26 março 2012

yin yangs e outras tangas

Quem se lembrou de vir dizer que os opostos se atraem foi com certeza um homem com muita lábia e ainda mais necessidade de dar uso ao material. "Ah, e tal, que eu gosto de matrecos e de cerveja e tu gostas de ler Proust e de massagens com envolvimento em mel silvestre, mas isso até é bom porque constitui um desafio e nunca vamos cair na monotonia." O tanas. As diferenças não unem, desunem. As persperctivas divergentes podem alimentar um diálogo interessante mas, ao fim e ao cabo, todos precisamos de sossego e de compreensão. De comunhão. Enquanto falamos de clubes de futebol e de programas de televisão, a coisa ainda pode ser relativizada (e, e... que conheço um benfiquista ferrenho que jura a pés juntos que nunca teria nada com uma não benfiquista); agora, quando entramos em questões que mexem com os nossos valores fundamentais, com as nossas prioridades e com a nossa atitude geral perante a vida, a coisa torna-se mais complicada.
Estou mesmo cansada de viver em clivagem religiosa lá em casa. Falo disso aqui porque já discuti o assunto antes com o interessado e porque é algo que está, realmente, a consumir-me. A tolerância tem sido uma rede que nos tem sustentado ao longo destes anos mas, sinceramente, estou cansada de consertá-la e os buracos parecem cada vez maiores. Com a idade, os relativismos e as coisas mal resolvidas vão-nos roendo os calcanhares e nem sempre é fácil encontrar respostas que sirvam a todos. Na maior parte das vezes, o consenso é uma má solução para todos os envolvidos. E o que fazer a partir daí?

17 comentários:

Melissinha disse...

Não dá para deixar de fora?
É que não consigo ver outra alternativa. Adoraria dizer algo mais elaborado, mas não tenho. Conheço alguns casais com diferenças de credo, mas nada muito importante ou para um deles ou para ambos.

Sorte aí nisso, Gralha!

Joana disse...

Eu acho o compromisso o melhor remédio, apesar de tudo. Exemplo lá de casa: escola pública vs. colégio (eu pela escola pública). Na verdade este assunto quase que se resolve pelo facto de não termos dinheiro para ter 3 filhos em colégios privados. Mas enquanto não eram os 3 isto ameaçou ser um assunto sério de clivagem entre nós. Pensei: o que é que eu não gosto no colégio? Onde é que há um colégio que não tenha essas coisas e que tenha realmente alguma coisa que eu valorize e valha a pena o dinheiro? Pronto, fui á procura e os filhos acabaram na Voz do Operário. É IPPS, mesmo assim custa no final do mês, mas não é colégio de padres com farda e pedagogicamente segue o Movimento Escola Moderna. Estamos os dois contentes com a opção.

Religião: isto não é importante para ambos mas volta e meia ouço a conversa do baptismo. Neste caso não me oponho, simplesmente não trato do assunto pq não me interessa. Digo "ok, se fazes tanta questão, organiza lá isso. Mas eu não vou lá segurar a vela". Não organiza, claro está. Mas se organizar vou. Só não dou força.

Não acho mal tentar procurar o chão comum.

Té F. disse...

Apesar de tudo continuo achar que os opostos se atraem :) e que as diferenças ficam bem, unidas. é necessário é saber dar a volta ao texto e aprender aceitar que nem todos pensam igual, e não é por ter uma opinião diferente que a nossa é melhor que a outra...
Fazer um pouco de cedência acho o melhor, agora cedo eu...agora cedes tu! :)
Digo eu, claro!

Ana C. disse...

Eu sempre defendi que religião, futebol e política (esta depende) não se discutem. As convicções, ou não-convicções bloqueam qualquer espécie de diálogo, ou entendimento.
Apesar de tudo, acho que é na tolerância que reside a chave da questão.
Umas vezes toleras tu, outras vezes tolera ele.

Ana C. disse...

Muitas vezes, encontras pessoas de profunda fé na não crença no que quer que seja :)

gralha disse...

O exercício contínuo do consenso é uma maratona interminável. E a tolerância não é aplicável a todos as situações, em que é preciso optar por sim ou sopas.
E há que ver que estamos a falar de duas pessoas MUITO convictas.

margarida disse...

gralha, eu gostava de opinar mas não consigo. Não conheço, não foi assim em minha casa, nunca soube de nada parecido. Ou até soube, a mãe de uma amiga minha era espiritista e o pai não queria saber da religião para nada. A mãe levava a filha às cerimónias, o pai não gostava muito mas deixava - mas lá está, sem ser indiferente, não gostava.
Sendo vocês dois muito convictos.. pois. Não vão chegar a um acordo Mas eu não percebo nada disto, só quis mostrar a minha solidariedade.

Ana C. disse...

Eu dei sempre o braço a torcer no que respeita à religião, sempre e darei de novo, quando o Hugo fizer questão dos putos na Catequese, tal como fez questão que se baptizassem.
A religião católica tem um aspecto muito interessante: Não obriga ninguém a permanecer-lhe fiel a vida inteira.
Eu tive uma educação católica e foi ela que me afastou da Igreja. Conheço quem tenha sido afastado de todo o "desvirtuamento" religioso e, mais tarde, tivesse abraçado a sua fé.
Eu não consigo ser militante extremista de nada.

Melissinha disse...

