05 fevereiro 2013

manifesto de um perdedor

Uma mãe vem sempre em último lugar na corrida diária. É quem fica sem água, se uma garrafa é partilhada por todos. É a que se resigna com as migalhas no fundo do pacote de bolachas. É quem apanha chuva para que todos entrem primeiro para o carro. A primeira a levantar-se e a última a deitar-se. É claro que também é a mais bonita e a mais querida do mundo, aquela que faz os melhores bolos e a que recebe os abraços mais meiguinhos. Mas não deixa de ocupar permanentemente o último lugar do pódio. Às vezes as mães também se cansam e, ousadia, precisam de estar um bocadinho sossegadas. Esta mãe que vos fala aguenta o barco muito à custa de rotinas, de previsibilidade e da noção que, de alguma forma, as coisas estão no seu lugar. E de que tem espaço para respirar. Por isso, se lhe baralham as rotinas, se lhe atulham os preciosos metros cúbicos de vazio e arrumação com inutilidades materiais que ela evita a todo o custo, se não lhe permitem ficar na cama o dia inteiro a curar sonos e constipações, pelo menos concedam-lhe a graça de não esperar que esteja constantemente a sorrir e a emanar doçura de todos os poros. A rabugice é o último luxo de uma mãe de rastos.

7 comentários:

Carla R. disse...

Rabuja, Gralha, Rabuja !

Raquel disse...

Assino por baixo.

Melissinha disse...

Maravilha.

DNC disse...

É isso mesmo... Muito bom!

(Há uns anos, quase mandei uma desconhecida à merd@ porque me viu a ralhar com o mais velho e me disse "Ai que mãe tão rabugenta!". Tivesse eu tido discernimento para lhe dizer que "A rabugice é o último luxo de uma mãe de rastos."...)

gralha disse...

Pronto, já passou a rabugice, obrigada. O que chateia é uma pessoa sentir-se mal por rabujar. Mais um tabu que é preciso deitar abaixo!

calita disse...

Eu sinto-me mal por rabujar, porque é de uma inutilidade sem precedentes. E sinto-me no direito de rabujar, claro, mas o que devia fazer era arranjar formas de não precisar de o fazer.

Naná disse...

quando privada de sono, sou uma rabugenta execrável...

lá em casa não me sinto uma perdedora, porque se instituiu tacitamente a política de nos revezarmos!