra-longa distância, chumba no teste. Como recorda a Inês Maria Meneses, o coração ainda bate e o meu bate devagarinho, com pressa de nada. Não ganho nenhuma corrida, ganhei um lindo atestado.


Até à publicação deste post não foram detetados batimentos cardíacos às minhas colegas do Largo, mas pode ser que se animem:

Apanhada na curva

A Gata Christie

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10 outubro 2025

Como cão e gato

Não sei como é que uma pessoa sem irmãos aprende a conflituar. Os irmãos servem para inúmeras coisas, como percebermos que os nossos pais também dão atenção a outras pessoas (!) e o haver injustiças atrozes sem solução no mundo, ou seja, eles serem culpados de algum crime pelo qual pagamos nós as favas. Mais recentemente, percebi que os irmãos também podem ser um alicerce quando os pais se separam, as casas duplicam e a vida passa a ser feita entre idas e vindas, com rotinas mais ou menos diferentes. Os meus filhos queixam-se por vezes que são os únicos que têm de se aturar sempre um ao outro. É verdade. Em ambas as casas partilham quarto e têm de sobreviver ao facto de um ser arrumado e o outro caótico, já para nem falar em clubes de futebol. Provocam-se. Vingam-se. Degladiam-se a propósito das maiores minudências. Conhecem como ninguém as fraquezas um do outro. Tudo contra a educação plácida e cristã que lhes incuti desde o berço. Mas, se o objetivo é criar seres humanos sem receio de fazer ouvir a sua voz mas com a capacidade de ouvir o outro e de o defender, em caso de ataque externo, vamos no bom caminho (ou é nisso que tenho de acreditar, pronto, não me desfaçam os sonhos).

Como cão e gato já se pegaram também estas companheiras do Largo:

A Marisa (spoiler, o Perinha voltou!)

A Carla

A Helena


26 setembro 2025

Alma minha

Camões continua a ter má fama entre os adolescentes de agora, como tinha quando andei na escola secundária. Que mania esta a de chatear o Camões. Há tantos outros homens palavrosos e imprudentes com quem podemos implicar. Não sei bem quando passou de moda porque até foi um rei adolescente quem decretou que o nosso bardo tinha direito a uma pensão anual pela publicação d'Os Lusíadas. Não seria grande quantia mas, ainda assim, era mais do que recebiam as damas de honra do Paço. Quão incrível é que já tenha havido gente cujos rendimentos provinham de ser poeta ou companhia? A minha alma fica parva ao constatar que algumas coisas mudam tanto, ou nem por isso. A verdade é que me espanto igualmente que hoje haja quem pague as contas mostrando quatro tonalidades de batons em vídeos de alguns segundos. A minha alma imortal anseia pela imaterialidade mas também não escapa aos constrangimentos terrenos enquanto habita este corpo. Nem aos prazeres, felizmente.


Almas minhas gentis que ainda não se partiram:

A Curva

A Gata Christie

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Quinta da Cruz da Pedra

19 setembro 2025

Mentir com quantos dentes tem na boca

"Consegues mentir-me?", perguntei ao ChatGPT. "Consigo, mas não vou — o meu trabalho é ser preciso, claro e honesto consigo. Se estiver a pensar em hipóteses, ficção, dramatização ou testar limites, terei todo o prazer em participar — desde que seja claro que não estamos a lidar com factos do mundo real nem a enganar ninguém. Quer explorar um cenário?"

Isto é muitas coisas, mas não é inteligência artificial. Ao mesmo tempo que me diz que não vai mentir, desfia um rol de aldrabices. O "trabalho" dele? Por acaso produz alguma coisa socialmente válida? Cansa-se? Faz planos para ir de férias ou diz mal dos colegas irritantes? Não é trabalho. Terá "todo o prazer em participar"? Alguma vez bebeu de uma fonte depois de correr 4 horas na montanha? Ouviu as primeiras gargalhadas de um filho? Apanhou sol depois de um Inverno inteiro de chuva? Não sabe o que é prazer. Propõe "lidar com factos do mundo real", quando o mundo está surreal?

Se estas ferramentas não podem mentir, não é por não terem recebido os prompts certos. Mentir é uma fratura num contrato moral, coisa que só é possível estabelecer entre humanos. Mentir pode tornar-se num dos últimos atos de rebeldia. Mentir de boca cheia é uma vergonha e um alívio, é uma festa dos sentidos. Não minto porque não quero, mas posso. Minto. Quase não minto. Agora estou a dizer a verdade.

As minhas Pinóquias de estimação:

Apanhada na curva

A Gata Christie

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12 setembro 2025

Revolução

A verdade é que cresci com medo da revolução. Todas as células do meu corpo anseiam pela ordem e previsibilidade. Em minha casa, na infância, não passava Zeca Afonso nem Sérgio Godinho. Abril era o mês de muitos aniversários, até do meu, mas nunca foi sinónimo de libertação. O 25 era de novembro. O vermelho, encarnado. A reforma, pensão. Revolucionar o pensamento, transfigurar a reação ao que significa reação pode ser, e foi no meu caso, um processo retardatário que ainda está em curso. Podia dizer que foi um amigo, um momento, uma situação em particular que fizeram o clique e me abriram os olhos à necessidade absoluta de revolução, mas até isso foi progressivo. Para sermos revolucionários, temos de estar desesperados ou ser extremamente generosos com os que não têm as mesmas vantagens que nós. Precisei de cultivar essa generosidade com a escuta atenta à ausência – de direitos, de voz, de oportunidades – porque os gritos e as reivindicações podem ter o efeito oposto ao pretendido. Se calhar é por isso que sei que a revolução de agora tem de ser diferente das outras, porque os mesmos de sempre já estão convencidos. Confio no poder da arte e do humor, só alguma coisa que nos apanha desprevenidos consegue fazer-nos mudar de ideias. Estou disposta a pintar cartazes, a dar coro a novos hinos e a fazer todas as figuras tontas que ajudarem a desfazer o siso instalado. Mas eu sozinha não consigo. Onde e quando nos encontramos?