06 outubro 2013

a minha primeira maratona

É verdade: fintei as probabilidades, fui contra todo o bom senso e hoje apresentei-me na partida, em Cascais, para correr os 42,195 Km da 1ª edição da Rock n' Roll Maratona de Lisboa. E corri-os! Sempre com um sorriso na cara e a deliciar-me com a beleza do percurso. Porque o mero facto de ter começado foi uma dádiva, mas a possibilidade de continuar a correr até ao fim só se deu com muita fé em mim e uma grande Fé em Quem me acompanhou em todo o caminho. A sensação de cruzar a meta, com a minha família ali a torcer por mim, foi das coisas mais maravilhosas que já experimentei.
E agora podem fechar o browser se não tiverem paciência para longas descrições de corridas - mas eu vou descrever na mesma porque quero guardar a recordação para sempre.

Passei a noite e a madrugada ansiosíssima. Dormi pouco. Tomei um hiper-calórico pequeno-almoço de sandes tripla de manteiga de amendoim e doce, acompanhada de batido de chocolate, banana e manteiga de amendoim. Preparei o meu camelback com água e as poucas coisas que levava e lá fomos nós. Antes de apanhar o comboio para Cascais, deixando os meus amores para trás, estava tão nervosa que até chorei. É que eu nunca tinha corrido mais do que 21 Km e estou ainda a recuperar de uma lesão, que me arruinou os treinos. Nem sequer contei antes aos meus pais que ia participar, porque foi mesmo uma grande insconsciência.
A verdade é que estava um dia maravilhoso em Cascais e havia "só" 2500 pessoas, todas muito animadas. Passaram-me os nervos e senti, desde o sinal da partida, que ia conseguir terminar. Estava mesmo feliz por estar ali. Resolvi dividir mentalmente a prova em fracções de 10 Km, para parecer mais fácil (resultou até aos 30). Os primeiros 10 foram uma doçura. Esteve sempre muito calor mas despejei várias garrafas de água sobre a cabeça e nunca cheguei a aquecer. Não faço ideia do ritmo a que ia (aliás, ainda não sei o meu tempo final) porque só queria sentir-me confortável e terminar. Os 10 km seguintes também não me custaram (se exceptuarmos a passagem pela Câmara de Oeiras, que me deu algumas náuseas - mas isso deve-se ao que aconteceu no Domingo passado e não neste). Aos 15 Km engoli o primeiro gel energético, o que repeti aos 25 e aos 35. À passagem da meia-maratona pensei "só falta metade!" e continuei cheia de confiança. Aos 22 Km começaram a doer-me as pernas. Foram 20 Km a arrastar umas pernas em dor, mas era gerível e fui alongando e suportando (nisto acho que as mulheres que já deram à luz sem epidural levam vantagem!). Foi importante chegar a Lisboa, do ponto de vista psicológico, e depois foi sempre a gerir os "só mais X Km até chegar ao próximo abastecimento", onde me molhava, bebia e esticava os pobres gémeos massacrados. Quando cheguei aos 35 Km tive a certeza que ia acabar e liguei ao L. para irem receber-me à meta. A partir daí já me custava mesmo correr, as pernas estavam pesadíssimas e a gralha virou tartaruga. Essa foi a fase em que mais contou o apoio do público, incentivando-nos a continuar (infelizmente, não havia muito e as pessoas estavam mais a admirar os maluquinhos a correr do que a gritar por nós, mas houve muitas fantásticas excepções). Os atletas também iam sempre puxando uns pelos outros, isso é certamente das coisas mais bonitas da corrida. Aos 39 Km tive mesmo de andar até chegar quase aos 40, mas sei que o fiz porque queria chegar a correr, cheia de energia. Quando recomecei, passou-me todo o cansaço e estava com muita vontade de ver a carinha linda do meu Gugas, cheio de orgulho em mim. Ao fundo, a meta: dei corda aos sapatos e, mesmo antes de passar, vi-os. Levei as mãos ao céu e senti uma enorme gratidão e um enorme orgulho em mim própria. Caraças, se eu consegui isto, depois do percurso dos últimos 4 meses, consigo qualquer coisa. Sou uma maratonista!
Depois recebi a medalha e fui pô-la ao pescoço do meu filho mais velho (o mais novo estava a dormir a sesta, vê-me para a próxima). Vim para casa, tomei um longo duche e agora basicamente não me mexo, mas não há de ser nada! A única mazela visível que tenho é uma bolha aberta na mão... De abrir as garrafas de água. Obrigada aos somíticos dos fabricantes de garrafas que fazem tampas cada vez mais estreitinhas.
Finalmente, quero destacar o enorme apoio do meu querido marido, que acreditou em mim desde o princípio e possibilitou que eu andasse a treinar 3 vezes por semana ao longo de tanto tempo. Agora vou descansar durante umas semanas. De louvar também a organização do evento, que esteve impecável. Não faço ideia de como foram os concertos em Lisboa mas também os dispensava bem e acho que até corri um pouco mais devagar só para não ter de ouvir os Xutos & Pontapés.
E agora? Agora vou encher o bandulho de sushi para repor os sais minerais. E vou descansar durante uns tempos. Não sei se voltarei a fazer uma maratona, sobretudo devido ao que implica em termos de treino, complicado para quem tem já uma vida bem preenchida. Mas é claro que vou continuar a correr. Quem sabe, talvez um dia aproveite a experiência que esta lesão me trouxe em natação e bicicleta e me aventure no triatlo :)

