09 junho 2011

o doce efeito da memória

Já sei que, quando me for embora, os Invernos passados vão ser feitos de neve fofa e de lareiras, e não de frio e reclusão; os Natais vão parecer cheios de azevinho e biscoitos, e não de saudades da família; vamos sentir falta do Halloween e do Thanksgiving, e não nos vamos lembrar de todas as datas importantes em que estivemos longe de quem realmente importava; a paisagem vai ser recordada como um cenário idílico de bosques, flores e lagos, e não como o lugar em que até para comprar um pacote de leite precisamos de um automóvel. À distância, com o tempo, ultrapassadas todas as dificuldades, a memória que fica de uma parte da nossa vida é muito mais bonita e inócua do que a realidade que se passou. As lágrimas, o isolamento, o vazio, o desenquadramento desaparecem de cena e deixam apenas um retrato a sépia de dias de luz e harmonia familiar. É injusto. Mas ainda bem que é assim, é bom deixar o passado bem arrumado e fazer de conta que as coisas foram perfeitas.
É verdade que vou olhar para estes dois anos em Princeton e vou ter saudades de muitas coisas. Também vou chorar com saudades daqui, parece que colecciono saudades; mas também é verdade que continuo a saber por que volto. Em cada dia que passou quis voltar.

8 comentários:

Carla R. disse...

La vida no es la que uno vivió, sino la que recuerda y cómo la recuerda para contarla

GGM (Gabriel Garcia Marquez) (mas podia muito bem ser Gralha Grave e Magnifica, sabes espanhol?)

margarida disse...

Que lindo texto. E é mesmo assim. Quando penso que um dia deixarei Norrbotten fico cheia de saudades, mesmo sabendo que há dias em que não quero mais nada além disso.
Um beijinho. Aproveita Portugal por mim.

Ana C. disse...

Ontem, enquanto ouvia uma entrevista maravilhosa à Maria Filomena Mónica, lembrei-me de ti. ELa dizia:
É bom que os portugueses vão para fora. É bom, porque eles querem sempre voltar e voltam sempre melhores :)

gralha disse...

Espero bem que sim, Ana :)

Catarina disse...

:)

Marta disse...

Sinto, exactamente, o mesmo! Depois de 3 anos e meio neste país, também estou prestes a regressar a Portugal e, apesar de ter ansiado este momento vezes sem conta, hoje sinto-me numa espécie de limbo sem saber muito bem onde me encontro! Uma parte de mim vai ficar aqui para sempre e a readaptação a Portugal não vai ser tão fácil e suave como outrora imaginei! Como diz um grande amigo argentino que aqui fizémos, depois de uma experiência destas nunca mais se é completamamente feliz num só sítio, porque uma parte do nosso coração fica inevitavelmente noutro lugar!
Boa sorte para o vosso regresso!
Um beijinho
Marta

Anónimo disse...

A "doce memória" faz esquecer os maus moemntos da adaptação.
Ficam só os momentos de glamour e de espanto do novo! Mas também é isso que nos dá forças para novos voos; sabemos que em breve chegarão as alegrias e o maravilhamento.

P.S. - eu vou para o 3º país fora de Portugal, já mudei de continente e agora mudo novamente. Estou ansiosa pelas dificuldades e pelas surpresas. E já sonho com a Ásia daqui a uns anos :)

Sara MM disse...

Essa da coleccção foi muito boa.... mas também há que coleccionar felicidade... seja onde for!!

Bjss