21 novembro 2025

Bode expiatório

Refastelada no sofá em frente à televisão, estava ontem a ver o Jeremy Clarkson a medir o perímetro dos testículos de alguns carneiros antes de decidir quais ia comprar para a sua quinta. Lembrei-me que hoje tinha de escrever sobre bodes. Para quem tenha curiosidade: ambas as espécies os têm de uma dimensão (25 cm) e eficiência (1 para 40) que impressionam. Mas não pensem que as respetivas ovelhas e cabras lhes ficam atrás em termos de capacidade reprodutora, de trabalho e de destruição. Este fetiche urbanita por animais de pastoreio terá várias explicações possíveis. Hoje vou deixar-vos em paz com as citações bíblicas, descansem. Bastam as características que atrás elenquei para justificar como é fácil despejarmos responsabilidades por alguma coisa que corre mal sobre os nossos semelhantes. Só aquele que podia quase ser eu pode arcar com a culpa e a consequência de um delito cometido por mim. Se esse aquele for chifrudo, cheirar mal e estiver coberto de pelo, é praticamente como se nem tivesse sido eu, mas o maligno que me tentou. Bodes expiatórios, sempre os houve, poucas coisas há mais humanas do que sacudir a água do capote.

Outras cabritas:

Apanhada na curva

Boas intenções


14 novembro 2025

Ainda estou aqui

Ainda estou aqui, sussurrou a dor de cabeça com que me deitei, na manhã seguinte. Ainda estou aqui, a pedra dentro da bota acabada de descalçar, show de equilibrismo no caminho para o trabalho. Ainda estou aqui, os residentes do Bairro do Talude, em tendas, abrigos improvisados imagino que sem recurso ao cartão dos outdoors da campanha do presidente da câmara. Também ele ainda está lá. 

Quase nunca funciona, a técnica de esperar que passe. Fingimo-nos de mortos. Entreabrimos um olho, ah!, continua o inconveniente que nos obriga a tomar uma atitude. O risco no pára-choques, porque a chapa não se cura como a pele. A desilusão com quem traiu, porque perdoamos mas não esquecemos. Nada se perde, tudo se transforma e muito se mantém por mais que o tentemos ignorar. Gosto muito do episódio contado por São Lucas em que uma viúva vai chatear um juíz para a porta de casa dele, à noite. Tanto o azucrina que ele lhe faz a vontade só para não ser importunado. Esta influencer bíblica devia ter mais seguidores mas calculo que, já na altura, as mulheres de meia idade e poucos recursos não captassem a atenção a menos que fizessem uma barulheira desgraçada. Ando a reunir coragem para fazer o mesmo mas detesto incomodar.


Ainda estão aqui também:

Apanhada na curva


12 novembro 2025

Fúrias

Enquanto me enfurecer com os meus pais, eles permanecem jovens. À mesa, ao telefone, no hall de entrada da casa deles e que nunca foi minha, a hiper-reação às piadas intolerantes, à solicitude excessiva, mantêm o sangue a pulsar nas artérias da nossa relação familiar. Mantem-me dependente, subjugada à sua superior experiência, e a eles como conhecedores do mundo, cuidadores, amparo com que posso contar. Para reconhecer que os meus pais já não são mais capazes que eu em quase tudo, teria de os ver com uma compaixão desarmante de todas as fúrias. Esse é um luxo do qual não estou preparada para abdicar.


