09 outubro 2012

pela estrada fora*


Ainda vou encontrando pessoas que não via desde a temporada nos EUA. Sucedem-se as mesmas perguntas, a mesma incredulidade quanto à intenção do retorno, o mesmo silêncio perante as minhas respostas breves e serenas. Depois destas conversas, volto a interrogar-me acerca do sentido do regresso e, uma vez mais, vejo que tudo está onde devia estar: Eu, agora, aqui. Eu, naqueles dois anos, a passar por tudo aquilo.
Enquanto conduzia sob a chuva fininha desta manhã, regressei ao trajecto da Route 31 para chegar a Flemington. O nosso Taurus a guinchar permanentemente e os estofos a cheirar a tabaco. Aquela estrada que subia devagarinho a montanha e onde apareciam ursos pretos no fim do Verão. A Magic 98.3 a passar Ace of Base (ou qualquer outra coisa intragável do género), o copo de papel com o café do 7/11 a escaldar esperando na consola central, e eu mais sozinha que nunca. O bom e o mau de estar assim no meio do nada. A convicção profunda de que, por muita necessidade que tenhamos de espaço e de tempo só para nós, o longe pode mesmo ser longe demais. Os anos passam e vamo-nos tornando cada vez mais nós próprios. E parte disso é não sentir necessidade de justificar aos outros aquilo que, para nós, é evidente e fundamental

*On the road, do Jack Kerouac. Mais um que ainda preciso de ler - que isto do sonho americano à distância de um postal ilustrado tem outro encanto. 

8 comentários:

Silvina disse...

Gostei mt deste texto. A emigraçao tem muito que se lhe diga...
Um grde beijinho*

Melissinha disse...

Casa é casa, por mais desengonçada que seja.

Naná disse...

Adorei este texto, principalmente por ser um pouco a antítese do que tenho ido vivendo... sem sair do lugar cada vez me sinto cada vez menos eu própria...

Gostei mesmo do por vezes "o longe é longe demais"!

Ana C. disse...

Adoro quando escreves sobre a tua vida nos Estates. Adoro.

Ana. disse...

Ainda bem que faz sentido para ti estares cá neste momento! É refrescante ver que nem toda a gente olha para este país como o derradeiro inferno na terra!

*Li o On The Road na faculdade, em Literatura Norte Americana e AMEI! A minha ideia de um coast to coast veio precisamente daí!

ouvirdizer disse...

Vou explicar-te, minha querida, porque sempre tive esta imensa vontade do regresso (desculpa, Ana C., não há outra expressão!) a Mação.
O primeiro filme que vi no cinema cá da vila, tinha uns 12, 13 anos, foi o Cinema Paraíso - sendo que o nosso cinema estava desactivado e voltou à vida nessa altura.
Aquele filme que me faz chorar baba e ranho mesmo que o veja semanalmente marcou-me tanto, tanto, mas tanto que não há explicação. Não só é o filme da minha vida como marcou a minha opção de vida.
Não há cena no cinema mais comovente do que o regresso do Salvatore, muitos anos depois, para o funeral do Alfredo e os rostos, já envelhecidos, à espera que ele os reconheça e muitos ele já não recorda... É tão, tão triste!... Choiro, choro, choro... Quando vi aquele filme, com 12, 13 anos decidi nunca sair de cá, dos rostos de sempre, o medo de um dia não conhecer as pessoas que me deram colo, com quem ia para a horta, que tomavam conta de mim, que me fizeram sentir uma crianças tão especial... E cumpri,salvo a breve fuga a Lisboa para te conhecer! :)
Para mim todas as estradas vêm ter aqui, só aqui! Para mi longe seria também longe demais! Muito bom o teu texto! Muito tu!

Nota nada a ver: a minha irmã quebrou a tradição e vai ter uma menina!!!! Yeiiiii! Inês, não é lindo?!!!!

gralha disse...

Ah, minha querida Vera: o que seria do mundo sem nós, românticas incuráveis com amor ao nosso cantinho? :)

Julieta disse...

Comecei a ler o teu blog na altura em que estavas lá. Adorava ler os teus textos de lá.