04 julho 2012

porque é tudo muito bonito, mas convenhamos

Já suspeitava o que hoje confirmei: o mundo ocidental separa-se entre os que salivam com o kitsch e os que acham que aquilo é tudo uma grande piroseira. Antes do conceito se vulgarizar, eu via envergonhada o Made in Portugal, aos sábados à tarde, e arrepiava-me gulosamente com os requebros da Ruth Marlene. Em plenos anos 2010 - ainda não há designação para isto, pois não? - posso sair do armário e dizer: sim, eu gosto de ver uma mesa posta com toalha de papel sobre um chão de linóleo. Gosto de sacos de ráfia e pacotes de Omo. Fazem-me sorrir as cortinas de tiras-de-plástico-afasta-moscas, enternecem-me as Nossas-Senhoras-de-Fátima fluorescentes e homens pequeninos de bigode (do tempo em que ainda não tinha voltado a ser moda) a beber minis. Ver o Aquele Querido Mês de Agosto inunda-me o coração, como me enchem de orgulho os empreendedores que arrendam antigas salas de fiação na LX Factory, onde os fantasmas de tecedeiras sindicalistas de filhos ao colo dançam com designers de óculos de massa e Birkenstock no pé. Passado e futuro numa promiscuidade assumida, pobrezas envergonhadas e precariedades abrilhantadas convivem alegremente. Adoro isto no meu tempo e no meu espaço. Principalmente porque o vejo como espectadora, que isto uma pessoa chega a casa e gosta de ter toalhas turcas lavadas e da ligeira sensação de superioridade moral de ter vindo a ouvir Antena 2 pelo caminho.

6 comentários:

Melissinha disse...

aproveita aí a onda de portugalidade e vem comigo hoje à cinemateca ver a Cidade dos Mortos. 19h30 e vou stag!

Melissinha disse...

PS - e Aquele Querido Mês de Agosto deve inundar o coração de toda a gente não só pelos bailaricos, mas porque é cinema de primeiríssima categoria. Morro de orgulho do Miguel Gomes.

gralha disse...

Melissa, não posso, esta semana pertenço exclusivamente à entidade empregadora. Quanto ao Aquele Querido, deixa-me dizer-te que me desapontou. Aquela mistura de doc-espontâneo e diálogos programados mas a fingir que não cheirou-me um bocado a chulé. Darei outras oportunidades ao Miguel Gomes, contudo.

Melissinha disse...

peninha, tudo.

Vera disse...

1.º) Reflexão muito bem feita;
2.º) Acredito que tenho todas as oportunidades do mundo de viver como agricultora/produtora animal, montar um pequeno mas GRANDE negócio juntando o que me rodeia, os saberes antigos e os mercados gourmet. Enerva-me viver aqui e ter este ritmo de vida meio citadino, stress diário, horários, agendas, pronto, trânsito não... mas é parvo e não devia viver assim.
3.º) Tenho medo, ou talvez seja mesmo preguiçosa, ou tenha sido educada assim e arriscar é para os outros;
4.º) Aquele mês de Agosto fez parte da minha adolescência e juventude, também em Julho - que é quando começam as festas, LOL.
5.º) E é isto, pequeno desabafo de quem, um dia, talvez saia do armário!
Beijos e bom fds!

Naná disse...

Eu estou no meio termo, diria eu... mas estou rendida à forma como se foi descobrindo formas de trazer o passado para o presente e renovando-o!
Nunca pensei dizer isto, mas agora compreendo o meu pai quando ele dizia, ao passar por uma casa em ruínas num monte, que aquela casa caída em pedaços tinha potencial!