Furibundas do Largo:

Apanhada na curva

Boas Intenções

24 outubro 2025

Máscara

Esta cidade é uma grande vaidosa e nem disfarça. Ao longo do ano, veste-se e despe-se conforme lhe apetece. Usa demasiada maquilhagem, que o Tejo não é nenhum espelho, além de que a vista e a mão lhe escapam com os séculos. Faz ela muito bem. Quando se livra por fim dos veraneantes, recosta-se nas colinas e mascara-se de cortesã. Acorda muito devagar. Está escuro até tarde antes de mudar a hora para o ciclo natural do planeta, que é o do Inverno. O céu é de seda em todos os tons de rosa e os jacarandás, baralhados com o hemisfério, voltam a florir. Os pássaros e as pessoas sonhamos com madrugadas frescas, mas ainda está calor. Lisboa finge que é doce, nesta altura. Lisboa só sabe ser luz que cega, metade do tempo. Na outra metade chove sem clemência, inunda, imunda, desespera. Como lisboetas, somos negacionistas do mau tempo, suportamos molhas como se fossem o pagamento da promessa que fizemos ao deus do clima supostamente temperado. Em outubro, a nossa fidelidade é retribuída com a beleza fugaz de umas quantas madrugadas.


Sem disfarces, no Largo:

Apanhada na curva

A Gata Christie

Boas intenções

Dois dedos de conversa

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Quinta da Cruz da Pedra

17 outubro 2025

Pulso

Deitada na marquesa, a fome a dar sinais do avançado da hora. Mais que o desconforto, a estranheza de estar num gabinete minúsculo sem janelas com um médico, uma enfermeira e uma colega de equipa com quem nunca trocara mais de 3 palavras mas de quem fiquei a saber a data da menarca (ah, a informalidade portuguesa), estico o braço para a maquineta da tensão arterial e dou o peito aos elétrodos do eletrocardiograma. De novo, a piada acerca do quão mais fácil isto é por não ter pelos no peito. Sorriso amarelo, olhos no teto, escapo-me ao síndrome da bata branca e apresento tensões de passarinho e pulso de atleta. Como a vida é injusta, outra colega de equipa, por sinal campeã nacional de ultra-longa distância, chumba no teste. Como recorda a Inês Maria Meneses, o coração ainda bate e o meu bate devagarinho, com pressa de nada. Não ganho nenhuma corrida, ganhei um lindo atestado.


Até à publicação deste post não foram detetados batimentos cardíacos às minhas colegas do Largo, mas pode ser que se animem:

Apanhada na curva

A Gata Christie

Boas intenções

Dois dedos de conversa

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Quinta da Cruz da Pedra

10 outubro 2025

Como cão e gato

Não sei como é que uma pessoa sem irmãos aprende a conflituar. Os irmãos servem para inúmeras coisas, como percebermos que os nossos pais também dão atenção a outras pessoas (!) e o haver injustiças atrozes sem solução no mundo, ou seja, eles serem culpados de algum crime pelo qual pagamos nós as favas. Mais recentemente, percebi que os irmãos também podem ser um alicerce quando os pais se separam, as casas duplicam e a vida passa a ser feita entre idas e vindas, com rotinas mais ou menos diferentes. Os meus filhos queixam-se por vezes que são os únicos que têm de se aturar sempre um ao outro. É verdade. Em ambas as casas partilham quarto e têm de sobreviver ao facto de um ser arrumado e o outro caótico, já para nem falar em clubes de futebol. Provocam-se. Vingam-se. Degladiam-se a propósito das maiores minudências. Conhecem como ninguém as fraquezas um do outro. Tudo contra a educação plácida e cristã que lhes incuti desde o berço. Mas, se o objetivo é criar seres humanos sem receio de fazer ouvir a sua voz mas com a capacidade de ouvir o outro e de o defender, em caso de ataque externo, vamos no bom caminho (ou é nisso que tenho de acreditar, pronto, não me desfaçam os sonhos).

Como cão e gato já se pegaram também estas companheiras do Largo:

A Marisa (spoiler, o Perinha voltou!)

