15 dezembro 2014

post mortem
















O atrito do carvão sobre o papel de gramagem generosa dá-me muito do que encontro na corrida. Descentra-me. Exige empenho. Equilibra-me os humores.
Mas é muito diferente noutras coisas. Efectivamente, estou parada. A suspensão do habitual corrupio obriga a olhar lá bem para a frente, para o fim de tudo. Quando o silêncio da pausa é absoluto, desarrumam-se as ideias. O vazio é gigante e o medo do nada, o medo do nada é maior ainda.

11 dezembro 2014

errado de tantas maneiras diferentes


Sendo uma delas, nada desprezável, a extrema piroseira dos produtos supostamente promovidos neste reclame. Alguém me diga que isto é uma brincadeira, por favor.

10 dezembro 2014

conjugar mulherengo no feminino

É observável, ainda que lenta, a transição da sociedade ocidental para um ponto em que vai havendo maior igualdade de género. Não me proponho adivinhar configurações futuras, nem sequer se se trata de um percurso finito (arriscando: não), mas sinto-me tentada a prever diferenças importantes entre o que é, hoje, ser mulher e o que será no tempo das minhas – geniais, lindas, criativas e espectaculares – netas. Haverá maior igualdade na abordagem aos relacionamentos amorosos e à relação sexual em si, por exemplo? Até que ponto as diferenças incontornavelmente biológicas colocam limites a que homens e mulheres se comportem de forma semelhante no engate, no namoro, na traição? Não faço ideia. Mas é engraçado chegar a este quesito depois de ler uma série de livros, das mais diversas épocas e géneros*, em que os homens que papam muitas babes são heróis incontestados, ao passo que as mulheres mais homenzengas não deixam de ser umas _______**

* E se as coisas mudarem mesmo muito, deixarão os clássicos da literatura de ser clássicos? Ou continuam a ser clássicos mas o que era tragédia passa a sátira? E os contos de fadas, estão condenados à extinção, no seguimento da adulteração completa a que assistimos hoje? 

** A preencher com termo brasileiro que rima, caso não seja óbvio. Às vezes acho que tudo o que escrevo é óbvio mas isso pode ser só dentro da minha cabecinha desocupada.

09 dezembro 2014

tanto faz

Não sei quanto tempo demoram as outras a chegar a esta conclusão. Eu demorei sete anos, oito meses e mais uns dias. E foi com cábulas. Se fizermos as coisas à balda, é porque somos indiferentes. Se formos cuidadosas, é porque não damos liberdade. Se temos outras vidas além da maternidade, somos ausentes. Se os incluímos em tudo, perdemos a individualidade, desumanizamo-nos. E no fim tanto faz. Eles vão achar que foi de menos ou que foi demais. Vão, acima de tudo, sentir a urgência de não replicar os nossos erros e as nossas falhas. Sobretudo aquelas que são o produto das nossas melhores intenções.

08 dezembro 2014

também é um bocado assim, isto dos blogues

"Good old traditional audio-only phone conversations allowed you to presume that the person on the other end was paying complete attention to you while also permitting you not to have to pay anything even close to complete attention to her. (...) And yet even as you were dividing your attention between the phone call and all sorts of other idle little fuguelike activities, you were somehow never haunted by the suspicion that the person on the other end's attention might be similarly divided."

David Foster Wallace, Infinite Jest

Quantas pessoas temos na vida que estão do outro lado, de facto, a escutar-nos? E nós, prestamos atenção a quem?

04 dezembro 2014

conformismo 1 - feminismo 0

Isto é tudo muito bonito mas quando há um filho ranhoso que não quer levar o pacote de lenços da Minnie para a escola porque as meninas - reparem, as meninas! - gozam, é claro que a mãe esvazia os lenços da Minnie para dentro do pacote vazio do Donald. O discurso do não há coisas de menina e de rapaz até já está interiorizado mas é preciso saber escolher as batalhas.

03 dezembro 2014

entretanto comprei lápis e um caderno


É curioso reparar que, desta perspectiva, o sinal de estacionamento aponta para a entrada da igreja. Às vezes faz mesmo falta parar.

01 dezembro 2014

war on drugs


Isto é bonito.

