09 janeiro 2014

de corpo e de mente

Este artigo do NY Times pode parecer mais um prego no caixão daqueles que convivem com a inércia e com problemas de auto-imagem corporal. No entanto, aquilo que retiro da pesquisa em que se baseia, ainda que incipiente, é a importância de fazermos aquilo que nos dá realmente prazer. Se uma pessoa sente mais prazer em sofazar e comer batatas fritas do que em sair para correr, não há resolução de ano novo de dar uso aos ténis que dure mais do que uma semana. Mas essa pessoa não está condenada a passar 360 dias por ano refastelada a encher o bandulho de porcarias porque não tem apenas a única alternativa de ir correr. O truque está em descobrir o que é que dá gozo e não causa o patético sentimento de culpa que nunca conseguiu converter ninguém ao evangelho da vida saudável.
Uma coisa que me chateia neste estudo é que coloque em lados opostos gordos e magros, como se houvesse uma fronteira física entre ambos. Não vou sequer entrar pelas muitas razões que contribuem para que se entre (e permaneça) em excesso de peso, e que não são uma questão de falta de força de vontade. Nem pelo facto de todos os tipos de corpo terem o mesmo absoluto direito ao respeito e ao desfrute. Pegando só na questão do exercício, dou o meu exemplo, de alguém que nunca teve excesso de peso. Passei toda a vida escolar a odiar educação física, a minha pior nota, o meu desejo eterno de baldanço, o meu motivo de chacota por cada cesto falhado, cada manchete contra os meus óculos, cada tropeção na bola. Odiava, odiava, odiava educação física e convenci-me que era uma pessoa sedentária, sem jeito para desporto. Foi preciso ter chegado aos 17 anos e ter descoberto o remo e o yoga para perceber que mexer-me é uma coisa que pode dar imenso prazer. O que é que mudou? A minha postura perante o meu corpo. O meu corpo sou eu, não é um trambolho que arrasto inevitavelmente. Gosto de o fazer sentir-se bem. Gosto de o pôr a fazer aquilo para que foi destinado – trabalhar, mas trabalhar com objectivos realistas e a devida recompensa. Porque andar a alinhar em modas de exercícios, planos de treinos loucos e outras quimeras externas à nossa vontade pessoal é tão estúpido como escolher uma profissão ao calhas ou ter filhos porque as tias não se calam com essa conversa em todos os jantares de família. A sério, pessoas, dêem-se ao luxo de viver com prazer, ninguém vos vai recompensar na velhice por uma vida inteira de boas intenções e eternas frustrações.

5 comentários:

Melissinha disse...

Post maravilhoso, como sempre. Agora vou ler o artigo.

disse...

Eu sou pelo moderadamente :)
Ou seja, comer um pouco de tudo daquilo que me dá prazer mas sem exagerar...porque afinal só se vive uma vez! Mas falo só por mim porque também sempre fui magra.

Vou espreitar o artigo.

D.S. disse...

Ora aí está, nem mais. Nada vale a pena na vida se for feito de maneira contrariada, ou se se tornar num enorme sacrifício, ou se nos encontrarmos sucessivamente a arranjar desculpas para não o fazer. Incluíndo, e talvez muito especialmente, o exercício.

Dora disse...

Mulher, ti amo.

dona da mota disse...

Tens tanta razão, Gralha.
Já li isto ontem e á noite estava a pensar nas minhas capacidades/possibilidades... Ora, sendo muito fraca de pernas e de braços conclui que vou pesquisar sobre desportos que impliquem rebolar. Só se for assim!...