A Carla

A Helena


26 setembro 2025

Alma minha

Camões continua a ter má fama entre os adolescentes de agora, como tinha quando andei na escola secundária. Que mania esta a de chatear o Camões. Há tantos outros homens palavrosos e imprudentes com quem podemos implicar. Não sei bem quando passou de moda porque até foi um rei adolescente quem decretou que o nosso bardo tinha direito a uma pensão anual pela publicação d'Os Lusíadas. Não seria grande quantia mas, ainda assim, era mais do que recebiam as damas de honra do Paço. Quão incrível é que já tenha havido gente cujos rendimentos provinham de ser poeta ou companhia? A minha alma fica parva ao constatar que algumas coisas mudam tanto, ou nem por isso. A verdade é que me espanto igualmente que hoje haja quem pague as contas mostrando quatro tonalidades de batons em vídeos de alguns segundos. A minha alma imortal anseia pela imaterialidade mas também não escapa aos constrangimentos terrenos enquanto habita este corpo. Nem aos prazeres, felizmente.


Almas minhas gentis que ainda não se partiram:

A Curva

A Gata Christie

Boas intenções

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Quinta da Cruz da Pedra

19 setembro 2025

Mentir com quantos dentes tem na boca

"Consegues mentir-me?", perguntei ao ChatGPT. "Consigo, mas não vou — o meu trabalho é ser preciso, claro e honesto consigo. Se estiver a pensar em hipóteses, ficção, dramatização ou testar limites, terei todo o prazer em participar — desde que seja claro que não estamos a lidar com factos do mundo real nem a enganar ninguém. Quer explorar um cenário?"

Isto é muitas coisas, mas não é inteligência artificial. Ao mesmo tempo que me diz que não vai mentir, desfia um rol de aldrabices. O "trabalho" dele? Por acaso produz alguma coisa socialmente válida? Cansa-se? Faz planos para ir de férias ou diz mal dos colegas irritantes? Não é trabalho. Terá "todo o prazer em participar"? Alguma vez bebeu de uma fonte depois de correr 4 horas na montanha? Ouviu as primeiras gargalhadas de um filho? Apanhou sol depois de um Inverno inteiro de chuva? Não sabe o que é prazer. Propõe "lidar com factos do mundo real", quando o mundo está surreal?

Se estas ferramentas não podem mentir, não é por não terem recebido os prompts certos. Mentir é uma fratura num contrato moral, coisa que só é possível estabelecer entre humanos. Mentir pode tornar-se num dos últimos atos de rebeldia. Mentir de boca cheia é uma vergonha e um alívio, é uma festa dos sentidos. Não minto porque não quero, mas posso. Minto. Quase não minto. Agora estou a dizer a verdade.

As minhas Pinóquias de estimação:

Apanhada na curva

A Gata Christie

Boas intenções

Dois dedos de conversa

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Quinta da Cruz da Pedra

12 setembro 2025

Revolução

A verdade é que cresci com medo da revolução. Todas as células do meu corpo anseiam pela ordem e previsibilidade. Em minha casa, na infância, não passava Zeca Afonso nem Sérgio Godinho. Abril era o mês de muitos aniversários, até do meu, mas nunca foi sinónimo de libertação. O 25 era de novembro. O vermelho, encarnado. A reforma, pensão. Revolucionar o pensamento, transfigurar a reação ao que significa reação pode ser, e foi no meu caso, um processo retardatário que ainda está em curso. Podia dizer que foi um amigo, um momento, uma situação em particular que fizeram o clique e me abriram os olhos à necessidade absoluta de revolução, mas até isso foi progressivo. Para sermos revolucionários, temos de estar desesperados ou ser extremamente generosos com os que não têm as mesmas vantagens que nós. Precisei de cultivar essa generosidade com a escuta atenta à ausência – de direitos, de voz, de oportunidades – porque os gritos e as reivindicações podem ter o efeito oposto ao pretendido. Se calhar é por isso que sei que a revolução de agora tem de ser diferente das outras, porque os mesmos de sempre já estão convencidos. Confio no poder da arte e do humor, só alguma coisa que nos apanha desprevenidos consegue fazer-nos mudar de ideias. Estou disposta a pintar cartazes, a dar coro a novos hinos e a fazer todas as figuras tontas que ajudarem a desfazer o siso instalado. Mas eu sozinha não consigo. Onde e quando nos encontramos?


