31 dezembro 2014

o melhor de 2014

2014 foi um gigante ponto de exclamação. Descobri muitas coisas bonitas e dei-me ao desfrute sem desculpas. Estive em sítios maravilhosos, consumi livros deliciosos, comecei a correr nos trilhos (pausa para suspiro de enamoramento), mimei e fui mimada pelos meus amores. Às vezes também :( e tive de abdicar de coisas importantes. Ainda assim, olhando para trás, foi um ano memorável e pelo qual me sinto muito grata.

Como já vem sendo hábito, para recordação futura, deixo o melhor dos meus últimos doze meses:
Melhor refeição: almoço no Fragoletta, em Mântua, a 30 de Agosto.
Melhor mergulho no mar: ao fim da tarde na Playa Blanca, Cahuíta, a 9 de Março.
Melhor gargalhada: A dos meus filhos, quando lhes contei a anedota do Cão Chamado Pilinhas. Sucessivas vezes.
Melhor livro: Infinite Jest, do David Foster Wallace. Apesar de ainda não ter terminado. E não recomendo a ninguém, é uma violência.
Melhor filme: Grand Budapest Hotel, do Wes Anderson.
Melhor música: The Mute, dos Radical Face (ou do Radical Face, que aquilo é só um senhor a fazer a festa). Ah, e o guilty pleasure tropicaliente: Darte un beso, do Prince Royce)
Melhor série: Transparent, da Jill Soloway.
Melhor momento: sobrevoaaaaaaaaaar a floresta de Monteverde de slide, a 4 de Março. Aliás, todos os momentos que passei na floresta, tropical ou temperada. Primeira resolução de 2015 – fazer de conta que sou um duende e mudar-me para dentro de um figueirão estrangulador.

Meus queridos, desejo-vos um próximo ano carregado de boas surpresas. E de ar fresco. E de prazeres multisensoriais. Se pudesse, dava-vos a todos un beso, que yo soy muito beijoqueira. Para mim vai ser um ano de mudança: certamente de casa, possivelmente de emprego e talvez até de país. Por isso, não percam os próximos episódios porque nós também não!

30 dezembro 2014

usar malhas de má qualidade dá nisto


A musica é mais ou menos. Não que alguém siga estes links. Menos eu, que sou uma pessoa de ouvido humilde, sempre disposta a acolher as vossas recomendações.

29 dezembro 2014

sagrada família

O problema não está na extinção da norma da família nuclear. A família sempre foi um organismo resistente e adaptável, lá vai arranjando configurações novas entre as várias gerações e ramos sob o mesmo tecto até às assoalhadas praticamente vazias, em que os laços se fazem mais de tempos do que de espaços partilhados. O problema nem está apenas na crescente institucionalização das franjas mais dependentes da família, caído em desuso que está o papel de cuidador(a) exclusivo(a). E também não podemos culpar a invasão das novas tecnologias à mesa, nas viagens, nas breves horas que passamos juntos, acordados. A dessacralização da família resulta de todas estas coisas mas sobretudo do abandono, mais ou menos consciente, da família como prioridade. Deixamos de regar essa planta porque a sua existência é amorfa e discreta, como é próprio das plantas. Não vale a pena cultivar a intimidade em pessoa se essa se encontra nas redes sociais. O que nos dá a família em troca de sacrifícios como o almoço semanal com os sogros? Aparentemente, muito pouco. A menos que acreditemos que, como uma planta, a família trabalha durante o nosso sono para fornecer oxigénio ao que nos estrutura como seres humanos. À forma como crescemos, ao que somos em adultos, ao que queremos transmitir às próximas gerações numa soma de afectos em que o todo é mais do que a soma das partes. Se calhar, aí está boa parte do segredo do triunfo da humanidade.

26 dezembro 2014

não querendo parecer alarmista

Acho que a Terra está a ser invadida por um exército de carros telecomandados.


24 dezembro 2014

sermos presépio

Ouvido na missa do último Domingo de Advento: temos de fazer-nos presépio. Isso envolve que cada um contribua com o que tem de único para acolher Deus que vem ter connosco. Não sei se é o Deus Criador da tradição judaico-cristã, se é o Bem encarnado em cada um de nós, com as nossas limitações. Se calhar é só uma esperança pequenina. Uma luz. Mas queria dizer-vos, a quem passa por aqui e vai comentando, que me acarinha, cada um de seu modo: obrigada. Vocês fazem um bocadinho de presépio também para mim. Tenham um Feliz Natal.

23 dezembro 2014

qual a mais longa palavra inglesa só com consoantes?

Já não saia à noite desde que o estatuto de Plutão era uma questão pacífica. É estanho andar pelas ruas a divertir-me, no meio da escuridão, e a seguir ir dormir - em vez de ser ao contrário. Noutros tempos, pagavam-nos bebidas para sermos giras e dançarmos. Ontem pagaram-nos as bebidas porque ganhámos o quiz. Cheguei na mesma a casa com o cabelo a cheirar a cinzeiro, andando nas pontas dos pés para não acordar os filhos, em vez dos pais. Já dizia a Cyndi que as meninas só querem é brincadeira. Sobretudo, gostei muito de estar à conversa com a Inesa e abrirmos o curral a todos os inconfessáveis que não costumamos sujeitar à permanência inclemente das redes sociais. Espero que da próxima vez o nosso cabelo não tenha crescido assim tanto.

Ah, é rhythms. Esta era fácil.

22 dezembro 2014

o meu passeio de bicicleta

Fui andar de bicicleta. Andar de bicicleta é muito divertido. Não tenho nenhuma mas a minha mãe é simpática e empresta-me a dela. Quando está muito frio as mãos demoram oito quilómetros a descongelar. Se a minha mãe tivesse luvas que eu pudesse pedir emprestadas era capaz de não ser tão mau para as mãos. Os pés não chegam a descongelar. Os joelhos também não mas isso é bom, despacha-se a crioterapia. Andar de bicicleta é bonito porque nas partes em que a ciclovia não tem pinázios, nem outros ciclistas, nem árvores, nem paragens de autocarro, nem garrafas de Super-Bock, nem cocós de cão (espero que de cão), posso ir a olhar para a vista. Estou a ficar muito boa a andar de bicicleta e já só houve uma vez em que travei e vi estrelas ao bater com o entrepernas no quadro. Consegui largar uma mão do guiador e tirar uma fotografia muito depressa. Porque estava parada nessa altura, claro. Andar de bicicleta é muito emocionante nas partes em que vou na estrada e vem um autocarro e o senhor condutor do autocarro fica indeciso se me dá espaço ou não, e depois decide que sim. Fico muito contente e vou o resto do caminho a cantar o Gloria In Excelsis Deo.

20 dezembro 2014

manias

Podia ter-me dado para estender a roupa só com molas da mesma cor mas deu-me para o verdadismo. Tentar dizer sempre a verdade, em vez de conceder pequenas mentiras, evitando arranjar desculpas, é um luxo do qual tento não abdicar. A quem alega que isso é impossível em certas circunstâncias respondo que há uma terceira via: o silêncio. É por isso que às vezes me calo, desapareço. O meu mutismo pode ser estranho mas é preferível a certas verdades. Dá direito a muitas interpretações erradas, sim, e estou disposta a pagar esse preço. Tem ainda o efeito secundário desagradabilíssimo de me fazer passar por misteriosa. Ser misteriosa é quase tão mau como ser mentirosa. Faz-me sempre lembrar aquele personagem do Brad Pitt no Burn After Reading, o que me dá, ao mesmo tempo, vontade de apalpar os meus próprios glúteos e de gozar com a minha imbecilidade. É a vida. Ser adulto é isto: fazer escolhas difíceis. Pelo menos foi o que tentei explicar ao meu filho de 4 anos, que não conseguia decidir se ficava em casa comigo ou se ia ao parque de diversões com os avós. Ele acreditou em mim, claro, porque sabe que eu lhe digo sempre a verdade.

19 dezembro 2014

por exemplo, aquelas pessoas que só nos mandam emails cujo assunto começa por Fwd:Fw:Fw

Em situações de desconforto, a minha mãe tende a sorrir muito e a sobre-elogiar as pessoas cuja conduta social é, na sua opinião, deficitária. Tenho de morder a bochecha para não me desmanchar nessas alturas. Se for em casamentos, aniversários, funerais, a coisa piora. Não sou menos snob, claro. Incomoda-me de igual modo o arroto triunfal de quem acabou de sorver a sopa. Mas mais aflitiva do que toda a falta de educação de raiz é a incapacidade que alguns revelam de aprender a convivialidade no tempo e no espaço em que se movem. Quase me fazem perder a compostura.

18 dezembro 2014

possivelmente o meu único post de 2014 alusivo a esta quadra

À procura do presente perfeito para o amigo secreto:

 

Profunda crise de Fé. Faltei a ambas as festas de Natal da escola dos meus filhos. As outras coisas todas que se arrastam. Não há condições.

17 dezembro 2014

de perna aberta

Existem poucas situações mais expostas do que aquela em que assentamos os pés nos estribos enquanto nos alumiam as caves com uma lanterna. Habituamo-nos, claro. A minha médica é profissional da velha guarda e até me trata as profundezas com, posso dizê-lo?, a ternura de quem já me conhece a anatomia de gingeira. Este carinho desprendido com que me palpa o útero pelo avesso contrasta, no entanto, com o olhar de viés da enfermeira. Há qualquer coisa de comum, intercontinental, nas enfermeiras que já me cobriram as riquezas ocultas com lençóis descartáveis. É uma espécie de mau-estar que se parece muito com ressentimento. Mas o que pode ter a minha pomba gloriosa que tanto as ofenda? O que há de hostil na minha orquídea selvagem para merecer um tratamento tão gélido? Não consigo adivinhar. Talvez seja só mania de perseguição. Talvez sejam elas que preferiam passar o dia a contemplar à distância outro tipo de orifícios mas as vagas de assistente de estomatologia já estavam todas preenchidas.

16 dezembro 2014

documentangário

Ainda não me passou completamente a irritação com que fiquei depois de ver um suposto documentário. Não vos conto qual porque me caem em cima, que toda a gente sabia que aquilo era treta e eu é que sou totó. Ora bem, esclareço que comecei a vê-lo a meio, com ampla companhia, e ninguém deu pela trapaça até bem perto do fim. Aliás, tivemos de ir pesquisar a coisa para comprovar que não era real.
Então onde é que começou a desconfiança? Na observação da minha prima bióloga de que havia ali falhas na descrição de características daquela superordem? No espanto do meu irmão gestor perante a lentidão da indústria cinematográfica em capitalizar aquela história? No silêncio do meu marido físico, que estava demasiado absorto nas piadolas do 9gag para reparar no nosso aparvoamento? Não, senhores. Foi esta socióloga que bradou o j’accuse quando começou a reparar que os participantes, vulgares cidadãos reunidos pela crueldade cega do acaso, eram todos bonitos, jovens, convenientemente sorridentes e cumprindo na perfeição os estereótipos associados aos respectivos papeis. É que a vida real tem pessoas velhas, feias, desengonçadas e com falta de dentes, senhores produtores da tanga. E por muito que andemos todos de smartphone a apontar para as nossas próprias fuças, a telegenia é uma cena que não toca a todos.

