30 dezembro 2011

tem mesmo de ser?

Quem está com vontade de começar 2012 ponha o dedo no ar... Ninguém? Pois, bem me parecia que não era só eu, e até tenho tantas coisas boas à minha espera neste início de ano. Parece que estamos todos numa gigante sala de espera do dentista para nos tirarem os sisos sem anestesia.
Enfim, angústias à parte, este ano que passou pareceu-me imenso. Teve direito a um pouco de tudo, não foi um ano particularmente notável na minha vida, mas foi um tempo de crescimento e de afirmação. Trabalhei, mimei, li, viajei, não chorei muito, podia ter sorrido mais, podia ter corrido mais, tudo o que havia a correr bem, correu melhor ainda. E estou em casa. Isso ainda me aquece o coração, parece impossível.
Resoluções para 2012: tomar os meus Ómega 3, aprender a escrever, fazer as pazes com as minhas impossibilidades. Os comprimidos, a inscrição no curso e a boa vontade já cá cantam. Boas entradas!

27 dezembro 2011

pavlov e a tosse

Filho: cof-cof
Mãe (saltando da cama): Será que se destapou?
Filho: cof-cof-cof
Mãe (debruçando-se sobre o berço): aposto que a febre está a subir outra vez...
Filho: cof-cof-cof
Mãe (recuando pé-ante-pé): Será que o devia levar ao hospital???
Filho: cof-cof
Mãe (voltando a deitar-se): Será que é suficiente o que estou a fazer?
Filho: cof-cof-cof-cof-cof!
Mãe: meu amor... quem me dera trocar contigo!
Filho: cof-cof-brlhaaahhhhh
Mãe (saltando da cama, de novo): pronto, lá vão mais uns lençóis para lavar. Pelo menos soltou aquela porcaria toda.
Filho: zzzzzzz...
Mãe: Por que é que tenho tanta responsabilidade sobre estas duas vidas?! Nunca mais procriar, nunca mais procriar, nunca mais procriar!

stress pós-natal

As festas foram pacíficas e houve tudo a que temos direito (menos as rabanadas da minha avó). O stress é a quantidade de brinquedos que tomou o quarto dos meus filhos. A sério que fico com palpitações quando vejo tanta coisa espalhada pelo chão, pelas estantes, pelo beliche. Nós, pais, esforçamo-nos para que seja tudo contido, simbólico, na medida do necessário; mas há um exército de avós, tios e primos que não resiste a assaltar as lojas de brinquedos. Ai a minha vidinha... E agora vou ali dar o antipirético ao mais pequeno, que resolveu adoecer só para eu não dar sumiço a tanta tralha, aposto.

24 dezembro 2011

23 dezembro 2011

tão, tão pequeninos

Se alguém lesse blogues entre 23 de Dezembro e 2 de Janeiro, ainda poderia haver quem me acusasse de paternalismo devido ao que vou escrever. Tendo em conta a data de publicação, não há problema, isto é só uma pequena recordação de Natal para mim.

"NEW JERSEYANS CAPTURE 50 YEARS OF OPEN SPACE
         PROTECTION AND PARK DEVELOPMENT IN GREEN ACRES PHOTO CONTEST

"A couple enjoying a beautiful afternoon at Mercer County Park. Fog lifting at Morris County's Black River Wildlife Management Area. A white-tailed deer flicking its tongue at the South Branch Reservation in Hunterdon County.

These are just some of the scenes of New Jersey's natural beauty honored with awards in the DEP's Green Acres Program's 50th anniversary photo contest. The contest, which drew hundreds of participants, capped a year-long DEP celebration of the first Green Acres bond act, the landmark law that set New Jersey on the path to becoming a national leader in the preservation of open space.

"The Christie Administration is committed to the continued preservation of parks and natural landscapes such as those showcased in these photographs," DEP Commissioner Bob Martin said today in announcing the awards. "Through their photographs, these artists are showing all of us why land preservation is such an important part of the DEP's mission."

The winning photos were displayed last week at the State Museum in Trenton during the Governor's Environmental Excellence Awards ceremony. They are now on display at the lobby of the DEP headquarters in Trenton."

Isto é a vida na Nova Jérsia. Familiar. Desligada do mundo. Encantada com os seus Altos Representantes. Imersa na bruma da floresta apalachiana. Bambis saltitantes, tarte de maçã e centros comerciais. Portugal precisava tanto de um pouco desta inocência.

22 dezembro 2011

esquilifiquei (ou ursifiquei, conforme preferirem)

Ando numa fase de encher o bandulho. Mas não é um encher o bandulho por fome, por carência ou por fastio. É quase uma missão, não sei explicar (também não é gravidez!). Trazem-me chocolates, como os chocolates todos. Trazem-me empadas, empado-me. Visitam-me com um saco de croissants, lá vêm eles deslizar-me pela faringe abaixo. Acho que preciso. É o Inverno que começa. Já que não posso realmente parar, dormir, hibernar, pelo menos estofo o esqueleto.

21 dezembro 2011

as tais outras mudanças

A partir de Janeiro, vou começar um novo trabalho. A consciência pesa-me graniticamente - porque devo muito a quem me emprega agora, que permitiu que regressasse a Portugal - mas às vezes temos de ser crescidinhos e tomar decisões racionais e, por que não admiti-lo?, um pouco egoístas. Digo adeus às relações laborais, ao horário flexível e ao trabalho a partir de casa; digo olá a um ambiente de que gosto muito, de onde saí em 2008, a um trabalho que realmente me interessa, e a um ordenado de acordo com as minhas qualificações. Estou feliz. 2012 começa com incertezas, com dificuldades a toda a minha volta, com muitas dúvidas acerca de como será a vida de nós todos daqui a 365 dias. Mas começa também com uma oportunidade de fazer alguma coisa que me dá prazer. Desejo o mesmo a todos que me são queridos.

suave censura

Vendo o primeiro episódio da Pan Am

(pequeno aparte: não vejam a série a menos que estejam dispostos a fazer uma maratona de cirurgias plásticas, de que necessitarão depois de descobrirem todas as imperfeições em vós que aquelas grandes nojentas lindíssimas vos evocarão para todo o sempre)

fiquei a interrogar-me por que é que há tantas mulheres que levam a vida a sentir-se julgadas pelas mães, como se fossem eternas meninas de 8 anos. Nem acho que o problema esteja nas mães - essas, há-as de todos os feitios, das indiferentes às tirânicas; mas por que é que crescemos, fazemo-nos adultas, e não deixamos de ouvir aquela voz familiar a dizer "bem te disse para baixares o lume" quando o arroz fica colado ao tacho? Não há crueldade nesse julgamento que recriamos uma vez após outra. Há só a sensação de que não nos esforçámos o suficiente, de que não alcançámos a meta e que, por muito penteadas e bem vestidas que estejamos, por mais limpa, arrumada, organizada que esteja a nossa casa (a nossa vida!), falta sempre um pequeno nada. Nunca seremos perfeitas como as nossas mães. E, de alguma forma, sinto uma pequenina alegria ao saber que nunca vou causar essa reacção a uma filha.
Já as grandes galdérias das minhas futuras noras estão feitas ao bife.

20 dezembro 2011

desemigração total

A propósito deste post da Melissinha, e passados três meses de regresso, tenho a dizer que me sinto totalmente desemigrada. Nem um bocadinho imigrada, desintegrada ou baralhada. Note-se que só estive dois anos a viver lá fora mas, ainda assim, acho que é mais casmurrice patriótica do que outra coisa que pesa para esta condição. Estou mesmo (bem) em casa. E não é por isso que acho que isto é o Paraíso. As coisas que me doíam em Portugal, continuam a doer: o complexo de inferioridade, a condução bélica, a falta de capacidade de trabalho. São os defeitos de um país, que conheço e com os quais convivo como se de um progenitor se tratasse. E também não é por isso que deixei de comer torradas com manteiga de amendoim e doce, ou que voltei a gostar de futebol e telenovelas. Na verdade, Margarida, acho que mudamos mas não temos de nos sentir para sempre expatriados. Boa viagem de regresso e não te esqueças do doce!

19 dezembro 2011

ainda antes do ano novo

A minha vida muda um pouco e ainda pode mudar mais. Veremos. Para já, o meu "pescador" passa a ficar em terra a maior parte do tempo. Coimbra fica só para as visitas ocasionais. (e esta noite bem sorri de todas as vezes que não me levantei para pôr chuchas e consolar sonos inquietos)

16 dezembro 2011

fashionismo autista

É verdade, cá vai mais um post sarcástico. Temos pena mas o filtro que normalmente controla a minha inclinação natural para a maledicência deve estar perdido no meio da pilha de roupa que tenho para passar.
Ora bem, uma pessoa está no Inverno e em Portugal, certo? Obviamente, precisa de vestuário de lã, pelo menos para as crianças. Ou não? Ou sou só eu que não compreendo como é que as Zaras deste mundo só vendem camisolas de algodão, na melhor das hipóteses com misturas de viscose e spandex? Nem vou entrar na questão dos vestidos e blusas de manga curta para senhoras. A sério, pessoas, acham mesmo que podemos usar o mesmo vestuário que nos restantes países ocidentais, onde todos os ambientes fechados têm aquecimento central a 23ºC? Não, não podemos. Temos de nos agasalhar. Sob pena de andarmos sempre fungosos. E depois culpamos as alergias e o Governo. Então é assim, retalhistas: os portugueses não precisam de sweat-shirts fininhas, os portugueses precisam de camisolas feitas de pelo de ovelha. E de meias. E de calças grossas. Aqui faz um frio húmido desgraçado, isso dos Invernos temperados é uma mentira descarada que se vende aos turistas.

15 dezembro 2011

oficina sobre como fazer oficinas

Não faço a mínima ideia de como se conquista o homem dos nossos sonhos, de como se faz agendas em tecido, ou de como se faz decorações com massapão embora, em abono da verdade, gostasse imenso de saber todas estas coisas. Mas se é para começar a vender os nossos saberes em formato fast food take-away, se a economia nacional vai começar a vingar a partir de pequenos palratórios instalados em caves de hotéis do Martim Moniz, cafés do Chiado ou mesas de alumínio do espaço de refeições do CCColombo, meninos, também quero o meu lugar ao sol. Eu e toda a gente, suponho. Vou começar já a preparar o meu programa de workshop sobre como fazer ateliers, que serve para ensinar as pessoas a fazer oficinas para o brainstorming sobre... coiso. Pronto, é disso que eu percebo. De certeza que a audiência não há de ser só composta pelos meus amigos a quem obrigarei a estarem presentes. Estou com uma fezada que há de haver muito boa gente com vontade de gastar dezenas de euros para me ouvir debitar bitaites sobre coisa nenhuma. Ah, espera, isso já faço eu aqui de graça.

14 dezembro 2011

alienação

É em dias (semanas) como este que penso que só não me meto nas drogas porque não tenho como as financiar.

Nota para mim: Tenho de arranjar maneira de voltar a fazer aulas de yoga. Mesmo. Alguém sabe de aulas de graça?

ele é irresistível, eu sei

No Jardim de Infância, todos os meninos têm uma fotografia sobre o respectivo cabide, à entrada. A do Gugas desapareceu misteriosamente. Até que a educadora dele descobriu que houve uma certa menina, que anda permanentemente atrás dele (e ele atrás dela), que não conseguiu lidar com as saudades nas longas noites de Inverno e nos fins-de-semana, e vá de surripiar o retrato do seu mais-que-tudo. O amor é lindo, logo desde os 4 anos.
Não caibo em mim de orgulho. E a modéstia não se conta entre as minhas virtudes, não há nada a fazer.

