24 maio 2012

também tenho de falar do kevin

Porque me tocou muito fundo. Porque achei belíssima a realização da Lynne Ramsay e os desempenhos da Tilda Swinton, do John C. Reilly e do Ezra Miller (que vai passar a visitar-me nos pesadelos, ai pois vai). E porque tocou em muitos nervos estratégicos da minha vivência da maternidade. Porque eu fui muitas vezes para o armário tapar os ouvidos quando o bebé chorava horas a fio. Porque me senti desamada quando me rejeitaram a mama e o colo. Porque sei o que é pensar (ainda que erradamente) que só nós vemos o que se está a passar debaixo do nosso nariz enquanto os demais insistem nas evidências da normalidade. E nem vou voltar à questão da culpa, essa sombra siamesa de todas as mães. Todos os psicopatas deste mundo foram bebés um dia.

12 comentários:

Melissinha disse...

"Porque sei o que é pensar (ainda que erradamente) que só nós vemos o que se está a passar debaixo do nosso nariz enquanto os demais insistem nas evidências da normalidade". - Ui! Não com filhos, mas conheço isto TÃO bem. Coisa de chafurdadeira emocional.

(se gostas de chafurdar filmes que gostaste, vale a pena ler as críticas dos Top critics do rotten tomatoes).

Melissinha disse...

Agora pelo teu link no imdb vi que o Ezra Miller entrou no Afterschool, filme que achei chato mas tem desempenhos do caraças.

Agora queria vê-lo noutro registo.

Ana C. disse...

gralha, a psicopatia é uma disfunção cerebral. Não é por gritares com os teus filhos, nem por estares farta de os aturar (100% das mães passa por isto e é normal, sim!) que eles vão desenvolver patologias psicopatas, frieza, falta de sentimentos de culpa, manipulações e afins e desatar a matar toda a gente.
Ela tentou negar aquilo que sentia desde o princípio, que o filho não era normal. Ela saw it comming e não fez nada, pois custava-lhe gritar em voz bem alta que o filho era completamente marado e que batia pívias a olhar para ela com ar enlouquecido.
Calou tudo, porque queria a perfeição e fecundou-se e passou o filme todo a auto-flagelar-se por isso.
Foi só isso. Eu não vejo instintos psicopatas nos meus filhos, se bem que eles muitas vezes suscitem em mim reacções enloquecidas, se bem que muitas vezes me saiba bem o trajecto que faço, desde que fecho a porta do carro, com uma birra lá dentro, até ao lugar do condutor, pois por segundos tenho silêncio.
Não me sinto culpada por isso e a realidade desta mãe-de-psicopata nada me disse. Juro.
Temos que aprender que o cansaço, a falta de infinita paciência, a falta de perfeição da nossa parte e da parte deles, são normais, sim.

Ana C. disse...

E tenho que me render, o Kevin detém o record de comentários em redor de um filme. E nem sequer curti o filme. Tem esse mérito :)

gralha disse...

Melissinha, chafurdarei.

Ana C., racionalmente, sei que tens razão. Mas isto escarafunchou-me no irracional, o problema é esse.

Melissinha disse...

Adoro a questão do amor. Adoro, pronto. E a Eliana levantou a questão do narcisismo também.

Quero ver outra vez.

Pelo que a Pekala disse, o livro é sobre redenção (e a wikipedia também vai por aí), mas ali não vejo redenção nenhuma, só talvez naquilo que a Eliana notou - a diferença de corte de cabelo no fim do filme, que pode ser um corte em tudo, na verdade. Mas acho que a realizadora não vê redenção nenhuma, só vê buraco.

Té F. disse...

Não vi o filme mas já estou com uma certa vontade ;)
Gralha concordo com a Ana C. a psicopatia é uma disfunção cerebral.
Mas depois penso assim: o bebé/criança é como um bocado de barro e nós os artesãos. E nós também somos em parte responsáveis pela obra que vai sair dali.
Pode não ser um psicopata mas pode ser melhor ou pior consoante a vivência...
Tudo o que lhe da-mos de bom ou de mau (amor, desprezo, abraços, chega pra lá, festinhas, pontapés, beijinhos, nunca o beijar, colo, nunca lhe pegar ao colo...) vai formar um novo individuo, porque eles estão ali à nossa frente em bruto e cabe-nos a nós conseguir fazer o melhor.
Beijinho

Té F. disse...

Um filme muito bom, nada a ver com psicopatas, mas também com a relação que se cria com um filho...
"um conto chinês" um filme Argentino. Gralha se gostas de cinema alternativo vê este ;)

gralha disse...

Melissa, qualquer indício de rendenção é só para sossegar o espectador que exige o final feliz. Fico com curiosidade sobre o livro, para ver se resolve as coisas de outra forma.

Té F., vou procurar, obrigada pela dica.

triss disse...

ai, tenho de ir ver!

triss disse...

ó meninas, eu ali não vi nenhum final feliz, achei exactamente o contrário uma tristeza sem fim.

pekala disse...

ópelamordedeus LEIAM O LIVRO!!!!!
primeiro porque,cum caraças,é mesmo bom e não há nada melhor que um livro bem escrito;
segundo porque vocês ao verem apenas o filme passam completamente ao lado da história,estão apenas a comentar o ponto de vista da realizadora e a história é tão,mas tão mais do que aquilo......
leiam,a sério,é toda uma experiência.
e Cê,ela nunca quis a perfeição,não é nada disso.