26 setembro 2014

a alegria no trabalho

Nos últimos dias, tenho andado de roda de livros. Muitos livros. De arquitectura, direito, economia, inovação, sociologia, urbanismo. Com formatos diferentes, capas mais ou menos vistosas, todos eles compilando o trabalho de tanta gente que se reúne neste centro para fazer pesquisa. É bom sentir a materialização do esforço, ainda que seja uma pequena amostra do impacto do sistema de investigação e desenvolvimento nacional, tão maltratado nos últimos tempos. Às vezes, àqueles como eu que trabalham com metas distantes e resultados intangíveis, faz falta esta possibilidade de agarrar o produto de meses de esforço.
Lidar com livros também me recorda de quando trabalhava na biblioteca e desempenhava funções bem diferentes, completamente taylorizadas, medidas à peça, diariamente. Nessa altura era uma operária que classificava e arrumava, transportava carrinhos e chegava ao fim do dia com a sensação maravilhosa de ter cumprido cento e vinte porcento dos objectivos. Ou seja, não só passava os dias em absoluto silêncio, rodeada de luz poeirenta e de livros centenários, como ainda me davam a possibilidade de brincar ao Quem Consegue Etiquetar Mais Volumes Por Hora. E de extravasar a contrariedade de estar onde não queria com uma marreta de borracha, ajustando prateleiras à martelada e perturbando o estudo dos betinhos da Ivy League. Qual meditação, qual carapuça.


Créditos da imagem: Mark Anderson, Andertoons.

7 comentários:

Quando me encontrares disse...

:)
Nos últimos dias também andei enfiada numa biblioteca escura e poeirenta, a compilar dados de pesca. Apesar da trabalheira, é sempre mágico manusear livros dos anos 20, bafientos, pensar em quem os terá escrito, imaginar as máquinas de escrever barulhentas, pensar em quem seria o mestre daquela embarcação, descobrir a assinatura do "escriturário naturalista".

D.S. disse...

Acho que iria ser muito feliz a trabalhar numa biblioteca universitária, mesmo que as minhas funções fossem taylorizadas. Desde que não tivesse que ter contacto com os frequentadores, betinhos da Ivy League ou outros :)

Naná disse...

Tu e a imagem da bibliotecária não batem nada certo...

Rita Maria disse...

Que cartoon tão fixe!
(eu tb acho que podia ser feliz a trabalhar numa biblioteca, mas eu sou suspeita, que tive uns meses a fazer de caixa do supermercado/quiosque da Students Union em Bath de manhã cedo e adorei)

gralha disse...

Compliar dados de pesca é tentador, Quando me encontrares :P

D.S., tenho a certeza que serias, sim. (Piores que os Ivyleaguianos, só os meninos posh que são agora teus colegas de carteira - espero que em minoria, não?)

Naná, como assim? Não me julgas suficientemente sexy?

Rita Maria, nunca devemos desprezar o prazer do trabalho à peça.

D.S. disse...

Gralha: Oh não, isso é lá para os Oxfords e Cambridges, aqui em Sheffield é tudo descontraído :)

Amigo Imaginário disse...

Quem me tira a paz da "minha" biblioteca, tira-me tudo. E já me cansei de explicar que sou mesmo feliz no meio dos livros e do pó.