13 dezembro 2011

diferença de idades

Razão # 76 por que, na minha opinião, devemos ter filhos com pelo menos três anos de intervalo: Quando o mais pequeno está doente e nos deu uma noite do catatau, a nós que também estamos com febre, pelo menos o mais velho levanta-se, toma o pequeno-almoço sozinho, arruma a louça, veste-se, lava os dentes, vai à casa de banho, e ainda faz festinhas ao irmão quando este choraminga. Impagável. E a quem usa o argumento do "ai, mas eles da mesma idade brincam juntos" eu respondo que isso não acontece antes de terem um ano, pois não? E isso, também os meus fazem.

11 dezembro 2011

do mais pequeno que, não tarda, já não é bebé

Quando não anda com uma chucha (ou mesmo duas) na boca, chega a dizer algumas coisas que eu e o irmão compreendemos. Já vai gostando de comer mais, tem dormido bem, benzódeus, e não me tem feito muito a vida negra nesta fase de mãe solteira de Segunda a Sexta. Anda sempre atrás do Gugas, apaga-lhe os desenhos, destrói-lhe as construções, rouba-lhe os rebuçados que ele escrupulosamente guarda para comer aos poucos; mas também é o primeiro a fazer-lhe festas se o mano chora (quando eu me zango) e não passam um dia sem dar grandes abraços e estarem tempos sentados juntinhos no pufe a "ler" livros. Pede muito colo, subtrai todas as carteiras que apanha a jeito, arruína a minha reputação de educadora, dá-me beijinhos lambuzados e deita tudo para o caixote do lixo. Come sozinho, arruma as coisas dele e, no outro dia, sem que ninguém desse por isso, foi buscar papel higiénico para limpar o chão que o Matias tinha sujado. Tão ruim de bom, este meu filho pequeno!

tataaaal!

Uma feijoada de chocos, dois petit gâteaux, um arroz de pato, um gelado de café, um bacalhau com broa, uma tarte de maçã, dois pasteis de alheira com espinafres, duas taças de mousse de Oreo, um cozido à portuguesa, um gelado de frutos silvestres, uma fatia de bolo de laranja, uma feijoada de gambas e mais uma taça de mousse de Oreo (só por causa das coisas) e está feito um fim-de-semana semi-prolongado, com festas de aniversário e Natal e visitas e tudo e tudo. Já temos Presépio, já temos presentes embrulhados, já temos árvore decorada - que tem direito à supracitada comemoração do Diogo de cada vez que a reencontra - e estamos prontos para mais festa. Haja alegria, neste Domingo Gaudete! E sais de frutos. Olha, não tenho disso cá em casa.

Agora, de repente, lembrei-me: o que é que aconteceu à "maior árvore de Natal da Europa"? Desmontaram aquela cena toda para substituir os lampiões que vão pifando na via pública e que já não há como pagar?

09 dezembro 2011

mãe pouco exigente

Começo a suspeitar que sou uma mãe demasiado relaxada no que diz respeito à aprendizagem dos filhos. Se ainda estivesse nos EUA, tinha as educadoras deles à perna porque o Gugas ainda não faz somas e subtracções no papel (oh yeah, faz parte do programa obrigatório do Kindergarden na NJ!) e o Diogo ainda não aponta para as partes todas do corpo. Mesmo no nosso mais despreocupado país, temo que eles possam perder o comboio do sucesso académico precoce.
Está bem que lemos, construímos, inventamos, desenhamos, rebolamos e dançamos juntos, mas o mais velho ainda não sabe as letras todas (acho eu, nunca o fiz recitar o alfabeto) e o mais novo só agora deixou de chamar "Cocó" ao outro. É que não faz parte de mim exigir-lhes isso. Também não me exigiram essas coisas a mim, quando era só um perdigoto. Pensando no assunto, há apenas três coisas que eu "exigo" que eles aprendam nesta fase do campeonato: a auto-estima, a sensação de segurança quanto ao serem amados e respeitados, e a usar a imaginação. O resto, desculpem lá, fica para os professores daqui a uns anos.

Mentira, também faço questão que tenham boas maneiras!

07 dezembro 2011

prevejo o aumento da sinistralidade rodoviária

Já viram a nova campanha da Triumph? Aquilo são criaturas muito desfavorecidas pela genética. E, pobrezitas, recobertas de tanto óleo que não deve haver quem as agarre. Marido, palavra de honra que tentei pôr aqui as imagens mas ainda não encontrei. Espero que, no caminho que fazes no "carro" que vai para o Taveiro, às sete e tal da manhã, tenhas a alegria de encontrar um mupi com esta campanha publicitária.

06 dezembro 2011

do que ele é feito

Complexos sistemas de condutas e filtragem de água esboçados a lápis de cera. Instalações eléctricas com peças de Lego. O quadro negro lá de casa onde já não cabe uma metrópole de arranha-céus. Valha-me Deus, que até o anjo de cartolina que trouxe da escola, para decorar, teve direito a prédios e respectivos jardins. Como é que é possível que uma coisa saída de mim - que eu lembro-me bem de o ver à saída das minhas entranhas, era aquele! - tenha tanta inclinação para assuntos que não me podiam despertar menos interesse? E, no entanto, de manhã, quando o vou cheirar e o acordo (tão quente, tão macio), continuo a ter a sensação que é manhã de Natal todos os dias.

04 dezembro 2011

então é isto que é um fim-de-semana

Acordar quando se acorda. Comer um abuso de pequeno-almoço. Não usar relógio, não mandar e-mails, (praticamente) não feicebucar. Andar a pé. Parar. Andar mais um bocadinho. Olhar para o rio que corre devagar, entrar em igrejas, monumentos, ruelas, escadinhas, ir por aí. Comer um abuso de almoço. Mais passeio, cinema, pequenas compras de Natal. E comer menos ao jantar porque já não se aguenta mais do que peixinho grelhado (mais uma vez, obrigada pelas sugestões, Joaníssima!). Disto outra vez, um segundo dia. E namorar, namorar, namorar. Palavra de honra que, em Coimbra, o tempo passa mais devagar. Isso e estar 48 horas sem ninguém a quem cortar bifes, mudar fraldas, assoar narizes, também ajuda.

03 dezembro 2011

gente parva (ou que precisa só de atenção)

Rapariga minha conhecida. Vinte e poucos anos. Metro e setenta, cinquenta quilos. Queixa-se que está gorda e comenta que eu é que sou mais estreitinha. Da primeira vez, pensei que estava a ouvir mal. Da segunda vez, achei que estava em risco de cair em distúrbios alimentares. Da terceira vez, percebi que é só uma daquelas raparigas que entoa este tipo de choradinhos para ouvir os outros a dizer: "mas tu estás óptima, estás magríssima, que disparate!"
Tenho tão pouca paciência para chamadinhas de atenção.

02 dezembro 2011

eu queria tanto, tanto, tanto

ter vontade de trabalhar. Mas não tenho. E não há ninguém aqui a impedir-me de largar os textos e as hiperligações chatas como a potassa e pegar no meu tricot, nas mini-empadinhas que a minha Avó mandou, no meu livro, nas camisas que tenho para passar, até. Se isto não é uma prova à minha honestidade profissional, não sei o que é. Prova não superada.

29 novembro 2011

bem resolvida

Depois de deitar os miúdos, lavar a louça, arrumar a cozinha, guardar a roupa dobrada, lavar o chão e - a cereja - esfregar a carpete coberta de vomitado do mais pequeno, que anda viroso, tomo o merecido duche e sinto que, sim senhor, deve ser isto que é ser uma mulher bem resolvida.
Mas depois: pára tudo! Ai o caracinhas. Mas afinal o que é isto de uma mulher ter de se resolver, bem ou mal? Uma mulher por acaso é uma equação de segundo grau? Uma mulher nasce com as peças desmontadas e tem de se ir compondo? Uma mulher precisa de provar a quem que se supera a cada dia?
É que um homem bem resolvido, não há dúvidas, é aquele que demora menos de um nanossegundo a decidir se acompanha a mini com tremoços ou com alcagoitas. E a escolha que faz não tem a menor importância para absolutamente ninguém. Por que é que as mulheres têm de levar toda a santa vida a provar que merecem, que conseguem, que aguentam, que estão bem, que estão óptimas?
Nesta altura, vivo basicamente sozinha com dois filhos, trabalho, trato da casa, meto-me em novos projectos. Mas aquilo que me faz sentir realmente bem resolvida é já não deixar que absolutamente ninguém toque naquilo que, para mim, é sagrado. Não admito, não cedo, não dou para esses peditórios. Se calhar, ser bem resolvida é só conhecermo-nos e respeitarmo-nos a sério.

26 novembro 2011

de volta ao ninho

Dois meses e meio depois de sair da casa americana (e muitos faz mala-desfaz mala, espacota-desempacota) entro na casa portuguesa. Nossa casa. Casa da senhoria, na verdade, mas casa arranjada por nós, pintada por nós, montada por nós, acortinada por nós. O nosso espaço, os nossos livros, os nossos horários, os nossos hábitos. Só faltam os vasos com kalanchoe à janela. E falta que o homem da casa venha de Coimbra, para eu não estar para aqui tipo mulher de bacalhoeiro, à espera da maré, com dois filhos no regaço que, parecendo que não, estão crescidos.

21 novembro 2011

não me apetece blogar

Não me apetece escrever. Não me apetece trabalhar. Não me apetece ir correr. Não me apetece nada senão ler. Por isso, adeuzinho e até qualquer dia.

17 novembro 2011

a gralha despistada e o peru fugidio

Era uma vez uma gralha regressada dos EUA que sonhava manter algumas tradições norte-americanas para o seu pequeno pinto ianque não se queixar que o expatriariam impiedosamente. Ela era uma gralha com muito boa vontade, que queria chegar a todo o lado e fazer tudo muito, muito depressa. Tão depressa, que adiantou uma semana a data do Dia de Acção de Graças e desatou a fazer listas, compras e a convidar algumas pessoas para o que sonhava ser um belo repasto familiar americano em terras lusas.
Pois bem, é assim que a gralha se encontra hoje a cozinhar dois frangos do campo (peru não se conseguiu, apesar da expectativa até ao último minuto e da boa vontade do gerente de talho do Pingo Doce, cá um beijinho senhor Rui!), com recheio sem fígados (que não havia, mas substituiu-se por patê), com batata doce com arandos (porque não havia inhame), e com tarte de abóbora e nozes de pecan (que havia porque trouxe no contentor). Ou seja, este vai ser não só um falso dia de Acção de Graças como uma aldrabice de jantar. A gralha é uma porcaria de dona de casa e mãe de família e valha-nos o vinho português.

15 novembro 2011

caixa de sonhos

Diz que a adolescência é uma fase difícil (principalmente para os pais dos adolescentes, mas para os próprios também não é goiabada). Diz que atinge picos de dramatismo nas raparigas. Diz que, porque eu nunca fui adolescente - perguntem à minha mãezinha -, passei de criança chata e irritante a adulta auto-suficiente e introspectiva. Umm, agora que penso nisso, se calhar ainda não saí da adolescência...
Enfim, para todas aquelas que estão de lidar com este período que bem se dispensava, por que é que as hormonas não podem ficar sossegadas? bonito e desafiante da vida, para todas as flores que despontam, todos os frutos que amadurecem preparando-se para as primeiras trincas da vida, surgiu um belíssimo projecto chamado Caixa de Sonhos. Este projecto oferece um pequeno tesouro, personalizável, que ajuda a lidar com as encantadoras particularidades do solstício da existência feminina e é um presente muito original para quem conheça meninas na adolescência. As Caixas de Sonhos são giras, são originais, são acessíveis, e são feitas pela minha queria amiga V., que merece todo o apoio. Vejam mais aqui.

