09 setembro 2014

envelhecer

A velhice é uma grande trampa, desculpem lá a franqueza. Se não fosse mau, não era preciso eufemismos como a terceira idade, as peles maduras, o ocaso da vida, ou mesmo o termo “idoso”. Não sei como é que os norte-americanos ainda não se lembraram disso mas qualquer dia criam o conceito de longevity challenged person.
O meu cão está velho. Não se aguenta nas patas. Tem a boca podre e os olhos azuis das cataratas. Pouco ouve (e agora não é só quando não lhe convém) e já perdeu a dignidade de fazer chichi à macho. Dorme todo o dia e arrasta-se quando vai à rua. Do ponto de vista da dona, toda esta decadência é simplesmente triste. Faz parte da vida mas é muito injusto que o pior fique para o fim.
E se custa assistir à ruína de um animal de estimação, mais custa quando se trata das pessoas que fazem parte da nossa vida. Vê-las perder faculdades e ter noção dessa perda é uma violência. O consolo de podermos estar com elas neste tempo é pouco porque, na verdade, não podemos restituir a força, a vitalidade, ou os dons. É como estarmos a assistir a um assalto e ficarmos de lado a fazer festinhas na mão da vítima enquanto ela entrega a carteira ao bandido. Porque a velhice é muito isto: estar cada vez mais sozinho. Cada vez mais fechado no seu mundo, cavando o próprio túmulo do seu ser autónomo e funcional, cobrindo-se de recordações cada vez mais antigas. Até à infância. Envelhecemos e querem tratar-nos como crianças mesmo se olhamos para as mãos e não reconhecemos as articulações nodosas e as veias azuladas. Não sei como há tantas pessoas que descobrem a Fé quando envelhecem, no preciso momento em que lhes é feita tremenda maldade. E entristece-me um bocadinho essa Fé que brota do medo do fim, e não de uma relação de confiança que foi crescendo ao longo dos altos e baixos da vida. Bom, mas que sei eu? Se chegar a velha logo vejo se Deus não é realmente o único que ainda me ouve de verdade, sem me acenar a cabeça enquanto pensa que já não digo coisa com coisa.

6 comentários:

Mãe Sabichona disse...

Assistir aos ultimos tempos da minha avó foi muito doloroso. Mesmo com o nosso carinho, nada daquilo fazia sentido e era desumano. Desejei muito que ele morresse o mais breve possível para terminar com a dor dela e para podermos fazer o luto da nossa.
No meu caso, ao imaginar a velhice, a solidão e a perda antecipada dos que amo é o que mais me assusta...sei que isto pode parecer parvo e que muitos não compreendem, mas quando uma súbita lucidez desses momentos chega ao ponto de me angustiar, penso que tenho sempre a possibilidade de me atirar duma janela, como forma de sentir algum controlo :) acho que nunca o farei na verdade porque se tudo correr bem terei o meu filho e quem sabe netos que me agarrarão à vida e que não mereceriam isso. Mas saber que posso mandar um pouco no meu destino tranquiliza-me... talvez por isso não suporto que a eutanásia não seja legalizada. Que há quem se ache no direito de me impedir de algo desse género caso um dia o quisesse concretizar.

Quando me encontrares disse...

Gostei muito.
Mas sabes? Não sei se o renascer da Fé terá a ver com o medo da morte... O meu avô sempre foi ateu. Ateu, mesmo, não agnóstico. Uma vez, há muitos anos, um padre seu colega na fábrica onde trabalhavam disse-lhe "O Adriano é mais cristão do que muitos católicos que eu conheço, que vão à missa todos os domingos..." O meu avô morreu há quase 1 ano. No último internamento, começou a desligar-se da vida. Estava lúcido, mas tinha-se desinteressado de tudo. Passávamos a hora da visita com ele a dormitar, ou a olhar para nada. A minha mãe nunca desistiu de conversar com ele. Já quase no fim, a propósito de nada, perguntou à minha mãe "filha, tu rezas? porquê?". E a minha mãe teve, segundo ela, a conversa mais profunda e bonita que teve com o pai. O meu avô não disse que tinha passado a ter Fé, mas sim que agora conseguia compreender melhor os crentes.
O que quer isto dizer? Beats me. Mas acho mesmo que não é o medo da morte que aproxima os velhos (ou os doentes) da Fé.

gralha disse...

Mãe Sabichona, a eutanásia é dos temas sobre os quais tenho mais dúvidas. Ainda não consegui conciliar os meus princípios liberais e cristãos, neste caso.

Quando me encontrares, suponho que é mais nuns casos do que noutros. O que queria dizer é que a Fé, como todas as formas de amor, é alguma coisa que precisa de ir sendo descoberta e cultivada. Mas também acredito que a Fé é um dom que podemos acolher a qualquer momento e mais vale tarde do que nunca :)

Naná disse...

Também não me conformo com isso. Espero bem não ficar lúcida e presa no meu corpo, entrevadinha!

Espero que a minha tradição familiar não me apanhe... porque não pretendo definhar lentamente.

Quanto à Fé... a ver vamos... eu não vou muito à pinta de Deus, desde que me levou o meu avô, a minha mãe e o meu pai da pior maneira...

Amigo Imaginário disse...

Assistir à decadência do meu dálmata foi das coisas mais tristes que vivi. O Miró era um cão com mentalidade de cachorro num corpo de velho. Uma tristeza! Foi muito difícil tomar a decisão de o eutanasiar, mas o sofrimento era atroz. Morreu nos meus braços, a lamber-me as mãos. As saudades nunca se atenuaram...

gralha disse...

Ando a preparar-me para isso, Amigo Imaginário. Mas nem consigo imaginar, para dizer a verdade.