04 dezembro 2013

monólogo em movimento

A D.S., inspirada pelo Mak, partilhou a sua experiência durante um treino de corrida, que eu não resisto a copiar. Não costumo propriamente conversar através dos meus ténis (nem sequer dirijo uma palavra às pernas, sou muito autoritária comigo mesma durante os treinos) mas digamos que 10 Km dão para pensar numa série de coisas.
Início: “É hoje, é hoje que bato o meu recorde de velocidade aos 10 Km. Vamos a isto, deixem passar, senhores varredores, que eu não estou para brincadeiras!”
1 Km: “O que é que hei de fazer amanhã para o jantar? O quê? Fiz esta miséria de tempo? Esta porcaria não está a apanhar bem o satélite, só pode. Está um fresquinho jeitoso, quando será que volto a sentir as mãos?”
2 Km: “O rio está tão bonito, hoje. Deve estar mesmo a nascer o sol. Olha um corvo marinho! Olá primo. Olha o senhor que corre de camisa de manga curta. Bom dia! Que engraçado, não há mais ninguém a correr nesta altura do ano, vá-se lá saber porquê…”
3 Km: “Hoje vou fazer batota e corto pelo Padrão dos Descobrimentos, quero lá saber. Não fazes batota, não, sua mariquinhas. Vamos a baixar essa média que o regresso vai ser a doer, com este vento. Não te esqueças de levar o livro do Gugas para devolver à biblioteca.”
4 Km: “Não tropeces nas raízes das árvores! Olha os buracos, olha o lancil do passeio, levanta as pernas, isto não é um sarau de patinagem artística. Oh, não, porcaria de música mais deprimente. Vê lá se actualizas as playlists no telemóvel.”
5 Km: “Oh, tão lindo, só eu e o Tejo (e os pescadores) a olhar para mim. Sim, eu sei, tenho um rabiosque muito jeitoso. Ahhhhh, VENTO. Está este vento todo contra??? Não consigo, não consigo, vou correr mais devagar. Não vais, não, sua lesma. Mexe-te e aguenta.”
6 Km: “Árvores, postes, caixotes do lixo: qualquer coisa que me abrigue deste vendaval demoníaco… Lá se vai o recorde, ainda não é hoje que baixo dos 50 minutos…”
7 Km: “Lá vêm os ciclistas todos contentes, todos cheios de gorros, luvas, casaquinhos e mochilas. Estão a gostar do passeio? E que tal experimentarem levantar o rabo desse selim? Não sejas má, gralha. Não te serviu a bicicleta quando estavas lesionada?”
8 Km: “Só faltam 2, só faltam 2. Olha a postura. Não franzas a testa, que ficas com rugas. Respira bem. Ganha energia para o último. Ultrapassa lá esse pintas que é para ele experimentar um pouco de humildade. Com licença, senhor pintas. Sim, é verdade, está a ser ultrapassado por uma mulher pequenina. Não, não estou a correr só 10 minutinhos, sou mesmo uma flecha. Ó minha grande vaidosa, vê lá se não te esqueces de ir comprar uma alface senão não há salada.”
9-10 Km: “Dá tudo! Dá tudo! Ai, dói-me a barriga, maldita adrenalina! Mais depressa, mais depressa! Paciência para o recorde, despacha-te porque ainda tens de ir apanhar uma máquina de roupa, fazer as camas, tirar a louça do pequeno-almoço, e hoje há outra vez greve e o trânsito deve estar uma desgraça. Só mais um bocadinho, só mais um bocadinho. Ahhhhh. Para a próxima é que é. Bacalhau com grão, amanhã faço bacalhau com grão.”

É verdade, é assim que alimento o meu ego. Imaginem quão insuportável ficaria se corresse mais do que duas vezes por semana.

5 comentários:

Dora disse...

Muita admiração deste lado. Eu tenho esses monólogos, mas quando estou a tentar levantar-me da cama, ainda mal amanhaceu.
Cruzes, mulher. que valente.
Hás-de cá vir ensinar-me como se faz, está bem?

D.S. disse...

Valentes gargalhadas! Partilho essa raiva mázinha contra os ciclistas, extremamente hipócrita porque ando de bicicleta com muita frequência. Mas nada me irrita mais que os carros que param mesmo em cima das passadeiras com sinal verde para peões. Levanto logo os braços e o queixo naquela atitude desafiadora do "atão, cara***?!". Enlouqueço quando corro e qualquer dia dou-me mal.

Mas, corridas antes do nascer do sol? Isso é que é força de vontade, bolas. Mal arrasto o rabo da cama para ir trabalhar quando ainda está de noite, de livre vontade não consigo mesmo. Mas fico feliz por dizer que o frio não me detém (acho que já chegaram ao um/zero as temperaturas, estou confiante que não desça muito mais e que a vontade se mantenha).

dona da mota disse...

Ahhhhh, então é esta a minha falta de motivação. Eu a correr só poderia pensar:
"Olha uma árvore, olha outra árvore, olha outra, ena e outra, tantas árvores. Ups, tropecei num calhau, olha outro calhau..." E era sempre isto, é muito monótono... :)

Naná disse...

Não há nada como um bom monólogo de corrida!

Este é para lá de bom!

Melissinha disse...

Eu tenho esses monólogos enquanto como bolachas!