11 novembro 2011

tanta gente com frio

Martinho nasceu na Hungria por volta do ano 316 e pertencia a uma família não-cristã. O seu pai era comandante do exército romano. Por curiosidade começou a frequentar uma igreja cristã, ainda criança, sendo instruído na doutrina, porém sem receber o baptismo. Ao atingir a adolescência, para tê-lo mais perto, o seu pai alistou-o na cavalaria do exército imperial. Mas se o intuito do pai era afastá-lo da Igreja, o resultado foi o inverso, pois Martinho continuava praticando os ensinamentos cristãos, principalmente a caridade. Depois, foi destinado a prestar serviço na Gália.
Foi nessa época que ocorreu o famoso episódio do manto. Um dia um mendigo que tiritava de frio pediu-lhe esmola e, como não tinha, o cavaleiro cortou seu próprio manto com a espada, dando metade ao pedinte. Durante a noite o próprio Jesus lhe apareceu em sonho, usando o pedaço de manta que dera ao mendigo e agradeceu a Martinho por tê-lo aquecido no frio. Dessa noite em diante, ele decidiu que deixaria as fileiras militares para dedicar-se à religião. Adaptado da Wiki.

Toda a gente, hoje em dia, parece detestar o termo caridade. Para mim, isso é orgulho ou incapacidade de se colocar na posição de outro que - sim, não teve a educação, saúde, justiça, quem o ensinasse a pescar, tudo direitos fundamentais - naquela altura, naquela altura de fome, de frio, de medo, de solidão, só precisa de uma ajuda concreta. A caridade não passa de moda. Pode mudar de nome, mas não pode desaparecer. E faz muita falta agora.

10 novembro 2011

primeiros!

É a histeria: a minha uicheliste de Natal está pronta. Quis adiantar-me à restante blogosfera, à já assim insane prematuridade do suposto espírito natalício, ao mundo em geral e à imaginação dos meus generosos leitores em particular. É este ano, eu sei, que me vão recompensar por tão rica literatura aqui produzida à média de duas ou três postadas semanais. Há para todas as bolsas e condições perante o trabalho. Estejam à vontade para escolher, não tenho preferências.




09 novembro 2011

também não me passam só banalidades pela cabeça

Tive demasiadas aulas de História, li demasiados romances históricos, vi demasiados documentários e filmes sobre o século XX para não fazer agora a simples aritmética de a) crise económica profunda + b) situação política em escalada de instabilidade = c) guê u e erre erre a. Faz-me lembrar de quando era pequenina e me explicaram a Guerra Fria, de como tinha medo da bomba atómica e pedia muito que os russos e os americanos se entendessem. Nessa altura, ia dormir e o aconchego e a segurança imperturbável do meu pai dissipavam os medos em poucos segundos. Suponho que tenho de praticar essa arte, agora, para os meus filhos.

08 novembro 2011

já que não tenho mais nada para dizer

1. Comprei uma máquina de café no Custo Justo (ponto pêtê!) que é uma maravilha;
2. Tenho de arranjar argolas para as cortinas dos rapazes e não me apetece ter de ir àquela rua ao pé do cemitério dos Prazeres;
3. Confirma-se que os indianos são os seres mais maravilhosos da face da terra, não só pela cozinha saborosa mas por terem sido os únicos que me conseguiram desbloquear o iPhone;
4. Dói-me metade da cara. Digam-me drogas para a sinusite, sff.
5. O Diogo é mesmo chorão.
6. Mudo-me para a minha casa daqui a duas semanas.
7. Não sei dos meus pantafones.

03 novembro 2011

fantasmas

Hoje foi à porta da igreja: lá estava ela, a Miss J., educadora americana do Diogo. Ontem foi a minha ex-colega da biblioteca de Princeton, no centro comercial do Campo Pequeno. Aparecem-me, agora. Aparecem-me enquanto durmo e também acordada. Antes só via onde não devia ver os que já morreram. Depois, os amores desfeitos, as ilusões desiludidas. Cheguei ao tempo em que já muitos fantasmas povoam os meus dias, pessoas que não pertencem ali e que me parece encontrar nos lugares impossíveis. Eu, que não percebo nada de psicologia e menos ainda de psicanálise, digo que são as memórias que tento apagar depressa demais. Há memórias que derretem mais devagar do que a neve de Janeiro. Não sei o que fazer delas.

01 novembro 2011

o corpo ao manifesto

Ontem desejei muito ter um daqueles andaimes que o Michelangelo usava para pintar deitado. Não sei quem é que tem a ideia de fazer um tecto com ripas de madeira de dois centímetros de largura e não se lembrar que um dia podia haver uma pessoa que ia querer esmaltar aquela treta toda (e mais os intervalos entre tabuinhas). Entretanto, vejo mais uma vez que, apesar de ter o corpo como se uma manada de elefantes estivesse estado a dançar a conga em cima de mim, eu nasci foi para os trabalhos forçados. Uma pessoa chega às portas do liceu e apresentam-lhe a economia (não suporto), a medicina (tinha de estudar química), a engenharia (aborrece-me) e lá se escolhe as Humanidades porque pode ser que dê para fazer alguma coisa interessante. Afinal, o que me interessa é a construção civil, acartar caixotes e cavar na terra. Vocaçãozinha mais proleta que me havia de sair.

28 outubro 2011

aurículas e ventrículos

Volta e meia, adoecem-nos os filhos para nos exercitarem o miocárdio. Sim, confirma-se, o meu ainda é flexível o suficiente para esticar e caber um bocadinho mais de amor lá dentro. (e medo, e incerteza, e vontade de colar aquele corpinho febril ao meu e enxotar todos os vírus, todas as dores)

26 outubro 2011

a vida que continua todos os dias

Durante a semana deixei de ser mulher, sou só mãe e filha. É tão estranho saltitar entre esses dois papéis, conforme a divisão da casa e a hora do dia. Levanto-me e passo pela cozinha, evito tropeçar no meu irmão grande demais, de fato (àquela hora não o distingo do meu pai); a minha mãe pergunta-me se dormi bem e se comi e eu sinto que aquelas são as minhas palavras - mãe sou eu! - desarrumadas noutra linha espaço-temporal. E depois clic! no interruptor das crias e ando a correr atrás de um e do outro, distribuindo canecas de leite, iogurtes líquidos com palhinha, pilhas de roupa, escovas de dentes. A cria grande está refilona e contestatária. Está um aranhiço com pernas e braços por todos os lados. A cria pequena continua destruidora e pede para ir ao bacio. Está uma (quase) bolinha espertalhona. Lindos e tão crescidos. Deixo-os na escola e tenho de parar uns segundos para me lembrar de qual é o papel que tenho de representar a seguir.

22 outubro 2011

adiantando-me à chuva

Parece que o Outono chega mesmo hoje. Até que enfim, que isto de só escrever posts positivos e a transbordar de felicidade já me começava a fazer parecer a Laurinda Alves.
E agora vou ali a Alcobaça buscar os meus caixotes acabadinhos de chegar do outro lado do mar. Continuo com pinturas, montagens e a mudança. Em breve já podemos ir para a nossa casa :)

19 outubro 2011

torradas na chapa

Entro naquela casa e tenho 4 anos outra vez. A sala está cheia dele, ainda. Está no sofá (que mudou de lugar), onde me recebia ao colo e lia sonetos. Está no quarto, no porta-fatos vazio, nas fotografias connosco no jardim da Cidade Universitária. Está ele, o meu Avô, e estão todos: tios, primos, Natais, jantares de sexta-feira inaugurados com um "ora então muito bom proveito!". As paredes verdes são as mesmas, os reposteiros cristalizando um cenário de décadas, palco da minha infância. É tão bom rever tudo na companhia de dois rapazes pequeninos, novos em folha, que espalham o estardalhaço e enchem de risos espaços silenciosos há tempo demais. Fomos lanchar a casa da minha Avó e o Gugas concordou que ela faz as melhores torradas do mundo. Mexeu cuidadosamente o açúcar na chávena de chá - que colher tão pequenina! E o Diogo fez combóios de molas de roupa pela carpete. Esperei tanto por isto.

17 outubro 2011

fim-de-semana bom

Este fim-de-semana teve sabor a prolongado porque começou logo na sexta-feira. À hora de almoço fui cortar o cabelo ao Chiado, dei uma voltinha pelas lojas, visitei uma exposição do Experimenta Design e, depois de acabar o trabalho que tinha para esta semana, fiz-me à A1. Cheguei a Coimbra já à noite e jantei maravilhosamente (obrigada pelas dicas Joaníssima!) junto ao rio. Só eu e o meu marido. E o rio. E a lua, que já não estava cheia mas faz de conta. E nem um babete, nem uma colher de sopa para dar (obrigada pais!). No Sábado de manhã ainda demos uma volta pela cidade e andámos de gaivota pelo Mondego. Que boa surpresa que foi redescobrir Coimbra, que arranjada que está a cidade, que encantador que é cada recanto. Olha que sorte a nossa, que logo calhou ele ir trabalhar para um sítio tão bonito! De seguida, juntámo-nos a quase toda a minha família paterna em Lafões para uma grande almoçarada. Os meus filhos foram esborrachados de mimos com sotaque minhoto e lá voltámos para Lisboa. Domingo foi para descansar de tanto quilómetro de autoestrada e passear junto ao Tejo, com toda a calma do mundo.
Tudo isto é um luxo, senhores, um luxo. E eu sei disso.

16 outubro 2011

baixar os braços

Todos os dias há mais qualquer coisa a dificultar-nos a vida. A uns mais do que a outros, mas a uma sociedade em geral. Há muita gente obrigada a refazer orçamentos a cada semana, a cada mês, a imaginar poupanças onde já parecem impossíveis e a suster a respiração de cada vez que liga o televisor para ouvir as novas "sentenças" governamentais. Infelizmente, não conheço melhor alternativa àquilo que o Governo está a fazer. Manifestar-nos é um exercício saudável de cidadania (como devia ser a maior participação nos órgãos para isso disponíveis) mas é pouco mais do que isso: exercício.
É muito triste que tenhamos de viver um período assim e o pior é que o fim não está à vista porque todo o sistema mundial parece estar próximo do colapso.
Também tenho medo, faço contas, lamento o que se passa. E depois penso: o que posso fazer eu? Certamente, não é baixar os braços, fechar-me no meu egoísmo, coleccionar bodes expiatórios, ódios, ou descarregar na buzina do automóvel. Posso ajudar aqueles que conseguir. Posso trabalhar bem. Posso dar exemplos aos meus filhos daquilo que eu quero que eles sejam como cidadãos portugueses, europeus, do mundo. You may say I'm a dreamer but (I hope) I'm not the only one. Se mais nada há a fazer, cultivo a gratidão pelo muito que tenho e não o ressentimento pelo que perco nem a ansiedade pelo que ninguém sabe, de facto, que acontecerá ao virar da esquina.

13 outubro 2011

bsf

Os anos passam-nos pelos ossos e vamos refinando pequeninas coisas na nossa maneira de estar. Eu vou acumulando filtros. Reparo agora que adquiri aquilo que podemos chamar de Bullshit Filter: quando me aparecem aquelas criaturas que falam com mais adjectivos auto-adjuvantes do que a realidade comporta, começo logo a pensar na sopa que é preciso pôr a descongelar. "Ah, que eu faço, tenho e aconteço" e foge-me instantaneamente a atenção para o betume que tenho de comprar. Acho que disfarço bem. Consigo sorrir e dizer "a-hã" nos momentos apropriados. Conversa, não lhes dou, que é para não estimular a verborreia.
Com o acumular de tanto filtro, prevejo que esteja para breve a formalização do diagnóstico da minha sociopatia há muito recalcada. Não admira que sonhe tantas vezes com facas.

12 outubro 2011

querido, estou a mudar a casa

Há um mês atrás, viemos de uma casa bonitinha, solarenga, na floresta, para uma casa escura, fria, com um corredor interminável e janelas que dão para paredes (pronto, e ao lado de uma pseudo-floresta). Para evitar cair em depressão, resolvi aproveitar a flexibilidade de horário de trabalho para arregaçar as mangas e melhorar o que é possível. Estou irreconhecível: entrei no Aki duas vezes na mesma semana, sonho com a disposição dos móveis e até já vejo revistas de decoração. Mais um bocadinho e costurava os meus próprios cortinados. Enfim, está a dar-me uma trabalheira desgraçada mas a verdade é que, pelo andar da carruagem, parece que vamos ficar naquela casa durante uns bons anos (emigrantes pé-descalço, é o que dá). Mais vale tentar amimozá-la e fazer dela o ninho que a nossa família merece.