15 dezembro 2014

post mortem
















O atrito do carvão sobre o papel de gramagem generosa dá-me muito do que encontro na corrida. Descentra-me. Exige empenho. Equilibra-me os humores.
Mas é muito diferente noutras coisas. Efectivamente, estou parada. A suspensão do habitual corrupio obriga a olhar lá bem para a frente, para o fim de tudo. Quando o silêncio da pausa é absoluto, desarrumam-se as ideias. O vazio é gigante e o medo do nada, o medo do nada é maior ainda.

11 dezembro 2014

errado de tantas maneiras diferentes


Sendo uma delas, nada desprezável, a extrema piroseira dos produtos supostamente promovidos neste reclame. Alguém me diga que isto é uma brincadeira, por favor.

10 dezembro 2014

conjugar mulherengo no feminino

É observável, ainda que lenta, a transição da sociedade ocidental para um ponto em que vai havendo maior igualdade de género. Não me proponho adivinhar configurações futuras, nem sequer se se trata de um percurso finito (arriscando: não), mas sinto-me tentada a prever diferenças importantes entre o que é, hoje, ser mulher e o que será no tempo das minhas – geniais, lindas, criativas e espectaculares – netas. Haverá maior igualdade na abordagem aos relacionamentos amorosos e à relação sexual em si, por exemplo? Até que ponto as diferenças incontornavelmente biológicas colocam limites a que homens e mulheres se comportem de forma semelhante no engate, no namoro, na traição? Não faço ideia. Mas é engraçado chegar a este quesito depois de ler uma série de livros, das mais diversas épocas e géneros*, em que os homens que papam muitas babes são heróis incontestados, ao passo que as mulheres mais homenzengas não deixam de ser umas _______**

* E se as coisas mudarem mesmo muito, deixarão os clássicos da literatura de ser clássicos? Ou continuam a ser clássicos mas o que era tragédia passa a sátira? E os contos de fadas, estão condenados à extinção, no seguimento da adulteração completa a que assistimos hoje? 

** A preencher com termo brasileiro que rima, caso não seja óbvio. Às vezes acho que tudo o que escrevo é óbvio mas isso pode ser só dentro da minha cabecinha desocupada.

09 dezembro 2014

tanto faz

Não sei quanto tempo demoram as outras a chegar a esta conclusão. Eu demorei sete anos, oito meses e mais uns dias. E foi com cábulas. Se fizermos as coisas à balda, é porque somos indiferentes. Se formos cuidadosas, é porque não damos liberdade. Se temos outras vidas além da maternidade, somos ausentes. Se os incluímos em tudo, perdemos a individualidade, desumanizamo-nos. E no fim tanto faz. Eles vão achar que foi de menos ou que foi demais. Vão, acima de tudo, sentir a urgência de não replicar os nossos erros e as nossas falhas. Sobretudo aquelas que são o produto das nossas melhores intenções.

08 dezembro 2014

também é um bocado assim, isto dos blogues

"Good old traditional audio-only phone conversations allowed you to presume that the person on the other end was paying complete attention to you while also permitting you not to have to pay anything even close to complete attention to her. (...) And yet even as you were dividing your attention between the phone call and all sorts of other idle little fuguelike activities, you were somehow never haunted by the suspicion that the person on the other end's attention might be similarly divided."

David Foster Wallace, Infinite Jest

Quantas pessoas temos na vida que estão do outro lado, de facto, a escutar-nos? E nós, prestamos atenção a quem?

04 dezembro 2014

conformismo 1 - feminismo 0

Isto é tudo muito bonito mas quando há um filho ranhoso que não quer levar o pacote de lenços da Minnie para a escola porque as meninas - reparem, as meninas! - gozam, é claro que a mãe esvazia os lenços da Minnie para dentro do pacote vazio do Donald. O discurso do não há coisas de menina e de rapaz até já está interiorizado mas é preciso saber escolher as batalhas.

03 dezembro 2014

entretanto comprei lápis e um caderno


É curioso reparar que, desta perspectiva, o sinal de estacionamento aponta para a entrada da igreja. Às vezes faz mesmo falta parar.

01 dezembro 2014

war on drugs


Isto é bonito.

24 novembro 2014

a raiz do mal

Hesito antes de abrir a porta. Espreito lá para dentro e confirmo a melhor das minhas suspeitas: o caos está instalado. Fico muito mais sossegada com o futuro dos meus filhos quando encontro um de capacete de skate a declamar poesia e o outro, de bruços no chão, a desenhar e recortar moedas de papel. Dois pequenos primatas que levam a brincadeira muito a sério e no fim até arrumam tudo.
O ócio pode ser o pai de todos os vícios mas é o tédio que está na origem de muitos males - na realidade, na ficção e na linha ténue que as separa. Está no político que se envolve bacocamente nas teias da corrupção porque está maçado com a sua pasta ministerial. Empurra os miúdos suburbanos a trocar o refrão repetitivo das culturas marginais pelo recrutamento do Estado Islâmico do Iraque e do Levante. Abate os jovens adultos encharcados em whisky e anti-depressivos, aborrecidos à espera que cresça a cortiça nos seus extensos montados. Até o sacana do Vronsky arruinou a vida à Karenina por puro tédio. Se esta gente toda arranjasse alguma coisa de valor com que se entreter muito mal se evitaria.

Ena, tantos assuntos num post só. Mastiguem devagarinho e digiram com moderação. Assim vos deixo para mais uma sabática blogosférica, beijinhos e abraços.

21 novembro 2014

um novo desgosto de amor

Passada que está a fase da negação, é hora de encarar a realidade: não pode haver nada entre nós.
Há já algumas semanas que me davas a entender que precisávamos de dar um tempo. Cega pelo fogo da paixão, não quis saber de nada, pelo contrário, abraçava-me com mais intensidade, mais urgência, como se adivinhasse que o fim estava próximo. Agora acabou, mais uma vez.
Adeus planos de viagem ao Gerês. Adeus sonhos de atravessarmos a Lousã, a Madeira, quem sabe até o Monte Branco, um dia. Tu não queres compromissos dessa envergadura e eu já não me contento com breves encontros, com os mesmos percursos previsíveis. Tu segues o teu caminho, eu fico parada, envolvida num abraço de gelo azul.
Sei que a única maneira de lidar com isto é cortar todos os laços. Arrumei o equipamento. Afastei-me dos amigos que temos em comum. Desligo o rádio quando passa uma das nossas músicas e ponho os óculos escuros, engolindo as lágrimas, quando passo em Monsanto. Vai ser um resto de Outono muito escuro, sei que o frio me vai entrar até aos ossos. Que entre também nos tendões do joelho, já que não há como consertar o meu coração quebrado.

20 novembro 2014

monólogo conjugal das 08h14

 - Sabes, estou a pensar falar àquele meu amigo fisioterapeuta.
- ...
- O Bernardo.
- ...
- Se calhar ele podia fazer-me um tratamento. Umas massagens especificas. Ou usar um daqueles aparelhos eléctricos.

Reaction GIF: stare, are you kidding me?, John Cleese, Monty Python

19 novembro 2014

queen of pain


Só o cabelo descolorado do Sting para me fazer sorrir hoje.
E a pinta do Stewart Copeland? Drummers are the coolest.

14 novembro 2014

denúncia de contrato

Querem pôr-nos fora da nossa casa. O meu co-inquilino deita fumo das narinas, eu encolho os ombros. Já me queixei muito por aqui da nossa casa mas até gosto dela. Só que não me apego a moradas. “Não construireis casa, não semeareis, não plantareis nem possuireis vinhas, mas habitareis sempre em tendas, a fim de que, por muito tempo, possais viver numa terra onde permanecereis como estrangeiros”, já dizia o Jeremias. Nós só temos uma palmeira muito alta e resistente que pode vir connosco para qualquer lado, chega. Se esta não é a oportunidade por que esperávamos para largar tudo e ir pelo mundo, não sei qual será.
Mas é claro que depois lembro-me do que foi a vida de emigrante e deixo-me de fantasias: se souberdes de três assoalhadas simpáticas entre a segunda circular e o marquês de pombal, de preferência com um soalho bonito, muita luz e poucas infiltrações, entrai em contacto comigo através do endereço ali ao lado.

13 novembro 2014

recursos estilísticos de bolso

Por exemplo, heptaparabólises térmico-sensoriais:

[do desconforto] Sentar numa sanita com o assento tépido.
[do conforto] Lama escorrendo das pernas no duche quente.

Vamos lá ver, quem é que se sentiu tentado a googlar “heptaparabólise”, hum? Tenho ou não tenho jeito para a aldrabice com bastante credibilidade? É pena não servir para nada, só parvoeira.

12 novembro 2014

só por mera curiosidade

Sei que há várias pessoas que dizem que gostam de trabalhar sob pressão. Só gostam de trabalhar sob pressão. Alguma por aqui? Gostava que me explicassem o motivo dessa preferência. É o travo amargo da cortisona a bombar no sangue? É o risco de sair tudo uma valente trampa mas se calhar consegue-se safar? É a probabilidade de se pegarem com os colegas de trabalho? É pela sensação de poder, ao superar o que parece ser uma missão impossível? É que eu sou uma daquelas totós que prefere reservar as emoções fortes para a esfera não-laboral. Compreendo que há alturas em que não controlamos a extensão da lista de afazeres e os prazos de entrega, mas daí a achar-se que o caos e o stress são a situação ideal vai uma grande distância.

10 novembro 2014

aquilo da atenção plena

O café tem-me sabido lindamente. Que parva, tê-lo deixado durante um ano.
Ah, o David Foster Wallace. Estas próximas mil páginas a Times New Roman 10 vão fazer valer a pena as duas dioptrias extra que vou arranjar.
Um filho ainda doente mas é da maneira que comemos pipocas e vemos o McQueen até ele adormecer ao meu colo.

Não é, Melissa?

07 novembro 2014

tu és mesmo especial para mim

A semente da Fé. O laço que nos traz cativos. A esperança de um lugar em comum, onde repousar. Um abraço ao fim do dia. Dois olhos pequeninos que se acendem ao ver-nos. Empatia. Telepatia. A urgência de partilhar a novidade. O medo de perder esse estatuto. Encontrar quem nos faça realmente sentir isso, não é o que todos procuramos?

06 novembro 2014

semmãetecto

É comum a ideia de que uma das marcas do cristão é a culpa. Não é hoje que vou entrar na discussão do que é, na verdade, um cristão, mas gostava de deixar a nota que, mais perniciosa do que o cordão mental do cilício, com que se envolvem ainda muitos crentes mais old school, é a tendência para o paternalismo.
Se calhar o paternalismo até tem tudo a ver com culpa. Pode ser mais uma manobra de evitamento. Em todo o caso, é cair na tentação de julgar as limitações do outro e, resistindo à crítica aberta, abafar o que vemos de errado com um manto de justificações aparentemente piedosas e conciliatórias. Dar a moeda ao pobrezinho que não larga os degraus da igreja em vez de ir antes para o guiché do Centro de Emprego. Acenar e simular atenção aos queixumes da senhora idosa que nos massacra a paciência, mas há que fazê-lo porque um dia também lá chegaremos.
 Onde é que quero chegar com isto? Não sei bem. Mas deve ser mais um mea culpa bastante esfarrapado (olha, afinal, a culpa!). Porque, ao que consta, Jesus nunca falou de cima para baixo a ninguém, seja com palavras agrestes ou com gestos de mavioso moralismo. Um dos problemas dos cristãos tipo eu é terem fraca memória da Palavra que vão lendo e rezando, compensando a trapalhice com a habilidade de virar de pernas para o ar o sentido da verdadeira compaixão.