01 agosto 2025

Tenho sítios para ir

Estou a tentar decorar o salmo 91 para o proclamar aos miúdos quando for ter com eles à prancha de stand up paddle nas próximas semanas. Funciona assim: eles afastam-se da costa (dos pais), vão até à última bóia, prendem as traquitanas todas e ficam para lá uns bons tempos à conversa, a nadar, a mergulhar, a tratar de assuntos adolescentes. Sabem que, tarde ou cedo, eu entro no mar e vou a nadar até eles. Quando chego a distância segura mas suficiente para que me ouçam, anuncio a Palavra. Sempre a mesma naquelas férias, alguma coisa há de ficar. Depois deixo-os em paz e volto. É mais fácil na maré vazia e quando não estão muitas ondas. 
Isto para dizer que até a oração pode ser movimento, como bem sabem os nossos irmãos judeus. A poesia, então, nem se fala. Tenho sítios para ir e coisas para fazer, quando não tiver, não serei mais eu. Fiquem com um bocadinho de Walt Whitman, que não sei de cor, a minha memória nunca recuperou das gravidezes. E boas férias.

Song of the Open Road

Afoot and light-hearted I take to the open road,
Healthy, free, the world before me,
The long brown path before me leading wherever I choose.
Henceforth I ask not good-fortune, I myself am good-fortune,
Henceforth I whimper no more, postpone no more, need nothing,
Done with indoor complaints, libraries, querulous criticisms,
Strong and content I travel the open road.
The earth, that is sufficient,
I do not want the constellations any nearer,
I know they are very well where they are,
I know they suffice for those who belong to them.
(Still here I carry my old delicious burdens,
I carry them, men and women, I carry them with me wherever I go,
I swear it is impossible for me to get rid of them,
I am fill’d with them, and I will fill them in return.)

As minhas parceiras de caminho:

Apanhada na curva

A Gata Christie

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Panados e arroz de tomate

Quinta da Cruz da Pedra

18 julho 2025

Pôr o pé em ramo verde

Como praticante de corrida nos trilhos, esta expressão tem um sentido bastante literal para mim. Ponho montes de vezes o pé em ramo verde, o que desaconselho. Os ramos - verdes ou maduros - costumam ser bastante escorregadios, sobretudo quando choveu ou está aquela humidade de madrugada, tão portuguesa. O mesmo se passa com a pedra. É de evitar. Aqui tenho de fazer distinção entre vários tipos de rocha. Dos meus estudos de geologia com os pés, posso dizer-vos que o xisto é um escorrega, o calcário, depende, o arenito é tranquilo, e o granito costuma ser gerível, sobretudo quando coberto de líquenes. Adoro líquenes. Onde é mesmo, mesmo bom correr é sobre a caruma de um trilho cheiroso de Verão, por entre a sombra das árvores, sem demasiadas raízes nem silvas que cresceram de forma descontrolada. Maravilhoso é o percurso que sobe ligeiramente a encosta de uma montanha e onde vamos acompanhando a mudança da paisagem, até para lá da linha das árvores, rodeado do dorso azul das cordilheiras em volta. Se é para continuar a sonhar, com neve no topo e um lago lá em baixo. Gostava de conseguir transmitir a sensação de transe de passar horas sem fim a pôr um pé à frente do outro, uma atividade absolutamente inútil, dançar com a maior leveza do mundo, tudo nosso, mas acho que é preciso experimentá-la. Experimentem.