24 novembro 2014

a raiz do mal

Hesito antes de abrir a porta. Espreito lá para dentro e confirmo a melhor das minhas suspeitas: o caos está instalado. Fico muito mais sossegada com o futuro dos meus filhos quando encontro um de capacete de skate a declamar poesia e o outro, de bruços no chão, a desenhar e recortar moedas de papel. Dois pequenos primatas que levam a brincadeira muito a sério e no fim até arrumam tudo.
O ócio pode ser o pai de todos os vícios mas é o tédio que está na origem de muitos males - na realidade, na ficção e na linha ténue que as separa. Está no político que se envolve bacocamente nas teias da corrupção porque está maçado com a sua pasta ministerial. Empurra os miúdos suburbanos a trocar o refrão repetitivo das culturas marginais pelo recrutamento do Estado Islâmico do Iraque e do Levante. Abate os jovens adultos encharcados em whisky e anti-depressivos, aborrecidos à espera que cresça a cortiça nos seus extensos montados. Até o sacana do Vronsky arruinou a vida à Karenina por puro tédio. Se esta gente toda arranjasse alguma coisa de valor com que se entreter muito mal se evitaria.

Ena, tantos assuntos num post só. Mastiguem devagarinho e digiram com moderação. Assim vos deixo para mais uma sabática blogosférica, beijinhos e abraços.

21 novembro 2014

um novo desgosto de amor

Passada que está a fase da negação, é hora de encarar a realidade: não pode haver nada entre nós.
Há já algumas semanas que me davas a entender que precisávamos de dar um tempo. Cega pelo fogo da paixão, não quis saber de nada, pelo contrário, abraçava-me com mais intensidade, mais urgência, como se adivinhasse que o fim estava próximo. Agora acabou, mais uma vez.
Adeus planos de viagem ao Gerês. Adeus sonhos de atravessarmos a Lousã, a Madeira, quem sabe até o Monte Branco, um dia. Tu não queres compromissos dessa envergadura e eu já não me contento com breves encontros, com os mesmos percursos previsíveis. Tu segues o teu caminho, eu fico parada, envolvida num abraço de gelo azul.
Sei que a única maneira de lidar com isto é cortar todos os laços. Arrumei o equipamento. Afastei-me dos amigos que temos em comum. Desligo o rádio quando passa uma das nossas músicas e ponho os óculos escuros, engolindo as lágrimas, quando passo em Monsanto. Vai ser um resto de Outono muito escuro, sei que o frio me vai entrar até aos ossos. Que entre também nos tendões do joelho, já que não há como consertar o meu coração quebrado.

20 novembro 2014

monólogo conjugal das 08h14

 - Sabes, estou a pensar falar àquele meu amigo fisioterapeuta.
- ...
- O Bernardo.
- ...
- Se calhar ele podia fazer-me um tratamento. Umas massagens especificas. Ou usar um daqueles aparelhos eléctricos.

Reaction GIF: stare, are you kidding me?, John Cleese, Monty Python

19 novembro 2014

queen of pain


Só o cabelo descolorado do Sting para me fazer sorrir hoje.
E a pinta do Stewart Copeland? Drummers are the coolest.

14 novembro 2014

denúncia de contrato

Querem pôr-nos fora da nossa casa. O meu co-inquilino deita fumo das narinas, eu encolho os ombros. Já me queixei muito por aqui da nossa casa mas até gosto dela. Só que não me apego a moradas. “Não construireis casa, não semeareis, não plantareis nem possuireis vinhas, mas habitareis sempre em tendas, a fim de que, por muito tempo, possais viver numa terra onde permanecereis como estrangeiros”, já dizia o Jeremias. Nós só temos uma palmeira muito alta e resistente que pode vir connosco para qualquer lado, chega. Se esta não é a oportunidade por que esperávamos para largar tudo e ir pelo mundo, não sei qual será.
Mas é claro que depois lembro-me do que foi a vida de emigrante e deixo-me de fantasias: se souberdes de três assoalhadas simpáticas entre a segunda circular e o marquês de pombal, de preferência com um soalho bonito, muita luz e poucas infiltrações, entrai em contacto comigo através do endereço ali ao lado.

13 novembro 2014

recursos estilísticos de bolso

Por exemplo, heptaparabólises térmico-sensoriais:

[do desconforto] Sentar numa sanita com o assento tépido.
[do conforto] Lama escorrendo das pernas no duche quente.

Vamos lá ver, quem é que se sentiu tentado a googlar “heptaparabólise”, hum? Tenho ou não tenho jeito para a aldrabice com bastante credibilidade? É pena não servir para nada, só parvoeira.

12 novembro 2014

só por mera curiosidade

Sei que há várias pessoas que dizem que gostam de trabalhar sob pressão. Só gostam de trabalhar sob pressão. Alguma por aqui? Gostava que me explicassem o motivo dessa preferência. É o travo amargo da cortisona a bombar no sangue? É o risco de sair tudo uma valente trampa mas se calhar consegue-se safar? É a probabilidade de se pegarem com os colegas de trabalho? É pela sensação de poder, ao superar o que parece ser uma missão impossível? É que eu sou uma daquelas totós que prefere reservar as emoções fortes para a esfera não-laboral. Compreendo que há alturas em que não controlamos a extensão da lista de afazeres e os prazos de entrega, mas daí a achar-se que o caos e o stress são a situação ideal vai uma grande distância.