11 outubro 2011

teletrabalho

A partir de hoje, e sempre que quiser, trabalho a partir de casa. É claro que isso só é possível porque tenho um trabalho que se presta a isso, porque sou disciplinada e porque tenho um chefe que confia em mim. Mas é uma oportunidade valiosíssima, isso é. Posso tratar dos meninos com toda a calma do mundo, estar com eles quando mais precisam e ainda ter tempo para mim (e voltar a correr, iupi!), bastando para isso compensar à noite ou em horas de almoço. Como mantenho o meu posto de trabalho na universidade, nem sequer corro o risco de morrer de isolamento (como quase aconteceu da primeira vez que teletrabalhei). O maior desafio é resistir à tentação feicebuquiana e dos blogues em momentos de concentração laboral. Vou arranjar uma chibata para evitar a prevaricação. E agora vou trabalhar para ter tempo para pintar portas amanhã!

10 outubro 2011

serviço público/ publicidade gratuita

Quem tem filhos que não comem está habituado a ouvir a célebre frase "quando ele tiver fome logo come". Isso até pode ser verdade para crianças que não comem porque não gostam/não estão habituados a experimentar novos alimentos, para os que estão em fases de desenvolvimento e adaptação específicas, ou para os que estão doentes. Mas há quem não reconheça que, tal como há adultos com muito ou pouco apetite (como eu), também há crianças que, pura e simplesmente, não têm fome. Nos adultos, isso ajuda-os a caber num XS; numa criança, pode ter consequências do ponto de vista da resistência a doenças e mesmo do crescimento (já para não falar do ambiente familiar às refeições...).
Posto isto, sinto-me no dever de partilhar a (re)descoberta do estimulante de apetite que o Diogo começou a tomar há cerca de 3 semanas, o mesmo que a minha Mãe me deu em pequenina. Se ele anda a comer como um abade? Não. Anda a comer um pouco de tudo, a todas as refeições, com equilíbrio. Meia dúzia de passas ou meia banana já não são um jantar típico. Neste período, já ganhou cerca de um quilo, anda muito mais bem disposto, dorme melhor, em suma: o paraíso. E não houve um único pediatra que me falasse nisto (ainda que a toma, agora, esteja a ser acompanhada por pediatra).
Chama-se Viternum, à venda na sua farmácia.

07 outubro 2011

monstros

O mais velho tem medo-fascínio do escuro e de tudo o que está nele escondido. Arma-se de lanternas e avança-recua para os quartos de luzes apagadas, florestas amazónicas de perigos insondáveis. O mais novo cumpre o seu papel ao mais alto nível: esconde-se, abre a bocarra(zinha) semi-dentada e emite os sons mais assustadores que consegue. Perseguem-se, assombram-se, duas migalhas de pijama invocando e espantando fantasmas mesmo antes de se irem deitar - deve ser por isso que nunca lhes dei por pesadelos.

Post inspirado pela Lebasiana.

desqualificação laboral

Dava-me um jeitão não ir trabalhar hoje para pegar na trincha e pintar as portas e caixilhos da minha casa. Já para não falar dos furos na parede que é preciso fazer e de todas as estantes que há para montar. Seja como for, a minha ciência vive daqueles que se queixam do trabalho que têm. Se calhar mais valia dedicar-me a essa espécie de trabalho de campo.

05 outubro 2011

croquete (sim, aparentemente é uma semana com títulos destes)

Não estivesse o meu telemóvel bloqueado desde que desemigrei e hoje botava aqui daquelas fotografias bonitas com praia, unhas dos pés envernizadas, o peixinho grelhado que comi ao almoço e uma ou outra gaivota a voar. Mas não. Limito-me, portanto, a dizer que este foi um feriado maravilhoso, que Sesimbra estava um encanto (e bem menos cheia do que a Arrábida, onde tentámos ir antes), e que o Verão pode continuar até ao ano que vem, a ver se eu me importo.
Ah, o croquete é o meu mais pequeno na areia, nas ondas, na areia, nas ondas, de cabeça na areia, a levar reboletas nas ondas. E provavelmente o que ele deixará no bacio amanhã de manhã (sim, já re-inaugurámos esse instrumento emblemático da maternidade).

04 outubro 2011

o post do não-foi-bem-isso

Depois de duas horas ajoelhada no milho (com este calor, quase fazia pipocas) para ganhar consciência da dimensão pecaminosa da minha irreflectida afirmação, estou em condições de vir aqui proclamar a minha inocência e, ainda assim, pedir desculpa a todos os que se sentiram lesados.
Se me permitem, passo a expôr os meus argumentos:
1º A minha mãe não fez carne assada para eu trazer para o almoço. Sobrou do jantar e eu afiambrei-me;
2º Não tenho microondas no trabalho, pelo que como tudo frio - o que contribui para os meus créditos de auto-comiseração;
3º Quem mais sofre com o cheiro a carne assada são os meus colegas de trabalho, que nem sequer a provam (mas eu ofereço!, antes que me apedrejem);
4º Acho mesquinho que venham aqui acusar-me de peito aberto: quem de vós nunca trouxe marmita para o trabalho?
5º Finalmente, gostava imenso que toda a gente tivesse mimos de mãe, trabalho e olfacto (mais ou menos por esta ordem de prioridades) mas não posso carregar as culpas do mundo se isso não acontece;
6º E agora o clássico: isto é um blogue público, só vem aqui quem quer. Se não gosta, não come.

carne assada

No top 10 das coisas desagradáveis disto de ser remediada está o facto de passar a tarde a trabalhar com cheiro à comida que trouxe de casa da minha mãe.

E é nestas situações que penso como é bom que quase ninguém leia isto - se fosse uma Pipoca ou uma Cocó a dizer tamanha enormidade, levava logo com uma enxurrada de mensagens de ódio porque "ao menos tens o que comer", "eu já não tenho mãe que me faça esses mimos", "dá graças por teres trabalho" ou mesmo "és uma cabra insensível: o meu padrinho perdeu o olfacto na guerra e bem gostava de poder cheirar alguma coisa!"

blogcatita

Catarina, se me ouves: não consigo aceder ao teu blogue (e não tenho o teu e-mail). Is there anybody out there..?

03 outubro 2011

três de outubro

Há dois anos, ala para os EUA. No ano passado, não faço ideia (acho que tinha começado a trabalhar num sítio onde só estive duas semanas). Este ano, fico desmaridada durante a semana. Ele apanha o comboio e vai ganhar o pão para Coimbra, e nós ficamos por Lisboa. Enquanto esperamos pelo contentor e acabamos de mobilar a nossa casa, deixamo-nos estar em casa dos meus pais.
É estranho. Uma pessoa dorme todas as noites ao lado da mesma pessoa nos últimos cinco anos e tal, e agora faz o quê? Põe só uma almofada na cama? A quem é que dou pontapés enquanto sonho que sou uma ninja assassina? Quem é que dialoga comigo enquanto falo a dormir? Quem é que se zanga comigo porque corto as unhas dos pés para dentro da sanita? Pronto, como em tudo, lá nos habituaremos. E esperamos que seja só por três meses.

02 outubro 2011

correndo o risco de me tornar repetitiva e (ainda mais) chata

Como é que se pode comparar dias eternamente iguais, em que só mudam as estações do ano (e agora já outona em força, por lá), a dias imprevisíveis excepto na sensação de casa? Estar em casa. No nascer do sol (lindo!) junto ao rio, com amigos, sozinha, com os filhos, no trabalho, na caixa de supermercado, em casa. Sem me perder na tradução, sem complexo de ilha, sem me sentir fora de pé - e farta de ficar parada, a boiar, para não nadar até à exaustão.
"Então, e como foi a experiência de viver nos EUA?" Foi boa. Foi como vestir a bata, entrar no laboratório, espreitar pelo microscópio e observar quatro celulazinhas semi-inertes ao longo de vinte-e-quatro meses. E depois despir a bata, enviar o relatório, voltar para casa e comer um prato de sopa de grão com espinafres.

Este hoje vai para a Leonor (e para todas as minhas amigas emigradas, já agora).

28 setembro 2011

detalhes que não interessam a ninguém

E habituarmo-nos outra vez a usar sapatos sem ser na rua?

27 setembro 2011

vir para aqui descansar

Pois que estou feliz com o meu regresso ao trabalho (e à investigação) e devo confessar que não é só pelo que faço aqui - que, na maior parte do tempo, não é blogar - mas pelo facto de os meus ouvidos e a minha cabeça descansarem um pouco. Uma mãe decente não admite uma coisa destas mas eu admito, do fundo da minha indecência, que já estou a dar em maluquinha com o Diogo a chorar cerca de 15 horas por dia e a pedir colo sempre que está acordado. Meu rico filho, compreendo o teu sofrimento e desdobro-me para te ajudar a ultrapassá-lo, mas já faltou mais para os teus avós nos convidarem a sair lá de casa.

26 setembro 2011

o alentejo também estava uma maravilha


E que bom que foi rever amigos e conhecer os novos sobrinhos :) É uma sensação nova, esta de ser tia, e gosto muito. Tenho vontade de os ver crescer todos juntos e fazer muitos mais programinhas destes.
Agora é mais uma semana de trabalho e tentar fazer render os dias, que parecem sempre demasiado curtos.

23 setembro 2011

a adaptação

Tem sido feita de acordo com as características de cada um. O pai está bem em qualquer lado. A mãe (que nunca mudou o fuso horário do computador - denial is a river in Africa...) acha normalíssimo estar aqui e não se lembra sequer de como foi possível viver noutro sítio. O filho mais velho está bem em qualquer lado (desde que esteja lá a mãe). E o filho mais novo? O filho mais novo está a lidar como pode com tanta mudança que não compreende. Num dia está nos EUA, noutro em Lisboa. Noutro no Algarve, de novo em Lisboa e depois no Alentejo. Num, em casa dos avós maternos, noutro em casa dos avós paternos. De 24/7 com a mãe e o irmão em casa para a entrada progressiva na escola (travail oblige), felizmente com o irmão. São fusos horários, hábitos alimentares e camas diferentes, muitos abraços desconhecidos de gente que o adora mas que ele não conhece de lado nenhum. O meu filho pequenino anda perdido neste reboliço e só desejo que a poeira assente para que ele se possa sentir de novo em casa. Meu querido, a mamã não vai a lado nenhum. E em breve vais perceber que, nas horas em que te deixo na escola, não podias estar melhor entregue. Até lá, dou-te todo o mimo a que tens direito.