As minhas companheiras do Largo dizem outras coisas sobre pés em ramos verdes, aqui:

Apanhada na curva

A Gata Christie

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Panados e arroz de tomate

Quinta da Cruz da Pedra

11 julho 2025

Terapia

Lembro-me que, quando fiz terapia, fiquei um pouco desiludida por não poder culpar a infância de todas as minhas angústias. É isso que nos vendem e, ainda assim, há tanto mais. Antes de escrever este texto, fui consultar as notas que tomava à saída do gabinete da Rua do Ouro. Agora, não percebo quase nada dos tópicos que sublinhei, mal reconheço os dilemas e as epifanias. No entanto, essas sessões foram fundamentais naquela altura da vida. A terapia é como estar no alto de uma montanha a gritar, só que o eco que nos é devolvido não é uma repetição, são perguntas. Talvez as respostas que encontramos sejam as que fazem sentido naquele momento em particular. Talvez boa parte do alívio venha do próprio ato de transformar emoções em palavras partilhadas. Não nos livramos das emoções mas puxamos o fio do novelo, desarrumamos tudo, com jeito e umas agulhas, sai dali um casaco de malha.

Todas as pessoas mentalmente sãs que conheço beneficiaram de terapia, quando encontraram o terapeuta certo. Gostava de dizer que o mesmo se aplica às pessoas doentes. Mas a verdade é que algumas pessoas (já) não têm força nem para trepar a esse penedo. Aquilo que me levaria agora de novo à terapia é a impotência esmagadora de ter pessoas assim à minha volta e não poder ajudá-las. Se calhar fazia-me bem marcar uma consulta.

Noutros divãs:

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A Gata Christie

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Panados e arroz de tomate

Quinta da Cruz da Pedra

04 julho 2025

Salvação

Não sei se isto também vos acontece. Tenho muito mais fé na salvação daquilo que é meu do que no que é dos outros. No meu SCOBY, que este ano ainda não produziu uma kombucha decente, se for honesta, mas não desisti dele. Na propagação da begónia que apanhou calor a mais e é claro que não vai vingar (stop watering dead plants!). No meu primeiro casamento. No vestido que tingi 3 vezes mas não vai deixar de ser alaranjado. Nos bolos que ficaram demasiado tempo no forno. Na minha relação com uma colega de trabalho. No Futebol Clube do Porto com o plantel atual. Enquanto há vida, há esperança. Na verdade, até para a morte há salvação, para quem acredita. 

27 junho 2025

Não bebo cerveja

No país em que quase tudo gira em torno dos comes e bebes, assumir-me não consumidora cerveja é o equivalente a ser a única menina no infantário que não tinha cuecas com bonequinhos, por isso tenho experiência. A cerveja é cereal, é fermentação, é frescura, é verão, tem tudo para eu gostar dela. Já dei para esse peditório, agora só me faz mal. O que importa é que hoje é o quadragésimo aniversário do meu maninho querido e por isso, em lugar de uma imperial ou de um fino (estou a adivinhar que esse debate será tema de outras autoras deste coletivo), talvez beba uma champanhota.

Apreciadoras de uma fresquinha:

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A Gata Christie

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Panados e arroz de tomate

Quinta da Cruz da Pedra

19 junho 2025

Caramelo

É mais difícil acertar no ponto do caramelo, agora que estraguei o termómetro de cozinha, mas continuo a prepará-lo de cada vez que terminamos uma temporada de uma das séries que vemos em família. Requer paciência, raspar os grãos de açúcar que ficaram acima da linha de água, no tacho, ir mexendo sem perturbar a superfície até chegar à altura de juntar a manteiga, o sal e as natas frias (uso iogurte grego). Criei esta tradição do caramelo porque sou gulosa e porque acabo por inventar trabalho na cozinha, apesar da minha parca domesticidade. Nem sequer tenho assim tanto amor à rotina. Preciso que estas coisas pequenas, mas previsíveis, ocupem espaço na história da minha família. Não quero correr o risco de olhar para trás e ver só divórcio, confinamentos, doenças, mortes, os fantasmas da quase guerra. Se calhar é por ler demasiados romances que não consigo não ter uma noção de narrativa do dia-a-dia. Cada vez me interesso menos pelo que não é ficção. Faço caramelo salgado para cobrir pipocas e sento-me no chão da sala enquanto os de sempre lutam pelo canto do sofá. Nessa altura, está tudo no seu lugar. No filme 'Adaptation', que vi recentemente, um guru do guionismo alertava contra as histórias sem drama e resolução. Pois sim, este é o meu enredo e será tão previsível e sem sobressaltos quanto estiver nas minhas mãos.

