15 julho 2014

caligrafia

Escrevo com a minha letra de menina. Não a que me ensinaram na escola primária, florida e harmoniosa, nem a que tentei fabricar com rebeldia adolescente, com os As de imprensa muito artificiais, e os Ts traçados com toda a determinação de rapariga liceal. Não, escrevo com a letra de menina com que pensava no verde da juventude, letra redonda e sólida, pequena mas não minúscula, alegre e assertiva.
Os anos passaram, as notas manuscritas vão rareando com o triunfo dos teclados, e a letra esqueceu-se de crescer e acompanhar a mão. Os recados que deixo recordam-me, sem nostalgia, dessa menina que haverá sempre dentro de mim. Sai para brincar ao macaquinho do chinês com os filhos depois do jantar, espreita os periquitos na janela do escritório, e senta-se de pernas cruzadas no chão, na plataforma da estação de comboios, a ler um livro com a máxima gravidade. Ninguém cresce de verdade.

5 comentários:

Naná disse...

As saudades que tenho de me ver a sós com um caderno onde sempre registei pensamentos e afins... o curioso era ver a forma como a caligrafia espelhava o meu estado de espírito no momento (ou a pressa...)

Quando me encontrares disse...

Estamos sintonizadas. :-)
Dei hoje por mim a pensar o mesmo, olhando as minhas havaianas.
Não é nostalgia, nem me sinto eterna adolescente (Deus me livre!). Mas a criança continua cá, viva, e faz-me, entre outras coisas boas (como jogar à bola ou sentar-me no chão), não perder a capacidade de ver quando o rei vai nú.

gralha disse...

É verdade, Naná :)

Quando me encontrares, as senhoras também usam havaianas, obviamente.

Amigo Imaginário disse...

Eu gosto muito de deixar bilhetes aos meus filhos e de assinar "Mãe". É assim uma espécie de marca caligráfica de uma criança que já cresceu... :)

gralha disse...

"Mãe" é das palavras mais bonitas de dizer, oralmente ou por escrito :)