29 dezembro 2014

sagrada família

O problema não está na extinção da norma da família nuclear. A família sempre foi um organismo resistente e adaptável, lá vai arranjando configurações novas entre as várias gerações e ramos sob o mesmo tecto até às assoalhadas praticamente vazias, em que os laços se fazem mais de tempos do que de espaços partilhados. O problema nem está apenas na crescente institucionalização das franjas mais dependentes da família, caído em desuso que está o papel de cuidador(a) exclusivo(a). E também não podemos culpar a invasão das novas tecnologias à mesa, nas viagens, nas breves horas que passamos juntos, acordados. A dessacralização da família resulta de todas estas coisas mas sobretudo do abandono, mais ou menos consciente, da família como prioridade. Deixamos de regar essa planta porque a sua existência é amorfa e discreta, como é próprio das plantas. Não vale a pena cultivar a intimidade em pessoa se essa se encontra nas redes sociais. O que nos dá a família em troca de sacrifícios como o almoço semanal com os sogros? Aparentemente, muito pouco. A menos que acreditemos que, como uma planta, a família trabalha durante o nosso sono para fornecer oxigénio ao que nos estrutura como seres humanos. À forma como crescemos, ao que somos em adultos, ao que queremos transmitir às próximas gerações numa soma de afectos em que o todo é mais do que a soma das partes. Se calhar, aí está boa parte do segredo do triunfo da humanidade.

9 comentários:

Quando me encontrares disse...

Gosto muito. :)
E logo hoje, que acordei o meu cunhado às 8:00, para lá lhe deixar o sobrinho!

Mãe Sabichona disse...

Completamente em sintonia.

gralha disse...

Nós despejámos os netos nos avós. Família também é caixote, Quando me encontrares ;)

Inspiraste-me, como em tantas outras vezes, Mãe Sabichona.

calita disse...

Sabes, gostava de escrever sobre família como tu. É isto mesmo. Mas, pronto, calculo que cada qual tenha o seu "métier" de excelência (por favor, não entenda isto como algo redutor, já referi que ninguém fala da sua "orquídea", como tu, e as cenas do atletismo também estão a um nível inigualável, pelo menos para mim)

Melissinha disse...

Família = treco complicado.

gralha disse...

Calita, tu que és uma dinossaura dos temas familiares e orquidianos (atletismo, um dia, quem sabe?) a escreveres uma coisa destas provocas um tal inchaço no meu ego que tenho de ir ali à farmácia comprar uma meia elástica para a vaidade.

gralha disse...

Família = montanha russa sem pagar bilhete, Melissa. Todos os anos descubro novas desordens do foro psicológico. Para o ano diagnosticam-me a mim, finalmente.

Amigo Imaginário disse...

Há um livro que adoro ("Families and How to Survive Them" de Robin Skynner e John Cleese) que explica bem este novelo intrincado.

PS: Olha... há maneiras de dizer aí ao bicho que eu não sou um robot?! Andei uns dias a remoer a vida, volto, ponho-me a comentar posts como se não houvesse amanhã e o tipo sempre atrás de mim, pá!

gralha disse...

É para evitar o spam, Amigo Imaginário. É chato mas eu própria tenho de provar a mim própria que não sou um robot (mesmo assim, às vezes não tenho a certeza).