25 junho 2014

a extensão das pequenas asas

Não me envolvi na barafunda que vai ali para os lados do Pais de Quatro mas confesso a minha surpresa perante as reacções de alguns leitores. É certo que o João Miguel Tavares é um grande provocador mas não estava à espera que a brigada das crash-test-mummies se erguesse com tamanha fúria. E o "crash-test-mummies" aqui é muito literal, para quem não tem passado por lá: trata-se das extremosas progenitoras que não descuram a segurança dos seus rebentos nem por um milissegundo.
Eu chumbaria vergonhosamente num teste desse género. Certo, a segurança dos meus filhos é responsabilidade minha e não é para relativizar; mas confesso que deixo o sentido prático levar a melhor muitas vezes e facilito com certas exigências. Não é por ter pretensões hippie nem para afirmar qualquer tipo de ideologia retro - uma tentação para muitas mães criadas aos atropelos em triciclos de alumínio e napa dos anos 80; é porque acho mesmo que o contacto com a insegurança faz parte de crescer. Lidar com o desconhecido e superar o medo também são ferramentas fundamentais para a vida.
Foi de coração apertado que mandei ontem, pela primeira vez, o mais velho à mercearia. Levava duas moedas na mão, passos hesitantes e regras bem aprendidas. Dobrou a esquina e deixei de vê-lo durante quatro minutos, durante os quais sustive a respiração e duvidei: estará já na altura certa? Quando regressou, tive no imenso sorriso e na excitação incontida do meu filho a confirmação de que foi um presente que lhe dei, mais este bocadinho de liberdade. O mundo está cheio de perigos - pelo menos que estejam os meus filhos conscientes disso, voando cada vez mais alto para longe do ninho, à medida da envergadura das suas asas.

5 comentários:

dona da mota disse...

Eu desconfio muito das taradas e isto já vem de quando dava de mamar. Tudo o que roça o fundamentalismo faz-me mesmo desconfiar, juro.

Amigo Imaginário disse...

Tenho tanta pena dessas crianças que devem viver falsamente felizes em redomas de vidro... Eu sou uma baldas, admito. Mais vale partir a cabeça a tentar, que atravessar a infância sem um arranhão.

gralha disse...

Motoqueira, também acho que é um problema de fundamentalismo mas às vezes tenho medo que seja eu pouco exigente.
Precisamente, Amigo Imaginário. E um arranhão pode ser tão bom: recebe beijinhos, pensos engraçados, fica de recordação. E quando as redomas de vidro se quebram?

Melissinha disse...

Mas davas a melhor cadeirinha ao filho do amigo? :D

gralha disse...

Melissinha, nunca colocaria as coisas desse modo: se o amigo fosse maior, dava-lhe a cadeira maior, e vice-versa. Qualquer criança a meu cargo merece o melhor que possa dar-lhe.