Actualização: Demorei 4h37'm44s, segundo o meu chip. E fiquei em 1403º lugar (131º entre as mulheres)

15 comentários:

Ana C. disse...

"É que eu nunca tinha corrido mais de 20 Km" :)
C'orgulho na minha gralha, c'orgulho!!!!

margarida disse...

Parabéns gralha!
Que emoção ler este teu texto! Muitos, muitos parabéns. Depois disto não há nada que não se faça!
Um beijinho

gralha disse...

Obrigada :)

Ana. disse...

Possa, até me emocionei!
Estava a ler o teu texto e a pensar em loop: Ela foi mesmo!
You rock!
;)

Naná disse...

Eu sabia! Eu sabia! Eu sabia! Que a menina Gralha não ia ficar em casa num dia de maratona!

Fiquei tão feliz ao ler este registo :)
És mesmo Grande! Parabéns

Quanto às tampas das garrafas, finalmente alguém que me compreende :)

dona da mota disse...

Ó pá, tu és mesmo o meu herói!!!!!!!! Estou tão feliz por ti!!!! Tão orgulhosa!!!
(És tão doida e és bem capaz de ter lixado os joelhos, uma palmada nesse rabo = momento mãe, já passou!)
UAUUUUUU!!!! Já tinha lido isto ontem mas tinha 3 gajos à perna e não estava concentrada. Mais tarde pus-me a pensar neste tua força interior e, vá, exterior! Sou mesmo uma maricas.
Ó Gralhinha do meu coração, estou mesmo, mesmo feliz por ti!!! De coração cheio!
E não páro de pensar como está esse corpinho! Que o meu dói-me mas só por andar 2 horas a cavar o jardim para semear relva. Agora correr quase 5 horas, aiiiiii!
Beijo!

InêsN disse...

Deste-me o alento que eu precisava para voltar a (tentar) correr :))

Obrigada e...parabéns, caneco!!!

Julieta disse...

Fantástico! Deves sentir orgulho de ti própria ;)

mm disse...

Muitos parabéns! Adorei o relato: até me vieram lágrimas aos olhos!
Muitos parabéns, de novo, Maratonista!

Dora disse...

Parabéns!!! Isso é muito, muito grande feito!!

disse...

Que grande emoção o teu relato. Parabéns! És uma vencedora.

(no meio de milhentas pessoas os meus mais-que-tudo têm estado sempre apoiar-te também :))), a J estava em S.João do Estoril a dar-te água :)

gralha disse...

Um super-mega-muito-obrigada à J., Té. Para além de me dar água, ainda me desenroscou a tampa, nesse caso :)

triss disse...

gralha arrepiei, juro! Fiquei com goosebumps de ler o teu texto, tão bonito. Muitos muitos parabéns!

calita disse...

Só hoje li o relato e estou quase chocada. Quando "gostei" do que disseste no facebook convenci-me que se tratava de uma meia maratona e achei extraordinário. Agora, apetece-me ir aí dar-te um abraço e dizer-te, pessoalmente, que és fora de série.
Muitos parabéns, rapariga. Muitos parabéns! Gabo e admiro-te a persistência.

gralha disse...

Mais uma vez, muito obrigada a toda a gente: é como se o delírio da meta se prolongasse durante mais uns dias :)