05 setembro 2014

afinal, quem nos conhece?


Independentemente do grau de intimidade das minhas relações, ao que parece sou uma personagem dúbia. Pergunto-me se isso acontece a toda a gente. Uns acham que sou boazinha, outros que sou má; há quem me julgue politicamente de direita e quem suspeite que sou de esquerda; alguns têm-me por acelerada, outros admiram a minha calma e ponderação. Sou, na verdade, muito transparente. Não me tenho por amorfa só que já lá vão os dias em que sentia necessidade de defender à dentada as minhas convicções. E é verdade que mudo de ideias. Mas, no fundo, não deixo de ser quem sou (ja cá faltava um truísmo bonito para selar a época estival). Será que o mistério está no observado, em particular, ou veremos sempre os outros – tirando daí as devidas ilacções e perfilagens – a partir do nosso olhar em ângulo agudo, como num espelho retrovisor?

11 comentários:

Ana. disse...

A imagem que temos de nós mesmos influencia bastante a forma como interpretamos os outros. Mesmo que seja inconsciente, julgo que avaliamos quase sempre por comparação. Eu pelo menos sei que faço isso. Por exemplo, derreto-me por pessoas mais tímidas, mais caladas, daquelas que ficam mais a observar do que a espalhar as brasas... porquê? Porque são exatamente o meu oposto, são como eu gostava de ser.
Quando conheci o Nuno, deviam estar no mesmo grupo mais uns 5 rapazes igualmente giros, (aos 19 anos, ser giro importa muito!) mas ele era o mais caladinho, ouvia em vez de falar e sorria muito. Foi tiro e queda!
;)

Mãe Sabichona disse...

Acho que temos necessidade de encaixar as pessoas em rótulos. Como funciono muito pouco a preto e branco, também já me atribuíram adjectivos completamente diferentes. Eu bem que explico que a mesma pessoa pode ser calma e stressada, de acordo com as circunstâncias mas sai algo do género "mas eu pensava que eras tão tranquila e segura de ti". Pois, quem o é sempre? Por outro lado, tenho este vício de ver sempre o outro lado da moeda em quase tudo e isso por vezes é confundido com incoerência ou falta de convicção. Como poderia estar cheia de certezas, se o mundo está cheio de cinzentos que coexistem? Pronto, acho que é um bocado isto, e quanto questão final, acho, mais uma vez, que são ambos. Nós e como os outros nos olham, dá assim uma mistura complexa e pouco linear.

Mãe Sabichona disse...

Ah! Outra coisa! Há 3 ou 4 pessoas que me conhecem verdadeiramente, porque lidam com as minhas diferentes partes a toda a hora e já as integram naquilo que sou. São as mais próximas, evidentemente. E acho que com a maioria é assim...

Amigo Imaginário disse...

Respondendo à tua pergunta... acho que quem nos conhece mesmo, mesmo, mesmo, são os irmãos. Aqueles que dividiram tudo connosco e que conhecem o nosso íntimo melhor do que ninguém. Ah... e nós, mães, gostamos de pensar que conhecemos os nossos filhos como ninguém. Mas, lá está, conhecemos a imagem que construímos deles. Há outras tonalidade que os nossos olhos tendenciosos não conseguem (não querem?!) ver.

Miguel disse...

Eu ainda ando a descobrir-me no sentido em que certas coisas que defendia há 10 anos agora já não me revejo nelas. Acho que se chama envelhecer ou assim.

gralha disse...

Pegando no que dizes, Miguel, realmente acho que quem nos conhece melhor é quem nos vai conhecendo enquanto vamos crescendo/envelhecendo. Por muita empatia que haja, não há conhecimentos à primeira vista.

Amigo Imaginário, conheço o meu irmão até deixarmos de viver juntos. Não sei agora ele me conhece ou eu a ele, na verdade.

Mãe Sabichona, é verdade, somos todos complexos mas dá-nos jeito encaixar as pessoas em rótulos. Quem me deve conhecer melhor mesmo assim é o meu marido, com quem já convivo há 18 anos (xinapá, tanto!). Para além dele, talvez a minha mãe (por intuição), o meu pai (porque somos muito parecidos) e uma amiga de infância.

Ana, que história tão querida :) Eu sou muito narcisista e procurei alguém com as minhas qualidades :P

dona da mota disse...

Uau. Que tema!
Olha, a única pessoa que me conhece mesmo, MESMO bem, é o R. E acho que eu a ele. Nem os nossos pais já nos conhecem tão bem, nem irmãos.
Ele conhece-me mesmo e ajudou-me a descobrir-me também - e JURO que isto não é cliché, é muito, MUITO verdade. Nestes 10 anos descobri-me.
Se a nossa relação terminasse ia ter sempre essa dívida para com ele.

Alexandra Nobre disse...

Presumo que queira dizer ilações...

gralha disse...

Dona da mota, provavelmente vocês não seriam quem são agora se não tivessem sido esses 10 anos em comum, não é? :)

Tem toda a razão, Alexandra Nobre, obrigada.

Melissinha disse...

Também acho que só quem me conhece é o Hugo. ainda bem. Tenho umas cores esquisitas por baixo de tanta purpurina.

gralha disse...

Se fosses só purpurina encandeavas o pessoal, deixa lá, Melissa.