05 novembro 2014

a partilha de tarefas domésticas é pouco produtiva

As semanas que o meu marido passa na Alemanha são as mais silenciosas. Silêncio do vazio de uma voz que me chame à razão quando preciso. E também de quem se sobreponha em alguns responsos curtos e graves à chinfrineira infantil. Podia repetir queixas de solidão nocturna e de sobrecarga nos afazeres da casa, mas hoje prefiro reconhecer as vantagens da gestão centralizada. Do alto da minha autocracia temporária, tudo se faz ao ritmo e do jeito que imponho. E é claro que assim é mais fácil. Cansa muito mais debater argumentos do que estender máquinas de roupa a solo. É por isso que é urgente reconhecer esta realidade: uma vida a dois (ou a três, quatro, etc.) não se faz por conforto, tem de fazer-se por prazer. E a vida do casal em que ambos têm um trabalho fora de casa porque assim o desejam é muitas vezes um desafio à organização de horários mas sobretudo de métodos, de prioridades, de valores. No entanto, em sendo encontrado o equilíbrio, não deixa de ser uma manifestação belíssima do encontro de liberdades individuais que se complementam. E agora que toda a gente já chamou os nomes que eu também poderia chamar ao António José Saraiva, deixo-vos apenas com este pequeno desabafo.

04 novembro 2014

não é fome, é apetite. não, afinal é fome

Não sei como é que vocês fazem isso das dietas e dos regimes alimentares. Estou há cinco dias com um post it de cinco singelas regras* colado no frigorífico e já nem posso abrir o Pinterest, que me babo toda**. A sério, a negação dos instintos básicos é uma coisa que não me assiste. E não era suposto o jejum elevar-nos o espírito? Nunca senti tanto a urgência do consolo físico da próxima refeição como agora. O que vale é que depois vem Dezembro e vai ser só deitar abaixo rabanadas.

* Antecipando a questão: não, não quero emagrecer. Mas preciso de "secar" para enfrentar uma montanha que me espera no fim deste mês.
** Ultimamente tenho falado muito de baba. Será que me babo assim tanto? Bom, quando estava grávida era uma coisa por demais.

03 novembro 2014

afinal o poço ainda não secou

Tinha para aqui em rascunho um post a fazer queixinhas de como a ficção televisiva parecia ter esgotado os argumentos, mas depois apareceu o Transparent. Já lá vamos. Antes disso, depois de uns primeiros episódios felizes do The Knick, reparei no tom displicente e sou-coitadinho-mas-não-tenham-pena-de-mim do Clive Owen. Dá-me ideia de já ter visto um médico drogado e bruto em qualquer lado. E o pior de tudo: o pessoal hospitalar anda todo enrolado ao quinto episódio (spoiler alert, ahah). Por que é que a Shonda Rhymes tem de meter o bedelho em tudo quanto é série? Os canais mainstream já comeram a carne e roeram o osso, agora ainda acham que conseguem chupar o tutano do personagem problemático e socialmente inconveniente que é, na verdade, um grande herói dotado de superior sentido de humor e irresistível sex appeal. Caramba, deixam-me tão agastada que desato a multiplicar adjectivos e estrangeirismos, e eu que andava a esforçar-me tanto por me deixar disso. Só quero uma coisa bonita para ver antes de começar a babar a almofada.
E chegamos então ao Transparent, pela mão da Leididi - por falar nisso, já conhecem a Cardinal, uma revista assim toda very nice? - Ora, Transparent não me faz babar a almofada, é bastante disfuncional, mas é mesmo bonita. Até o genérico, e toda a gente sabe como o genérico é importante. O The Knick não tem genérico. Afinal ainda não tinha acabado a maledicência. Já o Transparent é uma daquelas séries muito me, me, me e now, now, now. O pessoal acelerado e egocêntrico (como eu) poderá ir além do que é aparentemente uma bela tragicomédia de costumes e parar para pensar um bocado na vida, e em como já ia sendo boa ideia desacelerar e reparar nos outros. Enfim, se calhar estou a ir longe demais, é só uma série, não merece tanto entusiasmo. Nota-se muito que voltei a beber café?

31 outubro 2014

prazer, uma definição

De regresso a casa, depois de jantar nos meus pais. Conduzo com uma fresta aberta e a música no mínimo. Um filho dorme na cadeirinha, honesto, e lá atrás espreita o perfil do cão. Tem as orelhas descaídas e o focinho em riste, adivinhando coelhos no parque da Bela Vista.

29 outubro 2014

os diabretes dele

A modesta audiência deste blogue também é constituída por pessoas sem filhos. É gente de extremo bom gosto, claro, que concilia bons princípios e sentido de humor, evitando tecer julgamentos apressados sobre os outros. Por isso nunca arranjei problemas por aqui, independentemente dos temas sobre os quais me apeteça dizer umas baboseiras. Por isso e porque há uma realidade incómoda que disfarço: que os filhos do meu marido são uns diabretes. De cada vez que um médico, uma professora, um merceeiro, uma tia, ou um paroquiano lhes faz uma festa na cabeça e elogia o bom comportamento, o meu marido pensa que eles são uns sabidões, mestres do disfarce. É normal e socialmente aceitável que dois rapazes se portem mal, os outros é que os apanham sempre num momento feliz. Asseguro-vos que todas as ameaças de os enviarmos para outros pais são prontamente rebatidas, não lhes batemos, e a cadeira do castigo bem que podia ser mais utilizada. Eles fazem disparates todos os dias e errar é o mano - pelo menos é o que eles acham, visto passarem a vida a fazer queixinhas um do outro. Eles lá continuam a brincar alegremente até à próxima zaragata. À mesa, é comum o choro e o ranger de dentes, mas comemos sempre juntos. Contamos a parte preferida e a parte mal preferida do dia. Eles retorcem os individuais e sofrem de amnésia repetida em relação às opções de fruta. Acordam cedo demais e vêm perturbar a paz da senhora sua mãe, enquanto tenta fazer yoga. Embicam com os brinquedos mais barulhentos e insuportáveis, desarrumam o quarto e deixam tudo perdido na escola. Tenho de reconhecer que não é uma situação propriamente insuportável mas não é muito popular. E eu preferia manter a fachada de que somos uma família perfeita.

28 outubro 2014

os meus anjos

A modesta audiência deste blogue é constituída por mães. São mães de extremo bom gosto, claro, que conciliam bons princípios e sentido de humor, evitando tecer julgamentos apressados sobre os outros. Por isso nunca arranjei problemas por aqui, independentemente dos temas sobre os quais me apeteça dizer umas baboseiras. Por isso e porque há uma realidade incómoda que disfarço: que os meus filhos são uns anjos. De cada vez que um médico, uma professora, um merceeiro, uma tia, ou um paroquiano lhes faz uma festa na cabeça e elogia o bom comportamento, estremeço. Não é normal nem socialmente aceitável que dois rapazes sejam tão atinados, de certeza que andamos a fazer qualquer coisa de errado. Asseguro-vos que não os ameaçamos, não lhes batemos, pouco os castigamos, e eu até faço questão de repetir periodicamente que toda a gente faz disparates, que errar é humano. E eles lá continuam a brincar alegremente. A vir para a mesa quando os chamamos. Bom, às vezes é preciso chamar algumas vezes. E a tratar das tarefas que lhes cabem. A falar com bons modos e a mastigar (quase sempre) de boca fechada. Raramente andam às zaragatas. Acordam e deitam-se na paz do Senhor. Inventam brinquedos com tralha antiga, arrumam o quarto e levam livros para a escola. Tenho de reconhecer que não é uma situação propriamente desagradável mas é muito impopular. É agora que vêm chamar-me nomes?

27 outubro 2014

duratrail 2014

Há quem corra por todas as razões, desde a balança, ao desafio e à superação própria. Eu corro por prazer. Sobretudo o prazer de descobrir novas paisagens. Por que não a andar? Porque demora muito e descobrem-se menos paisagens.
Feita a introdução, traço agora um retrato breve da prova de ontem, para quem queira deixar-se morder pelo bichinho.
Acordei às 3h30 com a excitação. Às 6h30 fui buscar a minha boleia e lá fomos para Setúbal. Levantámos os dorsais e fomos tomar café, enquanto ele me contava aventuras passadas e planos futuros (só maluquinhos da corrida aturam esta conversa mais do que 10 minutos). Às 9h foi dada a largada e, a partir daí, o prazer nunca mais terminou. O prazer de subir ao alto da serra e ver o sol a despontar por trás de Tróia. O prazer de ir fazer um chichi no meio da mata e espetar-me nuns ramos cheios de espinhos. O prazer de fazer os primeiros quilómetros a ritmo de caracol porque ia tudo em filinha - mas assim deu para tirar fotografias. O prazer de muitas subidas e descidas íngremes, daquelas em que percebemos pela primeira vez que temos determinado tipo de músculos. O prazer das melhores laranjas do mundo no primeiro abastecimento. O prazer de lidar com voluntários impecáveis, numa prova irrepreensível em termos de organização. O prazer de ser acometida de câimbras porque parei demasiado tempo a comer laranjas. O prazer de conhecer alguém que ia ao meu ritmo e puxarmos uns pelos outros (olá Márcia!). O prazer de passar pelo leito de ribeiras com água fresca pelo joelho. O prazer de escalar pequenas paredes e de descer por caminhos tão apertados que até eu tinha de ir de cócoras. O prazer de superar as câimbras e conseguir ir conquistando lugares, uns atrás dos outros. O prazer de chegar à praia e insultar quem desenhou o percurso e fez-nos correr duas vezes pela areia seca, enquanto os veraneantes apanhavam um solzinho bom. O prazer de sprintar até à meta, indiferente a tempos, a velocidades, à tosse que me fez sempre companhia, e cruzar a meta com um grande sorriso. Tanto prazer, que quase nem faz diferença ter ficado em 5º lugar do meu escalão, apesar de ter demorado o que me pareceu uma eternidade. Será que posso deixar o meu emprego e virar Carlota Sá? Umm, não me parece. Mas enquanto continuar a ter oportunidades assim, estou muito feliz :)

24 outubro 2014

adeus, mundo cruel

Há uma probabilidade assinalável de eu falecer amanhã, ou pelo menos de cair de uma ribanceira abaixo e ficar em tal mau estado que passo a só conseguir expressar-me com uma palhinha ligada a um computador. Deposito toda a esperança de sobrevivência na caridade de um companheiro ultramaratonista, que está coxo, e é capaz de ter piedade de mim e deixar-me segui-lo como um cachorrinho desorientado e cheio de tosse. Se mesmo assim a coisa der para o torto, aqui ficam algumas confissões que me deixam partir mais descansada:
a) Risquei um automóvel cinzento estacionado na esquina da R. Afonso Lopes Vieira com a Av. da Igreja, em 2003, salvo erro, e não deixei um papel com o meu contacto. Depois disso já risquei muitos outros carros, paredes, pilaretes e árvores mas nunca deixei de reconhecer-me culpada, ao menos isso;
b) Quando o Matias faz chichi na entrada do prédio que tem aquela porteira muito chata e mal-educada, às vezes olho para o lado;
c) Todos os panfletos e cupões publicitários que me chegam ao correio vão parar à caixa do vizinho do 1º andar, que teima em abrir a porta a toda a gente sem perguntar ao que vêm.
Beijnhos e sejam felizes.