As outras doçuras:

Apanhada na curva

A Gata Christie

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Panados e arroz de tomate

Quinta da Cruz da Pedra

13 junho 2025

Não somos iguais

Bem-aventurados os vulneráveis, porque lhes será estendida uma mão. Bem-aventurados os curiosos, a quem será dada a eterna descoberta. Bem-aventurados os perseguidos, possam logo crescer-lhes asas. Bem-aventurados os tontos de amor, a quem será dada a comunhão. Bem-aventurados os que têm fome e sede de quem grite onde todos fazem silêncio. Bem-aventurados seremos quando, incompreendidos, banidos das redes sociais e dos jantares de família, não compactuarmos com as vozes que teimam que não somos iguais, porque a igualdade não está na origem, mas no cumprimento do sonho.

Todas diferentes, todas semelhantes:

Apanhada na curva

A Gata Christie

Boas intenções

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Panados e arroz de tomate

Quinta da Cruz da Pedra

06 junho 2025

Terra (e criança)

Uma criança brinca sozinha, de cócoras, enquanto esgravata o solo. Risca e alisa, ignora que, no final do dia, lhe vão esfregar as unhas a escova e sabão. É a mesma criança que se há de deitar na terra a olhar para as nuvens. Faz a experiência ancestral do conhecimento pelo toque. Testa a textura dos torrões, tenta pinçar uma formiga. Coleciona sementes, faz festinhas na erva. Bichos-de-conta para tantas horas de recreio, uma vida novinha em folha. Ser terra-a-terra é não deixar que o vento disperse essa herança. A corrente que prende a âncora de um navio ao fundo do mar precisa de ser móbil mas sólida. A corrente que prende a divagação à essência do que somos agarra-se à terra com mãos e pés que aprenderam desde cedo a dar de si, ou a enfiar os dedos mais fundo, quando é preciso.

Outras terráquias de cabeça no ar:

Apanhada na curva

A Gata Christie

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Dois dedos de conversa

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Panados e arroz de tomate

Quinta da Cruz da Pedra

23 maio 2025

Pantufas

Milénios de conflitos religiosos, de fome, desigualdades. As mesmas vítimas de sempre criando novas gerações de vítimas em potência. Os boletins de voto que servem para apedrejar, de repente só os outros têm telhados de vidro. A cegueira do privilégio, interrompida, a espaços, por raios de consciência sobre a dor dos outros, sobre a qual podemos tão pouco. Go fund me e alguém que salve o outro. O tempo que anda à roda, as notícias que não conseguimos ler. A informação a que não conseguimos chegar no meio das torrentes de dados. E hoje a rádio a falar da cria de urso resgatada por um centro de acolhimento em San Diego, em que os tratadores se mascaram para que o animal recupere sem se afeiçoar aos humanos. Tanta, tanta força para não abrir a janela do carro e gritar de absurdo. Porque, apesar de tudo isto ser História, e quase nada de novo, é a nossa história. Há só um tanto que podemos deixar-nos estar sentados no sofá a fazer scroll, de pantufas.


Outros modelos de pantufa disponíveis em:

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Panados e arroz de tomate

Quinta da Cruz da Pedra

16 maio 2025

Água mole em pedra dura

 

imagem gentilmente cedida pelo meu esposo
Que bonita é esta embalagem de perfume. Quanto do perfume que escolhemos tem a ver com o aroma e quanto é que tem a ver com o que a marca nos quer dizer acerca de como comprar aquilo nos vai fazer sentir, o que dirá da nossa identidade? Tinha decidido que esta publicação não teria deriva anti-capitalista, falhei.

