01 maio 2012

carne


Arranco-te lascas mornas e elas cedem a intervalos. Fumegas e deitas um cheiro insuportável: gordura, sangue, membros com cartilagens soltas. Puxo-te nervos, escalpo-te peles, escorro-te o tutano que se desfaz dentro dos ossos. Fico com as mãos sebosas e perco qualquer sugestão de apetite. De animal, transformo-te em jantar e arrependo-me ao longo de cada um daqueles minutos de carnificina post mortem. Abutro-te e atiro-te para o tacho, borrego que me foste oferecido. As minhas crias têm fome.

Por muito que goste de desempenhar o papel da dona-de-casa vintage, não consigo lidar com isto de mexer em animais inteiros. Nunca amanhei um peixe. Murmuro o hino nacional para rechear um peru. Não volto a desfazer um bicho que já correu pelos prados - ou mesmo só por entre os 2 metros quadrados de um redil de produção em série. Sou uma fraude, as minhas inclinações vegetarianas não são de origem moral, são só uma maneira de fugir à repulsa primordial de consumir outro ser.

5 comentários:

calita disse...

exactamente como eu.

triss disse...

Senti engulhos no estômago, ânsias de vómito com a tua descrição (bem escrita portanto).
Eu à minha cria só lhe dou frango e peru já limpo, e só umas 2 vezes por semana. De resto, quem quiser está à vontadinha (pai, avós, futura creche).
E olha que a repulsa de comer outro ser é muito válido, falta só o resto:-)

ouvirdizer disse...

Já amanhei peixe mas custou-me imenso... uma vez cortei um coelho e isso então é que jurei para nunca mais. Nós temos gatos em casa e aquela imagem sem pele e eu a cortar-lhe os membros, e a cabeça?!!!!!!... nunca mais. Agora quando a minha sogra me oferece coelho dou-o à minha mãe para fazer no tacho familiar (sim, que comprou depois de nós casarmos para cozinhar para todos, é que só da minha parte vamos 5, ahahahah).
Já os frangos não me custa, porque não trazem cabeça, talvez...
Mas... o mais velho anda doido para ter galinhas... até já construiu um género de galinheiro que, pregado, já safava a coisa... mas custa-me... quer dizer, enquanto derem ovos, tudo bem, mas e depois, mato-as? Isso é que não... Deixo que morram naturalmente? Dilemas...

gralha disse...

Triss, só não me converto já porque tenho preguiça de cozinhar a duplicar e custa-me ir a casa de outros e deixar a carne de lado. Lá em casa, por agora, somos vegetarianos duas vezes por semana e depois logo se vê se a coisa ganha popularidade.

Naná disse...

gralha, é melhor eu não te descrever a forma como me habituei a arranjar carne e a amanhar peixe (que até não desgosto)... teve a ver com a educação que me deram, boa parte dela no campo...