20 dezembro 2014

manias

Podia ter-me dado para estender a roupa só com molas da mesma cor mas deu-me para o verdadismo. Tentar dizer sempre a verdade, em vez de conceder pequenas mentiras, evitando arranjar desculpas, é um luxo do qual tento não abdicar. A quem alega que isso é impossível em certas circunstâncias respondo que há uma terceira via: o silêncio. É por isso que às vezes me calo, desapareço. O meu mutismo pode ser estranho mas é preferível a certas verdades. Dá direito a muitas interpretações erradas, sim, e estou disposta a pagar esse preço. Tem ainda o efeito secundário desagradabilíssimo de me fazer passar por misteriosa. Ser misteriosa é quase tão mau como ser mentirosa. Faz-me sempre lembrar aquele personagem do Brad Pitt no Burn After Reading, o que me dá, ao mesmo tempo, vontade de apalpar os meus próprios glúteos e de gozar com a minha imbecilidade. É a vida. Ser adulto é isto: fazer escolhas difíceis. Pelo menos foi o que tentei explicar ao meu filho de 4 anos, que não conseguia decidir se ficava em casa comigo ou se ia ao parque de diversões com os avós. Ele acreditou em mim, claro, porque sabe que eu lhe digo sempre a verdade.

4 comentários:

Quando me encontrares disse...

O meu pai, a propósito das escolhas, costuma dizer: "não podes andar em 2 carrinhos ao mesmo tempo". É dos ensinamentos precoces que mais lhe agradeço. Obrigar-me a fazer escolhas e a aceitar a perda que elas implicam preparou-me um bocadinho mais para esta coisa de ser adulta. E sim, também prefiro optar pelo silêncio em vez da mentira e isso nem sempre é bem interpretado.

gralha disse...

Quando me encontrares, não há dúvida que das maiores lições que podemos receber dos nossos pais é que temos liberdade e há que aprender a usá-la.

calita disse...

Sim, de acordo, mas ele escolheu o quê?

gralha disse...

Escolheu ficar comigo, calita.