22 setembro 2011

beira-rio

Equipei-me e saí para correr. Estava vento, como sempre, mas não vi corvos-marinhos. Dantes via-os, de manhã, quando não havia mais ninguém ali àquelas horas.
Ao fim do dia, o cenário que passa por mim enquanto mal piso o chão é feito de gente. Gente sozinha, sentada junto ao rio, debaixo dos pinheiros mansos. Gente debruçada sobre o corrimão, resistindo ao cheiro da maré baixa. E casais, de diferentes idades e níveis de intimidade. Uns sucedem-se aos outros. Atravesso, de raspão, primeiros encontros, relações ilícitas, arrufos, despedidas. Caras e caras que se conheceram em redes sociais. Ou numa discoteca. Ou num centro paroquial. Não sei se nos Alunos de Apolo. Tantas pessoas que cedem, momentaneamente, e reconhecem em público a solidão própria, a solidão alheia, e tentam superá-las. Têm posturas medidas. Desenham gestos previamente ensaiados. Falam de coisas banais e de coisas íntimas. As mulheres rindo, os homens inclinando a cabeça, esforçando-se por ouvir. Tanta, tanta gente que procura o amor ao longo das margens do Tejo. E não sabem que esse amor ribeirinho só está lá para quem tem 17 anos. Para os outros, já esgotou o prazo de validade. Mais valia dedicarem-se à pesca.

as (inevitáveis) comparações

Aqui
é tudo muito barato (à excepção da gasolina, portagens e produtos farmacêuticos). Acreditem!
os homens são muito mais bonitos e interessantes.
as mulheres são menos bonitas e, como dizê-lo?, menos voluptuosas.
(ou seja, isto rende bastante para as mulheres mais ou menos)
ainda é Verão.
a televisão é a mesma m.....
há gatos.
as pessoas andam todas de trombas.
vê-se gente a esconder lágrimas no Metro.
(nota-se que as coisas estão difíceis e, sobretudo, que as pessoas têm medo - acho que vou juntar-me ao movimento dos abraços de graça)

19 setembro 2011

o regresso

Depois de 3 dias caóticos, em que desmontámos o resto da mobília, limpámos a casa de cima a baixo e deitámos os últimos restos da nossa existência princetoniana para o lixo, chegou finalmente a hora de apanhar o avião de regresso a casa. À partida, o cansaço era tal que nem houve cabeça para nostalgias. Não vale a pena estar para aqui com estórias delico-doces de que hesitei, senti frios na barriga, ou vi as cores da bandeira americana com outras tonalidades: a verdade é que só queria chegar aqui e ir dormir. Do mesmo modo, também não me emocionei à chegada. Tinha os olhos demasiado secos para lágrimas, umas olheiras até ao umbigo e mesmo assim fui trabalhar no próprio dia.
De modo que a nova rotina se fez rapidamente e quase já parece mentira que ainda há uma semana estava lá, do outro lado. De uma forma ligeiramente perversa parece quase que deixei para trás a verdadeira gralha e que sou apenas um doppelgaenger que se conseguiu escapar e fazer o que desejava. Será mesmo possível que isto, aqui, agora, sou eu, somos nós? Não me belisco para não acordar.

14 setembro 2011

casa

O sino da minha igreja. Falar com as pessoas em português (sentir-me eu, portanto). E dizer ao meu cão que não o vou deixar mais. O Natal pode continuar a ser todos os dias, muito obrigada.

12 setembro 2011

lá vamos nós

E hoje não me apetece dizer mais nada.

11 setembro 2011

onze de setembro, segundo a mãe

Querido Khalid,

Faz hoje dez anos que te perdi, meu filho. Tanto tempo e o meu peito ainda arde. Tem um buraco do tamanho da cratera que eles agora estão a reconstruir. A ti, ninguém te traz de volta.
Como sabes, os teus irmãos já se juntaram a ti (o Hani não recuperou da operação e o Aroun desapareceu nos primeiros raides) mas a tua irmã Fatima está bem. Casou e tem dois filhos, vivem todos connosco. A tua sobrinha Adeeba é que está a escrever esta carta, já que eu nunca aprendi as letras. É bonita e vai à escola, diz que quer casar-se com um bom homem temente a Deus e ser professora. Vamos ver o que se arranja.
Queria dizer-te que nem tudo é mau, meu querido filho. Faltam muitas coisas mas não vivemos com medo. Uma pessoa habitua-se. As paredes da nossa casa ainda estão crivadas de balas das RPG-7s mas a horta dá algumas cebolas e já conseguimos um melão este ano.
Penso em ti todos os dias. Lembro-me de como eras um menino bom, amigo de todos, sério. Lembro-me de te dar o saco da merenda quando saías de casa de madrugada para caminhar uma hora até à madraçal. Como me sentia orgulhosa de ti, filho!
Sabes, já não fico a pensar se valeu ou não a pena. Não te tenho mais e muitos outros se perderam. E as coisas não mudaram muito, principalmente para eles. Eles ficaram com medo, revoltaram-se. E agora voltam às suas vidas, como nós.
Gostava de estar contigo de novo. Gostava de ter a certeza de que encontraste a recompensa que procuravas. Mas a única esperança está no dia do Juízo. In shaa Allaah não tarde muito.

A tua, sempre
Mãe

09 setembro 2011

e onde estavas tu (quase) dez anos depois do nineleven?

A tentar não enlouquecer numa casa vazia, habitada por dois rapazinhos com demasiada energia e já nenhuma forma de a canalizar. A despachar os últimos tachos. E a ajudar um casal muçulmano (persas? jordanos?) à espera de gémeos, que ficou com muitas das coisas de bebé que ainda tínhamos. Eis o que conseguiram, senhores terroristas: ocidentais e orientais a conviver sem problemas, aliás, a conviver com os mesmos problemas corriqueiros do dia-a-dia. Ela com véu, eu com o cabelo lavado depois de ir correr, mulheres num mundo que não é assim tão grande, em certas coisas.

08 setembro 2011

uma crueldade assentida

"Who has more power than a child? She can be as cruel as she wants to be. He can't. He'd never. Please, Bea. Please have mercy. Children don't. Do they? Did you, Peter, have mercy on your own parents?"
in Michael Cunningham, By Nightfall

Quando eles nos vêm parar aos braços, os filhos, compramos um bilhete vitalício para a montanha-russa do amor sem reservas. Cuidamos deles, deixamo-nos inundar de amor, um amor posto à prova por muitas concessões de nós enquanto pessoas. Mas esse amor não é testado só com fraldas sujas, noites insones, doenças, também é quando crescem e desenvolvem a capacidade única de nos magoar. Não por mal, não conscientemente, mas com a inevitabilidade insidiosa de finas agulhas, que nos levantam a pele e nos deixam à mercê do que quiserem fazer de nós.
Deixam de falar connosco. Ou falam, e as palavras são avalanches de impiedade. Ou uma chuva fria, de Novembro. Porque nos conhecem tão bem (conhecem?). Portas fechadas. Segredos. Distância. Desdém. Auto-suficiência e superação. Quanto mais um pai ama um filho (e não falo de mimo, nem daquela reverência tão corrente nas famílias reduzidas de hoje), mais este se sente seguro. Tão seguro, tão confiante, que não questiona o amor que os pais lhe devem. Tem carta branca para pisar, para julgar, para magoar. Infelizmente, não é garantido que tudo isso passe com o fim da arrogância da juventude.
Sim, muitas vezes não tive (tenho?) piedade dos meus pais. Ainda que os adore.
Sim, os meus filhos vão fazer o mesmo comigo, mais tarde ou mais cedo. E acho que não há nada que ninguém possa fazer acerca disso.

07 setembro 2011

afinal se calhar fico

Tinha-me esquecido que, em Portugal, em qualquer esquina, por detrás de qualquer viela, cheira a carapaus grelhados. Isso ainda é pior do que política, futebol e telenovelas.

06 setembro 2011

gratidão

Caros Estados Unidos da América,
Ao longo destes dois anos, insultei-vos (sobretudo mentalmente) quase tanto como um orador num comício do PCP em Aljustrel. Contudo, é bom reconhecer o que vocês me trouxeram de positivo. Obrigada
Pelas torradas com manteiga de amendoim e doce de morango
Pela apple cider
Pelas saladas e sobremesas do Blue Rooster, em Cranbury
Pelo leite de amêndoa
Pelos melhores frutos silvestres, melancias e maçãs Macoun do mundo
Pelas Terhune Farms, em Lawrenceville
Pelo combóio a vapor, em New Hope
Pelo Dinky
Pela natureza e pelas pequenas e grandes construções, dos arranha-céus de NY à biblioteca pública de Princeton
Pela neve
Pelos Verões quentes e húmidos, em que dormi sempre de janela aberta a ouvir os sapos
Pelo Halloween e por fazerem uma grande festa a propósito de todos os pretextos imagináveis
Pelos autocarros escolares
Pelos camiões gigantes e carros de bombeiros cromados
Pelas lojas com "promoções" 365 dias por ano
Pela Paper Source, a Anthropologie, e a TerraCycle
Pelo D&R Canal e pelo Mercer County Community Park
Pelas oportunidades de emprego e pelo reconhecimento do meu trabalho
Pelos livros
Pela irrepreensivelmente funcional instituição-cidade que é a Universidade de Princeton
Pelos amigos, colegas e vizinhos norte-americanos, ucranianos, portugueses, irlandeses, gregos, búlgaros, italianos, peruanos, indianos, jamaicanos, equatorianos, dominicanos, dinamarqueses e chineses:
Anatoly
Marina
Rogério
Lúcia
Ana
Kathleen
Dimitrios
Katia
Dionisios
Lorenzo
René
Erica
Carol
Sarah
Emily
Rupah
Jamie
Jackie
Eva
Maria Emília
Addy
Thomas
Anne
Jen
Lauren
Jim
Dan
Rachel
Lindsay
Mai
Jonas
Daniel
Ane
Sean
Jack
Sofia
Isobel
Pela vossa inocência, determinação e capacidade de dar a volta por cima. Essas levo-as emprestadas, sim?
Vossa sinceramente,
gralha

05 setembro 2011

a despensa americana

Enquanto cá estive não consegui mais do que vislumbrar a ponta do icebergue da imensidão de porcarias coisas saborosas e inúteis que se vendem por cá. No entanto, há alguns produtos que me conquistaram e levo um pouco de (quase) tudo isto no contentor. Quanto mais não seja, este ano tenciono fazer um jantar de Acção de Graças por já não estar na América :D

o hidratante com o cheirinho mais guloso de todos os tempos

o cheiro da minha casa no Outono
 
chocolate + grãos de café, não há por onde falhar





porque o wasabi não serve só para sushi e sashimi
 


para o perú do Dia de Acção de Graças ou qualquer lombo assado
(também comprei secos, infelizmente não dá para levar frescos)





para a minha tarde de abóbora e nozes de pecan



03 setembro 2011

horários

Quase toda a gente que conheço é noctívaga ou, pelo menos, declara-se not a morning person. Note-se que, para mim, noctívago é alguém que acha que depois do pôr do sol é que a vida começa. Eu sou o contrário. Acordo muito bem às 6h, desde que tenha dormido. Tenho toda a energia do mundo de manhã. Depois do almoço gostava de poder fazer a sesta, mas longe vão esses tempos. À tarde ainda funciono mas a noite é para dormir. É por isso que me habituei lindamente aos horários que se praticam por aqui, em que se almoça ao meio-dia (quando não é antes), se janta às 18h (por acaso nós só jantamos às 19h) e a criançada está na cama às 20h.
Voltando a Portugal, não me safo de alterar as nossas rotinas. Paciência, faz-se. Mas o mais estúpido de tudo é que já sei que vou ser sujeita ao julgamento habitual quando manifestar o meu desagrado pelas horas mais tardias. Jantar antes das 21h é coisa de velho. Deitar antes da meia-noite é só para quem não tem vida. Acordar antes das 7h é sina de pobre. As pessoas são diferentes, OK? Tal como não estou à espera que todos comam o mesmo que eu, por que é que tenho de gostar de dormir até tarde ou de ficar acordada a ver porcarias na televisão até às 2h? Já para não falar que a maioria do mundo não vive nesse fuso horário que a nossa cultura europeia do Sul nos vende como sendo o mais adequado. Como se um mocho tivesse mais estilo do que uma gralha, tss, tss.

02 setembro 2011

materialisticamente falando

Dobrei, acondicionei e empacotei todos os bens da nossa família em 10 caixotes grandes e 7 malas de viagem. Uns senhores simpáticos com sotaque beirão e uma camioneta pintada de verde e vermelho já vieram buscar a encomenda que vai de navio até ao lado de lá. É nestas alturas que penso que é muito bom ter pouca coisa. E mesmo assim é tanta! A próxima pessoa que oferecer um brinquedo aos meus filhos (excepto o Pai Natal), uma moldurinha mimosa ao casal, um pano de cozinha para o nosso lar será fuzilada. Ou obrigada a desencaixotar a nossa tralha toda quando a formos buscar em Outubro.