Começo de novo. Na praia onde vou há 30 anos, no Algarve, há uma pedra solitária a cerca de uma milha da ponta oeste do areal. Ou, antes, havia. Nos anos 90, ficava numa zona sem banhistas. Nos dias em que os meus pais estavam fartinhos de nós e queriam fazer a sesta a seguir ao almoço, deixavam-me levar o meu irmão e as minhas primas, todos mais novos, de barco inuflável até à pedra. Brincávamos à Lagoa Azul (menos a nudez infantil e as tartarugas marinhas). Eu fantasiava com nunca mais ter de estudar matemática. Rondávamos a pedra a medo, na maré baixa. Porque a verdade é que, quando a maré subia, as ondas quase sempre modestas daquela baía contornavam toda a pedra e deixávamos de poder chegar-lhe.

Nos anos 2000, essas mesmas ondas modestas conseguiram rachar a pedra. Alguns veraneantes, fartos dos magotes de turistas alemães que aterravam naquela praia, passaram a levar toalha e farnel para junto da pedra. O segredo ficou a descoberto, as minhas primas nunca mais vieram passar férias connosco, mas levei lá duas amigas na primeira viagem só com elas. E última, agora que penso nisso.

Nos anos 2010, a pedra desfez-se um pouco mais. Passou a ser o extremo oriente da praia dos meus filhos pequeninos. Ir correr até à pedra era a maior distância que eles concebiam. A pedra é testemunha da sobrevivência a essa época em que o meu traseiro não há de ter passado mais do que 10 minutos sentado na toalha.

Ainda hoje não tenho toalha de praia. Nos anos 2020, os meus filhos não usam as deles, tenho toalhas que bastem para ler livros de rajada, apanhar sol virada para cima e para baixo, ir ao banho sem me preocupar. Mas a parte melhor de ter filhos adolescentes é ainda irmos todos a correr até às pedras, eles ganharem e ainda ficarem muito contentes com a proeza. Quando as pedras forem areia e já não conseguir correr, ponho-me a boiar nas ondas modestas. Deixá-las fazer o trabalho delas.

As minhas companheiras de erosão:

A Curva
A Gata Christie
Boas Intenções
Dois Dedos de Conversa
O blog azul turquesa
Panados e Arroz de Tomate
Quinta da Cruz de Pedra

09 maio 2025

Meter água

Os yolles de quatro em que remava (ou timonava, se havia cinco raparigas e as outras eram mais fortes que eu) metiam bastante água, se bem me recordo. Uma ou outra tainha do Tejo também, elas devem andar um bocado dopadas e saltam sem aviso, a avaliar pela composição química dos nossos esgotos. Mas isto para dizer que meter água não é necessariamente uma coisa má. Até há aquele princípio em relação às crianças que aconselha a meter água se estiverem rabujentas, seja pela via do copo, da banheira ou da mangueirada. Meter água é das coisas mais humanas que há. O corpo humano é tanto mais saudável quanto maior a percentagem de sangue (ou seja, água com coisitas vermelhas misturadas) a circular. Ou se calhar isso não é verdade e estou a meter água da maneira mais habitual, que é fazendo afirmações com aparente certeza e nenhuma pesquisa, também conhecido na minha família por "gralhar", daí o nome do blogue. Meter água e não tentar disfarçar com panos ou desculpas esfarrapadas é uma revolução contra um sistema que nos obriga a fingir proficiência o tempo todo. Deixemos crescer a infiltração da civilização. O que é estanque não é punk. Mais vale um deslize de boca do que uma consciência oca. Quem suportaria tantas campanhas eleitoriais se os nossos candidatos não fossem mestres nesta arte, afinal de contas?


As restantes adeptas do meter água: