14 Fevereiro 2012

vinte e seis anos e não sei quantos mil quilómetros de estilo

Como descrever a alegria de conduzir de novo o nosso primeiro automóvel? Imaginem uma gralha empoleirada num pequeno jipe verde, agarrando-se com unhas e dentes a um volante enorme sem direcção assistida, e com um sorriso rasgado que já não via a luz do dia desde a última vez que andou a tocar à porta dos vizinhos e a fugir muito depressa.
O meu jipe voltou. Aquele que a minha mãe empurrou, à chuva, connosco lá dentro, quando afogou o motor pela enésima vez (coitadinha). O transportador de mais de uma vintena de miúdos a caminho das festas de aniversário. O veículo onde aprendi a conduzir aos 10 anos, aquele em que atravessei pela primeira vez a Ponte Vasco da Gama, o minúsculo tanque de guerra que me fez sentir poderosa, adulta!, quando saía das aulas da universidade e tudo era ainda possível. É nosso de novo, com todas as suas quatro velocidades, atingindo a loucura dos 110 quilómetros/hora (em descida), uma buzina de camião TIR e muito, muito charme. Os meus filhos ainda hão de conduzir aquele jipe, queira o bicho da ferrugem poupá-lo só um pouco mais. E assim se vê que poucas coisas me fazem tão bem como viajar no tempo.

13 Fevereiro 2012

seguro social faz-de-conta-que voluntário

O frio lá de fora vai-se tornando mais apetecedor à medida que as horas avançam e o ambiente, cá dentro, aquece e embacia as minhas lentes de contacto. Já li quase 300 páginas e começa a ser difícil abstrair-me do que me rodeia: a Carolina; a Avó da Carolina, que guincha a chamar a neta de minuto a minuto; a senhora do meu lado esquerdo, com um impossível mau hálito mesmo de boca fechada; o senhor do lado direito, cujo cabelo não vê champô desde o ano passado; a desempregada que chora; o velhote adormecido; muita, muita gente à conversa, ao telemóvel, a ver a Praça da Alegria, a espreitar o meu livro - mais ninguém a ler, como é possível? -, a folhear a Maria, a limpar as unhas. Alguém comenta a "guerra civil lá na Grécia" e sugere que falta o mesmo por cá. Alguém que, como eu, está a passar a manhã numa cadeira de plástico para pedir um papel. Para se encostar mais um pouco a um sistema de protecção social que parece ser direito incontestável de nascença. Vou lá fora comer duas queijadas e beber uma bica queimada. Volto e alegro-me porque já vai na senha 61. Só estive lá 3 horas e resolvi o problema à primeira. A nossa eficiência burocrática aproxima-se incontestavelmente dos níveis da Europa-de-cabelos-louros. Há esperança de continuarmos todos a ter repartições, subsídios, bodes expiatórios durante mais uns bons tempos. Mesmo que tenhamos de ouvir dizer que somos piegas.

10 Fevereiro 2012

sim, é possível

Uma das consequências de gostar mesmo do trabalho que fazemos é a diminuição do apelo da blogosfera. Facebook, então, nem vê-lo. Gosto das mesmas pessoas mas perco-me menos à procura de outras coisas quando há tantos textos lindos para editar, tantos erros absurdos para corrigir (e autores para insultar), tanto htmlzinho cheio de bugs para exterminar. A alegria no trabalho é uma coisa bonita. E até me esqueço que nunca hei de chegar a rica, por este caminho. Quero lá saber.

09 Fevereiro 2012

olha o livetan 500 mg ali a sorrir para mim

Afinal, a coisa que mais me arrelia na vida não são os taxistas nem os pivots da TVI; não, o que me descontrola mesmo os nervos é a lentidão impossível com que o Diogo leva à boca uma colher de iogurte. Um episódio da Casa do Mickey dá para umas 4 colheradas. Graças a Deus que as embalagens aqui são metade das americanas.

07 Fevereiro 2012

amizades

Sempre tive poucos amigos. Há um grupo de amigas que conservo há mais de dez anos e que nunca me falha. A mais nova tem mais de 60 anos, a mais velha aproxima-se disfarçadamente dos 90 - e ainda é a mulher que conheço que conduz melhor. Estiveram sempre comigo, mesmo quando estive longe. Houve um postal, houve uma carta, houve um email quando precisei e há sempre, sempre um abraço quando nos encontramos. Não passam o tempo todo a falar de doenças mas gostam de me contar as façanhas dos netos e as gracinhas dos bisnetos. Têm todas um coração de ouro. Vou vendo estas minhas amigas na minha Paróquia. E agora são também amigas dos meus filhos. Ontem passámos por uma delas (que estava com outra pessoa) e o Gugas parou e quis voltar atrás para ir dar-lhe um beijinho. São estas coisas que me fazem pensar que, no meio de um mundo com tanto sofrimento e tantas injustiças, ainda há muita Luz.

06 Fevereiro 2012

a minha cozinha

Nas fantasias milionárias de cada um de nós vestem-se marcas impronunciáveis, calçam-se sapatos de sola vermelha, circulam automóveis topo de gama e constroem-se moradias pós-modernas, decoradas a branco absoluto. Eu sonho apenas com uma coisa: uma cozinha nova.
Esta cozinha teria todos os equipamentos de última geração. Estaria permanentemente abastecida dos melhores produtos. Revestida a travertino, com iluminação inteligente sob os armários, sistema de limpeza automática e sistema integrado multimédia de origem nórdica. E nem uma migalha perturbaria a lisura da bancada.
Estou a mentir descaradamente. Desculpem lá mas estou-me a cagar para como seria a tal cozinha. O meu sonho era nunca mais pôr os pés numa cozinha. Nunca mais mexer em louça suja. Nunca mais abrir uma tábua de engomar. Nunca mais limpar o congelador. Nunca mais descascar uma cebola e, oh sim, nunca mais tirar a nhanha que sempre acaba por ir parar ao fundo do caixote do lixo. O meu sonho de rica é politicamente incorrecto. É uma criada. Muda, de preferência.

03 Fevereiro 2012

o meu bebé faz dois anos

O dia em que nasceste foi só nosso. Enquanto o teu pai e o teu irmão ouviam estórias na biblioteca, eu dancei em sossego até quereres vir cá para fora. E depois dormi contigo no meu peito. Foi tudo perfeito.Tenho saudades de te ter na maminha enquanto a neve caía lá fora. De resto, desculpa mas não tenho saudades de mais nada de quando eras pequenino. É muito melhor agora que és um bebé crescido, engraçado, surpreendente, pantomineiro e muito, muito espertalhão. É sem sombra de modéstia que afirmo que o mundo ficou um lugar melhor porque te gerámos. Mas o mérito de seres exactamente como és, esse é cada mais teu. Parabéns filhote bom.

Não sei o que aconteceu à primeira versão deste post... Puff, evaporou-se na blogosfera.