23 outubro 2014

estou cheia de avessos

Dia de ser o pai a tratar deles. Mesmo antes de ir para a escola, ouço o mais novo queixar-se de não conseguir dobrar o pijama, que está todo cheio de avesso. Pouso a caneca de chá, dobro o canto da página e fecho o livro, com um sorriso. Aparentemente, isto dos filhos, do livro e do chá fazem de mim uma impossibilidade ontológica, mas sobre isso já alguém disse aqui o que eu penso sobre o assunto. Sem o saber, o meu filho acabara de descrever o meu estado de alma nos últimos tempos. Nunca escapo às minhas próprias armadilhas. Era previsível o falhanço de alguém que se sustenta na aparente solidez de determinadas premissas obviamente perecíveis. De entranhas reviradas, sem voz, arrasto os pés pelos dias fora. Nem força há para resmungar decentemente. Mais do que nunca, as orações são lançadas como garrafas de náufrago. Sempre com esperança de salvação, sempre com medo de apanhar com a garrafa de volta no toutiço. Antes de saírem, os meus rapazes passam por mim e beijam-me em sítios inauditos, com medo do contágio. Tenho um cotovelo, uma nuca e um umbigo cheios de sorte. Posso estar de pernas para o ar, mas estou em boa companhia.

Andei esta semana a escrever num .doc o que antes fazia aqui. Este exercício diário pode não servir um fim maior do que o meio, mas faz-me falta. Quem quiser ler, que leia. E agora vou ali comprar um apito.

17 outubro 2014

este estabelecimento está encerrado para balanço

A verborreia não é sinónimo de uma mente cheia de ideias. Nem o silêncio implica ausência de opinião. A actividade frenética não é genialidade incontida e a contenção nem sempre é falta de coragem. Dizer muito, falar muito, opinar muito não esgota os argumentos, porque estes são como a água e regressam sempre à nascente. Mas há torrentes de palavras que ensopam espaços de sequeiro que precisam de apanhar ar. A inundação constante apodrece as sementes de novas ideias. Haja vazio, algum tento na língua. E menos ego, menos.

16 outubro 2014

aceitar que se é uma pessoa extremamente irritante

Os meus pais nunca me levaram ao psicólogo e por isso ainda não descobri ao certo a origem dos meus problemas de sociabilidade. Durante algum tempo achei que era por não ser do tipo disruptivo e gostar de aprender coisas, ao passo que os outros preferiam baldar-se às aulas, comentar quem não usava calças Uniform e ouvir aquela música insuportavelmente nasalada, acho que era Britpop. Depois fiquei estúpida e perdi a memória de curto prazo com as gravidezes (nunca passou). Continuei a não estar à vontade no meio de pessoas com mais de dez anos de idade. Mas não é por falta de afinidades com a população não infantil, há muitos adultos que não gostam do mesmo que eu, se bem que seja mais difícil encontrar quem goste do mesmo, sobretudo no plano ideológico-desportivo-confessional. Enfim, até há indivíduos tolerantes que suportam a convivência com beatas frenéticas feministas. A dissonância cognitiva tem o seu quê de atraente no primeiro embate, pode demorar um bocado até fartar.
Finalmente acho que estou na pista certa para diagnosticar o problema: de todos os meus defeitos mais ou menos admissíveis, o que não se aguenta é esta mania de acordar cedo e bem disposta. De uma forma genuína e não só a fingir, para ilustrar instagrames de pequenos-almoços. Isso ofende. É uma maneira muito feia de apontar o dedo à cara de cada cidadão honesto que se levanta a rosnar e leva o seu tempo a ficar de bem com a vida. Viver todos os dias é difícil, é preciso muita arrogância para achar que se pode começar logo a abrir. Compreendo-vos, pessoas. Se conhecesse alguém como eu também tinha alguma vontade que lhe caísse uma bigorna na cabeça. Já tentei deitar-me tarde e consumir substâncias inebriantes, para ver se isto amansava. Acordei cedo na mesma, rabugenta, e não fiz um único amigo nesse dia. Não há nada a fazer, não nasci para ser socialmente aceitável.

15 outubro 2014

fw 2014-2015


Os modelitos da estação, sem ordem definida. Como sempre, sem grande coerência estilística ou temática. O Clarice é o meu vestidinho preto, que nunca compromete. O Joyce, a gabardina bege que me desfavorece a tez mas protege da degeneração das sinopses afectadas por aquela coisa previsivelmente pirosérrima dos Beautiful Forevers. Não falta o outfit de desporto nem as últimas tendências pulitzerianas e newyorktimianas. Assumo o risco de não serem o mais adequado ao meu biótipo mas a pressão social é grande, como a porcaria das skinnies que nunca mais se vai embora de uma vez por todas.

14 outubro 2014

paliativos

Aquilo de gostar do frio e da chuva porque uma pessoa se enrosca nas mantinhas, nos gatos, nas chávenas de chá, nos chanatos, no namorado, e fica toda consolada.

Ou

Ter uma dor de cabeça lancinante, o jantar para fazer, os miúdos a gritar-nos aos ouvidos, e tomar uma aspirina, encomendar pizza e calar as criaturas com o Mickey em loop, respirando de alívio.

Igual.

Prefiro calor, sol, jantar numa esplanada com o namorado e qualquer enrolanço posterior não ser apenas um gesto de conforto rotineiro.




13 outubro 2014

porto

Descobrir alguma coisa em conjunto, em havendo atenção, é alcançar a sinestesia. Um delicia-se com a melhor confeitaria do mundo e tem de inventar apetite para acomodar a francesinha do almoço. Outro anda à escuta de fantasmas na secção de poesia da Lello & Irmão, a única livre dos turistas que zumbem em redor dos escaparates à entrada. O outro admite que, sim, afinal via-se a viver no meio daquela deliciosa falta de rigor urbanístico e com a simpatia genuína dos autóctones, “só é pena dizerem tantas asneiras, mamã”. Eu recorro à estratégia infalível de calçar as sapatilhas ir ver as vistas a onze quilómetros/hora. Respiro o cheiro setentrional das ruas cobertas de granito e aceno aos velhotes de Miragaia. Dizem-me que eu sou a máior e eu acredito. Afinal, estou numa cidade que inflaciona despudoradamente a fé no melhor que há nos céus e na terra. (ouvi dizer que em Lisboa chovia. Estava-se muito bem ao sol nos jardins de Serralves e os miúdos apanharam dezoito castanhas)

10 outubro 2014

remediando uma educação negligente

Sou adepta da pedagogia pelo exemplo e pela prática. Isto já não podia continuar assim. Anos a fio a convencê-los demonstrar com simplicidade que vale a pena torcer pelo azul e branco, tarefa particularmente complicada nos últimos tempos, já fazia falta uma visita de estudo há muito devida. Que isto de criar portistas em Lisboa não pode ser só para ganharem carácter e estarem habituados a remar contra a maré, por muito importantes que sejam essas competências. Mais que adeptos de um clube, quero-os amantes de uma região, de uma latitude onde também têm raízes. Hoje vamos subir por essa A1 acima e só paramos depois de atravessar aquele rio doce como o vinho que dele bebe.

09 outubro 2014

altas pressões

Hoje estou a ter um dia tão stressante, tão stressante, tão stressante que até sou capaz de fazer subir a pressão atmosférica de Portugal Continental ao ponto de obrigar a chuva a voltar para as nuvens. Isso e também se dá aquele efeito de cansaço que me faz dizer piadas imbecis destas, como quando já bebi muito mais do que a conta. Segundo me lembro, porque já não acontece há que tempos.

08 outubro 2014

o meu único problema

Não conseguir, de facto, encarar-me com sentido de humor. Uma coisa é rirmo-nos das nossas falhas e fragilidades, o que esperam que façamos para demonstrar maturidade. Outra coisa é conseguir realmente a distância necessária para perceber a pequenez dessas coisas e ficar de bem com a vida. Que fique claro: as piadas que faço à minha custa são ainda mais retóricas do que aquelas perguntas com que confrontamos os amigos íntimos, esperando a confirmação de alguma coisa que já temos como certa. No dia em que me livrar da melancolia e achar graça à minha finitude, serei livre. Provavelmente no caminho da senilidade.

07 outubro 2014

as mentiras das pessoas

Falamos sempre sobre os nossos desejos, e tentamos esconder-nos desesperada e inconscientemente. A vida torna-se quase interessante, quando já aprendeste as mentiras das pessoas, e começas a desfrutar e a notar que dizem sempre uma coisa diferente daquilo que pensam e querem realmente. Sim, um dia chega o reconhecimento da verdade: e isso significa a velhice e a morte. Mas então isso já não dói.

in Sándor Márai, As velas ardem até ao fim

06 outubro 2014

a cada um a sua meta

Ontem o meu marido correu a sua primeira maratona. Neste momento está ainda mais contente do que empenado, e olhem que parece um morto-vivo de um filme de série B. Um lindo morto-vivo com um sorriso contagiante. Coloquei tanta fé nele que até me fui embora antes de ele cruzar a meta, por estar convencida que já o tinha feito há imenso tempo de certeza absoluta (estava incontactável). Bela mulher que lhe saiu na rifa, não haja dúvida.
Ontem o meu filho mais velho completou a sua primeira mini-maratona. E ficou quase tão coxo e feliz como o pai. Recebeu a medalha com a solenidade de um pódio dos Jogos Olímpicos. Coisa que acontecerá um dia, não duvido – provavelmente noutra modalidade.
Ontem o meu filho mais novo esteve refastelado no tabuleiro da ponte Vasco da Gama enquanto lhe faziam massagens. Foi levado de carrinho e ganhou um gelado mais duas medalhas. Como é que algum dia há de perceber que o esforço compensa, isso já não sei.
Ontem fui só espectadora. Gritei, bati palmas, dei tantos high-fives que tenho um dedo inchado. E percebi como é complicado conciliar dois papeis que mantenho separados, o de atleta e o de mãe. Enquanto tentávamos, a custo, ultrapassar as massas de excursionistas que desfrutavam do passeio domingueiro sobre o Tejo, invocava todas as fadinhas da Floribela para não mandar dois berros ao miúdo de sete anos que tentava acompanhar-me, de língua de fora.
Há que aceitar o que é irreconciliável: a mãe boa e paciente precisa de manter-se longe da mulher dura e lutadora. A primeira retira energia da segunda, e esta alimenta-se da paz da primeira. Mais vale dar espaço ao triunfo discreto de cada uma do que aspirar à perfeição completa e virar mumzilla.

03 outubro 2014

chanoyu

A poeira toda de Atacama* levantou-se esta noite, pegou nas saias e entrou-me sorrateiramente pelas fossas nasais, assentando na minha garganta. Arde e está seca. Então calo-me. Se as palavras são inevitáveis, deixo-as sair com a parcimónia e delicadeza de quem serve o chá a preceito. Devia ser sempre assim. Falar como dádiva e não como imposição. Sussurrando, ouvem-me com cuidado. E regressam à zona de ruído com a serenidade de quem acabou de emergir de um mergulho prolongado.

* Sempre fonte de inspiração, Capotada.

