19 maio 2014

uma família banal

No meio da teimosia da ida à praia apesar do vento frio, da desorientação da corrida por entre as salinas da Ria Formosa, e da decepção perante o fecho da tasca com o pior atendimento do mundo (compensada pelas ostras ainda assim saborosas do estabelecimento vizinho, maçadoramente tourist-friendly), foi com estranheza e até algum ressentimento que ouvi o meu marido comentar entredentes: “a tua família é um bocado esquisita”. Isto, logo depois de um momento desfracturante. Junto à margem do Gilão, com a leveza de gerações que já não carregam tristezas antigas, deu-se o encontro de ramos de uma árvore tristemente fendida, prometendo novos frutos.
Esquisita, como? Uma família grande é feita de muitas pessoas diferentes. Há os que se afastam e os que são afastados. Há golpes do destino, doenças, dependências. Há mágoas engolidas e palavras caladas. Há muitos silêncios e quotidianos de negação. Há irmãos que não se entendem durante anos e depois fazem as pazes. E filhos pródigos que se distanciam quando menos se esperava. Às vezes, até há guerras, ciúmes e traições. É só uma família, como tantas outras. Um animal vivo, um organismo resistente e maleável. A herança é comum mas singular nas suas implicações individuais. Gosto da minha família esquisita e possa eu contribuir com o meu cunho de memória e confiança num futuro imprevisível mas único. Nosso.

11 comentários:

Carla R. disse...

Não foste tu que escreveste ou querias escrever uma historia baseada na tua familia ?
Existem familias não-esquisitas ?

dona da mota disse...

Outro dia eu disse ao R. que, se me distanciasse e falasse a alguém de episódios relativamente recentes da minha família, pareceria que não era a minha. Há aquilo que sentimos e vivemos e depois há episódios sobre os quais nem pensamos, passamos por eles, vivemo-los, melhor ou pior. Há realmente coisas de que não nos orgulhamos e não vamos contar.
Porque se eu contasse certas coisas iria até aperceber-me melhor da realidade e a da minha memória/percepção é muito mais romanceada. Estava eu com esta conversa com o R. e ele só respondeu: - "Sim, não vale a pena pensar nisso".
Que não, mesmo.
Como diz a Carla R., todas as famílias são esquisitas, cada uma do seu modo especial.

Naná disse...

Se a tua família tem costelas algarvias, é mais do que normal!! Faz parte do charme e tudo! Ahahah

G&Tec disse...

Nego tudo. Nunca disse tal coisa.

Melissinha disse...

Mostrem-me uma família normal!

gralha disse...

Resumindo, não há famílias não-esquisitas.

G&Tec, por amor de Deus arranja-me lá um nome diferente para vires comentar aqui, que as pessoas começam a pensar que casei com um electrodoméstico.

G&Tec disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
LG disse...

Agora é que é. Assim já não pareço um electrodoméstico. :p

calita disse...

Casada com um electrodoméstico é do melhor.
Eu também acho que todas as famílias são esquisitas, mesmo as perfeitas ;)

gralha disse...

Sim, claro, LG é muito menos electrodoméstico :P

Amigo Imaginário disse...

Conheço uma família daquelas reconstruídas à pressão ao mais perfeito molde da "família perfeita". Garanto que nunca vi nada tão podre e feio. E falso. Ah... e triste. Principalmente, triste.