Lembrei-me agora que já tive um conflito de credo com um namoradinho, foi horroroso. Mas ele era doido. Não era firme nas posições dele, era simplesmente doido.

Religião é algo incrivelmente pessoal, e só muda por experiência pessoal. Na minha opinião, nunca partirá de uma pessoa a puxar.

Boa sorte outra vez, Gralha. É uma cena complicada.

gralha disse...

Se a coisa se tem levado, lá está, é porque nenhum de nós é extremista, porque justificamos as nossas posições com a máxima honestidade intelectual, e porque nos tentámos converter mutuamente.
Mas agora chegámos a ponto que obriga a uma cedência brutal ou de um ou de outro.

triss disse...

Eu também tive uma educação religiosa, e hoje em dia não pratico e tenho muitas reservas ... com a religião católica. No entanto, temos de ser tolerantes. E quando o meu jovem quis a miúda baptizada, acedi imediatamente, mal não lhe faz, e ela não é só minha filha. E embora me revolte um pouco o estômago quando ele diz que a quer levar à igreja e participar da vida católica, tenho de respeitar. E se ela quiser ir para a catequese, é um desgosto, mas deixo-a ir. Serei com certeza muito moderada nas minhas opiniões, enquanto ela for pequena.
Cá em casa é mais a cena da alimentação, ele um carnívoro inveterado, eu, uma não carnívora. Nem sempre é fácil...

Rainha disse...

Cá por casa estamos os dois na mesma onda. Contudo, por causa da familia, mais da minha na verdade, optamos por batizar e levar à catequese. Lá está é muito mais dificil quando as convicções são muito fortes. Solução? Espero que encontrem pelo menos um concenso...

Rita disse...

Quando a Margarida nasceu não nos passava pela cabeça baptiza-la mas cedo percebi que isso seria uma grande tristeza para os meus sogros. Por isso ambos cedemos. Obviamente que os outros também foram baptizados. Em relação à catequese tive uma longa conversa com a minha sogra e consegui que ela percebesse a minha opção de não colocar lá a Margarida. Ficou triste mas aceitou. No entanto, a minha filhota começou a ouvir os colegas a conversarem e a falarem das actividades que aconteciam na catequese e foi ela própria que nos pediu para ir. Fui até ao centro paroquial, conheci a catequista e acedi. Mais recentemente a Margarida pediu-nos para fazer parte do grupo de escuteiros. Também aqui se trata de um grupo católico, onde só entram crianças baptizadas e que frequentem a catequese. Isto tudo para te dizer que é ela que está a fazer o caminho dela. Eu e o pai respeitamos as suas opções, como hei-de respeitar (espero eu) todas as opções que ela irá tomar pela vida fora.

Vera Dias António disse...

Lá em casa fui eu que me fui desconvertendo. AINDA não casámos e AINDA não batizámos os miudos. O que fiz foi mudar o cenário romântico da coisa e agora imaginar ser mais giro casarmos pela igreja e batisa-los tudo ao mesmo tempo. As avós não questionaram o só termos casado pelo civil mas faz-lhes impressão eles ainda não serem batizados.
Em relação aos opostos... O R. e eu somos um bocadinho diferentes e isso tem-nos ajudado a aprender um com o outro, porque não há grandes extremos, lá está.
Cada um sabe de si, o que se passa dentro de portas é com cada um mas, como diz a Joana acima, há que procurar sempre um chão comum.
Outro dia li num blog uma frase de um entrevista a um casal com 65 anos de casamento e o jornalista perguntou qual era o segredo. A senhora respondeu que eles são de um tempo em que o que se estragava era arranjado, não se deitava fora... E há coisas que às vezes custam a arranjar... mas no final quero acredira que compensa...
Beijos grandes!

Catarina disse...

Concordo gralha, a minha experiência é essa, haver diferenças religiosas é algo muito difícil de ultrapassar/relevar/conjugar.
Para mim, seria tema em que seria impossível ceder, portanto não posso esperar que com ele seja diferente

calita disse...

Um é religioso e o outro não, certo? E a questão é: em qual das "ideologias" educar os filhos, certo?
Parece-me que um tem de ceder, não vejo outra forma.
Mas, por experiência própria, acho que se devem colocar as seguintes questões:
1-Será assim tão pernicioso ter uma educação religiosa? (desde que devidamente ensinada)
2-A religião faz efectivamente parte da vida dos pais, neste caso de um deles, então porque não dos filhos? (um bocado como os putos bilingues que têm o pai português e a mãe alemã e falam as duas línguas)
3-O pai não religioso não tem de abdicar das suas crenças, antes pelo contrário, por isso os miúdos vão aprender rapidamente que não há verdades inquestionáveis.

Dadinha disse...

Posso dizer-te que cá em casa somos o exemplo de duas personalidades diferentes em comunhão. É fácil? Tem dias...digo mais: é um desafio.
A matéria mais dificil de gerir tem sido a educação do nosso filho e quando a coisa se complica marcamos um "conselho familiar" e aí eu ganho (quase sempre).
Prepotencia, pensas tu?
Naaaaaaaa é apenas a vantagem de uma mãe que resiste e assiste o filho a tempo inteiro há quase 6 anos. Estar com os filhos 24/24 horas tem que dar um direito a um voto de qualidade e maior poder de decisão. Digo eu :)
Estranho pensas tu, não é?