02 outubro 2014

lista de actividades voluntárias que nunca vão constar do meu currículo

1. Dirigente de Associação de Pais.

(esta lista nem vou fingir que vou continuar um dia, mas explico: todo o meu voluntarismo, que até é em grau generoso, tropeça, cai, rebola e foge perante situações que envolvam muitas mãezinhas juntas a lutar furiosamente pelos seus petizes, cruzes credo. Sim, dona da mota, acho que és um bocado doida por te meteres nisso. Mas já te achava um bocado doida de qualquer forma)

01 outubro 2014

lista de expressões paternalistas que me enervam

1. "As gentes de (inserir nome de terra do interior)"

(em actualização)

30 setembro 2014

mulheres a valer mesmo a valer

Ou homens, aliás. Não são aqueles que têm a minha vida fácil em que opto por acordar mais cedo ou mais tarde, o que como e o que visto aos meus filhos. Vida muito fácil e por vezes distraída disso. Até reparar que uma encomenda de livros que faço sem pensar duas vezes antes de clicar no botão do checkout é uma decisão custosa para outras pessoas mesmo ao meu lado. Que se levantam de madrugada mas é para apanhar os dois autocarros até ao trabalho. As penas dos outros não servem para me aligeirar as queixinhas, é claro. Os outros sofrem e triunfam alheios ao meu andamento. Têm a sua realidade, eu tenho a minha, diferente por muitas razões, que ainda assim não deixa de alargar-me um pouco a perspectiva quando já ando com a cabeça completamente enfiada num sítio que eu cá sei.

29 setembro 2014

tutoriais de maquilhagem para mulheres a valer

Não devia estar a partilhar isto aqui convosco, correndo o risco de ver inundado este nicho de mercado, mas acho que acabei de ter uma ideia genial. No mínimo brilhante. Estão a ver aqueles vídeos muito castiços no YouTube – e agora aproveito para reconhecer que o uso da palavra “castiço” não é inocente, já estou a valer-me das técnicas de marketing que aprendi no curso sobre comunicação em redes sociais da CEAC –, aqueles vídeos, dizia, em que há umas meninas adolescentes que ligam a câmara do portátil enquanto se arranjam para ficarem giríssimas (lá está, não sei qual é o termo que elas usam agora, só domino o vocabulário das trintaneiras)? Ora pois, se há tanta gente a subscrever canais que ensinam a disfarçar o acne e a fazer coques semi-casuais, enquanto se esmera o beicinho, por que não há de haver ainda mais público para um canal que mostra como uma mulher a sério se arranja de manhã?
É que, desculpem lá, não há grande arte em encher de pó uma testa e nariz reluzentes, aplicar um bocadinho de máscara e dar risadinhas fofinhas. O que é de mérito é passar noites em vigília a filhos doentes, não ignorar o despertador das 5h35 que nos manda ir correr à chuva, tomar duche enquanto se grita para que alguém não se esqueça das cuecas, e ainda conseguir vestir-se, pentear-se e maquilhar-se de forma a parecer um ser humano com bom aspecto. Requer muita prática. Capacidade de adaptação. E também ajuda ter sempre à mão um pacote de toalhitas para limpar as nódoas de pasta de dentes de morango que nos aterram no figurino quando já estamos atrasadas. Mas já chega de dicas gratuitas, que ainda vou ficar rica à custa disto.

26 setembro 2014

a alegria no trabalho

Nos últimos dias, tenho andado de roda de livros. Muitos livros. De arquitectura, direito, economia, inovação, sociologia, urbanismo. Com formatos diferentes, capas mais ou menos vistosas, todos eles compilando o trabalho de tanta gente que se reúne neste centro para fazer pesquisa. É bom sentir a materialização do esforço, ainda que seja uma pequena amostra do impacto do sistema de investigação e desenvolvimento nacional, tão maltratado nos últimos tempos. Às vezes, àqueles como eu que trabalham com metas distantes e resultados intangíveis, faz falta esta possibilidade de agarrar o produto de meses de esforço.
Lidar com livros também me recorda de quando trabalhava na biblioteca e desempenhava funções bem diferentes, completamente taylorizadas, medidas à peça, diariamente. Nessa altura era uma operária que classificava e arrumava, transportava carrinhos e chegava ao fim do dia com a sensação maravilhosa de ter cumprido cento e vinte porcento dos objectivos. Ou seja, não só passava os dias em absoluto silêncio, rodeada de luz poeirenta e de livros centenários, como ainda me davam a possibilidade de brincar ao Quem Consegue Etiquetar Mais Volumes Por Hora. E de extravasar a contrariedade de estar onde não queria com uma marreta de borracha, ajustando prateleiras à martelada e perturbando o estudo dos betinhos da Ivy League. Qual meditação, qual carapuça.


Créditos da imagem: Mark Anderson, Andertoons.

25 setembro 2014

o início oficioso do ano lectivo

Nenhum a chorar quando fica na escola.
O caminho cheio de folhas húmidas e mal-cheirosas.
Eles a molhar os biscoitos no leite. Devagarinho.
A coberta na cama e o chá aquecido.
Este ano não há primeiras chuvas - visto que nunca se ausentaram - mas já chegou o primeiro ranho.
Por muito que me esforce em focar-me nos detalhes ternurentos, faço em simultâneo a lista mental para a farmácia: soro, loção para os piolhos, neo-sinefrina.

24 setembro 2014

a maldição do impinging

Se em todas as situações da vida fossemos constantemente assediados para mudar como o somos pelos fornecedores de serviços de televisão, comunicações e dados, desconfio que a civilização estaria em risco de colapsar.
Quer continuar a usar essas botas? Mesmo que lhe sirvam bem, estas aqui são muito mais resistentes e poupam-lhe imenso em meias-solas.
Acha que esse emprego lhe convém? Não pagamos mais mas as nossas fardas são muito bonitas, oferecemos-lhe uma esfregona nova a cada dois meses e a máquina de café é daquelas de cápsula.
E já pensou mudar de marido? Certo, esse já está macio e confortável do uso mas não será preferível apostar num modelo actual, com mais memória, que suporta novas aplicações como a capacidade de meter a roupa suja no cesto e um medidor de níveis hormonais por bluetooth? O quê, minha senhora?, não compreendi a sua pergunta. Se é compatível com o sistema operativo da senhora, que é de 1979? Bom, é capaz de ser complicado mas também lhe posso vender aqui um dispositivo muito jeitoso que lhe permite aumentar a capacidade de processamento. E, sem custos adicionais, uma finíssima capa em pele, design italiano, que a deixará como nova. Não desligue, minha senhora! Quanto é que está a pagar, se não é indiscrição? Nós fazemos-lhe um desconto, sem período de fidelização. Seja como for, o meu colega da concorrência vai ligar-lhe amanhã a cobrir a minha proposta.

23 setembro 2014

reis na barriga

Estou um bocadinho cansada das pessoas que confundem bondade com burrice, simpatia com falta de espírito analítico. Sei que há determinadas características que passaram de moda porque parecem contrariar a urgência do individualismo e da ambição umbiguista, mas era bom que quem se agarra à bóia do cinismo e da crítica constante percebesse que do outro lado da conversa pode estar alguém que sorri em silêncio porque rejeita até a atitude paternalista de tentar mostrar ao outro, com bons modos, que pode estar enganado.

22 setembro 2014

aceito sugestões. mas com pouco sangue, já agora

Acabámos ontem de ver o True Detective. Estive à espera de ser conquistada até ao último episódio mas, embora reconheça que os moços vão bem no (muito batido) papel de agentes com problemas existenciais e sotaque intransponível, não me caiu no goto. Ou seja, se calhar não valia a pena ter passado por aqueles longos minutos de sofrimento e suspense, e arranjar uma tal camada de nervos que fiquei cheia de vontade de voltar a ficar sem luz na madrugada monsantina.
E então, o que é que vale a pena nesta nova temporada de séries? Quero ver se apanho o The Leftovers, que deve ser mais uma para durar só uma temporada mas afaga as minhas ânsias pós-apocalípticas. O Manhattan também merece uma espreitadela, pode ser que seja um bocadinho menos forçado do que o The Americans no que diz respeito à conciliação entre factos históricos e a credibilidade do enredo ficcional. Espero que a segunda temporada do Les Revenants comece de uma vez por todas e a ver se me lembro de ir procurar o The Knick. Lá terei também de picar o ponto, um bocadinho contrariada, no Mad Men e no Shameless. Senhores argumentistas, não quero pressionar-vos mas já criavam qualquer coisa nova bem sumarenta, heim?

21 setembro 2014

alqueva

Prometo solenemente não voltar a afirmar que este ano não houve Verão. Não durou mais de 48 horas, mas não faltou nada:

 Crianças a desempenhar funções para as quais não estão devidamente habilitadas

 Momentos de cumplicidade intergeracional (n.b., o único animal capturado nesta cena foi um tio de 80 quilos que saltou de dentro de água)

 Recriação de cenas cinematográficas extremamente pirosas

Nasceres do sol aguarélicos

E até a imperativa imagem dos pezinhos de molho

Também se nadou, comeu e bebeu muito bem, mas era só o que faltava, estar a pôr aqui fotos minhas em bikini a deitar abaixo um cozidinho de grão (e tudo o resto).

18 setembro 2014

sublimação

Admito que prezo com paixão sanguinária a minha liberdade. Será porventura dos traços que mais marcam a minha personalidade. Apesar de ser uma filha muito tardia do 25 de Abril – ainda andei de jardineiras castanhas e camisolas de gola alta amarelas mas nunca fui às cavalitas a manifestações do 1º de Maio – faço parte desta geração de herdeiros inconsequentes da liberdade. Ela não é uma conquista, é mais uma evidência.
Os da minha idade puderam escolher curso, namorados, profissões, trabalhos, onde queremos viver, com quem queremos viver, se e quando temos filhos, que amigos fazemos e mantemos. Mas é tão ilusória esta noção absoluta de liberdade. Todas as escolhas são condicionadas pelo nosso contexto particular e volúvel. Num dia somos a jovem universitária com um futuro promissor, no outro somos a mãe divorciada que não consegue esticar a carteira no mês de Setembro.
Liberdade é o tanas. Liberdade são breves momentos em que vimos à tona numa vida cuja maior fatalidade pode nem ser a hora do fim que, já agora, também gostaríamos de poder escolher.
Mesmo assim corremos atrás deste direito inalienável que é a liberdade. Chegará talvez o dia em que esta sede de controlo nos fará querer dominar em absoluto o nosso tempo e o nosso espaço, as pessoas que lá deixamos entrar, até nos sentirmos absolutamente livres, no topo da montanha. E completamente sozinhos, porque isto de encarar grandes desafios em conjunto implica conciliar ritmos e vontades diversas. Livres, sozinhos e tão leves que poderemos dissolver-nos no ar.

17 setembro 2014

desigualdade de género

Esqueçam os tiques, os maneirismos, os hemisférios cerebrais, as aptidões para as actividades físicas, as apetências para os desarranjos emocionais, as piadas, as teorias e os manifestos: aquilo que distingue os homens das mulheres é que estas invejam a relação que os homens têm entre si enquanto os homens se estão marimbando lá para essa coisa insondável que são as amizades femininas.

16 setembro 2014

como se não bastassem os genes

Todo o tempo que passamos com os nossos filhos é determinante para as pessoas que se tornam. Nada lhes passa ao lado, aquelas esponjinhas têm sempre as antenas no ar. Depois, com aquele jeito atabalhoado de nos amarem e admirarem, acabam por replicar comportamentos. Pelo menos enquanto não chega a revolta da adolescência, o que fazemos está perfeito. Se não parece perfeito, o defeito há de ser deles, filhos, que não compreendem. Um livro que li recentemente, A Arte de Chorar em Coro, chamou-me mais uma vez a atenção para isso. Mas nem era preciso entrar no campo da ficção: vejo a forma como os meus filhos copiam o meu tom de voz sarcástico, ou uma resposta seca do pai, e encolho-me. Nem tudo é mau, noto que também absorvem intuitivamente as atitudes de generosidade e de paciência. A responsabilidade parental vai tanto além das garantias básicas de amor, segurança, educação. Sem darmos por isso, estamos a criar personagens de uma narrativa própria de cada família e a dar o tom para a acção em todos os outros cenários da vida. Para o bem e para o mal.