01 setembro 2011

balde de água fria

A primeira recordação que tenho do meu marido é do dia em que ele fez 16 anos. Estávamos todos no ginásio a treinar, ele acabou uma série de abdominais e eu fui buscar um balde de água e despejei-lho em cima, com um sorriso rasgado e um caloroso "parabééééns!". Constato agora quão simbólico foi esse acto e quão profético da geração vindoura.
Foi uma parvoeira, claro que sim. Ainda para mais, não foi a única vez que fiz uma coisa deste género. Mas, ao passo que outros houve que reagiram com um murro nos meus dentes (e ganharam um murro no nariz, de brinde), o bom rapaz que o meu futuro cônjuge sempre foi ficou dividido entre a estupefacção e a superioridade perante gesto tão insignificante. E o que é que isto diz de mim? Que fazia coisas muito parvas, por exemplo. Que sempre tive dificuldade em conter os impulsos e medir as consequências dos meus actos. E que já arranjava maneiras mais meiguinhas de chamar a atenção do sexo oposto.
E agora, passados 14 anos, o que é sucede? Sucede que temos um filho pacífico, que só quer estar de bem com tudo e com todos. E depois temos outro que é o cúmulo da meiguice, enche-nos de abraços e beijinhos, só para depois nos bater e puxar o cabelo (e depois fazer festinhas, rapidamente arrependido). Ter filhos também é isto, é olhar um bocadinho ao espelho e perceber melhor certas coisas.

30 agosto 2011

vazante

À medida que as águas cor de chocolate descem, lentas, em direcção à baía do Raritan, a Natureza declara-se cansada e pede Outono. Era só o que me faltava, Outono ainda em Agosto. Mas o que é certo é que que as primeiras folhas estão a avermelhar, a temperatura baixou e os miúdos regressam à escola para a semana. Eles que façam o que quiserem, o país é deles. Eu volto ao país dos Verões que se prolongam por Setembro fora, como as nossas tardes se prolongam pela noite fora e as noites duram até de manhã. As férias da minha infância foram muitas vezes neste Verão de noites frescas, percebes e Oceano Pacífico (o programa de rádio), enquanto o meu pai conduzia o Dyane descapotável e eu era filha única, de pé no banco de trás.
Agora ando a encher caixotes, a tapar falhas na mobília com lápis de cera, e a contar os dias para voltar ao Verão. Deixem lá a colecção Outono-Inverno nas montras, que eu fecho os olhos por algum tempo. Apesar de a Ana de Amsterdam ter finalmente voltado ao activo para me acompanhar ao pequeno-almoço (ainda que a dizer bem dos livros do Saramago, coisa indesculpável), não estou preparada para chá e mantinhas.

28 agosto 2011

a cheia

Depois de uma noite acampados no corredor, devido aos avisos de tornado, a Irene transformou-se em tempestade tropical e limita-se a debitar chuva. Muita chuva. O D&R Canal já estava bastante cheio com a elevada precipitação das últimas semanas, de modo que transbordou. Neste momento, a água está a cerca de 50 metros das casas mais próximas (se subir mais um metro e meio chega lá) e a cerca de 100 metros da nossa. Um dos cantos do parque de estacionamento está alagado, felizmente não onde está o nosso carro. Resta-nos esperar que a chuva pare e que o nível da água não suba ainda mais. Neste momento, não conseguimos sequer chegar ao centro de Princeton, porque a ponte está coberta, como podem ver na imagem. Bom, pelo menos, até ver, temos água e electricidade. Pode ser que a aventura se fique por aqui.

A ponte na Alexander Road.
Acesso ao canal, perto de nossa casa.
 
À esquerda, alcance da cheia; à direita, casas mais próximas (atrás das árvores).

27 agosto 2011

agarrem-se bem

Hoje à noite temos encontro marcado com o furacão Irene. Diz que há 60 anos que não há um destes por aqui. Parecendo que não, é maçador. Ainda que não vamos todos pelos ares a voar de banheira (estou mais pesada uns quilitos, há esperança), ainda que o canal a 300 metros de nossa casa não nos entre pela varanda, os próximos dias não vão dar para passear. Mandaram-nos abastecer-nos de rações para 5 dias e já havia muito pouca coisa no supermercado. Espero que isto seja histeria e exagero. Pode ser que o vento faça o favor de me atirar tudo para dentro doa caixotes e escuso de ter mais trabalho com a mudança.

25 agosto 2011

o desafio que se segue

Aos poucos, começa a definir-se o cenário do que será a nossa vida de agora em diante, no regresso a Portugal. Eu regresso (ao que tudo indica) à vida académica, os rapazes vão para a escola onde o Gugas andou antes, e o meu marido começa um novo emprego, numa nova área, que o vai obrigar a passar as semanas em Coimbra, pelo menos durante os primeiros 3 meses. Isto significa que regressamos à nossa casa, ao nosso bairro, mas como família depenada de pai excepto aos fins-de-semana.
Se estou com cagunfa? Evidentemente que sim. Passo a listar algumas miaúfas relevantes (por ordem semi-aleatória):
1º Tomar conta de dois filhos sozinha;
2º Morrer de frio nos Invernos gélidos e húmidos de Lisboa, muito piores do que as temperaturas negativas daqui;
3º Lidar com toda uma sociedade em depressão colectiva (e que pensa que a solução é zarpar daí);
4º Ter de ouvir falar de futebol e telenovelas todos os dias;
5º Dirigir-me a repartições públicas;
6º Voltar a tratar as pessoas por Sr. Dr. e Sr. Professor;
7º Ficar desempregada e não conseguir arranjar emprego durante muuuuuito tempo;
8º Sentir que já não pertenço bem aí;
9º Sentir que os meus amigos got over me (evito os estrangeirismos mas, neste caso, o termo em Português não exprime exactamente o que quero dizer)
10º Beber cafés minúsculos outra vez.
Reparem que já tenho um cão, donde a inutilidade do conhecido adágio de "quem tem medo...". O medo assiste-me, ah pois assiste, mas é preciso andar com a vida para a frente. Com a ajuda da família alargada, lá sobreviveremos a esta nova modalidade familiar. Com todos os aquecimentos ligados, lá conseguirei limitar a torrente de ranho que habitualmente me corre do nariz entre Novembro e Abril. Com muitos mimos dos amigos, lá acreditarei que fiz alguma falta. Não estou é a ver panaceia para a sensação de já não pertencer aqui, nem lá, nem em lado nenhum. Pode ser que passe com o tempo, os pés de molho no Atlântico e a cabeça a sonhar com mundos ilimitados daqui em diante.

24 agosto 2011

férias um bocado grandes demais

Dias de mula de carga, jornadas de puro deleite que passava na biblioteca, imunda de pó, levando traulitadas na cabeça dos livros em queda livre, o estrabismo a florescer-me nos olhos, tentando ordenar por ordem Richardson ou Library of Congress centenas de volumes. Ahh, as saudades que tenho desses dias! Agora, a única coisa que faço (para além de ler, ir à piscina, estar de papo para o ar, brincar, ir à biblioteca por prazer, blogar, feicebucar) é equilibrar o portátil enquanto caminho pela casa, respondendo a potenciais compradores de ferros de engomar, estantes, edredons, carrinhos de bebés, enquanto um filho me trepa pelas pernas a pedir colo e o outro me faz perguntas de 30 em 30 segundos. Tenho os joelhos gastos de brincar aos cavalos, aos camelos, aos elefantes, às vacas. Tenho zumbidos nos ouvidos por estar constantemente rodeada de crianças (os meus e os vizinhos) a gritar, a chorar, a ameaçar-se com espadas imaginárias, uns amores, uma constante roda viva de energia que nem sempre se consegue canalizar para mergulhos na piscina. Não me arrependo nada de ter optado por estas férias prolongadas antes do regresso a casa, mas acho que vou dar um abraço sentido às educadoras dos meus rapazinhos no dia em que eles recomeçarem a escola, Deus as abençoe.

(post inspirado nos vários co-sofredores do mesmo "mal" por essa blogosfera fora)

21 agosto 2011

leve leve

Já repararam como, no Verão, todos os blogues deixam cair um pouco do cinzentismo, do peso da seriedade, e se limitam a revelar o puro gozo das coisas boas da vida? Não é uma questão de férias nem de temperatura, é só uma necessidade que temos todos de parar um bocadinho de nos preocupar, de abraçar a inconsciência, dançar numa nuvem estupefaciente e acreditar que o sol vai brilhar bonito, a música vai soar perfeita. Caramba, todos precisamos disto. Não é a silly season, é a humanidade fazendo um pouco de bem a si própria. Desligando as exigências, suspendendo a seriedade. Cutting itself some slack. No Outono, o saldo bancário vai continuar a ser magro, não há nada a fazer. Deixemo-nos rebolar na alegria da areia e da pele bronzeada só um bocadinho mais. Não faz mal a ninguém.

20 agosto 2011

podes ficar com as jóias, a casa e o carro

E, já agora, fica-me com os miúdos. Durante umas horitas, vá. Uma semana de chuva e trovoadas brutais obrigaram-nos à reclusão caseira quase completa. E não é por andar a ser picada por aranhas, percevejos, moscas da fruta, ainda não tenho a certeza, que já trepo paredes.
Entretanto, vendo o recheio da casa. Que maçada, o ferro de engomar e o aspirador já se vão amanhã. Pena que as sanitas e os tachos ainda fiquem, senão é que eu virava Rainha do Sabá. Assim é só rainha do nojo e da roupa amachucada.
Na eventualidade de haver aqui alguém a ler-me em Princeton, ainda há coisas muito jeitosas aqui.

18 agosto 2011

a gralha adormecida

Atenção: este post não promete ser longo por aí além mas compensa em intensidade dramática, que ainda ninguém se chegou à frente com o tal ombro amigo.

Quem me conhece há pouco tempo costuma reparar que eu pareço ser uma pessoa pouca dada a devaneios românticos. Pois bem, fiquem sabendo que, dentro de mim, também já existiu uma pequena princesa que acreditou em contos de fadas. Só que essa princesa apanhou sucessivas desilusões com muitos príncipes (nem tanto com bruxas, que não se costumam meter comigo).
A primeira vez que me apaixonei, na terceira classe, descobri que essa era a melhor sensação do mundo. O RJAA (ainda me lembro do nome completo da criatura) não era muito diferente dos restantes meninos de 8 anos, à excepção dos dentes de coelho com que sorria adoravelmente. Ainda assim, a minha almofada passou a encarnar o tal rapazinho, fronhas e fronhas lambuzadas de beijos imaginários e abraços apertados. Tanto sonhei que ele me mandasse bilhetinhos escritos com caligrafia torta, e ele nem uma canelada, nem um empurrão no recreio. Na festa de fim de ano, todos os meninos quiseram dançar comigo, todos menos ele. E o meu romantismo levou a primeira estocada.
Corria já o saudoso ano de Mil Nove e Oitenta e Nove e eu era uma menina de 10 anos, franzina e de cabelo curto, com uns óculos modelo miniatura-da-avó e o coração cheio de flores e passarinhos a cantar. A nova paixão era partilhada por todas as meninas da turma e sei lá quantas mais. Quis adiantar-me a qualquer outra lambisgóia que conseguisse conquistá-lo. Decidida e inconsciente, informei as minhas amigas, durante a aula de Trabalhos Manuais, que ia declarar-me. Como sou pessoa sensata e pouco exibicionista, escolhi apenas o portão da escola à hora da saída para tão audacioso acto. Infelizmente, a coragem abandonou-me na hora H e só consegui chamá-lo e ficar em silêncio, enquanto tudo à minha volta ficava negro e eu caía, desmaiada, no chão de terra e folhas secas. Rezo aos santinhos para que ele se tenha esquecido do episódio. Mal por mal, já basta ter guardado a carta que acabei por lhe enviar no fim do ano lectivo. Agora que é figura mediática com inclinações humorísticas, resta-me esperar que não se lembre de desenterrar publicamente essa minha pérola epistolar, senão acho que nunca mais ponho os pés em Portugal.
Depois destes, outros episódios infelizes se foram sucedendo. Declarações, já sem desmaios, mas sem sucesso. Cartas sem resposta. Actores de cinema que nunca se lembraram de passar pela minha rua para me salvarem de uma existência púbere sem cor. Demorou bastante até estas pequenas vergonhas irem endurecendo o meu coração, qual artereosclerose emocional. A minha adolescência insistiu nos amores platónicos e, já jovem adulta, ainda me dediquei a causas impossíveis e paixões desgraçadas à partida. Finalmente apareceu um príncipe improvável que se foi revelando muito melhor do que eu podia sonhar. Não é o príncipe das surpresas, dos presentes sem motivo, dos gestos arrebatados, mas ganhou o meu coração. É o príncipe que me trata bem e que gosta mesmo de mim como sou.
Contos de fadas? Lamento, mas é verdade que já não acredito neles. Não acredito que haja só um grande amor na vida. Não acredito em almas gémeas. E, ainda assim, é esse imaginário que faço questão de transmitir aos meus filhos. Eles que cresçam e acreditem no que quiserem. Não há nada pior do que um adulto que ceifa as possibilidades ilimitadas de uma criança.

