08 setembro 2011

uma crueldade assentida

"Who has more power than a child? She can be as cruel as she wants to be. He can't. He'd never. Please, Bea. Please have mercy. Children don't. Do they? Did you, Peter, have mercy on your own parents?"
in Michael Cunningham, By Nightfall

Quando eles nos vêm parar aos braços, os filhos, compramos um bilhete vitalício para a montanha-russa do amor sem reservas. Cuidamos deles, deixamo-nos inundar de amor, um amor posto à prova por muitas concessões de nós enquanto pessoas. Mas esse amor não é testado só com fraldas sujas, noites insones, doenças, também é quando crescem e desenvolvem a capacidade única de nos magoar. Não por mal, não conscientemente, mas com a inevitabilidade insidiosa de finas agulhas, que nos levantam a pele e nos deixam à mercê do que quiserem fazer de nós.
Deixam de falar connosco. Ou falam, e as palavras são avalanches de impiedade. Ou uma chuva fria, de Novembro. Porque nos conhecem tão bem (conhecem?). Portas fechadas. Segredos. Distância. Desdém. Auto-suficiência e superação. Quanto mais um pai ama um filho (e não falo de mimo, nem daquela reverência tão corrente nas famílias reduzidas de hoje), mais este se sente seguro. Tão seguro, tão confiante, que não questiona o amor que os pais lhe devem. Tem carta branca para pisar, para julgar, para magoar. Infelizmente, não é garantido que tudo isso passe com o fim da arrogância da juventude.
Sim, muitas vezes não tive (tenho?) piedade dos meus pais. Ainda que os adore.
Sim, os meus filhos vão fazer o mesmo comigo, mais tarde ou mais cedo. E acho que não há nada que ninguém possa fazer acerca disso.

10 comentários:

Naná disse...

Excelente post! Creio que também fui impiedosa com os meus, mesmo que inconscientemente...

Vera Dias António disse...

Os meus filhos estão na praia com os meus pais(yesss) há uma semana. O mais velho só vem ao telefone perguntar pelo hamster, pelo gato e pelo pé de feijão que plantou no quintal, se o tenho regado. O do meio não vem ao telefone, ou porque a avó não tem queijo fresco ou porque está a comer bolachas. O mais novo se calhar vinha ao telefona mas só diz 2 ou 3 palavras e ainda não percebe muito bem o que é aquilo do telefone.

De maneira que é isto, viraram snobs, não querem saber, armam-se em bons. Ou então estão muito bem e felizes da vida e na boa e nem querem falar connosco com medo que o bem-bom acabe.
Como sei que estão bem não me aflige mas fico/ficamos um bocadinho sentidos, caneco dos miudos!

Melissinha disse...

Nem sei o que dizer, Gralha. Adorei.

Ana C. disse...

Este blog está um blog gourmet.

gralha disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Inesa disse...

Isto fez-me lembrar umas passagens do "1984" (que estou a ler agora):
"Com aquelas crianças, pensou, a pobre mulher devia levar uma vida de terror. Mais um ou dois anos, e eles iam pôr-se a vigiá-la dia e noite, procurando sintomas de heterodoxia. (...) Era quase normal as pessoas com mais de 30 anos terem medo dos filhos. E com bons motivos, pois raramente passava uma semana sem que o Times não trouxesse um parágrafo relatando o modo como um estuporzinho bisbilhoteiro ouvira esta ou aquela observação comprometedora e denunciara os pais à Polícia do Pensamento. (...) Dentro dos próximos dois anos, aquelas crianças denunciá-la-iam à Polícia. A senhora Parsons seria vaporizada."

É um livro tão positivo! Deixa-me tão animada com a vida e com as pessoas!

gralha disse...

Vou passar a servir pratinhos de chèvre com redução de ameixa e flûtes de champanhe às minhas convidadas, então :)

gralha disse...

Inesa, escolheste mesmo uma boa altura para ler esse livro ;)

Dorushka disse...

Amei este post. Tão verdadeiro, tão certeiro...

Posso "roubar"?

Obrigada.

Dorushka disse...

Gostava de publicar este post no meu blog. Posso?