15 setembro 2014

até ao fim do coração e mais além

No dia em que se assinalam os vinte e cinco anos desde que perdi o meu querido Avô para aquela doença da qual ninguém gosta de dizer o nome, aquece-me o coração recordar a vida de quem lutou contra ela com uma nobreza inigualável e marcou muitos dos que tiveram a sorte de com ela se cruzar. Ninguém como a Ana Casaca para pegar nessa crua jornada, tratando-a com a honestidade e doçura que merece e transpondo-a para o seu novo livro Viagem ao ao Fim do Coração. Vemo-nos hoje no lançamento, meninas.

13 setembro 2014

se tivessemos lá ficado

Mais uma carta no baralho dos what ifs desta vida: e se, há três anos atrás, tivéssemos ficado nos EUA em vez de regressar a Portugal?
É muito difícil adivinhar onde estaríamos, na verdade, porque há muita mobilidade no meio da investigação pós-doc e não é natural que continuássemos em Princeton. Talvez tivéssemos ido suportar os ventos gelados do Illinois, talvez estivéssemos a torrar num laboratório ultra-secreto do Arizona, quem sabe?
Se prolongássemos a estadia na Costa Leste, pelo menos teríamos o prazer de quatro estações do ano bem definidas. Os rapazes ja teriam um cerrado sotaque nova-jersiano (que felizmente perdemos, uff!) e já saberiam as regras do baseball. Brincaríamos na neve no Inverno, apanharíamos frutos silvestres na Primavera, ouviríamos o coaxar das rãs nas noites húmidas de Verão e participaríamos em coloridas hayrides no Outono. A nossa vida social consistiria em playdates, festas com eminentes e excêntricos cientistas e muitas idas ao mall. A vida familiar seria feita exclusivamente a quatro, com o Skype a manter uma ténue linha de contacto com avós, tios e primos.
Profissionalmente, não faço a mínima ideia do que poderia estar a fazer. Enquanto lá estive, trabalhei numa agência de apoio a pessoas portadoras de deficiência, numa empresa de desenvolvimento de sustentabilidade energética, e numa gigante biblioteca universitária. Tendo um mestrado e fazendo boa figura nas entrevistas, o céu é o limite no que toca à empregabilidade naquela zona, sobretudo agora que já passou o pior da crise por lá. Com horários muito menos tardios, não sei onde encaixaria o meu tempo, aquele que uso para ler e para o desporto, pelo que é possível que estivesse a ficar uma pequena matrona yankee. Se calhar até já tinha mais uma filha e começava a sonhar levá-la aos concursos de beleza para crianças. Entretanto, o mais velho andaria numa elementary school pública um bocado reles, porque não teríamos como pagar uma privada melhorzinha, e o mais novo estaria a apanhar com blocks na cabeça, cortesia dos colegas do kindergarten, que quando se portam mal são amavelmente convidados a ler um livro em vez de serem repreendidos. Provavelmente teríamos uma pequena casa com jardim onde eu me dedicaria a massacrar algumas plantas com a minha inépcia floral nos reduzidíssimos tempos livres, enquanto tentava acumular trabalho, três crianças e tarefas domésticas nas muitas ausências de um marido sempre com conferências e seminários em algum ponto distante do planeta. Bom, já estou deprimida que chegue com a ideia. Bolas, ainda bem que voltámos. 

12 setembro 2014

contra a glorificação do sorriso

Encaremos as coisas com frontalidade: às vezes estamos em baixo. Caramba, e não há problema nenhum nisso. Por que é que nos havemos de sentir obrigados a dar a volta por cima a todo o instante? Estou cansada desta urgência de encontrar uma espécie de felicidade a todo o custo. Quero acarinhar todos os meus estados de alma, quero conseguir respeitar os desânimos da mesma forma que me deixo embalar pelos momentos de alegria e entusiasmo. É que o contrário é um esforço inglório e injusto. Que sentido há, suponhamos, em termos um filho sempre bem-disposto e outro com flutuações de humor, e querermos estar apenas com o primeiro? Tal como luto para acolher o que sou fisicamente, com as minhas forças e fraquezas, também quero aceitar o que sinto, como me sinto, verbalizá-lo - "hoje estou triste." E estar bem mesmo quando não estou.

11 setembro 2014

red line

Durante as férias continuo a ter filhos, marido, família alargada, actividades extra-laborais. O que muda é a intensidade do dia-a-dia. E já me tinha esquecido disso. Mentira, lembrava-me, mas desabituei-me.
Por que é que uma pessoa se envolve em tanta coisa? Dá a sensação que estou muito quietinha e começam a chover-me afazeres em catadupa. Não procuro novas ocupações. Não vou atrás de novas responsabilidades. E mesmo assim a agenda semanal começa a ficar tão preenchida que só de olhar para ela fico cansada por antecipação. Logo eu, que não sou pessoa de se cansar.
Começa o ano lectivo e penso: o que é que posso eliminar das rotinas para aligeirar os nossos dias? Tirando o trabalho e a escola, todas as outras actividades são de entrega aos outros ou de realização pessoal. Até são poucas. Talvez a solução não esteja em limpar o calendário mas em descobrir o modo de encarar tudo isto com maior leveza, com menos perfeccionismo. Se fizesse yoga mais do que uma vez por semana era capaz de ajudar só que, lá está, isso implicaria um ponto adicional na lista de afazeres.

10 setembro 2014

monda

Que se lixe: vou culpar o tempo também disto, do crescimento indevido de vegetação que não plantei. Só pode ser por causa da chuva constante. Na verdade, custa-me um bocado compreender por que se arrancam as ervas daninhas. Ingenuidade de quem não tem os dedos calejados pelo sacho, está claro. No meu imaginário bíblico, trigo, joio, rosas e cardos deviam poder conviver docemente, seres dotados do mesmo direito à existência, cada um com a sua beleza. Há de confirmar-me quem percebe do assunto, mas o problema está no facto de os usurpadores selvagens, apesar de belos e viçosos, estrangularem a força vital das boas sementes. Bem que gostaria de abrir o meu jardim à selvajaria, deixá-lo crescer à solta, bravo, o darwinismo que triunfasse sem dó nem piedade. Mas depois lá se ia o pão nosso de cada dia, que nos é dado hoje se fizermos por cuidar da plantação e não nos deixarmos encostar à sombra de insidiosas espécies invasoras.

09 setembro 2014

envelhecer

A velhice é uma grande trampa, desculpem lá a franqueza. Se não fosse mau, não era preciso eufemismos como a terceira idade, as peles maduras, o ocaso da vida, ou mesmo o termo “idoso”. Não sei como é que os norte-americanos ainda não se lembraram disso mas qualquer dia criam o conceito de longevity challenged person.
O meu cão está velho. Não se aguenta nas patas. Tem a boca podre e os olhos azuis das cataratas. Pouco ouve (e agora não é só quando não lhe convém) e já perdeu a dignidade de fazer chichi à macho. Dorme todo o dia e arrasta-se quando vai à rua. Do ponto de vista da dona, toda esta decadência é simplesmente triste. Faz parte da vida mas é muito injusto que o pior fique para o fim.
E se custa assistir à ruína de um animal de estimação, mais custa quando se trata das pessoas que fazem parte da nossa vida. Vê-las perder faculdades e ter noção dessa perda é uma violência. O consolo de podermos estar com elas neste tempo é pouco porque, na verdade, não podemos restituir a força, a vitalidade, ou os dons. É como estarmos a assistir a um assalto e ficarmos de lado a fazer festinhas na mão da vítima enquanto ela entrega a carteira ao bandido. Porque a velhice é muito isto: estar cada vez mais sozinho. Cada vez mais fechado no seu mundo, cavando o próprio túmulo do seu ser autónomo e funcional, cobrindo-se de recordações cada vez mais antigas. Até à infância. Envelhecemos e querem tratar-nos como crianças mesmo se olhamos para as mãos e não reconhecemos as articulações nodosas e as veias azuladas. Não sei como há tantas pessoas que descobrem a Fé quando envelhecem, no preciso momento em que lhes é feita tremenda maldade. E entristece-me um bocadinho essa Fé que brota do medo do fim, e não de uma relação de confiança que foi crescendo ao longo dos altos e baixos da vida. Bom, mas que sei eu? Se chegar a velha logo vejo se Deus não é realmente o único que ainda me ouve de verdade, sem me acenar a cabeça enquanto pensa que já não digo coisa com coisa.

08 setembro 2014

para lá das pernas bem torneadas

Não é novidade que uma das minhas epifanias doismilecatorzianas surgiu no solo escuro e pedregoso da floresta, primeiro na Costa Rica, agora nos trilhos em que corro de madrugada. A spin-offania que daí surgiu nestes últimos dias de Verão é que vou partilhar agora convosco, minhas alminhas sedentas de vislumbres da intimidade alheia: não é só de correr nos trilhos de que gosto tanto, é do que isso faz às pessoas que o praticam.
O praticante de trail é, na verdade, um embrião: mal começa nessas lides decide logo que afinal nada abaixo do ultratrail (distâncias superiores a 42 km) chega. É, portanto, um exagerado. E um bocado bazófias, sem nunca perder a humildade. Tem sentido de sacrifício, grande espírito de camaradagem, amor à natureza, é extremamente perseverante, dedicado e, sim, tem uns glúteos jeitosos.
Então mas afinal o que é que isto tem de íntimo, gralha? É que não estou a falar de mim nem daqueles com quem me cruzo nos trilhos. Estou a falar do meu marido, que (ainda) nem sequer corre trail. Mesmo sem ter dado mais à modalidade do que algumas subidas contrariadas em Monsanto, este homem já nasceu com o espírito. Tem todas as qualidades que enunciei acima e eu ainda não me tinha apercebido da coincidência. Tantas vantagens e não me traz lama para casa. Ainda bem que o cacei.

05 setembro 2014

afinal, quem nos conhece?


Independentemente do grau de intimidade das minhas relações, ao que parece sou uma personagem dúbia. Pergunto-me se isso acontece a toda a gente. Uns acham que sou boazinha, outros que sou má; há quem me julgue politicamente de direita e quem suspeite que sou de esquerda; alguns têm-me por acelerada, outros admiram a minha calma e ponderação. Sou, na verdade, muito transparente. Não me tenho por amorfa só que já lá vão os dias em que sentia necessidade de defender à dentada as minhas convicções. E é verdade que mudo de ideias. Mas, no fundo, não deixo de ser quem sou (ja cá faltava um truísmo bonito para selar a época estival). Será que o mistério está no observado, em particular, ou veremos sempre os outros – tirando daí as devidas ilacções e perfilagens – a partir do nosso olhar em ângulo agudo, como num espelho retrovisor?

04 setembro 2014

a dor fantasma

Ouço canções lamechas. Suspiro. Passeio pelo quarto à procura de uma recordação daquele cheirinho bom deles. Não há volta a dar, sinto muito a falta dos meus filhos. Muito mais do que imaginava. Até começo a achar ternurentas as birras dos filhos dos outros, claro sintoma de senilidade. O que vale é que já falta pouco para o regresso e eles andam todos contentes a comer três calipos por dia. Uma pessoa pensa que eles estão crescidos e já não há aquela ligação simbiótica, a necessidade de contacto, de proximidade. Não nos enganemos: são nossos filhos e não deixam de fazer parte de nós.