16 agosto 2011

schh... sossega, formigueiro consumista

Volta e meia sou acometida de palpitações. Este fenómeno acontece-me não mais de duas ou três vezes por ano, mas bate com força. Sonho com roupa e sapatos lindos, que me caem bem, que me fazem alta, esguia, voluptuosa, linda. E acordo para a realidade em que não posso comprar mais nada, não só porque não vejo ordenado há quase dois meses, mas porque o contentor é para encher de brinquedos e livros, e não de tecido desnecessário. Respiro fundo, afasto-me dos sites das minhas lojas preferidas, não abro os blogues das fashionistas de serviço, e vou fazer bolos, que me faz melhor.
E depois penso que este ano, em particular, não é difícil resistir às últimas tendências da moda. Se me fica mal, não uso. Se nunca gostei, não vou passar a gostar. Se nunca tive um par de calças à pesca do berbigão, superei a loucura do roxo integral, passei ao lado das psicadélicas unhas azuis, ignorei tanto os botins como as botas por cima do joelho, menina, não vão ser os padrões tigresse nem as lantejoulas douradas que me vão fazer vacilar. Afinal, parece que vai haver espaço para levarmos a bicicleta na bagagem.

15 agosto 2011

dois anos de vida na américa: o balanço

Aviso: Post longo, sem barreiras, sem peneiras, que provocará o ocasional sorriso, a pontual lágrima, possivelmente uma ou outra interrupção para ir fazer chichi, a vontade de me insultar, de me dar um ombro amigo, de fazer denúncias à Segurança Social, de nunca mais ler este blogue, ou mesmo de me oferecer um daqueles selinhos queridos.

No dia 3 de Setembro de 2009, aterrei no aeroporto de Newark com um filho de 2 anos e meio pela mão e uma barriga de 4 meses e meio de gravidez. Esperava-nos um marido e pai, físico pós-doc na Universidade de Princeton, uma casa com meia dúzia de móveis, e muitos dias, meses, horas intermináveis pela frente. Desde que escolhi este homem que soube que esta seria uma fase das nossas vidas e a experiência de expatriados uma etapa necessária na carreira dele, um período determinante na construção da nossa família. Também sabia, desde que vivi durante um semestre na Alemanha, que isso me ia custar, por todas as razões de já tanto falei. E custou. Muito.
A adaptação faz-se, não custa assim tanto. Custa é acordar, adormecer, acordar, dias a fio naquilo que se sente como uma prisão domiciliária. Vivemos numa terra pequena, de passagem, habitada por estudantes e cientistas de pouso temporário. Não foi fácil estabelecer laços e houve semanas inteiras em que o meu marido era o único adulto com que contactava. Uma vida de domesticidade pode ser confortável, pode ser muito bom fazer bolos com os filhos enquanto neva lá fora; mas isso, todos os dias, a mim não chega. Principalmente quando lidamos com uma depressão pós-parto e não há tábuas de salvação como a família alargada e os amigos de verdade. Demasiadas vezes, fui muito má mãe. Também devo ter sido má mulher. E fui má pessoa no sentido que deixei de me respeitar a mim própria.
Felizmente, essa sensação de isolamento dissipou-se no segundo ano. Comecei a trabalhar, os meninos foram para a escola e, apesar de materialmente as coisas não se terem alterado, essa quebra na rotina permitiu que apreciasse muito mais as coisas boas de aqui estar. Voltei a sentir-me reconhecida pelas minhas capacidades além-maternidade, conheci até algumas pessoas interessantes, fiz as pazes com os nativos. Foi um ano muito cansativo a nível físico, sobretudo na fase em que tive um marido de perna engessada e vários centímetros de neve com que lutar todas as madrugadas. Mas foi também o ano em que a poeira assentou, as nuvens negras dissiparam-se e consegui definir o que queria mesmo que fosse a minha vida. E queria que fosse não muito diferente disto, mas do outro lado do mar. Queria voltar a casa. Assumi essa vontade e assim voltamos.
Estes dois anos, para o bem e para o mal, não são um interregno, são uma mudança sem retorno. Fiz o luto da minha vida anterior e preparo-me para nascer de novo. Já não me lembro da última vez que peguei no carro sozinha, para espairecer, e conduzi sem destino enquanto berrava impropérios até à rouquidão, lágrimas rolando aos pares pela cara. Aos poucos, o desprezo pela cultura local dissipou-se, passou a paternalismo e espero que tenha chegado à assimilação das coisas boas. Quanto mais não seja, os meus quadris já têm assimilado bastante tarte de natas, chocolate e manteiga de amendoim.
Se valeu a pena? Claro que valeu a pena. Levo daqui uma enorme experiência de vida, um maior auto-conhecimento, um filho americano. Mas isto foi sobreviver, não foi realmente viver. Acho que tenho o direito a viver, mesmo com todas as dificuldades esperadas e inesperadas que temos pela frente.

12 agosto 2011

daqui a um mês

Levantamos vôo de regresso a casa.
Agora é a altura em que cada gesto é uma despedida, cada embalagem de qualquer coisa é a última. Sou muito nostálgica, levo a vida a despedir-me. Amanhã é de Nova Iorque.

11 agosto 2011

pedras no caminho?

Guardo-as todas para as atirar ao pessoal que adora estes aforismos. Eu nunca desgostei de coisas fáceis e não consigo mesmo ver o gozo das corridas de obstáculos quando se pode percorrer a mesma distância muito mais depressa sem pôr em risco o bem-estar do entrepernas.

08 agosto 2011

decisões, decisões, decisões...

Tenho algum pudor em falar aqui das coisas realmente fundamentais que se passam na minha vida. E a verdade é que estamos a passar um período de muitas escolhas difíceis, que incluem riscos, saltos no vazio e o (re)pesar dos nossos valores fundamentais. Mais vale isto do que não ter escolhas, bem sei, mas não é fácil. É nestas alturas que dava mesmo muito jeito ser uma pessoa completamente egoísta e destituída de moral, mas gosto de acreditar que não sou assim. Será que é vaidade? Será que é ingenuidade? Não sei. Por isso perdoem o meu silêncio nos próximos tempos. E agora é a altura certa para me mandarem aqueles e-mails de corrente com todos os clichés, mensagens de paz, anjinhos e assim, certo? Brincadeirinha! Pelo contrário, todas as orações e pensamentos positivos são muito bem-vindos. 

04 agosto 2011

sem saber bem como, conquistaram-me

São materialistas, individualistas, puritanos, consumistas, ingénuos, auto-suficientes, dotados de um humor pateta, obcecados com o sucesso, destituídos de ironia, uns miúdos, uns cavalos selvagens, a humanidade numa lata de sopa que se vende como se fosse vichyssoise. São o povo que me acolheu, cheiinho de defeitos - como todos os outros - mas, também, com imensas e enormes qualidades. E uma pessoa apercebe-se que já gosta mesmo deles quando custa, de fora, ouvir dizer mal. Não gostamos que chamem nomes à nossa mãe, mesmo que ela nos chegue a roupa ao pelo. Acho que nunca mais vou ouvir o tão europeu desdém "ah, sim, os americanos..." (idealmente seguido de um bafo no cigarro) sem que isso me corte um bocadinho o coração.
Gente, para que conste, os americanos são trabalhadores como o caraças. São ingénuos, sim, mas também são dos poucos que ainda acreditam que podem fazer alguma diferença positiva ao longo da sua vida. Muitos deles têm valores de verdade, pelos quais regem a sua vida, e que não descartam quando não dão jeito. São leais, genuínos e tolerantes. São boa onda, andam de bem com a vida e não resmungam por tudo e por nada. Se isso é ser parvo? Não é mais parvo passar a vida a rezingar com tudo? E, como em todo o lado, há muita gente criativa, culta, inteligente, original, generosa, boa. Não volto daqui a conduzir um GMC (para minha tristeza) e com os cabelos platinados ao vento, mas espero voltar um bocadinho americana.

03 agosto 2011

é de pequenino que se enche o baldinho

Comentei certa vez, no blogue da Mãe Capotada, que gosto de pensar que os nossos filhos são como pequenos baldinhos cujo ego devemos ir enchendo desde cedo, visto que terão toda uma vida para se irem esvaziando. Então é assim que se faz, enquanto se muda a fralda:
gralha: O Diogo é lindo?
Diogo: É.
g: O Diogo é querido?
D: É.
g: O Diogo é o meu bebé bom?
D: É.

E como o nosso próprio baldinho passa a vida a levar pontapés e a ser miseravelmente virado ao contrário:
gralha: A Mamã é linda?
Diogo: É.
g: A Mamã é querida?
D: É.
g: A Mamã é absolutamente espectacular?
D: É.
g: Já está :)
D: Tátááá :)

Animeio de bebé lindo, querido, e bom. Que riqueza!

02 agosto 2011

take us to lisboa (semi-plagiozito, mas sem maldade)

A gralha tem um sonho. Esse sonho chama-se voltar para casa. Não tem nenhum gato mas tem uma Bimby, entre outros quarenta pés cúbicos de tralha, que tem de ir de contentor para Gaio, Alcobaça. E, parecendo que não, ainda é maçador uma pessoa ter de deslocar-se até Gaio, Alcobaça. Além disso, a gralha espera fervorosamente que o veterinário, perdão, urologista dê luz verde para o filho pequeno ir para Lisboa, porque este não dá mesmo para deixar para trás. Parece impossível como consegues gozar com uma coisa destas, que é mesmo verdade, gralha. És terrível.
A gralha não está a pedir-vos dinheiro nem que ponham uma fitinha no canto do blogue, está apenas a pedir que lhe comprem o recheio da casa. No Natal, também faço um recheio de peru bastante razoável, pode ser que dê para comercializar. Em breve, estará disponível a ligação para o material à venda.