10 novembro 2014

aquilo da atenção plena

O café tem-me sabido lindamente. Que parva, tê-lo deixado durante um ano.
Ah, o David Foster Wallace. Estas próximas mil páginas a Times New Roman 10 vão fazer valer a pena as duas dioptrias extra que vou arranjar.
Um filho ainda doente mas é da maneira que comemos pipocas e vemos o McQueen até ele adormecer ao meu colo.

Não é, Melissa?

07 novembro 2014

tu és mesmo especial para mim

A semente da Fé. O laço que nos traz cativos. A esperança de um lugar em comum, onde repousar. Um abraço ao fim do dia. Dois olhos pequeninos que se acendem ao ver-nos. Empatia. Telepatia. A urgência de partilhar a novidade. O medo de perder esse estatuto. Encontrar quem nos faça realmente sentir isso, não é o que todos procuramos?

06 novembro 2014

semmãetecto

É comum a ideia de que uma das marcas do cristão é a culpa. Não é hoje que vou entrar na discussão do que é, na verdade, um cristão, mas gostava de deixar a nota que, mais perniciosa do que o cordão mental do cilício, com que se envolvem ainda muitos crentes mais old school, é a tendência para o paternalismo.
Se calhar o paternalismo até tem tudo a ver com culpa. Pode ser mais uma manobra de evitamento. Em todo o caso, é cair na tentação de julgar as limitações do outro e, resistindo à crítica aberta, abafar o que vemos de errado com um manto de justificações aparentemente piedosas e conciliatórias. Dar a moeda ao pobrezinho que não larga os degraus da igreja em vez de ir antes para o guiché do Centro de Emprego. Acenar e simular atenção aos queixumes da senhora idosa que nos massacra a paciência, mas há que fazê-lo porque um dia também lá chegaremos.
 Onde é que quero chegar com isto? Não sei bem. Mas deve ser mais um mea culpa bastante esfarrapado (olha, afinal, a culpa!). Porque, ao que consta, Jesus nunca falou de cima para baixo a ninguém, seja com palavras agrestes ou com gestos de mavioso moralismo. Um dos problemas dos cristãos tipo eu é terem fraca memória da Palavra que vão lendo e rezando, compensando a trapalhice com a habilidade de virar de pernas para o ar o sentido da verdadeira compaixão.

05 novembro 2014

a partilha de tarefas domésticas é pouco produtiva

As semanas que o meu marido passa na Alemanha são as mais silenciosas. Silêncio do vazio de uma voz que me chame à razão quando preciso. E também de quem se sobreponha em alguns responsos curtos e graves à chinfrineira infantil. Podia repetir queixas de solidão nocturna e de sobrecarga nos afazeres da casa, mas hoje prefiro reconhecer as vantagens da gestão centralizada. Do alto da minha autocracia temporária, tudo se faz ao ritmo e do jeito que imponho. E é claro que assim é mais fácil. Cansa muito mais debater argumentos do que estender máquinas de roupa a solo. É por isso que é urgente reconhecer esta realidade: uma vida a dois (ou a três, quatro, etc.) não se faz por conforto, tem de fazer-se por prazer. E a vida do casal em que ambos têm um trabalho fora de casa porque assim o desejam é muitas vezes um desafio à organização de horários mas sobretudo de métodos, de prioridades, de valores. No entanto, em sendo encontrado o equilíbrio, não deixa de ser uma manifestação belíssima do encontro de liberdades individuais que se complementam. E agora que toda a gente já chamou os nomes que eu também poderia chamar ao António José Saraiva, deixo-vos apenas com este pequeno desabafo.

04 novembro 2014

não é fome, é apetite. não, afinal é fome

Não sei como é que vocês fazem isso das dietas e dos regimes alimentares. Estou há cinco dias com um post it de cinco singelas regras* colado no frigorífico e já nem posso abrir o Pinterest, que me babo toda**. A sério, a negação dos instintos básicos é uma coisa que não me assiste. E não era suposto o jejum elevar-nos o espírito? Nunca senti tanto a urgência do consolo físico da próxima refeição como agora. O que vale é que depois vem Dezembro e vai ser só deitar abaixo rabanadas.

* Antecipando a questão: não, não quero emagrecer. Mas preciso de "secar" para enfrentar uma montanha que me espera no fim deste mês.
** Ultimamente tenho falado muito de baba. Será que me babo assim tanto? Bom, quando estava grávida era uma coisa por demais.