E, sim, é muito bom ter este tempo a dois para conversas de adultos, para descontrair nas rotinas e simplesmente para estarmos só a namorar. Mas já estou habituada a que quase tudo na minha vida seja feito de doses complementares de sofrimento e gozo.

02 setembro 2014

le nozze parmigiane








A queda do Império Romano foi uma das grandes desgraças da humanidade, é o que vos digo. Pensar que podia passar os dias a falar como se cantasse, a comer rosbife trufado e batatas com alecrim, viver rodeada de pessoas iluminadas por dentro, que passeiam de bicicleta e rezam em catedrais demolidoras de lindas. Ah, que tragédia. Valham-nos os amigos e a família italiana para termos desculpa paea sobrevoar os Alpes, conduzir automóveis minúsculos e fazer a sesta junto ao lago.

29 agosto 2014

querido bardarbunga

Nisto da contenção de gases, toda a gente sabe que não se deve contrariar a vontade da natureza por muito tempo. Sendo assim, não te inibas: explode e liberta lá à vontade as cinzas todas. Se possível, amanhã. Sei que pode parecer fácil falar, visto que não sou islandesa (e não irei visitar-te tão cedo, infelizmente), mas até me dava um certo jeito que condicionasses do espaço aéreo europeu*. É que voamos daqui a pouco para Itália e não temos pressa de regressar logo na segunda-feira. Podemos muito bem vir de comboio, aproveitar a paisagem da Riviera (onde só passámos durante a noite, no Interrail, uma pena), rever os Pirenéus, quem sabe até dar até um saltinho a Barcelona e a Madrid. Os meninos estão com os meus pais para a semana, ninguém se vai zangar no meu local de trabalho, e parece-me justo que um casal que já contraiu matrimónio duas vezes tenha uma segunda lua-de-mel, mesmo que com 16 meses de atraso. þakka þér!

* Excepto no dia 1, nos voos para a América do Sul. Boa viagem, mãe capotada!

28 agosto 2014

somos tão criativos, nós os portugueses

Ideias, conceitos, projectos inovadores, tudo isto brota da alma lusitana como o refluxo de uma sanita sem sifão. Faz-se muita coisa jeitosa, de valor. Mas também estamos em grande na especialidade da recauchutagem criativa. Se alguma coisa funciona com outros, nós replicamos mas em mais barato, numa espécie de contrafacção conceptual. Encontrei há dias nessa nova Meca do audiovisual que é o Youtube estes vídeos. Abram uma excepção e vejam um ou outro, sim?
Vá, venham cá agora dizer-me que aquilo do ser em cafés é original, que os argumentos estão decentes, os actores têm o seu valor e a construção cénica é mimosa. Sim, senhor, é verdade. E o sotaque portuense da protagonista é originalzinho de gema, lá isso é. Mas o tipo de humor que pretendem fabricar é um cruzamento descarado e coxo da Porta dos Fundos com a Odisseia. Ora, falta-lhes umas boas colheradas de gemada com vinho do porto para roçarem o nível do Fábio Porchat ou do Bruno Nogueira. E isto vindo de alguém que já está um bocado farta de ambos.

27 agosto 2014

desmistificando aquilo do lisboeta livre e desempoeirada

Se eu não fosse uma grande totó, até era capaz de ser mais giro passar uma semana sem marido nem filhos, aproveitando esta frescura própria de Agosto. Sucede que sou uma totó que:
1) teimou em correr antes de estar recuperada da tendinite e agora vai ter de parar mais tempo enquanto se besunta de anti-inflamatórios e coloca gelo no joelho em vez de ser no copo;
2) não consegue não lavar a louça, não fazer a cama, não arrumar o que espalha, pelo que apenas subtraiu uns pontos ao nível de sopeirice crónica;
3) anda esquisita com os filmes que vê e já não se contenta com coisas leves e coloridas (A Viagem dos Cem Passos, por exemplo. Behh);
4) tem efectivamente saudades das pessoas com que coabita e custa-lhe saber que – está bem que não passam fome nem andam nus mas – os filhos choram com a falta do regaço materno.
5) nem sequer tem mais livros de Verão para ler. Se for agora agarrar-se ao Camus é capaz de não melhorar o estado de espírito por aí além. E das folhas começarem a amarelecer e cair das árvores.

26 agosto 2014

ora então é isto a vida de uma lisboeta livre e desempoeirada

Ter o frigorífico vazio e ir antes comer um gelado. Descobrir resguardos e lençóis para lavar e decidir dormir no saco-cama. Procurar a sessão de cinema que implique o mínimo esforço e máximo de prazer, permitindo ainda acordar de madrugada para ir correr. Ah, claro, correr todos os dias. Em qualquer momento que não atropele o horário de expediente. Ler capítulos inteiros e nem um par de pequenos olhos furando-nos a nuca a pedir atenção. Ouvir música alto. Mas só um bocadinho porque depois perturba a preciosa paz. Ir a pé para o trabalho. Ter a casa arrumada, as toalhas direitas no toalheiro, o chão à volta da sanita sem respingos (esta tenho um bocado de vergonha de confessar que é das minhas preferidas). Ir cortar o cabelo e, perdendo a cabeça, deixar que nos pintem as unhas. Sobrarem várias horas ao dia e haver uma certa surpresa e vergonha nessa constatação. Também sobra um bocado de silêncio, agora que penso no assunto. E falta-me o cheiro, o toque de outra pele. Mas não vale a pena estar para aqui agora a desfazer o cenário idílico, confessando saudades ao fim de apenas um dia.

25 agosto 2014

foram três semanas de férias, de modo que vai tudo a eito

Os meus filhos recusam-se a dançar rodeados de freaks amistosos. Também não gostam por aí além de acampar, lá se vai o meu sonho de uma vida de hippie. Ao menos fizemos festas aos burros que dormiam ao nosso lado. Antes de virmos embora, um espanhol deu-me tomates que ainda estão bons passado este tempo todo. Há neste país tractores conduzidos por pessoas que vão a olhar para trás (e nós andámos num deles). Nadar em água doce faz-me pensar em cágados e lagostins que me ameaçam os dedos dos pés. É oficial, tenho de descansar as pernas uma semana se corro mais de vinte quilómetros de seguida. A vista do castelo de Paderne não é grande coisa mas chegar lá acima e voltar foi o ponto alto das férias. O ponto baixo foi ver convertido em inferno o paraíso de há 20 anos: escorregas aquáticos. Já agora, despachemos lá isto das coisas desagradáveis: a temperatura do mar estava o que se sabe, os dias passaram-se a ler à sombra. Para três de nós, o quarto fazia suquinhas na areia. A praia estava impossivelmente cheia. Não vou dizer de que tipo de pessoas para não parecer ainda mais pedante. Esqueci-me de os levar à caça de gambozinos, ora bolas. Comi duas meias bolas de Berlim e bebi cerveja de várias marcas diferentes para a colecção de caricas dos miúdos. Jogámos muito Uno e fizemos relativamente pouca batota. As sestas foram poucas mas muito deliciosas. As minhas sandes são as melhores do mundo. A macieza da minha almofada não compensa o regresso a casa, ao trabalho, sozinha. O facto de estar sozinha pode compensar um bocadinho, ainda não sei mas depois logo vos conto.

01 agosto 2014

coisas que eu idealizo como espectaculares, porém cansativas, e depois ainda me conseguem surpreender pela positiva

Ir acampar sozinha com os miúdos para o Andanças. O que é que pode não correr maravilhosamente?

E com esta me despeço. Boas férias e até qualquer dia.

31 julho 2014

a ilusão da facilidade

As almas mais atentas e conhecedoras do comportamento dos corvídeos blogosféricos já podem ter notado que, por aqui, anda no ar de novo a tentação de procriar. Aliás, isto é uma espécie de post anual. É sempre assim: chega o Verão com os seus dias mais leves. Os meninos crescem sem pedir licença, portam-se como anjos e nós começamos a pensar que é tudo tão lindo e tão suave que bem podíamos aumentar a carga. Como se isto de criar filhos fosse parte de um plano de treinos para a prova do Quem Quer Ter a Família Mais Ideal.

Não é.

Por muito que apeteça voltar a ter uma bola pequenina para encher de amor, um filho é uma pessoa nova que entra para a nossa vida, com tudo o que isso implica. Há sempre coração para mais. Com ginástica, até há braços e orçamento para mais – também uma tentação, a parentalidade estóica – mas o impulso animal para a sucessão dos nossos genes não pode cegar-nos. Porque chega uma altura na vida em que o que temos não precisa de ser aperfeiçoado. Porque sendo um, dois, três, quatro, dez, o que somos é bom e suficiente. Não falta ninguém*. E saber apreciá-lo, em paz, não é só um triunfo do córtex frontal sobre o bulbo raquidiano; é o melhor para todos. Mesmo que esse facto tenha de ser recordado com disciplina diária.

* Bom, numa óptica How I Met Your Motheriana, se eu sou a Robin, ele o Ted, o mais velho o Marshall e o mais novo o Barney, o nosso equilíbrio ontológico precisa de uma Lily.

30 julho 2014

bom demais para não ser partilhado

Sabem aquela sensação que temos quando estamos apaixonados, não conseguimos parar de pensar nisso e precisamos de falar a todos do nosso amor? Eu evito vir para aqui evangelizar-vos até à náusea com a conversa das corridas mas o pessoal lá em casa não tem tanta sorte. Já devem estar um bocado fartos do meu olhar esgazeado quando chego a casa de madrugada, de pernas arranhadas e ténis meio espatifados de trepar trilhos empedrados.
Só há uma solução: convertê-los. É por isso com grande excitação que vos informo que (rufar de tambores…) vou correr a minha primeira mini-maratona!
É verdade, quase um ano depois da primeira maratona, e na semana em que bati os meus recordes dos 10 quilómetros e da meia-maratona, decidi que estava na altura de sonhar com vôos mais altos e arrastar as crianças comigo para uma prova (um vai de carrinho, será que também tem direito a medalha?). Não se preocupem, enquanto eu própria não estiver mais à vontade nas corridas de montanha, não tenciono tentar bater o recorde de idade na subida ao Monte Branco.

29 julho 2014

o autor-espelho

Deves achar que és muito especial. Sabe-la toda. Com meia dúzia de parágrafos, arruínas as certezas mais elementares. E parágrafos a atirar para o sofrível, num livro pouco mais que tolerável, mesmo se descontarmos a dificuldade em traduzir-te. Um chorrilho de passarinhos e uma adolescência soturna e aborrecida (olha a novidade!) são fraco recheio para esta sanduíche de azia com que nos presenteias. Com que então a minha consciência ambiental é uma forma de atenuar a culpa que carrego nos ombros de classe média? Ai quer dizer que os objectivos que estabeleço, as metas, a procura da superação física e moral são ridículas, pequenas, inúteis? Queres convencer-me que a vida é apenas uma solitária caminhada para a morte, que toda a busca de sentido é negação dessa evidência. Ah, Jonathan Franzen, e se fosses cagar na mata?

28 julho 2014

aerofolios

As palavras são feitas de ar e andam por aí, ao dispor de todos. As histórias, pelo menos as boas histórias, são mais raras. O pior é que as palavras certas e as histórias suculentas nem sempre se cruzam para gozo da audiência. A prática pode melhorar o desempenho do músculo narrativo mas tem de haver por trás a capacidade inata de criar alguma coisa nova, mesmo, mesmo boa. Não basta embrulhar um enredo catita numa série de adjectivos. Na verdade, escapa-me completamente a lógica formal que sustenta um texto extraordinário. Só consigo descrever o efeito ao lê-lo: contrariando o peso dos caracteres na folha de papel, uma grande e bem contada história faz-nos levantar voo e entrar num mundo diferente. Tão simples, não é? Era bom, era.