01 agosto 2011

o que todos procuramos

Demorei imenso a escrever este post porque não conseguia arranjar-lhe um título apropriado. Não arranjei. E normalmente escrevo isto muito à pressa. Mas os termos 'intimidade', 'comunhão', 'proximidade' não conseguem abarcar o sentido que quero transmitir. Nem sei bem por que é que me lembrei de falar sobre estas coisas, foi mais uma revelação enquanto corria e estava a precisar de organizar as ideias.
De repente, percebo que aquilo que nós, humanos, procuramos de mais fundamental não se altera ao longo da vida. Não estou a falar de questões materiais, estou a falar do resto, do que nos faz uma espécie gregária. Antes achava que, em crianças, queremos amor paternal; na juventude, amor carnal; na velhice, a segurança de estar ao lado de alguém que nos ajude a caminhar quando os passos já são incertos. Não, não e não. A ânsia é a mesma, os nomes que lhe damos é que se vão alterando conforme nos vamos conhecendo melhor. Todos nascemos já cheios de uma solidão imensa, uma sede desértica de sermos realmente aceites e apreciados pelo que somos. Há quem tenha a sorte de saciar essa urgência no abraço da mãe. Há quem passe a vida toda à procura. Todos vamos procurando o rosto de quem nos ama de verdade mas, acima de tudo, de quem está disposto a receber o nosso amor - porque estamos cheios de amor para dar.
Sei que não descobri a pólvora. Mas há tantas coisas que só compreendemos realmente quando as vivemos na primeira pessoa! Nesta fase da vida, casada, com filhos, lido com esta ânsia de uma forma diferente. Já não procuro um homem com estas ou aquelas características. Já não acredito nUM amor maior do que todos, que nos completa. E já nem acho que essa forma de proximidade tenha de ser restrita à família, ou ao ideal de amor romântico. Acho que é por isso que, nunca como agora, aprecio as minhas amigas mulheres. As que passam pelo mesmo que eu e me entendem de olhos fechados; e as que vivem em circunstâncias diferentes mas me querem tão bem que param - param... - o tempo suficiente para se porem na minha posição e compreenderem o que sinto, o verdadeiro sentido das minhas palavras e do que está por trás delas. E gosto desta nova forma de intimidade e, porque não?, de amor. Espero para ver, daqui a uns anos, onde vou encontrar o que procuro.

E esta é, também, uma diferença brutal entre crentes e não crentes. Alguém que acredita em Deus sabe que nunca, nunca está realmente sozinho. E olha a reviravoltazinha religiosa que isto levou...

28 julho 2011

um mau humor que é uma coisa inexplicável

Às vezes, ser boa mãe (boa, não, mas satisfaz pouco), é ir um bocadinho para o quarto e fechar a porta.

27 julho 2011

a preguiça, a falta do que fazer e a procrastinação

Já toda a gente se apercebeu de que quanto menos temos para fazer, menos fazemos, certo? Eu percebi isso no último ano de faculdade, em que só comecei a fazer a tese de licenciatura quando comecei a trabalhar a tempo inteiro.
O que é que uma pessoa faz quando tem muito tempo livre? Arrasta-se. Engonha. Feicebuca de cinco em cinco minutos. Adia a preparação de uma mudança familiar de continente para os últimos minutos.
E depois percebe que há muito quem ache que acordar às 9h30 é cedo, quando já não se lembra da última vez em que acordou depois das 7h30. E que há outras mães a tempo inteiro que afirmam que não têm tempo para levar os miúdos ao parque. O que é que fazem ao longo do dia, deixam-se hipnotizar pelo canal de televisão da Oprah?
A sério, nesta altura da vida, eu durmo oito horas por dia, cuido de dois filhos, brinco com eles, não vejo televisão, leio muito, cozinho todos os dias e não tenho empregada doméstica. E tenho imenso tempo livre. Imenso.

25 julho 2011

norte e sul

(olhando para os nossos vizinhos dinamarqueses, de quem gosto muito)
Nós somos tão barulhentos. Um chinfrim que não tem discrição. Rimo-nos muito. Rimo-nos de coisas parvas, só porque sim. E abraçamo-nos, tocamo-nos, empurramo-nos, mimamo-nos. Tecemos os laços desta família com braços, pernas e tudo. Ostentamos os nossos gestos de carinho, o nosso amor não cabe apenas em palavras contidas. Até o mais pequeno já se habituou a trepar pelo maior e dar-lhe beijos lambuzados sem razão aparente. Gosto desta nossa essência do Sul, por muito que admire a civilidade do Norte.

23 julho 2011

barrela

Nunca retirei prazer das pequenas tarefas domésticas. Invejo um bocadinho quem sente profunda satisfação ao contemplar a transparência das vidraças que acabou de lavar, a lisura de uma camisa imaculadamente engomada. Ao contrário da minha mãe (a minha mãe anda a aparecer muito por aqui, pergunto-me por quê), não estou sempre à procura de mais alguma coisa para arrumar ou limpar. Mas é verdade que gosto de ter as coisas arrumadas e limpas, e isso consegue-se muito graças a detalhes que escapam aos homens. E pronto, lá descamba este post para o sexismo. Não há problema, os (para aí) três leitores do sexo masculino que tinha - e já estou a fazer uma estimativa optimista baseada nos meus seguidores no Uganda - abandonaram-me desde que reconheci publicamente a modéstia da minha copa de soutien.
Nunca nenhum homem em todo o mundo fez uma barrela, por exemplo. Há nesse gesto uma antecipação, uma preparação do que vem a seguir. A postura masculina perante a nódoa é a da máxima agressividade, o anti-nódoas em spray mais caro que encontrar no supermercado, aplicado mesmo antes de atirar a roupa para a máquina, no ciclo super-power plus. A nódoa é, contudo, uma problemática que reage com mais eficácia a uma abordagem com jeitinho e dedicação alongada. Há que deixá-la de molho no bicarbonato de sódio. Ela dorme uma noite naquela solução e começa a dar de si. E depois há que cobri-la de sabão, o sabão Clarim que peço à minha mãe (olha ela de novo!) para me trazer de Portugal, e deixá-la soçobrar de livre vontade. Quando chega à máquina de lavar roupa, a nódoa já deve estar no purgatório da sujidade, mera lembrança ténue de uma peça de fruta, de uma fatia de bolo de chocolate. E é assim, neste jeitinho feminino de entrega, que a roupa sai fresca e nova do tambor, cumprindo promessas de publicidade a detergente. Parece que, afinal, tenho algum prazer nestas coisas.

22 julho 2011

trinta e nove cê

Os miúdos andam em pelo pela casa. Fechamos as janelas e só as abrimos à noite, que a minha mãe é Alentejana e eu aprendi qualquer coisa com ela. Aqui ainda há quatro estações do ano e isso é muito reconfortante. À tarde vou passar a ferro e cozinhar no forno, vou soar as estopinhas e sonhar com a cerveja gelada do jantar, depois de os deitarmos. Este Verão é (quase todo) longe do mar mas é cheio de cigarras e pirilampos. Passamos dias inteiros a brincar, a ler, a descansar, até ao aborrecimento que chame pelo regresso ao trabalho e à escola. É para isso mesmo que servem as férias grandes. E os meus meninos estão felizes, cor de caramelo.

21 julho 2011

continuam os posts com conteúdo elevadíssimo

"Ai, e tal, e se agora só pudesses escolher uma loja onde irias comprar toda a tua roupa, sapatos, acessórios, produtos de beleza, artigos de decoração?" Era esta. Estou a pensar acampar lá dentro durante a noite quando aquilo fechar. Ou então levo meia dúzia de vestidos para o provador, enfio-os uns em cima dos outros, e fujo a correr muito, muito depressa. Pode ser que me extraditem, mas vou feliz.




20 julho 2011

a verdade, verdadinha

Eu e o meu homem, noite de Verão, quarto, janela aberta.
Ele: Estás assim contente porque vamos voltar para Portugal.
Eu: Pois estou. E já sei que tu não estás, tenho pena.
Ele: Não, vou arranjar um bom emprego e vamos poder viajar. Vamos às Seychelles.
Eu: Isso. Mas dispenso as Seychelles. Vamos à Costa Rica. Ao Equador. Ao Senegal.
Ele: Ao Japão. Ao Cambodja.
Eu: À Índia. À Argentina.
Ele: Ao Perú.
Eu: Boa. E a Nova Iorque.
Ou, como uma pessoa pode passar dois anos mesmo, mesmo ali ao lado e não estar lá, comprar o bilhete de ida-e-volta de comboio meia dúzia de vezes mas não ver um espectáculo, não experimentar um restaurante, não conhecer os recantos improváveis, não a-pro-vei-tar. Porque não dá. Porque não somos um casal de turistas em férias, nem sequer a fingir por umas horas. E isto, senhores, há que dizê-lo, deixa-me chateada que nem um boi.

19 julho 2011

força, tu vais conseguir

Aqui há dias, segui uma ligação (acho que da Melissa) para um texto que falava do problema da educação das crianças de hoje, que esperam a felicidade como um direito de nascença. Aquilo fez tudo um grande sentido para mim, à excepção da ideia de que não se valoriza o esforço. Parece-me que, em muitas situações, sobrestimamos o poder do esforço. Vende-se muito a ideia de que, se nos esforçamos o suficiente, conseguimos alcançar seja o que for. Não conseguimos, não senhor. Eu nunca poderia ser uma boa jogadora de vólei, nem que treinasse oito horas por dia. O meu marido nunca conseguiria dançar com desenvoltura, nem que o Nureyev descesse à terra e o encostasse à barra meses a fio. O talento existe, não é um mito maldoso inventado por um grupo fechado de perfeccionistas que não deixa mais ninguém entrar. Há pessoas com talento, pessoas com vários talentos e pessoas com imenso talento; e também há pessoas que não têm jeitinho nenhum para nada. É injusto, como tantas outras coisas na vida. É claro que o esforço é essencial e nada resulta apenas do talento. Mas já é tempo que alguém tenha a coragem de dizer you don't have it in you. E nós, comuns mortais, prosseguimos com a nossa vida banal de adoração dos escolhidos. Pelo menos o dom da apreciação foi distribuído mais democraticamente.

18 julho 2011

o poder da visualização

Sandes de manteiga de amendoim com doce de mirtilos, tu que acabaste de ser engolida com a ajuda de uma caneca de café adubada com leite condensado, estou a ver-te. Semi-desfeita numa papa acastanhada, desces até ao meu estômago e começas a decompor-te. Atravessas agora o meu aparelho digestivo e és absorvida por minúsculos vasos sanguíneos que me irrigam as vilosidades. O meu sangue está agora cheio de ti e corre direito às minhas coxas. Não vás por aí, sandes. Estou a ver-te, decidida, navegando em sentido ascendente. Chegas à minha caixa torácica e penetras o tecido adiposo das minhas maminhas (gostava de lhes chamar tecnicamente "mamas", mas não estaria a visualizar a realidade). Estás a preenchê-las, sim, a insuflá-las generosamente, numa adolescência inesperada. Obrigada, sandes, agora já posso usar blusas sem parecer um travesti com muito pouca maquilhagem.
Nunca li O Segredo, mas é assim que funciona, não é?

16 julho 2011

o meu corpo

Isto agora vai soar muito New Age mas é verdade: vivemos (no Ocidente, hoje em dia) muito desligados do nosso corpo. Cobrimo-nos de cremes, adornamo-nos, perfumamo-nos, dopamo-nos, mas não sentimos o pulsar do sangue nas veias nem as endorfinas que acalmam um músculo dorido. Vivemos de costas voltadas para os ossos, tendões, cartilagens que nos sustentam e só dão sinal de vida quando alguma coisa dói.
Mais do que pela imagem ou por um conceito mais ou menos abstracto de saúde, é por isso que gosto de fazer exercício. Para sentir o meu corpo. Para usar o meu corpo. Porque é tão estúpido desprezar o corpo como desconhecer o tipo de música que nos faz vibrar, os livros que nos alimentam, as imagens que nos tocam. Nem sempre gostei de fazer exercício. Até aos 17 anos, e graças à formatadíssima e limitada Educação Física de tantas escolas portuguesas, detestava tudo o que tinha a ver com mexer-me. E depois conheci o remo, a corrida, a dança, o yoga, e não quis mais parar. Quando paro, definho. Definham os músculos e definha-me o ânimo. Fico velha, (ainda mais) chata, cansada. Por isso, gente, a sério, mexam-se. Toquem-se. Sim, isso mesmo que estão a pensar.