25 julho 2014

ainda há primeiras vezes

Comer pitangas. Observar um filho em silêncio, de bruços sobre um livro sem bonecos. Ter a companhia de outro filho, fazendo crochet de elásticos* com aqueles dedos minúsculos. Voltarmos da escola a pé, pelo Campo Grande. Descobrir trilhos e sentir um prazer desgraçado. Fazer massa fresca. Ler Clarice Lispector. Sinto-me tão grata por este Verão e ainda nem pus um pé no mar.

* É verdade, tardou mas chegou.

24 julho 2014

dignidadezinhas

Todo o ser humano deve ser respeitado e ver garantida a sua dignidade. Esse direito a caminhar direito, nem superior nem inferior aos seus pares, é um princípio tão simples e que falha por um sem fim de razões. A par desta dignidade, todos precisamos também de ver asseguradas outras dignidadezinhas. São peças aparentemente insignificantes da infraestrutura da nossa verticalidade, porém não devem ser menosprezadas.
Concretizo: é tentador criticar a família carenciada que vai tomar o pequeno-almoço ao café da esquina enquanto nós comemos as papas de aveia preparadas de véspera. Ah, com que superioridade moral apontamos o dedo àqueles irresponsáveis, que estão mesmo a pedir brincadeira com os seus (certamente numerosos) credores enquanto caminham a direito para a obesidade do refrigerante e do rissol das 9 da manhã. Mas a verdade é que todos temos estes hábitos peculiares que nos confortam, que dão algum contentamento no meio de tudo o que nos negamos, e que fazem parte da nossa identidade. Seja a pessoa conscienciosa que não abdica dos produtos biológicos mesmo que não possa jantar fora, seja aquela que mantém a manicure irrepreensível das suas unhas de gel enquanto espreme a carteira para pagar o passe social, seja a que aspira a um determinado estatuto cultural subscrevendo anualmente a assinatura nas melhores salas de concerto do país. A penúria é sempre relativa, assim como o são os pequenos luxos.

23 julho 2014

a sério, esta é a melhor dica que vão ouvir da minha parte, pelo menos este ano

Desiludida com a ausência de soluções apresentadas ao nível dos sumos detox, resolvi seguir a sugestão da simpática leitora Susana e comprei isto.

Isto é a maior revolução para a frescura corporal desde que alguém inventou a Coca-cola com gelo e limão (coisa que já não provo há anos, mas lembro-me). A sério. Já resistiu ao teste de três dias de utilização, com direito a subidas à pressa da Av. das Forças Armadas, superação de birras matinais absurdas, camadas de nervos com pedidos esdrúxulos em contexto laboral, e até à comoção de dois piropos extremamente educados à passagem de um estaleiro de obras. E isto tudo sem as desvantagens dos anti-transpirantes. Se os fabricantes quiserem passar a ofertar-me embalagens deste produto, graças aos para aí duzentos mil novos clientes que estou a angariar-lhes à borla, estejam à vontade.

22 julho 2014

o meu incentivo à natalidade

Mexam lá no IRS, no IMI, nas licenças de parentalidade, nas taxas de esgoto e mais o diabo a quatro, não vai ser isso que pesa na fecundidade da nossa família. No que diz respeito a políticas de produção de bebés, quem tem alguma coisa a ver com o assunto são os progenitores, e ponto. E vírgula, porque há mais quem viva lá em casa e tenha a capacidade de influenciar as contas nesta matéria, com muito mais subtileza e eficácia do que as equipas de investigadores recrutadas para o efeito pelos nossos legisladores.


Apresento-vos a Robot-Rita. A Robot-Rita é a nova mana lá de casa. Para além de ter ombros e mãos largas para ajudar a pôr a mesa e transportar as compras do supermercado, a Robot-Rita tem uma voz doce e fininha (pelo menos a avaliar pelo desempenho dos seus ventríloquos). É uma irmã alegre e esfomeada, está sempre a pedir que lhe enfiem peças de lego, perdão, bolachas na boquinha. Até já tem rodas para poder acompanhar os irmãos mais velhos nas correrias pelo corredor. Ainda não percebi é quem é que se vai levantar durante a noite quando a Robot-Rita tiver febre, mas há que acreditar que uma bebé tão bem construída e estimada terá uma saúde de ferro. Ou de plástico, no mínimo.

21 julho 2014

deixar-se encontrar

Era uma mulher feita e completa. Inteiramente mulher, composta, direita. Com agenda e lembretes, notas – muitas–, prioridades e estrutura. Vivia as semanas em agitação controlada e arrancava as folhas do calendário como quem cumpria desígnios elevadíssimos. Vivia, em suma.
Tinha tempo para tudo, até para a possibilidade do amor que, como a gente sabe, só aparece quando menos se espera. Essa era a parte mais fácil: não esperava por nada. A parte mais difícil era a incerteza da hora a que haveria de chegar esse inesperado amor. Quais os seus contornos? Qual a graça do nome que passaria a ser o Nome. O rosto. A primeira entrada nas chamadas atendidas e efectuadas.
Até que o dia chegou, quase inesperadamente. Pelo menos se não contarmos a abordagem intencional no meio promissor, as palavras de uma espontaneidade planeada ao detalhe, e a indisfarçável excitação nos primeiros contactos. Feita a selecção tão natural quanto possível dos finalistas, a mulher deixou-se estar. Beliscou o aperitivo das conversas, resistiu à passagem do prato, e guardou-se para sobremesa. Toda a gente sabe que a iguaria mais sublime não se serve escarrapachada no centro da mesa, reserva-se para os convidados especiais. A mulher só não contava era com o enfartamento dos convivas diante de tanta variedade e fartura. Pêssego sumarento, passou ela fome, despercebida e intocada.

17 julho 2014

compulsões refreadas

Não comas
Não bebas mais do que a dose
Não fumes
Não grites
Sobretudo não te stresses
Não te stresses

Não compres
Não guardes
Não corras assim, depressa demais
Não pares
Não te excedas, aliás 

Não arrotes
Não ronques
Não sorvas
Não roas as unhas
Nem rates as peles

Não digas a coisa errada
Não fales tão alto
Não te vergues
Não desças do salto
Mastiga de boca fechada.

Modera lá os instintos
Controla-te, não te excites
Eleva-te
Supera os teus limites.
Mas, vê lá, não te estiques.

E não abdiques de absolutamente nada
Não sejas mal-criada
Não dês abébias nem borlas
Não te exponhas
Não mintas
No fundo, não penses, não sintas.

Com a devida vénia ao Numb dos U2.

16 julho 2014

Posso fazer uma pergunta à turma do detox?

Bebendo desses sumos verdes, cheios de legumes, sementes e óleos essenciais, que promovem a desintoxicação do organismo, notam alguma diferença ao nível do odor sovacal? É que, por princípio, até não tenho nada contra o sabor ou o aspecto desses elixires da boa digestão e da leve consciência. Estou capaz de adoptá-los por uma boa causa. Nesta altura do ano, sendo maçadora a deslocação constante à casa-de-banho para a boa velha técnica da água e do sabão, seria benéfico para todos que a refrigeração corporal começasse a evocar frescos ramos de coentros e pepino. Se juntar citronela e manjericão, será que também afasto mosquitos?

15 julho 2014

caligrafia

Escrevo com a minha letra de menina. Não a que me ensinaram na escola primária, florida e harmoniosa, nem a que tentei fabricar com rebeldia adolescente, com os As de imprensa muito artificiais, e os Ts traçados com toda a determinação de rapariga liceal. Não, escrevo com a letra de menina com que pensava no verde da juventude, letra redonda e sólida, pequena mas não minúscula, alegre e assertiva.
Os anos passaram, as notas manuscritas vão rareando com o triunfo dos teclados, e a letra esqueceu-se de crescer e acompanhar a mão. Os recados que deixo recordam-me, sem nostalgia, dessa menina que haverá sempre dentro de mim. Sai para brincar ao macaquinho do chinês com os filhos depois do jantar, espreita os periquitos na janela do escritório, e senta-se de pernas cruzadas no chão, na plataforma da estação de comboios, a ler um livro com a máxima gravidade. Ninguém cresce de verdade.

14 julho 2014

neste fim-de-semana

Estivemos finalmente a quatro. Fazia-nos falta tempo assim. Fiz o exame final de Ocean Solutions, estreei os ténis novos em Monsanto, li vários contos de seguida e lavei as paredes. Comemos coisas muito boas à beira-rio, piquenicámos com amigos ao som da Orquestra Gulbenkian, comprámos cobertores fofinhos, vimos vários episódios do Orange is the New Black e fechámos com chave de ouro, ou antes, tremoços e minis, frente à final do mundial de futebol. Continua a não me apetecer praia nem tirar fotografias, acho que é um truque sorrateiro do meu subconsciente, a tentar convencer-me que ainda tenho o Verão todo pela frente. Ou então está-me mesmo a acontecer aquilo de começar a saber apreciar o momento.

Outra preguiça é a de pôr hiperligações nisto tudo ali em cima. Mas ninguém as segue de qualquer forma, paciência.

11 julho 2014

acerca de porcarias diversas

Ora até que enfim que o governo arranjou maneira de cativar o eleitorado. Ou pelo menos todos os para aí vinte e nove eleitores do MPT, que fugiram do número 11 da Rua da Beneficiência com as cuecas verdes a arder quando inadvertidamente conquistaram um eurodeputado. O povo é muito rápido para acusar o nosso executivo de cada novo golpe de vilanagem mas, quando é para reconhecer as medidas que contribuem para o benefício geral, nem um pio. Pois eu aprovo e aplaudo esta nova estratégia win-win que é o imposto de 10 cêntimos por saco plástico. Deixem-me aliás ser mais passoscoelhista do que o Primeiro-Ministro e sugerir um aumento para 10 euros por saco plástico. Assim, não só asseguramos a solidez da retoma (aquela coisa que os senhores do BPI garantem que está a acontecer, naqueles reclames de rádio que têm agora, a chatear o BES) como ainda travamos a expansão da ilha de plástico do Pacífico. Sei que aquilo, a olho nu, não chega aos calcanhares da imponência e polémica de uma obra da Joana Vasconcelos, mas mesmo assim não cabe nem no Alqueva, quanto mais nos laguinhos do Palácio da Ajuda.
Já agora, se me permitem a ousadia de sugerir outras medidas amigas do ambiente e do erário público, será que dá para legislar mais duas coisitas? Uma que obrigue as autarquias a criar centros de recolha de resíduos orgânicos para a produção de adubo, onde os fregueses entregam o desperdício não reciclável, diminuindo a produção de lixo doméstico. Outra menos simpática, um bocadinho fascizóide até, que proíba (com coimas associadas em caso de incumprimento) os cidadãos que entram nas casas-de-banho públicas de descarregar o autoclismo mal entram no seu cubículo, indiferentes ao facto de ter saído de lá alguém há 10 segundos que descarregou o autoclismo. Sei que estes temas andam todos um bocado à volta do cocó, o que não costuma granjear muitos votos, mas pensem assim: mais impopulares do que já são é difícil. Não neguem à partida a importância que o imaginário escatológico tem no sentido de voto dos portugueses.